TENTATIVAS DE DEFINIR O SER DO HOMEM NA RELAÇÃO HOMEM-MUNDO

Coloco aqui alguns estímulos a um apetite que pode proporcionar alimento à reflexão:

Gregório Magno: «o homem tem semelhanças com todas as criaturas: o ser com as pedras, o viver com as árvores, o sentir com os animais, o entender com os anjos».

Hildegarda de Bingen: “O homem, olha para o homem! Porque o homem tem em si mesmo céus e terra e nele todas as coisas estão escondidas. A sua cabeça corresponde aos céus, os olhos às estrelas, o ouvido ao ar, os braços e o tacto aos lados do mundo, o coração à terra, o ventre às criaturas” (Hildegarda de Bingen, Liber divinorum operum, Visio I).

António Damásio: «(…) não só a mente tem de passar de um cogitum não físico para o domínio do tecido biológico, como deve também ser relacionada com todo o organismo que possui cérebro e corpo integrados e que se encontra plenamente interactivo com um meio ambiente físico e social», em “O erro de Descartes. Emoção, razão e cérebro humano”.

De facto, somos seres dotados de asas, mas com um corpo tão pesado que nos condiciona a movermo-nos em terra. Feitos de céu e terra, tendemos, pela força da transcendência,  a superar a matéria de que somos confecionados e a viver com ela para não perdermos um olhar que nos proporciona maior horizonte!

Reduzir o ser do Homem à perspectiva materialista corresponderia a cortar as asas ao humano e à sociedade; isso viria a justificar a missão entrópica de alguns cangalheiros da nossa civilização de “reminiscências” cristãs!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

DEBATE SOBRE O GÉNERO: CIÊNCIA OU IDEOLOGIA?

Da Ideologia ao Serviço do Colonialismo mental global (de marca ocidental)

António Justo

Encontramo-nos já numa época intermédia, de passagem do colonialismo geográfico para o colonialismo mental! Esta é a fase de competição pelo domínio global – fase de conglomerações geoestratégicas e globalistas – em que se torna notória a luta pelo controlo e pela pilotagem do pensamento porque quem tiver o controlo do pensamento passa a controlar o humano e a humanidade. Nesse sentido, a batalha pela desconstrução da cultura e da pessoa soberana torna-se mais dura na sociedade ocidental, dado ser esta a que possui mais mecanismos de defesa contra um globalismo tendente a criar uma troica global. A estratégia que se encontra por trás do discurso sobre o género (Gender) implementa ideologias, em voga, ao serviço do colonialismo mental!

Depois da debanda do povo das aldeias (aldeão) para as cidades observa-se agora uma tendência de retirada do cidadão (citadino) para um mundo ideário que o liberte dos apertos de uma vida demasiadamente emparelhada sob a limitada cúpula da cidade. Aos domínios da nobreza e do clero sobre a terra (senhorios) seguiram-se as burguesias de caracter citadino que, a partir de um pouco de terra, assentaram o seu domínio no comércio e no dinheiro. Esta nova “burguesia”, já não do burgo, mas da polis, produz agora novos senhorios: os “latifundiários do dinheiro e das ideias (ideologias)! Daí o seu esforço por assentar a sua base já não na natureza, mas no domínio do abstrato, que torne os habitantes do “monte” em meros subordinados ou assalariados!

Nesse sentido, encontramo-nos numa fase intermédia, que, muito embora ocupada na desconstrução da cultura do mundo ocidental, traz a marca ocidental na luta globalista em via; traiçoeira, porque anti feminina mas feminista, desliga-se da paisagem religioso-cultural do povo ocidental porque esta, mais ligada à terra (mais feminina), contradiz os interesses de uma nova cultura abstrata que se pretende implantar (no sentido de implementar paulatinamente um “governo universal” sob o olhar masculino!) e que assume o cunho ideológico socialista-capitalista, de que o sistema chinês poderia ser uma amostra, no sentido  de uma sublimação do gene masculino e masculinizante!

Se antes as armas usadas eram espadas e canhões, hoje em democracia e globalismo as armas passam a ser a palavra e as ideologias!  O poder político serve-se dos currículos escolares e de currículos universitários para implementar agendas ideológicas com o fim de doutrinar gerações.

O modelo ocidental ao atingir o seu apogeu, em vez de repensar a sua matriz masculina em termos adequados aos princípios e energias moventes da masculinidade e da feminilidade humana e social, prossegue o seu caminho em termos masculinos de luta (baseada em papéis e no divide para imperar!) como tem feito até aqui e se torna visível na disputa dos falcões americanos e russos em terreno ucraniano, cada vez mais sacrificado à luta masculina imperialista das duas partes (também aqui, embora se trate de uma luta geoestratégica na disputa de poderes em termos globais, no fundo estão em luta ideologias e interesses abstraídos das paisagens populares e como tal cada vez mais distantes da feminilidade) .

É de constatar que, na base da nossa sociedade, a matriz (modelo estruturante), que determina os nossos comportamentos e modos de vida, é masculina e expressa-se em papéis discriminadores devidos à natureza e às construções sociais e culturais transmitidas no parâmetro dos rebanhos dos tempos ancestrais (Patriarcalismo). Nesta base torna-se mais que óbvia a reacção da mulher nos diferentes âmbitos do pensamento e da sociedade. O sentimento de uma feminilidade abafada provoca um justo desejo de emancipação que começa por limitar-se aos papeis da mulher em sociedade, mas que terá como objectivo final não tanto os papéis de homem e mulher mas o que se encontra por trás desses fenómenos. Ao orientarmo-nos apenas pelos papéis sociais arrumadores da feminilidade e da masculinidade não fazemos mais que protelar o problema da emancipação ou libertação, sem entendermos os verdadeiros moventes que se expressam a nível da matriz aparentemente aceite (1).

Portanto, a preocupação de análise e de empenho não deveria partir daquilo que alguns advogam como “condição feminina” mas da análise básica,  da matriz masculina que determina de forma sistémica a vida individual e social do homem e da mulher (para lá dos papéis assumidos que também eles contribuem para discriminação da feminilidade e que seria um erro fixar-se só neles) e, pelo facto de se basear em características de masculinidade, explora a mulher (ou melhor, a feminilidade (energia/princípio)  que é reprimida, consciente ou inconscientemente em todas as sociedades e cuja urgência de reparação se encontra manifesta  na ordem do dia da sociedade ocidental),  como é de observar em muitos segmentos da vida, a feminilidade não é contemplada e por isso a mulher é ferida não só nos princípios de dignidade e de igualdade de direitos mas sobretudo na sua maneira de ter sido enquadrada dentro da matriz masculina (de condição masculina ou masculinizante). A questão a pôr-se é a do homem todo, na sua feminilidade e masculinidade comuns e não apenas a do homem ou da mulher nas suas interpelações funcionais.

O que deveria estar no foco da discussão, a discutir-se básica e produtivamente,  seriam as características da feminilidade e da masculinidade num projecto de uma matriz mais adequada à natureza e à cultura  em processo e não limitada apenas às funções e papéis masculinizantes (redução funcionalista de caracter materialista); uma nova matriz criaria novas funções e papéis sociais flexíveis que tornariam incompatíveis os papéis da sociedade patriarcalista com os papéis do novo modelo de sociedade! As funções socialmente a desempenhar deixariam de estigmatizar (petrificar) quer a masculinidade quer a feminilidade nem no “género” nem no sexo!

Uma devida análise e empenho teria como consequência grande incidência no ser e na maneira de estar do humano, quer a nível individual quer social onde as estruturas culturais e económicas teriam de ser aferidas à nova matriz baseada na complementaridade dos seres e dos órgãos sociais com uma certa equidade, o que implicaria  uma nova valorização e integração da feminilidade e da masculinidade nesse novo modelo (no limiar da dinâmica da „igualdade e diferença” seria de colocar o modelo-matriz baseado na intersecção dos princípios/energias/características da feminilidade e da masculinidade); estes revolucionariam toda a maneira do estar individual e social bem como suas estruturas e supraestruturas, passando a internalizar-se numa maneira de ser. Esta nova matriz tornar-se-ia na mãe de todo o relacionamento e comportamento tornando supérflua uma discussão apenas em termos ou em torno de patriarcado ou de matriarcado (dado estes serem ultrapassados por manterem a sua dinâmica e relacionamento apenas ao nível de funções e papéis, ou seja, ao nível do ter e não do ser que se encontra  ao serviço de uma regulação social no âmbito de um funcionamento maquinal e de peças e, como tal, distante de um ser orgânico natural de comunidade e pessoas).

A luta ideológica e do género adoptou a metodologia masculina (processada em termos de luta e de olhar masculino e não de complementaridades) apostando numa definição desintegrativa de género/sexo e consequente linguagem em torno deles (2); segue o princípio masculinizante do poder: divide para imperar.

Os efeitos positivos da luta ideológica, na nossa sociedade de matriz masculina, manifestam-se numa maior igualdade socialmente a atingir, mas não legitima os meios que usa para a atingir dado estes serem a aplicação dos princípios da masculinidade (e correspondentes métodos agressivos ou de subjugação) apenas em termos de funcionalidade sem propriamente tomar a sério a feminilidade (que implicaria uma outra estratégia de afirmação já vital orgânica e não só funcional; isto é, uma estratégia inclusiva que partisse da feminilidade como base estrutural e estruturante e não assumisse apenas um caracter funcionalista como quer o mecanicismo social empenhado em reduzir a pessoa (homem ou mulher) à mera qualidade de função e de objecto.

Isto independentemente das salutares melhorias adquiridas através da luta em via; importa não reduzir o horizonte porque se trataria então de ganhar apenas batalhas e não a “guerra”.

Resumindo, sou do parecer que nos encontramos a combater no campo errado porque o que seria de questionar era a matriz masculina que regula e fundamenta as sociedades atuais com a sua correspondente metodologia masculina (perpetuadora da guerra) e que é masculinamente comum à metodologia de afirmação da ideologia feminista, socialista e capitalista. Uma luta em defesa da feminilidade, para conseguir uma mais valia da feminilidade, terá de ter a cautela de não afirmar  uma feminilidade que se esgota  em termos de afirmação ao serviço da masculinidade da matriz vigente  e, deste modo, subjugar-se concretamente ao masculinismo de que se defende, mas que na realidade aceita como sendo a normalidade. Uma análise menos ideológica e mais abrangente teria de começar por analisar as características ou princípios (energias) da masculinidade e da feminilidade (básicas a nível de indivíduo, cultura e natureza) e identificá-las na sociedade e nos seus mecanismos para possibilitarem uma matriz a criar em que esses princípios seriam ajustados ou aferidos numa base de complementaridade já não selectiva mas inclusiva, criando uma cultura de afirmação já não pela luta mas pela inclusão.

A própria matriz ocidental possui em si as potencialidades para o fomento da nova matriz social , dado, o modelo actual vigente, ter-se tornado infiel ao próprio protótipo que assentava mais na feminilidade que na masculinidade, mas que ao assumir, institucionalmente, a  estratégia de afirmação de Constantino (criação da “cristandade” à custa do cristianismo; o Constantinismo que parte do édito elaborado em 313, levou a instituição igreja a viver entrelaçada com a política e a apegar-se ao poder do Estado – vista a questão em termos meramente históricos: oh felix culpa!)  e por esse facto a instituição passou a expressar-se mais em termos de poder e como tal acentuou as características da masculinidade, deixando a sua característica fundamental que é a feminilidade nos conventos e na frequência do povo nas igrejas!

Em vez de tentarmos pegar o touro pelos cornos temos andado a agarrá-lo pelo rabo!

A libertação certa, para se tornar tal, deve ousar desafiar a nossa matriz cultural masculina, nos seus fundamentos e não só na sua fenomenologia,  no sentido de a poder desconstruir de maneira ordenada; a fase feminista de caracter machista, talvez justificada como fase transitória,  terá de se superar a si mesma e alijar a carcaça que usa  para possibilitar a passagem  a uma fase já não feminista mas feminina; passar à estruturação de uma matriz feminina que permita o início de uma era de paz e a coexistência harmónica da feminilidade e da masculinidade.

A rotura com as estruturas masculinas do poder vigente terá que começar já por questionar as bases (forças vitais, características, critérios) dessas estruturas que constituem o poder masculino determinante das sociedades mundiais; só então será possível desmontar os andaimes baseados na masculinidade (abusada no patriarcalismo) e a partir de uma desconstrução de estruturas, que foram elaboradas mais ao serviço do poder do que da população, se chegue  à reconstrução,   já não de uma estrutura de poder feminista (que continuaria a cadeia masculinizante de poder baseado em luta, selecção e opressão), mas se inicie a construção de uma cultura feminina, fecundante, que se torne a matriz criadora (integradora das forças vitais da feminilidade e da masculinidade) e geradora de novos comportamentos e relações sociais (não só a nível da maneira de estar como também da maneira de ser).

Cristo é o protótipo do homem e da mulher e foi pregado na cruz, mas ao sê-lo tornou-se no sinal de que o homem e a mulher não devem pregar ninguém na cruz porque ao fazê-lo pode ser que estejamos a pregar o protótipo do humano e da humanidade, o abandonado (cada um vale tudo por si)! E mesmo quando se fala de pessoas extremistas é legítima a pergunta de Jesus: “Essa questão é tua, ou outros te falaram a meu respeito?” (João 18:34).

O meu texto pretende propor elementos de reflexão e análise e não uma visão “masculina” a preto e branco do mundo, como faz o mundo, esquecendo que o ódio a quem é diferente ou a quem pensa diferente enegrece a alma e deste modo impede a construção de uma matriz fundada, em termos de igualdade e complementaridade, dos princípios da feminidade e da masculinidade!

Este texto será continuado em “O OLHAR MASCULINO

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e pedagogo

Pegadas do Tempo

(1) Uma observação ou análise reduzida ao nível exterior dos fenómenos (aparências, porque se limita às estruturas da experiência que se contenta em ficar-se com explicações de caracter e comportamentos ao nível da compreensão (de sentidos ou de consciência) sem entrar nos seus pressupostos (essência), de que a sociologia é um exemplo quando prescinde das ciências naturais).

(2) Género diz respeito às características de masculinidade e de feminilidade: Sexo masculino, feminino e a variação inter-sexo ) e também expressões sociais e papeis sexuais. Homem trans ou transsexual (nascida mulher, agora homem) pode engravidar precisando de medicação hormonal. Para engravidar de menino, dado o menino ter cromossomas XY, é preciso o sexo do pai que possui gametas do tipo X e Y, enquanto que a mulher possui apenas do tipo X. A testosterona provocara o crescimento da barba e o aumento da libido e do clitóris; se a pessoa trans tiver útero, ela também pode menstruar.  Mulher trans ou transsexual (nascida homem, agora mulher) mediante a amputação e construção da vagina.

 

Links de Textos relativos ao assunto:

A Manipulação da Cultura acompanha a Manipulação da Natureza: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/casamento-civil-de-homossexuais-premio-1435784

Discurso Masculino contra o Feminino (2014): https://triplov.com/letras/Antonio-Justo/2010/discurso_feminino.htm

A Liberdade é Feminina por isso não se dá no Deserto

Do uso da sexualidade como forma de afirmar poderes e de criar uma nova ordem mundial: https://beiranews.pt/2019/07/12/ponto-de-vista-por-antonio-justo-123/

Importância da Experiência interior como Forma de questionar Ideologias-Doutrinas-Instituições: https://antonio-justo.eu/?p=4935

Matriz socialista marxista na base da disciplina de educação para a cidadania: https://beiranews.pt/2020/10/13/ponto-de-vista-por-antonio-justo-10/

Libertação das leis biológicas: https://copaaec.blogs.sapo.pt/2021/08/

Das Mulheres na Sociedade e na Igreja e dos usos e costumes que as oprimem: https://etcetaljornal.pt/j/2019/09/das-mulheres-na-sociedade-e-na-igreja-e-dos-usos-e-costumes-que-as-oprimem/

Matriz política masculina não pode ser norma para a instituição eclesial: https://bomdia.be/matriz-politica-masculina-nao-pode-ser-norma-para-a-instituicao-eclesial/

Em Carlos podemos ver a masculinidade portuguesa infiel:

NA ESTEIRA DE CAMÕES E DO ROMANTISMO

Correcção duma Sociedade máscula de Via única: http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=29743&catogory=Opini%E3o

PODER RENOVADOR DA MULHER: https://triplov.com/letras/Antonio-Justo/2009/mulher.htm

Islão e a sociedade: masculinidade contra feminidade: https://bomdia.eu/islao-e-a-sociedade-masculinidade-contra-feminidade/

Urge uma Revolução cultural feminina: https://antonio-justo.eu/?p=6736

Humanismo e ética para a construção de uma Cultura de Paz global: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/cultura/57874/humanismo-e-etica-para-a-construcao-de-uma-cultura-de-paz-global

Punhos cerrados, 2015: https://www.yorku.ca/laps/dlll/wp-content/uploads/sites/212/2021/06/06mar15_steph.pdf

 

UM EXEMPLO OU UMA PROVOCAÇÃO?

Talvez uma objecção justificada!

Em Kassel (Alemanha), os Samaritanos (ASB) isentaram do trabalho os empregados que não querem ser vacinados e continuam a pagar-lhes os seus salários. Na cidade e distrito de Kassel, a associação regional emprega cerca de 600 pessoas, 300 das quais no serviço de salvamento e ambulância.

Os Samaritanos são uma associação de assistência social e organização de ajuda (ASB) que ajuda  todas as pessoas – independentemente da sua filiação política, étnica, nacional e religiosa. O foco principal do seu serviço é:  serviços de salvamento e ambulância até serviços de saúde e sociais, tais como enfermagem! “Ajudar aqui e agora” é o lema da Federação dos Samaritanos!

Com isto dão um sinal errado ou certo?

Vivemos num mundo surrealista onde, por vezes, as decisões políticas são tomadas para além de toda a compreensão. Esta decisão dos Samaritanos corresponde ao espírito transmitido na parábola do Samaritano, saindo, também eles, da normalidade, tornando-se talvez por isso numa provocação para alguns!

É de admirar e justa a coragem mostrada pelos Samaritanos numa sociedade em que as trincheiras sociais se tornam cada vez mais fundas e em que cada um quer ter a razão toda sem deixar nada para os outros!

A atitude de mandar para casa os empregados não vacinados e de lhes continuar a pagar o ordenado parece contraditória ou até provocadora na nossa sociedade, mas talvez não passe de uma objecção justificada!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

“CAMINHO SINODAL” NA ALEMANHA – UM DESAFIO A OUTRAS VIAS SINODAIS

De Relevância é a Fé e o Amor e não a Homossexualidade

António Justo

Caminho Sinodal é o debate de reformas entre católicos em via em todas as dioceses do mundo; as diversas conclusões das assembleias sinodais ganharão expressão definitiva no acto final do sínodo em Roma, em Outubro de 2023. Até lá cada país vai agendando e concretizando as suas assembleias sinodais com as respectivas conclusões a serem aferidas depois de feita a caminhada!

Na 3ª Assembleia Sinodal em Frankfurt am Main, (3 a 5 de Fevereiro), que congregou bispos (os 27 bispados), leigos e associações representativas da igreja oficial na Alemanha, dos 14 textos disponíveis preparados em assembleias anteriores, foram trabalhados e votados os três (1) seguintes documentos como resoluções: 1°. “Para a conversão e a renovação. Fundamentos teológicos do Caminho Sinodal” e uma aprovação dos “não-homens” em relação ao tema “diaconato das mulheres”; 2°.  texto básico “Poder e Divisão de Poderes na Igreja – Participação Comum e Participação na Missão” e o 3°.  texto de acção “Envolvimento dos fiéis na nomeação do bispo diocesano”.

Os três textos foram autorizados e aprovados na segunda leitura como resoluções do caminho sinodal, com uma taxa de aprovação entre 74 e 92 por cento. A votação obrigava a um processo rigoroso: “Uma maioria de dois terços dos membros do sínodo – uma maioria de dois terços dos bispos (2)” … A Conferência Episcopal Alemã refere que mesmo nas votações, em que era exigida uma maioria de 2/3 dos membros episcopais da assembleia sinodal de acordo com os estatutos, isso sempre existiu” (3).  Exemplo da votação dos bispos: 41 sim, 16 não, 2 abstenções (Ver protocolos de votação por temas: exemplo, texto básico em alemão e inglês (4)).

O 2° documento determina que a igreja deve levar todas as pessoas a sério e não deve continuar a discriminar ninguém; isto é, homossexuais, divorciados, mulheres, devem ser apoiadas e reforçados a todos os níveis da igreja.

Em questões de homossexualidade parte-se do princípio que importante e decisivo deve ser a fé! A orientação sexual não deve desempenhar um papel neste contexto, para se poder cumprir a missão da Igreja à humanidade que se resume em proclamar a Boa Nova em todas as circunstâncias. Em todos os textos advoga-se uma igreja sem medos. Deve haver lugar para o humano, independentemente dos ideais que a igreja representa.

Quanto à função das mulheres na Igreja diz: “Não é a participação das mulheres em todos os serviços e ofícios da Igreja que requer justificação, mas sim a exclusão das mulheres dos serviços sacramentais”.  Objecto de discussão foram entre outros temas a moralidade sexual, o papel da mulher na compreensão do ministério e do poder eclesial.

Na Alemanha há muitos trabalhadores que têm vivido em uniões homossexuais (em segredo) , outros voltam a casar após o divórcio e pretendem participar nos sacramentos e trabalhar em actividades da igreja, sem medo. De notar que, na Alemanha, só a Cáritas (Católica) emprega mais de 600.000 pessoas a tempo inteiro (5).

O 3°. Documento decidiu que, no futuro, os fiéis de cada diocese devem estar mais envolvidos na votação para o bispo da diocese. Para já um corpo de cinco membros, incluindo duas mulheres, irá liderar a administração da diocese de Essen.

Ainda haverá mais duas assembleias sinodais na Alemanha até à Primavera de 2023, o que implicará ainda muita discussão pois, para já, caberá aos bispos e vigários gerais traduzirem os resultados desta assembleia em decisões concretas. Os sinodais e especialmente os bispos “reuniram” uma maioria de dois terços, mas o sucesso do processo de reforma “Caminho Sinodal” a ser revalidado legal, moral e teologicamente em Roma.

Deus está perto de todos independentemente das suas funções. Mas uma igualdade de votos de clero e leigos questiona também o assunto dos ministérios e da missão como indivíduo e como comunidade. Os coordenadores das assembleias revelaram discernimento ao proporcionarem votações também por grupos.

O caracter de missão institucional pode aplainar e facilitar a ligação. Deus é pai-mãe de todas as pessoas, todos somos filhos e como tal todos somos familiares de Deus. O padre é um servidor de Deus e a paróquia existe para todo o ser humano. A convicção cresce do interior não se devendo deixar influenciar demasiadamente pelos ventos, mas estes terão de ser tidos em conta para que o barco se mantenha à superfície das águas. As pessoas encontram-se em mudança e a igreja acompanha-as à medida que se muda (igreja peregrina). Não se trata das oportunidades da igreja nem de cálculos, mas de uma comunidade em peregrinação.

Como conclusão apresento uma Citação atribuída a Bertolt Brecht: “Quem luta pode perder. Aquele que não luta já perdeu”. Vista a coisa mais de perto a frase é mais própria da sociedade política do que da eclesial, mas torna-se mais verdadeira se substituirmos a palavra luta por empenho.

O seguimento de Deus pressupõe também estar atento aos sinais dos tempos, mas sem nos deixarmos subordinar ao espírito do tempo (Zeitgeist). Um outro aspecto importante a não perder de vista será a missão de cada um a nível individual, a missão de todos como comunidade e a missão da igreja no seu aspecto institucional; isto num tempo em que no Ocidente e só no Ocidente se luta contra o que é institucional, talvez para melhor ser conseguido o objectivo de se ir instalando, a nível universal um poder político anónimo.

Neste processo catalisador necessita-se muito cuidado e ponderação atendendo às diferentes perspectivas históricas e geográficas a nível mundial; de facto, as sociedades encontram-se em diferentes velocidades (também em termos de dioceses) o que pressupõe que uma sociedade progressista não imponha as suas passadas aos outros (este aspecto irá activar a luta entre mundivisões). Mesmo na história da Europa observa-se sempre uma certa dicotomia entre uma europa nortenha que aposta mais no individualismo e uma europa mais romana (católica) acentuando, a nível institucional, mais a comunidade! Se na Idade Média o espírito do tempo (Zeitgeist) abusava do indivíduo em favor da comunidade, hoje, ao contrário, no Ocidente o espírito do tempo esforça-nos a abusar da comunidade (instituição) em favor do individualismo. Precisa-se urgentemente de renovação, mas com moderação que não seja motivada apenas por indignações. (Em nota (6) apresento alguns dos meus textos relativos a este assunto)

Os sinodais e, note-se, os bispos “reuniram” uma maioria de dois terços, mas o sucesso do processo de reforma “Caminho Sinodal” a ser revalidado legal, moral e teologicamente será em Roma. O que serve a pessoa está com Deus, o que a não serve será triturado com as rodas do tempo!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo

Pegadas do Tempo

(1) 1° texto: https://www.synodalerweg.de/fileadmin/Synodalerweg/Dokumente_Reden_Beitraege/SV-III_1.1NEU_Synodalpraesidium-Orientierungstext-Beschluss.pdf ; 2° texto: : https://www.synodalerweg.de/fileadmin/Synodalerweg/Dokumente_Reden_Beitraege/SV-III-Synodalforum-I-Grundtext-Lesung2.pdf ; 3° texto:    https://www.synodalerweg.de/fileadmin/Synodalerweg/Dokumente_Reden_Beitraege/SV-III-Synodalforum-I-Handlungstext.BestellungDesDioezesanbischofs-Lesung2.pdf .

(2) https://explizit.net/kirche/artikel/feuerprobe-fuer-den-synodalen-weg/   De acordo com um inquérito, 74% dos católicos na Alemanha são a favor da abolição do celibato obrigatório para padres (Problema da representatividade).

(3) https://www.dbk.de/presse/aktuelles/meldung/dritte-synodalversammlung-des-synodalen-weges-in-frankfurt-am-main-beendet

(4) Protocolo de votação: https://www.synodalerweg.de/fileadmin/Synodalerweg/Dokumente_Reden_Beitraege/SVIII_3.1-Grundtext-Macht-2.Lesung_Abstimmung.pdf

(5) A nível nacional – os bispos já podem agora decretar pela sua própria autoridade que a homossexualidade já não é um critério de exclusão para o emprego na igreja. A aprovação de mais de dois terços dos bispos significa que algumas propostas

(6) “Francisco concretiza o seu Programa pontifical no Caminho sinodal universal (10.2021 a 10.2023)”: https://antonio-justo.eu/?p=6768

“O Sínodo Amazónia em Roma irá dar que falar – Novos caminhos para a igreja e para a ecologia integral”: http://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/artigo/o-sinodo-amazonia-em-roma-ira-dar-que-falar-novos-caminhos-para-a-igreja-e-para-a-ecologia-integral

A EXORTAÇÃO PÓS-SINODAL “QUERIDA AMAZÓNIA” https://antonio-justo.eu/?p=5803

A Igreja contra ela mesma?: https://bomdia.eu/a-igreja-contra-ela-mesma/

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO DIÁLOGO DOUTRINA-PASTORAL: https://www.linkedin.com/pulse/teologia-da-liberta%C3%A7%C3%A3o-di%C3%A1logo-doutrina-pastoral-ant%C3%B3nio/?trk=portfolio_article-card_title ou: http://antonio-justo.eu/?p=4047

“Alegria do Amor” é a ponta de lança do Vaticano II: https://beiranews.pt/2018/02/27/ponto-de-vista-por-antonio-justo-29/

CRISTÃOS E POLÍTICA

Um amigo perguntou-me à queima-roupa: “dado que o senhor é um crítico da ideologia do género, e como cristão (1), em quem vai votar?”

Certamente quer ouvir a minha opinião sobre o socialismo que está na base da ideologia do género. O cristão procura orientar-se por valores humanos e no centro dos seus interesses está o valor e a dignidade de toda a pessoa humana (o cristianismo mais que em ideias ou valores  resume-se na pessoa de Jesus Cristo, na pessoa precária na condição do Cristo abandonado); se houver um lugar  de preferência política será a de servir o bem comum começando pela promoção dos social e individualmente mais desprotegidos. Para o cristão  não há adversários, o que há, no máximo, são concorrentes na feitura do bem, do seu bem.

Para já faço uma grande diferença entre o socialismo que critico e os socialistas que compreendo e respeito.  O socialismo de caracter marxista e maoista é o atual  adversário do cristianismo mais forte; tem  pretensões a substituí-lo (2)como fé popular (embora, no meu entender ele seja o filho pródigo do cristianismo);  percebe-se como religião da nova era, e aproveita-se, à moda da época, do facto de nos encontrarmos numa época axilar da história, época de mudança e passagem,  onde domina a confusão alimentada por tanta novidade não digerida e caída no relativismo; serve-se também do utilitarismo pragmatista que caldeia socialismo e capitalismo numa argamassa própria (modelo chinês) no intuito de construir uma sociedade materialista-mecanicista-utilitarista; procura, ao mesmo tempo,  modelar um novo tipo de homem de moral meramente mercantilista-funcionalista.

As suas intenções não são explícitas porque apostam numa transformação estratégica da consciência social (daí também a sua aposta numa mudança radical da linguagem!).  O socialismo tornou-se numa religião secular, determinada a agitar os fundamentos da civilização ocidental; num ambiente de falta de modelos políticos convincentes, num ambiente de sociedade precária e em que a injustiça prevalece sobre a justiça, serve-se de algumas ideias sociais cristãs (doutrina social da Igreja) , pretendendo implodir o cristianismo por dentro! Como o socialismo se reveste de um caracter salvífico social religioso (num embaralhamento esperto que cria confusão) leva muitos cristãos a perderem, de maneira impercetível, o acesso à própria mundivisão cristã; tudo isto num baralho de ideias, sentimentos e factos que leva (pelo menos na avalanche superficial) à incompreensão do próprio cristianismo!

Por outro lado, o socialismo (falo de socialismo e não de socialistas!), embora longe de uma cultura participativa, conseguiu ocupar os púlpitos da sociedade (nos Média e especialmente na arte (3) onde assume um caracter litúrgico); aproveita-se dos lugares altos para fazer leis e programas educacionais que minam e demonizam as raízes da cultura ocidental, levando o povo a confundir a excepção com a regra. Dá-se a substituição da luta operária contra o capital pela luta contra os valores fundamentais do cristianismo ou seja, (a sua estratégia de luta anti cultural) contra  o ideal da pessoa integral e soberana, contra a dignidade da vida/supremacia da vida humana,  família, etc.; fecham-se em si mesmos (como outros partidos)  numa estratégia de embaralhar as mentes para não precisarem de esclarecê-las; joga em seu proveito a falta de programas e de modelos políticos convincentes; também é relevante  o facto de, com suas reivindicações terem conseguido melhoramento sociais substanciais nas sociedades europeias liberais. Como os outros partidos também se perdem neles mesmos, não resta a muita da população senão a ideia de, pelo menos, contribuírem para manterem a estabilidade do sistema, julgando essa opção como a melhor (segundo um estudo, cerca de 70% dos Portugueses querem estabilidade…)!

No meio de tanta informação e contrainformação, grande parte da população perde o acesso ao próprio pensamento (dado ser mantida baralhada/distraída através de uma liturgia televisiva com contínuas ideias e factos que não consegue digerir) e ao próprio sentimento, passando a viver num torpor emocional social que nos torna dependentes (de pessoas e ideias encenadas).

Quanto a nós cristãos, estamos chamados a participar na política através dos partidos, mas numa atitude de dissidência do poder. Jesus, já no deserto, se distanciou do messianismo político-judaico (ou partidário) afastando-se do pensamento politicamente correcto e dos movimentos políticos (Act 1, 6-9 e Cf. Lc 4, 15-30) porque estes, como em parte dos discípulos, a preocupação era questionar-se em termos de poder. Ao contrário, o que movia Jesus era o humano-divino e a sua boa nova era para e pelo rebanho tosquiado pelos que pretendem ser seus donos!  Para Jesus o lugar do poder é o do servidor e para isso, em termos políticos e de sociedade, seria necessário inverter-se os valores de modo a ser também ela invertida! Sim estamos chamados, a votar e, certamente, também a ser políticos.

Na constelação política em que nos encontramos será necessário que os cristãos entrem, de forma consciente em diferentes partidos para de dentro poderem fermentá-los no sentido de Deus que se expressa, em política cristã, como povo! O Papa Francisco alerta: “Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum».

A consciência do cristão continua, em termos cristãos, a ser soberana independentemente da vontade de instituições ou de outras criações humanas!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

(1) Ideologia do Género: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/nao-a-educacao-para-uma-cidadania-de-perfil-marxista-e-maoista

(2) Anticristianismo:  https://saiaonicolau.blogspot.com/2021/12/um-texto-de-antonio-justo.html

(3) Arte: https://antonio-justo.eu/?p=4345