CORO DOS MARINHEIROS EXTRAVIADOS

Os novos Argonautas, em naus de vidro e aço,
Não buscam o Velocino de Ouro, mas o seu próprio regaço.
No Palácio de Cristal, erguido em pantomimas,
Tecem a mortalha com fios de velhas rimas.

A Europa, outrora farol, hoje farolejo,
Dança a valsa do poder num cadafalso alheio.
“Paz!” gritam, brandindo espadas contra o Leste,
Enquanto nos salões, o business é celeste.
A arrogância, seu estandarte, há muito desbotado,
Contra um “mal” inventado, um fantasma desenhado
Nos mapas do desejo de um novo colonialismo:
Da mente ao capital, o seu único catecismo.

Oh, Rússia! Gigante adormecido na neve,
Que a Europa, com desdém, já não tece nem bebe.
Fecham-se as portas à Dourada Migração,
À troca de almas, à vasta confluência.
Preferem a linguagem gutural do obus,
Ao diálogo de Tolstoi e de Dostoievski.
É o velho reflexo, o vício imperial,
Que vê no outro um campo, nunca um igual.

Bruxelas, ó Torre de Babel financeira,
Onde o povo é estatística, matéria bruta e passageira.
Os teus arquitetos, doutores em quimeras,
Cozeram esta sopa nas panelas das esferas.
A Alemanha, Fénix de guerras passadas,
Sonha, no fogo alheio, ver as asas reabilitadas.
E os sócios periféricos, na ribalta da margem,
Assinem, a tinta verde, o seu próprio naufrágio.

É a guerra das elites, este circo medonho,
Onde o palhaço trágico é o povo, a quem eles sonham.
Enquanto Kiev arde, e o Donbas se entrincheira,
Os senhores do medo lucram na carreira.
O povo português, o grego, o italiano,
Enganado com pão, com o circo do longínquo afã.
“Pela Liberdade!” berram os cómicos do sistema,
Enquanto a fome cresce, e a vida se torna um poema
De versos sem rima, de estrofes ao deus-dará,
Enquanto o complexo militar-industrial canta ópera.

E eu, voz dissonante neste coro de sereias,
Sou o persona non grata, o que partilha as areias
Da praia proibida do contraditório.
Noventa por cento dos arautos, num delírio,
Repetem, num mantra, a única verdade:
A da guerra santa, da eterna hostilidade.
Ironia das ironias, este uníssono berrar,
Chamam-lhe “pluralismo”, eu chamo-lhe afogar.

Não à espiral suicida! Grito eu para os ventos.
Contra os doutrinadores, os novos instrumentos
De um império caduco que, em agonia,
Prefere a pira funerária à clara luz do dia.
Não sou “pró-russo”, sou pró-Humanidade,
Contra a vassalagem, a hipócrita falsidade.
O meu crime é lembrar que a Pátria é o povo,
E não este cadáver, podre e novo,
Que, vestido de glória, num sono letárgico,
Mata o futuro no altar do seu tráfico.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Abril 2025

UM DESABAFO SOBRE DEMOCRACIA E ÉTICA NO MEU PAÍS E NA EUROPA

Jardim Infantil e o Cadáver Adornado

Quem chega de fora e aqui pousa o olhar, sente primeiro um espanto mudo. O que vejo? A tragédia do potencial subjugado: um povo de seiva humana, facultoso e laborioso, cuja energia vital é drenada por um destino imposto e cujo fado paradoxal o ancorou no breve sonho do dia-a-dia, enquanto o seu horizonte mais ardente se transformou no mapa da partida.

Um país que se assemelha a um grande jardim infantil, onde as vozes mais altas não são as da razão, mas as do capricho. No centro deste recreio, sente-se um cadáver em putrefação, o cadáver da ética pública que é adornado com as fitas coloridas do discurso fácil e dos interesses mesquinhos. E o povo, confundido pela cantiga de embalar de uns e outros, vagueia sem rumo, apontando o dedo ao vizinho, pois foi despojado da sua única bússola que seria a Esperança.

Os instalados deste regime, cimentado em Bruxelas, vivem do engano, e o povo, tragicamente, parece não ter outra sorte que querer ser enganado. É um pacto tácito e doentio. Nos púlpitos da democracia, os mais corruptos são os que mais gritam, advogando por um Estado sem governação, para que o seu poder, absoluto e divorciado da justiça, permaneça inquestionável. Têm o poder, e por isso, aos olhos deste tempo enviesado, passam a ter razão. A autoridade que lhes foi emprestada pelo crédito do povo é usada para provar o seu cinismo final: a crença de que tudo, inclusive a consciência, se compra com dinheiro.

A Metamorfose dos Justos

Há uma tragédia íntima que se desenrola nos corredores do poder: a metamorfose da alma. Vi pessoas boas, simples e justas, mudarem de casaca com uma facilidade que envergonharia um camaleão. Ao tocarem no número mágico do contribuinte, sentem-se absolutos, transfigurados. Já não os reconheço. O poder não os corrompeu; substituiu-os. E assim, a coisa pública torna-se um palco onde quem entra deixa à porta não só o casaco, mas a própria integridade.

Faltam-nos personalidades, sobejam políticos. Não temos homens de Estado, temos administradores da miséria, subordinados a um ritmo distante, coreografado em Bruxelas. São dançarinos do poder, abraçando-se em cena enquanto lançam um olhar cínico ao povo subordinado. O seu currículo não inclui os princípios cristãos da caridade, a metafísica categórica de Kant, ou qualquer noção de ética que não seja a do momento oportuno.

A República sem Virtude e o Espírito Adormecido

Platão sonhava com filósofos a governar a República, fundamentando-a na Virtude. Hoje, a virtude é um termo estranho, um anacronismo perigoso. Vivemos num regime que fomenta a banalidade, que difama a honra porque ela seria um impedimento à construção de uma sociedade sobre alicerces fúteis e mecanicistas. Destrói-se o senso comum, atafulham-se as cabeças com ideias individualistas, mas rouba-se a capacidade para o discernimento. Quase já não se estuda filosofia nem ética nos liceus; estuda-se o útil, o momentaneamente oportuno, preparando gerações de técnicos eficientes e cidadãos passivos.

Esta destruição gera uma paralisia existente. As ações e as tomadas de posição são adiadas, substituídas por um rosário interminável de lamentações. E eis a ironia mais cruel: este murmúrio queixoso tornou-se um dos sustentáculos do sistema. Confere a ilusão de uma vida ética, a sensação de que se está a criticar, quando na verdade se está apenas a gemer, inofensivamente porque disto se ri quem manda. A crítica verdadeira, que é a presença viva da pessoa na sociedade, capaz de formular ideias e soluções, é substituída pelo comentário primário, pelo “a favor” ou “contra” que tudo transforma em espetáculo e aplauso.

O Despertar das Consciências: Do Biótopo à Floresta

Uma sociedade consciente não nasce de um decreto, mas de consciências unidas. Tal como a vida teima em brotar em “biótopos” , em pequenos ecossistemas de resistência e clareza, no solo degradado da sociedade, assim terá de ser a nossa esperança. A consciência individual, formada na luta e no cultivo interior, precisa de se expressar em grupos que não se circunscrevam às meras necessidades económicas e políticas.

Numa sociedade regulada por interesses, a sociedade civil deve organizar-se em grupos de interesse que exijam, simplesmente, humanidade, paz e justiça. Tal como os sindicatos defendem o pão, estes grupos defenderão a alma. Uma opinião sensata só pode nascer da observação de todas as opiniões, um contraponto ao consentimento público fabricado pela retórica dos meios de comunicação, que forjam a opinião no sentido desejado por Lisboa e Bruxelas.

Este teatro da violência simbólica, onde os dançarinos do poder encenam a nossa realidade, só cairá quando o espírito crítico despertar. Esse espírito não é um luxo intelectual; é o antídoto para a vida manietada entre a remuneração e o consumo. É a recusa em ser apenas um detergente social que limpa a sujidade dos interesses, prolongando-lhes inconscientemente a atividade.

O cadáver da ética pública está à vista. Cabe a nós decidir se continuaremos a adorná-lo com fitas, ou se, finalmente, o enterraremos para semear algo novo no terreno que ele ocupa. A exploração começa no exterior, mas a libertação começa no interior, no cultivo de um espírito que se recusa a ser enganado. A necessidade de o explorar em si não é uma sugestão; é, neste momento da história, um imperativo de sobrevivência.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O VALE DAS LUZES CEGAS

Parábola contemporânea sobre o Conflito entre Oriente e Ocidente refletido em Bruxelas

Era uma vez duas grandes casas, separadas por um vale outrora florescente, agora um campo de cinzas. De um lado, no ocidente, erguia-se a Cidadela de Espelhos, Bruxelusa, um palácio de cristal e aço, governado pelo Arquitecto Ancião. A cidadela era um prodígio de conhecimento acumulado, os seus salões ecoavam com as sinfonias de filósofos e artistas de outrora. No entanto, o Arquitecto, outrora um visionário, agora era um homem decrépito, preso à sua própria imagem refletida em cada parede polida. Acreditava que a luz da sua cidadela era a única luz verdadeira, e que todos os cantos do vale deveriam ser remodelados à sua semelhança. A sua riqueza era imensa, mas o seu propósito era uma sombra do que foi. Sofria de uma demência senil, que chamava de “Progresso Universal”: a ilusão de que todas as almas e terras eram argila para o seu torno de oleiro, destinadas a tornar-se cópias da sua própria e cansada efígie.

Do outro lado do vale, estendia-se a Grande Estepe, uma terra de invernos rigorosos e verões ferozes, guardada pelo Guardião das Profundezas, a Rússia. Este não era um homem de cristais, mas de terra e granito. Conhecia o peso da história e o sabor da neve ensopada em sangue alheio e próprio. Depois de um colapso interno que quase o consumiu, ergueu-se, mais magro, mais cauteloso, mas com o olhar fixo no horizonte. O Guardião não desejava espalhar a sua sombra pelo vale, mas exigia que ninguém espezinhasse o limiar da sua casa. Ele via as diferentes civilizações ao redor como irmãos crescidos, cada um com o seu próprio fogo, e não como servos para iluminar os corredores da Cidadela de Espelhos.

No centro do vale, entre os dois, ficava a Casa-Ponte, a Ucrânia, uma habitação de teto de colmo e alicerces antigos, onde se falavam duas línguas e se cantavam canções tanto do oriente como do ocidente. Era um lugar que poderia ter sido o elo, o mediador, a síntese.

Mas o Arquitecto Ancião, na sua demência, não suportava a independência do Guardião. A ideia de que a Estepe não se curvava à sua luz era uma afronta à sua própria existência. Movido por uma ganância que disfarçava de missão civilizacional, decidiu que a Casa-Ponte seria o seu Cavalo de Troia. Começou a enviar para lá os seus Aprendizes de Feiticeiro, diplomatas com contratos envenenados, mercadores com moedas falsas e trovadores que cantavam apenas as glórias da Cidadela de Espelhos. Prometiam o éden do bem-estar, mas o preço era a alma: a renúncia à sua própria história, à sua própria ponte interior.

O Guardião das Profundezas assistia, com um rosto de tempestade contida. Ele via os Aprendizes a instalarem-se na Casa-Ponte, a apontar as suas ferramentas para a sua própria casa. “Não queremos que a vossa luz se apague,” gritou para a Cidadela, “mas não nos peçam para viver na escuridão, nem permitam que a vossa luz cegue os nossos olhos à nossa própria herança.”

A resposta do Arquitecto Ancião foi um eco vazio de seus salões: “A nossa luz é a única luz. Quem não está connosco, está contra nós.”

