Quem muda o vocabulário muda a própria forma de ser e de estar no mundo
Ao observarmos a evolução da linguagem nas sociedades europeias, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX, torna-se evidente que muitas palavras perderam parte da sua densidade semântica e da sua capacidade de remeter diretamente para a experiência concreta da realidade. Não se trata apenas da natural evolução das línguas, um fenómeno inevitável e estudado pela Linguística, mas também da crescente tendência para simplificar, uniformizar e abstrair o vocabulário utilizado no ensino, na comunicação pública e nos meios digitais. Este fenómeno além de plurifacetado revela-se atrevido ao querer reduzir a gramática a uma questão de discussão de emancipação, de género ou de wokismo cego.
Um exemplo que parece inocente e foi efetivado em Portugal é a alteração da terminologia gramatical que levou à substituição da designação tradicional “substantivo” pela categoria mais genérica de “nome” em diversos documentos pedagógicos. A alteração começou com a introdução da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), aprovada pela Portaria n.º 1488/2004, de 24 de dezembro, consolidada depois no Dicionário Terminológico. Embora esta mudança tenha sido justificada por razões de simplificação didática e para aproximar a terminologia escolar aos modelos linguísticos contemporâneos, ela revela-se como demasiadamente “inocente” ao seguir agendas globais sem ter em consideração a preocupação expressa por George Orwell! Contudo ela suscita uma questão mais ampla: até que ponto a simplificação da linguagem pode contribuir para um enfraquecimento da relação entre as palavras e a realidade que elas designam? E até que ponto com a linguagem se muda o substrato do humano, ao termos em conta a preocupação expressa por George Orwell?
As palavras não são meros sinais convencionais. Desde Aristóteles, para quem o ser humano é um animal dotado de logos, até Martin Heidegger, que afirmava que “a linguagem é a casa do Ser”, numerosos pensadores entenderam que é através da linguagem que vivemos e habitamos o mundo. Quando uma palavra conserva a sua ligação à experiência concreta, ela transporta memória, cultura e formas de perceber a realidade. Quando essa ligação se enfraquece, corre-se o risco de substituir a riqueza da experiência por categorias cada vez mais abstratas.
É precisamente este perigo que George Orwell denunciou no célebre ensaio Politics and the English Language. A degradação da linguagem não é apenas um sintoma porque pode ser usado como instrumento de empobrecimento do pensamento. Como escreveu: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” A simplificação excessiva ou a manipulação das palavras acaba por limitar a própria capacidade de pensar criticamente.
Este processo favorece um progressivo desenraizamento da pessoa. Simone Weil também adverte para a perda da ligação às coisas concretas ao falar de enraizamento (L’Enracinement, 1949), ao escrever que “o enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana”. O indivíduo deixa de encontrar na linguagem uma mediação entre si e o mundo vivido para se mover predominantemente no universo das ideias abstratas, dos conceitos funcionais e das classificações convencionais. A realidade ou objeto torna-se menos algo que se experimenta e mais algo que se interpreta através de sistemas previamente construídos.
Esta tendência é reforçada pela crescente mediação tecnológica. As crianças que descobrem o mundo sobretudo através dos ecrãs adquirem vastas competências digitais, mas veem reduzidas as oportunidades de contacto direto com a realidade física: tocar, cheirar, explorar, subir, cair, observar lentamente os ritmos da natureza. Diversos estudos em Psicologia do Desenvolvimento confirmam que a experiência sensório-motora constitui uma base essencial da aprendizagem.
Já nos anos 80, Neil Postman advertia que toda a tecnologia altera a ecologia da cultura. Em Amusing Ourselves to Death mostrou como uma sociedade dominada pelos meios audiovisuais tende a privilegiar o entretenimento sobre a reflexão, fazendo com que a imagem substitua progressivamente a experiência e a argumentação. O problema não reside na tecnologia em si, mas na forma como esta redefine silenciosamente os nossos hábitos de pensar.
Por seu lado, Marshall McLuhan sintetizou esta transformação na célebre fórmula: “O meio é a mensagem.” O meio através do qual conhecemos o mundo não é neutro porque modifica a própria estrutura da perceção e da consciência. Quando a experiência passa a ser predominantemente mediada pelos ecrãs, também o modo de compreender a realidade acaba por se transformar.
Poder-se-ia dizer, metaforicamente, que os antigos caminhos vivos, ladeados pela diversidade da vegetação e pela imprevisibilidade da natureza, vão sendo substituídos pelo asfalto das vias cuidadosamente projetadas. Nestas estradas prevalecem sinais convencionais definidos por arquitetos dos sistemas sociais, económicos e tecnológicos. Pouco a pouco, habituamo-nos mais a interpretar símbolos do que a observar diretamente as coisas. Deste modo o acesso à vida “real” decai ao construir a máscara da realidade já não a partir da experiência e da observação do objecto para se tornar na máscara da máscara.
Forma-se assim aquilo que poderíamos designar por um “eclipse das coisas”. As realidades concretas cedem lugar às suas representações; a experiência é substituída pela mediação; o objeto pela imagem; a presença pelo fluxo contínuo de informação. Ora, quando as coisas desaparecem do horizonte da experiência, também a memória tende a enfraquecer-se, pois a memória humana alimenta-se da vivência concreta, dos lugares, dos gestos e dos encontros.
Esta preocupação que aqui apresento aproxima-se da reflexão de Hannah Arendt sobre a perda do “mundo comum” e que muito me impressionou aquando de estudante. Em The Human Condition, Arendt lembra que a realidade humana nasce de um mundo partilhado de coisas, obras e experiências concretas. Quando esse mundo é substituído por construções abstratas ou por realidades inteiramente mediadas, enfraquecem-se igualmente os vínculos que sustentam a vida política, a memória histórica e a responsabilidade comum.
As consequências deste fenómeno ultrapassam, por isso, o domínio da linguagem. Afetam a própria compreensão do ser humano e da sociedade. Uma transformação profunda da relação entre linguagem, experiência e memória conduz inevitavelmente ao aparecimento de uma nova antropologia e de uma nova sociologia, nas quais a identidade pessoal se constrói cada vez mais através das redes simbólicas, dos algoritmos e das mediações digitais, e cada vez menos através da experiência direta da realidade vivida e deste modo devasta certamente o humanismo.
O que observamos no mundo que nos circunda é preocupante contudo, importa evitar leituras simplistas. A abstração constitui igualmente uma das grandes conquistas da inteligência humana e permitiu o extraordinário desenvolvimento das ciências, da filosofia e da técnica. O desafio consiste em preservar o equilíbrio entre a capacidade de abstrair e a permanência da ligação às coisas concretas. Uma linguagem que perde completamente as suas raízes na experiência empobrece o pensamento e uma experiência sem linguagem perde a possibilidade de ser compreendida e transmitida.
Talvez uma das tarefas culturais mais importantes do nosso tempo seja precisamente restaurar esse equilíbrio: devolver às palavras a sua espessura humana e reencontrar, através delas, a presença das coisas, da memória e da realidade que lhes dá sentido. Porque, em última análise, não é apenas o vocabulário que muda, o que muda é a própria forma de existir e de estar no mundo.
António da Cunha Duarte Justo
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