O PENSAMENTO POSITIVO ELEVA A SATISFAÇÃO E A QUALIDADE DE VIDA

Quem controla o Pensamento assume o Poder sobre a Vida

António Justo

Os nossos pensamentos são muito poderosos porque produzem a nossa realidade. Eles influenciam os nossos sentimentos que, por sua vez, influenciam as nossas percepções, o nosso comportamento e consequentemente a maneira como reagimos às coisas que nos rodeiam. Nesta perspectiva, nós próprios somos os criadores da nossa realidade através dos pensamentos que determinam as nossas acções (Não era sem motivo que aprendíamos na catequese a examinarmos a nossa consciência a nível de pensamentos, palavras e obras!). Nos anos 60 frequentei um curso de hipnotismo e desde então nunca me esqueci de uma ideia nele transmitida e que se resume mais ou menos nisto: cria uma ideia força numa pessoa e ela levará essa ideia à acção. Os pensamentos positivos e negativos da nossa mente tornam-se determinantes no desenvolvimento das nossas vidas. Daí a importância de um certo controlo sobre eles para podermos ter mão na nossa vida.

Também sabemos da física quântica que o pensamento e as palavras são portadoras de força viva (positiva e negativa) e criam realidades.

Se observarmos os nossos telejornais é fácil verificarmos – até pelo seu abuso em noticiar o negativo – que as pessoas reagem mais às coisas negativas. O desejo da ordem e de reconhecer os perigos fazem parte da tradição cultural e do nosso gene biológico e tem um certo fundo real a figurar no nosso inconsciente vindo da experiência de que, geralmente, o mal-organizado consegue submeter a bonomia do rebanho.

No outro extremo encontra-se uma imensa literatura sobre o pensar positivo que também se pode tornar tóxica (uma positividade venenosa que leve a um optimismo sem cautela).

Antes de passar aos grandes benefícios do cultivo do pensar positivo gostaria de dizer que devemos estar atentos aos extremos porque no centro de dois extremos costuma residir a virtude. Para que os pensamentos positivos tenham a sua acção benéfica, os problemas e os sentimentos dolorosos não devem ser reprimidos, porque tudo o que não foi resolvido regressa e, muitas vezes, de uma forma ainda mais forte. Um teste sobre a aplicação do pensamento positivo poderá constar da análise se ele ajudou a sair do impasse de situações problemáticas e se houve algo que mudou. Doutro modo poderia tornar-se numa estratégia de autoengano propagandeado. Aqui, o factor mais importante será verificar que através da atitude positiva se chegue ao encontro consigo próprio e a um encontro interpessoal, através de uma atitude autêntica e não apenas de ficção externa que poderia levar ao autoengano (projecções, etc.) e, mais tarde, até a ter consequências maléficas na própria vida! De facto, há que “confiar na Virgem”, mas sem se esquecer de correr (1)!

É de suma importância tomarmos consciência do poder verdadeiramente surpreendente do pensamento sobre o ser humano, para nos darmos conta do que acontece em política para controlar a sociedade e também refletir e tentar direcionar o poder do pensamento no sentido positivo da própria vida. O mundo exterior (tecnologia, desenvolvimento, etc.) é todo ele construído na base de ideias.

Naturalmente, um pensamento fica muito atrás de um céu estrelado, de um arco-íris, de um pôr do sol, de uma trovoada…. Relevante é a força de vontade e a liberdade de poder orientar a direcção dos próprios pensamentos, sentimentos e, com estes, as obras.

Em vez de nos abandonarmos à espontaneidade das ideias será de importância ter a consciência de as poder guiar e, para tal, usar da vontade para fomentar ideias positivas. Torna-se necessário dar-se conta do que se pensa e observar e analisar o próprio pensamento. Se for negativo será necessário centrar-se num pensamento positivo para o ter como alternativa e assim poder substituir o negativo pelo positivo.

O pensamento positivo é como o sol que dá energia e os pensamentos negativos puxam-nos para a sombra da vida roubando-nos a força. Certamente também um caracter pessimista tem os seus benefícios ao ajudar-nos a ser cautelosos, desde que não medrosos. Ele pode também criar uma margem para se reflectir (momento do controlo) e não se fazer, sem mais, algo temerário.

O positivo e o negativo podem ser comparados a altas e baixas pressões atmosféricas na pessoa. Como o pensamento dirige a vida social e lidera também a vida individual é importante investir-se no positivo, porque é isso que nos leva à frente, e o negativo puxa-nos para trás. Relevante é tirar o melhor de cada situação no sentido de resolver o problema e não de mantê-lo. De acordo com Rudolf Steiner, deve-se lutar para elevar o valor existencial da personalidade humana.

O olhar negativo é selectivo e tende a fixar o sentido na negatividade e como tal a acrescentá-la! Se a base da nossa experiência na infância e na adolescência foi amorosa, positiva, então será mais natural um caracter benévolo e inclinado aos pensamentos positivos.

Em cada coisa negativa haverá também algo positivo a descobrir porque a lei da polaridade vale em qualquer lugar. A lei da gravidade, também no aspecto do comportamento individual puxa para baixo, exigindo, tudo o que aponta para a excelência, um certo esforço. Quando andava no seminário em Arouca, todos os dias havia uma pequena palestra de cera de três minutos feita pelo director antes de irmos para a cama e essa conversa tinha sempre um caracter positivo e a última reacção dos ouvintes era a boa disposição e, muitas vezes, o riso. O nosso humor depende muito de onde concentramos a nossa atenção,a nossa  actividade mental e espiritual, que se pode tornar em fonte de energia numa perspectiva construtiva e criativa na medida em que o ambiente social o favoreça.

Quando vivia em Lisboa, por vezes ia ao Casal Ventoso assistir a doentes ou moribundos e quando chegava a casa cheguei a ouvir dizer a um colega que eu cheirava a morte. Exteriormente, os sentidos fixavam-se no que percecionavam. Mas interiormente sentia-me iluminado. O mesmo não se dava, por vezes, quando fazia assistência a uma prisão em Kassel! Aí, quando chegava a casa dizia-se que a minha aura era, por vezes, negativa. Naturalmente tudo exterioridades, mas um sinal que as ideias e as situações influenciam a nossa maneira de estar. Uma coisa que notei na minha vida foi que se realizou nela, em grande parte, o que antes pensei, naturalmente ajudado pela vontade.

 Marie von Ebner-Eschenbach disse uma vez: “Não é o que nós experimentamos, mas o que sentimos sobre o que experimentamos que faz o nosso destino”.

Além dos pensamentos positivos torna-se essencial tomar também iniciativas de caracter social porque também a actividade protege da negatividade principalmente quando é de origem depressiva (2), o hábito é realmente difícil de se ultrapassar!

Quando fazemos alguma coisa por amor estamos a sair de nós (ou a entrar no nosso âmago) e deste modo a aumentar o nosso eu espiritual e social; então, o outro passa a fazer também parte positiva da nossa vida.

O exercício do pensar positivo para ser verdadeiramente frutífero acontece numa relação eu-tu e não numa relação eu-objecto. Não se trata de exercitar o pensar positivo pelo simples pensar positivo, mas de ordenar a vida numa “plataforma” de boa vontade, numa atitude benevolente perante a vida e perante os outros.

Por vezes esta benevolência torna-se difícil devido a uma experiência negativa (sem conforto nem consolo) feita na infância e na adolescência. Uma experiência de ter sido escravo de alguém e sem a experiência de um amor experimentado no regaço materno complica a própria vida e a dos outros; pode mesmo levar  a pessoa a saltitar de pedra em pedra para fugir à lama do caminho (que lhe foi roubado) e desta forma o afectado deixa de ter a experiência do caminho e o sentido de fazer caminho por si mesmo (passando a vida a ocupar a mente e a reparar os caminhos que outros estragaram). Ao tornar-nos conscientes sobre o nosso currículo emocional e mental surgirão pensamentos que darão sentido à nossa vida (Aqui terão o caminho mais facilitado os tipos de caracter optimista e sanguíneo).

A sociedade não anda bem porque em vez de criarmos os próprios pensamentos seguimos e falamos do que a sociedade nos impinge em vez de trabalharmos em nós mesmos, corporal e espiritualmente.

Quando andava no colégio gostava de jogar futebol, mas havia um colega jogador e árbitro que fazia do jogo um combate com regras próprias. Então eu ia aos arames mas como me queria autodominr comecei a pegar numa pedrita que, durante o jogo,  apertava na mão ou, por vezes, numa medalha para me lembrar que deveria estar atento ao jogo e não ao que o colega queria fazer dele (Era uma maneira talvez inocente de tentar substituir os pensamentos negativos por pensamentos positivos!). Mais tarde, em situações críticas, bastava-me uma jaculatória para me desviar da negatividade. Com o tempo as coisas integram-se na vida e tornam mais fácil as atitudes do dia a dia. A ideia de fazer uma boa acção por dia ajuda também a nossa satisfação. (Às coisas que disse positivas sobre mim tenho muitas outras negativas que também poderia nomear, mas que não vêm a propósito para aqui: importante é vivermos de bem connosco mesmos reconhecendo o bem e o mal de que somos portadores mas cuidando em nós a vontade de um agir baseado, pelo menos, na boa intenção!).

Um caminho sem meta não honra a caminhada; quando muito é um caminhar à roda, um andar à volta de qualquer coisa como se fosse um planeta sem vida própria. Da visão de cada olhar dependerá a grandeza ou a pequenez da paisagem. A energia disponibilizada é proporcional à esperança nela investida.

O bem não é abstrato só existe ao ser feito. Não vale a pena procurar ser melhor do que os outros, basta procurar ser-se apenas um pouco melhor do que se é. À medida que mais se compreende mais se perdoa a si e aos outros! Para julgar uma coisa ou uma pessoa é preciso compreendê-la e para a compreender é preciso tornar-se parte dela! Somos parte de uma comunidade e só subsistiremos em comunidade. Daí a importância de promover o nível da própria consciência para que também a consciência colectiva evolua no sentido de respeito mútuo, integridade e responsabilidade. O desenvolvimento individual e social está dependente da mudança da mente individual e da mentalidade social numa de empenho de pensamento e sentimento no sentido positivo. O pensamento positivo leva ao agir positivo. De facto, quem controla o pensamento assume o poder sobre a vida (3).

O neurologista Antonio Damásio, na sua teoria do pensamento e do sentimento, chegou à conclusão que os sentimentos e os pensamentos estão indissociavelmente interligados.

Os pensamentos influenciam os sentimentos, mas, inversamente, os sentimentos também influenciam os pensamentos.  Um deprimido pensa de forma mais pessimista e comportar-se de forma negativa porque treina o cérebro para ser infeliz (Por vezes, em estados depressivos é necessária a intervenção medicamentosa)!

Resumindo: o poder do pensamento para a nossa qualidade de vida observa-se no facto de o pensamento negativo gerar sentimentos negativos e na consequência atitudes negativas e do pensamento positivo gerar sentimentos positivos.

A Psicologia Cognitiva Comportamental tem como ideia central da terapia a frase “sente-se como se pensa”. O seu principal objectivo é mudar a forma de pensar e sentir: “substituir crenças negativas por crenças positivas”. Uma pessoa é influenciada também pelo que se passa à sua volta e o ambiente afecta a forma como se pensa, age e sente.

O que nos distingue dos animais é a capacidade de pensar independentemente.

António CD Justo

Teólogo e Pedagogo

©Pegadas do Tempo

  •  (1) “PENSAR POSITIVO” UMA ONDA AGRADÁVEL QUE SE PODE TORNAR PERIGOSA https://antonio-justo.eu/?p=5051
  •  (2)  O pessimismo pode levar a ver-se e sentir tudo ligado à própria pessoa, por medo ou falta de confiança. Daí a necessidade de procurar ter interesse (participar) no mundo e em coisas que geralmente não nos interessariam, doutro modo corremos o perigo de, em situações de crise, nos encerrarmos no “nosso mundo”, rondando em torno de nós mesmos e criarmos um exército de servidores da própria situação (leitura de livros sobre os mesmos assuntos, escolha de amigos que nos prendem a nós mesmos porque por medo ou por cortesia nos confirmam nas próprias ideias ou sentimentos negativos sem que se possibilite um espaço próprio de reflexão / autorreflexão). Porque não começar a escrever um diário das próprias, ideias, sentimentos, acções e do que se desejaria ver mudado em si e no outro? Também o cantar em conjunto (coro) faz-nos entrar na ressonância universal e tira-nos da própria teia que amplia todos os nossos problemas e perigos. Encontrar-se com amigos onde reine o bom humor faz de ventil e desencadeia-nos das miudezas do dia a dia. Cada risada que se tenha é um banho de sol que faz sempre bem e especialmente depois de algum mergulho em água fria.

(3)  Palestra que fiz a um grupo de pais e encarregados de Educação em 2009

TRIBUNAL EUROPEU POSSIBILITA A PROIBIÇÃO DO USO DE VÉU ISLÂMICO NO LOCAL DE TRABALHO

Uma Medida redutora da Propaganda islâmica

O Tribunal de Justiça Europeu  com a sua decisão de 15.07.202 reforçou os direitos dos patrões (1).

Por um lado, não pode haver uma proibição geral do véu de cabeça (distintivo muçulmano) devido à liberdade de religião. Por outro, o direito só pode ser restringido com justificação válida.

O patrão pode proibir o uso do lenço se o seu uso prejudicar o negócio, se perturbar a imagem de neutralidade da empresa e para evitar conflitos sociais na empresa.

Nesse caso, também será proibido o uso de formas visíveis de expressão religiosa, política ou filosófica.

Agora os tribunais portugueses têm de implementar esta regra.

A mulher é a vítima porque está sob a pressão dos que querem que ela use o Véu muçulmano e está sob a pressão dos que querem que o não usem!

Existem três tipos diferentes de “cobertura” ou  Hijab (2): o véu facial (cobre toda a face ou apenas a metade inferior da face), o véu da cabeça e o véu do corpo (chamado chador ou burca).

No contexto social, o véu é visto como um símbolo religioso que chama a atenção para a filiação religiosa muçulmana da mulher; aqui é que se centra o ponto da discórdia em debate.

Funcionárias do Estado que usam o véu põem publicamente em questão a neutralidade do Estado ao serem admitidas em repartições públicas estatais.

Ao acentuar a religião e a diversidade social, a muçulmana afirma um direito individual de IDENTIDADE legítimo, mas atendendo à arquitetura do nosso Estado, questiona, por outro lado, a IDENTIDADE neutra do Estado.

Aqui, o cidadão cliente não pode decidir se ir ou não a uma repartição com preconceito multicultural ou a uma com preconceito de neutralidade.

Dado, o caso, envolver a defesa de interesses de usos e costumes, entre outros, ensino de religião em escolas do Estado e construção de mesquitas, deveriam estes assuntos tornar-se objecto de contratos entre os Estados; neles deveria haver a preocupação do respeito mútuo pelo direito de reciprocidade, no que se trata aos cidadão e instituições dos Estados parceiros!

Doutro modo, também o Estado está, indirectamente a fazer propaganda muçulmana perante a clientela e a implementar um serviço de afirmação pela guerrilha cultural, querida por Estados como a Turquia!

Atendendo à identificação religião/estado a cultura acolhedora e seus cidadãos encontram-se indefesos e discriminados em Estados de cultura prevalentemente muçulmana.

O assunto seria inocente se não nos encontrássemos na era da luta entre culturas e entre ideologias!

António CD Justo

Pegadas do Tempo

  • (1) Tribunal de Justiça Europeu (TJE) : requisitos de neutralidade (acórdão de 07.2021, ref. C-804/18 e C-341/19).
  • (2) No Corão há as seguintes referências ao véu: “ …e não mostrem seus atrativos, além dos que (naturalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus…      ” “         Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos fiéis que (quando saírem) se cubram com as suas mantas; isso é mais conveniente, para que distingam das demais e não sejam molestadas; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo”.

PORQUE NÃO MODERAR A SOCIEDADE DE TRÊS CLASSES?

Debate atual sobre as Pensões dos Deputados na Alemanha

O regulamento atual de reforma não está adaptado ao sistema democrático e é também injusto e anti-social.

Deputados alemães dos grupos partidários no Bundestag (MPs da CDU; SPD; FDP, Esquerda, Verdes) propõem uma reforma do sistema de pensões de deputados.

A exigência dos deputados deve ser levada ao Parlamento após as eleições federais no outono. Além de outras diferenças de trato, a regulamentação atual para reformados na Alemanha é de 48% e para aposentados do governo federal é de 67,5%.

Após um período legislativo de quatro anos, o direito de pensão de um membro do Bundestag já ronda os 1.000 euros por mês.

Deveria haver um fundo de pensões para todos, para o qual os empregados, os trabalhadores independentes, os deputados e os funcionários públicos contribuam e adquiram os mesmos direitos.

Todos deveriam contribuir para o mesmo seguro de pensão como na Áustria.

É anacrónica e incongruente com a democracia a existência hodierna de um status político especial para aqueles que são os servidores do povo (e eleitos pelo povo)!

Ponha-se fim à sociedade de três classes. A existência de elites pressupõe a existência de privilégios em relação ao povo segundo o princípio que ele mesmo constatou ao longo da história: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”. Facto é que a inveja a ganância – duas negatividades não produzem positividade! As elites, a “burguesia” e o povo continuarão de uma forma ou de outra, mas em tempos em que se pretende uma sociedade adulta seria óbvio manter diferenças e falar claro, mas que não se finja!

É interessante ver como a nossa classe política para fazer ver o avanço do sistema democrático aponta para a situação dos três estados da sociedade na Idade Média, mas quando se trata de manter a situação dos privilegiados  que se criticam naquela, então a divisão de classes passa a ser aceitável e democrática! Vale-lhes a situação popular de ontem e de hoje que, nestas coisas, não parece conseguir discernir!

Não seria de condenar a existência de diferenças de trabalhos e de funções, o que brada aos olhos são as diferenças abismais entre um pobre e um rico; comparando as situações das cúpulas do poder e da riqueza d as sociedades de ontem e de hoje,  as cúpulas de hoje vivem com mais exageros e extravagâncias (“qualidade de vida”!) que as de ontem em relação à constante povo!

Em nome da coerência e da transparência democrática seria tempo de mudarmos de atitude e de deixarmos um discurso abstrato hipócrita e demasiadamente enganador!

Os arautos da democracia, seus representantes e multiplicadores deveriam ponderar e estar atentos à frase do evangelho ” E ninguém põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho rebentará o odre e tanto o vinho quanto o odre se estragarão. Ao contrário, põe-se vinho novo em odres novos”. (Marcos: 2: 22)

António CD Justo

Pegadas do Tempo

 

 

EDUCACAÇÃO EM TEMPO DE MUDANÇA E NA DISCIPLINA DE CIDADANIA

Reflectindo sobre a Influência dos Ares do Tempo

António Justo

O andar da sociedade, visto sob o prisma da responsabilidade individual e política, deixa muito a desejar por sobretudo nadar no sentido da corrente do tempo; parece não suportar a reflexão filosófica e até a educação se vê orientada para o sucesso e o lucro a curto prazo que se vêem-se acolitados por um moralismo superficial e intolerante a caminho da servidão.

Pretender  que se aprendam atitudes como se aprende uma técnica de serviço utilitário poderá ser o melhor caminho para se estabelecer um regime autoritário; o nosso pensar do tempo aposta em valores abstratos  não querendo orgânicas jerarquias (diferenças) no comportamento nem no pensamento (o pragmatismo e a eficiência tornaram-se no “bem” do tempo e espalham a crença de que com leis e semáforos vermelhos tudo se regula!). Consequentemente (1) na educação cívica não estão em foque a relação interpessoal (virtudes pessoais) nem a formação de atitudes de humanidade; fomentam-se sobretudo comportamentos mecânicos (aptidões de concorrência)  relativos a poderes e interesses grupais, a valores anónimos acompanhados de ícones do passatempo e da moda. Chega que tudo funcione e basta ter toda a pessoa em função; o sentido do Estado e o que parece interessar é apenas ver a máquina a funcionar, tudo ao serviço dos órgãos de interesse, na sua qualidade de componentes da máquina. Já Immanuel Kant recomendava a termos a coragem de usar a nossa própria razão para nos libertarmos da imaturidade autoinfligida.

Cada um é, por outro lado, considerado dono do mundo que se encontra dentro do seu computador (um mundo artificial que não o real!). Já não precisa de conquistar espaços nem de ser, bastam-lhe logaritmos e chavões de pensamento para aparecer! Cai-se assim numa educação utilitarista (2) que educa para a funcionalidade e para o progresso esquecendo o “educando” na sua qualidade de pessoa, pessoa integral!  A Informação é manipulada encontrando-se sobretudo em posse de fábricas de inteligência (técnicos de ideologias e de estratégias) e cada vez mais em posse de multinacionais como Facebook e Google (Deste modo, impercetivelmente, une-se o poder político ao poder privado na mesma tarefa de controlo do cidadão – da cidade e do Estado).

A Palavra, a informação  é a energia criadora originária  e permanente, por isso Deus falou e o evangelista João escreeu: „No princípio era a  Palavra, (a In-formação)”;  ela está sempre no princípio da cultura, do discurso, da formação e da criação; ela forma a pessoa que cria novos mundos, novas civilizações; essa mesma Palavra (in-formação), no reino vegetal, forma as plantas, todos os seres na qualidade específica de convergentes de informação (in-formação em processo de definição).

Por isso os poderosos se apropriam da palavra (informação), tornam-se autoridades (à imagem de deuses e não de Deus!), formatando-a, a seu modo, decidem sobre o significado e o sentido da palavra (ideia moldada).

A Palavra (in-formação)  que no princípio era divina e, como tal, parte de todos, em que cada um poderia sentir e decidir sobre significado e sentido, foi timbrada em nomes, frases opacas e, ao deixar de ser processo, deixou de estar no princípio para ser reduzida a gramática do tempo (poder) e assim, como objecto, tornar-se apenas em narrativa localizada e, deste modo, poder ser usada para reduzir os outros a consumidores (acaba-se a relação pessoal para a substituir pela conexão funcional; acaba-se com a comunidade e correspondente virtude/moral para se criar a sociedade do cidadão e correspondentes leis exteriores dependuradas em valores abstratos). Torna-se urgente proteger a gene divina da palavra (in-formação) que se encontra ameaçada porque o que é processo se torna em objecto limitado e deste modo passa a ser propriedade de alguns: os proprietários do espírito materializado.

Ao reflectirmos sobre a in-formação (Palavra) estaremos a proteger o seu ser divino em nós e nos outros. Se observarmos os ares que nos rodeiam notamos que não nos querem ver como seres direitos, como pessoas, como sujeitos criadores do mundo, desejam-nos tortos formatados como consumidores ou seres amarrados à sua trela (informação petrificada!). Quer-se transformar a Verdade (processo relacional) em crença apropriada, ou na narrativa que nos contam. O espírito do tempo quer uma sociedade “sã” que nos faz seus pacientes.

O entusiasmo pela técnica prepara o caminho para o abstracto numa narrativa sem poesia para ser contada e não precisar de ser explicada nem vivida (o velho “sacerdócio” foi substituído por tecnocratas ao serviço do sistema à custa da pessoa!). A sociedade competitiva de consumo não educa para a compreensão da pessoa e das coisas no sentido que lhes é próprio de complementaridade e humanidade, mas sim no sentido de autoafirmação, de concorrência (rivalidade), de exclusão e de funcionalidade. A governação baseada no crescimento justifica a desumanização da pessoa e da sociedade porque os fins passam a justificar os meios como se pode ver na sociedade consumista e de maneira extrema em regimes totalitários como a Coreia do Norte e a China!

Sem nos deixarmos oprimir por racionalizações nem por perturbações emocionais, importará começar por aprender a lidar consigo mesmo e a desenvolver o espírito de discernimento, de descoberta (curiosidade) e de humildade. Isto no sentido de tentarmos ter a coragem de deixarmos de ser ovelha e ao mesmo tempo não termos medo de reconhecer a necessidade de cães de guarda e de pastores! Cada pessoa traz em si o cordeiro e o lobo o que justifica uma educação no sentido prático de um humanismo cristão.

O espírito do tempo globalista para justificar um centralismo tecnológico anónimo vai, pouco a pouco, destruindo os biótopos culturais pessoais e regionais no equívoco de que só assim poderá ter poder directo sobre o indivíduo (pessoa reduzida a cidadão) e sobre as nações ou povos! Certamente também por isso se vai tendo a impressão de se pretender uma sociedade e indivíduo só mente, sem Deus, sem pessoa, sem alma, sem terra, sem família e sem mãe. Pretende-se um mundo só paterno com mente e sem coração. Não chega educar para a filantropia, é necessário integrar, na educação, a prática de olhar os outros (os diferentes numa relação pessoal e não só de interesses) com o olhar de Deus, com o olhar deles e assim descobrir em cada um Jesus Cristo, o irmão (e isto independentemente de instituição, etnias, culturas, crenças e ideologias). O olhar de Deus é materno e faz dos outros irmãos gerando-os como filhos. Isto implica educar para a transformação (e não para a confrontação, competição) a acontecer na transversalidade de espírito e matéria, de feminilidade e masculinidade, de integridade e engano.  Será necessário aprender a dar sentido à própria existência sem ter de continuar atrelado às necessidades artificialmente criadas e que se concretizam no ter dinheiro para as satisfazer ou no exercício de meras funções. Trata-se de descobrir a própria dignidade (personalidade) e não de ter apenas uma ideia dela sem que se torne virtude. A reflexão sobre a dignidade leva à minha descoberta de ser sujeito e não objecto numa inter-relação de sujeitos. Para isso seria necessário aprender a tratar-se a si mesmo com dignidade.

Vivemos num estádio cultural em que tudo é encaminhado para a exploração do intelecto e visto a partir do intelecto (ângulo cerebral causal a caminho da inteligência artificial): valores e normas, são transferidos e adquiridos num canto do cérebro. Não se pretende a consciência de identidade, de homem todo; no máximo quer-se um perfecionismo que parte da insegurança para gerar instabilidade servida por valores meramente abstratos.

Inicialmente temos de aprender a tratar-nos a nós próprios com amor e, concludentemente, trataremos os outros como nos tratamos a nós mesmos. Então dispensaremos modelos a seguir e deixaremos de andar a correr atrás de uma felicidade pressuposta fora de nós. A educação para a cidadania não deveria partir de medidas que consideram o outro como objecto de valores propostos a adquirir porque na sua lógica esses valores puramente abstratos pretendem transformar os outros em objectos, tudo numa coerência funcionalista, num clima social de valorizações e avaliações que no fim de contas serve sobretudo a classe dominante.

A cultura é deixada ao desbarato da decadência e ao desgaste dos ares do tempo.  A educação para a humanidade e para a paz não pode continuar a manipular o ensino tal como fazem os regimes que dão mais importância ao domínio da Universidade, da escola, dos média, que aos bancos (estes são transversais e comuns a todos os regimes não podendo ser anulados, apenas nacionalizados), porque sabem que aquele é que permanecerá como estabilizador do sistema.

A educação frisa a pessoa e a sociedade! Como podemos querer pessoas humanas e uma sociedade solidária se não entendemos nada do que está a acontecer com a educação escolar e social?

Educar para a paz é educar para a transformação, nunca para a confrontação porque a transformação pressupõe a transversalidade dos polos (extremos).

Penso que uma ótima maneira de encontrar apoios para o processo da própria transformação será dialogar com a natureza, entrar num templo e aí, sem ouvir ninguém, entrar-se numa de intuição, deixando o coração transcender e dizer: “Tu estás aí, eu estou aqui, no nós estamos juntos a fazer caminho”. Nesse estado, poder-se-á, mais facilmente, entrar em contacto consigo mesmo, através do silêncio, da natureza, do ouvir o mar e o respirar da montanha na transversalidade dos nossos sentidos. Então poderá iniciar-se uma transformação interior que primeiramente poderá criar um sentimento de dissidência para mais tarde se poder respirar o universo em nós, a humanidade em nós. Nessa atmosfera se nota também o emperramento em nós mesmos e as incongruências com o mundo das ideias ou intenções e propósitos que vinham de fora (expectativas) e não de nós! Então, pelo menos por alguns momentos, dar-nos-emos conta, da necessidade em nós, de sermos sujeitos e não objectos. Então dar-nos-emos conta do perigo de nós mesmos e da família sermos reduzidos à prática do eu penso, quero e compro; dessa distância poderemos observar o modo como somos sorvidos pela atracção do espírito do tempo na enxurrada social.

Então, quando me transformo já não me encaixo neste modo de viver social, mas como a transformação não pode ser alcançada sozinha, presto atenção a com quem vou. Aí mais sentirei a necessidade de criar ou me integrar numa comunidade própria.

Precisamos todos de uma interajuda mútua e autêntica. Isto pressupõe experienciar-se a si próprio, interna e externamente, e não menosprezar a actuação; essa entreajuda não se dá tanto como ajuda a alguém, mas como um ajudar-se a si próprio a experimentar o outro e a si próprio em comunidade.

Na sociedade civil as relações movimentam-se entre grupos de interesses em que cada grupo normalmente trata de proteger os bens/interesses da própria sociedade ou grupo. Como cada organização, cada partido, luta para a sua comunidade, a solidarização grupal impede, geralmente a solidariedade geral, porque lhe falta o interesse comunitário (cofunde-se a defesa do bem do grupo com o bem comum). Isso não implica que se recuse a homogeneidade entre os grupos.

Por isso uma sociedade solidária necessita de uma formação não só a nível de indivíduo e de sociedade, mas sobretudo a nível de pessoa e de comunidade!  Para uma educação para cidadãos adultos e consequentemente para a paz, não chegam os dados sociológicos nem as leis; para isso é necessária a vida transmitida pela filosofia, pela ciência e pela religião!

Cito de um autor desconhecido: “Não importa o tamanho do primeiro passo, mas sim em que direcção ele vai”. Para chegarmos à redescoberta da pessoa, da dignidade individual de cada um poderia ajudar um processo maiêutico de educação, como queria Sócrates como método filosófico para chegar ao saber.

António CD Justo

Teólogo e pedagogo

©Educação, in Pegadas do Tempo

 

  •      (1)  Em grande parte, encontramo-nos envolvidos num ensino e num discurso público enganadores! Fala-se de educação, querem-se mudanças, mas apenas de discurso: repudiam-se ovelhas e pastores, para os substituir por súbditos e tecnocratas (estes vestidos com a pele de ideias abstratas). Na sequência segue-se um ensino baseado em ilusões na peugada de convicções ideológicas ou de ideias gerais.
  •      (2)  Necessita-se de uma aprendizagem que dura toda a vida como resposta a um chamamento de fidelidade a si mesmo e à comunidade, tudo envolvido, a caminho numa pedagogia libertadora reflectida, num pensar e agir a vida a partir da pessoa, do povo (que não dos interesses corporativos), ou seja, a partir de Deus.

DOMINGO DIA DE DESCANSO – INSTITUÍDO A 3.07.321

O Domingo foi declarado por Constantino, Imperador Romano, a 3 de julho de 321, como dia feriado.

Com a declaração deste dia como dia feriado, o imperador não só respondeu a exigências cristãs, mas celebrou-se também a si mesmo porque ele mesmo tinha o cognome de “Sol invictus”. No tempo romano o primeiro dia da semana era invocado como o dia do deus sol (die solis).

Os governantes por vezes tentam influenciar a vida dos seus súbditos introduzindo dias feriados para se celebrarem a si mesmos ou os seus feitos!

O Domingo, dia da celebração da ressurreição de Jesus, também convinha aos cristãos como dia Santo. O princípio do descanso sabático dos judeus foi assim transferido para o Domingo.

Em tempos da flexibilização da vida laboral, as empresas estão muitas vezes interessadas em quererem aproveitar-se do Domingo como dia de trabalho. Excepções são naturais como em hospitais, etc., mas generalizar o Domingo como dia de trabalho seria mau para a saúde e sinal de desrespeito da própria cultura. O Domingo deve ser mantido como dia de descanso.

Também a ciência chegou à conclusão de que, para certos trabalhos, é melhor trabalhar uma hora a mais durante a semana, mas poupar o dia de descanso.

A investigadora Christine Syrek da Universidade Bonn-Rhein-Sieg, nas suas investigações, resume: “Precisamos do contraste nas nossas actividades profissionais. Se estou sempre a ser desafiado mentalmente, é bom para mim comprometer-me fisicamente no meu tempo livre e vice-versa…, precisamos da distância mental do trabalho” (1).

Há línguas que usam a palavra “Domingo” (Dia do Senhor) para designar o primeiro dia da semana.  Há outras línguas que usam a palavra “dia do Sol”, para designar o primeiro dia da semana; este é, entre outros, o caso na língua alemã com a palavra Sonntag.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

  • (1) Veja-se HNA 3.07.2021