Os novos Argonautas, em naus de vidro e aço,
Não buscam o Velocino de Ouro, mas o seu próprio regaço.
No Palácio de Cristal, erguido em pantomimas,
Tecem a mortalha com fios de velhas rimas.
A Europa, outrora farol, hoje farolejo,
Dança a valsa do poder num cadafalso alheio.
“Paz!” gritam, brandindo espadas contra o Leste,
Enquanto nos salões, o business é celeste.
A arrogância, seu estandarte, há muito desbotado,
Contra um “mal” inventado, um fantasma desenhado
Nos mapas do desejo de um novo colonialismo:
Da mente ao capital, o seu único catecismo.
Oh, Rússia! Gigante adormecido na neve,
Que a Europa, com desdém, já não tece nem bebe.
Fecham-se as portas à Dourada Migração,
À troca de almas, à vasta confluência.
Preferem a linguagem gutural do obus,
Ao diálogo de Tolstoi e de Dostoievski.
É o velho reflexo, o vício imperial,
Que vê no outro um campo, nunca um igual.
Bruxelas, ó Torre de Babel financeira,
Onde o povo é estatística, matéria bruta e passageira.
Os teus arquitetos, doutores em quimeras,
Cozeram esta sopa nas panelas das esferas.
A Alemanha, Fénix de guerras passadas,
Sonha, no fogo alheio, ver as asas reabilitadas.
E os sócios periféricos, na ribalta da margem,
Assinem, a tinta verde, o seu próprio naufrágio.
É a guerra das elites, este circo medonho,
Onde o palhaço trágico é o povo, a quem eles sonham.
Enquanto Kiev arde, e o Donbas se entrincheira,
Os senhores do medo lucram na carreira.
O povo português, o grego, o italiano,
Enganado com pão, com o circo do longínquo afã.
“Pela Liberdade!” berram os cómicos do sistema,
Enquanto a fome cresce, e a vida se torna um poema
De versos sem rima, de estrofes ao deus-dará,
Enquanto o complexo militar-industrial canta ópera.
E eu, voz dissonante neste coro de sereias,
Sou o persona non grata, o que partilha as areias
Da praia proibida do contraditório.
Noventa por cento dos arautos, num delírio,
Repetem, num mantra, a única verdade:
A da guerra santa, da eterna hostilidade.
Ironia das ironias, este uníssono berrar,
Chamam-lhe “pluralismo”, eu chamo-lhe afogar.
Não à espiral suicida! Grito eu para os ventos.
Contra os doutrinadores, os novos instrumentos
De um império caduco que, em agonia,
Prefere a pira funerária à clara luz do dia.
Não sou “pró-russo”, sou pró-Humanidade,
Contra a vassalagem, a hipócrita falsidade.
O meu crime é lembrar que a Pátria é o povo,
E não este cadáver, podre e novo,
Que, vestido de glória, num sono letárgico,
Mata o futuro no altar do seu tráfico.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Abril 2025