A DIFERENÇA ENTRE JUSTIÇA VIRTUDE E JUSTIÇA LEI

Legislação (Direito) – Justiça e Serviços judiciais

Na política, a justiça e a moral obedecem ao Estado e às elites que o forjam. A regra é dura; mas a única brandura possível é que as pessoas boas ascendam aos cimos do mando.

Introdução

No nosso dia a dia, ouvimos falar muito em justiça. Em português existem duas formas de entender esta palavra. Uma é a justiça como virtude (consciência), isto é, aquela que nasce da nossa consciência e do nosso senso moral e outra é a justiça como aplicação do direito, ou seja, aquela que está escrita nas leis e é aplicada pelos tribunais na conciliação de interesses . Para melhor distinguirmos estas duas faces da justiça, de forma simples e clara, não há como apresentá-las numa parábola.

Havia numa aldeia um velho padeiro chamado João. Todas as manhãs, antes do sol nascer, amassava pão para os seus vizinhos. Certo dia, chegou à aldeia um homem muito pobre, com fome e doente. O padeiro, movido pela compaixão, deu-lhe pão e leite sem pedir nada em troca. Todos acharam que João agira com justiça porque ajudar quem nada tem é o correto e justo.

A lei da aldeia, porém, dizia: “É proibido dar alimentos a estranhos sem licença do conselho”. João foi levado a tribunal e multado, porque o juiz apenas aplicou a lei. Para os habitantes, o juiz tinha cumprido o seu dever. Para o padeiro, a lei era injusta.

Quem tinha razão? O padeiro, que agiu segundo a sua consciência? Ou o juiz, que apenas cumpriu o que estava escrito?

Esta pequena parábola mostra exatamente a diferença de entender a justiça.

O que é a justiça como virtude?

A justiça como virtude é aquela que cada pessoa vê expressa na voz da sua consciência. É a capacidade de distinguir o certo do errado, de agir com rectidão mesmo quando ninguém está a ver. É a voz interior que nos diz que devemos ajudar quem precisa, que não devemos tirar vantagem dos mais fracos, que todos merecem ser tratados com dignidade.

Esta justiça não está escrita em lado nenhum. É inata e é complementada pela educação, pela família, pela religião e pela experiência de vida. É universal porque todas as culturas, em todos os tempos, reconhecem que é virtuoso ser justo. Características da justiça virtude:

A justiça virtude é pessoal e íntima e baseia-se na consciência de cada um. Não precisa de juízes nem tribunais e pode variar de pessoa para pessoa (o que é justo para uns pode não ser para outros). Daí a compreensão religiosa de que “a intenção é que vale”.

O que é a justiça como aplicação do direito?

A justiça como aplicação do direito é aquela que encontramos nos tribunais, nas leis e nos códigos. É a justiça feita pelos homens, com regras escritas, procedimentos e punições para possibilitar uma vida social ordenada. Institucionalmente, é representada pela deusa romana Justitia, que os tribunais usam como símbolo.
Os símbolos expressos na deusa Justiça são: a balança que significa que é preciso pesar os argumentos de ambas as partes; a espada representa o poder de fazer cumprir a lei e a venda nos olhos simboliza que a lei é igual para todos, rico ou pobre, poderoso ou humilde.

Esta justiça tem regras claras, que os especialistas chamam de “justiça distributiva” (como distribuir os recursos e as oportunidades) e “justiça corretiva” (como corrigir os desequilíbrios causados por uma injustiça).

Na prática, a Justiça do Direito preocupa-se com a Igualdade de oportunidades (todos devem partir do mesmo ponto de partida); o Mérito (quem mais trabalha ou tem mais responsabilidades pode receber mais); as Necessidades básicas (ninguém deve passar fome ou falta de saúde, independentemente do seu desempenho); as Gerações futuras (não podemos gastar hoje os recursos que os nossos netos vão precisar).

Onde está o conflito?

O grande problema é que estas duas justiças nem sempre andam de mãos dadas. O que é certo para a minha consciência pode ser ilegal perante a lei. E o que a lei manda pode ferir a minha consciência.

Vejamos o exemplo do grande filósofo grego, Sócrates. Ele foi condenado à morte por criticar o regime de Atenas. As acusações oficiais eram “impiedade” e “corrupção da juventude”. Mas a verdade é que Sócrates apenas defendia que cada pessoa deveria pensar por si mesma e não aceitar cegamente as regras da cidade.

Sócrates teve oportunidade de fugir. Os seus amigos prepararam a fuga, mas ele recusou. Porquê? Porque respeitava a lei da sua cidade, mesmo considerando que a sentença era injusta. Preferiu morrer a desobedecer à justiça do direito. Aqui vemos o drama: a sua consciência (justiça virtude) dizia-lhe que não merecia morrer, mas o seu respeito pela lei (justiça aplicação do direito) levou-o a aceitar a sentença.

O que acontece nos dias de hoje?

Infelizmente, a tensão entre estas duas justiças continua. Geralmente, as leis são feitas por elites poderosas (obediências partidárias) que defendem os seus próprios interesses. Quem tem poder económico ou político consegue influenciar a criação das leis e até a sua aplicação. Pessoas críticas, que falam em defesa do povo e denunciam as injustiças, são muitas vezes marginalizadas, ostracizadas ou até perseguidas pelo sistema.

Já no tempo de Sócrates acontecia o que ainda hoje acontece. Os interesses organizados, como grandes empresas, partidos poderosos e grupos de pressão, tendem a sobrepor-se aos interesses da maioria e o mesmo acontece na relação entre nações. Isto não significa que toda a justiça do direito seja corrupta ou má. Significa apenas que devemos estar atentos e não confundir a lei com a justiça verdadeira (até porque os juízes constitucionais não são eleitos pelo povo, mas denominados pelos partidos do arco do poder e muitos dos julgamentos normais dependem da força económica ou cultural para a escolha de um advogado mais eficiente).

Como distinguir na prática?

Exemplos práticos das diferenças da Justiça Virtude (o que sinto que é certo) e da Justiça Direito (o que a lei diz) em situações concretas:

Um sem-abrigo rouba comida para não morrer à fome, o que é compreensível e quase justo a nível de consciência ou Justiça Virtude e é crime, e, a nível de Justiça Direito,  deve ser punido.

Um pai esconde o filho que cometeu um crime que a nível de consciência é compreensível porque protege o filho por amor e justiça, mas a nível de Direito é cumplicidade e crime de auxílio.

Uma empresa despede um trabalhador doente sem justa causa, o que a nível de Justiça Virtude é desumano e injusto, se a lei o permitir, é legal na Justiça de Direito.

Um rico paga menos impostos que um pobre, o que se revela como errado e injusto, mas se a lei tem esse buraco, é legal.

O que fazer quando as duas justiças entram em conflito?

Não há uma resposta fácil. Cada pessoa deve decidir segundo a sua consciência, mas é bom ter-se em consideração:

Conhecer a lei porque muitas vezes julgamos a lei injusta sem a conhecer verdadeiramente
Exigir leis melhores porque se uma lei é injusta, devemos lutar para a mudar pacificamente
Não confundir legal com justo, porque nem tudo o que é legal é moralmente correto
Respeitar os tribunais, mesmo quando discordamos, porque a ordem social precisa de regras mesmo que por vezes vão contra a justiça virtude.

Conclusão

A justiça como virtude é um ideal, uma estrela ou bússola que guia o nosso comportamento. A justiça como aplicação do direito é uma ferramenta imperfeita, feita por homens imperfeitos que estão condicionados por natureza a formar sociedades. A primeira mora no coração, a segunda mora nos códigos. O facto é que ambas são necessárias.

O sábio é aquele que, tendo leis, não perde a sua consciência e tendo consciência, respeita as leis. E o cidadão atento é aquele que, reconhecendo as falhas da justiça do direito, não se conforma e trabalha para que ela se aproxime cada vez mais da justiça que habita em cada ser humano. Para isso o povo tem de deixar a sua comodidade e estar mais pronto para ir para a rua e fazer manifestações porque só elas constituem o outro prato da balança em relação ao voto democrático que pode ser contornado pelos governantes e partidos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

POLÍTICA-MORAL-JUTIÇA

Não se iluda quem olha a polis: ali, a moral e a justiça são servas subalternas do Grande Irmão Estado, que as elites determinam. É uma verdade de aspeto duro, como pedra fria; mas para que essa dureza se amacie e o mundo respire ar puro, devem os homens de têmpera nobre subir, um a um, aos lugares de chefia.
António CD Justo

O DEUS QUE HABITA EM SILÊNCIO EM MIM

Dedico estes versos aos meus amigos ateus ou agnósticos,
espíritos que buscam firmar o discurso da própria mente
com o nome profundo e silencioso que a terra lhes gravou no ser
.

Não creio. Mas a Sua crença em mim
é uma charrua de lâmina suspensa
que sulca o campo onde a dúvida germina
não para ajoelhar, mas para erguer a leiva.

Sou cristão de sombras que a ciência atravessa
como um vento que quer nomear-se inteiro
e esquece que a verdade se atravessa
no corpo que a vive, nu e verdadeiro.

Deus cala. E nesse calar uma presença
me chama sem palavras nem proveitos.
Não estou só, estou em espera mansa,
feito de ressonâncias não resolvidas.

O possível e o impossível dentro de mim
ressoam como dois sinos que se ignoram.
O bem que chamo mal, o mal que fiz assim
de tanto que as mãos tacteiam e decoram.

Vou com a luz e a escuridão de igual modo:
sou o lugar onde a noite não é inimiga
mas a pausa que o sonho leva a todo
o mundo que a natureza ainda abriga.

A dúvida é meu arado mais certeiro.
Assino-a curva aberta, não trincheira.
E Deus, que crê em mim porque é primeiro
a calar-se, sorri de dia e à noite sonha
uma terra sem muros, onde o encoberto
é apenas a outra face do que é certo,
e o nu que caminha já não tem vergonha.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

BILINGUISMO – UM CAPITAL CULTURAL QUE AMPLIA A CONSCIÊNCIA

Introdução

Numa sociedade cada vez mais globalizada e intercultural, a questão do bilinguismo assume uma importância crescente para as famílias, as escolas, a política e a sociedade em geral. Na qualidade de alguém que adquiriu várias línguas, contactou com diversas culturas e lecciona há décadas no ensino da língua materna, procuro neste trabalho articular a experiência pessoal com o conhecimento científico, oferecendo uma orientação prática a pais, educadores e decisores políticos na área da educação (1).

O que é o bilinguismo?

Não existe, na investigação científica, uma definição universalmente aceite de bilinguismo, dado que diferentes abordagens assentam em critérios distintos. De forma geral, o bilinguismo pode ser entendido como a capacidade de se expressar e comunicar fluentemente, oralmente e por escrito, em duas línguas, nas diversas situações da vida. Importa salientar que a maioria dos bilingues possui uma língua dominante e outra menos dominante; a simetria plena entre ambas é relativamente rara.

Distingue-se entre bilinguismo simultâneo (aquisição de ambas as línguas antes dos três anos de idade), bilinguismo sucessivo (aquisição da segunda língua após os três anos), bem como entre bilinguismo aditivo e subtrativo. A investigação demonstra que um início precoce da educação bilingue é particularmente vantajoso: quanto mais cedo se introduz uma segunda língua, mais naturalmente esta é vivida como meio de comunicação e não apenas como objeto de aprendizagem.

A importância das experiências autênticas no processo de aprendizagem linguística

A investigação recente nas áreas da linguística e da pedagogia sublinha de forma inequívoca que a língua não é aprendida de forma isolada, mas sim em contexto vivo. Experiências autênticas, isto é, contactos reais e significativos com a língua no quotidiano, são determinantes para que as crianças não apenas dominem formalmente uma língua, mas a interiorizem verdadeiramente.

As crianças aprendem com todos os sentidos. A aquisição linguística é mais eficaz quando ocorre em situações emocionalmente significativas: ao brincar com outras crianças, ao cozinhar em conjunto, ao ouvir histórias antes de dormir, durante férias no país da língua menos dominante ou através do contacto com avós e outros familiares. Nesses momentos, a língua adquire sentido, deixa de ser um objetivo abstrato e passa a ser um instrumento de vida.

Os estudos mais recentes sobre aquisição da linguagem confirmam que experiências linguísticas contextualizadas e significativas favorecem o processamento neuronal e a memorização. As crianças que vivenciam a língua em interações sociais reais desenvolvem não só um vocabulário mais rico, como também uma sensibilidade linguística mais profunda, que abordagens meramente instrucionais não conseguem substituir. O cérebro retém a língua de forma mais duradoura quando esta está associada à emoção, à ação e à vivência social.

Daqui decorrem implicações concretas para a educação linguística no seio da família: estadias de férias no país da língua minoritária, contacto regular com falantes nativos, canções, histórias, jogos e dramatizações na língua-alvo não são meros complementos, mas pilares essenciais de uma educação bilingue bem-sucedida. A língua deve ser vivida, não apenas ensinada. Como a experiência demonstra, durante férias em Portugal, a língua menos dominante das crianças tende a tornar-se, temporariamente, a língua principal, a mudança ocorre de forma natural.

Igualmente relevante é o papel dos modelos: professores, colegas, músicos ou outras figuras de referência que utilizam a língua de forma viva oferecem à criança motivos para a considerar valiosa e desejável.

Estado emocional e carga mental

Um aspeto frequentemente subestimado da educação bilingue é a sua dimensão emocional. A língua não é apenas um fenómeno cognitivo, mas profundamente emocional. A língua materna é a língua do afeto, é nela que se sente, se sonha e se pensa. Em momentos de maior excitação ou emoção intensa, as pessoas tendem a regressar quase automaticamente à língua dominante. Este facto deve ser respeitado no contexto da educação bilingue e não interpretado como um fracasso.

Os resultados da psicologia do desenvolvimento e da pedagogia alertam para o seguinte: a estabilidade emocional da criança nunca deve ser comprometida pelo processo de aprendizagem linguística. Pressão excessiva, correções constantes, imposição de uma língua em momentos sensíveis ou expectativas perfeccionistas relativamente à língua menos dominante podem gerar ansiedade, receio de falar ou até recusa da língua. A educação bilingue deve decorrer num ambiente afetivo, seguro e isento de medo, em que o erro seja encarado como parte natural da aprendizagem.

Torna-se particularmente problemático quando a educação bilingue se transforma num foco de conflito familiar. Se uma língua estiver associada a experiências negativas, seja devido a tensões familiares, rejeição social ou expectativas desajustadas, tal pode refletir-se diretamente no desenvolvimento linguístico da criança. A recusa de uma língua constitui frequentemente um sinal de natureza emocional, e não linguística.

Estudos recentes indicam ainda que uma sobrecarga cognitiva, por exemplo, a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita em duas ou três línguas numa idade muito precoce, pode ser contraproducente. Recomenda-se, por isso, iniciar a alfabetização na língua do meio envolvente e introduzir a segunda língua com um intervalo aproximado de um a um ano e meio. Deste modo, o cérebro da criança dispõe do tempo necessário para consolidar sistemas ortográficos estáveis sem sobrecarga.

O papel da família e do meio social

A família constitui o contexto mais relevante da educação bilingue. O princípio metodológico mais eficaz é o denominado “uma pessoa, uma língua”: cada progenitor comunica consistentemente com a criança na sua língua materna. Este método favorece a sensibilidade fonética, facilita a organização das línguas e ancora cada língua numa relação pessoal.

É fundamental que ambas as línguas e culturas sejam valorizadas no seio familiar. Nenhuma língua deve ser associada à obrigação e a outra ao prazer. Ambas devem ser vividas como equivalentes, ligadas a experiências positivas, proximidade afetiva e vivências partilhadas.

O meio social, jardim de infância, escola, grupo de pares, desempenha igualmente um papel importante. Entre os seis e os doze anos, a língua menos dominante encontra-se particularmente vulnerável, devido à forte influência dos pares e da língua escolar. Estadias regulares no país da língua menos dominante, ensino da língua materna e instituições bilingues podem constituir importantes fatores de equilíbrio.

Resultados científicos e conclusão

Contrariamente a perspetivas negativas do passado, a investigação atual demonstra de forma clara que o bilinguismo não prejudica o desenvolvimento cognitivo nem linguístico. Pelo contrário, as crianças bilingues desenvolvem mais precocemente a consciência metalinguística, aprendem outras línguas com maior facilidade, evidenciam maior flexibilidade cognitiva e revelam maior abertura e tolerância cultural do que os seus pares monolingues.

Os efeitos positivos do bilinguismo são particularmente evidentes quando ambas as línguas se encontram bem desenvolvidas, quando a aprendizagem ocorre num ambiente emocionalmente seguro e quando experiências autênticas com ambas as línguas ocupam um lugar central. A língua deve ser vivida como fonte de prazer e enriquecimento, e não como um encargo.

Em síntese, as crianças bilingues crescem com uma consciência ampliada. Desde cedo compreendem que as palavras e a realidade não são coincidentes, que existem diferentes formas de ver o mundo e que é possível pertencer a mais do que um universo cultural. Trata-se de um património valioso que deve ser preservado conjuntamente pelas famílias e pela sociedade.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

(1) Neste artigo resumo a minha palestra de 2006 mais actualizada. Quem desejar referências mais específicas relativas ao ensino bilingue pode consultar a palestra em língua alemã https://antonio-justo.blogspot.com/2008/06/bilingualitt.html:  também em português no link:https://antonio-justo.eu/?p=3890 Também em português e com um comentário importante em: https://antonio-justo.blogspot.com/2008/06/bilingualidade-um-capital-cultural.html

 

PORTUGAL, PIONEIRO DA ESTRATÉGIA GEOPOLÍTICA DA NAVEGAÇÃO E DAS DESCOBERTAS, DEITADO AO ESQUECIMENTO

A Glória do Passado converte-se em Afronta à Moleza e Vazio da Vida moderna

A História é injusta para com os contributos portugueses para o património universal, devido ao seu processo de apagamento. Neste aspecto, ela descreve os factos através de generalizações e de apropriação, atribuindo-os, nas narrativas culturais, a supraestruturas ou a potências que apenas mais tarde se afirmaram. Processo semelhante ocorre na Cultura: aquilo que é pensado pela generalidade e até por indivíduos criativos, acaba concentrado num ou noutro autor que, por ter tido o privilégio de pensar e reproduzir o espírito da sua época, serve de porta-voz e pioneiro para o conjunto da sociedade. Em geral, dá-se o apagamento do particular para se afirmar uma identidade maior. (Também hoje em Portugal, como consequência do wokismo, se assiste ao apagamento de Camões em favor do “espírito da época”!)

  1. Os Pioneiros da Navegação e das Descobertas desconhecidos

Portugal foi a primeira potência global, tendo a sua ciência náutica e coragem permitido criar mapas do mundo antes de qualquer outra nação europeia. Senão lembremos:

– Austrália: Os Mapas de Dieppe (década de 1540) mostram a costa australiana com nomes portugueses dois séculos antes de Capitão Cook, embora a teoria da descoberta portuguesa da Austrália seja um tema de contínuo debate histórico.

– Canadá: Antes de Jacques Cartier, os irmãos Corte-Real (Gaspar e Miguel) exploraram a costa da Terra Nova no início do século XVI, financiados pela Coroa portuguesa.

– Labrador: A península do Labrador foi representada em mapa e nomeada em homenagem a João Fernandes Lavrador, um navegador português que a avistou em 1492.

– Tibete: Foi um português, o jesuíta Bento de Góis, que provou em 1602 que o Cataio a que se referia Marco Polo era a China, sendo o primeiro europeu a cruzar os Himalaias e a chegar ao Tibete por terra.

-Brasil: Pedro Álvares Cabral reivindicou oficialmente o Brasil para Portugal em 1500, sendo este o pilar sul-americano do império.

– Caminho Marítimo para a Índia: Vasco da Gama ligou a Europa ao Oriente por mar em 1498, criando a base do comércio global durante séculos.

– Cabo da Boa Esperança: Bartolomeu Dias dobrou o extremo sul de África em 1488, prova de que era possível navegar do Atlântico para o Índico e um marco crucial para a viagem de Vasco da Gama.

– Circum-Navegação: Fernão de Magalhães liderou a primeira expedição a circum-navegar o globo (embora a serviço da Coroa de Castela), sendo o seu génio náutico o grande motor da viagem (1).

– Nilo Azul: O jesuíta Pedro Páez (1564 -1622) nascido em Madrid foi o primeiro a chegar à nascente do Nilo Azul, em 1618 – 150 anos antes do escocês James Bruce, que mais tarde tentaria apagá-lo dos registos. Páez passou toda a sua vida missionária sob o Padroado Português do Oriente, atuando na Índia e na Etiópia. É também autor da obra História da Etiópia, escrita em português, na qual descreveu, pioneiramente, as fontes do Nilo Azul.

  1. Cartografia e Apagamento histórico de um Império visual

O domínio português do mundo concretizava-se na ciência náutica que falava o português, através de mapas riquíssimos que demarcavam e documentavam o nosso poder e direitos. Contudo, como é próprio da História e dos regimes absorventes e generalistas, prefere-se muitas vezes falar de “cartografia europeia” em vez de cartografia portuguesa. Numa época em que se arquiteta a globalização, o fenómeno tende a acentuar-se, isto é, a despersonalizar e a descontextualizar, porque é mais conveniente para o sistema que pretende afirmar-se através do abstrato.

Mapas como “Cartografia Europeia“: De facto, os mapas mundi do século XVI, como o de Lopo Homem (1565), são muitas vezes referidos como ‘europeus’, diluindo a sua origem portuguesa. Estes mapas, com a sua toponímia e bandeiras portuguesas, são a representação física de um império visualmente português, não “europeu”. É um facto que Portugal se adiantou à Europa das potências de então porque estas se encontravam ainda demasiadamente ocupadas com elas mesmas e em processos de guerra. Portugal, profundamente católico pensou por primeiro em termos geoestratégicos.

Bandeiras escondidas: A escola cartográfica portuguesa, com figuras como Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, era uma das mais avançadas do mundo, com exclusividade para a Coroa, mas o seu trabalho foi incorporado em narrativas mais generalizadas.

  1. Tecnologia e Inovação eram as ferramentas do Império

Por detrás da expansão global esteve uma revolução tecnológica portuguesa, movida pela nossa tecnologia expressa na Caravela. O uso do astrolábio permitia aos navegadores determinar a latitude, medir o tempo e orientar-se no mar.

A Caravela, desenvolvida pelos portugueses no século XV, foi a embarcação ideal para a exploração. Rápida, fácil de manobrar e capaz de navegar contra o vento, era a ferramenta tecnológica que permitia avançar por mares desconhecidos enquanto outras nações usavam navios pesados e lentos. O empreendimento dos portugueses com a escola de sagres, do infante D. Henrique reunia o saber da época e era patrocinada pela ordem de Cristo (templários).

  1. Diplomacia e Geopolítica na Divisão do Mundo

A capacidade diplomática portuguesa foi tão decisiva como a capacidade militar.

Tratado de Tordesilhas: Este tratado de 1494 entre Portugal e Espanha foi um acto de política nacional inteligente: Portugal, de forma inovadora, usou a diplomacia para garantir, a sul e a leste, o domínio exclusivo de uma vasta área do globo, que incluía África, o Brasil e o Oriente.

Conclusão: Um Legado de “Primeiras Vezes”

A tendência de rotular as conquistas como “europeias” é uma imprecisão histórica mais adequado seria de referir-se o legado dos templários reunido na Ordem de Cristo. Os feitos aqui assinalados, das caravelas aos mapas, do Brasil ao Japão, demonstram que foram os portugueses os primeiros a criar um verdadeiro império global, movidos por tecnologia própria, financiamento régio e da ordem de Cristo e a coragem sustentada pela fé dos seus navegadores.

Este texto não tem por objetivo menosprezar a história de outros povos, mas sim devolver a Portugal o crédito pela sua conquista mais singular e significativa de ter sido a primeira potência global a estruturar, a representar geograficamente, a ligar e a transformar o mundo. Este legado geopolítico português foi transferido, com a independência das «colónias» portuguesas, para as esferas de domínio da União Soviética (de caráter ideológico) e dos Estados Unidos (de caráter imperialista).

Modernamente que somos dominados pelo globalismo e pelo consumismo, o texto poderá parecer demasiadamente patriótico mas ao mesmo tempo um questionamento ao sentido e missão do nosso país, hoje.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10931

(1) Os portugueses chegaram ainda a Oman (1508), à Malásia (1511), a Timor (1512), à China (1513) e ao Japão (1543). Deram o nome de “Ilha Formosa” a Taiwan por volta de 1544 tendo iniciado o comércio com o Japão em 1543. Os portugueses, eram chamados de “bárbaros do sul” e trouxeram espingardas, pólvora e seda crua da China, mudando as táticas de guerra japonesas.

De notar que Portugal conquistou Ceuta em 1415 no reinado de D. João I, dando início à expansão portuguesa.