LAVA-PÉS NA ÚLTIMA SEIA NA NOITE DE QUINTAFEIRA EM JERUSALÉM

Jesus ensina que o verdadeiro senhor se faz servo

Na noite em que se consuma o mistério da sua entrega, Jesus de Nazaré realiza um gesto inaudito: levanta-se da mesa, tira o manto, cinge-se com uma toalha e começa a lavar os pés aos discípulos. O verdadeiro Senhor torna-Se servo dos outros. Assistir e ajudar: eis o centro da renovação, que depende apenas da boa vontade de cada coração.

Pedro resiste, por humildade mal compreendida. Mas Jesus ensina: amar é abraçar, é inclinar-se sobre o outro, desde que o outro o permita. Com o exemplo, o Mestre resume a sua máxima: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.” Nesse gesto, Ele resume todo o caminho do humano e da humanidade.

N’Ele se unem o céu e a terra. A cruz, que se avizinha, não é um palco de derrota: é a árvore da vida, assim como a árvore do paraíso terreno foi a árvore do conhecimento. No humano, encontramos ao mesmo tempo o Cristo abandonado e o Cristo ressuscitado. E n’Ele está presente o Deus que não abandona, mesmo quando as circunstâncias parecem gritar o contrário.

À mesa, porém, acompanha-O também Judas,  mais interessado na realização de ideologias políticas do que na comunhão do amor. Judas torna-se símbolo daqueles que, em nome de uma pretensa verdade, procuram desmontar o que existe apenas para se instalarem nos andores da idolatria egocentrista.

Jesus veio superar os dualismos e os maniqueísmos que, ainda hoje, persistem nos seguidores de Judas: todos os que trabalham para outros senhores, movidos por um coração tóxico que nunca é construtivo. O lava-pés permanece, pois, como antídoto e memória: a grandeza está em servir, não em dominar.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A VIVER COM O FADO

O Companheiro inseparável de Sombra e Luz que o Destino nos deu

Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente não germina antes de a terra estar pronta. Um rio não rompe a rocha pela força brusca, mas pela persistência silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno não se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada estação carrega o seu tempo, e o que não amadureceu no outono permanece como folha seca, não como falha, mas como matéria que a nova estação transformará em adubo.

Há, porém, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado à sombra originária durante toda a existência, por muito sol exterior que tardiamente apareça. Até parece que cada um de nós paga tributo pelo agir dos artífices que nos formaram.  Isso não é culpa, não é desculpa, nem é dívida, é apenas a circunstância. Tentar compreender a diferença entre culpa e circunstância é já o primeiro passo de um caminho mais consciente.

Na vida, há padrões de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persistência que desconcerta. Numa autoanálise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?

Carl Jung dizia que aquilo que não é conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psicólogos acrescentam que enquanto não compreendermos o chamamento contido naquela situação, enquanto não lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-á, com a paciência de quem espera que um filho aprenda uma lição não pela punição, mas pela maturação. O chamamento não se impõe, apenas aguarda. Tem uma paciência que ultrapassa largamente a nossa.

É a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Adão, onde estás? Não um julgamento, mas um convite a situar-se, à relação, à presença, ao enraizamento. Um chamamento à inteireza que, como na natureza, se manifesta através da inter-relação de tudo com todos.

O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, não é um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O incómodo que se repete é muitas vezes o sinal da nossa própria surdez, da nossa pressa, do ainda não termos ouvido o chamamento, o que há muito nos chama. As situações que persistem meses ou anos são, com frequência, aquelas que contêm o material do nosso próprio amadurecimento. A pergunta produtiva não é “de quem é a culpa?”, mas sim: O que é que esta situação persistente me está a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda não escutei? Que crescimento está à espera?

Seria erro culpar-se ou culpar alguém pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situações interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em criança por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a não se sentir em casa no seu próprio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram. Esta fuga de si, disfarçada de combate ao exterior, é o que tantos escritos políticos e críticos escondem: o combate às próprias sombras projetadas lá fora, onde é mais fácil reconhecê-las do que acolhê-las dentro.

No fado português encontra-se algo desta tensão: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o não ter integrado. Mas a dificuldade do fado e de qualquer forma de lamentação que se fecha sobre si mesma é que não distingue entre uma dor repetida porque não integrada, uma estrutura externa que precisa de ser abandonada, ou uma ferida que precisa de cura antes de poder ser compreendida. As mágoas que se levam ao lavadouro público, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento.

A natureza oferece-nos o critério: quando estamos verdadeiramente a escutar o chamamento, há uma sensação de alinhamento, mesmo que dolorosa. Quando estamos apenas a repetir o mesmo padrão sem crescimento, há exaustão sem fruto. As flores que a árvore produz, se se mantiverem na sombra das negatividades, aguardam o tempo propício para dar fruto. A árvore não acelera o seu crescimento porque o agricultor tem pressa. Há uma altura para plantar, uma altura para lavrar, uma altura para deixar o solo em pousio.

Num desenvolvimento humano orientado para a paz e nem toda a repetição é chamamento, importa dizê-lo com clareza, a autorreflexão não é um exercício de autocastigo, mas de escuta. Na tradição cristã, este apelo vai além da relação dialética eu-tu, porque nos convida a entrar na lógica relacional do nós, da compaixão e da sintonia, onde já não há castigo nem autocastigo, mas a vivência de um mundo inteiro a sofrer em nós e do sofrimento da germinação da flor a emergir o fruto, a ressurreição.

Os problemas não são fracassos. São chamamentos a ver o que ainda temos para compreender em nós, para que os outros deixem de ser superfícies de projeção das nossas sombras.

Talvez a tenacidade exasperante dos nossos bloqueios seja apenas o inverno que insiste até que finalmente preparemos a terra para a primavera. Uma primavera que não podemos apressar, mas que também não podemos eternamente adiar.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social
©Pegadas do Tempo

A ESPERANÇA QUE LIBERTA E A FÉ QUE INCOMODA

Vivemos tempos grávidos de espera. Basta ligar os noticiários ou olhar para dentro de nós mesmos para percebermos que todos esperamos por algo. Uns esperam pela paz, outros, movidos por interesses ou desilusões, esperam pela guerra; há ainda aqueles que apenas aspiram à vitória, independentemente dos custos que ela exija e outros que esperam simplesmente pela oportunidade da vida.

Esta constatação revela algo incómodo: a esperança e a fé são forças poderosas, mas nem sempre são inocentes. Quem detém o poder sabe disso há séculos. Impérios e governantes aprenderam a instrumentalizar a esperança para acalmar os ânimos, a confiança para unir os povos e o significado para criar lealdades. Há, assim, uma esperança que adormece e uma esperança que desperta; uma fé que consola e enfraquece, e outra que assegura a dignidade e assume a responsabilidade.
A primeira beneficia os cínicos e a segunda torna-se perigosa para quem está no poder.

A dupla face da fé
Ao longo da história, a fé religiosa desempenhou papéis aparentemente contraditórios. Houve momentos em que foi a grande estabilizadora das ordens sociais existentes, na Europa medieval, no mundo islâmico e nas sociedades influenciadas pelo confucionismo. Nesses contextos, a fé ajudou a consolidar estruturas, oferecendo sentido, coesão e a criar grandes civilizações.

Mas houve também momentos em que a mesma fé desencadeou dinamismos revolucionários. A Reforma Protestante abalou impérios inteiros. No século XX, movimentos de libertação inspirados em convicções religiosas enfrentaram regimes opressores, do totalitarismo à escravatura e à injustiça estrutural.

O que pode explicar esta dualidade? A resposta reside numa dialética interna à própria fé; dado ela se dirigir a um padrão superior a qualquer poder concreto, o seu efeito prático depende da atitude de quem gere ou governa. Enquanto o poder se mostra compatível com esse padrão, de justiça, dignidade e verdade, a fé tende a ordenar e consolidar, mas quando o poder viola esse padrão de forma flagrante, a mesma fé pode transformar-se numa força crítica, silenciosa ou mesmo rebelde. A maneira como a sociedade está a ser dirigida leva a crer na necessidade de um acentuar da força crítica.
Assim, a fé não clama constantemente por mudança ou por revolução. A fé não se reduz a uma lufada de vento que ocasionalmente passa; a fé age como uma força contrária discreta: relativiza as pretensões absolutas do dinheiro, do Estado ou da ideologia, sem recorrer imediatamente à violência. O seu papel não é tanto derrubar, mas impedir que o poder se torne absoluto. Ela é um fogo santo que lembra o brasido a resplandecer uma fragrância de incenso a acalentar a vida.

O dilema do indivíduo
E é aqui que surge o grande dilema da vida individual. A mudança desejada, aquela que tornará o mundo mais justo, chega quase sempre tarde demais para quem mais precisa dela. E isto porque o indivíduo não vive no futuro idealizado, mas no presente, envolto nas estruturas de poder e das circunstâncias que o moldam e até , por vezes, o subordinam.

Entre a esperança e a realidade abre-se um espaço de cansaço, subordinação e, por vezes, resignação. Se a esperança se fixar unicamente no “grande acontecimento” futuro, corremos o risco de permanecer paralisados numa eterna espera.

Mas há uma alternativa: compreender a esperança como liberdade interior. Quando assim entendida, algo muda profundamente. O indivíduo continua envolvido nas estruturas do mundo, sujeito às suas pressões e circunstâncias, mas já não é totalmente controlado por elas. Mantém um espaço de integridade que o poder não consegue colonizar.

A história ensina-nos que as transformações profundas raramente surgem de revoluções permanentes. As transformações profundas emergem, sobretudo, de mudanças graduais na consciência, nas relações humanas e nos pressupostos culturais. Essas mudanças ocorrem de forma discreta, muitas vezes impulsionadas por pessoas que vivem nesse “meio-termo”, nem totalmente conformadas, nem em permanente insurgência. Aceitam a vida e o viver com naturalidade, mas sempre com a lanterna da intuição que orienta no lusco-fusco do acontecer.

A lentidão que protege
Há aqui uma assimetria fundamental que cria uma tensão a suportar-se: o poder age imediatamente; a esperança age lentamente. Essa lentidão é, ao mesmo tempo, uma fraqueza e uma força. É uma fraqueza porque não responde na mesma velocidade da opressão. Mas é uma força precisamente porque, ao não ser idêntica ao poder, não é totalmente controlável por ele.

A questão decisiva, então, não é se o mundo e as coias que desejamos chegará a tempo, porque, para muitos, ele nunca chegará a tempo. A questão verdadeira é outra: enquanto esse mundo não chega, conseguirá a pessoa humana preservar a sua dignidade no âmbito individual?

Essa é a tensão constante que atravessa a natureza humana e a história. Viver nessa tensão não é fácil. Exige uma fé que não se deixa reduzir a consolo barato, e uma esperança que não se refugia na pura espera. Exige a capacidade de estar no mundo sem se render ao que ele tem de desumano e de agir sem a ilusão de que a solução ou a salvação virá apenas de um grande acontecimento.

A fé e a esperança completam-se na caridade, entendida não como mera generosidade, mas como o compromisso de tratar cada ser humano como um fim em si mesmo, independentemente do ritmo das transformações históricas e das implicações do dia-a-dia, numa atitude soberana na imagem da do Cristo no deserto ao encarar as tentações a partir da distância dos 40 dias.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Social-pedagogo

© Pegadas do Tempo

QUEM SE METE COM O MUNDO ISLÂMICO APANHA

O grande erro estratégico do Ocidente e o nascimento de uma nova ordem multipolar

Por António da Cunha Duarte Justo

I. O Ego como Destino: A Herança Protestante

Há uma linha invisível que une Calvino a Trump. Não é uma conspiração, é uma lógica civilizacional que se foi construindo ao longo de cinco séculos.

Com o surgimento do protestantismo no século XVI, a emancipação do indivíduo em relação à comunidade transformou-se em programa político e espiritual. Foi Calvino quem deu o passo decisivo: ao declarar o trabalho uma “vocação divina” e a riqueza uma bênção de Deus, subverteu a antiga ética beneditina, que sacraliza o trabalho para dignificar todas as camadas sociais e criou uma nova ética onde a eficiência e a racionalidade são virtudes teológicas. A pobreza torna-se, implicitamente, sinal de reprovação divina.

Esta visão foi-se radicalizando à medida que atravessava o Canal da Mancha e o Atlântico. Na Inglaterra industrial, o desenraizamento das populações rurais para as cidades fabris fortaleceu o individualismo. Nos Estados Unidos, esse individualismo tornou-se identidade nacional, sistema económico e fé cívica simultaneamente. O resultado é uma teocracia laica, coesa em si, mas construída sobre o ego, não sobre a comunidade.

Donald Trump é a expressão máxima e talvez a mais honesta deste processo. Nele convergem, sem disfarce, as virtudes e os vícios do espírito anglo-saxónico: a audácia empreendedora, o desprezo pela nuance, a convicção de que o poder é sinónimo de razão.

II. O Islão como Arquitectura Civilizacional

O mundo islâmico construiu o seu edifício sobre fundamentos opostos. O Corão, a Sharia e os ahadith,  os ditos e feitos do Profeta, reunidos na Sunna,  constituem uma instância superior ao indivíduo e a qualquer sistema de governo humano. A comunidade (umma) precede o sujeito. A identidade pessoal não se separa da identidade religiosa.

Este modelo tem uma eficiência política notável. A mesquita não é apenas um espaço de oração: é o nó de uma rede social que atravessa gerações, fronteiras e Estados. As bases culturais do mundo árabe, espalhadas pelos cinco continentes, revelam-se frequentemente mais eficazes do que bases militares. Enquanto o Ocidente projecta poder por satélite e porta-aviões, o Islão projecta coesão por família, língua e fé.

Quando os Estados Unidos eliminaram uma figura religiosa de estatuto constitucional no Irão, não atacaram apenas um general ou um político. Atacaram a identidade de um povo. A coerência entre o religioso e o político é, no mundo islâmico, indissociável, o que não tem equivalente no Ocidente laico. Se algo comparável fosse feito ao Papa, a reacção europeia seria indignação diplomática. No Irão, é uma ferida na alma colectiva.

III. A Geopolítica do Erro: Ormuz e o Ponto de Viragem

O Estreito de Ormuz foi, nos tempos de Afonso de Albuquerque, a chave do comércio com a Índia. Os portugueses compreenderam, no século XVI, que quem controlasse Ormuz controlaria o mundo. Hoje, esse estreito é novamente um fulcro,  não apenas de petróleo, mas de uma mudança geopolítica profunda.

O ataque americano ao Irão, qualquer que seja a sua forma, inscreve-se numa longa série de intervenções ocidentais no mundo islâmico que terminaram, sem excepção, com uma retirada. Do Afeganistão ao Iraque, da Líbia à Síria, o padrão repete-se: vitória militar de curto prazo, caos estratégico de longo prazo, e um mundo geopolítico pior do que antes.

A razão é estrutural: a guerra americana é uma guerra de elites. A guerra islâmica é uma guerra de povo que não perdeu a sua alma. Não se derrota uma civilização com drones.

Entretanto, a Turquia, adversária do Irão, atacada pelos seus foguetes, recebe permissão para evacuar os seus petroleiros, enquanto os navios ocidentais aguardam no Golfo. O pragmatismo do mundo muçulmano, como sistema de poder, é uma lição que o Ocidente ainda não soube ler.

IV. A Europa à Encruzilhada

A Europa encontra-se hoje numa posição paradoxal: suficientemente próxima do conflito para ser afectada, suficientemente distante para poder escolher um caminho diferente.

Friedrich Merz aproveitou o erro americano de fazer a guerra sem consultar os aliados para afirmar uma autonomia estratégica alemã e, por extensão, europeia, que estava adormecida desde 1945. A Alemanha, com a sua consciência saxónico-germânica, quebrou discretamente a subordinação automática a Washington. A Espanha, cujo primeiro-ministro mantém laços mais próximos com os BRICS, foi dos primeiros a colocar o travão.

Mas a Europa enfrenta uma contradição interna que nenhuma aliança militar resolve: ao seguir sistematicamente o modelo anglo-americano nas últimas décadas, foi renegando a sua própria alma civilizacional, a herança grega da razão crítica, a herança romana do direito e da ordem, a herança cristã da comunidade, da soberania espiritual do indivíduo e da responsabilidade colectiva. Substituiu-a por um liberalismo de valores abstratos, sem raízes culturais profundas que procura transformar moral em leis desencarnadas.

Uma Europa que constrói a sua força apenas sobre o poder económico-militar, desprezando o povo e a sua alma, tem os dias contados. Quem despreza a dimensão espiritual de uma civilização – chame-lhe “Deus”, “cultura” ou “identidade” – acaba por perder a sua sustentabilidade histórica.

O preço que a Europa paga pela Ucrânia é desproporcional e revela a persistência de uma velha lógica nacionalista que não soube adaptar-se às novas coordenadas de um mundo multipolar ao pretender passar do seu velho colonialismo para o colonialismo mental.

V. A Nova Ordem e os Seus Actores

Os BRICS não são uma aliança ideológica. São a expressão de um mundo que recusou o fim da história proclamado pelo Ocidente nos anos 90. China, Índia, Rússia, Brasil, África do Sul,  e agora muitos outros, representam civilizações que mantiveram a coesão interna através das suas próprias doutrinas.

A China tem Confúcio: a família como célula de coesão social, o Estado como família alargada, a paciência estratégica como virtude suprema. O Islão tem a “umma”: a comunidade de crentes como horizonte de identidade. Ambos os sistemas oferecem o que o individualismo ocidental perdeu: uma razão para ser nós antes de ser “eu.

A nova ordem multipolar não será construída por nenhuma potência hegemónica. Será o resultado de um equilíbrio dinâmico entre civilizações que aprenderam a negociar a partir das suas identidades, não apesar delas. A geopolítica emergente exige conversações, compromissos e alianças de carácter complementar, não a imposição de um modelo único.

VI.Conclusão: O Que a História Ensina

Há uma lição recorrente na história que o poder tende a esquecer no momento em que mais precisa dela: a força que não tem raízes não tem futuro.

O mundo islâmico sobreviveu às Cruzadas, ao colonialismo, à Guerra Fria e às guerras do Golfo. Não porque fosse militarmente superior, frequentemente não era, mas porque a sua identidade era mais profunda do que qualquer exército inimigo conseguia alcançar. Os ventos das ideologias têm decomposto o ideário europeu no sentido de substituir a “alma” da cultura e da pessoa pelas suas máscaras reduzindo a pessoa e instituições ao nível da sua funcionalidade ao contrário do mundo árabe e do mundo chinês.

O Ocidente, para se renovar, não precisa de mais armamento. Precisa de regressar à pergunta que os gregos fizeram primeiro e que nenhuma civilização pode evitar: quem somos nós e para onde vamos?

Enquanto essa pergunta ficar sem resposta, quem se meter com o mundo islâmico continuará a apanhar.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

 

MORREU JÜRGEN HABERMAS: O filósofo que quis tornar o mundo um pouco melhor

 

O agnóstico que precisava da religião

Por António da Cunha Duarte Justo

 

Partiu um dos grandes pensadores do nosso tempo. Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, herdeiro da tradição iluminista de Immanuel Kant, dedicou a sua vida a uma causa tão simples de enunciar quanto difícil de concretizar: tornar o mundo um pouco melhor. «Considero o esforço de tornar o mundo um pouquinho melhor um motivo nada desprezível», afirmou numa das suas frases mais marcantes.

O pensador da democracia

Habermas foi, antes de mais, um teórico da democracia. Para ele, esta não se reduzia à tirania das maiorias, mas era antes uma busca permanente por melhores fundamentos. Com a sua obra magna Teoria da Ação Comunicativa (1981), fundou a chamada Segunda Escola de Frankfurt e construiu uma teoria da democracia assente num princípio aparentemente simples: os seres humanos, enquanto seres racionais, deveriam deixar-se guiar pela «coação sem coação do melhor argumento», isto é, pela força persuasiva da razão e não pela força do poder.

Este ideal do «discurso livre de domínio» pressupõe que o debate público seja um espaço de troca genuína de argumentos, onde vence quem melhor raciocina e não quem detém mais poder. Uma visão exigente e certamente não isenta de tensões com a realidade. O próprio Habermas admitia que as circunstâncias históricas e sociais podem condicionar a razão, tornando o ideal mais frágil em situações-limite.

Coragem intelectual e polémica

A perspicácia analítica de Habermas não o poupou à controvérsia. Em 1999, num dos momentos mais debatidos da sua carreira, defendeu a intervenção militar da NATO contra a Sérvia por razões humanitárias, mesmo sem mandato da ONU,  uma posição que muitos dos seus admiradores acharam difícil de conciliar com os seus princípios pacifistas e com o primado do direito internacional que sempre defendeu. O episódio revelou, no entanto, a seriedade com que encarava as suas próprias convicções: a defesa dos direitos humanos, para ele, não era matéria de conveniência.

Já nos últimos anos da sua vida, voltou a alertar para os perigos da nova comunicação digital. As redes sociais, representam, segundo ele, «uma nova mudança estrutural da esfera pública», uma transformação tão profunda como a que a imprensa operou nos séculos anteriores, mas desta vez potencialmente corrosiva: ao fragmentar o discurso, ao alimentar câmaras de eco e ao privilegiar a emoção sobre o argumento, colocam em risco os alicerces do debate democrático que tanto primava.

O agnóstico que precisava da religião

Um dos aspectos mais surpreendentes e menos conhecidos do pensamento tardio de Habermas é a sua relação com a religião,  tanto mais significativa porque ele próprio se descreveu, num célebre debate com o então cardeal Joseph Ratzinger (futuro Bento XVI), como «religiosamente desmusical». A metáfora é eloquente: como alguém sem ouvido para a música pode reconhecer o seu valor e até precisar dela.

Habermas, agnóstico convicto formado na tradição racionalista, chegou a uma conclusão que desafiou muitos dos seus seguidores: a razão secular, por si só, pode não ser suficiente para sustentar os laços morais que uma sociedade democrática exige. Ao longo dos seus últimos anos, foi procurando cada vez mais «impulsos morais para além da pura razão», reconhecendo nas tradições religiosas um reservatório de sentido, de solidariedade e de motivação ética que as filosofias puramente laicas não conseguirão substituir.

É por isso que, no outono da sua vida, endereçou às igrejas uma recomendação invulgar vinda de um ateu: que não cedessem à tentação de se tornarem demasiado mundanas, de diluírem a sua linguagem própria para serem mais aceitáveis no espaço público secular. Pelo contrário, Habermas defendia que as comunidades religiosas prestam um serviço inestimável à democracia precisamente quando continuam a falar a partir dos seus impulsos metafísicos, quando mantêm viva a linguagem da dignidade absoluta, da esperança, da responsabilidade perante o outro e da resistência ao que é meramente útil ou eficiente.

Esta posição, por vezes chamada de «pós-secular», não implica qualquer abandono do Estado laico nem da separação entre a Igreja e a política. Significa antes o reconhecimento de que numa sociedade plural, o pensamento religioso é um interlocutor legítimo e necessário no debate público, desde que traduza os seus argumentos de forma acessível a todos os cidadãos. As igrejas que renunciam à sua profundidade espiritual para se tornarem mais fáceis de aceitar perdem precisamente aquilo que as torna indispensáveis.

Uma herança de exigência

Habermas deixa-nos uma herança incómoda e necessária: a exigência de que nos expliquemos uns aos outros, de que fundamentemos as nossas escolhas, de que não nos rendamos ao populismo do mais forte ou ao niilismo do «tanto faz». A sua vida foi ela própria uma demonstração de que é possível e desejável ao combinar o rigor intelectual com o compromisso ético, a análise fria com a paixão pela justiça.

Num tempo em que o espaço público está cada vez mais colonizado pelo ruído, pela desinformação e pela lógica do espectáculo, a sua voz faz-nos uma grande falta. O melhor tributo que lhe podemos prestar é levar a sério o que ele nunca deixou de nos pedir: que argumentemos bem, que escutemos melhor, e que não desistamos de tentar.

Pegadas do Tempo