LABORATÓRIO DO CAOS

Na oficina da loucura, se sei o que sei,
é porque o chão me dói nos pés.

Fabricam-se as febres em série,
com prazos e gráficos de venda;
a dor vem em cápsula, a miséria
tem selo de marca e contenda.
“Toma esta vacina, que é nova!
Esquece o que o velho sabia:
que o suor é que cura, que a prova
da vida é sujar-se de dia.”

Trocaram o nome das coisas:
à coragem chamaram “risco”,
à virtude, “cheiro de rosas”,
mas rosas de um cesto turístico.
A criança, de olhar na trama,
já não sabe o que o vento sussurra;
perdeu a palavra que a chama
e a imagem que aterra e segura.

A nuvem é loja de engodos;
a chuva, produto embalado.
E andamos, sisudos e lixados,
de guarda-chuva ao lado,
sem ver que o Sol, esse é real,
queima a pele, a mentira, o sinal.

Mas a indústria do medo prefere
que o vírus venha primeiro,
para que a cura que oferece
nos torne um rebanho inteiro
de almas sem norte, sem tino,
cretinos de rosto limpo,
que ignoram que o seu destino
é mais que todo o guião impresso.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo