Do que se trata realmente na Ucrânia e em Gaza
O equilíbrio global de poder está a sofrer uma transformação profunda e irreversível. A ascensão de novas potências económicas como a China, a Índia, a Rússia e uma Europa em rearmamento estratégico, aliada ao aumento das tensões no sistema financeiro internacional, desgastou fundamentalmente a dominância bipolar que definiu a era pós-Guerra Fria. Os Estados Unidos e a extinta União Soviética já não exercem a mesma influência central sobre os seus antigos Estados satélites. Esta mudança tectónica na dinâmica geopolítica criou um vazio e nesse vazio emerge uma nova competição multipolar por influência.
É neste contexto mais amplo que devemos compreender a guerra na Ucrânia. Mais do que um conflito regional, ela é um teatro de operações numa luta maior: uma batalha para moldar a futura ordem mundial e definir as suas esferas de influência. Para a União Europeia, o conflito é enquadrado como uma defesa de um sistema internacional baseado em regras e de valores democráticos. No entanto, numa perspetiva realista, é igualmente um concurso para ganhar poder político num cenário multipolar emergente. As narrativas de justiça e democracia obscurecem frequentemente uma questão mais fundamental: onde serão traçados os novos limites do poder depois de os canhões calarem? A guerra é, na sua essência, uma disputa de posicionamento dentro de uma hierarquia global ainda por definir.
Esta realidade geopolítica subjacente torna as posições da Rússia e da União Europeia fundamentalmente irreconciliáveis. O Ocidente, liderado pela UE e pelos EUA, exige a retirada completa e incondicional das forças russas de todos os territórios ocupados, incluindo a Crimeia. A Rússia, por seu turno, deixou inequivocamente claro que não tenciona abdicar dessas conquistas territoriais. No centro deste litígio intratável está o controlo do Mar Negro e do seu acesso estratégico, um nó decisivo no tabuleiro geopolítico global. Este é o cerne não declarado do conflito, mas raramente é o foco do discurso público. Em vez disso, somos alimentados com narrativas de interesses e de segurança, muitas vezes movidas pela ambição descarada de garantir um lugar de destaque na ordem que se avizinha.
É um jogo perigoso e cínico. Os verdadeiros interesses da Europa não residem numa guerra prolongada e de desgaste, justificada unicamente por um posicionamento estratégico, mas sim numa estabilidade de longo prazo alcançada através da negociação. Os líderes europeus deveriam ter previsto que a geografia é um destino; a proximidade entre a Rússia e a Europa sugere que, mais cedo ou mais tarde, os seus interesses mútuos, particularmente nos domínios da energia e do comércio, acabarão por impor uma coexistência cooperativa. O caminho atual de conflito indefinido só serve para enganar o público e perpetuar um impasse que enfraquece todas as partes envolvidas. Uma paz política duradoura não se forja no campo de batalha, mas sim à mesa das negociações. O público merece um reconhecimento honesto desta realidade, em vez de ser alimentado com uma dieta constante de narrativas unilaterais.
A situação no Médio Oriente, particularmente no conflito que envolve Israel, é uma extensão da mesma luta multipolar pelo poder. Trata-se de uma teia complexa de reivindicações e contraposições. Por um lado, envolve a afirmação da influência islâmica no Norte de África e em toda a região. Por outro, abrange a determinação do Ocidente em manter uma posição estratégica consolidada, ao mesmo tempo que disputa influência com a Rússia. Além disso, o conflito está profundamente emaranhado com as divisões internas do mundo islâmico, nomeadamente a rivalidade entre as potências sunita e xiita pela dominação regional. Cada uma destas facções, as potências ocidentais, a Rússia e os hegemónicos regionais, disputam influência, utilizando conflitos locais como campos de batalha por procuração.
O que é apresentado ao mundo como uma série de guerras localizadas, muitas vezes sectárias, é, na realidade, a manifestação de um concurso global mais vasto. A dimensão geopolítica é o motor principal, mas é deliberadamente obscurecida por detrás de uma cortina de fumo de fricções religiosas e étnicas. Os povos, tanto nas zonas de conflito como nas nações que alimentam estas guerras, são arrastados por ondas de sentimentos manipulados e narrativas cuidadosamente construídas. São peões num jogo oculto e hipócrita de poder, onde a verdadeira aposta é a própria configuração da futura ordem mundial. Devemos olhar para além dos títulos dos jornais e reconhecer estes conflitos pelo que eles realmente são: não tragédias isoladas, mas batalhas interligadas numa guerra global por influência a nível das grandes potências.
Os povos e os países menos potentes são atirados para o ringue de uma luta que não é sua, servindo de marionetas num xadrez de gigantes. As elites, numa coreografia política quase perfeita, abraçam-se transversalmente em torno de interesses satélites que, por uma estranha coincidência, caminham sempre contra a paz e contra o povo. E o restante discurso público? Esse é o grande circo montado para nos entreter, palhaçadas retóricas que nos desviam o olhar do essencial, ao mesmo tempo que, numa pirueta irónica, vão servindo, em bandeja, os interesses de segunda ordem que ninguém tem a coragem de chamar pelo nome, até porque há imensa gente a beneficiar da situação.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
Artigo interessante, mas a que faltam alguns dados de valor hermenêutico altamente pertinente para uma interpretação mais profunda da actualidade como acesso a terras raras, fontes de energia como petróleo e gás, história dos países, qualidade da democracia ocidental e da ordem neo- liberal… Não me deixam escrever como desejaria neste objecto. Fico-me por aqui antes que me censurem e me falseiem o pensamento. Haveria ainda que falar da guerra por procuração, de golpes de estado e do papel dos serviços secretos…
Luciano Caetano da Rosa , uma hermenêutica virada para a interpretação e compreensão do texto e assunto naturalmente tem de ter em conta não só o que o texto diz mas o seu enquadramento pressuposto. É uma questão de interpretação e o texto que escrevi pressupõe precisamente o que referiu! O resto já seria uma questão de exegese. Se entendeu o texto certamente que notou que ele alerta e trata presisamente de guerras por procuração. De resto no teor do seu texto dá a impressão de sofrer de um sentimento de perseguição, o que não simplifica qualquer diálogo. O âmbito do artigo é demasiado curto para se poder tratar nele o que precisaria de compêndios para o fazer. Entretanto se tiver presente outros artigos que escrevi, certamente encontrará neles resposta às suas questões. Em 2014 escrevi um que equacionou os motivos da guerra na Ucrânia primeiramente socialmente de insurreição provocada, depois guerra civil e por fim a intervenção russa em 2022. Tudo isso foi equacionado em termos de guerra geopolítica em que a Ucrânia servia de palco e sobretudo de cavalo troiano principalmente para os interesses da NATO.
Caro António
Grato pelo comentário-resposta. Espero nos próximos tempos ter acesso à leitura dos seus artigos escritos há mais de uma década. Quanto a um putativo complexo de perseguição, de minha parte, devo dizer que não é complexo. A perseguição foi real em vários momentos da minha vida, a começar logo em criança com menos de dez anos, quando a malta do meu bairro e eu incluído, na minha terra (Beja), fomos presos durante três dias de manhã à noite na Esquadra da PSP por suspeita de termos praticado um delito. Entrávamos na Esquadra de manhã cedo sem sabermos que mal tínhamos cometido e saíamos para casa já noite cerrada. Uma feliz coincidência que provava a nossa inocência ajudou-nos a ser libertados ao terceiro dia Antes, porém, ficávamos dias inteiros sem comer nem beber, sujeitos a interrogatórios no Governo Civil por uma figura de má memória do regime fascista, regime que hoje em dia alguns engraçadinhos sem graceta nenhuma tentam branquear com adjectivos como regine autoritário e outras ingenuidades, ignorância, má-fé ou pseudo–ingenuidade. Mais tarde, aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, por usar em dia de greve um boné e uma barbicha (que a PSP classificou de boné e barbicha à Lenine), a mesma polícia montou-me, a mim e a outros colegas, uma perseguição automobilística e levou- nos presos para várias Esquadras. Fiquei preso na esquadra de manhã até à tardinha respondendo ao que o Comissário tencionava espiolhar. À janela, de pé, um PIDE limpava as unhas, carregadas de luto, com um corta-unhas, ouvindo a conversa, mas fazendo-se distraído, só uma vez interrompendo com um comentário putativamente filosófico ao exclamar solenemente: ‘Como este mundo é pequeno!’. Mais tarde veio o exílio na Suíça onde, apesar da protecção do meu estatuto garantido pela Confederação Helvética, era visitado diariamente por um detective privado que passava os dias dentro do seu carro estacionado em frente fo meu apartamento, de onde com binóculos apontados tentava lobrigar alguma coisa em minha casa. Bem, o dossier da PIDE (umas 150 páginas) na Torre do Tombo que consultei no início do século XXI foi a últina confirmação das maquinaçòes contra mim. Não estou armado em vítima, só desejo pulverizar essa do complexo de perseguição. Já em democracia, os “boys” de um certo partido do ” arco da governação”, presentes em Instituto à pala do cartão partidário, também tentaram causar-me danos, entre outros motivos certamente por eu ter mais habilitações do que eles. Está a ver, António, que eu sou muito resiliente, como agora se diz a cada esquina, e não sofro desse problema tratado pela Psicopatologia e Psiquiatria. Logo que puder, volto à questão do A.O., da variação linguística que mencionei (aquelas variações que o António considerou fazerem parte duma… taxonomia?, olhe, nada de mais errado ou não deve saber bem o que é uma taxonomia, que existe desde pelo menos Lineu). Cordialmente seu,
Luciano Caetano da Rosa PhD
Caro Luciano Caetano
Li com atenção o seu testemunho. Agradeço a partilha e não tenho dúvidas de que a perseguição foi real, até porque os seus relatos são demasiado concretos para serem fruto de imaginação. A resiliência que demonstrou ao longo da vida é evidente e merece todo o respeito. Também sempre respeitei o quer escrevia e o seu partido até porque o acho ter mais seriedade do que o que observei no PS.
Quanto a experiências políticas no terreno, creio que diferem consoante se vive no Norte ou no Sul. No Sul, a exploração era muito desumana, enquanto no Norte havia maior proximidade entre caseiros e patrões, não se notando tanto a injustiça. Na minha freguesia de Várzea, no Norte, havia gente declaradamente apoiante de Humberto Delgado, cuja propaganda via também pelas estradas.
Já agora, conto também um caso que se passou comigo e uns colegas de escola. Andávamos a jogar à bola no adro da igreja, que confinava com a escola, quando, pelos vistos, a bola incomodou um vizinho (um senhor do Casal), que acabou por esbofetear um colega. O pai do colega participou o caso à GNR de Arouca e o agredido, eu e recordo, mais dois colegas fomos chamados a testemunhar. Fomos e voltámos tão contentes que, no regresso a casa, ainda fomos apanhar cerejas dalgum vizinho para comer. Depois, o senhor agressor foi chamado à GNR para responder e só o deixaram partir do posto já de noite, certamente como castigo, pois tinha de caminhar cinco quilómetros até casa em Várzea.
É lamentável que o regime o tenha feito sofrer tanto, tal como a tantos outros ligados à política. O que me custou ver no discurso público português foi constatar que à doutrinação do Estado Novo se seguiu a doutrinação do novo regime saído de Abril, também ela numa lógica de desqualificação, como se fosse detentor da verdade absoluta, perdendo a ocasião de unir o povo na procura de uma consciência crítica e capaz, e dividindo-o em vez disso. Naturalmente, um Estado deve ser partidariamente plural, e cada partido deve ter a consciência de que o seu regime deve contemplar a diversidade de opiniões e atitudes. Eu, no que escrevo, procuro integrar em vez de dividir.
Quanto à taxonomia, tinha consciência da sua origem lineana; a minha referência foi apenas uma tentativa de organizar mentalmente as variações linguísticas, não uma correção. Se soou a pedantismo, peço desculpa. Quanto à discussão sobre o tema do A.O. não tenho grande interesse nele pois foi um assunto demasiado político em que não houve a discussão pública suficiente e que teria sido necessária. Tenho o meu tempo muito ocupado e esse é para mim um tema secundário que há muitos anos enfrentei também na escola.
Cordialmente,
António da Cunha Duarte Justo