Outrora, os vales verdejantes dos sentimentos
eram o rio onde o meu coração se banhava.
Hoje, conheço apenas a orla do deserto,
essa faixa estreita e estéril
que o cérebro desenha em manuais de autoajuda,
áreas específicas, dizem eles, da felicidade.
A alma perdeu-se na floresta,
essa floresta densa que a cultura mandou arder
para dar lugar a condomínios de certezas,
e procura, em vão, um respirar natural
que a salve da aridez.
Os sábios, outrora, eram faróis acesos nas igrejas e nas escolas;
a verdade descia suave, como pão quente para a boca.
Agora, o conhecimento é anónimo,
escondido nos Montes Maninhos de um algoritmo qualquer,
e a verdade é um balão colorido do ego
que o sopro da vaidade infla até rebentar
com um estampido mudo.
Não me dês factos, dá-me o espanto.
Não me dês certezas, dá-me a pergunta.
Que a aridez do saber sem alma
me devolva, ao menos, o desejo ardente da fonte.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo