50.000 almas entre o desespero e o xadrez geopolítico
Não eram cinquenta, nem quinhentas, mas sim cinquenta mil. Cinquenta mil almas que, enquanto o tempo abre e fecha os olhos, transpuseram a cerca que separa África da Europa, para, no dia seguinte, regressarem a Marrocos como se o mar tivesse devolvido aquilo que a terra emprestara. A imagem é tão surreal como a rapidez com que se desenrolou o tufão. Para o observador distraído, foi uma vaga migratória. Para o olhar crítico, um espelho que reflecte as tensões submersas do Magrebe e, por arrasto, um aviso sombrio de que as fronteiras, quando abandonadas à geopolítica, se podem tornar em pólvora seca, tal como a Ucrânia nos ensinou.
A indiferença ou, mais provavelmente, a acção calculada das autoridades marroquinas torna evidente que não estamos perante um acaso climatérico ou uma falha de segurança. Rabat está irritado pelo restabelecimento de laços amigáveis entre Espanha e a Argélia, que é a sua rival histórica no tabuleiro norte-africano. Marrocos vê a aproximação de Espanha a Argélia, como uma provocação directa. Se a geopolítica é a arte de fazer o inimigo dançar, Ceuta foi o palco agora escolhido e as 50.000 pessoas, infelizmente, são apenas coreografia involuntária. O rasto das pegadas na areia não leva ao mar; leva, inequivocamente, aos corredores do poder em Marrocos.
Todavia, a questão não é, nunca foi, apenas migratória. No horizonte, o Saara Ocidental emerge como um fantasma que recusa descansar em paz. Ao facilitar a cidadania espanhola aos saharauis, que são os habitantes indígenas desse território disputado, Madrid atirou um dado sobre a mesa que Marrocos não podia ignorar. Apoiado pela Argélia, o movimento Polisário é a espinha dorsal da indignação marroquina. Assim, a crise de Ceuta não é uma crise de refugiados; é uma crise de soberania e de orgulho nacional ferido, que usa vidas humanas como massa de manobra numa negociação que se quer silenciosa, mas que explode em praça pública.
É aqui que o discurso público se desvirtua e a informação se transforma em arma de arremesso. Bruxelas tece indignações hipócritas, condimentadas com lágrimas de crocodilo, enquanto analistas de gabinete especulam sobre ligações obscuras entre Washington, Telavive e Rabat. Diz-se que Marrocos decidiu desestabilizar o governo de esquerda espanhol em retaliação pelas críticas de Madrid a Israel na Faixa de Gaza e aos ataques dos EUA ao Irão, ou pela resistência ibérica em aumentar aceleradamente as despesas de defesa perante as exigências de Trump. Haverá um fio condutor que liga a pressão sobre o défice militar à abertura súbita das portas de Ceuta? Esta especulação, por mais sedutora que seja, corre o risco de servir apenas os moinhos de quem procura simplificar o complexo. A verdade é que transformar 50.000 jovens desesperados num instrumento de chantagem diplomática revela uma crueldade tão gritante que ultrapassa qualquer intenção política racional.
Os rumores, esses, acrescentam pólvora ao debate. A ideia de que Israel ajudaria Marrocos a “recuperar” Ceuta e Melilha para punir a Espanha circula nos bastidores como moeda corrente. Mas, mais do que a veracidade destas intenções, difícil de provar e fácil de desmentir, importa perceber quem as divulga e com que propósito. A informação, hoje, muitas vezes não ilumina porque deslumbra e cega. As redes sociais amplificam o eco da fronteira “aberta”, transformando o desalento estrutural dos jovens marroquinos, que veem no mar mais oportunidades do que na sua própria pátria, num espetáculo mediático que desvia o olhar do elefante na sala: a falta de oportunidades endémica nos países de origem e a hipocrisia europeia perante o drama humano, que só se comove quando as imagens entram pela sala de estar dentro.
Ceuta é, pois, o reflexo de um mundo onde as cortinas da geopolítica escondem palcos de miséria. As fronteiras, recordemo-lo, devem ser marcadas por boas relações entre vizinhos e não por notícias escandalosas ou informações manipuladas que procuram levar a água aos moinhos de agendas alheias. Ao lermos os factos, exijamos clareza: não nos deixemos afogar na espuma dos dias, mas antes aprendamos a ver o fundo do abismo, mas sem ganhar vertigens. Porque enquanto as grandes potências jogam xadrez com os territórios, os peões, esses cinquenta mil, continuam a olhar para o mar, não como uma fronteira, mas como a única promessa ténue de um futuro que, na terra firme, lhes foi negado.
Segundo fontes oficiais espanholas, pelo menos 67 pessoas morreram durante este episódio específico, que levou à chegada de cerca de 50.000 pessoas à cidade. Em 2026 morreram oficialmente 97 pessoas na tentativa de alcançar Ceuta. Números oficiais apontam para 46 mortos em 2025.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
Explique-me lá onde está erigida essa cerca que separa a África da Europa?
Mário Lobo ,a ideia de uma “cerca” é uma metáfora, alusiva à barreira política, não geográfica, para ilustrar as políticas de controlo fronteiriço e a desigualdade entre os dois continentes, mas essa palavra é naturalmente geograficamente imprecisa e não reflete a complexidade das rotas migratórias, que são maioritariamente marítimas. A “cerca” refere-se também ao mediterrâneo onde desde há anos morre muita gente afogada na tentativa de melhorarem a vida. Este artigo fi-lo na sequência do anterior que escrevi CEUTA E O TEATRO DAS NARRATIVAS https://antonio-justo.eu/?p=11257 e é para ser compreendido no contexto de uma política capitalista: antigamente eram trazidos os escravos, hoje chegam os emigrantes refugiados da pobreza e da barbárie e não se põe questão de o capitalismo europeu não investir nesses países e em vez disso a Europa entregar milhares de milhões ao Egipto, à Turquia e a outros países do norte de Africa, quando ao lado de algumas “barricadas” que constroem não se vê onde esses países empregam tanto dinheiro que a Europa lhes paga para resolverem um problema que a EU sabe não resolver assim e sabe que tem mais caracter de levantar poeira para o povo não poder chegar a conclusões a não ser emotivas. A questão da “cerca” é acidental perante um problema humanitário em que a nossa política por um lado se serve de imigraç1bo que precisa e por outro lado a critica mantendo um comportamento ambivalente.A justificação para a metáfora reside na existência de cercas físicas de alta segurança nos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, no norte de África. Estes são os únicos pontos onde a União Europeia tem uma fronteira terrestre com a África. O artigo tem uma intenção jornalística de se tratar o assunto sob vários aspectos e não apenas sob a perspectiva do mainstream, como penso que seria óbvio
António, não desconverse.
“50.000 almas atravessam a cerca entre a África e a Europa”.
A minha interrogação prende-se em perceber onde na Europa chegaram essas almas.
Mário Lobo , afinal segundo as novas estatísticas a Ceuta chegaram cerca de 80.000 corpos com alma e atualmente, ainda se encontram registados 1.342 menores imigrantes não acompanhados em Ceuta a aguardar transferência e acolhimento. A Europa tem muitas cercas.