POLÍTICA REAL E O INTERESSE NACIONAL PORTUGUÊS

Excepcionalmente, coloco aqui o artigo do senhor embaixador Francisco Henriques da Silva por o achar muito esclarecedor para quem quer pensar por si próprio:
UCRÂNIA – A REALPOLITIK E O INTERESSE NACIONAL PORTUGUÊS .
A Ucrânia não é membro da NATO nem da União Europeia. Consequentemente, não lhe são aplicáveis as cláusulas de defesa coletiva e de assistência mútua previstas, respetivamente, no artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte e no artigo 42.º, n.º 7, do Tratado da União Europeia.
Esta distinção jurídica é fundamental. Portugal não assumiu, nem pode assumir, relativamente à Ucrânia, as mesmas obrigações de defesa que assumiu perante os seus aliados da NATO e os restantes Estados-Membros da União Europeia.
Condenar a invasão russa, prestar ajuda humanitária e defender uma solução diplomática não obriga, porém, a apoiar indiscriminadamente todas as decisões de Kiev, nem a assumir compromissos militares, financeiros ou políticos sem uma avaliação rigorosa dos custos, dos riscos e dos benefícios para Portugal. E é isso que nos interessa
A solidariedade internacional não pode ser confundida com a obrigação de participar num conflito, nem a condenação de uma agressão implica a adesão incondicional à estratégia do Estado agredido.
Na minha perspetiva, Portugal deve privilegiar a ajuda humanitária, a diplomacia e a procura de uma solução negociada, evitando sempre um envolvimento militar direto e avaliando com o máximo rigor qualquer apoio adicional, designadamente financeiro ou militar. Não por indiferença perante o sofrimento dos ucranianos, mas porque compete aos responsáveis políticos portugueses determinar, antes de mais, o que serve os interesses nacionais e quais os riscos que o País está disposto a assumir.
É isso que entendo por realpolitik e neutralidade pragmática: não uma neutralidade jurídica formal, nem a indiferença perante as violações do direito internacional, mas a recusa de transformar Portugal num ator subordinado a estratégias alheias, sem uma avaliação autónoma das suas consequências.
Afinal, o que está em causa para Portugal?
É aqui que regressamos ao essencial: o interesse nacional português.
O nosso país não é uma grande potência militar, não dispõe de recursos ilimitados e não pode assumir todos os conflitos internacionais como se a sua segurança estivesse diretamente ameaçada em cada um deles.
A nossa política externa deve assentar numa avaliação autónoma dos interesses nacionais, no cumprimento das obrigações internacionais efetivamente assumidas, na defesa do direito internacional e na capacidade de distinguir entre solidariedade, prudência e envolvimento militar.
Devemos preservar a relação transatlântica, cumprir os compromissos decorrentes da NATO e da União Europeia e manter uma diplomacia ativa, capaz de dialogar com diferentes interlocutores. Mas devemos igualmente evitar que a solidariedade com um país em guerra se transforme numa adesão automática a todas as suas opções estratégicas.
A questão fundamental não é saber se somos mais favoráveis a Kiev ou a Moscovo, se nos identificamos mais com a narrativa ocidental ou com a russa, ou se esta ou aquela posição é mais popular no nosso espaço político.
A questão é outra: que política serve melhor Portugal, protege os portugueses, reduz o risco de uma escalada militar e contribui realisticamente para uma paz duradoura?
Numa guerra que envolve uma potência nuclear, esta pergunta não é um exercício académico. É uma exigência elementar de responsabilidade política.
Não podemos esquecer que uma guerra prolongada tem custos humanos, económicos e estratégicos enormes; que a escalada militar comporta riscos difíceis de controlar; e que uma vitória militar proclamada politicamente pode não corresponder a uma paz sustentável.
Defender uma solução negociada não significa aceitar antecipadamente todas as exigências de Moscovo. Significa reconhecer que a diplomacia, por mais difícil que seja, tem de continuar a ser uma alternativa real à perpetuação da guerra. E este ponto é fundamental.
Enfim, não se trata de Direita contra Esquerda, nem de simpatias pessoais por este ou aquele dirigente. Trata-se de política externa, de responsabilidade e de interesses nacionais.
A condenação da invasão russa não nos obriga a abdicar do pensamento crítico. A solidariedade com a Ucrânia não exige um cheque em branco. E a defesa dos interesses de Portugal não pode ser confundida com cobardia, indiferença ou cumplicidade com a Rússia.
Após quase 4 décadas a servir o país como diplomata, continuo a acreditar que o realismo político, o pragmatismo e o bom senso não são sinais de fraqueza. São condições indispensáveis para uma política externa responsável.
É essa a posição que defendo. E é precisamente por considerar que a matéria é demasiado séria para ser tratada com ligeireza que me recuso a abdicar de a discutir com frontalidade.
Estamos a falar de problemas complexos de povos eslavos em vastos territórios da Europa Oriental. Não podemos minimizar nem simplificar estes problemas .
E sobretudo , no caso vertente: não confundir: moralidade (agir respeitando valores e princípios) com moralismo (julgar por esses mesmos valores).
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OPINIÃO EMBOTADA

Todos têm uma e é sempre a mesma:
a deles, sagrada, inegociável,
parida sem esforço e sem pai conhecido.

O argumento foi dispensado
por excesso de exigência.
Pensar doi, opinar, não.
Basta o “eu acho”,
essa pequena fricção solitária
a que o ego chama convicção.

Chamam-lhe debate cívico,
mas é onanismo em coro:
cada um de si para si,
mãos ocupadas, olhos fechados,
a gemer em voz alta
para que o vizinho saiba
que também ele está a gostar.

Ninguém convence, ninguém aprende.
Concluem-se, no máximo,
e saem da sala aliviados,
a limpar-se ao que sobrou da razão,
a jurar que foi encontro.

A pólis, esse grande balneário
de vaidades a esfregar-se,
tem mil cabeças e um só vício:
confundir o ruído que faz
com o pensamento que não teve.

(Opinião sem argumento
é vício de quem não pensa,
muito gesto, nenhum parceiro,
e ainda pede aplauso.)

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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DA IDEIA À VIRTUDE

Do pensamento à Palavra, da Palavra ao Gesto,
do Gesto à plenitude humana

Antes que a luz rompesse a noite escura,
antes que o tempo aprendesse a caminhar,
já a Ideia, em secreta gestação pura,
sonhava um mundo inteiro por criar.

No ventre do silêncio germinava
a forma do que ainda não havia
e o pensamento, em si, já anunciava
a Palavra que um dia nasceria.

E o Verbo fez-se carne entre os humanos,
ponte de amor do eterno ao temporal,
não veio apenas proclamar seus planos,
mas dar ao próprio amor forma real.

Porém, que vale a voz, por mais fecunda,
se a mão desmente aquilo que ela diz?
A Palavra só se torna mais profunda
quando o Gesto lhe dá corpo e raiz.

E quando o Gesto é justo e consciente,
quando o bem se faz hábito e atitude,
a verdade floresce socialmente
e o seu fruto mais nobre é a Virtude.

Pois ninguém se realiza em solidão,
nem há um eu completo sem um tu;
é no encontro que nasce a comunhão
e o brilho de cada ser se torna luz.

Tal como o amor trinitário é relação,
unidade que acolhe a alteridade,
também a vida encontra a perfeição
quando o agir se faz fraternidade.

A Ideia é mãe, a Palavra é claridade,
o Gesto é carne, a Virtude é plenitude,
e o ser só se realiza em liberdade
quando faz do amor a sua atitude.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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NÃO FAÇAS DA QUEIXA O TEU LAR

(Poema sobre a fragilidade humana e a sabedoria do quotidiano)

Não faças da queixa uma cantiga de realejo
que toca a desventura a cada ensejo;
nem dês ao desgosto tamanho poder
que até a alegria esqueça de se erguer.

O cérebro escuta, retém o que lhe chega,
repete o que ouve e ao que ouve se apega;
se o nutres de sombras, de fel e amargura,
até a manhã se torna noite escura.

Quem de tudo e de todos se queixa a cada hora
dá aos dias a isca que os rói por dentro e os devora;
e de tanto contar a dor sem se cansar,
faz do desgosto um destino que o vem a cativar.

A queixa é fumo que sobe e se espalha,
entra na alma, que turva e atrapalha;
quem dela se nutre, sem se aperceber,
aos outros só deixa mais cuidados a haver.

Há quem erga à mágoa um altar para durar
e obrigue quem passa a ficar a escutar;
não vê que o amigo, por mais que o estime,
também tem um peito que sofre e se oprime.

Não nego que a vida nos fira e magoe,
nem peço que a dor se esconda ou se escoe;
mas uma coisa é chorar para se erguer,
outra é fazer do pranto um modo de viver.

O passado não muda por ser remexido,
nem o presente cresce por ser mal-querido;
quem as feridas de ontem ainda vai polindo
perde o sol que hoje lhe bate à porta, sorrindo.

Pensar é trabalho, pede coragem,
quebra preconceitos, transforma a paisagem;
é mais cómodo dar ao mundo inteiro a culpa
do que pôr ordem no próprio quintal, sem desculpa.

Amar o próximo não é só estender a mão,
é não lhe despejar o entulho do coração;
é partilhar o peso e a ternura com tento,
sem fazer da amizade um sombrio aposento.

Ama-te também, dá ao teu espírito repouso,
não faças do desgosto um hóspede teimoso;
que a dor seja ouvida, mas nunca coroada,
nem reine sobre a vida que te foi confiada.

Se a sombra te visita, não lhe dês a coroa,
nem faças de um inverno uma eternidade que ecoa;
abre uma janela, deixa o ar entrar,
pois certa luz só volta se a deixarmos passar.

E lembra-te, ao falar, desta simples verdade:
cada palavra semeia tristeza ou claridade;
quem na paz interior encontra o primeiro abrigo
leva menos tempestades ao coração do amigo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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PERIGO DE GUERRA ATÓMICA

Em setembro de 2026, a Rússia avisou formalmente a NATO de que poderá usar armas nucleares se houver uma tentativa de isolar Kaliningrado (enclave russo). A tensão cresceu depois de a Polónia sugerir exercícios da NATO perto do enclave e de manobras aéreas não anunciadas em agosto. A NATO confirmou ter recebido o aviso, condenou a retórica nuclear russa e reafirmou o seu caráter defensivo, enquanto Moscovo considera Kaliningrado uma área estratégica crucial, cercada pela Polónia e pela Lituânia.
António da Cunha Duarte Justo
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