ZÉ DO TELHADO E ROBIN DOS BOSQUES

“Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão”

A lógica da “justiça invertida”

O dilema simbolizado nas figuras Zé do Telhado e Robin Hood e expresso no provérbio “Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão” coloca em tensão três dimensões fundamentais, ou seja, moralidade, legalidade e ordem social. Expressa a tensão entre monopólio estatal da justiça e responsabilidade pessoal, pelo poder exercido (1).

De facto, se alguém rouba quem já roubou, o ato deixa de ser moralmente condenável, porque se trata de uma ética de retribuição popular, baseada na ideia de que o sistema formal falhou porque o injustiçado não tem acesso à justiça institucional e o ato de intervenção directa tenta corrigir um desequilíbrio. Zé do Telhado e Robin Hood encarnam essa lógica.  Anulam simbolicamente a culpa porque a sua ação de fazer justiça pelas próprias mãos é vista como reposição de justiça.

O problema é que lhe falta legitimidade porque é uma narrativa imaginária, não jurídica e fora de uma regra universal.

O paradoxo na democracia contemporânea

No Estado, a justiça deixa de ser privada e passa a ser institucional.

Se o “povo” assume o papel de Robin coletivo, surge um paradoxo porque se age fora da lei e para corrigir injustiças, mina o próprio sistema que lhe garante direitos mas se se respeita integralmente a ordem vigente, pode perpetuar injustiças estruturais.

A questão estará em como transformar a ordem injusta sem destruir a ordem necessária à convivência?

A diferença entre herói individual e ação coletiva

Em sociedade o herói solitário funciona como mito corretivo. O coletivo, porém, quando age sem mediação institucional, pode gerar: ausência de normas tendo como consequência instabilidade social ao substituir uma arbitrariedade por outra; o que no indivíduo é romantizado, na massa pode tornar-se desagregador.

Uma possível resolução do dilema

Atendendo à situação humana e à situação social a solução não está na justiça pelas próprias mãos, mas na transformação estrutural de maneira a instituição canalizar tensões, indignação, etc. também à imagem do que acontece da sublimação da guerra no jogo de futebol. Nesse sentido pode funcionar um voto mais consciente, maior participação cívica, maior presença pública e nas instituições maior transparência, fortalecer a responsabilização e independência judicial. Também maior desobediência civil ética ajuda o sistema em ações públicas desde que não violentem e assumam responsabilidade com o intuito de reformar e não de destruir o sistema. No caso de Robin dos Bosques ele quer substituir o sistema enquanto a cidadania activa pretende transformá-lo.

O problema da anonimidade do poder

No concreto, o cidadão, sem uma estrutura de defesa individual para a generalidade do cidadão, depara-se com o problema da anonimidade do poder dando lugar à diluição da responsabilidade dado as decisões serem coletivas; a burocracia fragmenta competências, a lei é geral e abstrata e a responsabilidade se tornar institucional, não pessoal.

Isto cria um paradoxo porque por um lado o dano é concreto e individual e por outro a responsabilidade é difusa e impessoal. Politicamente, isto gera frustração porque a estrutura do Estado protege a estabilidade do sistema, mas pode falhar na reparação existencial do indivíduo.

Responsabilidade pessoal dos governantes?

Naturalmente uma desejável responsabilização pessoal dos políticos quando há falhas graves, embora fosse moralmente desejável, levanta questões complexas porque um político responde por decisões políticas gerais, mas a aplicação concreta da lei depende de juízes, funcionários, regulamentos. O problema seria de determinar onde começa e onde termina a culpa pessoal. E isso poderia ter como consequência governos paralisados pelo medo de responsabilidade pessoal, uma judicialização excessiva da política e um populismo punitivo.

O problema crítico, porém, é a imunidade que consiste em ignorar completamente a responsabilidade pessoal (sistémica) que gera cinismo democrático.

O fenómeno Robin dos Bosques e Zé do Telhado têm uma dimensão simbólica forte na relação entre estado/política e cidadão. Sim, até porque a lei é muitas vezes percebida como injusta e, pelo menos para uma parte do cidadão, o Estado é visto como distante ou aprisionado por forças de interesse e o povo sente que a moralidade não coincide com a legalidade.

O fora-da-lei torna-se herói porque restaura uma justiça moral quando a justiça formal falha, mas isto é sintoma de falha estrutural e não a solução.

Falta de lógica prática na justiça e cidadão sem rosto perante o poder

O problema teórico aqui abordado é mais de caracter filosófico e teológico do que jurídico. Existe uma dissociação entre a lógica normativa (lei geral) e a lógica vivida (sofrimento concreto). O foque dos interesses seria a tentativa concreta de conciliar a lei que opera por abstração e a dor que opera por singularidade (corresponderia a integrar a abordagem dedutiva com a indutiva). Isto porque quando o sistema não consegue reconciliar essas duas dimensões, instala-se a sensação de injustiça estrutural. Para evitar esse hiato estaria a exigência de coerência ética entre poder e responsabilidade. No meio de tudo isto há também que considerar a estrutura sistémica e natural da natureza humana e instituições pois têm como base o “pecado original” e ao personalizar demasiado os problemas a própria responsabilidade poderia obscurecer a natureza sistémica dos problemas.

A injustiça muitas vezes não nasce da má intenção individual de um governante, ou de um cidadão, mas de a injustiça, muitas vezes, da própria natureza, de estruturas complexas, de incentivos perversos, de excesso de burocracia, de lentidão institucional e das falhas culturais.

Punir indivíduos pode aliviar simbolicamente, mas não resolve necessariamente o mecanismo que produziu o dano.

O que está realmente em causa não é apenas responsabilidade jurídica, mas reconhecimento. Quando alguém sofre dano e o sistema responde com linguagem abstrata, sente-se: invisível, dissolvido na estatística e sem rosto perante o poder.

Nestas condições como pode um Estado manter legitimidade moral se não responde pessoalmente ao sofrimento concreto?

A questão entre a legitimidade moral do estado e o sofrimento individual do cidadão vem da natureza da instituição e da natureza do indivíduo que no palco da existência se legitimam mutuamente tornando tudo processo e como tal praticamente intangível. Isto implicará sempre um processo dialético entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia.

O Estado não é uma entidade externa como uma rocha ou uma árvore, porque existe enquanto relação. Ele é processo, não substância. Georg Wilhelm Friedrich Hegel, para quem o Estado não é apenas máquina administrativa, mas manifestação histórica do espírito coletivo. O indivíduo forma o Estado, e o Estado forma o indivíduo. Não há um sem o outro e daí nasce a dor que é o preço de vivermos em comunidade organizada.

Assim enquanto o indivíduo é concreto, sofre no corpo, vive no tempo biográfico, sentindo a injustiça como ferida. Por seu lado a instituição opera por abstrações, pensa em categorias, age por normas gerais e preserva estabilidade sistémica.

Como compromisso adequado poderia o estado criar instituições jurídicas fortes (de caracter Zé do Telhado) com autoridade independente que assumam os casos em que o cidadão se sente lesado. Quando o sofrimento singular se debate com a norma geral, surge fricção. A legitimidade moral do Estado depende da sua capacidade de converter dor concreta em resposta institucional. Mas a sua própria natureza abstrata impede-o de responder como a pessoa que responde a pessoa. Naturalmente isso cria um vazio experiencial. De facto, tudo se encontra em processo, quer a justiça e  a legitimidade, quer a própria identidade social. Tudo está em mediação constante, mas o problema é que o sofrimento não é processual, mas imediato e essa assimetria cria sofrimento.

A dialética entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia

O problema não pode ser resolvido dentro de um único campo porque filosofia e teologia questionam legitimidade e sentido; a jurisprudência organiza normas e responsabilidades e a psicologia explica perceção de injustiça, ressentimento e confiança. Sem esta triangulação, qualquer resposta será parcial.

De facto, uma solução jurídica pode ser formalmente correta, mas psicologicamente insatisfatória. Uma resposta emocional pode ser politicamente destrutiva e uma solução filosófica ou teológica pode ser impraticável institucionalmente.

O trágico da vida humana tem de ser aceite e até reconhecido porque se trata de uma condição estrutural da vida política e do caracter antropológico e sociológico humano. O hiato entre norma e vida não se pode eliminar, apenas reduzir porque permanece um conflito permanente. E isto porque há sempre um resto conflituoso humano e natural num sentimento de injustiça não absorvido, numa dor não traduzível em artigo legal e uma responsabilidade que se dilui no sistema. O ser humano é estruturalmente imperfeito (“pecado original” ou falha natural ou sistémica).

A legitimidade moral do Estado não consista em eliminar o sofrimento individual, mas em reconhecer publicamente à sua inevitabilidade, criar mecanismos de responsabilização claros, manter transparência e preservar e criar espaços onde o indivíduo seja ouvido e defendido como cidadão singular. Temos que honestamente reconhecer e admitir que a tensão entre indivíduo e instituição não é falha do sistema, mas consequência inevitável de vivermos em comunidade organizada.

Uma sociedade acordada debate-se hoje de maneira especial com a vigilância digital em massa, o uso de dados biométricos (batimentos cardíacos, reconhecimento facial, padrões emocionais), concentração de poder em Estados ou grandes corporações e IA aplicada à análise comportamental. Tudo isto, num tempo de tendências globalistas tende a ameaçar a integridade e a dignidade humana. Uma vez que a vigilância biométrica se torna normalizada, abre-se a porta a regimes potencialmente autoritários. Como exemplo temos as medidas da pandemia de COVID-19, implementada pelo SMS da ONU onde se pode observar que crises aceleram a adoção de tecnologias de vigilância, e que medidas temporárias podem tornar-se permanentes. Isto são cenários possíveis dado o Estado ter tendência para expandir controlo.

A instituição já tem capacidade de monitorizar emoções, antecipar dissidência e como se vê na discussão pública sobre populismo muitos governantes já classificam cidadãos por risco ideológico.
Com esta prática estão a violar o espaço interior da pessoa.

Síntese

O provérbio inicial expressa uma justiça emocional enquanto a democracia exige uma justiça institucional.

O dilema resolve-se quando se compreende que: A verdadeira “justiça popular” não é a vingança coletiva, mas a capacidade a adquirir pelo povo para reformar a ordem sem abdicar da ordem.

Assim, o “Robin comunitário”, o nosso Zé do Telhado, não pode ser um fora-da-lei coletivo, mas um povo politicamente maduro, capaz de transformar estruturas sem dissolver a convivência social. Enquanto este processo não se acelerar dá-se sustentabilidade ao domínio de grupos oligárquicos e à afirmação do autoritarismo dado os seus recursos hoje à mão são de ordem ainda não registada no decurso da história humana.

O risco vem da combinação entre tecnologia avançada, crises sociais, medo coletivo, e instituições sem limites claros

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O povo renunciou à justiça pelas próprias mãos em favor da ordem do Estado. Aqui  há uma referência  à lógica do contrato social, desenvolvida por pensadores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. A ideia central é simples: para evitar o caos e a vingança privada, os indivíduos transferem ao Estado o poder de julgar e punir. Se o Estado assume o monopólio da justiça, então também deve assumir plenamente a responsabilidade pelas falhas dessa justiça.

 

 

O CUSTO DE SER FAMÍLIA

Na Alemanha ter Filhos está a tornar-se um Luxo

A decisão de ter filhos é profundamente pessoal, mas é também influenciada por fatores estruturais, económicos e ideológicos. Na Alemanha, um país conhecido pelo seu forte sistema de apoio social, observa-se um crescente sentimento de insegurança financeira que está a deixar as famílias em compasso de espera. De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, a maioria dos alemães acredita que formar uma família se tornou um luxo inacessível, levantando questões urgentes sobre o futuro do país e as prioridades do Estado.

Segundo a Perceção da nova Geração “Não dá para ter Filhos”

Os números da pesquisa são um sinal de alerta claro. Para 55% dos inquiridos pelo Insa, a resposta é taxativa: já não se pode ter filhos devido aos custos envolvidos. Apenas 34% discordam desta afirmação, enquanto 11% se mostram indecisos.

Além de uma mentalidade hedonista transmitida socialmente, o principal motor deste pessimismo é o aumento generalizado do custo de vida. Para 81% dos que veem a família como impraticável, a culpa estaria na escalada de preços em áreas essenciais como habitação, alimentação e energia. Este sentimento atinge o seu pico na faixa etária mais propensa a planear uma família. Segundo o chefe da Insa, na faixa etária entre os 30 e os 49 anos, 60% dos inquiridos consideram que ter filhos é financeiramente inviável.

Um dos fatores ideológicos expressa-se certamente na discussão em torno do aborto. Uma iniciativa civil, constituída por organizações progressistas não governamentais e financiada com dinheiro público, tem pressionado a União Europeia para a criação de um fundo europeu destinado ao aborto. Esse fundo financiaria o acesso ao aborto por cidadãs europeias noutros países-membros, o que, na prática, poderia contornar as diferentes legislações nacionais em matéria de prazos e de aconselhamento obrigatório.

Quanto Custa sustentar uma Criança?

Esta perceção de “carestia” não é infundada e encontra eco nas estatísticas. Segundo dados do Departamento Federal de Estatística (Destatis), citados por várias análises, o custo médio para criar um filho na Alemanha até aos 18 anos ronda os 164.808 euros. Este valor traduz-se numa despesa mensal média de cerca de 763 euros, que varia consoante a idade, ou seja, 679 euros para crianças dos 0 aos 6 anos, 786 euros para dos 6 aos 12 e 953 euros para adolescentes até aos 18.

É importante notar que este cálculo inclui não só gastos diretos (roupa, comida, brinquedos), mas também os custos indiretos significativos, como a necessidade de uma habitação maior ou o aumento do consumo de energia.

Perante estes números, o Estado alemão disponibiliza um conjunto de apoios. O mais conhecido é o Kindergeld (abono de família), que em 2026 sofreu um ligeiro aumento, fixando-se nos 259 euros mensais por criança. Paralelamente (1), existe a dedução fiscal por filhos (Kinderfreibetrag), que em 2026 é de 6.828 euros anuais por criança, um mecanismo que tende a beneficiar mais as famílias com rendimentos mais elevados.

Apesar destes apoios, o sentimento de desânimo persiste. A discrepância entre o custo real (679 euros para um bebé) e o valor do abono (259 euros) é evidente, mesmo considerando que o Estado também subsidia fortemente outras áreas, como o custo das creches (Kita), que na Alemanha é um dos mais baixos da Europa, representando apenas 1% do rendimento familiar para famílias com dois filhos.

O Paradoxo do Investimento e o Fantasma do Envelhecimento

A Alemanha não é um país que poupe nas famílias. Dados do Instituto Alemão de Economia (DIW) mostram que o país gasta mais de 1.600 euros por habitante em benefícios familiares, um valor que é quase o dobro da média da União Europeia. Então, porque persiste a sensação de que “não dá”?

A resposta pode estar na convergência de várias crises como, a inflação pós-pandemia, a crise energética e o aumento das rendas, que corroem o poder de compra e tornam o planeamento familiar um exercício de alto risco. A confiança no futuro está em baixo, e a perceção é a de que o apoio estatal, embora existenta, não acompanha o ritmo galopante das despesas.

Este cenário é particularmente preocupante num país que enfrenta um acelerado envelhecimento populacional. Tradicionalmente, a imigração tem sido usada como um instrumento para mitigar este desequilíbrio demográfico. No entanto, como os dados da pesquisa Insa sugerem, confiar apenas na imigração é uma estratégica míope se o ambiente para as famílias nativas e imigrantes não for atraente.

Menos Armas, mais Apoio à Vida e menos Propagação ideológica

É neste contexto que surge a proposta de uma mudança de paradigma. Se o futuro da sociedade depende das novas gerações, o investimento nelas e na própria cultura deveria ser prioridade absoluta. Tal implica, para muitos, uma redefinição das prioridades orçamentais do Estado, nomeadamente o redireccionamento de fundos massivos, como os que são atualmente canalizados para o setor militar e de armamento, para políticas de apoio à família.

Entre as medidas concretas necessitadas de investigação que poderiam inverter a atual tendência de desânimo, destaca-se a criação de um salário mensal digno para as mães (ou pais) durante os primeiros quatro anos de vida da criança, idade determinante para a configuração da personalidade da criança em relação ao seu equilíbrio futuro. Uma medida desta natureza reconheceria, por um lado o trabalho invisível e essencial do cuidado na primeira infância,  por outro compensaria a perda de rendimento num período crítico, onde as despesas com o bebé são altas e, frequentemente, um dos progenitores reduz o seu horário de trabalho ou abandona o emprego e valorizaria a família no seu contributo fundamental para a sociedade, e não como um “problema” ou um “custo” individual.

A Alemanha tem demonstrado, através do seu investimento em creches e abonos, que entende a importância de apoiar as famílias. No entanto, a perceção pública, cristalizada na pesquisa da Insa, mostra que o atual pacote de medidas já não é suficiente, tendo muito embora em conta que o problema não é apenas de natureza económica mas sobretudo de crise cultural.

O desafio para os governos não é apenas ajustar valores, mas sim criar uma nova arquitetura de suporte que ofereça segurança e estabilidade genuínas aos jovens casais. Se a preocupação com o futuro é real, ele começa a ser construído hoje, não em campos de batalha, mas no berço e na estabilidade financeira de quem ousa, ou gostaria de ousar, ser pai ou mãe.

Conclusão

Um Estado que não garante um espaço livre e de liberdade para as crianças está, na prática, a sufocar o seu próprio futuro e assume uma função redutora. Quando a criança é vista apenas como um fardo financeiro, o Estado falha a sua missão essencial. Ao não reconhecer as crianças como uma fonte de enriquecimento humano e social, acaba por criar um défice bem mais caro a nível  económico, demográfico e, acima de tudo, humano. A tendência social para uma vida previsível, organizada e tranquila entra em choque com a natureza da infância. As crianças são criativas, espontâneas e surpreendentes, não se enquadrando nesse modelo rígido. As crianças trazem de volta proximidade, alegria, autenticidade e a capacidade de criar espaços vibrantes de humanidade, valores estes que a rotina adulta organizada perdeu.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Na Alemanha, não se acumulam o Kindergeld e o Kinderfreibetrag como dois benefícios independentes.
Os pais recebem normalmente o Kindergeld todos os meses. Depois, quando fazem a declaração de imposto, a autoridade fiscal (Finanzamt) faz automaticamente uma “Günstigerprüfung” (verificação do que é mais vantajoso). Aplica-se apenas a opção que for mais vantajosa.
Isto é, nos rendimentos mais baixos geralmente compensa mais o Kindergeld e nos rendimentos mais altos geralmente compensa mais o Kinderfreibetrag. Não é preciso escolher porque o sistema das finanças decide automaticamente.

A CAMINHO DA MESMIDADE

Procuro a verdade
como quem caminha
ao lado de um rio invisível,
ouvindo a água
mesmo quando não a vê.

Houve um tempo especial
em que o silêncio das cúpulas
me ensinou a leveza:
ajoelhado, o corpo ficava no chão
e a alma espírito e psique
abria asas por dentro
e flutuava na altura mansa do mistério.

Não era fuga, nem espetáculo,
era apenas paz, um voo sem destino,
um repouso no ar como se Deus
fosse um espaço de respiro.

E houve também o quarto,
a lágrima como oração,
o coração ferido
pela incompreensão dos homens,
quando tudo parecia ruído e regra,
e o bem feito aos outros
mostrava não caber
nos relógios do mundo.

Chorei… e nesse choro
ardeu um calor antigo,
uma presença sem forma,
um amor tão seguro
que nenhuma voz exterior
o podia destruir.

Desde então compreendi!
Há verdades
que não se demonstram,
há luzes que não se explicam,
há instantes Cairos
em que a eternidade toca o tempo
e o tempo, por um segundo,
se torna vivência.

Sou racional, dizem.
E é verdade.
Mas a razão é apenas
uma lanterna na noite,
não o céu inteiro.

Trago em mim
uma sede que não quer posse,
uma fé que não exige provas,
um saber que não grita,
porque apenas chama.

Não busco o fim da estrada,
porque a estrada já é encontro.
Não busco a meta,
porque o caminho é casa.

E talvez seja isto
o grande segredo:
a verdade não é troféu,
é companhia.

Ela acontece
quando o coração se torna simples,
quando o amor é mais real
do que a dúvida,
quando até a ausência
tem perfume de presença.

Ciente da minha pouquidade
de meu ser terra em terra sagrada
ando à procura,
não para agarrar,
mas para ser tocado.

E no fundo, arraigado,
caminho assim, caminhamos todos
como quem atravessa a vida
com uma pequena chama na mão,
sabendo que o vento existe,
mas também existe uma luz
que nenhum vento apaga.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O ESPELHO DE LUZ PÁLIDA

A verdade tornou-se um espelho partido; cada fragmento reflete a vontade de quem o segura, e a imagem do todo é apenas a soma das nossas solidões.

Na cidade de Babel Online, onde os rios de dados corriam mais fundo que o antigo Reno, havia um homem chamado Tony que ganhava a vida a limpar vidros. Não os vidros comuns das janelas, mas os écrans. Os grandes, os pequenos, os que revestiam as paredes das praças e os que dormiam no bolso das pessoas. A sua profissão, que muitos julgavam obsoleta, era na verdade essencial porque as superfícies por onde o mundo se via estavam sempre embaciadas pela transpiração das imagens.

Numa tarde de nevoeiro digital, a filha de Tony, uma jovem estudante de artes chamada Mina, entrou em casa com o rosto mais pálido que o ecrã do seu tablet. “Pai”, disse ela, “acabei de ver no programa Jornal do Horizonte um vídeo da América. Agentes com capacetes negros arrancavam crianças dos braços das mães, numa rua de tijolos vermelhos. As lágrimas das mães congelavam no ar. Era… horrível. Perfeito demais.”

Tony, que polia meticulosamente a superfície negra da sua velha televisão (desligada há meses), não respondeu. Apenas soprou dela uma partícula invisível.

No dia seguinte, o Presidente da Província das Vinhas, um homem de fato escuro e sorriso público, apareceu nos mesmos écrans. A sua voz, grave como um violoncelo desafinado, exigia “máxima transparência” sobre a origem daquelas imagens. Mas Tony, ao limpar o mármore do átrio da estação pública, viu os produtores a rirem-se, enquanto um deles dizia: “Transparência? Nós damos-lhe é brilho. E o brilho, meu caro, é a mais opaca das superfícies.”

Foi então que Mina descobriu a verdade. O vídeo das deportações brutais não tinha sido filmado, mas tecido por uma inteligência artificial, um tear digital que fiava realidades a partir de palavras-chave: “agressividade”, “ICE”, “injustiça”. As imagens eram uma ideia feita carne de pixel, uma vontade humana concretizada por uma máquina. A notícia falsa não era um erro, era uma arma de confeção fina, um prato servido à população para que ela mastigasse a indignação correta, com o talher adequado à política do dia.

“Estás a ver, Mina?”, murmurou Tony nessa noite, apontando para o écran da cidade lá fora. “A Europa olha-se ao espelho e julga ver o mundo inteiro refletido. Mas esse espelho foi forjado nas nossas próprias fundições de pensamento. Chamamos-lhe ‘informação’, mas é um espelho deformado, um artefacto que nos mostra mais bonitos, mais éticos, mais certos do que os outros. E depois apontamos o dedo ao espelho do outro, ao dragão de porcelana do Oriente, ao urso siberiano, chamando-lhe falso. Isso é hipocrisia, minha filha, é o perfume do nosso império.”

Mina compreendeu então o conceito do pai quando falava de “imperialismo mental”. Já não eram navios ou canhões que partiam para conquistar, mas ideias pré-confecionadas, embaladas em celofane emocional, enviadas por satélite. A Europa, esse velho umbigo do mundo, já não vendia gráficos nem mapas; vendia a lente através da qual os mapas deviam ser lidos. E quem controla a lente, controla a paisagem.

A partir daquele dia, Mina começou a observar. Viu como os mesmos canais que mostravam a brutalidade fabricada na América e na Rússia, mas tratavam os incidentes locais com uma esponja suave. Viu como a violência de extremistas de direita era mostrada com uma lente bipartida, enquanto a dos extremistas de esquerda era filtrada por um nevoeiro poético que a tornava quase uma “expressão artística”. A verdade, percebeu, não era uma questão de facto, mas de ajustamento ao vento político correto. Era um facto feito à medida da região e da estação do ano.

Numa feira de arte digital, Mina encontrou uma instalação chamada “O Confeitor”. Era uma cozinha high-tech onde qualquer pessoa podia soprar um sentimento e receber, num prato, uma imagem pronta a consumir. Mina admirada, soprou então o sentimento „medo da imigração” e a máquina devolveu-lhe uma fotografia de um homem moreno a assaltar uma velhinha. Soprou “amor pela Europa” e a máquina gerou um pôr-do-sol sobre campos de trigo dourado, sem migrantes, sem fios elétricos, sem fábricas. A realidade era um menu, mas as pessoas preferiam o prato do dia.

Entretanto, uma velha filósofa chamada Sofia, que vivia num bairro esquecido pelas câmaras, dizia aos poucos que a ouviam: “Estamos numa guerra total, numa guerra mais que de exércitos. É uma guerra entre a vontade e a imaginação. A vontade quer dominar, criar uma realidade que lhe obedeça. A imaginação, essa, é livre, mas foi capturada e posta a trabalhar nas fábricas de ilusões. O resultado é que já não sabemos quem somos. As colunas que sustentavam a nossa identidade, como a geografia, a religião, a história, a comunidade e a família, foram dinamitadas por esta explosão de imagens contraditórias. Somos consumidores de sombras numa caverna digital, mais artificial que a caverna de Platão, e aplaudimos as correntes porque estão na moda.”

Mina sentiu um frio na alma a invadir-lhe todo o corpo. Percebeu que a grande narrativa da Europa, a de ser o farol da razão e da verdade, estava a ser corroída por dentro. A confiança, esse cimento social, dissolvia-se como açúcar na água. E em seu lugar, subia uma maré de relativismo absoluto. Se tudo pode ser fabricado, nada é verdadeiro. E se nada é verdadeiro, então a única verdade é o poder de quem fabrica.

Uma noite, Tony, o pai de Mina, levou-a ao topo da torre mais alta da cidade. Dali, viam-se os milhares de écrans das casas, todos a brilhar no escuro, como pirilampos enjaulados. “Vês?”, disse o pai. “Cada uma daquelas luzes é uma alma a ser alimentada por imagens que não escolheu. Mas olha e repara ali, naquela janela sem écran.”

Mina olhou. Numa única janela, a luz era diferente. Não era o azul frio de um monitor, mas o amarelo quente de uma vela. Dentro, uma família estava sentada à volta de uma mesa, a conversar.

“Esses”, disse Tony, “são os últimos resistentes. Os que ainda acreditam que a realidade não precisa de ser fabricada, mas apenas vivida. Aqueles que sabem que a verdade não é uma imagem, mas um rosto que se olha, uma mão que se toca. Eles estão conscientes que a procura de sentido não se faz com algoritmos, mas com a limitação bendita de ser humano; de ser um corpo que sente fome, cansaço, amor. Um ser que, por mais que tente, não pode estar em todo o lado nem ver tudo. E é nessa limitação que habita a autenticidade.”

Mina desceu da torre e, no dia seguinte, recusou-se a ver o Jornal do Horizonte. Saiu para a rua e caminhou até ao bairro da velha Sofia. Sentou-se num banco de jardim, ao lado de uma mulher que lia um livro de papel, ao som de pássaros verdadeiros. Mina olhou para as nuvens, que não obedeciam a nenhum guião, e para a erva, que crescia sem licença de transmissão.

E ali, entre a vontade do mundo que queria impor-lhe uma visão e a sua própria imaginação, que começava a libertar-se das imagens feitas, Mina sentiu, pela primeira vez, o peso leve de ser apenas uma pessoa. Um ponto minúsculo no mapa, mas um ponto real. Não um consumidor de cultura, mas um ser humilde atento e aprendiz, que se sabe orientado por uma voz espiritual que habita o seu coração.

O imperialismo das ideias, percebeu, só vence se não houver ninguém do lado de fora a olhar para o céu.

No reino da imagem fabricada, o maior acto de rebeldia é ainda procurar a porta da realidade, mesmo sabendo que, para a abrir, talvez seja preciso derrubar a nossa própria imagem refletida.

António a Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10789

Nota:

Ao escrever estas linhas, fica em mim um cansaço que não é do corpo, mas da alma. É a vertigem de ver o mundo dissolver-se em narrativas concorrentes, onde o facto é apenas o ponto de partida para um campeonato de versões que nos torna consumidores de sombras sem o notarmos. Sinto a solidão de quem, no meio do mercado, continua a preferir o sabor genuíno do fruto, por mais imperfeito que seja, ao invés da perfeição plástica e doce do fruto fabricado. Mas sinto também uma clareza paradoxal. A mesma tecnologia que nos afoga em ilusões, ilumina, pelo seu abuso, a nossa fome de verdade. A mesma hipocrisia que denunciamos nos outros, ensina-nos a vigiar a nossa própria tendência para moldar o mundo à medida da nossa vontade. No fundo, talvez o observador não esteja condenado à mera constatação da miséria. Talvez a sua teimosia em distinguir a imagem da coisa seja o primeiro, pequeno e frágil passo para reconstruir, com as mãos vazias, mas a consciência desperta, um pedaço de chão firme onde valha a pena viver. A mim o que emocional e existencialmente me acompanha é o protótipo Jesus Cristo.

 

O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo