LOBO ANTUNES MORREU, MAS VIVE NO ESPELHO DO PAÍS QUE DEIXOU

Neste ensaio procuro desenredar o legado de Lobo Antunes à luz da sua psicanálise à alma portuguesa

A Morte de Lobo Antunes e a Sombra no Fado

António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março de 2026, aos 83 anos. Mas a frase, assim, despida e objetiva, soa a engano, tal como mentira soa a calmaria depois de uma batalha. De facto, foi-se um homem, um médico, um escritor, mas ficou o vendaval. Ficou a obra, essa “casa dos móveis que estalam à noite”, como ele próprio descreveria a solidão. Dele ficou, sobretudo, o retrato de um país que ele anatomizou como poucos: Portugal, esse paciente eterno deitado no divã da psiquiatria, com as suas memórias mal resolvidas a pulsarem sob a pele do presente.

Nascido em Lisboa em 1942, numa família da burguesia, cedo percebeu que a literatura era uma insónia, a “insónia dos bons livros “. Mas antes das letras, veio a medicina e a guerra. Chamaram-lhe “herdeiro de Faulkner e Céline”, mas a sua verdadeira genealogia literária forjou-se no limbo, no “cu de Judas” onde esteve destacado como médico durante a Guerra Colonial em Angola, entre 1971 e 1973. Foi lá que aprendeu que a morte não tem épica e que a coragem é, muitas vezes, apenas o medo que se verga. Foi em Angola que o jovem psiquiatra começou a acumular o material clínico para a longa análise a que submeteria a nação.

O Cirurgião das Almas e a Ferida da Guerra

Lobo Antunes mais que escrever livros, escrevia autópsias. A sua experiência em Angola não é um tema literário, é o motor de toda a sua inspiração. Em “Os Cus de Judas” (1979), o seu segundo romance, o alferes-médico que regressa a Lisboa não encontra uma pátria acolhedora, mas sim um país de paredes caiadas que finge que a guerra não existiu. O diálogo com a mulher anónima, numa noite de copos, é uma catarse falhada. É o desabafo de quem percebe que “viver é como escrever sem corrigir “e que o que lá está, de dor e de sangue, não pode ser apagado.

Foi essa a grande fratura que Lobo Antunes denunciou: Portugal, após o 25 de Abril, tratou a descolonização como um assunto administrativo, mas nunca como um trauma coletivo (Havia politicamente muito a esconder que impedia ser-se autêntico!). Os soldados voltaram, mas vieram de boca calada. Os retornados chegaram, mas foram recebidos com a vergonha alheia de quem vê um espelho partido e por isso foram tão maltratados. O país preferiu o esquecimento à purificação, e essa memória recalcada, como nos ensina Lobo Antunes, é a matéria de que são feitos os fantasmas.

As Naus e o Regresso dos Mortos como Desconstrução do Mito

Se há livro que funcione como chave para entender esta tese, é “As Naus” (1988). Neste romance desassossegado, Lobo Antunes faz o que melhor sabia na qualidade de psiquiatra: pega nos heróis canonizados de “Os Lusíadas” e devolve-os a um Portugal pós-colonial, pequenino e irrelevante. Vasco da Gama, Camões, os navegadores, regressam a Lisboa como retornados pobres, perdidos, bêbados e deslocados. O passado glorioso desembarca no cais mas já não cabe no novo cenário, empenhado em fabricar novos fantasmas e heróis de craveira histórica, os tais ‘históricos’ do novo regime, que tomem o lugar dos velhos espectros e garantam a continuidade dessa epopeia político-cultural que mantém Portugal em permanente sessão no divã da psicanálise.

O que o escritor fez foi uma cirurgia ao imaginário nacional. Durante séculos, Portugal alimentou-se da nostalgia do império, do mito sebástico do “Encoberto” que um dia há de voltar para nos salvar. Mas Lobo Antunes mostra-nos D. Sebastião não como um salvador, mas como uma figura grotesca, um rei menino perdido num país que já não tem trono nem altar. Aqui Lobo Antunes faz a crítica mais feroz ao Sebastianismo que se resume na esperança irracional de que algo de exterior nos venha resgatar da mediocridade, essa crença de que o passado pode funcionar como salvação para o presente.

Assim, Portugal de Lobo Antunes é um país desorientado. Vive na “sombra da antiga grandeza”, como aponta o seu pensamento, mas sem saber o que fazer dessa sombra. É essa dualidade que nos torna, aos olhos dele, uma nação de melancólicos a viver da consciência da decadência agudizada pela memória do esplendor. O viver nessa melancolia, sombra enraiada já na alma portuguesa, continua a viver no espírito do Encoberto que se encontra agora em Bruxelas.

“Portugal é um país que vive mais do que foi do que do que é”

Esta frase, que lhe é atribuída, condensa toda a sua visão. Para Lobo Antunes, a identidade portuguesa constrói-se sobre um silêncio espesso. É feita de orgulho, pela gesta dos descobrimentos; de culpa, pela violência colonial; de nostalgia, pelo império perdido; e de silêncio, pela incapacidade de discutir abertamente a guerra e a descolonização e também por de forma desalmada, continuar a afirmar-se ou a distrair-se na narrativa do desassossego de esquerda e de direita.

Esse silêncio, contudo, não é um vazio, mas sim uma presença barulhenta, como ele tão magistralmente descreveu ao constatar “Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falar em mim “. E esses outros são os que ficaram para trás em África, os que regressaram sem chão, os que morreram na guerra, os que viveram a opressão da República e do Estado Novo. O Salazarismo, com a sua cartilha do “Deus, Pátria e Família”, não criou apenas obediência, mas também contenção emocional que perdura. Hoje como ontem, continua-se o hábito do medo de falar, da hipocrisia social, de uma vida interior que se esconde atrás da fachada da ordem.

A ironia e o humor negro surgem, na sua obra, como a única arma possível contra essa tragédia muda. É o riso de quem já viu o pior e sabe que as palavras são frágeis. Quando perguntado sobre o Nobel, a resposta clara como seca foi “Quero que o Nobel se f*da”; esta reação não era apenas desdém; era a defesa da soberania do escritor contra as glorificações oficiais, a recusa em deixar que a literatura fosse engolida pelo mesmo sistema que ele denunciava, tal como o foi Saramago ao ser usado como arma de um polo contra o outro.

O Fantasma do Império e a Decomposição na Europa

Na última fase do seu pensamento, que as suas notas tão bem captam, Lobo Antunes antecipou o debate contemporâneo sobre o pós-colonialismo e a identidade europeia. No meu entender, se o 25 de Abril matou o império, a entrada na União Europeia, nos anos 80, funcionou como uma espécie de segunda morte.

Compensados economicamente pelos fundos comunitários, os portugueses viram-se confrontados com uma nova forma de perda de soberania. Desta vez, não perdíamos colónias; perdíamos a ilusão de sermos o centro do mundo e nação intacta. Passámos a ser a periferia da Europa, um país encostado à boleia de Berlim e Bruxelas. Esta integração, se por um lado trouxe desenvolvimento, por outro aprofundou o sentimento de insignificância e de decomposição cultural que o escritor já diagnosticava.

Deste modo o fantasma do império permanece, já não como projeto político, mas como assombração. Vive na nostalgia cultural, nos manuais escolares, nas comemorações oficiais de dançarinos do poder. Vive também na culpa dos que olham para a história e veem o horror da guerra. Vive, sobretudo, na dificuldade que Portugal tem em se definir a si mesmo fora da matriz imperial e por isso se encosta à nova forma de imperialismo que é o imperialismo mental de Bruxelas.

A Técnica Literária como Espelho da Alma Coletiva

Não se pode falar de Lobo Antunes sem falar do seu estilo. A sua técnica narrativa, essa prosa que parece um rio de vozes, onde passado e presente se misturam, onde várias personagens falam ao mesmo tempo sem aviso prévio, é a expressão formal da sua visão do mundo e em especial de Portugal e da Europa.

Não há enredo linear porque não há identidade linear. Portugal é, para ele, um país de camadas geológicas expressas no substrato romano, na camada medieval, no basalto do império e no cimento bruto da modernidade europeia. Tudo se encontra misturado e fraturado. Os seus romances funcionam como consciências coletivas confusas, assombradas por fantasmas históricos que irrompem no discurso sem serem convidados.

Ao dar voz aos ‘vencidos da vida’, aos retornados do seu livro “O Esplendor de Portugal”, aos soldados de “Os Cus de Judas”, aos loucos e marginais que povoam os seus livros, Lobo Antunes fez uma operação de justiça poética ao dar expressão e corpo àqueles que a história oficial preferiu esquecer.

O Fim de uma Era

Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. Num tempo em que a Europa debate o racismo estrutural, a revisão da história e o lugar dos antigos impérios, a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução.

Os móveis continuarão a estalar à noite. As vozes continuarão a sussurrar no interior do silêncio. E nós, portugueses, continuaremos confrontados com essa pergunta incómoda que ele deixou a ecoar na consciência: quem somos nós, agora que o império se dissipou e a Europa já não é a miragem que fomos um dia?

Lobo Antunes não nos deu a resposta, mas deixou-nos o espelho. E, como nos seus livros, olhar para ele é sempre um acto de coragem, iminentemente necessário. Fica a obra e com ela a insónia. Fica a certeza de que, como ele dizia, “os maus romances contam histórias; os bons romances mostram-nos a nós mesmos”. Mas o fado, esse canto tão belo e inebriante que tolda a alma lusa, não é senão a carpideira velada de um Portugal que chora e carpe, sem o saber, o desencanto de si próprio e de todos os outros.

Lobo Antunes deixou-nos um “bom romance“, uma grande obra que nos espelha Portugal.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do Tempo

FILHOS DE PAIS DIVORCIADOS TÊM MENOS FILHOS

Estudo revela que filhos de pais separados têm menos filhos e relações mais instáveis na vida adulta

 Um estudo recente da Universidade Bocconi, em Milão, publicado na conceituada revista “Demography”, lança uma nova luz sobre as tendências demográficas e a dinâmica familiar. A investigação conclui que os filhos de pais divorciados têm, em média, menos filhos do que as pessoas que cresceram em famílias intactas.

Analisando dados de 1,75 milhões de pessoas, a equipa de investigação descobriu que o número de filhos é reduzido em cerca de 14% para os homens e aproximadamente 5% para as mulheres provenientes de laços rompidos. Em média, estas pessoas também permanecem sem filhos com uma frequência ligeiramente superior à dos outros, embora, quando se tornam pais, isso tenda a acontecer mais cedo.

O Papel da Estabilidade Relacional

De acordo com o estudo, o mecanismo central para este menor número de filhos reside na instabilidade relacional. Os filhos de pais divorciados tendem a separar-se com mais frequência do que outras pessoas, resultando em casamentos e relações mais curtos. Esta fragilidade nos vínculos afetivos, naturalmente, reduz a janela de oportunidade e a estabilidade necessárias para projetar e constituir uma família numerosa.

Esta propensão para separações mais frequentes pode estar também enraizada nos valores e atitudes transmitidos pela família de origem. Sociólogos sublinham que, mais do que o divórcio em si, o tipo de comunicação familiar após a separação e a manutenção do contacto com ambos os pais são factores decisivos para moldar o desejo e a confiança do indivíduo em ter os seus próprios filhos.

Um Contexto Demográfico Preocupante

Estas conclusões surgem num momento em que o número de nascimentos em quase todos os países europeus e norte-americanos se encontra abaixo do nível de reposição populacional, contribuindo para um drástico envelhecimento da sociedade. Naturalmente, para este cenário geral contribuem também outros factores, como o ar atmosférico social (o Zeitgeist), o modelo económico vigente, ideologias do momento e a falta de espaço habitacional favorável a crianças.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A CEGUEIRA ESTRATÉGICA DO OCIDENTE E O SISTEM ISLÂMICO IRANIANO

O conflito entre Israel, os Estados Unidos e o Irão no quadro da disputa geopolítica contemporânea

A situação no Irão e no Médio Oriente inscreve-se num quadro mais amplo de disputa geopolítica, estruturado em torno de dinâmicas de poder, controlo territorial e interesses económicos estratégicos. À semelhança do conflito na Ucrânia, trata-se de uma confrontação de natureza eminentemente geoestratégica, com implicações diretas para a Europa. Em causa está a garantia de acesso a matérias-primas essenciais, bem como o controlo das respetivas rotas de transporte e escoamento.

Neste contexto, o Irão assume particular relevância geográfica e estratégica no quadro das políticas ocidentais de contenção ou equilíbrio face à afirmação da China como potência global. Paralelamente, Israel ocupa uma posição central na articulação de interesses concorrenciais entre a Europa e o mundo árabe.

A instabilidade regional, incluindo a consolidação de regimes autoritários e a persistência de intervenções externas, reflete assim uma lógica de competição sistémica entre potências, na qual as populações civis permanecem particularmente vulneráveis e privadas do pleno exercício da sua autodeterminação.

Tudo parece reduzir-se a um regime desumano e a interesses geoestratégicos das grandes potências, tanto na guerra que envolve o Irão e o Médio Oriente como no conflito na Ucrânia. É trágico constatar como decisões do Reino Unido e dos USA contribuíram para a desestabilização do Irão, no jogo de colocar particularmente no contexto que levou à Revolução de 1979 e à ascensão do regime dos ayatollahs, cujas consequências têm sido profundas para o povo iraniano e para a estabilidade regional.

O povo iraniano tem sido sucessivamente privado do direito a determinar livremente o seu próprio destino. Num cenário internacional em que a China se afirma cada vez mais como potência global, intensificam-se rivalidades estratégicas, e o Ocidente procura conter a sua expansão de influência. Nesse quadro, multiplicam-se conflitos geopolíticos em que interesses de poder se sobrepõem à vida humana e dos Estados.

Em última análise, são as populações civis que continuam a pagar o preço mais alto, quer sob regimes autoritários, quer no contexto de intervenções externas, permanecendo presas numa dinâmica de confronto em que os seus direitos, a sua segurança e a sua dignidade são sacrificados.

A Guarda Revolucionária como herdeira dos assassinos na história

O Irão pré-islâmico foi um centro cultural milenar de grande relevo que com a conquista muçulmana árabe no século VII se foi remodelando e durante a segunda guerra mundial  sofreu exploração colonial e manipulação política por parte da União Soviética, Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, que visavam o controle dos recursos petrolíferos e a manutenção de alinhamento geopolítico estratégico. Desde 1979, a República Islâmica construiu um modelo onde religião, nacionalismo e resistência ao Ocidente formam uma identidade política coesa e a pressão externa reforça essa identidade.

A Guarda Revolucionária assume no Irão a tarefa que os “assassinos” desempenharam no Islão através dos séculos (1) e que era a de protetores do espírito islâmico contra as ameaças externas e internas. Esta função, que aos olhos ocidentais parece contraditória, pois como podem “assassinos” proteger algo espiritual, tem profundas raízes na história islâmica. O Islão nasceu e expandiu-se pela espada e a mesma espada que o expandiu é a que o defende.

Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, a repressão interna poderá intensificar-se. E o povo que aspirava à liberdade encontrará um horizonte ainda mais distante.

Este é o grande problema para o Ocidente porque não tem muito que possa oferecer como atração própria do mundo secular (a não ser a liberdade da pessoa humana que o sistema islâmico oprime). Oferecemos democracia, mas ela parece cada vez mais disfuncional até para nós. Oferecemos liberdades individuais, mas elas são frequentemente percebidas como decadência moral. Oferecemos desenvolvimento económico, mas regimes autoritários, embora desumanos, têm demonstrado vantagens competitivas no mundo globalizado. Veja-se o exemplo do Kuwait onde o mundo ocidental se apinha para passar lá férias!

O erro da classificação medieval

Quem classifica os regimes islâmicos como medievais revela não ter compreendido no mínimo o Islão, nem a natureza da sua própria posição no mar da história. O Irão era um centro cultural muito antes do Islão, e a Revolução Islâmica de 1979 foi, em grande medida, uma resposta à brutalidade do domínio britânico e americano na região. Os Estados Unidos completam este ano 250 anos de independência; desde 1776, houve uma tentativa constante de se apropriar de terras e matérias-primas em nome dos valores republicanos e democráticos. Esta história não confere superioridade moral para julgar os outros.

A Grã-Bretanha foi particularmente brutal no seu domínio da região, traçando fronteiras arbitrárias, instalando monarquias fantoche e explorando os recursos petrolíferos sem qualquer consideração pelas populações locais. O resultado foi a Revolução Islâmica e décadas de hostilidade que persistem até hoje.

A lógica que o Ocidente não compreende

A lógica dos argumentos que o Ocidente defende não é aceite pelos aiatolas, porque o islão parte de um pensamento uniforme, não fragmentado como o nosso. Sabe que as diferentes lógicas, a jurídica, a moral, a política e a económica, servem para criar divisões e explorar contradições. Enquanto no Ocidente debatemos se devemos priorizar os direitos humanos ou a segurança nacional, os aiatolas agem com uma coerência que nós já perdemos e que a EU procura indiretamente repor, mas com a deficiência de se limitar ao poder económico e militar. O regime socialista procurou também ele unir política e ideologia fazendo desta uma espécie de religião (certamente que aqui há aspetos afins da esquerda com o islão), mas falta à ideologia socialista, um elemento essencial do homem que é a coerência espiritual.

O Islão, em geral, associa os interesses nacionais à missão divina. O que é bom para o Irão é bom para o Islão, e vice-versa e até a mentira desde que sirva o islão passa a ser virtude (Não quero com isto criticar o Islão, porque na lógica meramente do poder ele conquista a razão).

Esta fusão entre interesses nacionais e missão divina confere aos líderes iranianos vantagens operacionais significativas, como: capacidade de decisão rápida, controlo absoluto da informação e mecanismos de repressão eficientes que atuam sem constrangimentos legais ou morais. A isto acresce uma capacidade de mobilização popular que os líderes ocidentais apenas podem sonhar, uma vez que estes estão limitados por sondagens, debates internos intermináveis, uma opinião pública volátil e a inevitável pressão dos ciclos eleitorais.

Por outro lado, o Islão, através da sua rede de mesquitas e grupos extremistas, consegue uma presença social integrada (impossível de romper), tanto a nível interno como externo, que qualquer sistema de espionagem ocidental não consegue replicar. Isto porque os serviços de inteligência do Ocidente são aparelhos exteriores ao tecido social, frutos da lei decretada e da burocracia estatal, ao contrário do Islão, que está organicamente entranhado nas comunidades onde atua.

O Ocidente, apesar de todos os seus erros, tem em mente que “quem vive pela espada, morre pela espada”. Perante a realidade islâmica, esta visão torna-se numa consciência trágica porque limita a ação do Ocidente, impedindo-o, em parte, de levar até ao fim as lógicas que desencadeia; isto baseia-se no princípio humanista cristão que distingue entre servir a César e servir a Deus. Assim o Ocidente avalia sempre a situação de forma estratégica, com dois pesos e duas medidas, porque as prioridades mudam constantemente. Hoje a Rússia é inimiga, amanhã pode ser aliada contra a China. Hoje o Irão é o alvo, amanhã pode ser necessário para equilibrar a Arábia Saudita e possivelmente como local estratégico no afirmar-se em relação à China.

A questão de Israel e a persistência de guerra e guerrilha

Tal como a situação se apresenta com o programa do Irão de extermínio dos judeus, uma retórica que infelizmente persiste em setores do regime iraniano, não se descortina haver, neste momento, alternativa à guerra. Israel enfrenta um dilema existencial: os mísseis guiados iranianos, que em confrontos anteriores penetraram as suas defesas aéreas, representam uma ameaça que nenhum país pode ignorar. Por outro lado, encontram-se interesses ocidentais geoestratégicos na defesa de Israel (possíveis rivalidades futuras entre Europa e o mundo islâmico).

Mas a guerra, por mais inevitável que pareça, não resolverá os problemas fundamentais. Esta não é uma guerra para a mudança de regime, pelo menos não o é no sentido que o Ocidente a entende. E, no final, a situação poderá ser ainda pior do que no Iraque, na Líbia, na Síria e no Afeganistão. Se a Guarda Revolucionária se mantiver no poder, o terror contra a sua própria população tornar-se-á ainda mais desumano. O povo que ambicionava a liberdade terá ainda mais dificuldades.

E o busílis da questão permanece porque tanto o Ocidente como o Islão são hegemónicos.

O mundo invertido

Vivemos num mundo invertido, onde o caos cria confusão, o que torna o poder útil e permite que os governantes se escondam na lealdade dos Nibelungos, essa fidelidade cega a líderes que conduzem os povos à destruição. Em 1999, a NATO violou o direito internacional na guerra do Kosovo. Pouco depois, as pessoas na Sérvia saíram massivamente para as ruas e houve mudança de regime. Mas o Irão não é a Sérvia e a mudança na história não segue apenas o poder militar.

Nenhum dos blocos, chamem-se eles capitalistas ou socialistas, Ocidente ou Oriente, Rússia ou EUA, Israel ou Irão, pode ser tomado como referência moral. O seu agir invalida qualquer posição que se tome, independentemente do lado que se ocupe nas barricadas. Um lado e o outro não reconhecem uma ordem mundial e querem impor as suas regras inspiradas nos seus interesses.

A necessidade de uma ética superior

Quando se toma uma posição inflexível, nega-se uma ética superior e deste modo impede-se o desenvolvimento qualitativo, porque não há equilíbrio entre o desenvolvimento interior, espiritual, do ser  e a mera acumulação exterior de possuir ou ter.

As potências mundiais comportam-se como se o mundo fosse um jardim de infância e elas fossem os seus  donos e educadores. Mas esquecem-se de que também elas não passam de criancitas a brincar no parque infantil, com brinquedos cada vez mais perigosos. A diferença é que, no jardim de infância global, quando os brinquedos avariam, quem paga a fatura são sempre os mesmos: os povos que apenas desejam viver em paz.

Há várias modalidades de intenção entre o militarismo, o empenho genuíno e a procura sincera de soluções. Cabe-nos distingui-las, num tempo em que a propaganda e a desinformação tornam essa distinção cada vez mais difícil ou mesmo impossível.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O termo assassino viria de “assass”, ou seja, “os fundamentos” da fé islâmica. A origem da palavra ASSASSINO também é referida como vinda do árabe haxaxyn, consumidor de haxixe, erva-seca, porque o Velho da Montanha, líder de uma seita de fanáticos, drogava os seus discípulos antes de eles roubarem e matarem cruzados e peregrinos a caminho da Terra Santa.

Leituras: Para aprofundar a compreensão do sistema político iraniano, recomendo a leitura dos analistas do Council for Strategic and Defense Research e do Mahatma Gandhi Centre for Nonviolence and Peace Studies . Sobre a natureza do Islão político, o Hudson Institute oferece análises detalhadas das diferentes correntes.

 

REFLEXÃO QUARESMAL E O CLIMA INTERIOR

Entre a tempestade do mundo e a paz que vamos aprendendo a cultivar

Há dias em que o vento sopra de tal modo que parece atravessar as paredes. Não tanto o vento meteorológico, mas sobretudo o vento das notícias, das discussões ideológicas, dos meandros do poder e das urgências artificiais. Ainda antes do café abro o telemóvel e sinto o seu zunir constante, como se o mundo estivesse sempre a bater-me à porta e a querer desabar.

Durante tempos pensei que era apenas impressão minha e que tinha talvez uma sensibilidade social excessiva! Com o tempo, porém, comecei a perceber que muitos à minha volta partilhavam do mesmo cansaço invisível que se torna impertinente e por vezes até atormentador. A grande luminosidade tecnológica que nos acompanha exteriormente é acompanhada   de uma crescente escuridão interior. Quanto mais clareza intelectual criamos sobre os sistemas digitais, económicos e políticos, mais descemos à cave da nossa própria inquietação existencial.

Tudo isto me faz lembrar uma tarde junto ao mar na praia da Costa Nova. As ondas avançavam com força e retiravam a areia sob os meus pés. Por instantes perdi o equilíbrio e como reação fechei os olhos. A sensação era simples e, ao mesmo tempo, reveladora porque quando o chão se move, não é o mar que precisa de estabilidade, quem precisa dela sou eu.

Essa imagem tem-me acompanhado na observação de mim mesmo e do mundo. O mundo tornou-se severo, tanto no clima exterior como no interior das pessoas. As redes sociais e os meios de comunicação, em geral, amplificam indignações, os debates políticos endurecem e as palavras perdem a sua inocência e subtileza. O diálogo foi substituído por trincheiras emocionais. E nós, no meio desse vendaval, tentamos permanecer com os pés bem assentes na terra para não cair, mas as ondas não nos deixam.

Com o tempo percebi que começava a reagir a cada notícia que achava relevante como se fosse uma convocatória pessoal. Mas o mais fatal é que uma guerra distante se tornava ansiedade próxima e uma decisão política se transformava em revolta íntima. Sentia-me parte de uma engrenagem gigantesca e, ao mesmo tempo, impotente. Para fugir ao sentimento desta impotência então procurava ruminar as notícias através de reflexões.

Entretanto veio-me à ideia a imagem do mito de Sísifo que condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra montanha acima, quando chegava ao topo, a pedra rolava de volta, e ele tinha de começar novamente. Empurramos montanha acima diariamente a pedra da produtividade, do desempenho e da validação social, apenas para a ver rolar novamente na manhã seguinte. A repetição exaustiva passa a substituir o sentido deixando a impressão que tudo se reduz a atrito como se a fricção fosse o sustento da vida. Não será essa a metáfora perfeita da nossa época? Trabalhamos, opinamos, partilhamos, reagimos e, na manhã seguinte, tudo recomeça, mas tudo parece ficar cada vez mais na mesma.

Mas a história de Sísifo também pode ser lida de outra forma: é possível que a dignidade não esteja no resultado, mas na forma como seguramos a pedra.

Num tempo em que o peso dos dias se faz sentir com especial intensidade, entre as exigências do trabalho, as inquietações que vêm do mundo e as perguntas sem resposta que acompanham o silêncio de cada um, há que encontrar conforto num espaço espiritual ou nalgum recanto do espírito, como referia o físico Max Planck, ao falar que cada um precisa de ter um ponto firme, de uma posse que não nos pode ser tirada, isto é, uma atitude pura e a boa vontade. À primeira vista, pode parecer quase ingénuo. Como pode a boa vontade fazer frente à aspereza do real? Como pode resistir à violência, à atitude maldosa, à pressa, ao ruído do mundo? Não é fácil, mas a força da boa vontade estará no facto de não competir, de não se impor, mas de simplesmente manter-se na consciência de que não se trata de concorrer, mas de resistir.

A inteligência emocional, hoje tão citada em manuais de liderança, revelou-se para mim algo muito mais íntimo, resumido na capacidade de não permitir que o ruído exterior colonize o silêncio interior, o centro da mesmidade. Tudo isto é processo onde se pode aprender a  distinguir entre aquilo que faz parte de mim e me pertence e aquilo que me rodeia  ou que apenas atravessa o meu ecrã ou se mostra nos jornais.

A tarefa não é fácil, até porque o homem não é de pau e, por vezes, a circunstâncias tornam-se no cadinho da vida. Trata-se então de dar um paço de cada vez! Desligar notificações, caminhar sem auscultadores, escutar alguém sem preparar resposta. Importante é a comunicação direta de olhos nos olhos, de voz sem filtro, porque tem um poder reparador que nenhum algoritmo consegue refutar.

Observo também que muitas ideologias prometem segurança identitária, mas cobram um preço elevado que se manifesta na rigidez do coração. Quando nos agarramos a certezas absolutas, fechamos as janelas da compreensão. E sem compreensão não há paz possível, no máximo, apenas vitória temporária.

Vivemos uma época em que a democracia, para alguns, já só soa a nostalgia, pois o poder parece, além de cruel, distante e as decisões globais ultrapassam a nossa influência direta. Para mantermos a saúde psíquica somos cada vez mais condicionados a vivermos com humor e a virar-nos para o espaço interior que é o território onde continuamos soberanos.

Isto não significa fuga espiritual, nem de ingenuidade política, mas assumir responsabilidade. Se permitirmos que a angústia e o ressentimento se instalem em nós como morada permanente, tornamo-nos replicadores da mesma dureza que criticamos.

O nosso tempo exige cidadãos experientes na adversidade, não endurecidos, mas amadurecidos; pessoas capazes de reconhecer a própria fragilidade sem a transformar em agressividade, para chegar a compreender que a verdadeira coragem, muitas vezes, consiste em permanecer humano quando o ambiente incentiva o contrário.

Volto frequentemente àquela imagem da praia. As ondas continuarão a avançar e a recuar na consciência que o movimento é a base da existência. Mas aprendi que posso abrir os olhos no meio da instabilidade e procurar o meu centro. Esse centro não elimina a tempestade; apenas impede que eu me torne parte dela.

A grande tarefa da nossa geração não será conquistar territórios nem vencer debates, mas preservar a alma num tempo de excessos. Num século de luzes artificiais intensas, o desafio maior é reacender a luz humana, de maneira discreta, mas persistente.

Só quem encontra paz dentro de si consegue atravessar a tempestade sem perder a alma e pode contribuir para uma cultura de paz fora de si.

E essa é uma revolução silenciosa que começa sempre no íntimo de cada um de nós e aí procurar conciliar reflexão crítica, experiência pessoal e promoção de uma cultura de paz fundada na dignidade humana e na consciência interior.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

ZÉ DO TELHADO E ROBIN DOS BOSQUES

“Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão”

A lógica da “justiça invertida”

O dilema simbolizado nas figuras Zé do Telhado e Robin Hood e expresso no provérbio “Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão” coloca em tensão três dimensões fundamentais, ou seja, moralidade, legalidade e ordem social. Expressa a tensão entre monopólio estatal da justiça e responsabilidade pessoal, pelo poder exercido (1).

De facto, se alguém rouba quem já roubou, o ato deixa de ser moralmente condenável, porque se trata de uma ética de retribuição popular, baseada na ideia de que o sistema formal falhou porque o injustiçado não tem acesso à justiça institucional e o ato de intervenção directa tenta corrigir um desequilíbrio. Zé do Telhado e Robin Hood encarnam essa lógica.  Anulam simbolicamente a culpa porque a sua ação de fazer justiça pelas próprias mãos é vista como reposição de justiça.

O problema é que lhe falta legitimidade porque é uma narrativa imaginária, não jurídica e fora de uma regra universal.

O paradoxo na democracia contemporânea

No Estado, a justiça deixa de ser privada e passa a ser institucional.

Se o “povo” assume o papel de Robin coletivo, surge um paradoxo porque se age fora da lei e para corrigir injustiças, mina o próprio sistema que lhe garante direitos mas se se respeita integralmente a ordem vigente, pode perpetuar injustiças estruturais.

A questão estará em como transformar a ordem injusta sem destruir a ordem necessária à convivência?

A diferença entre herói individual e ação coletiva

Em sociedade o herói solitário funciona como mito corretivo. O coletivo, porém, quando age sem mediação institucional, pode gerar: ausência de normas tendo como consequência instabilidade social ao substituir uma arbitrariedade por outra; o que no indivíduo é romantizado, na massa pode tornar-se desagregador.

Uma possível resolução do dilema

Atendendo à situação humana e à situação social a solução não está na justiça pelas próprias mãos, mas na transformação estrutural de maneira a instituição canalizar tensões, indignação, etc. também à imagem do que acontece da sublimação da guerra no jogo de futebol. Nesse sentido pode funcionar um voto mais consciente, maior participação cívica, maior presença pública e nas instituições maior transparência, fortalecer a responsabilização e independência judicial. Também maior desobediência civil ética ajuda o sistema em ações públicas desde que não violentem e assumam responsabilidade com o intuito de reformar e não de destruir o sistema. No caso de Robin dos Bosques ele quer substituir o sistema enquanto a cidadania activa pretende transformá-lo.

O problema da anonimidade do poder

No concreto, o cidadão, sem uma estrutura de defesa individual para a generalidade do cidadão, depara-se com o problema da anonimidade do poder dando lugar à diluição da responsabilidade dado as decisões serem coletivas; a burocracia fragmenta competências, a lei é geral e abstrata e a responsabilidade se tornar institucional, não pessoal.

Isto cria um paradoxo porque por um lado o dano é concreto e individual e por outro a responsabilidade é difusa e impessoal. Politicamente, isto gera frustração porque a estrutura do Estado protege a estabilidade do sistema, mas pode falhar na reparação existencial do indivíduo.

Responsabilidade pessoal dos governantes?

Naturalmente uma desejável responsabilização pessoal dos políticos quando há falhas graves, embora fosse moralmente desejável, levanta questões complexas porque um político responde por decisões políticas gerais, mas a aplicação concreta da lei depende de juízes, funcionários, regulamentos. O problema seria de determinar onde começa e onde termina a culpa pessoal. E isso poderia ter como consequência governos paralisados pelo medo de responsabilidade pessoal, uma judicialização excessiva da política e um populismo punitivo.

O problema crítico, porém, é a imunidade que consiste em ignorar completamente a responsabilidade pessoal (sistémica) que gera cinismo democrático.

O fenómeno Robin dos Bosques e Zé do Telhado têm uma dimensão simbólica forte na relação entre estado/política e cidadão. Sim, até porque a lei é muitas vezes percebida como injusta e, pelo menos para uma parte do cidadão, o Estado é visto como distante ou aprisionado por forças de interesse e o povo sente que a moralidade não coincide com a legalidade.

O fora-da-lei torna-se herói porque restaura uma justiça moral quando a justiça formal falha, mas isto é sintoma de falha estrutural e não a solução.

Falta de lógica prática na justiça e cidadão sem rosto perante o poder

O problema teórico aqui abordado é mais de caracter filosófico e teológico do que jurídico. Existe uma dissociação entre a lógica normativa (lei geral) e a lógica vivida (sofrimento concreto). O foque dos interesses seria a tentativa concreta de conciliar a lei que opera por abstração e a dor que opera por singularidade (corresponderia a integrar a abordagem dedutiva com a indutiva). Isto porque quando o sistema não consegue reconciliar essas duas dimensões, instala-se a sensação de injustiça estrutural. Para evitar esse hiato estaria a exigência de coerência ética entre poder e responsabilidade. No meio de tudo isto há também que considerar a estrutura sistémica e natural da natureza humana e instituições pois têm como base o “pecado original” e ao personalizar demasiado os problemas a própria responsabilidade poderia obscurecer a natureza sistémica dos problemas.

A injustiça muitas vezes não nasce da má intenção individual de um governante, ou de um cidadão, mas de a injustiça, muitas vezes, da própria natureza, de estruturas complexas, de incentivos perversos, de excesso de burocracia, de lentidão institucional e das falhas culturais.

Punir indivíduos pode aliviar simbolicamente, mas não resolve necessariamente o mecanismo que produziu o dano.

O que está realmente em causa não é apenas responsabilidade jurídica, mas reconhecimento. Quando alguém sofre dano e o sistema responde com linguagem abstrata, sente-se: invisível, dissolvido na estatística e sem rosto perante o poder.

Nestas condições como pode um Estado manter legitimidade moral se não responde pessoalmente ao sofrimento concreto?

A questão entre a legitimidade moral do estado e o sofrimento individual do cidadão vem da natureza da instituição e da natureza do indivíduo que no palco da existência se legitimam mutuamente tornando tudo processo e como tal praticamente intangível. Isto implicará sempre um processo dialético entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia.

O Estado não é uma entidade externa como uma rocha ou uma árvore, porque existe enquanto relação. Ele é processo, não substância. Georg Wilhelm Friedrich Hegel, para quem o Estado não é apenas máquina administrativa, mas manifestação histórica do espírito coletivo. O indivíduo forma o Estado, e o Estado forma o indivíduo. Não há um sem o outro e daí nasce a dor que é o preço de vivermos em comunidade organizada.

Assim enquanto o indivíduo é concreto, sofre no corpo, vive no tempo biográfico, sentindo a injustiça como ferida. Por seu lado a instituição opera por abstrações, pensa em categorias, age por normas gerais e preserva estabilidade sistémica.

Como compromisso adequado poderia o estado criar instituições jurídicas fortes (de caracter Zé do Telhado) com autoridade independente que assumam os casos em que o cidadão se sente lesado. Quando o sofrimento singular se debate com a norma geral, surge fricção. A legitimidade moral do Estado depende da sua capacidade de converter dor concreta em resposta institucional. Mas a sua própria natureza abstrata impede-o de responder como a pessoa que responde a pessoa. Naturalmente isso cria um vazio experiencial. De facto, tudo se encontra em processo, quer a justiça e  a legitimidade, quer a própria identidade social. Tudo está em mediação constante, mas o problema é que o sofrimento não é processual, mas imediato e essa assimetria cria sofrimento.

A dialética entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia

O problema não pode ser resolvido dentro de um único campo porque filosofia e teologia questionam legitimidade e sentido; a jurisprudência organiza normas e responsabilidades e a psicologia explica perceção de injustiça, ressentimento e confiança. Sem esta triangulação, qualquer resposta será parcial.

De facto, uma solução jurídica pode ser formalmente correta, mas psicologicamente insatisfatória. Uma resposta emocional pode ser politicamente destrutiva e uma solução filosófica ou teológica pode ser impraticável institucionalmente.

O trágico da vida humana tem de ser aceite e até reconhecido porque se trata de uma condição estrutural da vida política e do caracter antropológico e sociológico humano. O hiato entre norma e vida não se pode eliminar, apenas reduzir porque permanece um conflito permanente. E isto porque há sempre um resto conflituoso humano e natural num sentimento de injustiça não absorvido, numa dor não traduzível em artigo legal e uma responsabilidade que se dilui no sistema. O ser humano é estruturalmente imperfeito (“pecado original” ou falha natural ou sistémica).

A legitimidade moral do Estado não consista em eliminar o sofrimento individual, mas em reconhecer publicamente à sua inevitabilidade, criar mecanismos de responsabilização claros, manter transparência e preservar e criar espaços onde o indivíduo seja ouvido e defendido como cidadão singular. Temos que honestamente reconhecer e admitir que a tensão entre indivíduo e instituição não é falha do sistema, mas consequência inevitável de vivermos em comunidade organizada.

Uma sociedade acordada debate-se hoje de maneira especial com a vigilância digital em massa, o uso de dados biométricos (batimentos cardíacos, reconhecimento facial, padrões emocionais), concentração de poder em Estados ou grandes corporações e IA aplicada à análise comportamental. Tudo isto, num tempo de tendências globalistas tende a ameaçar a integridade e a dignidade humana. Uma vez que a vigilância biométrica se torna normalizada, abre-se a porta a regimes potencialmente autoritários. Como exemplo temos as medidas da pandemia de COVID-19, implementada pelo SMS da ONU onde se pode observar que crises aceleram a adoção de tecnologias de vigilância, e que medidas temporárias podem tornar-se permanentes. Isto são cenários possíveis dado o Estado ter tendência para expandir controlo.

A instituição já tem capacidade de monitorizar emoções, antecipar dissidência e como se vê na discussão pública sobre populismo muitos governantes já classificam cidadãos por risco ideológico.
Com esta prática estão a violar o espaço interior da pessoa.

Síntese

O provérbio inicial expressa uma justiça emocional enquanto a democracia exige uma justiça institucional.

O dilema resolve-se quando se compreende que: A verdadeira “justiça popular” não é a vingança coletiva, mas a capacidade a adquirir pelo povo para reformar a ordem sem abdicar da ordem.

Assim, o “Robin comunitário”, o nosso Zé do Telhado, não pode ser um fora-da-lei coletivo, mas um povo politicamente maduro, capaz de transformar estruturas sem dissolver a convivência social. Enquanto este processo não se acelerar dá-se sustentabilidade ao domínio de grupos oligárquicos e à afirmação do autoritarismo dado os seus recursos hoje à mão são de ordem ainda não registada no decurso da história humana.

O risco vem da combinação entre tecnologia avançada, crises sociais, medo coletivo, e instituições sem limites claros

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O povo renunciou à justiça pelas próprias mãos em favor da ordem do Estado. Aqui  há uma referência  à lógica do contrato social, desenvolvida por pensadores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. A ideia central é simples: para evitar o caos e a vingança privada, os indivíduos transferem ao Estado o poder de julgar e punir. Se o Estado assume o monopólio da justiça, então também deve assumir plenamente a responsabilidade pelas falhas dessa justiça.