CÍCLO DE POESIAS QUE TINHAM SIDO ALINHAVADAS QUANDO  SUBSTITUI O Pe RAMIRO EM KAISERSLAUTEN

ANDAR COM A VIDA

Não vás à frente da vida,
na pressa de chegar primeiro;
nem fiques atrás,
como quem perdeu o próprio rasto.

Vai ao lado dela, ombro a ombro,
no ritmo do vento e do rio.

A vida não é coroa nem cinza,
é companheira de estrada
que só revela o sentido
quando contigo caminha.

Vale a pena a travessia
se o viajante e o caminho
aprendem a mesma canção.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

DE TRONCO AO VENTO

A verdade é vento que passa
por todos os rostos do mundo,
às vezes lâmina de inverno,
às vezes brisa de verão.
Não importa se ela grita ou canta,
importa é teres raiz no chão.

Que a árvore não tombe
ao primeiro sopro da dor,
nem se deixe dobrar
ao canto mole da mentira.

Comunicar é abrir janelas,
esperar é deixar o fruto amadurecer.
Mas não tropeces na espera,
transforma a paciência em chão,
mas nunca em prisão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

ENTRE AS GOTAS DO MILAGRE
SEM NOTAR O ORVALHO

A bênção divina é chuva
caindo em gotas sobre a vida.
Muitos gastam os dias
a negar Deus entre as gotas,
e perdem o orvalho no intervalo.

Mas mais que a gota e o silêncio,
importa admirar o milagre:
a anémona abrindo-se ao sol,
o pulso do ser mais pequeno,
o rosto humano que espera.

Somos guardiões do jardim,
abençoar é a missão,
regar, cuidar, agradecer,
do lodo à estrela,
da flor ao irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A SINGELEZA

Sabedoria sem holofotes.
Basta-lhe a candeia de barro,
o fio de azeite,
a chama pequena do que é verdadeiro.

Bálsamo sobre a ideia ferida,
a humildade cura o pensamento.
desata os nós do ego.
Deixa a porta aberta
e o outro entra sem medo.

Não é fraqueza, mas água mansa
que esculpe a pedra, com o tempo.
Não é silêncio vazio, mas raiz

que sustenta a árvore
quando o vento das opiniões
quer desabar o mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

UMA FRESTA NO DIA-A-DIA

Uma fresta de verdade,
a claridade rasga a sombra.
Escusa-se o incêndio no horizonte,
bastam a réstia, o gesto, a palavra,
e o escuro recua.

Humildade no leito,
a relação flui como o rio.
Vida livre de peixes
que nadam
sem precisar de vencer.

Assim, o curso dos dias,
é luz sem cegueira,
bálsamo sem gravidade,
água que fecunda.
Do sol à estrela,
da lua ao chão,
do rio ao coração.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

EM CONTEMPLAÇÃO

De dia, olho a natureza,
agradeço ao sol
que em cada coisa me acena.
Na cor da flor, no voo do pássaro,
no mistério da pedra,
na variedade inteira do criado.

De noite, o céu estrelado.
Pequenos olhos de fogo a piscar,
abertos sobre o meu silêncio.

É a lua quem me embala o sentimento.
No seu luar me vejo,
entre a terra e o firmamento,
a divagar.

Sou poeira e abrigo,
caminho e luar.
Na órbita da lua
aprendo a não ser centro,
a ser companhia
da noite e do mar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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