Retórica política como armadura de Interesses e do Ego
O discurso público contemporâneo padece de uma inflação de virtudes abstratas. Nunca se falou tanto em tolerância, inclusão e paz, como hoje, contudo, raramente essas palavras pareceram tão vazias de substância e tão desprovidas de eficácia prática; trata-se de uma tolerância com pés de barro. A tolerância autêntica exige um doloroso exercício de autoconhecimento e o reconhecimento das próprias limitações. Sem essa base íntima, o clamor pela tolerância transforma-se numa “tolerância abstrata” e até em punho de agressão contra o adversário; pelo que é observável, à primeira vista, tornou-se num mero instrumento de afirmação do ego, uma manobra de diversão que desvia a bola da realidade para canto e serve sistemas discretamente exploradores. Assistir à perda do discernimento no debate político e social provoca uma dor profunda em quem ainda procura encarar o mundo com responsabilidade.
Anatomia da tolerância discursiva
A tolerância abstrata caracteriza-se pela recusa em pisar a lama da realidade concreta. É mais fácil defender princípios universais e absolutos num parlamento ou numa rede social do que exercer a paciência e a compreensão com o indivíduo que está ao nosso lado. No debate público, o alarido moral substitui o serviço ao próximo.
Muitas posições políticas atuais não passam de encenações em que o sujeito procura sentir-se moralmente superior ao seu opositor. Cria-se um terreno abstrato de afirmações sem virtude, onde o objetivo não é resolver o sofrimento humano, mas sim sinalizar a própria pureza ideológica. Esta postura adia a própria humanidade, pois recusa o único caminho capaz de gerar uma tolerância real: o discernimento focado na dignidade e na complexidade de cada pessoa e de cada situação concreta.
Exemplos históricos da Retórica universal como Couraça de Interesses
A instrumentalização de conceitos nobres para mascarar agendas de poder não é um fenómeno recente. A história demonstra como a tolerância e a civilidade abstratas foram frequentemente usadas como manobras políticas:
A “Missão Civilizadora” do Colonialismo do Século XIX foi usadaob o pretexto abstrato de levar a civilização, a ciência e uma suposta tolerância religiosa aos povos considerados “atrasados”, as potências europeias mascararam um sistema brutal de exploração económica e destruição cultural. O discurso oficial falava de progresso e humanismo, enquanto a realidade no terreno era de pilhagem.
A Guerra Fria e a Retórica dos Direitos: Durante décadas, tanto o bloco ocidental como o bloco soviético utilizaram bandeiras abstratas, de um lado a “Liberdade e Democracia” e do outro, a “Justiça Social e Libertação dos Povos” e isto apenas para justificar intervenções militares, golpes de Estado e o apoio a ditaduras sanguinárias pelo mundo fora. O sofrimento das populações locais era desviado para canto em nome do triunfo de uma narrativa geopolítica.
Exemplos actuais de uso do pensamento binário polarizante
Na atualidade, a tolerância abstrata e a ausência de discernimento atingiram o seu zénite na formatação binária das grandes crises internacionais. A observação do discurso público gera uma angústia profunda, pois a complexidade humana foi banida em troca de posições categóricas e cerradas, onde cada lado assume ter a razão absoluta. Não conhece o meio-termo, vive de rótulos e não escuta. Reduz a realidade a dois lados e o cérebro que é de de caracter binário percebe-os como opostos.
O Conflito no Médio Oriente (Israel / Palestina): O debate público dividiu-se em claques desportivas. Uns fecham os olhos ao sofrimento histórico e à negação de direitos ao povo palestiniano; outros recusam reconhecer o direito à segurança e o trauma histórico do povo israelita. O debate abstrato ignora que, no terreno, existem mães, filhos e famílias reais a sofrer de ambos os lados. Quem tenta introduzir nuances ou pedir discernimento é imediatamente triturado pela máquina do cancelamento.
A Guerra na Ucrânia: A invasão russa e o envolvimento da Ucrânia e dos seus aliados ocidentais são frequentemente discutidos como um jogo de tabuleiro geopolítico abstrato sem ter em conta o que está verdadeiramente em jogo na Ucrânia. O alarido mediático foca-se no envio de armas e na vitória total com o argumento de liberdade e democracia, enquanto esconde o custo humano devastador de uma guerra de desgaste ou quando o mostra o faz no sentido de formar falanges cegas incapazes de analisar as causas e interesses económico-políticos determinantes em conflito. A análise crítica das causas profundas e das possibilidades de uma paz sustentável é asfixiada por posições cerradas que proíbem pôr-se em questão narrativas interesseiras.
A Questão da Imigração: Este é talvez o terreno onde a falta de responsabilidade e o jogo do ego são mais evidentes. Por um lado, adota-se um discurso de acolhimento abstrato que serve para limpar consciências, mas que ignora deliberadamente a falta de estruturas dignas de integração, habitação e trabalho para quem chega e os conflitos em questões culturais provocadas pelo gueto. Por outro lado, erguem-se barreiras de rejeição categórica xenófoba. Ambos os extremos fogem à responsabilidade: usam os imigrantes como massa de manobra política ou eleitoralista, em vez de encararem o fenómeno com o discernimento logístico e o respeito humano que a situação exige.
Conclusão
Uma humanidade que se move apenas por enxurradas de opiniões e slogans está condenada a adiar-se a si mesma. O ruído mediático e político contemporâneo não visa a compreensão para a mudança; visa a manutenção de sistemas discretamente exploradores e o cumprimento de intencionalidades políticas ocultas.
Para romper este ciclo vicioso, é urgente resgatar a premissa: a tolerância tem de começar em nós, no autoconhecimento das nossas próprias sombras e falhas. Só quando aceitamos que não detemos a totalidade da razão podemos olhar para o outro, seja ele o imigrante, o adversário político ou a vítima de uma guerra distante, não como um argumento para o nosso ego, mas como um semelhante que exige respeito, escuta e responsabilidade real. O discernimento é o único antídoto contra a dor da polarização. A tolerância discursiva raramente cede terreno porque apenas vagueia onde o Ego pode pisar sem se ferir.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Sr. António Cunha Duarte Justo . Como são verdades as suas palavras que escreve Obrigada .