Outrora, Deus falava baixinho,
e o silêncio era a sua concha acústica.
Hoje, o algoritmo berra aos quatro ventos
e o vento, coitado, é uma aplicação descarregável.
O sábio que se atreva a falar
é cancelado, ou pior, é convertido
à confissão do “tudo equivale, tudo é válido”,
onde o argumento é um dado estatístico
e a maioria, essa deusa sem cabeça,
segue a poeira deixada pelo veículo do poder
confundindo-a com o destino e o valor.
Já não se constroem catedrais de pensamento;
constroem-se muros de opiniões inflamáveis
e as portas são feitas só para a entrada,
nunca para a saída (que é uma falta de respeito).
Somos palhaços sérios num circo sem porta,
onde o mestre de cerimónias é o absurdo
e o número principal é a dança da inércia.
Se o crítico literário disser que isto é feio ou menor,
respondo-lhe com um sorriso de quem já viu o filme:
“Meu caro, a beleza é uma convenção burguesa
que a minha maioria estatística ainda não votou.
E já agora, onde fica o like para a sua censura?”
O sábio calado é a certidão de óbito da razão!
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo