QUANDO A POLÍTICA ESQUECE O HOMEM

Para ser lido num dia de eleições e pensado no dia seguinte

Num dia de eleições, quando o país se enche de debates, promessas e espectáculos televisivos, talvez valha a pena parar um pouco e dizer aquilo que anda esquecido: o maior problema do nosso tempo não é apenas político nem económico; é sobretudo humano.

Os candidatos falam, os comentadores analisam, os entrevistadores perguntam, muitas vezes sem verdadeira escuta. E, no meio de tanto ruído, a pergunta essencial fica sem resposta: que ideia de pessoa humana sustenta o sistema que nos governa?

Portugal não é excepção. É sintoma.

Vive esta realidade de forma clara. A política transformou-se, em larga medida, num exercício de imagem e de curto prazo. Discute-se tudo com ar grave, mas raramente se toca no essencial; fala-se de tudo,  menos daquilo que estrutura o quotidiano real das pessoas. A saúde que não responde como devia, a burocracia que desgasta, a carência silenciosa de quem trabalha e mesmo assim não chega ao fim do mês, a solidão de muitos idosos, a invisibilidade de quem não tem voz nem palco mediático.

O sistema cria fragilidades e depois surpreende-se com a desconfiança, a abstenção e o afastamento dos cidadãos. Mas como confiar numa política que fala de progresso enquanto trata o humano como um problema de gestão?

Aqui não está apenas em causa a competência técnica ou a boa vontade dos actores políticos. Está em causa algo mais profundo: a visão do homem. Sem uma ideia clara do que é a pessoa humana, a política torna-se um conjunto de procedimentos sem alma.

Vivemos numa sociedade que deixou de confiar no bom senso comum e na ordem natural das coisas para se agarrar quase exclusivamente ao poder: poder económico, poder técnico, poder mediático. E quando o poder deixa de ser acompanhado por uma consciência moral partilhada, o resultado não é mais liberdade, mas mais desencontro. Como já se dizia há séculos, o homem torna-se lobo do homem, hoje com linguagem polida, gráficos bem desenhados e relatórios impecáveis.

A Europa, vista a partir de Bruxelas, dá sinais claros desse cansaço. Uma Europa saturada de normas, directivas e regulamentos, mas cada vez mais pobre de sentido. Regula muito, controla mais, explica pouco e escuta menos ainda. Fala de valores, mas evita perguntar de onde vêm e para que servem. Governa-se como um sistema e esquece-se de que é, antes de mais, um conjunto de povos e de histórias.

Numa Europa fragmentada por dentro e por fora, perdeu-se até a noção de geografia humana. Governam-se territórios como se fossem quadros estatísticos, esquecendo que são pessoas concretas, com culturas, memórias e fragilidades próprias.

É neste contexto que a questão ética se torna inevitável. Não como moralismo, nem como regresso ao passado, mas como condição mínima de futuro. Sem um chão ético comum, nenhuma democracia resiste por muito tempo. Não por falta de leis, mas por falta de rumo.

Uma ética mundial, como a pensou Hans Küng, não pretende uniformizar consciências nem impor crenças. Procura apenas algo essencial: um acordo mínimo sobre o respeito pela dignidade da pessoa humana, acima de interesses económicos, ideológicos ou geopolíticos. É pouco e, ao mesmo tempo, é tudo.

Para a Europa e também para Portugal, isso implicaria uma relação mais honesta com as suas próprias raízes culturais e espirituais. Não para misturar religião com poder político, nem para restaurar velhas hegemonias, mas para deixar de tratar o cristianismo apenas como um incómodo ou um resíduo do passado. Quando liberta da tentação do poder, a tradição cristã foi uma escola de universalidade: ensinou que cada pessoa conta, que o outro não é um número, nem um meio, nem um obstáculo, mas alguém. Bruxelas regula com precisão, mas já não sabe para quê. Fala de valores, mas evita perguntar pela sua fonte. Governa territórios sem pensar a geografia humana que os habita.

Sem essa memória ética, a política reduz-se à administração do imediato. E os dias de eleições tornam-se dias de ruído, não de verdadeira escolha. Discute-se o acessório, evita-se o essencial.

Talvez, ao entrar numa cabine de voto, a pergunta mais importante não seja apenas em quem votar, mas que tipo de sociedade queremos alimentar. Porque, no fim, não são apenas os programas que moldam um país é a ideia de homem que os inspira.

E essa é hoje a urgência mais silenciosa, mas também a mais decisiva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

RAINER RILKE À LUZ DE NUNO ÁLVARES PEREIRA

O Indivíduo na Sociedade e a Sociedade no Indivíduo: Ninguém se pensa sozinho

A relação entre o indivíduo e a sociedade é marcada por uma tensão constitutiva, isto é, o ser humano é simultaneamente sujeito singular e realidade relacional (sujeito social). Não existe um “eu” puro fora do “nós”, nem um “nós” abstrato que dispense a interioridade pessoal.

Para tornar visível esta tensão e a sua fecundidade, recorro a duas figuras paradigmáticas do século XX e uma do século XIV: Rainer Maria Rilke, poeta da interioridade e do devir existencial, Dietrich Bonhoeffer, teólogo da responsabilidade comunitária e da ação histórica e Nuno Álvares Pereira, estratega militar português (1) que pode figurar como configuração exemplar e integradora dos dois.

Ambos recusam soluções fáceis. Ambos pensam o humano como processo. Mas situam-se em polos diferentes dessa mesma tensão.

Rilke e a primazia da interioridade vivida

Rilke escreve: «Não procures agora as respostas que não te podem ser dadas, porque não as podes viver. Trata-se de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez então, sem te aperceberes, um dia vivas gradualmente a resposta.»

E ainda: «Nunca se deve desesperar quando se perde algo, uma pessoa, uma alegria, uma felicidade; tudo volta ainda mais maravilhoso.»

Estas palavras condensam o núcleo do pensamento rilkeano expresso na vida como processo de maturação interior, em que o sentido não é imposto de fora, mas emerge da experiência vivida. A verdade não é um objeto a possuir, mas um acontecimento a atravessar. Esta atitude exige paciência, abertura à incerteza e confiança na potência transformadora do tempo vivido.

Rilke insere-se na tradição existencialista e na filosofia da vida, onde a autenticidade da experiência interior se torna critério supremo. “Viver as perguntas” significa aceitar que o sentido não se revela de modo abstrato ou imediato, mas se encarna lentamente na biografia. A promessa de um “retorno mais maravilhoso” não é um mecanismo de compensação moral, mas a afirmação de que a perda pode transfigurar-se em profundidade.

Enquanto ética pessoal, esta atitude é de grande valor porque protege contra o desespero imediato; resiste à compulsão de respostas rápidas e oferece um antídoto contra o ativismo ansioso e superficial.

No entanto, esta ética pessoal não é suficiente.

A sociedade que habita o indivíduo limita a interioridade isolada

Uma crítica legítima ao pensamento de Rilke é a sua radical subjetividade. O foco quase exclusivo na interioridade corre o risco de obscurecer uma dimensão fundamental da existência: a sociedade vive no indivíduo e ao mesmo tempo o indivíduo vive na sociedade.

As nossas perguntas não nascem num vazio. Elas são moldadas por estruturas económicas e políticas, pela linguagem e sistemas simbólicos, pelas relações de poder, por traumas coletivos, por memórias históricas e tradições culturais e pela saudade do espiritual.

A pergunta decisiva que Rilke não formula é: quem pode, de facto, “viver as perguntas”?

Para um sujeito em situação de precariedade extrema, violência estrutural ou trauma social, a confiança num “retorno mais glorioso” pode soar não a sabedoria, mas a cinismo involuntário. Há sofrimentos que não se resolvem apenas por trabalho interior, porque não são apenas interiores.

Aqui surge uma lacuna que também se fez sentir historicamente na teologia cristã, sobretudo quando esta privilegiou excessivamente a antropologia moral em detrimento da sociologia e da política. Ao focar-se no indivíduo abstrato, descuidou o homo politicus, o ser humano enquanto nó de redes informacionais, culturais e institucionais.

O ser humano não é apenas espírito e consciência, ele é também informação genética, informação cultural e informação processual. Forma-se em ecossistemas simbólicos, narrativos e tecnológicos. A sua opinião, identidade e ação emergem de processos coletivos, hoje amplificados por sistemas algorítmicos e mediáticos, um aspeto que a inteligência artificial torna particularmente visível.

Sem instituições, sem memória coletiva e sem tradição, o ser humano não se torna mais livre: regressa a um estado de imediatismo instintivo, vivendo num presente sem profundidade temporal. Rilke rejeitou dogmas e instituições, com razão em certos contextos, mas sem alguma forma de institucionalização simbólica, não há cultura, nem futuro, nem responsabilidade histórica.

Assim, as palavras de Rilke não são falsas, mas são incompletas.

Bonhoeffer: da interioridade à responsabilidade histórica

É aqui que o pensamento de Dietrich Bonhoeffer se torna decisivo. Ele escreve: «A glória final não é que o mundo seja julgado e condenado, mas que Cristo, através da sua cruz, que é também a cruz da comunidade, perdoe o mundo e faça a paz.»

À primeira vista, esta afirmação pode parecer resignada. Mas essa leitura dissolve-se quando se considera o contexto existencial de Bonhoeffer.

Ele não escreveu a partir de uma torre de marfim espiritual, nem a partir do espírito do tempo, mas do interior da resistência ativa ao regime nazi, pagando com a própria vida. A sua teologia nasce no limite, onde pensar e agir coincidem.

A “cruz da comunidade” não é símbolo de passividade, mas de solidariedade ativa. A comunidade cristã não existe para julgar o mundo a partir de uma suposta superioridade moral, mas para assumir o peso do mundo, criando espaço real para reconciliação, justiça e paz.

Paz como ação criadora, não como capitulação

Para Bonhoeffer, “promover a paz” (eirēnopoiein) é uma tarefa profundamente ativa. Não significa evitar conflitos, mas romper o ciclo da violência, da vingança e da humilhação moral. O pacificador não é neutro: ele paga o preço da reconciliação.

A sua crítica à “graça barata” é aqui central. Uma espiritualidade que se refugia no interior ou se limita a julgamentos piedosos é uma traição ao real e à própria filosofia e mística cristã. A graça é cara porque exige responsabilidade histórica, intervenção concreta e risco pessoal.

A aparente renúncia ao juízo condenatório não é fraqueza política, mas uma estratégia ética radical em que o objetivo não é destruir o adversário, mas restaurar a comunidade, o “shalom”, mesmo quando isso exige decisões duras, como a própria participação de Bonhoeffer na resistência conspirativa contra Hitler.

Rilke e Bonhoeffer são duas faces de um mesmo processo humano

Rilke e Bonhoeffer não se opõem; complementam-se.

Rilke recorda-nos que sem interioridade não há autenticidade, apenas adaptação funcional.

Bonhoeffer lembra-nos que sem responsabilidade social a interioridade degenera em narcisismo espiritual.

Rilke trabalha o tempo interior da maturação e Bonhoeffer assume o tempo histórico da decisão.

Ambos rejeitam respostas fáceis e confiam em processos transformadores. Mas em Bonhoeffer esses processos são explicitamente orientados para a mudança social, para a justiça encarnada, para a paz construída, algo que contrasta fortemente com a política contemporânea, dominada pela lógica da polarização, da humilhação do adversário e da vitória simbólica.

Rilke à luz de Nuno Álvares Pereira como interioridade encarnada

Para que o pensamento de Rilke não permaneça suspenso numa interioridade sem corpo histórico, é fecundo colocá-lo em diálogo com uma espiritualidade que soube viver as perguntas no meio do conflito real. Aqui, a figura de São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira) revela-se exemplar.

São Nuno viveu numa sociedade marcada por oposições extremas: guerra e paz, fidelidade nacional e universalidade cristã, poder militar e despojamento espiritual. Foi estratega, condestável, combatente decisivo na consolidação da independência portuguesa e, no entanto, o seu maior combate não se deu no campo de batalha exterior, mas no interior de si mesmo. A sua vida mostra que a verdadeira tensão formadora não é apenas entre o eu e a sociedade, mas entre o eu e o próprio ego.

Se Rilke nos convida a “viver as perguntas”, São Nuno mostra como fazê-lo quando a vida não permite retirada, quando a decisão é urgente e o sofrimento coletivo é real. Ele não fugiu do mundo para se tornar santo; tornou-se santo atravessando o mundo, transfigurando por dentro aquilo que por fora parecia apenas violência, ambição ou identidade nacional.
O seu nacionalismo não se absolutizou: purificou-se.
A coragem militar não se cristalizou em orgulho: transformou-se em fé.
A lealdade ao rei e à pátria não degenerou em exclusão: amadureceu em caridade universal.

Neste sentido, o “Santo Condestável” realiza aquilo que em Rilke permanece sobretudo como potencial: a integração entre trabalho interior e responsabilidade histórica. A sua espiritualidade não é uma negação da identidade, mas uma metamorfose dela. Ele não destrói o “eu”; em vez disso, converte-o. O egoísmo, a indiferença e a autossuficiência, inimigos silenciosos mais perigosos do que qualquer exército, são combatidos diariamente, até que neles floresça uma humanidade mais ampla e reconciliada. Isto é o que não se encontra nos políticos hodiernos e por isso a falta de humanismo, de coerência e de lógica política.

Diferentemente de uma espiritualidade puramente intimista, São Nuno mostra que o crescimento interior não afasta do mundo, mas aprofunda a forma de estar nele. A sua passagem da espada ao hábito carmelita não foi uma fuga tardia, mas a consumação lógica de um caminho interior já vivido em plena ação. Ele prova que a santidade não é incompatível com a política, nem a fé com a lucidez histórica, desde que o centro da luta seja deslocado do inimigo exterior para a conversão do coração.

Com Nuno Álvares Pereira, Rilke ganha realismo caminhável porque a “vida das perguntas” deixa de ser apenas uma ética da paciência interior e torna-se uma pedagogia da transformação do desejo, onde o sentido não é apenas esperado, mas incarnado em gestos, escolhas e renúncias concretas. São Nuno é, assim, a resposta viva à crítica sociológica feita a Rilke: ele mostra que é possível viver as perguntas sem ignorar o sofrimento coletivo, e crescer interiormente sem abandonar a responsabilidade pelo destino comum.

Com Nuo Álvares Pereira compreende-se que a tensão entre o eu e o nós, entre o privado e o público, entre o sagrado e o profano, não é um problema a eliminar, mas é o lugar onde o Homem se forma, porque a identidade nasce da tensão, não da fuga. (Da ipseidade, identidade própria e simultaneamente do reconhecimento de que a sociedade habita em nós).

O desafio contemporâneo não é escolher entre interioridade ou ação, mas integrá-las (Nuno torna-se exemplo de identidade, tensão e encarnação).

Viver as perguntas, sim, mas também assumir a responsabilidade pelas respostas que se tornam possíveis no mundo comum.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Nota explicativa

A presente reflexão insere-se num diálogo entre duas coordenadas do pensamento moderno que ao serem integradas na pessoa humana e na sociedade de que é exemplo Nuno Álvares Pereira contribuem para uma sociedade com futuro qualitativo: a poética da interioridade e da singularidade existencial de Rainer Maria Rilke e a teologia da responsabilidade concreta e do compromisso social de Dietrich Bonhoeffer. Estas perspetivas, aparentemente antitéticas, uma voltada para a profundidade do eu e a outra para a exigência do outro, são convocadas aqui como lentes para reler a figura histórica e paradigmática de Nuno Álvares Pereira.

A opção por este diálogo justifica-se pela convicção de que a grandeza humana plena reside precisamente na capacidade de integrar estes dois polos. Rilke, cantor da “solidão essencial” e da necessidade de “guardar-se no próprio íntimo”, representa a imperativa jornada de autenticidade individual, o cultivo de uma interioridade forte e consciente para que já os místicos sempre apontavam com base num substrato espiritual. Bonhoeffer, mártir da resistência ao totalitarismo, advoga uma “graça custosa” que se materializa em ação no mundo, numa “responsabilidade para com a história” que exige empenho, decisão e risco em prol da comunidade.

Nuno Álvares Pereira emerge, nesta triangulação, como a figura histórica portuguesa que corporiza de forma quase arquetípica a síntese destas duas dimensões. A sua trajetória revela, primeiro, uma interioridade rilkeana de granítico propósito e convicção íntima: a sua fé, o seu sentido de destino, a sua resolução inquebrantável perante a dúvida alheia nas vésperas de Aljubarrota falam de um homem que escutou os ventos que vêm do Alto e se fortaleceu numa certeza interior. Contudo, essa força interior não se recolheu num misticismo passivo. Pelo contrário, projetou-se numa ação bonhoefferiana de decisão extrema e responsabilidade social e política. Assumiu o peso da história no momento crítico, colocou o seu génio militar e a sua autoridade moral ao serviço de uma causa coletiva, a independência e a coesão do reino, aceitando o custo e o sangue dessa responsabilidade.

Deste modo, o Condestável não é apenas o herói militar ou o santo religioso da narrativa tradicional. Ele torna-se o emblema da integração entre a fortaleza da alma (Rilke) e a audácia de garra (Bonhoeffer). A sua vida posterior, de renúncia aos títulos e entrega aos pobres no Convento do Carmo, consuma este percurso: a interioridade levou-o ao desapego, e o sentido de responsabilidade redirecionou-se para o serviço humilde.

O empenho que guia esta e outras minhas reflexões é, precisamente, levar o leitor a pensar por si próprio, mas fazendo-o a partir de um cruzamento de saberes, uma visão enciclopédica que confronta filosofia, teologia, história e literatura. Acredita-se que é neste território de diálogo transdisciplinar que o pensamento se liberta de caminhos únicos e descobre as conexões profundas que tecem a experiência humana, encontrando em figuras como Nuno Álvares Pereira um exemplo perene e desafiador para o nosso tempo.

António da Cunha Duarte Justo

(1) Nuno Álvares Pereira (1360-1431) consolidou a independência de Portugal, como herói da Batalha de Aljubarrota (1385). Assumiu o comando do exército português e infligiu duras derrotas aos espanhóis em Atoleiros e Aljubarrota, assegurando assim a independência do país e a coroa para D. João I.

Líder durante a crise, tornou-se mais tarde místico e servo dos pobres. É considerado um símbolo de bravura, honra e profunda piedade, sendo uma das figuras mais notáveis ​​da história portuguesa.

Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 1918 e canonizado pelo Papa Bento XVI em 2009, o que sublinha a sua importância enquanto herói nacional e santo (“Santo Condestável”).

CARTA-ABERTA AOS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA

Aos onze Candidatos que aspiram representar a Nação:

Escrevo esta carta não apenas em meu nome, mas na qualidade de porta-voz de milhões de portugueses cujas vozes raramente ecoam nos corredores do poder. Dirijo-me a vós com a esperança de quem ainda acredita que a democracia pode ser mais do que um exercício formal, e que os governantes podem verdadeiramente servir o seu povo.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente, escrevi-lhe expondo estas mesmas preocupações. A carta ficou sem resposta, como tantas outras vozes que se erguem e se perdem no vazio. Dirijo-me agora a vós, candidatos, com a esperança de que pelo menos um demonstre que a democracia portuguesa ainda ouve o seu povo. Respondei a estas questões. Mostrai que sois diferentes.

Há questões fundamentais que exigem respostas claras e compromissos firmes. Não peço promessas vazias, mas coragem política para enfrentar aquilo que durante décadas tem permanecido intocável por conveniência ou cobardia.

A Questão Constitucional que ninguém ousa discutir

Quem entre vós se atreve a propor a eliminação do preâmbulo da Constituição da passagem que aponta como objetivo do Estado o “rumo ao socialismo”?

Esta não é uma questão meramente técnica ou simbólica. Numa democracia verdadeiramente plural, o Estado não pode estar constitucionalmente comprometido com uma única ideologia política. Este anacronismo, herdado de um momento revolucionário específico da nossa história, colide frontalmente com o princípio da neutralidade do Estado e com a liberdade política que deve caracterizar uma sociedade democrática.

Durante décadas, todos os partidos do chamado “arco do poder” mantiveram um silêncio cúmplice sobre esta anomalia. Porquê? Que interesses se escondem por detrás desta recusa em abrir o debate? Uma Constituição deve unir todos os portugueses, não consagrar a visão de mundo de apenas uma parte deles.

A nossa história recente foi quase toda narrada a partir de um único enquadramento ideológico, que impôs limites ao pensamento e ao debate público. Exijo, em nome dos portugueses que desejam uma democracia madura, que este tema seja finalmente discutido sem tabus e sem chantagens morais.

O Povo esquecido

Enquanto nos pedem que sigamos, sem discussão interna, as decisões das potências europeias e os seus interesses geopolíticos e económicos, incluindo o financiamento de conflitos distantes, o povo português sofre em silêncio:

– 1,4 milhões de reformados sobrevivem com pensões iguais ou inferiores a 500 euros mensais. São pessoas que trabalharam uma vida inteira, que construíram este país, e que agora são abandonadas à miséria e à indignidade.

– 14.476 portugueses vivem nas ruas ou em condições precárias, entre os quais 1.686 casais sem teto e 263 famílias sem casa. Estas não são estatísticas abstratas. São seres humanos, compatriotas nossos, que perderam tudo enquanto os recursos da nação são desviados para prioridades alheias ao bem-estar do povo.

Como é possível que um Estado que se proclama social permita tamanha injustiça? Como podemos falar de solidariedade europeia quando não somos capazes de cuidar dos nossos próprios cidadãos?

A pergunta que exige resposta

Quem entre vós se compromete, como tarefa principal, a defender o bem comum e a felicidade do povo português?

Quem terá a coragem de dizer “basta” à subserviência automática perante interesses que não são os nossos? Quem colocará as necessidades concretas dos portugueses acima dos jogos de poder internacional?

Não vos peço que sejais inimigos da Europa ou do mundo. Peço apenas que sejais, antes de tudo, defensores de Portugal e dos portugueses. Que tenhais a dignidade de afirmar que, antes de contribuir para guerras ou para os orçamentos de burocracias distantes, temos a obrigação moral de garantir que nenhum idoso morre de frio ou de fome, que nenhuma família dorme na rua, que nenhum trabalhador é condenado à pobreza depois de uma vida de esforço.

Um apelo à coragem

Esta carta é um desafio. Um desafio para que pelo menos um de vós se erga acima do conformismo político e diga as verdades que outros calam. Para que alguém tenha a honestidade de reconhecer que a nossa democracia tem limites artificiais que precisam de ser ultrapassados.

O povo português merece governantes que o respeitem, que o ouçam, que defendam os seus interesses com a mesma determinação com que defendem os interesses de Bruxelas ou de Washington. Merece líderes que não tenham medo de abrir debates incómodos, de questionar consensos falsos, de colocar a justiça social acima da conveniência partidária.

Pergunto-vos, candidatos (1): tereis essa coragem?

Ou continuaremos a assistir ao espetáculo de campanhas vazias, repletas de sorrisos e promessas, mas desprovidas da substância e da ousadia necessárias para transformar verdadeiramente a vida dos portugueses?

O país espera. O povo aguarda. E a história julgará não apenas as vossas palavras, mas sobretudo o vosso silêncio.

António da Cunha Duarte Justo
Cidadão português, jornalista e defensor de uma democracia mais justa e verdadeira

 

(1) Dos 11 candidatos, os principais:

Marques Mendes

João Cotrim de Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal)

Catarina Martins (apoiada pelo Bloco de Esquerda)

António Filipe (apoiado pelo PCP)

Jorge Pinto (apoiado pelo Livre)

André Ventura

António José Seguro

 

Astronomia Eleitoral da Diáspora

Não é de novos astros e programas
que precisa a astronomia política da emigração,
mas da antiga gravidade da vergonha
e do peso terrestre, da responsabilidade.

Crónica poética

O emigrante não olha o céu por ingenuidade.
Olha por saudade.
E a saudade, como se sabe,
é um telescópio defeituoso:
aproxima o passado
e desfoca o presente.

De quatro em quatro anos,
o céu da emigração enche-se de sinais.
Não são estrelas,
são políticos em combustão emocional,
treinados para cintilar com brilho alugado
no tempo necessário de promessas recicladas
para acordar a nostalgia
e adormecer a razão.

Chegam carregados de pátria portátil:
um hino dobrado no bolso,
um discurso com cheiro a infância
e um sorriso calibrado
para quem ainda diz “lá na terra”
como se o tempo não tivesse também emigrado.

Entram nas associações
com a perícia de quem conhece o público:
falam de sacrifício
a quem sacrificou a vida inteira,
falam de futuro
a quem vive suspenso do passado,
e falam de respeito
com a ligeireza de quem parte
antes que a palavra pese.

Escoltados ao restaurante antigo:
sabem onde fica a mesa,
quem paga o vinho
e quem ainda acredita no brinde.
Sorriem com dentes de campanha,
riem alto,
o riso é a única obra concluída.

O emigrante escuta.
Não por crença,
por educação emocional.
A saudade ensina a ouvir,
a não interromper,
a sorrir mesmo quando dói.
É aí que a caça ao voto se torna arte:
não pescam ideias,
pescam emoções antigas.

Passadas as eleições,
o céu volta ao normal.
O poder recolhe-se ao cais,
fecha o casaco,
descansa.
A maré baixa
e deixa à vista
as mesmas pedras,
os mesmos atrasos,
a mesma ausência de obras
que não cabem em discursos.

Vira o disco.
Toca o mesmo,
agora sem música.

Há activistas de posto fixo,
sentinelas da esperança alheia,
que lançam cravos ao vento
como se o povo não tivesse jardim
ou como se o vento votasse.
Vivem no luar do partido,
distribuindo palavras
que nunca conheceram o sol.

Há as vozes permanentes,
astronautas de partido,
que orbitam a diáspora
falam de liberdade, democracia
como se fosse propriedade ideológica.
Nos seus media falam da emigração
com a convicção paternal
de quem acha que o povo
precisa sempre de ser lembrado
do que deve sentir.

Vivem da lua partidária,
onde nunca é noite e nunca é dia.
Confundem lealdade com repetição
e chamam consciência política ao eco.

No céu da diáspora
não há constelações:
há meteoros emocionais, de fogo curto
bons para pedidos rápidos,
e meteoritos antigos,
que ficam a fazer fumo no ar
com a arte antiga do maldizer
para esconder o vazio.

O emigrante apresenta desejos.
Não porque acredite,
mas porque a saudade insiste.
Pede em português antigo,
com verbos no passado
e esperança no condicional.
Não vê que a luz é emprestada
nem que o fogo é curto:
a emoção chegou primeiro.

Dizem que são sinais divinos,
mensagens dos deuses eleitorais.
Mas são deuses preguiçosos, fruto do voto facilitado
que exigem longas peregrinações para votar
e oferecem, em troca,
o direito de continuar esquecido.
Se respeitassem a diáspora,
já teriam encurtado a distância
entre o gesto e a urna.

Pescam votos no mar da saudade,
não no da razão.
E como a rede da mudança
volta sempre vazia,
culpam o povo por não acreditar
no milagre repetido.

Esquecem que o povo,
cansado de rezar a estrelas,
prefere ficar em terra,
a ver passar o fogo-de-artifício
da legislatura.

Em quarenta anos no meio,
aprendi a astronomia real:
as estrelas passam,
o migrante fica.
E o emigrante também nota
a astronomia difícil:
o passado não volta,
a saudade não governa
e estrelas cadentes
não constroem presente.

Enquanto a política continuar
a explorar a emoção
em vez de respeitar a experiência,
o céu da emigração
continuará cheio de brilho inútil.
Cabe ao emigrante,
rico em inteligência emocional,
usar essa mesma saudade
não como âncora,
mas como memória crítica.

Porque quem viveu longe
já aprendeu o essencial:
nem toda a luz guia,
nem todo o sorriso aquece,
e nem toda a estrela
merece desejo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

SALAZARISMO ENTRE IDEOLOGIA E GEOPOLÍTICA

Da Substituição de soberanias em favor dos contraentes geopolíticos USA e União Soviética

A discussão sobre a natureza do salazarismo continua, ainda hoje, fortemente condicionada por categorias ideológicas forjadas no contexto da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, da Guerra Fria. O debate público e historiográfico tende a enquadrar o regime de Salazar quase exclusivamente numa oposição binária entre “fascismo” e “democracia”, uma grelha de leitura que foi eficaz como instrumento de combate político no imediato pós-1945, mas que se revela manifestamente facciosa para uma compreensão histórica mais ampla e rigorosa.

Essa dicotomia simplifica excessivamente a realidade. Ao reduzir o salazarismo a uma etiqueta ideológica, perde-se a possibilidade de o analisar na sua totalidade histórica, isto é, na articulação entre três dimensões fundamentais: a sua estrutura interna de poder e governação; as condicionantes externas, nomeadamente a posição periférica de Portugal no sistema internacional e a lógica geopolítica global, marcada pela competição entre grandes potências Socialismo e capitalismo) e pelos interesses imperiais em transformação.

O discurso político do pós-25 de Abril tornou-se míope limitando-se a transpor acriticamente a luta da Guerra Fria para o plano de discussão política interna.

O efeito mais duradouro e, em certo sentido, mais trágico para a sociedade portuguesa foi o facto de a rivalidade entre o imperialismo americano e o imperialismo soviético ter sido internalizada no discurso político nacional após o 25 de Abril de 1974. Em vez de promover uma reflexão autónoma sobre o passado e o futuro do país, essa clivagem externa passou a estruturar grande parte das discórdias entre os partidos portugueses.

No contexto revolucionário, acabou por prevalecer, no plano simbólico e cultural, uma leitura fortemente marcada pela visão socialista pró-soviética, que se impôs como matriz interpretativa dominante da História portuguesa recente. O salazarismo tem sido lido quase exclusivamente através do prisma antifascista, herdado da propaganda e da linguagem política da Guerra Fria, enquanto outras dimensões, nomeadamente a geopolítica e a questão imperial, foram marginalizadas ou tratadas como não existentes. Assim Portugal foi condicionado nas últimas cinco décadas a uma cultura política ideológica enviesada e intolerante com a consequente perda de uma via própria e de maturidade na análise política.

Esse enquadramento teve consequências profundas. Ao invés de fomentar uma cultura política orientada para a paz, a autonomia crítica e o pluralismo histórico, contribuiu para condicionar o imaginário coletivo a novos imperialismos, agora de natureza ideológica. O povo português libertou-se de um regime autoritário, mas não se libertou das lógicas ideológicas imperiais que continuaram a moldar o discurso político, apenas sob novas cores conotadas agora por um autoritarismo moralista.

A metáfora do cravo é elucidativa: ao identificar a liberdade exclusivamente com o cravo vermelho (símbolo de ideais revolucionários), não reconheceu a riqueza multicolor da liberdade, feita de diversidade de interpretações, de memória crítica e de caminhos alternativos que não se esgotam numa única narrativa vencedora.

O texto de Rui Ramos (1) que me motivou a fazer esta análise, tem o mérito de desmontar a redução simplista do Estado Novo a um “fascismo português”, distinguindo com rigor académico o autoritarismo conservador do regime de Salazar das experiências totalitárias de mobilização de massas características dos fascismos da época (Alemanha e Itália). No entanto, essa leitura permanece essencialmente interna ao espaço ideológico europeu, deixando em segundo plano um factor decisivo: a questão imperial e a posição estratégica de Portugal num mundo em recomposição.

O Império como Chave de Leitura Central

Para Salazar, o império não foi um adorno ideológico nem um resíduo do passado, mas o fundamento material da soberania portuguesa. Num contexto em que as grandes potências emergentes, Estados Unidos e União Soviética, estruturavam a ordem mundial em torno de esferas de influência, Portugal surgia como uma anomalia: um pequeno país europeu com uma presença territorial transcontinental, estrategicamente localizada em África, no Atlântico e no Índico, o que impedia por si uma distribuição do território na política de confrontação entre os dois polos geopolíticos.

A resistência de Salazar à descolonização não pode ser compreendida apenas como conservadorismo ou cegueira ideológica, como apregoam ideologias partidárias. Ela inscreve-se numa percepção, discutível (vista da perspectiva geopolítica de hoje talvez profética), mas coerente, de que o fim do império português não conduziria à autodeterminação real dos povos coloniais, mas antes à substituição de uma soberania fraca por dependências fortes, fossem elas soviéticas ou norte-americanas. A experiência posterior de vários Estados africanos durante a Guerra Fria, rapidamente integrados em lógicas de guerra por procuração e neocolonialismo económico, não torna essa perceção totalmente infundada.

Neste sentido, o salazarismo revela-se menos como um regime ideológico fechado e mais como uma estratégia defensiva de sobrevivência estatal, ancorada numa leitura profundamente desconfiada da ordem internacional emergente. Por isso embora Portugal tenha feito parte dos países fundadores da NATO, Salazar não se sentia bem com os parceiros porque como estadista sabia os interesses que os movia.

Autoritarismo como Instrumento, não como Fim

O historiador Rui Ramos sublinha corretamente que o Estado Novo rejeitou a mobilização totalitária e preservou esferas autónomas da sociedade. Mas importa acrescentar que essa escolha não foi apenas cultural ou moral: foi também funcional. Um regime mobilizador de massas teria inevitavelmente produzido dinâmicas internas difíceis de controlar e pressões externas acrescidas, sobretudo num país estruturalmente frágil.

O autoritarismo salazarista foi, assim, minimalista e defensivo, orientado para a contenção da instabilidade social, da politização excessiva, da ingerência externa (União Soviética e USA) mais do que para a transformação revolucionária da sociedade. Não procurou criar um “homem novo”, nem um Estado total, mas antes congelar a história num ponto considerado seguro.

Tal opção não absolve o regime da repressão, da censura ou da exclusão política; mas ajuda a compreender por que razão ele não se enquadra nas categorias clássicas do fascismo europeu.

A Neutralidade Estratégica e o Jogo duplo das Potências

A aliança histórica com a Grã-Bretanha, a neutralidade na Segunda Guerra Mundial e a posterior integração na NATO ilustram a plasticidade estratégica do regime. Salazar cooperou com os Aliados sem se submeter politicamente a eles, acolheu refugiados sem abrir o sistema, cedeu bases nos Açores sem abdicar do império. A mesma inteligência política faz falta em Bruxelas nos dias de hoje. Hoje, na EU, temos administradores políticos e aplicadores de diretrizes e agendas globais a que falta legitimação democrática, mas não temos estadistas nem personalidades relevantes (mas disto falarão os nossos vindouros)!

Após 1945, as mesmas potências que haviam tolerado e em certos momentos valorizado, a estabilidade autoritária portuguesa passaram a pressionar a descolonização. Esta viragem não foi motivada por um súbito despertar moral, mas por uma reconfiguração de interesses imperiais, agora exercidos sob formas económicas, militares e culturais mais sofisticadas.

A denúncia do “colonialismo português” por países que mantiveram, ou mantêm, estruturas coloniais diretas ou indiretas é uma dessas contradições históricas. Convém também notar que a Noruega possuidora da colónia  Gronelândia foi na altura contra Portugal e o discurso actual em torno da Gronelândia mostra como o exemplo permanece válido na medida em que o discurso anticolonial foi frequentemente seletivo e instrumental.

Para uma leitura não maniqueísta da História

O erro mais persistente nas discussões contemporâneas sobre o salazarismo não é a crítica moral ao regime, legítima e necessária (como o seria também ao de hoje), mas a confusão entre julgamento ético e compreensão histórica. Relativizar não é absolver; contextualizar não é justificar.

A História mostra-nos que o século XX não foi determinado pela vitória da democracia liberal sobre regimes “malignos”, mas por uma competição contínua entre impérios, em que ideologias funcionaram como linguagem legitimadora de interesses estratégicos mais profundos.

Nesse quadro, o salazarismo aparece menos como uma aberração fascista e mais como uma tentativa conservadora, autoritária e defensiva de resistir à absorção imperial num mundo bipolar. Que essa tentativa tenha falhado, moral, política e historicamente, devido aos blocos imperialistas geopolíticos, não invalida a necessidade de a compreender para além das categorias herdadas do combate ideológico.

Talvez o verdadeiro desafio historiográfico do nosso tempo seja este: libertar a análise do passado das polarizações do presente e dos interesses ideológicos de esquerda e direita, reconhecendo que o poder imperial, sob múltiplas formas e bandeiras, continua a ser o principal motor da História, ontem como hoje. Ignorar isto é falsificar a própria ação política. A leitura categorial do autoritarismo estatal conservador tem sido feita e interpretada em favor do autoritarismo moral socialista.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo social

Pegadas do Tempo

 

(1) Texto do historiador Rui Ramos, no Observador. Janeiro de 2023:

“Depois da pergunta sobre a duração do regime, a segunda questão mais frequente sobre o salazarismo diz respeito à relação com duas ditaduras europeias que foram suas contemporâneas na década de 1930: a fascista de Benito Mussolini na Itália e a nacional-socialista de Adolf Hitler na Alemanha.

Essas ditaduras foram derrotadas e destruídas na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) por uma aliança entre as democracias ocidentais e a ditadura comunista russa. Desde cedo, que a oposição de esquerda em Portugal acusou o Estado Novo de ser um regime “fascista”. Não resultava de uma tentativa de descrever o regime, mas de uma vontade de o comprometer. Os oposicionistas esperaram assim, nos anos a seguir a 1945, identificar os salazaristas com uma causa desacreditada pela derrota e pela revelação das suas atrocidades, e sujeitá-los à desaprovação dos vencedores da guerra.

Foi o salazarismo simplesmente o “fascismo português”? A questão é complicada por várias razões. Primeiro, pelo hábito comunista de usar “fascismo” para definir indiscriminadamente qualquer regime ou movimento político não-comunista, incluindo, por exemplo, a social-democracia alemã. Segundo, pelo sentido fortemente pejorativo que o termo adquiriu, de modo que qualquer função descritiva está perdida numa função meramente acusatória e ofensiva. Por isso, há quem prefira formas menos carregadas, como, por exemplo, “autoritarismo”, para falar do salazarismo.

Mas há uma outra razão para a dificuldade de definir o salazarismo. Salazar esteve quarenta anos no governo. Para durar, num século de grandes sobressaltos e deslocações súbitas e num país em mudança, teve de fazer e dizer coisas diferentes em diferentes momentos. Nunca se esforçou, aliás, por arranjar grandes justificações teóricas para tudo o que fez. Por exemplo, perante o proteccionismo alfandegário a que foi obrigado na década de 1930, observou: “eu nunca julguei ter de recorrer a medidas como certas que tenho adoptado ultimamente e que reconheço sem valor económico e quase disparatadas”.

É por isso sempre arriscado usar uma citação de Salazar para o marcar politicamente: muito provavelmente, será possível encontrar outra num sentido contrário. No entanto, Salazar referiu-se frequentemente a uma “doutrina”, que definiria o Estado Novo. Vale a pena tentar examinar essa “doutrina”, sem cair no erro de tentar sistematizá-la numa filosofia, em mais um “ismo”, como o liberalismo ou o socialismo. O objectivo deve ser outro: perceber o seu papel no regime, e, por esse meio, o significado político do salazarismo, que não é a mesma coisa que a descrição da sua maneira de funcionar.

Na década de 1930, num mundo desestabilizado pela Grande Depressão e por potências como a Alemanha nazi, a Itália fascista, a Rússia comunista ou um Japão militarizado e expansionista, muita gente acreditou que o mundo do liberalismo do século XIX, com os seus parlamentos e eleições disputadas por vários partidos políticos, acabara de vez. Em 1940-1941, nas suas lições na Faculdade de Direito de Lisboa, Marcello Caetano identificou o Estado Novo como o fim do liberalismo: “embora ainda vigorem muitas leis e persistam muitas instituições do sistema individualista, está-se em pleno período de reforma no sentido da elaboração de um direito social e autoritário”.

O futuro era o autoritarismo, para uns com aspecto fascista, para outros com aspecto comunista. Ao longo dessa década, Salazar deixou o Estado Novo lembrar o regime fascista italiano, com milícias, saudações romanas e uma retórica “revolucionária”. “Liberalismo” e “democracia” eram quase sempre referidas como coisas passadas.

Mas mesmo nesta época, Salazar teve o cuidado de contrastar a “doutrina” do regime, não apenas com o liberalismo, mas com o totalitarismo. Em 1932, explicou a António Ferro: “a nossa ditadura aproxima-se, evidentemente, da ditadura fascista no reforço da autoridade, na guerra declarada a certos princípios da democracia, no seu carácter acentuadamente nacionalista, nas suas preocupações de ordem social”.

Mas, por outro lado, “afasta-se nos seus processos de renovação. A ditadura fascista tende para um cesarismo pagão, para um estado novo que não conhece limitações de ordem jurídica ou moral, que marcha para o seu fim sem encontrar embaraços nem obstáculos”. O Estado Novo não seria assim: “A violência, processo directo e constante da ditadura fascista, não é aplicável, por exemplo, ao nosso meio, não se adapta à brandura dos nossos costumes”. Repetidamente, apresentou-se como alguém que “proclama e aceita que o Estado é limitado pela moral e pelo direito”. Os limites do poder político, segundo Salazar, estavam na revelação divina (o catolicismo), na natureza humana (descrita pela história e pelas ciências sociais) e num modo de actuar ordenado, legalista (segundo a tradição jurídica do Estado de Direito). O poder político teria de respeitar esses limites, sob pena de ser ao mesmo tempo eticamente reprovável e politicamente ineficaz.

Na prática, foi Salazar quem destruiu o principal movimento de tipo fascista em Portugal, o Nacional-Sindicalismo liderado por Francisco Rolão Preto em 1932-1934. A expansão do Nacional-Sindicalismo prova que havia espaço para um fascismo em Portugal. Em privado, Salazar tratou a dinâmica fascista de que saiu a Legião Portuguesa, em 1936, como um efeito do “snobismo da época”: “copia-se bastante, pensa-se menos”. Certamente, porque o projecto nacional-sindicalista de dominar o espaço público era um desafio ao seu poder e porque a Legião Portuguesa, que Salazar submeteu ao exército, podia desequilibrar o regime.

Mas também porque o salazarismo rejeitava aquilo que era fundamental no fascismo – e que não era apenas a ditadura, mas um movimento político que visava, como escreveu Hannah Arendt, eliminar a esfera privada (“diluir totalmente o privado no público”) e reduzir o Estado a uma simples “fachada externa”, destinada apenas a “representar o país no mundo não-totalitário”. Como notou Robert Paxton o que distingue os autoritarismos nacionalistas dos fascismos: os primeiros assentam sobretudo em “corpos intermédios” como igrejas, notáveis, associações, a administração, as forças armadas para controlar, e portanto aceitam esferas de regulação autónoma, e os segundos num movimento político de mobilização que domina a esfera pública e elimina outras esferas autónomas ou privadas. O seu controle no primeiro é de desmobilização e conformismo, o segundo é de mobilização e adesão.

Por isso, os historiadores fora de Portugal nunca tiveram dificuldade em reconhecer que nos anos 1930 o “conservadorismo autoritário” de Salazar, segundo Ian Kershaw, “oferecia o mais acentuado contraste” com as ditaduras totalitárias europeias. Como seria de esperar, nunca no Estado Novo o “tu” da camaradagem fascista substituiu o “V. Exa.”, nem a saudação romana, ocasionalmente usada na Legião Portuguesa e na Mocidade Portuguesa, o aperto de mão. Tratava-se de viver “habitualmente”, e não “perigosamente”, como queria Mussolini.

Sem dúvida que faz sentido estudar o salazarismo em relação ao fascismo dos anos 1920 e 1930. Mas não faz sentido reduzi-lo a isso. O fascismo não foi a única fórmula de autoritarismo, nem sequer a mais bem sucedida (nenhum movimento fascista tomou o poder fora de Itália e da Alemanha). O mesmo se poderá dizer do comunismo, que não se instalou em mais nenhum país fora da Rússia até 1945. A cultura política ocidental das décadas de 1920 e de 1930, quando Salazar afirmou o seu poder, tinha outras fontes de autoritarismo.

Após a I Guerra Mundial, nos anos 1920 e 1930, a política dos países industrializados foi invadida pelo culto dos “chefes”, protótipos da “liderança” e da “eficácia”. Isso aconteceu nas ditaduras de tipo fascista ou comunista, mas também nas democracias liberais, onde o presidente norte-americano Roosevelt e depois o primeiro-ministro britânico Churchill se tornaram vias para estruturar a vida pública em função de um líder a quem era reconhecida uma autoridade especial, para além da que lhe vinha por via legal. A origem deste culto esteve no impacto da guerra e na influência crescente da empresa industrial e de serviços como modelo de organização.

O “chefe” foi uma forma de salvaguardar a autoridade e a hierarquia, através de novas formas e técnicas de comando, numa época de igualitarismo, em que desaparecera a aristocracia tradicional. Na liturgia do Estado Novo, Salazar era tratado como o “chefe”.

Mas era um “chefe” que os seus admiradores contrastavam ostensivamente com chefes como Mussolini: de um lado, estava um Salazar reservado, polido e professoral; do outro lado, um Mussolini exuberante, plebeu e militar.

Mais importante do que isso, na época, foi o facto de o Portugal de Salazar se ter mantido um “aliado fiel” da maior democracia liberal europeia, a Grã-Bretanha. Durante a II Guerra Mundial, Salazar não perdeu a cabeça, como teria sido fácil (aconteceu ao seu embaixador em Londres, Armindo Monteiro), e aproveitou o facto de os beligerantes terem acabado por deixar a península fora da guerra para servir ambos os lados, com lucro, ao mesmo tempo que acolhia cerca de meio milhão de refugiados.

Em 1939, no começo da guerra, a imprensa do regime aproveitou para estranhar as “anexações imperialistas” e a “mística racista” da Alemanha de Hitler. Em 1943, quando a guerra virou, Salazar concedeu bases aos Aliados nos Açores. Em 1945, com a vitória das democracias ocidentais, aliadas à União Soviética, Salazar enalteceu o auxílio que prestara à causa anglo-americana, reviu leis, fez logo novas eleições, e começou a falar de “democracia”, embora “orgânica”.

A oposição denunciou as “reformas demagógicas” com que Salazar se preparava para convencer as Nações Unidas de que “em Portugal não há fascismo”. A imprensa comunista clandestina passou a tratar todos os ministros como “fascista nazi”. Mas em Outubro de 1945, na reunião do Centro Almirante Reis, os oposicionistas reconheceram, a propósito da lei eleitoral de 23 de Setembro, que “a alteração de princípios que encerra é profunda”: ainda não era a democracia, mas o regime, que até aí se dissera “anti-liberal e anti-democrático”, estava a ceder às “ideias democráticas”.

Durante alguns anos, entre 1945 e 1947, o Estado Novo até se esforçou por criar “muita distância” em relação à ditadura do general Franco em Espanha, ao mesmo tempo que, significativamente, o regime espanhol se procurava modelar segundo o português – o que significou reduzir os elementos mais fascistas. Em Junho de 1946, no Brasil, o embaixador Pedro Theotónio Pereira podia garantir à imprensa que Portugal tinha um regime “anti-totalitário”, era até uma “democracia”, onde os cidadãos podiam ter opiniões diferentes, onde havia imprensa da oposição, e embora não houvesse partidos políticos, por uma questão de estabilidade, não era verdade que estivessem proibidos.

Ao mesmo tempo, porém, escrevia a Salazar a dar o exemplo do Brasil como a falência da democracia, com o governo e os partidos divididos, e incapazes por isso de resistir ao comunismo. De facto, Salazar nunca pensou recorrer à população em pé de igualdade com os seus adversários. Nem ele, quando prometia “eleições livres”, nem as oposições, quando as exigiam, estavam de boa fé. Na realidade, era pela força que Salazar esperava manter-se no poder, e era pela força que as oposições planeavam tirá-lo de lá. Como explicou em Fevereiro de 1946, a exigência de liberdade pela oposição de esquerda parecia-lhe um truque de guerra: “sabemos bem que a exigem para vencer e a dispensam para governar”.

Provavelmente, Salazar não acreditava nem na vontade da oposição para respeitar a legalidade, nem na capacidade dos salazaristas para predominarem sem coerção. Por isso, para Salazar se manter no poder, mais decisivas do que as eleições, foram as derrotas das conspirações militares conhecidas por golpe da Mealhada (1946) e Abrilada (1947). A ditadura evitou assim um golpe militar como o que derrubou Getúlio Vargas no Brasil em 1945, para instituir uma democracia limitada e conservadora e sob tutela militar. Em Espanha, Franco aguentou, o que poupou Salazar à pressão de uma vizinhança democrática.”

Rui Ramos é historiador, professor universitário