O ESPELHO DE LUZ PÁLIDA

A verdade tornou-se um espelho partido; cada fragmento reflete a vontade de quem o segura, e a imagem do todo é apenas a soma das nossas solidões.

Na cidade de Babel Online, onde os rios de dados corriam mais fundo que o antigo Reno, havia um homem chamado Tony que ganhava a vida a limpar vidros. Não os vidros comuns das janelas, mas os écrans. Os grandes, os pequenos, os que revestiam as paredes das praças e os que dormiam no bolso das pessoas. A sua profissão, que muitos julgavam obsoleta, era na verdade essencial porque as superfícies por onde o mundo se via estavam sempre embaciadas pela transpiração das imagens.

Numa tarde de nevoeiro digital, a filha de Tony, uma jovem estudante de artes chamada Mina, entrou em casa com o rosto mais pálido que o ecrã do seu tablet. “Pai”, disse ela, “acabei de ver no Jornal do Horizonte um vídeo da América. Agentes com capacetes negros arrancavam crianças dos braços das mães, numa rua de tijolos vermelhos. As lágrimas das mães congelavam no ar. Era… horrível. Perfeito demais.”

Tony, que polia meticulosamente a superfície negra da sua velha televisão (desligada há meses), não respondeu. Apenas soprou dela uma partícula invisível.

No dia seguinte, o Presidente da Província das Vinhas, um homem de fato escuro e sorriso público, apareceu nos mesmos écrans. A sua voz, grave como um violoncelo desafinado, exigia “máxima transparência” sobre a origem daquelas imagens. Mas Tony, ao limpar o mármore do átrio da estação pública, viu os produtores a rirem-se, enquanto um deles dizia: “Transparência? Nós damos-lhe é brilho. E o brilho, meu caro, é a mais opaca das superfícies.”

Foi então que Mina descobriu a verdade. O vídeo das deportações brutais não tinha sido filmado, mas tecido por uma inteligência artificial, um tear digital que fiava realidades a partir de palavras-chave: “agressividade”, “ICE”, “injustiça”. As imagens eram uma ideia feita carne de pixel, uma vontade humana concretizada por uma máquina. A notícia falsa não era um erro, era uma arma de confeção fina, um prato servido à população para que ela mastigasse a indignação correta, com o talher adequado à política do dia.

“Estás a ver, Mina?”, murmurou Tony nessa noite, apontando para o écran da cidade lá fora. “A Europa olha-se ao espelho e julga ver o mundo inteiro refletido. Mas esse espelho foi forjado nas nossas próprias fundições de pensamento. Chamamos-lhe ‘informação’, mas é um espelho deformado, um artefacto que nos mostra mais bonitos, mais éticos, mais certos do que os outros. E depois apontamos o dedo ao espelho do outro, ao dragão de porcelana do Oriente, ao urso siberiano, chamando-lhe falso. Isso é hipocrisia, minha filha, é o perfume do nosso império.”

Mina compreendeu então o conceito do pai quando falava de “imperialismo mental”. Já não eram navios ou canhões que partiam para conquistar, mas ideias pré-confecionadas, embaladas em celofane emocional, enviadas por satélite. A Europa, esse velho umbigo do mundo, já não vendia gráficos nem mapas; vendia a lente através da qual os mapas deviam ser lidos. E quem controla a lente, controla a paisagem.

A partir daquele dia, Mina começou a observar. Viu como os mesmos canais que mostravam a brutalidade fabricada na América e na Ucrânia, tratavam os incidentes locais com uma esponja suave. Viu como a violência de extremistas de direita era mostrada com uma lente bipartida, enquanto a dos extremistas de esquerda era filtrada por um nevoeiro poético que a tornava quase uma “expressão artística”. A verdade, percebeu, não era uma questão de facto, mas de ajustamento ao vento político correto. Era um facto feito à medida da região e da estação do ano.

Numa feira de arte digital, Mina encontrou uma instalação chamada “O Confeitor”. Era uma cozinha high-tech onde qualquer pessoa podia soprar um sentimento e receber, num prato, uma imagem pronta a consumir. Mina admirada, soprou então o sentimento „medo da imigração” e a máquina devolveu-lhe uma fotografia de um homem moreno a assaltar uma velhinha. Soprou “amor pela Europa” e a máquina gerou um pôr-do-sol sobre campos de trigo dourado, sem migrantes, sem fios elétricos, sem fábricas. A realidade era um menu, mas as pessoas preferiam o prato do dia.

Entretanto, uma velha filósofa chamada Sofia, que vivia num bairro esquecido pelas câmaras, dizia aos poucos que a ouviam: “Estamos numa guerra total, numa guerra mais que de exércitos. É uma guerra entre a vontade e a imaginação. A vontade quer dominar, criar uma realidade que lhe obedeça. A imaginação, essa, é livre, mas foi capturada e posta a trabalhar nas fábricas de ilusões. O resultado é que já não sabemos quem somos. As colunas que sustentavam a nossa identidade, como a geografia, a religião, a história, a comunidade e a família, foram dinamitadas por esta explosão de imagens contraditórias. Somos consumidores de sombras numa caverna digital, mais artificial que a caverna de Platão, e aplaudimos as correntes porque estão na moda.”

Mina sentiu um frio na alma a invadir-lhe todo o corpo. Percebeu que a grande narrativa da Europa, a de ser o farol da razão e da verdade, estava a ser corroída por dentro. A confiança, esse cimento social, dissolvia-se como açúcar na água. E em seu lugar, subia uma maré de relativismo absoluto. Se tudo pode ser fabricado, nada é verdadeiro. E se nada é verdadeiro, então a única verdade é o poder de quem fabrica.

Uma noite, Tony, o pai de Mina, levou-a ao topo da torre mais alta da cidade. Dali, viam-se os milhares de écrans das casas, todos a brilhar no escuro, como pirilampos enjaulados. “Vês?”, disse o pai. “Cada uma daquelas luzes é uma alma a ser alimentada por imagens que não escolheu. Mas olha e repara ali, naquela janela sem écran.”

Mina olhou. Numa única janela, a luz era diferente. Não era o azul frio de um monitor, mas o amarelo quente de uma vela. Dentro, uma família estava sentada à volta de uma mesa, a conversar.

“Esses”, disse Tony, “são os últimos resistentes. Os que ainda acreditam que a realidade não precisa de ser fabricada, mas apenas vivida. Aqueles que sabem que a verdade não é uma imagem, mas um rosto que se olha, uma mão que se toca. Eles estão conscientes que a procura de sentido não se faz com algoritmos, mas com a limitação bendita de ser humano; de ser um corpo que sente fome, cansaço, amor. Um ser que, por mais que tente, não pode estar em todo o lado nem ver tudo. E é nessa limitação que habita a autenticidade.”

Mina desceu da torre e, no dia seguinte, recusou-se a ver o Jornal do Horizonte. Saiu para a rua e caminhou até ao bairro da velha Sofia. Sentou-se num banco de jardim, ao lado de uma mulher que lia um livro de papel, ao som de pássaros verdadeiros. Mina olhou para as nuvens, que não obedeciam a nenhum guião, e para a erva, que crescia sem licença de transmissão.

E ali, entre a vontade do mundo que queria impor-lhe uma visão e a sua própria imaginação, que começava a libertar-se das imagens feitas, Mina sentiu, pela primeira vez, o peso leve de ser apenas uma pessoa. Um ponto minúsculo no mapa, mas um ponto real. Não um consumidor de cultura, mas um ser humilde atento e aprendiz, mas que se sabe orientado por uma voz espiritual que habita o seu coração.

O imperialismo das ideias, percebeu, só vence se não houver ninguém do lado de fora a olhar para o céu.

No reino da imagem fabricada, o maior acto de rebeldia é ainda procurar a porta da realidade, mesmo sabendo que, para a abrir, talvez seja preciso derrubar a nossa própria imagem refletida.

António a Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Nota:

Ao escrever estas linhas, fica em mim um cansaço que não é do corpo, mas da alma. É a vertigem de ver o mundo dissolver-se em narrativas concorrentes, onde o facto é apenas o ponto de partida para um campeonato de versões que nos torna consumidores de sombras sem o notarmos. Sinto a solidão de quem, no meio do mercado, continua a preferir o sabor genuíno do fruto, por mais imperfeito que seja, ao invés da perfeição plástica e doce do fruto fabricado. Mas sinto também uma clareza paradoxal. A mesma tecnologia que nos afoga em ilusões, ilumina, pelo seu abuso, a nossa fome de verdade. A mesma hipocrisia que denunciamos nos outros, ensina-nos a vigiar a nossa própria tendência para moldar o mundo à medida da nossa vontade. No fundo, talvez o observador não esteja condenado à mera constatação da miséria. Talvez a sua teimosia em distinguir a imagem da coisa seja o primeiro, pequeno e frágil passo para reconstruir, com as mãos vazias, mas a consciência desperta, um pedaço de chão firme onde valha a pena viver. A mim o que emocional e intelectualmente me acompanha é o protótipo Jesus Cristo.

O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

CAMINHO

Não busco a verdade como quem prende,
mas como quem caminha sem chegar.
A luz não é um prémio que se entende:
é companhia ao longo do olhar.

Há um silêncio acima do pensamento,
um céu interior sem explicação;
às vezes sinto, leve, o firmamento
descer inteiro ao centro do coração.

Não é milagre, nem é fantasia,
é só o real abrindo outra dimensão.
Um instante basta e a alma se alia
ao que não cabe em forma ou definição.

Sou feito de razão, mas não me fecho:
a mente é porta, não é o lugar.
O mistério respira no entremeio
do que eu consigo e não sei nomear.

Procuro sem vontade de possuir,
porque a resposta é sempre movimento.
A vida é mais do que o simples existir:
é ser pergunta dentro do momento.

E quando a dor me corta e me desfaz,
descubro uma presença que não cai,
não é certeza, é uma funda paz,
um chão invisível que me atrai.

Assim caminho: não para alcançar,
mas para ser, em busca, revelado.
A verdade não é algo a conquistar:
é o próprio passo, lúcido e amado.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do tempo

 

DIA DE S. VALENTM – DIA DOS NAMORADOS

Beijar é o melhor e mais divertido Remédio para o Corpo e para a Alma

O dia em que o comércio local esfrega as mãos de contentamento, os restaurantes duplicam os preços do menu e os corações (mesmo os mais empedernidos) fazem um esforço extra para se lembrarem de que, afinal, ainda batem dentro do peito. Hoje é Dia dos Namorados, mas preferia chamar, o Dia Internacional do beijo na boca e da troca de embrulhos com laço.

Há quem diga, e com toda a razão, que beijar é o melhor remédio. Mais barato que Ibuprofeno ou Ben-u-ron e infinitamente mais agradável. É o santo comprimido efervescente que dissolve na boca e vai direto à alma. Os apaixonados lá andam, de nariz colado, a trocar carícias e pequenas lembranças, tudo na nostalgia do chamado Valentim (1), que era um padre com veia poética e espírito de insubordinação que, em pleno império romano, teimou em casar os jovens apaixonados às escondidas. Como resultado teve a prisão. E isto compreende-se porque o amor sempre foi um assunto perigoso e subversivo!

Na minha modesta opinião de observador do mundo, a verdade é que para se ter um vislumbre de paraíso, é preciso não andar em bicos de pés, mas ter os pés bem assentes na terra e não impedir sistematicamente que as suas energias subam mais além! Os verdadeiros jardineiros do espírito, aqueles que tratam da horta da alma com carinho, sentem-no logo de manhã: há amor no ar. Um simples sorriso, sem segundas intenções nem expectativas, é capaz de iluminar a paisagem mais cinzenta mesmo em manhãs de nevoeiro! A Bíblia, que não é propriamente um livro de autoajuda barata, já o dizia: o amor não é uma roupa que se veste e despe ao sabor da moda. Não há que mudar de casaco conforme o tempo. O amor aplica-se à vida, mesmo quando ela resolve desabar numa tempestade de granizo. É um laço invisível, uma daquelas colas superpoderosas que unem o que parecia partido e que teimam em agarrar quando o mais fácil seria largar tudo e ir à vida. (Para pessoas religiosas e não religiosas interessadas recomendo o Cântico dos Cânticos com os poemas líricos que o rei Salomão terá destilado).

Claro está que o amor não tem manual de instruções. Não vem com garantia de peças. É imperfeito, matreiro, cheio de falhas de fabrico. Mas atrai. Tem um íman qualquer. Talvez porque, no fundo, o amor seja um sem-abrigo de luxo! Como não tem morada fixa neste mundo, vive eternamente à procura de um lar onde possa pousar a cabeça. E é por isso que, quando encontra um, vale a pena festejar.

E como se festeja? Com um beijo, claro! Vale sempre a pena, porque um beijo é um fator de felicidade, um estimulante cardíaco sem efeitos secundários (salvo, por vezes, uma certa tontura, perfeitamente desculpável). É um grande ginásio para a alma. Precisa, sim, de ar fresco, de espaço para respirar, mas é a mais pura das comunicações. Beijar é dizer “gosto de ti” sem gastar sequer uma letra! É a demonstração máxima de que, naquele momento, não há sítio melhor no mundo, porque esse é o momento em que céu e terra se unem!

Do ponto de vista médico, então, o beijo é um espetáculo. Mobiliza 30 músculos faciais, acelera o pulso, põe o sistema imunitário em sentido e manda um fax ao cérebro a dizer que está tudo bem. É um verdadeiro “check-up” com sabor a framboesa. Pena é que, nos casamentos, com o passar dos anos, este remédio tão milagrosa tenda a ser receitado com menos frequência. A rotina instala-se, o sofá chama, e o beijo matinal passa a ser um gesto mecânico, um “bom-dia” seco dado de raspão, enquanto  se olha para o relógio!.

É uma lástima. Porque se há coisa que o Dia dos Namorados nos devia lembrar, para além da correria às floristas, é que o amor é um verbo e não um arquivo morto. E que um beijo, mesmo fora de época, é sempre a melhor forma de o conjugar. E agora que se conhece a gramática o melhor é passar à prática!

António da Cunha Duarte Justo

Nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10770

(1) São Valentim foi decapitado no dia 14 de fevereiro no século III. Na época do imperador Cláudio II Gothicus, os casamentos entre jovens soldados teriam sido proibidos, pois acreditava-se que homens solteiros eram melhores guerreiros.

O DIA DOS NAMORADOS : Pegadas do tempo: https://antonio-justo.eu/?p=9867

 

AVALIAÇÃO DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS EM PORTUGAL 2026  

António Seguro vence Presidenciais e PS recupera Fôlego – Ventura cresce e fragmenta o Bipartidarismo

A segunda volta das eleições presidenciais de 2026, realizada no passado domingo, confirmou a vitória de António Seguro com uma expressiva maioria de 66,81% dos votos expressos. O candidato apoiado pelas principais forças políticas e pela esmagadora maioria dos media alcançou 3.482.481 votos, contra 1.729.371 do adversário André Ventura (33,18%).

Apesar do resultado folgado, os dados da participação eleitoral trazem sinais inquietantes para o sistema partidário português. A abstenção fixou-se nos 49,91% e revelou-se como o valor mais elevado de sempre numa segunda volta de presidenciais. Dos 10.951.081 eleitores inscritos, 5.466.212 não compareceram às urnas.

O “Silêncio ruidoso” de quem votou contra ambos

Entre os 5.484.869 votantes, 271.520 eleitores (4,95% do total) optaram por não escolher nenhum dos dois finalistas. Foram registados 97.724 votos nulos (1,78%) e 173.823 votos em branco (3,17%). Os números traduzem aquilo a que se poderia chamar de “terceira via do silêncio ruidoso”, ou seja, um protesto activo de quem foi às urnas para rejeitar ambas as candidaturas.

Ventura rompe o Sistema bipolar partidário e consolida Espaço próprio

Candidato único na segunda volta, André Ventura conseguiu mobilizar mais de 1,7 milhões de eleitores, o que representa um crescimento significativo face aos resultados do CHEGA nas últimas legislativas. O feito repõe a geometria do sistema partidário português: PS, CHEGA e PSD que se posicionam agora como as três forças com maior expressão eleitoral no país.

Para Ventura, o resultado representa a rutura definitiva com o tradicional duo-partidarismo. Apesar da derrota, a sua votação expressiva valida a estratégia de afirmação autónoma e consolida-o como líder de um polo político com capacidade de influenciar o equilíbrio de forças nos próximos ciclos eleitorais.

O “Balão de Oxigénio” de Seguro e a Armadilha da Governação

A vitória de António Seguro é lida internamente como “o balão de oxigénio de que o PS precisava”, num momento de desgaste partidário e de indefinição estratégica. No entanto, o novo Presidente da República encontra-se numa posição delicada. Eleito com o apoio de todo o arco da governação e dos grandes grupos de comunicação social, Seguro enfrenta agora a difícil equação entre dar continuidade ao status quo e responder à evidente necessidade de renovação política.

A ambivalência promete marcar o seu mandato. Se a vitória expressiva lhe confere legitimidade, o contexto que a rodeia, abstenção recorde, divisionismo partidário e uma fatia significativa de eleitores a recusar os dois campos, mostra que o descontentamento não foi desarmado, sendo apenas transferido.

A Ausência de Metade do País é um Pesadelo que não passa

O dado mais estrutural da noite eleitoral é, porém, a abstenção. Cinco milhões e meio de portugueses ficaram em casa. É o maior acto de questionamento silencioso ao regime democrático português desde 1974. O resultado deveria causar pesadelo ao sistema partidário e à forma como as elites, especialmente os Media, conduzem o povo.

Mais do que a vitória de um ou de outro, foi a ausência coletiva que deu a verdadeira dimensão do descontentamento. E o problema não promete ficar por estas duas voltas porque é sistémico.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo