IDEOLOGIA DE GÉNERO

Entre a Realidade biológica e a Colonização ideológica

Há palavras que descrevem a realidade e há palavras que pretendem criá-la. O problema começa quando já não sabemos distinguir umas das outras.

A discussão em torno da chamada “ideologia de género” tornou-se uma das grandes frentes da guerra cultural contemporânea. O que poderia constituir uma reflexão séria sobre sexo, identidade, cultura, liberdade e dignidade humana converte-se, em grande parte, numa batalha de trincheiras: de um lado, progressistas que suspeitam da tradição e do outro, conservadores que suspeitam da mudança. Uns invocam a emancipação e outros, a natureza. Entre ambos, corre-se o risco de perder precisamente aquilo que deveria estar no centro da discussão e que é a pessoa humana na sua realidade integral.

Segundo Nicolás Márquez e outros críticos desta corrente, aquilo que designam por “ideologia de género” deve ser compreendido no  contexto de uma deslocação da estratégia revolucionária da clássica luta marxista entre proletariado e capitalismo para a luta cultural. A fábrica deixou de ser a sua única arena e a luta passou da fábrica para a universidade. Apropriaram-se da linguagem, da sexualidade, da família, da escola, da religião e da própria compreensão do homem e da mulher tornando-os seus campos de disputa.

Concorde-se ou não com esta interpretação, seria ingénuo negar que a política descobriu há muito o enorme poder mobilizador da identidade.

A luta económica não desapareceu, mas foi quase substituída pela luta pelo domínio das categorias com que interpretamos a realidade. Quem define as palavras condiciona, em boa medida, a discussão. Quem estabelece antecipadamente aquilo que pode ou não ser dito ganha terreno antes mesmo de começar o debate. Daí a importância decisiva adquirida pela linguagem.

Desconstroem-se conceitos, redefinem-se palavras e multiplicam-se categorias identitárias. O sexo, tradicionalmente relacionado com a realidade corporal, passa a conviver com uma conceção de género ligada à identidade, à perceção individual e aos papéis culturalmente construídos. Isto poderia  possibilitar  uma discussão fecunda, mas o problema surge quando construção cultural e realidade biológica são apresentadas como inimigas.

Por que estamos a ser obrigados a escolher entre aquilo que a natureza dá e aquilo que a cultura desenvolve? O ser humano não é apenas biologia, mas também não existe fora dela.

Somos natureza e cultura, corpo e consciência, herança e projeto, indivíduo e comunidade. A cultura pode interpretar a natureza, discipliná-la, desenvolvê-la e até contrariar algumas das suas tendências, mas não pode, simplesmente decretar a sua inexistência.

A realidade sexual humana apresenta uma organização biológica predominantemente masculina ou feminina, embora existam situações do desenvolvimento sexual que não cabem de maneira simples nos padrões mais comuns. Reconhecer exceções não obriga a negar a regra, mas reconhecer a regra também não concede o direito de humilhar a exceção.

É aqui que o debate deveria começar, mas infelizmente, é muitas vezes aqui que termina.

A sociedade contemporânea parece sentir uma estranha necessidade de transformar diferenças em antagonismos, como, homem contra mulher, heterossexual contra homossexual, tradição contra progresso, secularização contra secularização, natureza contra cultura, direita contra esquerda.

A questão primária é que uma civilização não se constrói fazendo guerra permanente às suas próprias polaridades e aos biótopos culturais.

Masculino e feminino não precisam de ser campos militares. Podem ser entendidos numa matriz gineantropológica de complementaridade: não como superioridade de um sexo sobre o outro, mas como reconhecimento de diferenças que se encontram, se corrigem e se enriquecem reciprocamente.

Defender a complementaridade não significa amarrar a mulher ao lar, como frequentemente caricaturam certos discursos progressistas. A emancipação feminina não deveria  exigir a masculinização da mulher, assim como a valorização do masculino não exige a subordinação do feminino. Igualdade de dignidade não é sinónimo de indiferenciação.

A tradição cristã desenvolveu, particularmente na teologia do corpo, uma antropologia da relação entre homem e mulher fundada na reciprocidade e na complementaridade que poderia ser resumida numa matriz integral de  antropoginelogia. Pode-se concordar ou discordar dela, mas reduzi-la simplesmente a instrumento de opressão patriarcal é intelectualmente pobre. Também seria pobre utilizar o cristianismo como arma contra pessoas que vivem de maneira diferente da moral cristã.

A dignidade humana precede a guerra cultural.

A civilização europeia nasceu de um encontro complexo entre a filosofia grega, o direito e a administração romanos, a tradição judaico-cristã e desenvolvimentos posteriores. Analisar criticamente essa herança pode ser legítimo em certos aspetos; querer compreendê-la apenas como catálogo de opressões, como fazem adversários concorrentes, significa amputar a própria memória cultural bem como  a essência do próprio ser e maneira de estar no mundo multicultural.

Uma árvore pode corrigir o rumo dos seus ramos sem arrancar as próprias raízes.

Neste contexto, João Paulo II advertiu repetidamente para formas de “colonização ideológica”.  Esta metáfora e imagem merece reflexão especial para além da adesão religiosa, porque as sociedades são  condicionadas não apenas pela força militar ou económica, mas também pela imposição de categorias através das quais passam a interpretar-se a si próprias.

Mas a advertência deve valer para todos, porque há colonização ideológica progressista quando uma teoria se apresenta como indiscutível ou solução geral apenas porque se considera progressista; mas também há fechamento ideológico conservador quando uma tradição pretende dispensar-se de argumentar apenas porque é tradição.

Nenhum dos campos possui o monopólio da verdade e é precisamente aqui que a questão deixa de ser simplesmente “género” e passa a ser poder.

Quem ganha quando a sociedade se fragmenta em grupos permanentemente mobilizados uns contra os outros? Quem beneficia quando cada diferença se transforma numa identidade política e cada identidade política necessita de um adversário para permanecer mobilizada?

Historicamente, a esquerda aprendeu a fazer do conflito um motor da sua ação política e partidária, fê-lo até à actualidade com proveito próprio. Mas seria simplista concluir que só ela vive do conflito, pois também a direita mobiliza medos, ressentimentos e divisões quando lhe convêm. A competição partidária alimenta-se, muitas vezes, daquilo que afirma querer resolver. É assim que se legitima e se perpetua a ideia de que o bem comum não pode ser inclusivo e de que o povo tem de ser dividido para justificar a luta entre partidos. No fim, essa estratégia reduz cidadãos a massas de manobra.

Uma pessoa que já não procura compreender, mas apenas repetir as fórmulas do seu grupo, pode julgar-se emancipada ou sentir-se acolhida, mas  torna-se intelectualmente dependente.

Hoje, ter uma opinião parece bastar, como se não houvesse objetividade a ter em conta; argumentar tornou-se secundário. Escuta-se para responder e não para compreender. Primeiro, escolhemos a trincheira; depois, reunimos os argumentos que nos convêm. Assim não nasce uma sociedade livre, o que nasce é militância.

A defesa das pessoas LGBTQIAPN+ contra discriminação não obriga à aceitação acrítica de todas as teorias sobre género. Do mesmo modo, a defesa da família ou de uma antropologia fundada na diferença sexual não legitima qualquer desrespeito pelas pessoas que não correspondem ao modelo maioritário.

O importante é que a  lei deve proteger a pessoa; a ciência deve investigar a realidade; a filosofia deve poder interrogá-la; a religião deve poder propor a sua visão oferecendo sentido e a política deve impedir que uma destas esferas se transforme em polícia das restantes.

O sexo biológico e o género enquanto construção cultural não precisam de ser declarados inimigos. O ser humano é simultaneamente animal e cultural. A cultura não tem de destruir o corpo para afirmar a liberdade, nem a biologia precisa de negar a cultura para continuar a ser realidade.

O modo de ser não precisa de identificar-se completamente com todas as formas de existir.

O grande erro do nosso tempo parece constar em imaginar que liberdade significa ausência de limites e que diferença significa necessariamente opressão.

Precisamos de reaprender a complementaridade entre natureza e cultura, entre homem e mulher, entre indivíduo e comunidade, entre liberdade e responsabilidade, entre espírito e matéria e entre regra e exceção.

Quando a horizontalidade e a verticalidade são apresentadas como inimigas, a sociedade perde profundidade e sentido. Por sua vez, quando tudo se transforma em luta, acabamos por já não saber viver sem inimigos.

Antes de perguntar de que lado está uma ideia, deveríamos voltar a perguntar se ela é verdadeira.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

A LEGALIDADE NÃO DITA A MORALIDADE

Leão XIV admoesta uma Ética sem Conteúdo e Política sem Compromisso

Em Lurdes, o Papa Leão XIV argumentou: “É impossível considerar normal o acto de pôr fim a uma vida. O que é legal não é necessariamente moral”. Esta afirmação recorda-nos que a moral não perdeu o seu sentido. Enquanto o legal se refere ao que está em conformidade com o direito positivo, a moral avalia o que é justo ou injusto, digno ou indigno, certo ou errado. Resta ainda  à ética o papel de reflexão crítica sobre a moral, embora o termo seja frequentemente usado como sinónimo desta ou como sinónimo de código de conduta.

Como bem sublinhou Leão XIV, algo pode ser legal e permanecer imoral. A legalidade não implica legitimidade moral. Leis contra a vida, racistas, escravistas ou autoritárias serão legais em certos contextos  e nem por isso deixam de ser profundamente imorais.

Sempre que se ouve dizer que a “moral perdeu conteúdo”, comete-se o erro de saltar de uma constatação empírica, de que a política se orienta por interesses e desrespeita a moral, para, a partir daí se chegar a uma conclusão conceitual errada: a de que a palavra moral ou ética perdeu o sentido. Trata-se de uma conclusão apressada. O facto de um valor ser violado repetidamente não o esvazia, apenas mostra que ele não foi cumprido. Se a ética tivesse realmente perdido o conteúdo, não teríamos sequer um critério para classificar a política como imoral. A própria denúncia da imoralidade pressupõe que a ética mantém o seu valor normativo.

O que certamente tem perdido conteúdo é o uso público da palavra “ética”, que se tornou etiqueta de comissões, discurso de posse, marketing institucional e hipocrisia. Aí sim, assiste-se a um esvaziamento retórico. No entanto, isso é diferente de dizer que a ética, enquanto reflexão crítica, perdeu validade. Não é a ética que perdeu conteúdo, mas sim a política que, frequentemente, perdeu o compromisso com ela. O que testemunhamos é o uso vazio do termo, não o fim do critério ético.

Muitos, ao apontarem esta falta de ética ou de moral, expressam um desencanto legítimo com a política, mas retiram daí uma conclusão filosófica indevida. A legalidade não é moralidade e a imoralidade frequente não anula a ética, apenas revela como ela continua a ser desprezada e desrespeitada. Como princípio fundamental, os governantes deveriam governar com respeito pela lei e pela moral do povo que dirigem.

Para a moral católica, a consciência individual é a autoridade soberana nas decisões morais, sobrepondo-se inclusive também à lei da Igreja. Embora possa errar, a responsabilidade moral de cada pessoa é estritamente ditada por aquilo que a sua própria consciência determina.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

UM PAPA SEM “PAPAS NA LÍNGUA”

 

Leão XIV chegou a Paris (25.09.2026) e não se perdeu nos corredores da diplomacia. No seu primeiro grande discurso em França, perante as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, o Papa colocou sobre a mesa alguns dos problemas mais prementes da humanidade. Falou com a cortesia própria de um chefe de Estado, mas também com a liberdade de quem não quer reduzir a palavra cristã a ornamento protocolar.

Na “Cidade Luz”, carregada de história e simbolismo, Leão XIV recordou as raízes cristãs da França e a contribuição deste país para a cultura europeia e para a afirmação dos direitos humanos. No lema republicano, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, reconheceu valores que ultrapassam fronteiras políticas e nacionais, verdadeiras “exigências éticas universais”.

É precisamente aqui que começa a interpelar o nosso tempo. Perante um progresso científico e tecnológico que parece não conhecer limites, torna-se necessário “recolocar a pessoa humana no centro de toda a reflexão”. A técnica pode servir o homem, mas também pode condicioná-lo, instrumentalizá-lo e, no limite, subjugá-lo.

Daí a advertência particularmente atual sobre a Inteligência Artificial. Leão XIV recorre a uma imagem feliz e inquietante: o “paraíso das máquinas”. Quanto mais sofisticadas forem as máquinas, mais necessário será perguntar quem as governa, para que finalidade são utilizadas e segundo que critérios. “Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas’”, adverte o Papa, “é urgente formar os espíritos para um discernimento ético”. A técnica não contém em si mesma a medida do bem.

A questão é de enorme alcance. Não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. É preciso perguntar o que deve fazer, o que lhe devemos permitir fazer e aquilo que, mesmo sendo tecnicamente possível, não deveria ser humanamente admissível. Uma civilização pode tornar-se tecnologicamente avançadíssima e, simultaneamente, regredir na consideração da dignidade da pessoa.

Essa dignidade conduz Leão XIV a outro dos grandes temas do discurso: a vida. Numa sociedade em que até o nascimento e a morte correm o risco de entrar na lógica da produção, da seleção e do mercado, o Papa recorda a necessidade de “acolher a vida incondicionalmente”. Da manipulação genética à gestação de substituição, do comércio de órgãos à possibilidade de programar a própria morte, a questão de fundo permanece a mesma: será a pessoa um fim em si mesma ou acabará transformada num produto disponível?

Também no domínio da relação entre religião e Estado, Leão XIV não fugiu a uma questão particularmente sensível em França. “A verdadeira laicidade não exclui a dimensão religiosa”. Esta afirmação não significa confundir Igreja e Estado nem reclamar privilégios para uma religião. Significa reconhecer que a fé e as convicções religiosas fazem parte da vida dos cidadãos e podem contribuir para o debate sobre o bem comum.

Neste contexto, ganha especial significado uma afirmação de Emmanuel Macron dirigida aos bispos franceses: “uma Igreja que pretenda desinteressar-se das questões temporais não cumpriria plenamente a sua vocação; e que um Presidente da República que pretenda desinteressar-se da Igreja e dos católicos falharia ao seu dever”. É uma formulação que traduz uma  traduz uma evidência democrática: separar instituições não significa condená-las à indiferença mútua.

E chegamos à grande ferida aberta do nosso tempo: a guerra.

Ao referir-se à grande ferida aberta do nosso tempo, Leão XIV foi explícito ao dizer “A paz não é um equilíbrio de forças”. Não é o medo recíproco, nem a quantidade de armas acumuladas, que pode oferecer à humanidade uma segurança verdadeiramente duradoura. Pelo contrário, “A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça”.

Num mundo que volta a familiarizar-se perigosamente com a linguagem das armas, das ameaças e do rearmamento, o Papa lança um apelo que deveria ser ouvido muito para além de Paris:

“Exorto-vos, portanto, a nunca vos resignardes à perspectiva de uma guerra, considerando-a ‘inevitável’, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pacíficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos”.

Esta é talvez uma das passagens politicamente mais fortes do discurso. Quando a guerra começa a ser apresentada como inevitável, já se deu um passo perigoso para a sua aceitação. A linguagem prepara mentalidades e as mentalidades acabam por preparar campos de batalha. Contra a resignação ao fatalismo bélico, Leão XIV contrapõe diálogo, diplomacia, justiça e respeito pelos povos.

Por isso, a sua mensagem dirigida à França adquire dimensão europeia e universal: “Possa a França, fiel aos seus valores, abrir caminho para uma paz desarmada e desarmante”.

“Desarmada e desarmante” são  duas palavras que encerram quase um programa político. Desarmada, porque a paz não pode depender indefinidamente da ameaça de destruição; desarmante, porque uma paz autêntica deve ser capaz de diminuir o medo, a hostilidade e a necessidade de transformar o outro em inimigo.

Há um fio condutor que atravessa todo o discurso e se resume em recolocar o ser humano no centro. Antes da máquina, a pessoa. Antes do lucro, a dignidade. Antes da força das armas, o diálogo. Antes da eliminação de quem sofre, o acolhimento. Antes da uniformização das consciências, a liberdade e  antes dos interesses particulares dos Estados, a fraternidade entre os povos.

Num mundo fascinado pelas possibilidades quase ilimitadas da tecnologia e, simultaneamente, assustado com a possibilidade de novas guerras, Leão XIV chama a atenção para um paradoxo: podemos construir um sofisticadíssimo “paraíso das máquinas” e, ao mesmo tempo, preparar um inferno para os homens.

Leão XIV, no dizer popular português, mostra-se como Papa “sem papas na língua” que faz a pergunta à França, à Europa e a cada um de nós: de que serve avançarmos tanto, se pelo caminho perdemos a nossa humanidade?

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

Ps: Em Lurdes o Papa Leão XIV argumentou: “É impossível considerar normal o acto de pôr fim a uma vida. O que é legal não é necessariamente moral”.

Numa visita ao Instituto Católico de Paris, o Papa felicitou os 20 mil batizados de adultos num só ano, em França.

Em 25 de setembro de 2026, 1 milhão de pessoas se reúnem na Place de l’Etoile, ao longo dos 2 km dos Champs Elysées e da Place de la Concorde, para uma Missa papal que surpreendeu o próprio Papa.

O papa em Paris desmascarou os impostores que vivem das guerras e levam o povo atrás delas!

A AMBIGUIDADE ENTRE SOCIEDADE ABERTA E IDENTIDADE

 

Sobre a irresponsabilidade de políticas que não se pautam pela reciprocidade cultural entre Estados

Numa Europa contraditória, há palavras que, de tanto serem repetidas, começam a dispensar a realidade. “Sociedade aberta” é uma delas. “Diversidade”, “identidade”, “integração” e “tolerância” entram no mesmo rol. Foram transformadas em vocabulário obrigatório do discurso público, deixaram de servir para interrogar a realidade e passar simplesmente a tranquilizar quem governa sobre a bondade das suas intenções que se satisfazem ao constatar que o povo e os media se deixam embrulhar no enredo delas. A política migratória é praticamente da competência de Bruxelas.

O problema é real e lança perguntas mais que incómodas, pois, como pode uma sociedade permanecer aberta sem perder a consciência daquilo que é? Como pode acolher o outro sem considerar suspeito o desejo dos que já nela vivem de preservarem uma continuidade histórica, cultural e espiritual? E até onde pode ir a tolerância quando em política a reciprocidade deixa de fazer parte da equação?

Este é o calcanhar de Aquiles europeu e um dos grandes dilemas do nosso tempo.

Atendendo às realidades criadas por uma política europeia diletante a nível de imigração uma resposta fácil consistiria em escolher um dos extremos. De um lado, a nostalgia de uma Europa culturalmente homogénea que o curso da História já transformou e do outro, a fantasia de uma sociedade pós-histórica, composta por indivíduos intercambiáveis, sem raízes, sem memória colectiva e sem necessidade de pertença. Esta seria própria de uma sociedade robótica e nenhuma delas corresponde ao ser humano real.

O homem não vive apenas de direitos. Vive também de memória e não habita somente num território administrativo porque vive numa língua, em símbolos, costumes, narrativas, lugares e recordações transmitidas entre gerações. Uma sociedade que despreze essa dimensão vivencial da existência pode continuar juridicamente organizada, mas começará a sentir-se culturalmente órfã. É aqui que a Europa enfrenta a sua contradição.

O que não pode ser negociado

Uma democracia digna desse nome tem de saber aquilo que não está disposta a negociar, ou seja, Estado de direito, igualdade perante a lei, dignidade humana, liberdade de expressão, liberdade de consciência, igualdade entre homem e mulher e liberdade religiosa, incluindo a liberdade de mudar ou abandonar uma religião.

Estes princípios não podem ser relativizados em nome da diversidade cultural nem podem ser sacrificados em nome da defesa de uma identidade nacional.

A dificuldade começa quando a Europa exige de si própria uma tolerância que parece não se atrever a exigir aos outros.

O problema torna-se particularmente visível na relação com sociedades de maioria islâmica (Recordo a altura em que era o porta-voz dos estrangeiros em Kassel e prisoneiros islâmicos da prisão de Kassel exigiam um cozinheiro muçulmano para que o seu alimento não se tornasse impuro!).

Não se trata de declarar o Islão incompatível com a Europa. Tal generalização seria intelectualmente preguiçosa e politicamente perigosa porque existem muçulmanos secularizados, liberais, conservadores, tradicionalistas, reformistas e inúmeras formas culturais de viver a mesma religião.

Seria também ingenuidade fingir que não existem correntes político-religiosas islâmicas  com base   religiosa constitucional, para as quais religião, direito, sociedade e poder político formam uma unidade extremamente diferente daquela que a Europa construiu, dolorosamente, através da separação progressiva entre autoridade religiosa e autoridade civil.

A verdadeira pergunta não é, portanto, se o muçulmano pode viver na Europa, porque evidentemente que pode.

A pergunta mais exigente consiste em saber que princípios devem reger a casa comum quando diferentes concepções de sociedade nela passam a coexistir?

A resposta deveria ser inequívoca: os princípios constitucionais democráticos, porém o busílis da questão vem da concorrência entre a constituição secular e a constitucionalidade do islão e do Corão que como palavra ditada por Deus não consente propriamente teologia reduzindo-se a uma  jurisprudência.

E os sinos de Constantinopla?

É neste ponto que a palavra reciprocidade deixa de ser uma abstração diplomática e se transforma numa questão de memória histórica. (O silêncio dos políticos europeus perante as coordenadas islâmicas e até quando o presidente turco, Erdogan, transformou a Agia Sofia em mesquita, e esta ação berra mais alto do que os sinos da velha catedral nos seus tempos gloriosos mas foi apagada pelo silêncio oportunista).

A Europa considera, justamente, intolerável que um cidadão seja discriminado por ser muçulmano. Constrói mesquitas, protege a liberdade de culto, combate a discriminação religiosa e reconhece às comunidades islâmicas o direito de participarem plenamente na sociedade. Mas uma civilização segura dos seus princípios deveria ser igualmente capaz de perguntar o que acontece aos cristãos que vivem nos países de proveniência migratória islâmica?

A Turquia oferece um exemplo particularmente simbólico. A catual República turca nasceu num território onde, durante séculos, viveram importantes comunidades cristãs, gregos ortodoxos, arménios, siríacos e outras comunidades que participaram profundamente na história da Anatólia e de Constantinopla. No início do século XX, os cristãos constituíam ainda uma parcela muito significativa da população do território (25%) que viria a formar a Turquia moderna. Hoje representam apenas uma fracção diminuta da população (0,25).

Esta transformação não aconteceu num único momento nem pode ser reduzida a uma única causa. Guerras, massacres e perseguições, deslocações populacionais, (a troca de populações entre a Grécia e a Turquia) e políticas discriminatórias ao longo de diferentes períodos contribuíram para alterar profundamente a composição religiosa do país.

A própria história administrativa turca com o registo da filiação religiosa nos documentos e registos de identidade, prática para discriminação das minorias, ilustra como religião e cidadania ao não serem esferas separadas provocam hegemonias. A história documenta igualmente que a população muçulmana, ao alcançar uma proporção significativa na sociedade, tende a gerar movimentos de autoafirmação e, em alguns casos, de reivindicação independentista.

E então surge uma pergunta que Bruxelas raramente formula com a mesma intensidade com que proclama a diversidade dentro das suas próprias fronteiras:

se a liberdade religiosa é universal, por que razão a reciprocidade na sua defesa não faz parte da política activa europeia?

Por que deveria a defesa dos direitos dos cristãos na Turquia, no Médio Oriente ou noutras sociedades ser considerada uma preocupação identitária menor, enquanto a defesa dos direitos das minorias religiosas na Europa é apresentada como uma obrigação moral?

Os direitos humanos ou são universais ou reduzem-se a uma preferência geográfica.

Reciprocidade, porém, não significa: “se eles não permitem, nós também não permitimos”. Essa seria a lógica infantil da retaliação e significaria abandonar precisamente os valores que pretendemos defender. A Europa deve oferecer liberdade porque acredita na liberdade, mas deve também exigir liberdade aos seus parceiros porque afirma que essa liberdade pertence a todos.

Uma mesquita livre em Berlim não deve implicar uma igreja proibida, condicionada ou socialmente marginalizada noutro lugar. A dignidade humana não pode mudar de definição quando atravessa uma fronteira.

O estranho complexo europeu perante o cristianismo

Há ainda uma questão mais profunda e talvez mais incómoda. A Europa contemporânea parece sentir-se muito mais confortável a proteger o cristianismo enquanto património artístico do que a reconhecê-lo como uma das matrizes vivas da sua civilização.

Conservam-se catedrais, restauram-se mosteiros, financiam-se monumentos e promovem-se caminhos de peregrinação enquanto património cultural. Mas, quando se passa da pedra para a memória, da arquitectura para a identidade, instala-se frequentemente um estranho pudor.

Uma elite política atual de cunho capitalista e socialista parece preferir ter pais anónimos, como se reconhecer a influência do cristianismo na formação europeia significasse automaticamente diminuir quem não é cristão.

A História não é uma profissão de fé, mas implica reconhecer que Atenas, Roma, Jerusalém e o cristianismo participaram decisivamente na formação da Europa.  Uma sociedade pode ser secular sem sofrer de uma amnésia provocada por ideologias.

Cidadãos sentem essa amnésia quando observam instituições extremamente cuidadosas na proteção das identidades minoritárias, mas reticentes perante qualquer afirmação positiva da tradição cultural maioritária.

Tem-se a sensação de que todas as identidades merecem reconhecimento excepto a nossa. (Ou será porque a espiritualidade cristã se identifica mais com o povo e o carente e legitima a soberania moral ao indivíduo?) Politicamente as percepções também produzem realidade.

Integração é um contrato não um serviço de hotelaria

Um outro equívoco que domina a política europeia e até mesmo legislações vindas da ONU  e que urge ser abandonado é imaginar a integração como obrigação exclusiva da sociedade que recebe.

Uma sociedade democrática deve proporcionar ao recém-chegado aprendizagem da língua, educação, acesso ao mercado de trabalho, protecção jurídica e possibilidade real de ascensão social, tal como proporciona ao cidadão nativo. Deve protegê-lo contra a humilhação e contra a discriminação. Porém, o imigrado também tem de assumir deveres.

Integração é hospedagem e quem chega também assume responsabilidades e por isso implica aprender a língua, conhecer as instituições, respeitar a ordem constitucional e aceitar que a lei democrática está acima das prescrições comunitárias ou religiosas das regiões donde provêm.

Implica igualmente aceitar a liberdade do outro, inclusive daquele que abandona a comunidade, muda de religião, critica uma crença ou escolhe uma forma de vida que essa comunidade desaprova.

A prova mais difícil da tolerância não consiste em defender a liberdade de quem pensa como nós. Consiste em defender a liberdade daquele cuja escolha nos desagrada.

Quem vigia os guardiões da democracia?

A União Europeia está preocupada com a manipulação do espaço público e por isso criou o Escudo Europeu da Democracia e outras estruturas destinadas a aumentar a resiliência democrática como resposta a crescentes ameaças. Estados estrangeiros, redes coordenadas e novas tecnologias possuem hoje instrumentos de influência que nenhuma democracia responsável pode simplesmente ignorar.

O problema é que todo o mecanismo criado para proteger a democracia contém uma tentação que leva a confundir a protecção da democracia com a protecção das narrativas de quem temporariamente administra as suas instituições.

É uma fronteira perigosamente estreita, até porque facilmente se pode demonizar o vizinho por meros interesses próprios. Combater uma operação estrangeira de manipulação é uma obrigação do Estado democrático, mas classificar sistematicamente como “desinformação” aquilo que contradiz anuências institucionais seria outra coisa.

A democracia necessita de factos, mas é também da sua natureza necessitar também de conflito, dissidência, irreverência e do direito de dizer às instituições que elas podem estar erradas. Caso contrário, acabaremos perante o paradoxo de proteger a sociedade aberta tornando-a progressivamente mais fechada.

Também aqui a reciprocidade e a transparência deveriam prevalecer. Financiamentos estrangeiros de organizações políticas, culturais ou religiosas, sejam mesquitas, associações, ou outras estruturas, devem poder ser escrutinados quando exista o risco de funcionarem como instrumentos de influência de governos externos, como é especialmente notável na Alemanha e no Reino Unido.

Nota-se grande incúria no que toda a bilateralidade contratual de direitos religioso-culturais entre os Estados europeus e os estados de matriz muçulmana. Essa incúria causa desequilíbrio sistémicos injustos entre estados e povos favorecendo a posição de quem forma guetos e criando problemas sociais com o povo originário. Não por causa da religião que representam, mas por causa do poder inerente que transportam, especialmente pelo facto de a sua definição cívica ser determinado pela Suma (Islão).

Bruxelas não pode governar do Olimpo

O maior erro de Bruxelas é certamente pensar determinar e condicionar os povos através da concessão ou negação de verbas e de imaginar que estas batalhas serão decididas nos grandes documentos estratégicos europeus. Não serão porque a coesão não nasce de uma directiva nem de meras medidas economicistas.

As batalhas serão decididas numa escola de periferia; num bairro onde uma mulher regressa sozinha a casa à noite; numa família que procura habitação; num jovem que não encontra trabalho; numa sala de aula onde crianças de cinco origens diferentes descobrem, ou não descobrem, que pertencem à mesma sociedade.

A coesão nasce da experiência quotidiana de uma ordem que funciona.

Uma sociedade aberta é relativamente fácil de defender num bairro seguro e próspero (ou numa zona alta e exposta ao sol onde habitam as famílias bem como na Alemanha). É muito mais difícil explicá-la a quem sente que a escola dos filhos piorou, que a habitação se tornou inacessível, que o espaço público se degradou ou que ninguém lhe perguntou se estava preparado para transformações sociais extraordinariamente rápidas.

É aqui que uma parte das elites europeias comete um erro de linguagem e outro de percepção.

Bruxelas aparece demasiadas vezes como um Olimpo tecnocrático, distante, convencido da racionalidade das suas decisões e surpreendido quando os habitantes da planície não agradecem aos deuses.

O busílis é que as populações não vivem em documentos estratégicos nem em lugares privilegiados, vivem nas ruas.

Entre o medo e a ingenuidade

A Europa encontra-se presa entre dois perigos.  O perigo do medo de transformar cada estrangeiro num suspeito, cada muçulmano numa ameaça e cada mudança numa decadência e o perigo da “ingenuidade” que consiste em imaginar que todas as culturas possuem a mesma relação com liberdade individual, religião, autoridade, mulher, família e Estado e que mencionar diferenças constitui, por si só, intolerância.

Uma democracia adulta deveria ser capaz de rejeitar simultaneamente ambos os erros e poder dizer ao imigrado: “És bem-vindo e os teus direitos são os meus e precisamente porque os teus direitos são os meus, os teus deveres também o são.”

Os responsáveis políticos activos na União Europeia não se preocupam com  reciprocidade de respeito por costumes religiosos e culturais e menos ainda do  antagonismo cuidado pelo islão  e por isso os governantes ocidentais mais empenhados no secularismo como substituição da própria religião, dão a impressão ao cidadão nativo de desinteresse pelo destino da própria cultura e daquilo que lhe possibilitou identidade própria. Neste sentido deveria ser objecto de política activa negociar a integração como reciprocidades entre estados eculturas.

Assim como o Estado protege uma mesquita ou uma sinagoga contra o vandalismo deveria ao mesmo tempo, exigir a Ancara liberdade plena para uma igreja cristã.

O Estado pode defender diversidade sem converter a sociedade numa soma de tribos.

Urge uma Europa que saiba quem é

O problema fundamental da Europa é conseguir saber quem é. Só uma sociedade que sabe quem é consegue verdadeiramente abrir a porta sem recear desaparecer.

A identidade insegura transforma o estrangeiro em inimigo e a sociedade que renuncia à própria identidade acaba por interpretar qualquer afirmação de continuidade cultural como uma ameaça.  Daí a necessidade de uma Europa consciente da sua história, constitucionalmente firme, culturalmente confiante e humanamente aberta. A abertura cultural europeia deve pressupor uma abertura humana e cultural do imigrante. Antes de tudo o governante terá que saber discernir entre o que é, o sentido do ser da sua cultura e saber  o que o islão é o que quer que a outra cultura seja. Uma Europa descomplexada não pede desculpa por ter raízes cristãs-gregas e romanas, nem transforma essas raízes em armas.

A política terá de defender o cristão na Turquia não porque o cristão valha mais, mas porque a liberdade que só defendemos para alguns deixaria de ser liberdade universal. O político terá, finalmente, de compreender que reciprocidade não é o contrário de tolerância.

Reciprocidade é aquilo que impede a tolerância de se transformar em submissão de uns, privilégio de outros ou indiferença de todos.

A disputa entre sociedade aberta e identidade não será resolvida nos tratados de filosofia política. Será resolvida quando o cidadão olhar para a sua rua, para a escola dos filhos, para os tribunais, para as fronteiras e para aqueles que chegaram depois dele e puder dizer: a lei é a mesma para todos, a liberdade é a mesma para todos e esta sociedade continua a ser também a minha casa sem que haja atitude hegemónica de um lado ou do outro.

A Europa não pode continuar a viver da ambivalência e auto desleixo para que abertura e identidade deixem de ser adversárias. Se o não conseguir, os extremos encarregar-se-ão de convencer cada tribo de que só poderá sobreviver contra as outras. Doutro modo a tribalização da sociedade torna-se num fatalidade histórica.

É preciso que o que tantos anunciam como profecia seja impedido de se cumprir.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo