O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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REFLEXÃO SOBRE INFORMAÇÃO-GUERRA E HIPOCRISIA

A guerra é suja e suja quem se envolve nela seja directamete seja a nível de discurso! É com profunda tristeza que verifico como os média oficiais na Europa estão mais virados para a formatação da opinião pública do que para a criação de espíritos livres e críticos. A informação é confecionada de maneira a que o público desenvolva uma mente preconceituosa, incapaz de ver a realidade para além dos rótulos pré-estabelecidos, fixando-a apenas em categorias emocionais como se os povos não fossem capazes de mais.

A Estratégia da “Trégua Limitada”

Observemos o momento atual: fala-se agora em conversações para uma “trégua limitada” de paz, em vez de se procurar um verdadeiro acordo de paz duradouro. Quando Putin recusa, a narrativa dominante é simples afirmar que “o mau do Putin não quer”. Mas será esta a leitura correta? Não. Ele não quer porque percebe que uma trégua limitada, neste contexto, apenas serviria para dar à UE e ao Reino Unido tempo e espaço para se rearmarem e se prepararem para uma guerra mais efetiva no período pós trégua.

Bruxelas e Londres mantêm o mesmo espírito de autojustificação moral: a crença inabalável de que são os “bons e honestos” e o outro lado é invariavelmente o agressor. Esta tática e postura impedem qualquer progresso real e tem sido fundamentada sistematicamente numa narrativa pós-fática.

O Interesse Camuflado da UE na Ucrânia

A verdade, que raramente é contada, é que a União Europeia sempre teve interesse em apossar-se da Ucrânia, seja economicamente, seja geopoliticamente. E tem feito tudo para que não se chegue a acordos sérios que possam estabilizar a região sem a sua hegemonia. O mais lamentável de tudo é que, devido a uma estratégia contínua de informação pós-fática, onde os factos são moldados para servir narrativas, o povo europeu foi de tal maneira emocionalizado que em geral perdeu a capacidade de discernimento.

Hoje, o cidadão comum pensa, de forma simplista, que o mal está do lado da Rússia e o bem do lado da Europa. No entanto, se formos ver as coisas com isenção, a Europa tem vivido melhor do que outros povos não apenas pelo seu trabalho e engenho, mas também e em grande medida, devido à sua hipocrisia nas relações internacionais.

A Hipocrisia e a Miopia coletiva

Há uma máxima que se aplica bem a esta realidade que assenta na lógica de certas ideologias dominantes, mesmo a mentira, se servir os propósitos do poder, passa a ser tratada como verdade (islão). A Europa, que tantas vezes critica o outro, adota esta prática de forma sistemática nas suas relações externas.

Sei que, ao expor esta visão, serei apelidado de ingénuo ou de “putinista” por aqueles que estão formatados numa única versão dos factos. Quanto a mim estou consciente da brutalidade russa, ocidental e ucraniana não podendo uma justificar a outra. Mas sinto que é um dever de consciência chamar a atenção para a necessidade de maior independência e dignidade de opinião. Não se trata de defender um lado contra o outro, mas sim de recusar a manipulação para que cada cidadão baseado em factos e não em interpretação unilateral deles possa formar uma opinião qualificada e não reduzida a uma gota da enxurrada.

A Necessidade de Memória Histórica

Para percebermos os interesses camuflados do Ocidente, bastaria recordar a guerra na antiga Jugoslávia. Ali, países da NATO intervieram com bombardeamentos que violaram tratados internacionais e o direito internacional, tudo em nome de uma intervenção “humanitária” que, na prática, serviu para reconfigurar a região de acordo com os interesses geopolíticos de quem bombardeava.

Acompanhei atentamente o desenvolvimento das relações internacionais antes da Reunificação da Alemanha. Cheguei a visitar a região como integrante de uma delegação de cidades-gémeas da RDA e da RFA, verificando o interesse acautelado de ambos os lados, numa altura em que a relação era entre o comunismo e o capitalismo.

Lembro-me bem da conferência de Putin  no Bundestag, que ilustra essa complexidade omitida e da vontade russa de ser integrada no bloco ocidental.

Com a queda da União Soviética, a União Europeia e os Estados Unidos agiram de forma a sabotar a Ucrânia.

Em vez de buscarem acordos diplomáticos, os EUA e a EU tinham como objetivo a expansão da NATO para Leste (através da “incardinação” da Ucrânia).

O comportamento foi sempre arrogante, a ponto de o Reino Unido e a UE terem sabotado os Acordos de Minsk e as tentativas de negociação na Turquia.

Sei que, numa lógica dominada por interesses ferozes e por defensores acérrimos desses mesmos interesses, tudo o que observei e aqui descrevo é imediatamente rotulado como “apologia da Rússia” mas respeito porque estou consciente de que cada um de nós, na sua opinião se encontra refém da informação que tem. Não defendo a Rússia nem a NATO porque sei que todos jogam com a miséria e a brutalidade na defesa de interesses. É um apelo ao pensamento crítico, à recusa da manipulação e à redescoberta de uma informação que sirva a verdade e não os interesses mesquinhos de quem nos governa e de oligarquias globais.

Após observar tudo isto, sou forçado a concluir que já não existe verdade nem interesse genuíno por ela. O que impera é a baixeza e os interesses mesquinhos, independentemente das barbaridades cometidas por todos os lados envolvidos: Rússia, EUA, União Europeia e NATO. No meio dos interesses envolvidos não há hipótese de se sair da situação de maneira honrada. Estamos todos enlameados e salpicados com sangue alheio!

Manipulação Pós-Fática e a Morte do Pensamento Crítico

A informação pós-fática é hoje tão contínua e envolvente que os espectadores ficam sujeitos a um condicionamento permanente. O resultado é o reinado absoluto do preconceito: a certeza de que “o nosso lado” tem sempre razão, sem que reste qualquer espaço para a análise ou a reflexão.

Quando ouvimos a opinião da grande maioria, não estamos perante pareceres próprios, mas sim opiniões meramente apropriadas, interiorizadas sem consciência do real. As pessoas reagem emocionalmente, como que a vomitar aquilo que engoliram sem digerir, repetindo slogans e narrativas pré-fabricadas como se fossem convicções profundas.

Já não há pensamento, há apenas regurgitação. Já não há debate, há apenas afirmação automática de verdades inconscientemente impostas. Esta é a tragédia da nossa era: uma sociedade que se julga informada, mas que apenas repete, como um eco, aquilo que lhe foi soprado.

Quem quer proteger a Europa tem de pôr fim a esta política de escalada e apostar finalmente na diplomacia bem-intencionada, na proteção das fronteiras e na responsabilidade nacional.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo

 

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CAMINHO

Não busco a verdade como quem prende,
mas como quem caminha sem chegar.
A luz não é um prémio que se entende:
é companhia ao longo do olhar.

Há um silêncio acima do pensamento,
um céu interior sem explicação;
às vezes sinto, leve, o firmamento
descer inteiro ao centro do coração.

Não é milagre, nem é fantasia,
é só o real abrindo outra dimensão.
Um instante basta e a alma se alia
ao que não cabe em forma ou definição.

Sou feito de razão, mas não me fecho:
a mente é porta, não é o lugar.
O mistério respira no entremeio
do que eu consigo e não sei nomear.

Procuro sem vontade de possuir,
porque a resposta é sempre movimento.
A vida é mais do que o simples existir:
é ser pergunta dentro do momento.

E quando a dor me corta e me desfaz,
descubro uma presença que não cai,
não é certeza, é uma funda paz,
um chão invisível que me atrai.

Assim caminho: não para alcançar,
mas para ser, em busca, revelado.
A verdade não é algo a conquistar:
é o próprio passo, lúcido e amado.

António da Cunha Duarte Justo

©  Pegadas do tempo

 

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CONTO DA CABRA-CEGA E DO ARCO-ÍRIS NO DIA DOS NAMORADOS

No dia em que o calendário se enfeita com corações de papel e as montras das ourivesarias parecem altares pagãos, Valentim acordou com a sensação de que lhe haviam trocado a alma durante a noite. Não era qualquer alma, era a dele, aquela que trazia desde miúdo, com ferrugem nos cantos e uma rachadela por onde às vezes entrava o vento. Mas naquela manhã de 14 de fevereiro (dia dos namorados), a coisa lá dentro parecia outra! Sentia-se mais leve, mais arejada, como se tivesse mudado de casa sem dar cavaco.

“É o amor que paira no ar”, suspirou a vizinha do terceiro, varrendo as folhas secas para cima do tapete de entrada. “Cheira a primavera antecipada, cheira a beijo na boca, cheira a prenda com laço.”

Valentim, que não era tolo nem cego, mas apenas um homem com o coração ao pé da boca, meteu a mão ao peito e sentiu que o órgão batia descompassado, como um tambor em dia de festa na aldeia. E pensou: “O amor é mesmo um ser sem lar. Anda aí, de mochila às costas, à procura de um sítio onde pendurar o chapéu.”

E foi assim que decidiu sair para a rua, na condição de candidato a anfitrião.

A Praça da Ribeira, naquele dia, parecia um jogo de cabra-cega em ponto grande. Pelas esquinas, pares andavam às tontas, de olhos vendados pela ilusão, braços esticados à procura da metade que lhes faltava. Uns esbarravam em postes, outros em paixões antigas, e a maioria agarrava-se a quem lhes passava ao lado, convencidos de que aquele era o pedaço de alma que andavam a reclamar desde sempre.

Valentim parou no largo da feira e viu: um rapaz magro, com ar de quem acabou de sair de um poema do Pessoa, andava às voltas atrás de uma miúda de tranças. Ela esquivava-se, ele lançava-se, e aquela coreografia de aproximação e fuga era coisa tão bonita de se ver! (Aquela cena fazia-o lembrar uma tarde de festa na aldeia – S. Pedro em Várzea – de outros tempos onde a rapaziada em bando atrás das moças, também elas em magote, dando voltas à capela com risos que eram setas e olhares que eram redes. Elas escarneciam deles, sim senhor, mas era só para afugentar a própria timidez, que a vergonha, quando aperta, disfarça-se de remoque. E no fundo, bem no fundo daquele alarido todo, o que elas faziam era lançar o desejo, mas um desejo de ponta de pé, camuflado em sorrisos, para não assustar o sonho e para que ele, o rapaz, tivesse ainda de merecer a aproximação. Era o jogo antigo, o de sempre, na caça que se faz de presa, e a presa que se faz de caça, numa dança em que ninguém queria cair, mas todos queriam ser apanhados). Chamam-lhe flirt, que é uma palavra importada com menos espinhas do que “namoro”. É uma dança que dura o tempo de um arco-íris pois nasce da sombra, mostra as cores todas e ameaça desaparecer mal a chuva pare.

“É a procura”, murmurou Valentim, que tinha queda para filosofias de feira. “Andamos todos de mão estendida, à procura do arco-íris. Uns encontram a panela de ouro, outros encontram um caldeirão vazio.”

Então Valentim, como ser que também anda à procura, lembrou-se do velho imperador romano, aquele tipo de toga e coroa de louros, que um dia se fartou de ver tanto amor à solta e mandou prender um tal Valentim (seu homónimo, coitado) só porque ele teimava em casar os jovens às escondidas. O amor sempre foi coisa subversiva e sempre andou à margem da lei, a fazer das suas.

Ao fim da tarde, quando o sol já se despedia e a noite ensaiava os primeiros passos, Valentim encontrou-a. Estava sentada num banco de jardim, a ler um livro com a capa virada para cima, como quem não quer nada. Era morena, tinha um sorriso de cantos duvidosos e olhos que pareciam dois faróis na neblina a marcar presença.

“Posso?” perguntou ele, apontando para o banco.

Ela encolheu os ombros, que é como quem diz “se quiser, mas não se admire se eu não falar”.

Houve um silêncio comprido, daqueles que ou se cortam à faca ou se transformam em conversa. Valentim, que era homem de iniciativa, atirou:

“Sabia que beijar faz bem à saúde? É remédio para o corpo e para a alma. Um beijo mobiliza trinta músculos da cara, acelera a circulação, e ainda manda um recado ao sistema imunitário a dizer que está tudo em ordem.”

Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

“E o senhor é médico?”

“Sou jardineiro do espírito” respondeu ele, sem pestanejar. “Trato da terra para que ela dê flores. E acredito que a lealdade à terra e o respeito pelas suas energias são o princípio de tudo. Até para se ter um vislumbre do céu, é preciso ter os pés assentes no chão.”

Ela riu-se. É verdade que foi um riso pequeno, mas chegou para iluminar a paisagem.

“O senhor é doido e convencido!”

“Sou. Doido por amor. Esta é a única loucura que vale a pena.”

E foi assim que a conversa pegou. Falaram de tudo e de nada. Do imperador romano, da Bíblia (que diz que o amor não é roupa que se vista e se despe ao sabor da moda), da falta que o beijo faz nos casamentos antigos, quando a rotina se senta no sofá e já ninguém se lembra de alongar os lábios.

“É uma pena”, suspirou ela. “O amor devia ser como o arco-íris, devia mostrar todas as cores, sem vergonha.”

“Mas é”, respondeu Valentim. “O amor tem muitas tonalidades. Umas são mais escuras, outras mais claras, mas todas elas fazem parte do mesmo feixe de luz. Amar é isso mesmo! É ser arte ferida, é ser espelho partido que mesmo assim reflecte calor.

Quando deram por ela, a noite tinha caído de vez. E a noite, no amor, é sempre traiçoeira. Porque há quem pense que o amor é um dia soalheiro sem fim, e não conta com o breu que vem depois. Há quem espere que o arco-íris fique para sempre no céu, e não percebe que ele precisa da chuva para existir.

Naquela noite, Valentim aprendeu a lição. Porque ela, a morena dos olhos de farol, levantou-se de repente, fechou o livro e disse:

“Tenho de ir. O meu marido espera-me para o jantar.”

E desapareceu no nevoeiro, como se nunca tivesse existido.

Valentim ficou ali, no banco, a olhar para o sítio vazio e pensou: “O amor é mesmo um jogo da cabra-cega. Umas vezes encontramos a parte que nos falta, outras vezes encontramos a parte que falta aos outros. E o pior é que a vendagem nunca nos deixa ver a diferença.”

Mas depois lembrou-se do beijo. Porque, sim, tinham-se beijado. Ali mesmo, no banco do jardim, ao cair da noite. Foi um beijo breve, sem grandes sofisticações, mas que mobilizou o corpo inteiro e até a alma, que na altura já tinha voltado à sua casa de origem, mas o deixara impreparado para aterrar…

Depois Valentim sorriu. Porque o beijo, mesmo quando é de despedida, vale sempre a pena. É comunicação, é apreço, é a prova de que, por um instante, fomos menos sós.

No dia seguinte, o calendário já não tinha corações de papel. As montras voltaram ao normal. Mas Valentim, esse, trazia no peito o mesmo fogo na certeza de que o amor, apesar de imperfeito, atrai. Sabia e sentia que o amor, mesmo sem ter casa, anda por aí, de mochila às costas, à procura de quem lhe abra a porta.

Mesmo que seja só para um café!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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DIA DE S. VALENTM – DIA DOS NAMORADOS

Beijar é o melhor e mais divertido Remédio para o Corpo e para a Alma

O dia em que o comércio local esfrega as mãos de contentamento, os restaurantes duplicam os preços do menu e os corações (mesmo os mais empedernidos) fazem um esforço extra para se lembrarem de que, afinal, ainda batem dentro do peito. Hoje é Dia dos Namorados, mas preferia chamar, o Dia Internacional do beijo na boca e da troca de embrulhos com laço.

Há quem diga, e com toda a razão, que beijar é o melhor remédio. Mais barato que Ibuprofeno ou Ben-u-ron e infinitamente mais agradável. É o santo comprimido efervescente que dissolve na boca e vai direto à alma. Os apaixonados lá andam, de nariz colado, a trocar carícias e pequenas lembranças, tudo na nostalgia do chamado Valentim (1), que era um padre com veia poética e espírito de insubordinação que, em pleno império romano, teimou em casar os jovens apaixonados às escondidas. Como resultado teve a prisão. E isto compreende-se porque o amor sempre foi um assunto perigoso e subversivo!

Na minha modesta opinião de observador do mundo, a verdade é que para se ter um vislumbre de paraíso, é preciso não andar em bicos de pés, mas ter os pés bem assentes na terra e não impedir sistematicamente que as suas energias subam mais além! Os verdadeiros jardineiros do espírito, aqueles que tratam da horta da alma com carinho, sentem-no logo de manhã: há amor no ar. Um simples sorriso, sem segundas intenções nem expectativas, é capaz de iluminar a paisagem mais cinzenta mesmo em manhãs de nevoeiro! A Bíblia, que não é propriamente um livro de autoajuda barata, já o dizia: o amor não é uma roupa que se veste e despe ao sabor da moda. Não há que mudar de casaco conforme o tempo. O amor aplica-se à vida, mesmo quando ela resolve desabar numa tempestade de granizo. É um laço invisível, uma daquelas colas superpoderosas que unem o que parecia partido e que teimam em agarrar quando o mais fácil seria largar tudo e ir à vida. (Para pessoas religiosas e não religiosas interessadas recomendo o Cântico dos Cânticos com os poemas líricos que o rei Salomão terá destilado).

Claro está que o amor não tem manual de instruções. Não vem com garantia de peças. É imperfeito, matreiro, cheio de falhas de fabrico. Mas atrai. Tem um íman qualquer. Talvez porque, no fundo, o amor seja um sem-abrigo de luxo! Como não tem morada fixa neste mundo, vive eternamente à procura de um lar onde possa pousar a cabeça. E é por isso que, quando encontra um, vale a pena festejar.

E como se festeja? Com um beijo, claro! Vale sempre a pena, porque um beijo é um fator de felicidade, um estimulante cardíaco sem efeitos secundários (salvo, por vezes, uma certa tontura, perfeitamente desculpável). É um grande ginásio para a alma. Precisa, sim, de ar fresco, de espaço para respirar, mas é a mais pura das comunicações. Beijar é dizer “gosto de ti” sem gastar sequer uma letra! É a demonstração máxima de que, naquele momento, não há sítio melhor no mundo, porque esse é o momento em que céu e terra se unem!

Do ponto de vista médico, então, o beijo é um espetáculo. Mobiliza 30 músculos faciais, acelera o pulso, põe o sistema imunitário em sentido e manda um fax ao cérebro a dizer que está tudo bem. É um verdadeiro “check-up” com sabor a framboesa. Pena é que, nos casamentos, com o passar dos anos, este remédio tão milagrosa tenda a ser receitado com menos frequência. A rotina instala-se, o sofá chama, e o beijo matinal passa a ser um gesto mecânico, um “bom-dia” seco dado de raspão, enquanto  se olha para o relógio!.

É uma lástima. Porque se há coisa que o Dia dos Namorados nos devia lembrar, para além da correria às floristas, é que o amor é um verbo e não um arquivo morto. E que um beijo, mesmo fora de época, é sempre a melhor forma de o conjugar. E agora que se conhece a gramática o melhor é passar à prática!

António da Cunha Duarte Justo

Nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10770

(1) São Valentim foi decapitado no dia 14 de fevereiro no século III. Na época do imperador Cláudio II Gothicus, os casamentos entre jovens soldados teriam sido proibidos, pois acreditava-se que homens solteiros eram melhores guerreiros.

O DIA DOS NAMORADOS : Pegadas do tempo: https://antonio-justo.eu/?p=9867

 

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