A LINHA INVISÍVEL DO DEGELO DA GRONELÂNDIA

O degelo não é uma tragédia; é uma oportunidade geopolítica. Enquanto o Ártico se liquefaz, solidificam-se novos impérios. A corrida não é pelo que se perde, mas pelo que está a ser revelado. Neste conto procuro apresentar a Gronelândia no rescaldo do tratado de Tordesilhas e da reorganização geopolítica!

Naquele verão paradoxal, a Gronelândia era um lugar fora do tempo. O gelo já não se impunha como ameaça, mas como uma reticência vasta e branca, uma grande página gélida onde a História, cansada de se repetir, suspirava por ser reescrita.

Não eram marcianos que ali se reuniam, mas os últimos pretendentes a senhores de um mundo em derretimento. Estavam ali por fadiga. A fadiga das velhas fronteiras, dos mapas caducos, do silêncio que já não conseguia conter o uivo dos cães de trenó nem o crepitar profundo das calotas glaciares a desfazerem-se. Algo antigo, traçado a tinta num tratado esquecido, definhava sob o sol ártico implacável.

E no rescaldo silencioso de Tordesilhas, tudo estava outra vez em aberto.

Reuniram-se ali não por acaso, mas por fadiga.

Donald Trump chegara primeiro, como quem entra numa sala desconhecida tentando parecer dono dela. O vento ártico embaciava-lhe a retórica habitual. Ali, onde não havia plateia nem bolsas a reagir em tempo real, o excesso de palavras tornava-se inútil. Pela primeira vez em décadas, moderou a voz e ouviu mais do que falou.

Putin veio depois, silencioso como um ícone antigo retirado de uma igreja semiabandonada. Não trazia mapas, mas memória viva. A Rússia, pensava ele, sempre fora mais um corpo do que um conceito político e os corpos, quando feridos, lembram-se durante séculos e as cicatrizes não mentem.

Xi Jinping chegou com passos medidos, quase rituais. Para ele, a Gronelândia era menos um território do que um ponto de equilíbrio cósmico: o vazio fértil onde o Tao se revela. Sabia que todo o império que ignora a harmonia entre Céu, Terra e Homem acaba por se devorar a si mesmo, lentamente, mas sem falhar.

Ursula von der Leyen apareceu por último, envolta num casaco de pele sintética demasiado leve para aquele silêncio primordial. Representava uma Europa exausta, saturada de normas,  carente de alma mas na procura de norte. A União que ela encarnava sabia regular tudo, exceto o sentido.

Mas o mais inesperado não veio de aviões nem de agendas diplomáticas.

Veio de cima. Veio do ar.

No terceiro dia, quando o sol não se punha nem se erguia, apenas persistia, suspenso como uma dúvida, uma perturbação subtil rasgou o céu. Não era ovni, nem fenómeno meteorológico catalogável. Os esquimós que observavam o encontro à distância, em respeito e silêncio, chamaram-lhe “potestades do ar”: algo que sopra depois da tempestade, quando o mundo já devia estar calmo, mas ainda não aprendeu a sê-lo.

Daquela vibração emergiu uma figura que não caminhava, mas que se lembrava do chão.

Era Nuno Álvares Pereira. Não o general de batalhas esquecidas, mas o homem transfigurado pela consciência de que defender não é conquistar, é guardar o que permite ao outro existir. Não empunhava espada. Trazia apenas um silêncio espesso, quase litúrgico, que caiu sobre todos como neve que nunca derrete.

E sem mover os lábios, disse:

“As fronteiras não são linhas. São responsabilidades.”

Trump franziu o sobrolho. Putin inclinou ligeiramente a cabeça. Xi fechou os olhos. Ursula sentiu, pela primeira vez em anos, vergonha sem humilhação.

Então surgiu Vasco da Gama, não como herói de epopeia, mas como navegador que aprendera, tarde demais, que os mares não pertencem a quem os atravessa. Trazia consigo a sombra do Tratado de Tordesilhas, aquela régua metafísica com que a Europa, em nome da cristandade e do ouro, dividira o mundo como quem corta pão sem perguntar se alguém tinha fome. Foi então que Vasco da Gama confessou:

“Dividimos o mundo segundo o espírito do nosso tempo. Mas esquecemo-nos de perguntar ao tempo se ele queria ser dividido.”

A Gronelândia, esse território que ninguém verdadeiramente desejara até ao degelo do século XXI, tornava-se agora espelho. Ali estavam reunidas as potências do mundo em processo de se tornar multipolar, não para negociar mercados, mas para enfrentar uma pergunta antiga e sempre adiada:

Para que serve o poder quando já não há sentido?

Nuno Álvares avançou um passo sem o gelo ceder e disse.

“A Europa perdeu-se quando confundiu universalismo com superioridade. E perdeu-se outra vez quando chamou “valores” àquilo que eram apenas interesses protegidos por armas. Em vez de repensar os seus ideais expressos já em Carlos Magno, como nós fazíamos, quer transformar o caminho tortuoso do colonialismo económico em colonialismo mental”.

Ursula, de olhar cínico, tentou responder com dados, tratados, estatísticas. Mas nenhuma tabela resiste ao olhar de quem atravessou a História sem a violar.

Então Nuno Álvares levantou a mão e recordou:

“A Rússia não é inimiga natural da Europa. É a sua irmã gémea, separada no nascimento, mas portadora da mesma dor religiosa e metafísica: a procura de identidade entre o Oriente e o Ocidente.”

Putin respirou fundo, como se no erguer do seu peito toda a Rússia respirasse. Não era absolvição o que ouvia, mas reconhecimento, algo mais raro.

Xi falou então, com voz baixa:

“Quando a Europa destruiu as pontes com o mundo, acreditou estar a defender valores. Na verdade, estava a defender o medo de deixar de ser centro.”

Trump, inquieto, murmurou algo sobre negócios. Mas até ele percebia: ali não se tratava de ganhar, mas de entrar em compromissos com a velha Europa porque o beneficia riam.

A Gronelândia revelou-se então não como território estratégico, mas como apelo e chamamento ao compromisso, à honra e à justiça. Gronelândia sentia-se como o lugar onde a humanidade podia decidir se continuaria a repetir Tordesilhas, agora em nome da segurança, da democracia e do crescimento, ou se ousaria algo mais difícil: uma cultura da paz como interesse racional e humano perto do modelo do cristianismo católico.

Nuno Álvares, com um tom que não impunha nem cedia, mas antes acolhia, disse apenas:

“A paz não é ausência de conflito. É a coragem de transformar o julgar em compreender.”

As palavras não pediam resposta. Caíram como se fossem palavras de boa-noite, não no sentido da despedida, mas no da suspensão. Soaram mais como convite ao silêncio do que como argumento para réplica. E, estranhamente, todos o compreenderam.

Não houve debate. Não houve contra-argumentos. Houve apenas um assentimento interior, quase involuntário.

Retiraram-se então, cada um para o seu espaço de descanso, como quem aceita que há noites que pensam por nós. O gelo exterior refletia um gelo mais subtil, interior, que começava a derreter-se. Nenhum deles dormiu profundamente. Todos ficaram com a mesma inquietação, com a pulga atrás da orelha de que algo tinha de mudar. Não nos mapas, nem tanto nos tratados, mas na consciência.

Na Gronelândia, a noite não escurece porque o sol não dorme.
A luz persiste como uma pergunta sem resposta, obrigando a alma a fechar os olhos para poder ver.

Trump

Donald Trump permaneceu acordado mais tempo do que gostaria de admitir. O silêncio incomodava-o. Não havia aplausos, nem ecrãs, nem bolsas a reagir. Apenas o som distante do gelo a estalar, como contratos antigos a quebrar-se sem renegociação possível.

Pensou nos soldados europeus que tinham sido discretamente enviados dias antes, com a missão pouco gloriosa de “ladrarem um pouco”, sinalizar presença, mostrar dentes. Sorriu de lado ao recordar a informação recebida horas antes de que tinham ladrado uma única vez e ao ouvir o eco da própria insignificância, enfiaram o rabo entre as pernas e regressaram de imediato a casa.

Murmurou sorrindo para si:

“Muito latido, pouca ação; muita hipocrisia, moeda corrente na União Europeia”

Mas o sorriso morreu rápido. Pela primeira vez, sentiu algo próximo do desconforto moral: e se o mundo já não respondesse nem a dentes nem a dólares?

Não gostava de filosofia, mas aquela frase de Nuno Álvares insistia como slogan impossível de vender:

“transformar o julgar em compreender.”

E pensou:

“Compreender não rende.”
Mas no fundo da noite algo respondeu: “julgar sem compreender já não rende nada, pois até os europeus se estão a votar agora para Putin e tudo por minha obra, talvez também eu tenha que mudar e dar-lhe a mão para que fiquem do meu lado a comer do mesmo chão”

Putin

Putin dormiu pouco, como sempre. Acordou antes do relógio, como quem foi treinado para vigiar até os próprios sonhos. Olhou para o teto branco e lembrou-se da Rússia como se lembra de uma mãe severa que se ama sem ilusões.

A Gronelândia parecia-lhe estranhamente familiar, não pela paisagem, mas pelo sentimento de margem. A Rússia sempre fora margem e centro ao mesmo tempo, ponte e muro, de ser Europa ferida e Ásia incompreendida.

Pensou nas palavras de Nuno Álvares quando disse que defender não é expandir.

“Foi isso que esquecemos”, reconheceu sem o formular em voz alta.
Defender a identidade não exige negar a do outro. Mas o mundo só aprendera a linguagem da força e a Rússia, cercada, falara essa língua melhor do que ninguém.

Naquela noite, porém, algo o inquietava: e se a verdadeira derrota não fosse territorial, mas moral? Se ela não fosse fraqueza, mas perda de sentido.

Xi Jinping

Xi Jinping meditava sentado, imóvel, enquanto o sol oblíquo atravessava a janela. Para ele, a noite era apenas uma mudança de ritmo, não de essência.

Pensava na harmonia, não como ideal romântico, mas como condição de sobrevivência. Todo o sistema que perde o equilíbrio interno tenta compensar com controle externo. Era uma lei antiga, anterior ao marxismo, anterior ao confucionismo político.

A Gronelândia surgia-lhe como símbolo perfeito do excesso ocidental! Só agora interessava, quando começava a derreter. Só agora era estratégica, porque já estava ferida.

Ouviu passos no corredor. Trump e Putin trocaram uma frase curta, quase cúmplice, sobre os soldados europeus já regressados. Um riso seco, breve, atravessou o silêncio. Xi não riu. Apenas pensou:

“De facto, quando o poder se torna teatro, perde a autoridade; esta Europa parece só merecer compaixão.”

E nesse ponto, sentiu como que um calafrio que corria por todo o seu corpo; sentia algo raro: uma possível convergência. E se a Europa recuperasse o bom senso e seguisse um natural desejo que seria de unir a vontade política à natural união geográfica?

Úrsula

Úrsula von der Leyen dormiu mal e sonhou intensamente.

No sonho, encontrava-se numa igreja sem paredes. O altar era o mundo. E diante dela estava Hans Küng, não como teólogo famoso, mas como homem cansado de ser ignorado.
Com suavidade implacável começou por dizer:

“Confundiram valores com instrumentos. A ética não é propriedade de nenhum bloco. É condição de humanidade.”

Ursula tentou responder com tratados, com regulamentos, com cláusulas. Mas cada palavra transformava-se em papel molhado antes de chegar aos lábios.

E Küng continuou:

“A Igreja errou quando quis governar. Mas a política erra quando rejeita qualquer instância moral que não a controle.”

Ela sentiu algo próximo do medo e perguntou com suor no rosto:

“E nós? A Europa?”

Küng olhou-a longamente.

“A Europa será irrelevante se continuar a falar de dignidade humana enquanto a subcontrata.”

Antes de desaparecer, deixou-lhe uma última frase, quase um cochicho:

“Sem uma ética mundial, a vossa ordem será apenas uma técnica de dominação educada.”

Úrsula acordou sobressaltada. Pela primeira vez em muitos anos, não pensou em comunicação estratégica. Pensou em consciência e ela pesava!

Quando a manhã chegou, clara, quase irreal sob a luz contínua do Norte, foram-se reunindo novamente na sala de encontro. Na atmosfera respirava-se algo que era diferente. Não sabiam ainda o quê. Mas a noite tinha feito o seu trabalho. Já não estavam apenas exaustos. Estavam disponíveis. E assim, sem o saberem plenamente, tinham atravessado o limiar invisível; passaram do jogo do poder para a pergunta ética.

A Gronelândia prosseguia silenciosa, mas o gelo continuava a estalar.

Afinal, agora, já não era apenas o clima que mudava.

Longe do barulho das declarações públicas, das câmaras e das narrativas pré-fabricadas, tinham finalmente começado a reconhecer aquilo que até então apenas intuíram: a verdadeira crise europeia e mundial, não era económica nem militar. Era mais funda, mais perigosa porque invisível.

A crise europeia era antropológica, era humana.

Um sistema que perdera o humano já não sabia reconhecer-se a si mesmo. Um mundo que falava obsessivamente de valores já não sabia dizer porquê. Um poder que se legitimava por normas perdera a capacidade de escutar consciências.

Foi então que a Gronelândia começou a revelar-se.

Não era neutra, apenas parecia sê-lo aos olhos de quem ainda acreditava que a geografia é muda. Mas ali, onde o gelo milenar começava a ceder, emergia uma verdade antiga, esquecida desde que o mundo se tornara demasiado rápido para escutar os seus próprios ritmos: quando os pólos se movem, também os valores se deslocam.

Naquela noite suspensa, tinham compreendido algo desconfortável: não estavam ali reunidos por vocação, por visão ou por grandeza histórica. Estavam ali por esgotamento.

O modelo bipolar morrera de rigidez e o multipolar estava a nascer sem alma.

E entre um e outro, a humanidade oscilava perigosamente entre dois extremos igualmente estéreis: o cinismo estratégico, que tudo relativiza em nome do interesse e o moralismo instrumental, que tudo julga sem jamais se julgar a si próprio.

Com o passar das horas as máscaras iam caindo. Já não mostravam apenas dossiers, mas uma atenção diferente, como se algo os tivesse deslocado interiormente durante a passada e memorável noite.

A União Europeia ali presente no corpo de Ursula von der Leyen, trazendo consigo o seu paradoxo mais íntimo começava a compreender que proclamava valores universais enquanto os aplicava seletivamente; falava de direitos humanos e ao mesmo tempo terceirizava a violência; condenava impérios passados enquanto ensaiava, com linguagem técnica, medidas e aparência benevolente, um imperialismo normativo sem transcendência.

A Gronelândia tornava-se, assim, mais do que um território estratégico ou um ponto no tabuleiro global. Tornava-se um confessionário da História, não para absolver, mas para revelar.

E era a partir desse ponto, desse silêncio amadurecido durante a noite, que algo novo podia começar. Não era ainda a política, nem os acordos. Era a pergunta ética sem a qual nenhum mundo pode reorganizar-se.

O retorno dos mortos portadores de sabedoria e não de poder

Quando Nuno Álvares Pereira se manifestou, não como fantasma, mas como consciência histórica activa, o mundo moderno revelou o seu embaraço: já não sabia reconhecer autoridade que não fosse poder.

Então levantando a voz disse:

“Venci batalhas para não precisar de vencer consciências. E retirei-me do mundo quando percebi que a espada começa a corromper mesmo o justo.”

Nuno Álvares não representava Portugal, nem a Cristandade, nem a Europa. Representava algo mais raro: o limite ético do poder legítimo.

Ao seu lado, Vasco da Gama assumia outra função: não a de navegador glorificado, mas a de portador da culpa civilizacional, que de voz embargada disse:

“Levávamos Deus nos lábios e a posse nas cartas náuticas. E confundimos universalidade com autorização divina para dividir o mundo.”

O Tratado de Tordesilhas surgia então como modelo fundador do erro moderno: a crença de que o mundo pode ser organizado e repartido sem consultar os povos, as consciências, os tempos interiores.

A Weltethik como Memória do Futuro
Foi então que o discurso se deslocou, não para a geopolítica, mas para a ética mundial, tal como Hans Küng a sonhara: não uma moral uniforme, não uma religião global, mas um chão ético mínimo sem o qual nenhuma civilização sobrevive.

Xi Jinping reconheceu isso de imediato:

“Na China chamamos-lhe harmonia. No fundo, é o reconhecimento de que nenhum sistema pode absolutizar-se sem se destruir.”

Putin acrescentou:

“A Rússia perdeu-se quando tentou ser império e foi humilhada quando tentou ser apenas Estado. O que nos falta é reconhecimento moral, não submissão.

Trump, um pouco agastado, mas intuitivo, interrompeu:

“Os negócios só funcionam quando existe confiança. E a confiança é moral, não contratual.”

Ursula permaneceu em silêncio. Porque ali se dizia aquilo que Bruxelas evitara dizer durante décadas: sem um horizonte ético comum, a política degenera em tecnocracia coerciva.

A Weltethik não exigia que todos acreditassem no mesmo Deus, mas exigia algo mais difícil:
que todos reconhecessem a soberania moral da pessoa humana, como advoga o cristianismo. Pois a soberania moral não vem do Estado, nem do mercado, nem da ideologia, mas sim da pessoa.

A Igreja purificada e o Poder que não Governa
Foi então introduzido o tema mais delicado: o papel do cristianismo e da Igreja num mundo pós-hegemónico.

Nuno Álvares foi claro:

“A Igreja trai-se sempre que deseja governar. Mas trai o mundo quando abdica de corrigir moralmente o poder secular.”

Nisto Nuno Álvares Pereira apresentou a distinção essencial, tantas vezes esquecida: O poder espiritual não governa, mas também não se cala porque tem de actuar como consciência crítica, não como braço do Estado nem ele pode funcionar como seu rival.

A tradição católica, na sua melhor expressão, sempre soube inculturar-se ao assumir línguas, símbolos, culturas, biótopos humanos diversos, sem anular a consciência individual. De facto, foi assim na patrística, na escolástica e foi assim nas missões quando não se confundiram com colonização. E concretizando Vasco da Gama com voz quebrada, disse:

“A catolicidade não é expansão territorial, é hospitalidade ontológica.”

A Igreja purificada não pede privilégios políticos.
Pede apenas liberdade para lembrar ao poder que ele não é absoluto.

Sem esse corretor moral, o poder secular cai inevitavelmente no cinismo, na violência instrumental e no caos legitimado.

Europa, Rússia e a ferida Gémea
Nuno Álvares
constata que a relação Europa-Rússia se tornou o eixo simbólico do encontro e advertiu:

“Vocês são irmãos separados pela mesma ferida. Ambos perderam a alma quando tentaram ser centros exclusivos.”

De facto, a Europa perdera-se no legalismo sem transcendência e a Rússia, no messianismo ferido que oscila entre vítima e império.
Reconciliação não significava submissão nem ingenuidade, mas reconhecimento mútuo de identidade cultural e dignidade histórica.

Quando tudo parecia resolvido ou pelo menos adiado Putin, Trump e Úrsula gesticulavam dizendo palavras que não se entendiam devido ao uivar dos cães.

Vasco da Gama desviou o olhar para o mar congelado como quem reconhece um amigo desfigurado. Nuno Álvares Pereira, de pé ao seu lado, contemplava a cena com a paciência de quem já atravessou batalhas piores que a espada.

Vasco da Gama, sem amargura e em tom de constatação disse:

“Isto não é a Europa que deixámos”.

Nuno Respondeu:

“Não. “Isto é Bruxelas. E Bruxelas, no seu estado atual, não simboliza a Europa, simboliza o seu cansaço.”

Vasco franziu a testa.

“Cansaço?”

Nuno corrigiu:

“Exaustão. Uma Europa saturada de normas, formulários, sanções, mas curiosamente carente de alma, de sentido, até de geografia. Quando a política perde o vínculo ao território vivido, à memória cultural, ao corpo humano concreto, passa a governar abstrações. E as abstrações, quando armadas, tornam-se cruéis.”

Vasco apontou para o horizonte, onde os lobos árticos observavam de longe.

“Até eles parecem perceber melhor o tempo do que os homens do poder.”

Nuno concordou com ponderação:

“Talvez o seu latir não seja contra inimigos, mas contra o vazio de sentido. Os cães  esquimós, menos ideológicos e mais atentos aos sinais do vento, intuem o que muitos estrategas ignoram: que as alianças baseadas apenas no medo acabam sempre por implodir. Ali está a NATO, hipertrofiada, a ranger por dentro, à espera de uma razão que já não encontra.”

Vasco então questionou:

“E a Europa? Fragmentada por dentro, a nível social, cultural, espiritual e isolada por fora, por arrogância normativa. Nem sequer se pensa como continente euroasiático antes de se pensar como sistema.”

Nuno de rosto triste anuiu dizendo:

“Exatamente. Abandonou a lei da natureza e a lei da ordem, não no sentido conservador, mas no sentido antropológico, para se fixar quase exclusivamente no poder e na ideologia. E quando o poder deixa de ser corrigido por uma instância moral reconhecida, o homem torna-se lobo do homem. Como se Hobbes tivesse vencido Agostinho… por desistência deste último.”

Vasco cruzou os braços, pensativo:

“Conheci homens que atravessaram oceanos sem bússola, guiados apenas pela estrela e pela fé. Aqui, vejo sistemas que têm mil bússolas e nenhuma estrela.”

Nuno sorriu com ar triste:

“Talvez a nova era exija menos organizações de guerra e mais organizações de paz. Não ingénuas, mas eticamente estruturadas. E aqui, sem retórica, a ética mundial, a Weltethik, não surge como luxo académico, mas como infraestrutura mínima de sobrevivência civilizacional.”

Vasco da Gama insistiu:

“E que fazer para isso?”

Nuno com seriedade:

“Para isso, Bruxelas teria de fazer algo que ainda lhe custa mais do que reformar tratados: deixar de desestabilizar o cristianismo.”

Vasco ergueu uma sobrancelha.

“Restaurá-lo como poder?”

Nuno responde com firmeza e autoridade de quem de cima acompanha em pormenor o que se passa na Europa:

“Não! Nem instrumentalizá-lo. Mas reconhecê-lo como a matriz moral que historicamente permitiu à Europa pensar o Homem para além da tribo, da etnia, do império. Bruxelas continua a tribalizar a Europa, fazendo-a regredir ao velho modelo que ela já tinha superado com a integração dos bárbaros. Sem essa reconciliação com as suas próprias fontes espirituais, criticamente assumidas e não dogmatizadas, a Europa continuará a falar de valores como quem fala de um idioma que já não habita. A Europa ao tornar-se anglo-saxónica negligenciou a latina.”

Vasco olhou para o céu, onde o sol teimava em não se pôr.

“E se não aprenderem?”

Nuno respirou fundo:

“Então, quando até os lobos do Norte compreendem melhor o tempo do que os homens do poder, restará à Europa uma última escolha: continuar a administrar o mundo… ou reaprender a compreendê-lo.”

Ficaram em silêncio. Não o silêncio do desespero, mas o silêncio de quem semeia e sabe que não verá a colheita.

A Gronelândia, paradoxalmente, tornava-se o lugar onde o Norte gelado deixava de ser periferia e passava a ser patamar.

 

O Chamamento Final
No último dia, quando a “potestade do ar” regressou, mais suave, quase impercetível, Nuno Álvares Pereira deixou a sua última palavra:

“O mundo não precisa de novos tratados. Precisa de homens e mulheres formados de maneira humanista e enciclopédica, capazes de unir ciência, história, ética e compaixão. Quem compreende profundamente, julga menos. E quem julga menos, governa melhor.”

A reunião terminou sem aplausos, sem bandeiras e sem comunicados.

Mas algo tinha sido semeado, não por extraterrestres, mas por homens sábios e de boa vontade.

Ao longe, os cães deixaram de uivar.

Como se tivessem ouvido.

Epílogo
Se esta ficção tem uma missão, não é convencer, mas despertar.

Despertar para a ideia de que a paz é interesse existencial racional, de que a ética é a infraestrutura invisível da política e que a humanidade só sobreviverá se aceitar princípios morais universais vividos localmente. Pois não há salvação técnica sem conversão ética; não há globalização justa sem consciência pessoal e não há política durável sem transcendência moral. A origem e o fim do homem é espiritual.

E como desejo provável, só provável é que a Gronelândia não seja um lugar no mapa,
mas um estado interior onde o gelo do poder começa finalmente a derreter.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo Social

©  Pegadas do Tempo

(1) Talvez a Gronelândia se torne não só a nova Tordesilhas, mas sobretudo motivo de reflexão para Washington, Pequim, Moscovo e Bruxelas para que se entendam nas diferentes polos geográficos e construam pontes entre si e com as outras potências emergentes. O mundo precisa de paz e  humanismo.

A ENGENHARIA SOCIAL EUROPEIA EM ACÇÃO DEMOLIDORA

A Fábrica do Homem novo Europeu: Aborto financiado e Substituição demográfica

Quando o Estado promove a não-vinda dos seus e financia a vinda dos outros,
troca a soberania demográfica por uma crise de identidade

A votação do Parlamento Europeu de 17 de dezembro de 2025 e a proposta de fundo para o aborto expõem uma visão reducionista do ser humano e ameaçam o princípio da subsidiariedade. Neste artigo procuro analisar a questão sob o ponto de vista sociopolítico e consequente crise de soberania e de identidade.

A função primordial do Estado, na tradição política ocidental, deveria ser a de garantir o quadro de liberdades no qual as pessoas e as comunidades possam florescer segundo as suas convicções e tradições. Contudo, assiste-se na União Europeia a um desvio preocupante: a transformação do Estado e do superestado europeu, de garante em arquiteto da sociedade, utilizando ferramentas brutais de engenharia social (técnica de manipulação e desconstrução) que ignoram solenemente a complexidade antropológica das nações que governa. Esta abordagem manifesta-se de forma gritante em duas frentes interligadas: a promoção ativa do aborto como política pública e a fomentação da imigração em massa como mera ferramenta de correção demográfica, sem considerar as profundas implicações sociológicas de ambas.

O princípio da soberania individual sobre o próprio corpo é um pilar da modernidade e merece o mais profundo respeito. Este princípio, no entanto, não existe no vácuo. Ele confronta-se com outros princípios fundadores da nossa civilização, como o princípio cristão, ainda estruturante na matriz cultural europeia, da proteção da vida humana em toda a sua duração, desde a concepção até à morte natural. O Estado, ao invés de se manter num saudável e prudente neutralismo que permitisse à consciência individual decidir no âmbito da lei, está a tomar partido. Está a tornar-se ator e financiador de uma visão particular, a visão que reduz a gravidez a um mero contrato revogável e a vida no ventre a um amontoado de células.

A votação do Parlamento Europeu de 17 de dezembro de 2025 é a prova cabal desta partidarização. A aprovação, com os votos da minoria de esquerda e uma abstenção expressiva e elucidativa do centro-direita, de uma recomendação para criar um fundo europeu para o aborto, representa um ponto de viragem perigoso. A abstenção oportunista do centro-direita não é uma neutralidade: é uma cumplicidade ativa que transforma projetos radicais de minoria em políticas maioritárias da UE, corroendo de dentro as bases que promete defender. Aqui, já não se trata de garantir um direito num país que o consagrou. Trata-se de usar os recursos coletivos dos contribuintes europeus para fomentar ativamente a sua prática, inclusive financiando o chamado “turismo de aborto”. Esta medida ignora solenemente a soberania legislativa dos Estados-membros que, no exercício da sua identidade cultural e moral, optaram por prazos mais restritivos. Bruxelas, mais uma vez, erige a homogeneização ideológica como padrão, esmagando a diversidade de perspetivas que ainda subsiste no continente.

A campanha “A Minha Voz, a Minha Escolha” revela a lógica: pressiona-se para que a escolha de uma parte da sociedade seja não apenas permitida, mas subsidiada e promovida como norma supranacional. O resultado é previsível: a regulamentação de países que ainda tentam equilibrar direitos em conflito torna-se inócua, e os contribuintes de nações com fortes objeções de consciência coletiva vêem-se obrigados a financiar procedimentos que repudiam.

Paralelamente, corre outra linha desta mesma engenharia social (arte de desconstruir). Muitos dos mesmos Estados que promovem políticas que diminuem a natalidade nativa, através do aborto facilitado, mas também de uma cultura individualista e de falta de apoio à família, deparam-se depois com um inverno demográfico galopante. A solução apresentada não é um repensar das políticas familiares ou um reforço dos laços comunitários. É, sim, a importação massiva de população através da imigração. Esta abordagem utilitarista trata pessoas como unidades de trabalho, ignorando o profundo desafio da integração, em particular quando se trata de fluxos significativos oriundos de culturas com valores radicalmente diferentes, como é o caso de partes do mundo islâmico. Os problemas de coesão social, identitários e de segurança que daí advêm são depois geridos como “miséria do dia a dia”, numa administração de crise permanente, sem uma visão de sociedade a longo prazo.

Há aqui um paradoxo trágico e uma profunda falta de respeito pela vida em toda a sua extensão: desincentiva-se a geração de vida nova própria, e importa-se vida adulta alheia, muitas vezes de contextos civilizacionais em rutura ou que se propagam através de guetos. O Estado abandona a sua função de curador do tecido social a prazo e assume-se como gestor de fluxos, fluxos de terminações de gravidez e fluxos migratórios.

A verdadeira neutralidade do Estado, a que aspira qualquer sociedade pluralista e madura, passaria por se concentrar em criar condições para que as escolhas sejam verdadeiramente livres e informadas, e não em financiar e promover uma em detrimento de outras. Passaria por proteger o espaço da consciência individual e das comunidades intermédias, como a família e as associações de base, de uma colonização ideológica patrocinada com fundos públicos. E passaria, acima de tudo, por ter uma visão da sociedade que não seja a de um mero agregado de indivíduos consumidores e de mercados de trabalho, mas a de um organismo histórico com uma identidade, uma memória e um futuro a construir em continuidade (Seria de perguntar: porque não criar-se um fundo europeu que garantisse a cada mulher que engravideça e tenha filho o mínimo de 2.000€ mensais?).

A votação de dezembro é mais do que uma sobre um fundo de bases marxistas. É um sintoma de uma UE que, ao invés de proteger a diversidade dos seus “biótopos culturais”, como lhe caberia, se torna na força uniformizadora que os ameaça. O debate não é, no fundo, apenas sobre o aborto. É sobre quem decide o modelo de civilização europeia: as nações e as suas tradições morais vivas, ou uma burocracia distante convertida em missionária de um progressismo radical e socialmente disruptivo. O silêncio e a abstenção do centro-direita naquele hemiciclo não foram um acidente; foram a confissão de uma derrota intelectual e moral que todo o continente está agora a pagar. O maior perigo atual não reside apenas na ofensiva marxista-progressista; reside na abdicação histórica de uma direita que, ao abster-se ou pactuar taticamente com o seu adversário ideológico, lhe serve de escudo legitimador e acelera o processo de desagregação que diz pretender travar.

Pela contínua ação sub-reptícia da EU é de observar  como a “engenharia social da EU” desfaz consequentemente nações promovendo o vazio e importando o  constitucionalmente diferente. Encontramo-nos na fábrica do homem novo europeu condenado ao reducionismo antropológico.

A Europa não definhará pelo ataque frontal dos seus adversários, mas pela mão estendida daqueles que, devendo defendê-la, lhe entregam as chaves.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

QUANDO A POLÍTICA ESQUECE O HOMEM

Para ser lido num dia de eleições e pensado no dia seguinte

Num dia de eleições, quando o país se enche de debates, promessas e espectáculos televisivos, talvez valha a pena parar um pouco e dizer aquilo que anda esquecido: o maior problema do nosso tempo não é apenas político nem económico; é sobretudo humano.

Os candidatos falam, os comentadores analisam, os entrevistadores perguntam, muitas vezes sem verdadeira escuta. E, no meio de tanto ruído, a pergunta essencial fica sem resposta: que ideia de pessoa humana sustenta o sistema que nos governa?

Portugal não é excepção. É sintoma.

Vive esta realidade de forma clara. A política transformou-se, em larga medida, num exercício de imagem e de curto prazo. Discute-se tudo com ar grave, mas raramente se toca no essencial; fala-se de tudo,  menos daquilo que estrutura o quotidiano real das pessoas. A saúde que não responde como devia, a burocracia que desgasta, a carência silenciosa de quem trabalha e mesmo assim não chega ao fim do mês, a solidão de muitos idosos, a invisibilidade de quem não tem voz nem palco mediático.

O sistema cria fragilidades e depois surpreende-se com a desconfiança, a abstenção e o afastamento dos cidadãos. Mas como confiar numa política que fala de progresso enquanto trata o humano como um problema de gestão?

Aqui não está apenas em causa a competência técnica ou a boa vontade dos actores políticos. Está em causa algo mais profundo: a visão do homem. Sem uma ideia clara do que é a pessoa humana, a política torna-se um conjunto de procedimentos sem alma.

Vivemos numa sociedade que deixou de confiar no bom senso comum e na ordem natural das coisas para se agarrar quase exclusivamente ao poder: poder económico, poder técnico, poder mediático. E quando o poder deixa de ser acompanhado por uma consciência moral partilhada, o resultado não é mais liberdade, mas mais desencontro. Como já se dizia há séculos, o homem torna-se lobo do homem, hoje com linguagem polida, gráficos bem desenhados e relatórios impecáveis.

A Europa, vista a partir de Bruxelas, dá sinais claros desse cansaço. Uma Europa saturada de normas, directivas e regulamentos, mas cada vez mais pobre de sentido. Regula muito, controla mais, explica pouco e escuta menos ainda. Fala de valores, mas evita perguntar de onde vêm e para que servem. Governa-se como um sistema e esquece-se de que é, antes de mais, um conjunto de povos e de histórias.

Numa Europa fragmentada por dentro e por fora, perdeu-se até a noção de geografia humana. Governam-se territórios como se fossem quadros estatísticos, esquecendo que são pessoas concretas, com culturas, memórias e fragilidades próprias.

É neste contexto que a questão ética se torna inevitável. Não como moralismo, nem como regresso ao passado, mas como condição mínima de futuro. Sem um chão ético comum, nenhuma democracia resiste por muito tempo. Não por falta de leis, mas por falta de rumo.

Uma ética mundial, como a pensou Hans Küng, não pretende uniformizar consciências nem impor crenças. Procura apenas algo essencial: um acordo mínimo sobre o respeito pela dignidade da pessoa humana, acima de interesses económicos, ideológicos ou geopolíticos. É pouco e, ao mesmo tempo, é tudo.

Para a Europa e também para Portugal, isso implicaria uma relação mais honesta com as suas próprias raízes culturais e espirituais. Não para misturar religião com poder político, nem para restaurar velhas hegemonias, mas para deixar de tratar o cristianismo apenas como um incómodo ou um resíduo do passado. Quando liberta da tentação do poder, a tradição cristã foi uma escola de universalidade: ensinou que cada pessoa conta, que o outro não é um número, nem um meio, nem um obstáculo, mas alguém. Bruxelas regula com precisão, mas já não sabe para quê. Fala de valores, mas evita perguntar pela sua fonte. Governa territórios sem pensar a geografia humana que os habita.

Sem essa memória ética, a política reduz-se à administração do imediato. E os dias de eleições tornam-se dias de ruído, não de verdadeira escolha. Discute-se o acessório, evita-se o essencial.

Talvez, ao entrar numa cabine de voto, a pergunta mais importante não seja apenas em quem votar, mas que tipo de sociedade queremos alimentar. Porque, no fim, não são apenas os programas que moldam um país é a ideia de homem que os inspira.

E essa é hoje a urgência mais silenciosa, mas também a mais decisiva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

RAINER RILKE À LUZ DE NUNO ÁLVARES PEREIRA

O Indivíduo na Sociedade e a Sociedade no Indivíduo: Ninguém se pensa sozinho

A relação entre o indivíduo e a sociedade é marcada por uma tensão constitutiva, isto é, o ser humano é simultaneamente sujeito singular e realidade relacional (sujeito social). Não existe um “eu” puro fora do “nós”, nem um “nós” abstrato que dispense a interioridade pessoal.

Para tornar visível esta tensão e a sua fecundidade, recorro a duas figuras paradigmáticas do século XX e uma do século XIV: Rainer Maria Rilke, poeta da interioridade e do devir existencial, Dietrich Bonhoeffer, teólogo da responsabilidade comunitária e da ação histórica e Nuno Álvares Pereira, estratega militar português (1) que pode figurar como configuração exemplar e integradora dos dois.

Ambos recusam soluções fáceis. Ambos pensam o humano como processo. Mas situam-se em polos diferentes dessa mesma tensão.

Rilke e a primazia da interioridade vivida

Rilke escreve: «Não procures agora as respostas que não te podem ser dadas, porque não as podes viver. Trata-se de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez então, sem te aperceberes, um dia vivas gradualmente a resposta.»

E ainda: «Nunca se deve desesperar quando se perde algo, uma pessoa, uma alegria, uma felicidade; tudo volta ainda mais maravilhoso.»

Estas palavras condensam o núcleo do pensamento rilkeano expresso na vida como processo de maturação interior, em que o sentido não é imposto de fora, mas emerge da experiência vivida. A verdade não é um objeto a possuir, mas um acontecimento a atravessar. Esta atitude exige paciência, abertura à incerteza e confiança na potência transformadora do tempo vivido.

Rilke insere-se na tradição existencialista e na filosofia da vida, onde a autenticidade da experiência interior se torna critério supremo. “Viver as perguntas” significa aceitar que o sentido não se revela de modo abstrato ou imediato, mas se encarna lentamente na biografia. A promessa de um “retorno mais maravilhoso” não é um mecanismo de compensação moral, mas a afirmação de que a perda pode transfigurar-se em profundidade.

Enquanto ética pessoal, esta atitude é de grande valor porque protege contra o desespero imediato; resiste à compulsão de respostas rápidas e oferece um antídoto contra o ativismo ansioso e superficial.

No entanto, esta ética pessoal não é suficiente.

A sociedade que habita o indivíduo limita a interioridade isolada

Uma crítica legítima ao pensamento de Rilke é a sua radical subjetividade. O foco quase exclusivo na interioridade corre o risco de obscurecer uma dimensão fundamental da existência: a sociedade vive no indivíduo e ao mesmo tempo o indivíduo vive na sociedade.

As nossas perguntas não nascem num vazio. Elas são moldadas por estruturas económicas e políticas, pela linguagem e sistemas simbólicos, pelas relações de poder, por traumas coletivos, por memórias históricas e tradições culturais e pela saudade do espiritual.

A pergunta decisiva que Rilke não formula é: quem pode, de facto, “viver as perguntas”?

Para um sujeito em situação de precariedade extrema, violência estrutural ou trauma social, a confiança num “retorno mais glorioso” pode soar não a sabedoria, mas a cinismo involuntário. Há sofrimentos que não se resolvem apenas por trabalho interior, porque não são apenas interiores.

Aqui surge uma lacuna que também se fez sentir historicamente na teologia cristã, sobretudo quando esta privilegiou excessivamente a antropologia moral em detrimento da sociologia e da política. Ao focar-se no indivíduo abstrato, descuidou o homo politicus, o ser humano enquanto nó de redes informacionais, culturais e institucionais.

O ser humano não é apenas espírito e consciência, ele é também informação genética, informação cultural e informação processual. Forma-se em ecossistemas simbólicos, narrativos e tecnológicos. A sua opinião, identidade e ação emergem de processos coletivos, hoje amplificados por sistemas algorítmicos e mediáticos, um aspeto que a inteligência artificial torna particularmente visível.

Sem instituições, sem memória coletiva e sem tradição, o ser humano não se torna mais livre: regressa a um estado de imediatismo instintivo, vivendo num presente sem profundidade temporal. Rilke rejeitou dogmas e instituições, com razão em certos contextos, mas sem alguma forma de institucionalização simbólica, não há cultura, nem futuro, nem responsabilidade histórica.

Assim, as palavras de Rilke não são falsas, mas são incompletas.

Bonhoeffer: da interioridade à responsabilidade histórica

É aqui que o pensamento de Dietrich Bonhoeffer se torna decisivo. Ele escreve: «A glória final não é que o mundo seja julgado e condenado, mas que Cristo, através da sua cruz, que é também a cruz da comunidade, perdoe o mundo e faça a paz.»

À primeira vista, esta afirmação pode parecer resignada. Mas essa leitura dissolve-se quando se considera o contexto existencial de Bonhoeffer.

Ele não escreveu a partir de uma torre de marfim espiritual, nem a partir do espírito do tempo, mas do interior da resistência ativa ao regime nazi, pagando com a própria vida. A sua teologia nasce no limite, onde pensar e agir coincidem.

A “cruz da comunidade” não é símbolo de passividade, mas de solidariedade ativa. A comunidade cristã não existe para julgar o mundo a partir de uma suposta superioridade moral, mas para assumir o peso do mundo, criando espaço real para reconciliação, justiça e paz.

Paz como ação criadora, não como capitulação

Para Bonhoeffer, “promover a paz” (eirēnopoiein) é uma tarefa profundamente ativa. Não significa evitar conflitos, mas romper o ciclo da violência, da vingança e da humilhação moral. O pacificador não é neutro: ele paga o preço da reconciliação.

A sua crítica à “graça barata” é aqui central. Uma espiritualidade que se refugia no interior ou se limita a julgamentos piedosos é uma traição ao real e à própria filosofia e mística cristã. A graça é cara porque exige responsabilidade histórica, intervenção concreta e risco pessoal.

A aparente renúncia ao juízo condenatório não é fraqueza política, mas uma estratégia ética radical em que o objetivo não é destruir o adversário, mas restaurar a comunidade, o “shalom”, mesmo quando isso exige decisões duras, como a própria participação de Bonhoeffer na resistência conspirativa contra Hitler.

Rilke e Bonhoeffer são duas faces de um mesmo processo humano

Rilke e Bonhoeffer não se opõem; complementam-se.

Rilke recorda-nos que sem interioridade não há autenticidade, apenas adaptação funcional.

Bonhoeffer lembra-nos que sem responsabilidade social a interioridade degenera em narcisismo espiritual.

Rilke trabalha o tempo interior da maturação e Bonhoeffer assume o tempo histórico da decisão.

Ambos rejeitam respostas fáceis e confiam em processos transformadores. Mas em Bonhoeffer esses processos são explicitamente orientados para a mudança social, para a justiça encarnada, para a paz construída, algo que contrasta fortemente com a política contemporânea, dominada pela lógica da polarização, da humilhação do adversário e da vitória simbólica.

Rilke à luz de Nuno Álvares Pereira como interioridade encarnada

Para que o pensamento de Rilke não permaneça suspenso numa interioridade sem corpo histórico, é fecundo colocá-lo em diálogo com uma espiritualidade que soube viver as perguntas no meio do conflito real. Aqui, a figura de São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira) revela-se exemplar.

São Nuno viveu numa sociedade marcada por oposições extremas: guerra e paz, fidelidade nacional e universalidade cristã, poder militar e despojamento espiritual. Foi estratega, condestável, combatente decisivo na consolidação da independência portuguesa e, no entanto, o seu maior combate não se deu no campo de batalha exterior, mas no interior de si mesmo. A sua vida mostra que a verdadeira tensão formadora não é apenas entre o eu e a sociedade, mas entre o eu e o próprio ego.

Se Rilke nos convida a “viver as perguntas”, São Nuno mostra como fazê-lo quando a vida não permite retirada, quando a decisão é urgente e o sofrimento coletivo é real. Ele não fugiu do mundo para se tornar santo; tornou-se santo atravessando o mundo, transfigurando por dentro aquilo que por fora parecia apenas violência, ambição ou identidade nacional.
O seu nacionalismo não se absolutizou: purificou-se.
A coragem militar não se cristalizou em orgulho: transformou-se em fé.
A lealdade ao rei e à pátria não degenerou em exclusão: amadureceu em caridade universal.

Neste sentido, o “Santo Condestável” realiza aquilo que em Rilke permanece sobretudo como potencial: a integração entre trabalho interior e responsabilidade histórica. A sua espiritualidade não é uma negação da identidade, mas uma metamorfose dela. Ele não destrói o “eu”; em vez disso, converte-o. O egoísmo, a indiferença e a autossuficiência, inimigos silenciosos mais perigosos do que qualquer exército, são combatidos diariamente, até que neles floresça uma humanidade mais ampla e reconciliada. Isto é o que não se encontra nos políticos hodiernos e por isso a falta de humanismo, de coerência e de lógica política.

Diferentemente de uma espiritualidade puramente intimista, São Nuno mostra que o crescimento interior não afasta do mundo, mas aprofunda a forma de estar nele. A sua passagem da espada ao hábito carmelita não foi uma fuga tardia, mas a consumação lógica de um caminho interior já vivido em plena ação. Ele prova que a santidade não é incompatível com a política, nem a fé com a lucidez histórica, desde que o centro da luta seja deslocado do inimigo exterior para a conversão do coração.

Com Nuno Álvares Pereira, Rilke ganha realismo caminhável porque a “vida das perguntas” deixa de ser apenas uma ética da paciência interior e torna-se uma pedagogia da transformação do desejo, onde o sentido não é apenas esperado, mas incarnado em gestos, escolhas e renúncias concretas. São Nuno é, assim, a resposta viva à crítica sociológica feita a Rilke: ele mostra que é possível viver as perguntas sem ignorar o sofrimento coletivo, e crescer interiormente sem abandonar a responsabilidade pelo destino comum.

Com Nuo Álvares Pereira compreende-se que a tensão entre o eu e o nós, entre o privado e o público, entre o sagrado e o profano, não é um problema a eliminar, mas é o lugar onde o Homem se forma, porque a identidade nasce da tensão, não da fuga. (Da ipseidade, identidade própria e simultaneamente do reconhecimento de que a sociedade habita em nós).

O desafio contemporâneo não é escolher entre interioridade ou ação, mas integrá-las (Nuno torna-se exemplo de identidade, tensão e encarnação).

Viver as perguntas, sim, mas também assumir a responsabilidade pelas respostas que se tornam possíveis no mundo comum.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Nota explicativa

A presente reflexão insere-se num diálogo entre duas coordenadas do pensamento moderno que ao serem integradas na pessoa humana e na sociedade de que é exemplo Nuno Álvares Pereira contribuem para uma sociedade com futuro qualitativo: a poética da interioridade e da singularidade existencial de Rainer Maria Rilke e a teologia da responsabilidade concreta e do compromisso social de Dietrich Bonhoeffer. Estas perspetivas, aparentemente antitéticas, uma voltada para a profundidade do eu e a outra para a exigência do outro, são convocadas aqui como lentes para reler a figura histórica e paradigmática de Nuno Álvares Pereira.

A opção por este diálogo justifica-se pela convicção de que a grandeza humana plena reside precisamente na capacidade de integrar estes dois polos. Rilke, cantor da “solidão essencial” e da necessidade de “guardar-se no próprio íntimo”, representa a imperativa jornada de autenticidade individual, o cultivo de uma interioridade forte e consciente para que já os místicos sempre apontavam com base num substrato espiritual. Bonhoeffer, mártir da resistência ao totalitarismo, advoga uma “graça custosa” que se materializa em ação no mundo, numa “responsabilidade para com a história” que exige empenho, decisão e risco em prol da comunidade.

Nuno Álvares Pereira emerge, nesta triangulação, como a figura histórica portuguesa que corporiza de forma quase arquetípica a síntese destas duas dimensões. A sua trajetória revela, primeiro, uma interioridade rilkeana de granítico propósito e convicção íntima: a sua fé, o seu sentido de destino, a sua resolução inquebrantável perante a dúvida alheia nas vésperas de Aljubarrota falam de um homem que escutou os ventos que vêm do Alto e se fortaleceu numa certeza interior. Contudo, essa força interior não se recolheu num misticismo passivo. Pelo contrário, projetou-se numa ação bonhoefferiana de decisão extrema e responsabilidade social e política. Assumiu o peso da história no momento crítico, colocou o seu génio militar e a sua autoridade moral ao serviço de uma causa coletiva, a independência e a coesão do reino, aceitando o custo e o sangue dessa responsabilidade.

Deste modo, o Condestável não é apenas o herói militar ou o santo religioso da narrativa tradicional. Ele torna-se o emblema da integração entre a fortaleza da alma (Rilke) e a audácia de garra (Bonhoeffer). A sua vida posterior, de renúncia aos títulos e entrega aos pobres no Convento do Carmo, consuma este percurso: a interioridade levou-o ao desapego, e o sentido de responsabilidade redirecionou-se para o serviço humilde.

O empenho que guia esta e outras minhas reflexões é, precisamente, levar o leitor a pensar por si próprio, mas fazendo-o a partir de um cruzamento de saberes, uma visão enciclopédica que confronta filosofia, teologia, história e literatura. Acredita-se que é neste território de diálogo transdisciplinar que o pensamento se liberta de caminhos únicos e descobre as conexões profundas que tecem a experiência humana, encontrando em figuras como Nuno Álvares Pereira um exemplo perene e desafiador para o nosso tempo.

António da Cunha Duarte Justo

(1) Nuno Álvares Pereira (1360-1431) consolidou a independência de Portugal, como herói da Batalha de Aljubarrota (1385). Assumiu o comando do exército português e infligiu duras derrotas aos espanhóis em Atoleiros e Aljubarrota, assegurando assim a independência do país e a coroa para D. João I.

Líder durante a crise, tornou-se mais tarde místico e servo dos pobres. É considerado um símbolo de bravura, honra e profunda piedade, sendo uma das figuras mais notáveis ​​da história portuguesa.

Nuno Álvares Pereira foi beatificado em 1918 e canonizado pelo Papa Bento XVI em 2009, o que sublinha a sua importância enquanto herói nacional e santo (“Santo Condestável”).

A FERIDA SOCIAL DA SOLIDÃO E O IMPERATIVO DE CRIAR LAÇOS

Há um paradoxo original na condição humana: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, mas o greta da existência só ganha cor, calor e significado no cadinho do outro. O ser humano é, por essência, um animal social, um “animal político”, como já o definia Aristóteles. A sua afirmação no mundo não é um monólogo, mas um diálogo permanente que espera uma resposta, um eco, um reconhecimento. A pergunta que hoje, de forma premente, se nos coloca é: numa sociedade hiperconectada tecnologicamente, o que é que essa mesma sociedade devolve ao indivíduo para que ele não se sinta profundamente só? A resposta, quando não chega, deixa uma ferida que não é apenas da alma, mas que se inscreve no corpo, como uma doença silenciosa da modernidade.

Sentir-se sozinho é, de facto, uma das experiências mais cruéis. Não é sinónimo de estar fisicamente só, porque muitas vezes habita os corredores apinhados de um escritório ou o lado vazio de uma cama partilhada. É a sensação aguda de que a nossa essência não é vista, tocada ou compreendida. Os dados, como o preocupante estudo alemão que aponta que seis em cada dez pessoas se sentem sós, são mais do que estatísticas; são o retrato de uma epidemia subjetiva numa sociedade carente. A nossa visão de nós mesmos é, em grande parte, formada pelo reflexo que encontramos nos olhos dos outros. Quando esse espelho social se embaça ou se parte, a nossa própria imagem interior entra em crise. Perdemos contorno, nitidez, existência.

Vivemos tempos em que o nosso chão se torna cada vez mais movediço. A globalização, com as suas luzes e sombras, retirou-nos muitas vezes o chão das comunidades estáveis, das praças onde todos se conheciam. As notícias de conflitos globais ecoam como um ruído de fundo ansioso. Muitos sentem-se como peças intercambiáveis numa engrenagem vasta e impessoal, onde a eficácia substitui a afetividade. Neste contexto, o apelo a uma espiritualidade que sirva de refúgio e de sentido não é um mero capricho devocional, mas uma necessidade também psicológica vital. As comunidades, sejam religiosas, culturais ou de simples proximidade, são os antídotos naturais ao isolamento. É por isso que a ação do Estado e das instituições não pode limitar-se ao económico e ao funcional; deve investir ativamente na criação de espaços de encontro, de cultura viva e partilhada, de celebração do vínculo, durante todo o ano. Uma sociedade que não cultiva o seu espírito comunitário é uma sociedade que adoece coletivamente, tornando-se mais depressiva e fragmentada.

Contudo, a ponte para o outro não se constrói apenas de cima para baixo. Ela nasce dos gestos mínimos, da micro-política da gentileza quotidiana. Fiquei profundamente comovido com um episódio simples: durante um passeio, ao executar discretamente um exercício de equilíbrio, um desconhecido de semblante alegre que passava perguntou-me: “Está tudo bem?”. Não era mais do que uma frase, uma nesga de atenção, mas continha um universo de reconhecimento. Naquele instante, deixei de ser uma figura anónima numa paisagem para me tornar um alguém. Admiro, com um certo sentimento de humildade, a etiqueta infalível dos cães que, ao cruzarem-se, se cheiram e se saúdam. Recordam-nos um protocolo básico de existência: a presença do outro merece um registo, um reconhecimento.

É na descoberta mútua, nas conversas que desvendam universos íntimos, que nos encontramos a nós próprios. A falta deste estímulo relacional é um veneno lento. O cérebro atrofia-se, a demência pode encontrar terreno fértil; a alma, em desespero, busca consolo fugaz no álcool ou noutras substâncias. A biologia confirma a tragédia: o isolamento social crónico eleva os níveis de cortisol, a hormona do stress, abrindo caminho a doenças cardiovasculares e a um declínio geral do sistema imunitário.

A solidão é, portanto, uma questão de saúde pública. Combate-se com a participação ativa, como, dançar, pertencer a um coro, fazer parte de um grupo de voluntários, cultivar uma amizade com a paciência com que se cultiva uma árvore. Sei bem como isto é difícil de praticar porque também eu não consigo praticar sempre muito do que aqui digo embora reconheça a sua importância.  A reforma, tantas vezes temida pela perda súbita de significado e de rede social, deve ser preparada com a mesma cautela com que se planeia a independência financeira. É preciso poupar afetos, semear ligações.

Nem todas as pessoas solitárias estão isoladas, e muitos isolados não se sentem solitários. A chave, como bem apontam os movimentos de autoajuda e entreajuda, está na autenticidade e no compromisso. Relações superficiais ou tóxicas podem ser mais solitárias do que o silêncio. O que buscamos, no fundo, é o toque de uma humanidade partilhada, a confirmação de que a nossa voz tem um interlocutor, de que a nossa sombra, quando projectada, se funde com outras, formando uma proteção maior contra o vento frio da indiferença.

Chegou a hora de um investimento coletivo na arte do encontro. De perguntar ao vizinho como está. De criar, com pequenos gestos, uma rede de luz que afaste a escuridão da solidão. Porque no fim, salvamo-nos uns aos outros, ou perecemos juntos, na mais dolorosa das separações que é a que acontece estando lado a lado. Ninguém se realiza sozinho.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo