Os Limites da Análise de Roxana Kreimer e a Exigência de uma Matriz Antropológica Integral
António da Cunha Duarte Justo
Resumo
O presente artigo propõe uma análise crítica aos fundamentos argumentativos da obra “El patriarcado no existe más” (2020), de Roxana Kreimer. Partindo do mérito da sua crítica empírica a certas vertentes do feminismo, identificam-se as limitações conceptuais e metodológicas que condicionam as suas conclusões. Argumenta-se que Kreimer se circunscreve a uma análise predominantemente sociológica e formal, negligenciando as dimensões estruturais, simbólicas e ontológicas que constituem o cerne da dominação patriarcal. Ao confundir igualdade formal com igualdade real e ao apoiar-se em generalizações antropológicas e biológicas questionáveis, a autora acaba por desconsiderar a persistência de uma matriz masculina que estrutura profundamente a sociedade. Em contraponto, esboça-se a necessidade de uma abordagem que supere os reducionismos sociológico e biológico, propondo uma matriz antropológica integral, de raiz filosófico-cristã, que reconcilie o feminino e o masculino como pilares constitutivos e indistintos da definição plena do ser humano.
- Introdução: O Desafio Empírico ao Feminismo Maximalista
A obra de Roxana Kreimer, “El patriarcado no existe más”, insere-se num crescente corpus de literatura que questiona, a partir de dados empíricos, a validade contemporânea do conceito de patriarcado. O seu mérito inicial reside na contestação de certas versões maximalistas do feminismo, que, por vezes, operam com generalizações que a realidade social, na sua complexidade, parece desmentir. Ao recorrer a estudos transnacionais de larga escala, como o de Stoet e Geary (2019) envolvendo 134 nações, Kreimer expõe assimetrias nos desafios enfrentados por homens e mulheres, sugerindo que a narrativa de uma dominação masculina unívoca e global é, no mínimo, insuficiente para explicar fenómenos como as desvantagens masculinas em 91 dos países analisados.
No entanto, é precisamente neste ponto que a solidez da sua argumentação começa a fragmentar-se. A sua análise, embora ancorada em dados, revela-se metodologicamente limitada e conceptualmente frágil, operando uma redução do problema a variáveis quantificáveis e a uma leitura superficial das estruturas de poder. O presente texto pretende desconstruir os pilares dessa argumentação, demonstrando que a conclusão de Kreimer, a negação da existência contemporânea do patriarcado, depende de escolhas epistemológicas que ignoram as dimensões estruturais, simbólicas e antropológicas da questão.
- A Armadilha do Formalismo: Entre a Sociologia Descritiva e a Cegueira Estrutural
O primeiro e mais grave problema da análise de Kreimer é a confusão entre igualdade formal e igualdade estrutural. A autora constata, com razão, que as mulheres têm, no mundo ocidental, acesso legal generalizado às mesmas instituições que os homens, como, educação, mercado de trabalho, cargos políticos. Deste facto, infere uma tendencial superação do patriarcado. No entanto, esta inferência ignora que as estruturas de poder não se limitam ao seu aspeto legal ou institucional. Elas são constituídas por uma teia complexa de normas informais, expectativas sociais, redes de influência e um capital simbólico que perpetua a hegemonia de uma matriz cultural masculina enraizada na História.
Kreimer limita-se a uma leitura sociológica descritiva: as mulheres já ocupam certos espaços, logo, a exclusão foi superada. Não questiona se as regras do jogo, os critérios de avaliação, os modelos de liderança e os valores que estruturam esses espaços permanecem inalterados e profundamente marcados por uma lógica masculina. Ao fazê-lo, reduz a questão da presença feminina a uma mera questão de proporcionalidade numérica em profissões ou cargos hierárquicos, ignorando que a mulher é chamada a integrar-se num mundo desenhado à imagem e semelhança de um ideal masculino, sendo-lhe exigida uma adaptação que não questiona o modelo em si. A sua visão fica-se pela constatação de uma diferença no “estar” social da mulher, sem inquirir sobre as condições profundas desse “ser” num mundo estruturalmente androcêntrico.
- Preferências, Biologia e o Espectro do Reducionismo
Para sustentar a sua tese da agência feminina livre, Kreimer recorre a argumentos sobre preferências inatas, citando a maior propensão média das mulheres para profissões que envolvem cuidar de pessoas e dos homens para trabalhar com objetos e sistemas. Apoia-se, ainda, na biologia evolucionista para explicar tais diferenças.
Esta abordagem é metodologicamente arriscada e filosoficamente redutora. Em primeiro lugar, invocar a biologia evolucionista para justificar escolhas profissionais complexas no século XXI é um salto interpretativo que desconsidera o peso avassalador da socialização e da cultura na formação da subjetividade. Mesmo que existam predisposições biológicas, a forma como elas são interpretadas, valorizadas e canalizadas é sempre mediada por um contexto cultural que é, ele próprio, herdeiro de uma divisão sexual do trabalho milenar.
Em segundo lugar, ao apresentar estas “preferências médias” como prova da liberdade de escolha num contexto pós-patriarcal, Kreimer ignora o conceito de habitus de Bourdieu: a interiorização da estrutura social objetiva sob a forma de disposições subjetivas. Ou seja, as preferências podem ser precisamente o produto de séculos de condicionamento, e não a sua superação. A sua análise, ao ficar-se pela superfície das escolhas, não escapa a um reducionismo que é simultaneamente biológico (ao naturalizar preferências) e sociológico (ao descrever estatísticas sem lhes inquirir a génese). Fica, assim, refém de um dualismo que uma abordagem filosófica mais profunda deve precisamente superar.
- O Conceito de Patriarcado: Entre a Definição Jurídica e a Matriz Simbólica
A própria definição de patriarcado que Kreimer operacionaliza é limitada e desfasada do uso filosófico e feminista mais sofisticado. Ao defini-lo como um “sistema que autoriza os homens a explorar as mulheres”, a autora reduz o conceito a uma dimensão quase jurídica e contratual, que pode ser facilmente desmentida pela constatação de que tal “autorização” formal já não existe no Ocidente.
No entanto, o patriarcado, na tradição do pensamento crítico, é entendido como uma matriz cultural e simbólica profunda, uma estrutura de poder que se reproduz capilarmente, através da linguagem, dos símbolos, dos afetos e das hierarquias invisíveis do quotidiano. É um sistema que domina até à “medula”, moldando homens e mulheres, sacrificando ambos a um ideal de desempenho, de poder e de subjetividade que é unilinear e excludente. Ignorar esta dimensão estrutural leva a que fenómenos como a violência doméstica e o feminicídio, que apresentam padrões assimétricos persistentes e transversais, sejam lidos fora do seu contexto sistémico, perdendo-se a inteligibilidade da sua gravidade específica.
- Para uma Matriz Antropológica Integral: Superando o Reducionismo
É neste ponto que a perspetiva que aqui proponho se distancia e se pretende complementar e superar a de Kreimer. A sua análise, confinada aos dados e à superfície do social, não alcança a questão fundamental: a da própria definição do humano. O problema não é meramente a desigualdade de acesso a estruturas feitas por homens, mas a própria natureza dessas estruturas, forjadas a partir de uma visão antropológica unilateral.
O projeto científico e filosófico que aqui se anuncia propõe uma rutura com este paradigma. Não se trata de um feminismo superficial que visa reduzir as diferenças à influência cultural (reducionismo sociológico), nem de uma visão essencialista que as fixa biologicamente (reducionismo biológico). Trata-se, isso sim, de partir para uma antropologia filosófica fundamental, ancorada numa filosofia cristã que transcende o estritamente religioso para se afirmar como via de acesso à compreensão integral do ser.
Esta perspetiva reconhece as diferenças biológicas e as predisposições inatas, mas insere-as num quadro ontológico mais amplo. O objetivo não é a mera integração do feminino num mundo masculino, mas a superação desta própria dualidade excludente. Propõe-se, assim, uma matriz integral onde o feminino e o masculino não são apêndices ou papéis sociais, mas pilares estruturais e indistintos da própria definição do ser humano. É uma refundação antropológica que implica uma nova epistemologia, uma nova ontologia e, consequentemente, uma nova sociologia, capaz de ler para além dos números e de vislumbrar a tessitura profunda da nossa humanidade partilhada, numa perspetiva que supera o dualismo e o reducionismo das abordagens exclusivamente sociológicas.
Conclusão
Roxana Kreimer oferece uma crítica pertinente a certos exageros do discurso feminista, mas a sua obra é vítima de um positivismo ingénuo e de um formalismo jurídico que a impede de ver a persistência do patriarcado como matriz cultural e simbólica. Ao confundir a descrição de superfície com a análise estrutural, a autora não só falha o alvo como corre o risco de legitimar, involuntariamente, o status quo. A sua análise, embora útil como ponto de partida, demonstra a insuficiência de uma abordagem puramente sociológica para um problema que é, na sua raiz, ontológico. A superação da ordem vigente exige, por isso, um mergulho mais profundo: uma reformulação da própria antropologia que nos permita, finalmente, edificar uma sociedade onde o humano possa ser vivido na sua plenitude, para além das prisões de género e dos reducionismos de qualquer ordem.
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