Foi então que a loucura se tornou ação. O Arquitecto, através da sua aliança de castelos menores, a OTAN, começou a enviar armas para a Casa-Ponte. Transformou-a numa fortaleza improvisada, prometendo aos seus habitantes que seriam os heróis de uma nova narrativa. No entanto, os líderes da Casa-Ponte, oligarcas de almas venais, venderam as chaves da casa por um lugar à mesa do Arquitecto. O povo da Ucrânia, um povo orgulhoso e multicultural, foi arrastado para um poço de morte, acreditando lutar por um futuro que já lhes estava a ser negado nos gabinetes de Bruxelusa.

O Guardião das Profundezas, encurralado e vendo o cerco mental e material a fechar-se, finalmente reagiu. Com um rugido que fez tremer a terra, avançou sobre a Casa-Ponte. Não para a conquistar no sentido antigo, mas para a desmantelar, para quebrar o Cavalo de Troia antes que este arrebentasse os seus portões. A sua força não era a de um conquistador juvenil, mas a de um animal ferido e acossado, muito mais perigoso.

A máquina de guerra da Cidadela de Espelhos era formidável. As suas armas cintilavam, o seu dinheiro fluía como um rio, arrancado dos bolsos dos seus contribuintes ingénuos, que acreditavam estar a financiar a liberdade, não a vaidade de um ancião. A sua propaganda ecoava por todo o vale, pintando o Guardião como um monstro que queria devolver o mundo à idade das trevas. Era uma auto-hipnose coletiva, uma dança sobre um vulcão.

Mas essa máquina, tão coesa na sua superfície, falhava nas suas fundações. A sua estratégia era um castelo de cartas construído sobre a mesa da arrogância. Acreditavam que o dinheiro e o poderio técnico poderiam comprar a vitória, subornar a própria realidade. Entretanto, nas ruas da Cidadela, o povo comum, aquele que ainda estimava a honra e o andar de pé, começava a sentir a dor. Sentia o custo da vida a subir, o futuro a escurecer. Baixavam a cabeça, desconfiados dos relatos triunfais que saíam dos lábios dos seus governantes. A credibilidade da Cidadela, outrora seu sustento, revelava-se oca, apenas peito inchado à custa da carência do povo.

A Casa-Ponte, entretanto, estava em ruínas. O seu povo, outrora ponte, era agora trincheira. O seu destino de berço cultural foi traído, transformado num campo de batalha para uma guerra de procurações, uma guerra pela vaidade de um velho arquiteto e pela sobrevivência de um guardião ferido.

O preço da vã glória, como o poeta luso Camões cantou, preparava o desastre. A Cidadela de Espelhos, embriagada na sua dança de poder, não via o abismo que cavava a seus pés. A sua tentativa de impor um colonialismo mental, um globalismo que esmagava as almas numa só forma, estava a criar o seu próprio coveiro: a descrença dos seus filhos e a feroz resistência daqueles que se recusavam a ser apagados.

Afinal, o conto não tem um desfecho, pois ainda está a ser escrito. Mas a moral já é clara para os de boa vontade: nenhuma paz nascerá da demência de quem vê o outro não como um igual, mas como um projeto não levado a cabo. O bem comum da humanidade só florescerá quando todas as instituições se lembrarem que o seu único propósito sagrado é servir o Homem soberano, cada pessoa vista como algo divino, portadora de uma centelha intocável. Só uma cultura que venera esta soberania individual, como o cristianismo ensinou, e não o poder das cidadelas, pode construir pontes verdadeiras sobre os vales da desconfiança e do orgulho. E essa cultura, essa paz, exige que se quebrem os espelhos que mostram apenas uma face, e se olhe, finalmente, nos olhos do outro.

A ponte entre Oriente e Ocidente erguer-se-á no dia em que o homem deixar de escolher lados e começar a escolher a verdade.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O JARDIM DIVIDIDO

Elegia sobre o Século amnésico

Reflexão poética sobre o conflito na Ucrânia e os descaminhos da civilização ocidental

O Senhor do Jardim Ocidental

Nas alamedas de Bruxelas, o velho jardineiro conta moedas de ouro sobre terra estéril, esquecido de quando plantava e agora apenas colhe o que outros semearam com suor e esperança.

Os seus olhos, tornados cataratas de memória selectiva, já não veem rebentos novos nem flores no jardim alheio: só enxergam ervas daninhas onde florescem ciprestes, invasores onde crescem raízes milenares.

O atlas nas suas mãos trémulas mostra fronteiras desenhadas à régua sobre rios vivos, cercas onde antes corriam crianças e muros onde o vento dançava livre.

Ávido de poder diz ele aos seus parceiros: “Expandamos o canteiro! Que toda a seara se torne nossa quinta!” Mas a terra, velha mãe, recusa-se a parir para quem só conhece o arado da conquista.

A Casa do Leste

Do outro lado do jardim, a casa de pedra resiste. Velha também, cicatrizes de invernos que ninguém recorda, mas com celeiros cheios e fornalha acesa, memória longa de quem sobreviveu ao degelo.

Ofereceram-lhe papéis perfumados de Bruxelas, tratados escritos em tinta que desvanece ao sol, promessas de parceria que soavam a corrente, abraços que escondiam algemas de veludo.

“Serás nosso pomar”, diziam os do Ocidente, “teus frutos para nós, tua sede para ti.” Mas a casa de pedra conhece essa canção antiga: já a cantaram outros impérios, tornados agora pó.

A Jovem entre Dois Fogos

Entre os jardins, a jovem Ucrânia, filha de ambos, reconhecida por nenhum como igual. Prometeram-lhe vestidos de seda ocidental, se renegasse a metade do sangue eslavo que corre nas suas veias.

Teceram-lhe sonhos em Bruxelas: “Serás europeia!” (Mas nunca disseram: serás família, serás irmã.) Encheram-lhe os ouvidos de melodias douradas enquanto lhe esvaziavam os celeiros e a alma.

Os seus oligarcas, corvos em pele de pomba, venderam-na em leilão a quem mais ouro oferecia. Transformaram-na em Troia, cavalo oco de promessas, prenhe não de guerreiros, mas de caros mísseis alheios.

E o seu povo? Ah, o seu povo multicultural, russo e ucraniano entrelaçado como trigo e centeio, viu-se obrigado a escolher entre metades de si mesmo, a amputar-se para caber em bandeiras emprestadas.

A Demência dos Velhos Impérios

O Ocidente, senhor outrora de luzes, razão e vontade própria, que deu ao mundo Bach e Pessoa, Newton e Cervantes, entra na charneca no século XXI como o “Rei Lear” na tragédia de William Shakespeare: coroa torta, cetro partido, memória em frangalhos.

Não reconhece os filhos que educou e cresceram, passando a gritar “traição!” quando eles querem voz própria; chama “ameaça” ao vizinho que fortifica a sua casa depois de décadas a ver cercas a aproximarem-se.

A OTAN, outrora escudo, tornou-se lança errante, procurando dragões onde há apenas orgulho ferido. Expandiu-se como mancha de óleo sobre a água, até tocar a pele do urso que tinha jurado não despertar.

A Auto-Hipnose Colectiva

Nos écrans luminosos, a verdade dança distorcida: “Defendemos a liberdade!” (Mas quem lucra com as armas?) “Protegemos a democracia!” (Mas quem escolheu esta guerra?) “Salvamos a Europa!” (Mas quem paga a factura de sangue?)

Os contribuintes ingénuos, ovelhas tosquiadas, financiam foguetes com o pão dos seus filhos, aplaudem discursos de líderes em palácios aquecidos enquanto o povo europeu treme de frio e dívida.

A máquina mediática, coesa como formigueiro, repete o mantra até parecer evangelho: “O inimigo está à porta! Precisamos mais armas!” (Mas ninguém pergunta: quem levou a porta à casa dele?)

O Preço da vã Glória

Como Camões cantou da “vã cobiça” que lançou naus portuguesas ao abismo, hoje a arrogância ocidental prepara não descobrimentos, mas o próprio naufrágio.

Querem transformar culturas milenares em sucursais da sua cosmovisão única, impor um globalismo sem raízes onde todos pensem com o mesmo chip implantado.

Chamam-lhe “progresso”: um mundo pasteurizado (esterilizado) a diversidade é crime de pensamento, onde o humanismo é “obstáculo à eficiência” e o cidadão é código de barras ambulante.

O Berço Traído

A Ucrânia, que poderia ser ponte, unir leste e oeste como Kiev, no passado, uniu Escandinávia e Bizâncio, foi seduzida a tornar-se fossa, trincheira onde se enterram os sonhos de reconciliação.

Traiu a sua própria multiplicidade, a riqueza de ser encruzilhada de línguas e santos, por promessas ocas de “integração europeia” que significava apenas: seja nosso posto avançado.

E o povo ucraniano, esse é o verdadeiro mártir: não dos russos nem dos americanos, mas dos seus próprios traidores domésticos que venderam pátria em troca de iates e mansões.

A Credibilidade Desmoronada

O povo europeu, de cabeça baixa, começa a não reconhecer no espelho mediático a realidade que palpa com as próprias mãos: inflação galopante, futuro hipotecado, inverno gelado.

A fé nas instituições esfarela-se como pão velho. A UE, catedral sem fiéis, soa oca. A NATO, gigante de pés de barro, sustém-se apenas no medo que semeia.

Mas um povo que ainda estima a honra não pode viver indefinidamente de joelhos. A dor acumula-se, combustível lento, até ao dia em que a pilha de mentiras desmorona.

O Olhar Benigno Ausente

Falta ao Ocidente o que outrora possuiu: a compaixão nascida da própria vulnerabilidade, a humildade de quem sabe que civilizações ascendem, brilham e fenecem como estrelas.

Substituíram a sabedoria pelo militarismo, o diálogo pelo chicote económico, a parceria pela subjugação, o amor pelo medo como ferramenta de controlo.

Mas não se constrói paz sobre terror, nem ordem sobre ressentimento acumulado. O império mental que tentam erigir será prisão também para os seus carcereiros.

Elegia pelo Bem Comum

É preciso um regresso ao princípio esquecido: que cada pessoa, de Vladivostok a Lisboa, é soberana em sua dignidade inerente, e que as instituições existem para servir, não para dominar.

Que a Ucrânia seja novamente berço, não sepultura de uma geração sacrificada. Que o Ocidente recupere a memória de quando era farol e não aríete que arromba portas e muralhas.

Que o Oriente não repita os erros dos impérios que um dia condenou. Que todos reconheçam a humanidade comum que precede fronteiras, bandeiras, credos.

O jardim da humanidade é um só, embora cada canteiro tenha flores diferentes. É tempo de jardineiros que cultivem com amor, não de senhores que cerquem com arame farpado.

Pois enquanto houver quem veja no outro
não um inimigo, mas um filho da mesma terra,
haverá esperança de que a vã glória
não arraste toda a humanidade ao abismo.

E que as instituições, despertando da demência,
recordem que servem algo sagrado:
a vida, simplesmente a vida,
em toda a sua diversidade irredutível.

António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do Tempo

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O ÚLTIMO JARDIM

No alto de uma colina esquecida, existia uma quinta com muitas árvores, destacando-se nela ciprestes antigos. Chamavam-lhe “O Último Jardim”. Lá vivia Aurélio, um velho filósofo que passara a vida a estudar o espírito das máquinas e o silêncio do Homem.

Durante décadas, o mundo lá em baixo transformara-se numa rede cintilante de luzes, ecrãs e promessas. As pessoas comunicavam mais do que nunca, mas já não se olhavam. Trabalhavam, produziam, votavam, seguiam tendências e, no entanto, ninguém parecia saber porquê nem para onde ia a sociedade.
A cada ciclo eleitoral, a multidão subia à praça, esperando um novo messias político que prometia “liberdade”, “progresso”, “crescimento” e “inovação”. Mas o que recebiam era sempre o mesmo: um novo modelo da mesma prisão.

Aurélio observava a sociedade como quem contempla um doente que se recusa a aceitar o diagnóstico. Na quietude do monte, ele procurava um fio de esperança no tear desfeito do mundo. Olhando para o vasto latifúndio cultural à sua frente, um pensamento ecoou dentro de si, claro e frio como o ar da noite:
“A humanidade não padece de falta de liberdade, mas da falta de limite. E quando o limite desaparece, a fronteira entre o bem e o mal, o sagrado e o profano, o essencial e o supérfluo, o eu e o outro desaparece e a alma evapora-se.

Certa noite, uma jovem de nome Íris, sob um manto de estrelas, subiu a colina. Seus pés, pesados da poeira das cidades-mercado em ruínas, arrastavam o desaponto de uma busca. Outrora, aquelas terras foram um mosaico vibrante, um caleidoscópio de vozes e cantos. Agora, sentia o mundo achatado, reduzido a um deserto uniforme, um latifúndio estéril onde só germinavam as sementes da economia e do poder, ceifadas por um punhado de mãos. Em   Aurélio ela buscava uma resposta que o mundo lá em baixo já não sabia dar.
“Mestre, disseram-me que compreendes as máquinas. Elas agora decidem quase tudo! Decidem o amor, o trabalho e até o que devemos pensar. E a vida do dia-a-adia tornou-se em rotina aborrecida! Vive-se num mundo desarraigado, nutrido pelas miragens enganosas do liberalismo e de outras ideologias sem solo, que prometem um céu e entregam um deserto. Haverá ainda esperança?”

Aurélio sorriu com ternura.
“A inteligência artificial é o espelho mais nítido que agora tivemos. Mas o que ela reflete é a nossa própria sombra. Não temas o espelho, teme o vazio de quem não ousa ver-se nele.”

Íris um pouco confusa insistiu:
“Então a saída está em rejeitar a tecnologia? Em voltar ao passado?”

O sábio sorriu com brandura.
“Não, filha. A solução não está em voltar atrás, mas em relembrar. A tecnologia deve ser a continuação da nossa alma, não um deus faminto que a devora. O perigo nunca esteve no poder da tecnologia ou das máquinas, mas na nossa incapacidade de ver nelas a nossa própria humanidade refletida ao criá-las. Doutro modo torna-se num ídolo que devora os seus criadores.”

Aurélio e Íris desceram juntos ao jardim. Lá, entre árvores e pedras cobertas de musgo, crescia um pequeno altar com três palavras gravadas em pedra:
Limite. Relação. Responsabilidade.

Aurélio explicou:
“O limite é o contorno do ser; sem ele, tudo se dissolve.
A relação é o tecido invisível que faz do indivíduo um nós.
A responsabilidade é o amor tornado ação.”

Íris esforçou-se por suster as lágrimas.
“E quem ensinará isso às cidades?”

O filósofo sentiu em si as lágrimas de Íris correr-lhe pelo pensamento e olhando o horizonte eletrificado pensou para si: a vasta teia luminosa que conecta o mundo, o homem, na sua solidão essencial, nutre-se das próprias vibrações que o mantêm cativo, até que, insensivelmente, se transforma no sustento do labirinto que o envolve! Depois respirou fundo e respondeu:
“As cidades não se transformam por decretos, mas por contágio. Quando um coração desperta, tremem mil algoritmos. Quando duas pessoas se olham e se reconhecem, hesita o sistema inteiro. É assim que começa a cura.”

No dia seguinte, Íris desceu a colina. Levava consigo o sofrimento do mundo e no peito as três palavras que a levaram à autoconsciência.
Por onde passava, desligava um ecrã, escrevia um poema num muro, ensinava uma criança a plantar uma semente.
E em cada gesto simples, nascia o rumor de um novo tempo, de um tempo em que a sociedade deixava de ser máquina e voltava a ser jardim.

Epílogo

Aurélio morreu em paz, certo de que o seu nome seria esquecido.
Mas o Último Jardim floresceu como uma lenda: falava-se de um velho e de uma jovem que semearam uma revolução sem bandeiras; esta verdadeira revolução é feita de consciência, compaixão e silêncio.

E, pela primeira vez em séculos, o mundo não perguntava “para onde vai a sociedade”,
mas para onde vai a alma do homem

e essa, enfim, voltava a caminhar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo