PROCURA-SE SAÚDE MENTAL

A crise do nosso tempo não reside na pluralidade das narrativas, mas na incapacidade de as submeter a uma realidade comum, onde a razão reconheça os seus limites, a justiça transcenda a mera legalidade e a dignidade humana permaneça superior aos interesses que pretendem representá-la.

A humanidade entre as narrativas do poder e o exílio da realidade

Há uma enfermidade silenciosa a percorrer as sociedades contemporâneas. Não se manifesta necessariamente nos hospitais, nem se deixa diagnosticar pelos instrumentos habituais da medicina. Instala-se no pensamento coletivo, infiltra-se nas instituições, alimenta-se das linguagens políticas e prospera onde a razão deixa de procurar a verdade para se colocar ao serviço da pertença, da conveniência e do poder, enfim, uma enfermidade que parece penetrar a nossa essência.

É uma espécie de desorientação da consciência pública, na qual as sociedades, embora cada vez mais informadas, parecem compreender-se cada vez menos.

Nunca tivemos tantas palavras para explicar o mundo e talvez nunca tenhamos tido tão pouca disponibilidade para o escutar.

Os povos e os seus governos constroem narrativas destinadas a conferir identidade, continuidade e legitimidade à própria existência histórica. Nenhuma comunidade nasce no vazio. Cada uma respira num determinado biótopo cultural, alimentado pela geografia, pelo clima, pela memória dos antepassados, pelos trabalhos quotidianos e até pelos ventos dominantes que, durante séculos, modelaram os hábitos, os temperamentos e as formas de imaginar a vida.

A paisagem não é apenas o cenário da história; ela participa silenciosamente na formação da consciência. Há uma sabedoria das montanhas, uma inquietação das fronteiras, uma abertura dos mares e uma intimidade dos vales. A cultura nasce também desta convivência prolongada entre o ser humano e o lugar (Não é sem razão que as noites prolongadas de povos nórdicos os levam a procurar a luz nos livros que não encontram fora!).

O problema começa quando essa experiência situada, legítima na sua singularidade, se transforma numa narrativa fechada que pretende possuir a interpretação definitiva da realidade.

  1. Quando os factos deixam de dialogar

No regime contemporâneo das narrativas, os factos correm frequentemente o risco de perder a sua autonomia. Já não são necessariamente acolhidos pela sua capacidade de esclarecer a realidade, mas pela utilidade que oferecem à construção de uma determinada visão do mundo (ou narrativa).

Cada narrativa seleciona os acontecimentos que a confirmam, organiza-os segundo a sua lógica interna e tende a desvalorizar aqueles que a poderiam contrariar.

Assim se constituem universos paralelos de interpretação.

O que para uns representa libertação, para outros constitui ameaça; aquilo que um governo apresenta como defesa da segurança, outro denuncia como agressão; o que uma comunidade celebra como fidelidade à sua história pode ser vivido por outra como exclusão ou injustiça.

Não se trata de afirmar que todas as interpretações possuem o mesmo valor ou que os factos deixam de existir independentemente delas. Pelo contrário,  é precisamente porque existe uma realidade que não depende das nossas conveniências que as narrativas precisam de ser confrontadas, corrigidas e responsabilizadas.

Uma narrativa que se torna imune à experiência deixa de ser instrumento de compreensão para se transformar em mecanismo de autopreservação.

A verdade deixa então de ser uma procura e passa a funcionar como propriedade de grupo. E quando a verdade é tratada como propriedade, o outro deixa de ser interlocutor para se tornar intruso.

2. O abstrato contra o situado

Uma das contradições mais inquietantes do nosso tempo reside na distância crescente entre a abstração dos discursos e a concretude da vida.

Fala-se de humanidade enquanto se ignoram seres humanos. Invoca-se a paz enquanto se alimentam mecanismos de hostilidade. Proclamam-se direitos universais enquanto se relativiza o sofrimento daqueles que se encontram fora do perímetro das nossas2 simpatias políticas ou culturais.

O abstrato, que deveria ajudar a compreender e a dignificar o concreto, converte-se frequentemente numa instância que o subordina.

A pessoa real, com a sua biografia, o seu medo, a sua esperança e a sua vulnerabilidade, desaparece por detrás de categorias como povo, nação, civilização, bloco, sistema ou interesse estratégico.

A linguagem torna-se progressivamente mais grandiosa à medida que a experiência humana se torna menos visível.

Mas nenhuma ideia de humanidade pode ser moralmente superior à pessoa concreta que sacrifica em seu nome.

A universalidade autêntica não nasce da eliminação das diferenças. Nasce da capacidade de reconhecer, em cada existência situada, uma dignidade que ultrapassa as fronteiras da pertença.

O universal que não sabe ajoelhar-se diante do particular acaba por se transformar numa abstração desumana.

3.A memória sepultada pela velocidade

A aceleração histórica agrava esta fragmentação.

Os acontecimentos sucedem-se com tal rapidez que raramente dispomos do tempo necessário para compreender as suas origens. Uma notícia enterra a anterior; uma indignação substitui outra; uma explicação instala-se antes de a experiência ter amadurecido.

A memória deixa de ser uma continuidade interpretativa e converte-se num depósito de fragmentos mobilizáveis.

Torna-se então difícil reconstituir a terra que alimentou as raízes de um conflito, de uma cultura ou de uma decisão política.

As causas profundas desaparecem sob a acumulação dos efeitos imediatos.

A sociedade começa a viver numa espécie de presente perpétuo, saturado de informação e empobrecido de consciência histórica.

Contudo, compreender não significa desculpar, tal como recordar não significa permanecer prisioneiro do passado.

Compreender é restituir aos acontecimentos a sua espessura humana, reconhecer os encadeamentos que os produziram e impedir que a simplificação transforme a história numa sucessão de culpados absolutos e inocentes perfeitos.

Uma civilização que perde a capacidade de recordar criticamente corre o risco de repetir aquilo que já não consegue compreender Muitas referências à história passam a ser desenraizadas e atraiçoadas para se tornarem em pedras mortas possibilitadoras ao caminhar de pessoas com andarilhos!…

 

4. O direito, a justiça e a consciência

Também o direito participa desta tensão.

Enquanto ordem normativa, o direito estabelece procedimentos, competências, obrigações e limites. A sua força reside precisamente na possibilidade de regular a convivência sem depender exclusivamente dos sentimentos individuais ou das convicções morais particulares.

Mas o direito não se identifica automaticamente com a justiça.

Uma norma pode ser formalmente válida e, ainda assim, produzir consequências profundamente injustas. Uma decisão pode respeitar os procedimentos e deixar sem resposta a dor daqueles que por ela são atingidos (E o principal busílis da questão é que também aqui subsiste o hiato entre consciência própria e função).

O direito, considerado apenas como sistema, não possui alma. A alma pertence aos seres humanos que o criam, interpretam, aplicam e contestam.

Por isso, a justiça não pode reduzir-se à legalidade, embora também não possa dispensar as garantias que o direito proporciona.

A justiça exige uma permanente vigilância da consciência sobre a ordem instituída.

O mesmo se aplica à moral. Nenhuma tradição moral particular esgota a experiência humana do justo. A consciência amadurece quando reconhece que os seus próprios critérios precisam de ser expostos à experiência do outro.

O direito sem consciência arrisca tornar-se administração da força; a consciência sem direito arrisca tornar-se arbitrariedade.

A tarefa civilizacional consiste em manter viva a tensão fecunda entre ambos.

  1. A doença da razão instrumentalizada

O sinal mais preocupante da nossa época não é certamente  a existência de conflitos, inevitáveis numa humanidade plural, mas a crescente incapacidade de os pensar sem converter o adversário em inimigo existencial.

A razão, em vez de constituir um espaço de encontro, é frequentemente convocada para justificar decisões previamente determinadas por interesses económicos, geopolíticos, ideológicos ou identitários. Por isso deixa de perguntar «O que é verdadeiro?» para perguntar «Que argumentos servem melhor a nossa posição?».

A inteligência é pervertida e  transformada em instrumento de legitimação.

Surge assim uma racionalidade aparentemente rigorosa, mas interiormente empobrecida porque conhece os meios, calcula as vantagens, organiza os discursos e perde de vista os fins humanos que deveriam orientar a sua atividade.

Não estamos perante uma ausência de inteligência, mas perante uma possível dissociação entre inteligência e sabedoria.

É possível possuir enormes capacidades técnicas e permanecer incapaz de reconhecer o sofrimento provocado pelas próprias decisões.

É possível defender apaixonadamente valores universais e aplicá-los seletivamente. É possível vencer todas as discussões e perder a capacidade de convivência.

Esta é uma das grandes patologias metafóricas da vida pública que consiste na transformação da razão em advogada permanente de interesses que raramente se deixam interrogar.

  1. A saúde mental como responsabilidade civilizacional

Falar de saúde mental neste contexto não significa confundir divergência política com doença psiquiátrica, nem atribuir diagnósticos clínicos a povos ou governos.

Saúde mental, significa interrogar, em sentido filosófico e ético, a qualidade da nossa relação coletiva com a realidade.

Uma cultura intelectualmente saudável deve ser capaz de distinguir os factos das interpretações, os princípios dos interesses, a fidelidade às raízes da hostilidade perante o diferente.

É necessário reconhecer a possibilidade do erro próprio sem considerar essa admissão uma derrota.

Precisa de cultivar uma memória que não seja instrumento de vingança, uma identidade que não necessite de inimigos e uma razão que não tenha vergonha de reconhecer os seus limites. Acima de tudo, precisa de recuperar a capacidade de escutar.

Escutar não significa concordar. Significa admitir que o outro pode revelar dimensões da realidade que a nossa experiência não alcançou.

A verdadeira inclusão não consiste em dissolver as diferenças numa narrativa uniforme, mas em criar condições para que narrativas distintas possam encontrar-se perante factos verificáveis, princípios discutíveis e uma dignidade humana que nenhuma delas tenha o direito de monopolizar.

Não precisamos de um mundo sem narrativas; o que precisamos é de narrativas capazes de reconhecer que não são o mundo inteiro.

  1. Regresso à terra comum que pisamos

Talvez a reconstrução de uma razão verdadeiramente humana (para além das lógicas) tenha de começar por um gesto de humildade que é o de olhar para a terra e  regressar ela (nela encontramos o espírito e a matéria que em Belém se tornou protóptipo do ser e do tornar-se.).

Não à terra entendida como propriedade exclusiva de uma identidade, mas à terra enquanto condição partilhada da existência.

Todos nascemos situados. Todos recebemos uma língua antes de podermos escolher as palavras. Todos herdamos memórias, afetos, preconceitos e horizontes que não construímos sozinhos.

E todos, apesar dessas diferenças, partilhamos a fragilidade de um corpo, a necessidade de reconhecimento, a experiência da perda e a consciência, por vezes silenciosa, da própria finitude. É nessa vulnerabilidade comum que a razão pode reencontrar a sua vocação mais profunda.

A paz não nasce da vitória definitiva de uma narrativa sobre todas as outras. Nasce da construção exigente de condições em que a diferença não precise de se converter em ameaça.

A justiça não começa quando todos pensam do mesmo modo, mas quando ninguém é privado da sua humanidade por pensar de maneira diferente.

E a verdade não se torna mais fraca por aceitar o confronto; pelo contrário, encontra nele a possibilidade de se libertar das nossas ilusões.

Procura-se saúde mental.

Não apenas nos indivíduos, mas na qualidade do discurso público, na responsabilidade das instituições e na consciência daqueles que transformam palavras em decisões que afetam vidas.

Procura-se uma razão que não humilhe o sentimento, uma identidade que não sufoque a alteridade, uma lei que não esqueça a justiça e uma política que não confunda a grandeza dos seus projetos com a dignidade das pessoas.

Procura-se, afinal, a humanidade que se foi perdendo entre as palavras pronunciadas em seu nome. E isto porque uma civilização não se mede apenas pela inteligência com que organiza o poder, mas sobretudo pela sabedoria com que impede que esse poder destrua aquilo que deveria servir.

Certamente a primeira manifestação de saúde se expressa em reconhecer que nenhuma narrativa vale mais do que a vida que pretende explicar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

UM FUTURO PREVISÍVEL PARA PORTUGAL

Para além do medo generalizado de um colapso democrático

O medo sempre desempenhou um papel importante na organização das sociedades e na estabilidade dos sistemas políticos. Paradoxalmente, mesmo quando os governos revelam graves insuficiências, a insegurança perante o desconhecido leva frequentemente os cidadãos a preferirem a continuidade à mudança. O receio do novo acaba, assim, por funcionar como um mecanismo de conservação do poder.

Este fenómeno não se limita à política nacional. Encontramos comportamentos semelhantes tanto na sociedade portuguesa como na ordem internacional, particularmente no processo de transição de um mundo dominado por duas grandes potências para uma realidade multipolar, mais complexa e menos previsível.

Portugal atravessa uma transformação significativa do seu sistema partidário. O tradicional bipolarismo, assente na alternância entre PS e PSD, está a dar lugar a um tripolarismo em formação, marcado pela consolidação do Chega como força relevante à direita, pela reconfiguração do espaço político tradicional e pela crescente fragmentação da esquerda.

Três factores contribuem especialmente para esta mudança: o cansaço eleitoral, a centralidade crescente da imigração no debate público e a influência da desinformação pelas redes sociais. e pelas narrativas difundidas pelo sistema. A estes factores junta-se uma crescente simplificação do discurso político, num contexto de complexidade social e de empobrecimento do debate cultural, que favorece respostas emocionais e discursos de confronto.

Neste cenário, a direita de contestação tem encontrado condições particularmente favoráveis para crescer.

Contudo, ao contrário dos que receiam um colapso iminente da democracia portuguesa, considero mais provável outro desenvolvimento que se expressará na normalização de uma instabilidade política permanente, caracterizada por governos minoritários, dificuldades na formação de maiorias estáveis e pressões crescentes para alterações constitucionais, caso se consolidem as condições parlamentares necessárias.

A esquerda, se pretender inverter esta tendência, terá de ultrapassar as suas divisões internas e reconstruir um projecto económico e social convincente, capaz de mobilizar os cidadãos para além da simples oposição aos adversários.

Na realidade, grande parte da política portuguesa parece cada vez mais orientada para a desvalorização do outro. Os partidos procuram afirmar a sua identidade não tanto pela apresentação de projectos próprios, mas pela crítica sistemática, que se expressa até na  difamação, daqueles com quem disputam o poder.

Esta tendência não constitui, porém, uma particularidade portuguesa. A teoria política e a sociologia mostram-nos que a oposição desempenha um papel estrutural na formação das identidades políticas: frequentemente, os actores definem-se tanto por aquilo que defendem como por aquilo que rejeitam.

É precisamente esta lógica que importa compreender.

  1. A luta política e a necessidade de um adversário

Uma das características mais persistentes da vida política é a tendência de cada partido para desenvolver os seus próprios mecanismos de defesa e ataque, recorrendo a figuras que se poderiam designar, metaforicamente, como os seus «cães de guarda».

Estes assumem a função de proteger a identidade partidária, denunciar os adversários e mobilizar os apoiantes através da confrontação.

A tradição do pensamento político oferece instrumentos importantes para compreender este fenómeno.

Carl Schmitt identificou na distinção entre amigo e inimigo uma das características fundamentais do político. Não se tratava necessariamente de uma classificação moral entre bons e maus, mas de reconhecer que a intensidade da oposição pode determinar a própria natureza do conflito político.

Pierre Bourdieu, por sua vez, demonstrou que os actores sociais procuram afirmar-se dentro de um determinado campo através da diferenciação. O reconhecimento e a influência conquistam-se também pela capacidade de estabelecer distâncias relativamente aos concorrentes.

René Girard, através da sua teoria mimética, acrescentou outra dimensão a esta análise: os rivais não são apenas adversários, mas também modelos uns dos outros. Frequentemente, desejam o mesmo objecto, neste caso, o poder e, precisamente por isso, tornam-se obstáculos recíprocos.

Deste modo, a crítica ao adversário transforma-se num instrumento particularmente eficaz de mobilização política.

O chamado «cão de guarda partidário» não representa, portanto, uma simples anomalia do sistema democrático. Constitui uma expressão, por vezes excessiva, da própria lógica competitiva da política.

Este padrão manifesta-se em diferentes níveis da organização humana:

– No indivíduo, quando a identidade pessoal se constrói por diferenciação relativamente aos outros.

– Nos partidos, quando o adversário se transforma no principal recurso de afirmação política.

– Na sociedade, quando a coesão de determinados grupos se fortalece perante uma ameaça real ou imaginada.

– Na geopolítica, quando Estados e alianças consolidam a sua identidade através da oposição a potências rivais.

Encontramos aqui uma semelhança estrutural entre o comportamento individual, a competição partidária e as relações internacionais.

Esta repetição de padrões em diferentes escalas pode ser entendida, em sentido metafórico, como uma espécie de lógica fractal ou autossemelhante porque aquilo que observamos nas pequenas unidades sociais reaparece, sob formas mais complexas, nas grandes estruturas políticas.

Não significa que o indivíduo e o Estado sejam realidades idênticas, mas que certos mecanismos de rivalidade, identificação e afirmação se reproduzem em diferentes níveis.

Conservadores e progressistas participam desta dinâmica. Nenhuma corrente ideológica está, por natureza, imune à tentação de transformar o adversário num inimigo ou de se apresentar como detentora exclusiva do bem.

A questão decisiva não está, portanto, apenas na existência do conflito, mas na maneira como ele é institucionalmente organizado e limitado.

  1. O mesmo tipo de disputa pelo poder em regimes profundamente diferentes

Reconhecer que a luta pelo poder apresenta características semelhantes em diferentes sistemas políticos não significa colocar todos os regimes no mesmo plano.

Uma análise séria deve evitar tanto a idealização da democracia como a relativização da ditadura.

A oposição ao adversário existe em ambos os regimes, mas os instrumentos utilizados e as consequências para os cidadãos são profundamente diferentes (O mesmo se diga dos métodos de agressão contra o sistema).

Durante o Estado Novo, sob Salazar, a repressão da oposição constituía uma componente estrutural do próprio regime. A censura, a polícia política, os tribunais plenários, a ausência de eleições livres e a perseguição dos opositores comunistas impediam a competição democrática. A guerra colonial viria ainda a agravar as contradições e os custos humanos do sistema também devido às contradições inerentes que se equacionariam em servir o imperialismo português ou servir os imperialismos dos EUA e o da União Soviética.

O adversário político não era apenas criticado ou desacreditado porque podia ser vigiado, preso, silenciado e privado da liberdade.

Com o 25 de Abril de 1974, estabeleceu-se uma arquitectura institucional radicalmente diferente.

A liberdade de imprensa, o pluralismo partidário, as eleições livres, a alternância governativa e as garantias constitucionais passaram a permitir que os conflitos políticos fossem resolvidos através de mecanismos democráticos (embora o preço pago tenha sido a subjugação aos actores da geopolítica).

Isto não significa que tenham desaparecido a manipulação informativa, a propaganda, a difamação ou a tentativa de controlar as narrativas dominantes. Significa, porém, que os cidadãos dispõem de instrumentos legais e políticos para contestar o poder, defender os seus direitos e substituir os governantes.

Existe, por isso, uma diferença fundamental entre um sistema em que perder uma disputa política pode significar perder a liberdade e outro em que significa perder eleições.

A estrutura competitiva da luta pelo poder pode apresentar semelhanças, mas a arquitectura institucional que regula essa luta é incomparável dado cada regime ter a sua arquitetura precedente à “engenharia”.

É neste ponto que a reflexão sobre o bem e o mal adquire particular importância.

Ambas as possibilidades fazem parte da condição humana e manifestam-se nas diferentes formas de organização social. Nenhum grupo político possui o monopólio da virtude, tal como nenhum está condenado, por natureza, à perversidade.

O que distingue os regimes não é a existência ou ausência dessas tendências, mas a capacidade das instituições para conter os abusos, limitar o poder e proteger a dignidade humana.

A democracia não elimina os conflitos nem transforma os políticos em pessoas moralmente superiores. A sua grande conquista consiste em impedir que a disputa pelo poder se converta legitimamente em perseguição e violência.

  1. Da política portuguesa à geopolítica com a repetição de um padrão

A transformação do sistema partidário português encontra um paralelo interessante na evolução da ordem internacional.

Durante a Guerra Fria, o mundo encontrava-se organizado em torno de dois grandes blocos, liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética.

Tratava-se de uma estrutura bipolar, marcada por antagonismos ideológicos profundos, mas também por uma relativa clareza na distribuição do poder e na identificação dos principais adversários.

Os riscos eram enormes, incluindo a possibilidade de uma guerra nuclear, mas as relações entre os blocos obedeciam a determinados mecanismos de dissuasão e a regras de comportamento relativamente reconhecíveis.

Com o desaparecimento da União Soviética, abriu-se um período de predominância norte-americana. Entretanto, a ascensão da China, a reafirmação estratégica da Rússia e o crescente protagonismo de potências regionais contribuíram para uma distribuição mais complexa do poder mundial.

A ordem internacional encontra-se hoje num processo de reorganização, em que a influência deixa de estar concentrada exclusivamente em dois grandes centros de decisão.

Neste contexto, as alianças tornam-se mais flexíveis, os interesses mais diversificados e os alinhamentos menos permanentes.

Uma potência pode cooperar economicamente com determinado país e, simultaneamente, confrontá-lo no plano estratégico.

A afirmação política faz-se, muitas vezes, através da rejeição de uma ordem considerada dominante, isto é, contra uma hegemonia, contra um rival regional ou contra normas internacionais vistas como desfavoráveis.

Esta dinâmica apresenta semelhanças com aquilo que observamos na política portuguesa.

Tal como um partido emergente procura conquistar espaço denunciando as insuficiências dos partidos tradicionais, também uma potência ascendente pode procurar afirmar-se contestando as regras estabelecidas pelas potências dominantes.

Em ambos os casos, a oposição à ordem existente transforma-se num instrumento de construção de identidade e de conquista de influência (como se observa nas diferentes narrativas orquestradas pelos diferentes sistemas no sentido de criarem identidades coesas).

Naturalmente, não podemos confundir a competição eleitoral com os conflitos entre Estados. As escalas, os instrumentos e as consequências são diferentes.

Existe porém uma lógica comum que se resume nisto: quem pretende conquistar poder começa frequentemente por questionar a legitimidade de quem o detém.

É neste sentido que a analogia entre a política interna e a geopolítica se torna particularmente esclarecedora.

  1. O que se poderá prever num mundo multipolar?

A teoria da transição de poder nas relações internacionais chama a atenção para um fenómeno importante: os períodos de maior perigo podem não ser aqueles em que uma determinada ordem já se encontra consolidada, mas os momentos em que essa ordem está a ser substituída.

É nessa fase que as potências ascendentes procuram ampliar a sua influência, enquanto as potências estabelecidas tentam preservar posições que se tornam progressivamente mais difíceis de sustentar.

A tensão resulta precisamente do desajustamento entre as ambições dos novos actores e a capacidade dos antigos centros de poder para manterem as regras existentes.

Por isso, a próxima década poderá caracterizar-se por uma instabilidade internacional persistente, embora não seja possível afirmar com segurança que será globalmente mais perigosa do que a Guerra Fria.

O que é certamente mais provável é o aumento da complexidade estratégica.

Em vez de dois blocos rigidamente organizados, assistiremos à formação de coligações temporárias, estabelecidas em função de interesses específicos.

Em vez de confrontos militares directos entre grandes potências, no futuro  multiplicar-se-ão  conflitos indirectos, guerras por procuração, pressões económicas, ataques cibernéticos e disputas pelo controlo de recursos estratégicos.

A competição pela definição das narrativas políticas e morais tornar-se-á igualmente importante.

Quem tem legitimidade para definir o significado de conceitos como «democracia», «soberania», «segurança» ou «ordem internacional» conquista também uma forma de poder.

Num sistema internacional sem uma autoridade superior capaz de impor universalmente as regras, a disputa pelo significado das palavras torna-se parte integrante da disputa pela influência.

Portugal perante a nova ordem internacional

Para Portugal, esta transformação coloca desafios particularmente delicados.

Sendo um Estado de dimensão relativamente pequena, com recursos estratégicos limitados, a sua capacidade de intervenção internacional depende em larga medida da participação em estruturas de cooperação e segurança, nomeadamente a União Europeia e a NATO (sem esquecer a tradição do enquadramento com os países da Lusofonia e deste modo continuar Portugal a ser um país com carácter geopolítico mediador).

Num mundo multipolar, estas alianças poderão tornar-se simultaneamente mais necessárias e mais sujeitas a tensões internas e externas.

A segurança e a influência de Portugal dependerão, por isso, não apenas da solidez dessas organizações, mas também da sua capacidade para manter uma orientação diplomática coerente.

É precisamente aqui que a instabilidade política interna pode adquirir consequências externas.

Um sistema partidário excessivamente fragmentado, incapaz de produzir consensos duradouros sobre questões estratégicas fundamentais, corre o risco de enfraquecer a continuidade da política externa. Este facto implica uma união coesa de toda a direita e uma união coesa de toda a esquerda para se poder criar um sistema mais estável. A alternância democrática é saudável e necessária. O problema surge quando a rivalidade partidária impede a definição de interesses nacionais que deveriam ultrapassar os ciclos eleitorais. O discurso político português revela-se ainda de carácter demasiadamente  provinciano não tendo em conta o desenvolvimento geopolítico e as cautelas daí necessárias atendendo também ao surgir do bloco económico BRICS.

Portugal necessita, portanto, de combinar pluralismo democrático com estabilidade institucional e capacidade de compromisso interno e externo..

Não se trata de eliminar divergências, mas de impedir que a competição pelo poder comprometa os interesses permanentes do país.

  1. O verdadeiro perigo não é o conflito, mas a fragilidade das instituições

A reflexão desenvolvida permite-nos regressar à questão inicial: deverá Portugal recear um colapso democrático ou preparar-se para uma transformação prolongada do seu sistema político?

Na minha análise de observador político, o cenário mais plausível não será o desaparecimento imediato da democracia, mas a consolidação de uma instabilidade política que poderá tornar mais difícil governar, estabelecer compromissos e responder aos problemas estruturais da sociedade.

O medo da mudança continuará a favorecer, em determinados momentos, a conservação do sistema. Mas o desgaste dos partidos tradicionais poderá, simultaneamente, alimentar forças políticas que se apresentam como alternativas à ordem existente.

Estas duas tendências não são contraditórias. Pelo contrário, podem coexistir e reforçar-se mutuamente, como se observa já na Alemanha onde interesses cruzados se juntam na colgacao do Partido AfD (Alternativa para a Alemanha ) e do BSW (Aliança pela Justiça Social e Razão Económica).

O momento que atravessamos na Europa e especificamente em Portugal é alimentado pelo medo que conserva o poder enquanto a insatisfação prepara a contestação e o arco do poder se defende com unhas e dentes impedindo deste modo uma transição mais equilibrada.

A grande questão será saber se as instituições democráticas conseguirão transformar essa tensão numa renovação política construtiva ou se permitirão que ela se degrade numa confrontação permanente.

A história ensina-nos que a luta pelo poder acompanha todas as formas de organização humana. Não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda, aos conservadores ou aos progressistas.

Em cada pessoa, em cada grupo e em cada sociedade coexistem possibilidades de cooperação e conflito, solidariedade e egoísmo, construção e destruição. O que varia é a maneira como essas forças são orientadas e limitadas.

Onde o poder não encontra limites institucionais, a rivalidade pode transformar-se em perseguição e violência. Onde existem instituições democráticas sólidas, o conflito pode ser canalizado para a palavra, o voto, a negociação e a alternância.

O verdadeiro problema do nosso tempo não é, portanto, a existência da luta política, mas o enfraquecimento dos mecanismos que permitem regulá-la.

No plano interno, esse enfraquecimento manifesta-se através da polarização partidária, da desinformação, da erosão da confiança pública e da crescente dificuldade em estabelecer compromissos.

No plano internacional, revela-se na contestação das regras existentes, na fragmentação das alianças e na competição entre potências que procuram redefinir a distribuição do poder mundial. É aqui que a imagem do fractal ganha particular significado.

A mesma tendência natural humana para construir identidades através da oposição ao outro pode manifestar-se numa discussão individual, numa campanha eleitoral ou numa rivalidade geopolítica.

As consequências, contudo, não são equivalentes. Dependem da escala, dos meios disponíveis e, sobretudo, das instituições que regulam o confronto.

A passagem do insulto partidário para o conflito internacional não é automática nem inevitável, mas ambos podem revelar uma disposição comum para transformar o adversário num obstáculo a eliminar, em vez de um interlocutor com quem é necessário coexistir.

Daí a importância de preservar as instituições democráticas e de fortalecer uma cultura política que reconheça a legitimidade da diferença.

O futuro de Portugal não será determinado apenas por quem vencer as próximas eleições, mas pela capacidade colectiva de impedir que a disputa pelo poder destrua as condições que tornam possível a convivência democrática (esse factor será ainda acentuado por ONGs internacionais.

A democracia não exige a ausência de adversários. Exige que os adversários não se transformem em inimigos absolutos como tem acontecido  na Alemanha.

E talvez seja esta a principal lição de uma época em que tanto Portugal como o mundo procuram novos equilíbrios: a estabilidade não nasce da eliminação do conflito, mas da existência de instituições suficientemente fortes para o conter e suficientemente abertas para permitir a mudança.

O futuro não está escrito. Mas os padrões que hoje observamos permitem antecipar os seus riscos e reconhecer as responsabilidades do presente.

O maior perigo para Portugal poderá não ser uma ruptura democrática repentina, mas a habituação gradual a uma democracia cada vez mais conflituosa, menos dialogante e menos capaz de resolver os problemas dos cidadãos.

Evitar esse destino exige mais do que vencer eleições. Exige recuperar a consciência de que a política deve ser, antes de tudo, uma forma de construir o bem comum, e não apenas uma técnica de conquistar e conservar o poder.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

DA IDEIA À VIRTUDE

Do pensamento à Palavra, da Palavra ao Gesto,
do Gesto à plenitude humana

Antes que a luz rompesse a noite escura,
antes que o tempo aprendesse a caminhar,
já a Ideia, em secreta gestação pura,
sonhava um mundo inteiro por criar.

No ventre do silêncio germinava
a forma do que ainda não havia
e o pensamento, em si, já anunciava
a Palavra que um dia nasceria.

E o Verbo fez-se carne entre os humanos,
ponte de amor do eterno ao temporal,
não veio apenas proclamar seus planos,
mas dar ao próprio amor forma real.

Porém, que vale a voz, por mais fecunda,
se a mão desmente aquilo que ela diz?
A Palavra só se torna mais profunda
quando o Gesto lhe dá corpo e raiz.

E quando o Gesto é justo e consciente,
quando o bem se faz hábito e atitude,
a verdade floresce socialmente
e o seu fruto mais nobre é a Virtude.

Pois ninguém se realiza em solidão,
nem há um eu completo sem um tu;
é no encontro que nasce a comunhão
e o brilho de cada ser se torna luz.

Tal como o amor trinitário é relação,
unidade que acolhe a alteridade,
também a vida encontra a perfeição
quando o agir se faz fraternidade.

A Ideia é mãe, a Palavra é claridade,
o Gesto é carne, a Virtude é plenitude,
e o ser só se realiza em liberdade
quando faz do amor a sua atitude.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

IDEOLOGIA DE GÉNERO

Entre a Realidade biológica e a Colonização ideológica

Há palavras que descrevem a realidade e há palavras que pretendem criá-la. O problema começa quando já não sabemos distinguir umas das outras.

A discussão em torno da chamada “ideologia de género” tornou-se uma das grandes frentes da guerra cultural contemporânea. O que poderia constituir uma reflexão séria sobre sexo, identidade, cultura, liberdade e dignidade humana converte-se, em grande parte, numa batalha de trincheiras: de um lado, progressistas que suspeitam da tradição e do outro, conservadores que suspeitam da mudança. Uns invocam a emancipação e outros, a natureza. Entre ambos, corre-se o risco de perder precisamente aquilo que deveria estar no centro da discussão e que é a pessoa humana na sua realidade integral.

Segundo Nicolás Márquez e outros críticos desta corrente, aquilo que designam por “ideologia de género” deve ser compreendido no  contexto de uma deslocação da estratégia revolucionária da clássica luta marxista entre proletariado e capitalismo para a luta cultural. A fábrica deixou de ser a sua única arena e a luta passou da fábrica para a universidade. Apropriaram-se da linguagem, da sexualidade, da família, da escola, da religião e da própria compreensão do homem e da mulher tornando-os seus campos de disputa.

Concorde-se ou não com esta interpretação, seria ingénuo negar que a política descobriu há muito o enorme poder mobilizador da identidade.

A luta económica não desapareceu, mas foi quase substituída pela luta pelo domínio das categorias com que interpretamos a realidade. Quem define as palavras condiciona, em boa medida, a discussão. Quem estabelece antecipadamente aquilo que pode ou não ser dito ganha terreno antes mesmo de começar o debate. Daí a importância decisiva adquirida pela linguagem.

Desconstroem-se conceitos, redefinem-se palavras e multiplicam-se categorias identitárias. O sexo, tradicionalmente relacionado com a realidade corporal, passa a conviver com uma conceção de género ligada à identidade, à perceção individual e aos papéis culturalmente construídos. Isto poderia  possibilitar  uma discussão fecunda, mas o problema surge quando construção cultural e realidade biológica são apresentadas como inimigas.

Por que estamos a ser obrigados a escolher entre aquilo que a natureza dá e aquilo que a cultura desenvolve? O ser humano não é apenas biologia, mas também não existe fora dela.

Somos natureza e cultura, corpo e consciência, herança e projeto, indivíduo e comunidade. A cultura pode interpretar a natureza, discipliná-la, desenvolvê-la e até contrariar algumas das suas tendências, mas não pode, simplesmente decretar a sua inexistência.

A realidade sexual humana apresenta uma organização biológica predominantemente masculina ou feminina, embora existam situações do desenvolvimento sexual que não cabem de maneira simples nos padrões mais comuns. Reconhecer exceções não obriga a negar a regra, mas reconhecer a regra também não concede o direito de humilhar a exceção.

É aqui que o debate deveria começar, mas infelizmente, é muitas vezes aqui que termina.

A sociedade contemporânea parece sentir uma estranha necessidade de transformar diferenças em antagonismos, como, homem contra mulher, heterossexual contra homossexual, tradição contra progresso, secularização contra secularização, natureza contra cultura, direita contra esquerda.

A questão primária é que uma civilização não se constrói fazendo guerra permanente às suas próprias polaridades e aos biótopos culturais.

Masculino e feminino não precisam de ser campos militares. Podem ser entendidos numa matriz gineantropológica de complementaridade: não como superioridade de um sexo sobre o outro, mas como reconhecimento de diferenças que se encontram, se corrigem e se enriquecem reciprocamente.

Defender a complementaridade não significa amarrar a mulher ao lar, como frequentemente caricaturam certos discursos progressistas. A emancipação feminina não deveria  exigir a masculinização da mulher, assim como a valorização do masculino não exige a subordinação do feminino. Igualdade de dignidade não é sinónimo de indiferenciação.

A tradição cristã desenvolveu, particularmente na teologia do corpo, uma antropologia da relação entre homem e mulher fundada na reciprocidade e na complementaridade que poderia ser resumida numa matriz integral de  antropoginelogia. Pode-se concordar ou discordar dela, mas reduzi-la simplesmente a instrumento de opressão patriarcal é intelectualmente pobre. Também seria pobre utilizar o cristianismo como arma contra pessoas que vivem de maneira diferente da moral cristã.

A dignidade humana precede a guerra cultural.

A civilização europeia nasceu de um encontro complexo entre a filosofia grega, o direito e a administração romanos, a tradição judaico-cristã e desenvolvimentos posteriores. Analisar criticamente essa herança pode ser legítimo em certos aspetos; querer compreendê-la apenas como catálogo de opressões, como fazem adversários concorrentes, significa amputar a própria memória cultural bem como  a essência do próprio ser e maneira de estar no mundo multicultural.

Uma árvore pode corrigir o rumo dos seus ramos sem arrancar as próprias raízes.

Neste contexto, João Paulo II advertiu repetidamente para formas de “colonização ideológica”.  Esta metáfora e imagem merece reflexão especial para além da adesão religiosa, porque as sociedades são  condicionadas não apenas pela força militar ou económica, mas também pela imposição de categorias através das quais passam a interpretar-se a si próprias.

Mas a advertência deve valer para todos, porque há colonização ideológica progressista quando uma teoria se apresenta como indiscutível ou solução geral apenas porque se considera progressista; mas também há fechamento ideológico conservador quando uma tradição pretende dispensar-se de argumentar apenas porque é tradição.

Nenhum dos campos possui o monopólio da verdade e é precisamente aqui que a questão deixa de ser simplesmente “género” e passa a ser poder.

Quem ganha quando a sociedade se fragmenta em grupos permanentemente mobilizados uns contra os outros? Quem beneficia quando cada diferença se transforma numa identidade política e cada identidade política necessita de um adversário para permanecer mobilizada?

Historicamente, a esquerda aprendeu a fazer do conflito um motor da sua ação política e partidária, fê-lo até à actualidade com proveito próprio. Mas seria simplista concluir que só ela vive do conflito, pois também a direita mobiliza medos, ressentimentos e divisões quando lhe convêm. A competição partidária alimenta-se, muitas vezes, daquilo que afirma querer resolver. É assim que se legitima e se perpetua a ideia de que o bem comum não pode ser inclusivo e de que o povo tem de ser dividido para justificar a luta entre partidos. No fim, essa estratégia reduz cidadãos a massas de manobra.

Uma pessoa que já não procura compreender, mas apenas repetir as fórmulas do seu grupo, pode julgar-se emancipada ou sentir-se acolhida, mas  torna-se intelectualmente dependente.

Hoje, ter uma opinião parece bastar, como se não houvesse objetividade a ter em conta; argumentar tornou-se secundário. Escuta-se para responder e não para compreender. Primeiro, escolhemos a trincheira; depois, reunimos os argumentos que nos convêm. Assim não nasce uma sociedade livre, o que nasce é militância.

A defesa das pessoas LGBTQIAPN+ contra discriminação não obriga à aceitação acrítica de todas as teorias sobre género. Do mesmo modo, a defesa da família ou de uma antropologia fundada na diferença sexual não legitima qualquer desrespeito pelas pessoas que não correspondem ao modelo maioritário.

O importante é que a  lei deve proteger a pessoa; a ciência deve investigar a realidade; a filosofia deve poder interrogá-la; a religião deve poder propor a sua visão oferecendo sentido e a política deve impedir que uma destas esferas se transforme em polícia das restantes.

O sexo biológico e o género enquanto construção cultural não precisam de ser declarados inimigos. O ser humano é simultaneamente animal e cultural. A cultura não tem de destruir o corpo para afirmar a liberdade, nem a biologia precisa de negar a cultura para continuar a ser realidade.

O modo de ser não precisa de identificar-se completamente com todas as formas de existir.

O grande erro do nosso tempo parece constar em imaginar que liberdade significa ausência de limites e que diferença significa necessariamente opressão.

Precisamos de reaprender a complementaridade entre natureza e cultura, entre homem e mulher, entre indivíduo e comunidade, entre liberdade e responsabilidade, entre espírito e matéria e entre regra e exceção.

Quando a horizontalidade e a verticalidade são apresentadas como inimigas, a sociedade perde profundidade e sentido. Por sua vez, quando tudo se transforma em luta, acabamos por já não saber viver sem inimigos.

Antes de perguntar de que lado está uma ideia, deveríamos voltar a perguntar se ela é verdadeira.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo