DO CONTROLO ESTABILIZADOR AO DESCONTROLO DEMOCRÁTICO

O Dilema da Informação na Era da Emoção e consequências para o aparelho do Estado

Vivemos um período de transição especial. Durante décadas, os meios de comunicação tradicionais, imprensa e televisão, desempenharam um papel de filtragem da informação, conduzindo a opinião pública por corredores seguros alinhados com os poderes estabelecidos. Com a consolidação da União Europeia, esta influência estendeu-se ao meio governativo e académico, moldando currículos e privilegiando certas correntes de pensamento. No século XXI, as agências noticiosas globais uniformizaram a narrativa, tornando-a repetitiva em todo o espaço europeu, enquanto Bruxelas transformava o conhecimento num bem comercializável e dirigível.

A democratização trazida pelas novas plataformas digitais e redes sociais quebrou esse monopólio dos mediadores clássicos. No entanto, esta libertação teve como consequência a informação tornar-se profundamente emocional porque mais adaptada à percepção da generalidade. As elites políticas e os seus media afiliados perceberam rapidamente o potencial deste filão. Recorrendo a técnicas de psicologia aplicada e de neurobiologia, aprenderam a formatar emocionalmente os cidadãos, pois a emoção, quando ativada, desliga a razão. Assim nasceu a realidade pós-factual ou pós verdade com o relativismo vigente que lhe dá forma.  O objetivo é reduzir a sociedade a uma massa de clientes, cuja capacidade intelectual se mede pela efemeridade do “like” e das estatísticas sociológicas. Este novo método de arrazoamento substitui o conhecimento pelo sentimento e a verdade pelo impacto. A curadoria do jornalista e do editor foi substituída pelos algoritmos, que alimentam a indústria do sentimento em vez de servirem como mediadores objectivos como seria de esperar. Vivemos, por isso, num sótão com janelas para o mundo, mas sem alicerces na vida real.

Esta fase intermédia gera insegurança tanto nos cidadãos como nas estruturas estatais. A revolução da Inteligência Artificial acelera a passagem do modelo analógico para novas formas de relação social e política, com implicações profundas no aparelho do Estado.

Em primeiro lugar, exige-se uma revisão urgente dos próprios instrumentos da democracia representativa. As mesas de voto presenciais, especialmente para os portugueses na diáspora, tornaram-se peças arcaicas de um modelo analógico. A obrigatoriedade de deslocação física a locais específicos, em dias marcados, contrasta com a fluidez do mundo digital e desincentiva a participação de milhões de cidadãos. A substituição por um sistema de voto eletrónico seguro, editável e acessível deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade premente. Esta modernização não só garantiria o efetivo exercício da cidadania além-fronteiras, como aliviaria a pressão logística sobre o aparelho consular e eleitoral.

Em segundo lugar, este novo ecossistema tecnológico implicará novas formas de organização partidária e de consulta à população. O governo poderá realizar referendos consultivos ainda muito mais intensivos do que o atual modelo suíço, diluindo o poder central em associações regionais ou locais. Neste cenário, o próprio parlamento poderia ser reduzido ou assumir novas funções e os juízes constitucionais, em vez de nomeações partidárias, poderão vir a ser eleitos por consulta direta ao povo.

A grande questão que se coloca é: conseguiremos dominar a Inteligência Artificial e o voto digital antes que sejam monopolizados pelos mesmos senhores da política e da informação artificial? O futuro da nossa democracia e a credibilidade do nosso Estado dependem de recuperarmos o espaço para a razão e para a participação inclusiva, num mundo cada vez mais dominado pelo afeto digital e pela rigidez de estruturas ultrapassadas.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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