A ARGAMASSA
Mistura-se o cimento da tristeza
com a cal viva da alegria que adivinha,
e desta pasta espessa, quase lama,
ergue-se a casa que não tem dono.
Andamos no lodo, mas é desse barro
que a mãe faz o regaço onde nos deitamos,
e o padrasto, a lei, a governação,
põe o telhado e cobra-nos o sol.
Que o estrume que cada um carrega,
esse peso mole de dias roídos,
de sonhos apodrecidos na gaveta,
seja o adubo da flor que há-de vir.
Não para enfeitar, mas para ser comida
por quem passa sem mesa nem abrigo.
A OFICINA E A ESTRADA
Lá fora, cordeiros pastam o medo.
Lobos de gravata cerram o cerco.
Monstros psicopatas, de olhar de vidro,
traficam a alma na esquina da lei.
Hordas de profissões, todas a ganhar a vida,
servem agendas que não escreveram,
engrenagens de um modelo que devora
os próprios dentes da concorrência.
Mas de madrugada, quando o sono é mais fundo,
os varredores de rua iniciam o dia.
E nas oficinas de reparação da sociedade,
psicólogos, assistentes, médicos, enfermeiros,
suturam feridas que ninguém vê,
remendam a casa que nunca foi sua.
Uns constroem, outros consertam,
mas a casa é de todos e de ninguém,
passagem, pouso, cais provisório.
Não tema a miragem que o sol desenha,
que a sede ensina aonde fica a fonte.
O deserto é vasto, mas a mão que acena
é a mesma que constrói a ponte.
O RIO E AS JANELAS
Ao lado da casa, que milagre!
corre um rio vivo e honesto.
Não negocia, não pede licença.
É a solidariedade que não cabe em gráficos,
a bondade que flui sem fatura
e alimenta as fundações da casa.
Das janelas, avistam-se os cenários:
gente má, fruto da miséria humana,
que manda sobre a miséria humana,
onde tudo parece abandonado ao seu destino
como um barco sem remo na noite.
Mas a flor nasce do estrume.
O fruto acena no ramo.
E quem passa colhe sem saber
que aquele sabor a terra e a lágrima
é a argamassa de todas as casas,
é o rio que corre, é a janela aberta.
E se a casa não pertence a ninguém,
que nela habitem os que a constroem,
que a reparem os que a veem ruir,
que a regue o rio dos que dão sem pedir,
e que do estrume de cada um
brote, ao menos, uma flor comestível
para o próximo que passa.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
Dos tempos de estudante em Lisboa,
no cais da argamassa viva