A MORAL AO SERVIÇO DO PODER

O cinismo de narrativas e a degradação da democracia

Quando os valores se transformam em instrumentos de legitimação e as instituições se afastam dos cidadãos, a democracia conserva as suas formas, mas perde a sua substância.

A democracia  adoece fortemente quando aqueles que governam deixam de sentir as consequências das decisões que tomam e aqueles que as sofrem deixam de ter influência efetiva sobre elas. É nesta separação entre o poder de decidir e a obrigação de suportar os seus efeitos que reside uma das contradições mais profundas das sociedades contemporâneas. A política, que deveria constituir o espaço privilegiado da responsabilidade coletiva, transforma-se progressivamente num circuito fechado de interesses, narrativas legitimadoras e decisões tomadas à distância da experiência concreta dos cidadãos.

O problema não reside simplesmente na existência de interesses, inerentes à vida social e política, mas na sua ocultação sob uma linguagem moral que apresenta como universalmente necessário aquilo que frequentemente corresponde a opções estratégicas particulares. Invocam-se a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a segurança e a paz, mas nem sempre se admite que esses princípios sejam utilizados para avaliar criticamente as decisões de quem os proclama. A moral deixa então de funcionar como limite do poder para se transformar num dos seus instrumentos. Em vez de orientar a ação política, passa a justificá-la.

As democracias modernas necessitam de instituições intermédias: partidos, parlamentos, tribunais, sindicatos, meios de comunicação social, organizações internacionais e associações cívicas. Estas estruturas são indispensáveis à representação e à organização de sociedades complexas. Quando as estruturas se autonomizam em relação aos cidadãos, deixam de ser pontes entre a sociedade e o poder para se converterem em filtros que condicionam ou neutralizam a vontade popular. Então a representação transforma-se em substituição, a mediação, em tutela e a autoridade institucional, numa espécie de propriedade política daqueles que controlam os seus mecanismos.

É neste contexto que floresce uma linguagem política cada vez mais abstrata. Expressões como «segurança nacional», «interesses estratégicos», «equilíbrio geopolítico» ou «defesa da ordem internacional» podem corresponder a necessidades reais, mas tornam-se problemáticas quando são utilizadas como fórmulas incontestáveis, necessidades absolutas, destinadas a encerrar o debate em vez de o esclarecer. A política passa a ser apresentada como uma atividade reservada a especialistas, enquanto aos cidadãos se atribui o papel de espectadores que devem confiar, consentir e suportar.

O tempo desempenha aqui uma função decisiva, pois, quem controla a agenda política controla também o ritmo da contestação. Adiar esclarecimentos, multiplicar procedimentos ou remeter decisões para instâncias distantes pode permitir que situações inicialmente contestáveis acabem por consolidar-se como factos consumados. E os factos consumados possuem uma força particular: aquilo que ontem exigia justificação passa hoje a ser apresentado como inevitável. Assim, a injustiça nem sempre triunfa pela imposição frontal; muitas vezes vence pelo desgaste da resistência e pela habituação coletiva.

A democracia pressupõe cidadãos capazes de formar juízos autónomos. Mas essa autonomia não se esgota na liberdade formal de votar ou de manifestar opiniões. Exige condições intelectuais e materiais para compreender alternativas, confrontar argumentos e identificar os interesses que influenciam a decisão pública. Uma sociedade permanentemente exposta a mensagens emocionais, simplificações ideológicas e falsas dicotomias pode conservar a liberdade jurídica de expressão e, simultaneamente, perder capacidade de deliberação.

Quando a informação se transforma em repetição de narrativas dominantes, deixa de alimentar o pensamento crítico e aproxima-se de uma pedagogia da obediência. O cidadão é convidado a concordar antes de compreender, a escolher um campo antes de analisar as razões e a considerar suspeita qualquer pergunta que perturbe a versão oficialmente aceite. Não significa isto que os meios de comunicação constituam um bloco homogéneo, mas que a concentração económica, a dependência de fontes institucionais e a polarização podem enfraquecer o pluralismo efetivo.

A moral é particularmente vulnerável a este processo porque mobiliza sentimentos profundos de pertença, solidariedade, medo e indignação. Quando determinada decisão é apresentada como imperativo moral absoluto, os seus críticos passam a  ser retratados não como cidadãos com argumentos diferentes, mas como pessoas irresponsáveis ou moralmente inferiores. A divergência deixa de ser oportunidade de esclarecimento para se transformar numa prova de fidelidade. Surge, assim, um paradoxo inquietante: em nome da defesa dos valores democráticos, pode restringir-se o espaço intelectual necessário ao exercício da própria democracia.

É verdade que não existe uma moral única do povo, porque a  moral encontra-se ligada aos costumes, às tradições, às experiências históricas e às condições concretas da existência humana. Numa sociedade plural coexistem valores e interesses divergentes, por vezes contraditórios. Mas desta diversidade não decorre que todas as decisões sejam moralmente equivalentes ou que a política deva reduzir-se à administração da força. Pelo contrário, quanto maior for a diversidade moral, mais exigentes deverão ser os mecanismos de deliberação, justificação e controlo do poder.

A ausência de unanimidade não elimina a possibilidade de maiorias democraticamente formadas, tal como a existência de maiorias não dispensa a proteção dos direitos fundamentais. A dignidade humana, a proteção dos civis, a liberdade de consciência, a igualdade perante a lei e a justiça social constituem referências que não podem ser reduzidas a preferências estratégicas. O pluralismo não legitima a arbitrariedade governativa; pelo contrário, exige mais democracia, melhor informação, instituições independentes e procedimentos que permitam transformar a diversidade social em decisões legitimamente discutidas.

Uma das formas mais sofisticadas de legitimação do poder consiste em afirmar que a política é inevitavelmente apenas uma luta de interesses, embora por vezes se ganhe essa impressão. Nessa perspetiva, a moral seria uma cobertura retórica, os direitos humanos uma linguagem de conveniência e a justiça social uma aspiração subordinada à força. É verdade que os interesses influenciam profundamente a política, mas, reconhecer a sua existência não equivale a aceitá-los como único critério de legitimidade.

Quando se afirma que tudo é interesse e que nenhuma exigência moral possui força própria, oferece-se aos mais poderosos a justificação de que necessitam para agir sem limites. Importante é que o suposto realismo não se transforma numa ideologia de resignação. O cinismo torna-se uma profecia que se autorrealiza: porque se acredita que todos agirão exclusivamente por interesse, deixam de se exigir comportamentos orientados por princípios; e, porque estes deixam de ser exigidos, o interesse domina ainda mais a vida coletiva.

Não é a racionalidade que deve ser colocada no banco dos réus. O problema é a sua captura por objetivos que escapam ao escrutínio democrático. A razão instrumental pode calcular com precisão os meios necessários para alcançar determinado fim, sem perguntar se esse fim é justo. Pode avaliar custos financeiros e vantagens geopolíticas, permanecendo indiferente ao sofrimento humano que transforma em variável de cálculo. Por isso, uma política verdadeiramente racional deve submeter também os seus fins a exame público.

Quem decide? Com que mandato? Em benefício de quem? Quem suporta os custos? Que alternativas foram consideradas? Que interesses económicos estão envolvidos? Que mecanismos existem para corrigir decisões erradas? Estas perguntas não ameaçam a racionalidade política; constituem a sua condição democrática.

A grande questão do nosso tempo não é apenas saber se as instituições democráticas continuam a funcionar formalmente, mas se continuam a cumprir a finalidade humana que justifica a sua existência. Uma democracia pode conservar eleições, parlamentos e tribunais e, ainda assim, sofrer uma erosão profunda da sua substância quando a distância entre a vontade dos cidadãos e as decisões fundamentais se torna excessiva. A legalidade é indispensável, mas não esgota a legitimidade.

É aqui que a justiça social assume importância decisiva. A moral política não pode ser avaliada apenas pela nobreza das palavras, mas pela distribuição concreta dos direitos, das oportunidades, dos encargos e dos benefícios. Uma moral que não encontra tradução em decisões, orçamentos, leis, serviços públicos e condições de vida dignas corre o risco de não passar de retórica ao serviço da conservação do poder.

A resposta não deverá ser o abandono da política, mas a sua recuperação pela cidadania. E a nova sociedade que se encontra em desenvolvimento exige do cidadão que se organize em grupos porque o indivíduo se encontra em fase de desmantelamento dos grupos sociais que lhe davam abrigo, por isso precisa de se inscrever em novos se não quer ficar sem voz. Uma sociedade livre necessita de pessoas capazes de suportar a dor de pensar, de resistir às simplificações convenientes e de interrogar as certezas que lhes são oferecidas. Pensar exige esforço porque obriga a confrontar interesses, desmontar preconceitos e reconhecer que a verdade nem sempre coincide com aquilo que gostaríamos de ouvir.

A democracia não morre apenas quando alguém a destrói abertamente. Ela também pode definhar quando os cidadãos se habituam a confundir representação com submissão, informação com orientação ideológica e moral com propaganda. O seu futuro depende de uma exigência simples e radical: que o poder volte a prestar contas àqueles sobre cuja vida exerce as suas decisões.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

 

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POLÍTICA REAL E O INTERESSE NACIONAL PORTUGUÊS

Excepcionalmente, coloco aqui o artigo do senhor embaixador Francisco Henriques da Silva por o achar muito esclarecedor para quem quer pensar por si próprio:
UCRÂNIA – A REALPOLITIK E O INTERESSE NACIONAL PORTUGUÊS .
A Ucrânia não é membro da NATO nem da União Europeia. Consequentemente, não lhe são aplicáveis as cláusulas de defesa coletiva e de assistência mútua previstas, respetivamente, no artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte e no artigo 42.º, n.º 7, do Tratado da União Europeia.
Esta distinção jurídica é fundamental. Portugal não assumiu, nem pode assumir, relativamente à Ucrânia, as mesmas obrigações de defesa que assumiu perante os seus aliados da NATO e os restantes Estados-Membros da União Europeia.
Condenar a invasão russa, prestar ajuda humanitária e defender uma solução diplomática não obriga, porém, a apoiar indiscriminadamente todas as decisões de Kiev, nem a assumir compromissos militares, financeiros ou políticos sem uma avaliação rigorosa dos custos, dos riscos e dos benefícios para Portugal. E é isso que nos interessa
A solidariedade internacional não pode ser confundida com a obrigação de participar num conflito, nem a condenação de uma agressão implica a adesão incondicional à estratégia do Estado agredido.
Na minha perspetiva, Portugal deve privilegiar a ajuda humanitária, a diplomacia e a procura de uma solução negociada, evitando sempre um envolvimento militar direto e avaliando com o máximo rigor qualquer apoio adicional, designadamente financeiro ou militar. Não por indiferença perante o sofrimento dos ucranianos, mas porque compete aos responsáveis políticos portugueses determinar, antes de mais, o que serve os interesses nacionais e quais os riscos que o País está disposto a assumir.
É isso que entendo por realpolitik e neutralidade pragmática: não uma neutralidade jurídica formal, nem a indiferença perante as violações do direito internacional, mas a recusa de transformar Portugal num ator subordinado a estratégias alheias, sem uma avaliação autónoma das suas consequências.
Afinal, o que está em causa para Portugal?
É aqui que regressamos ao essencial: o interesse nacional português.
O nosso país não é uma grande potência militar, não dispõe de recursos ilimitados e não pode assumir todos os conflitos internacionais como se a sua segurança estivesse diretamente ameaçada em cada um deles.
A nossa política externa deve assentar numa avaliação autónoma dos interesses nacionais, no cumprimento das obrigações internacionais efetivamente assumidas, na defesa do direito internacional e na capacidade de distinguir entre solidariedade, prudência e envolvimento militar.
Devemos preservar a relação transatlântica, cumprir os compromissos decorrentes da NATO e da União Europeia e manter uma diplomacia ativa, capaz de dialogar com diferentes interlocutores. Mas devemos igualmente evitar que a solidariedade com um país em guerra se transforme numa adesão automática a todas as suas opções estratégicas.
A questão fundamental não é saber se somos mais favoráveis a Kiev ou a Moscovo, se nos identificamos mais com a narrativa ocidental ou com a russa, ou se esta ou aquela posição é mais popular no nosso espaço político.
A questão é outra: que política serve melhor Portugal, protege os portugueses, reduz o risco de uma escalada militar e contribui realisticamente para uma paz duradoura?
Numa guerra que envolve uma potência nuclear, esta pergunta não é um exercício académico. É uma exigência elementar de responsabilidade política.
Não podemos esquecer que uma guerra prolongada tem custos humanos, económicos e estratégicos enormes; que a escalada militar comporta riscos difíceis de controlar; e que uma vitória militar proclamada politicamente pode não corresponder a uma paz sustentável.
Defender uma solução negociada não significa aceitar antecipadamente todas as exigências de Moscovo. Significa reconhecer que a diplomacia, por mais difícil que seja, tem de continuar a ser uma alternativa real à perpetuação da guerra. E este ponto é fundamental.
Enfim, não se trata de Direita contra Esquerda, nem de simpatias pessoais por este ou aquele dirigente. Trata-se de política externa, de responsabilidade e de interesses nacionais.
A condenação da invasão russa não nos obriga a abdicar do pensamento crítico. A solidariedade com a Ucrânia não exige um cheque em branco. E a defesa dos interesses de Portugal não pode ser confundida com cobardia, indiferença ou cumplicidade com a Rússia.
Após quase 4 décadas a servir o país como diplomata, continuo a acreditar que o realismo político, o pragmatismo e o bom senso não são sinais de fraqueza. São condições indispensáveis para uma política externa responsável.
É essa a posição que defendo. E é precisamente por considerar que a matéria é demasiado séria para ser tratada com ligeireza que me recuso a abdicar de a discutir com frontalidade.
Estamos a falar de problemas complexos de povos eslavos em vastos territórios da Europa Oriental. Não podemos minimizar nem simplificar estes problemas .
E sobretudo , no caso vertente: não confundir: moralidade (agir respeitando valores e princípios) com moralismo (julgar por esses mesmos valores).”
O meu comentário:
Portugal está a fazer o favor aos interesses do grupo E3. Especialmente a Alemanha, a Inglaterra e a a França estão interessadas na guerra porque favorece as suas ambições e interesses, e em especial a indústria da guerra, além disso estas potências premeiam pessoas de partidos do arco do poder português para bons postos em instituições internacionais. A guerra tem a vantagem para os governantes de ocuparem o povo com este assunto e assim distrair o povo de outros problemas graves que corresponderiam aos verdadeiros interesses portugueses. A guerra da Ucrânia não é nossa; é uma guerra geoestratégica e como tal do interesse da rivalidade entre as grandes potências. Além disso a conta da guerra depois dela fica em aberto porque um dia a Ucrânia quererá ser reconstruída e isso custará caro aos que colaboraram na guerra devido às destruições que provocaram impedindo também uma política diplomática de conversações e de paz!
António da Cunha Duarte Justo
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OPINIÃO EMBOTADA

Todos têm uma e é sempre a mesma:
a deles, sagrada, inegociável,
parida sem esforço e sem pai conhecido.

O argumento foi dispensado
por excesso de exigência.
Pensar doi, opinar, não.
Basta o “eu acho”,
essa pequena fricção solitária
a que o ego chama convicção.

Chamam-lhe debate cívico,
mas é onanismo em coro:
cada um de si para si,
mãos ocupadas, olhos fechados,
a gemer em voz alta
para que o vizinho saiba
que também ele está a gostar.

Ninguém convence, ninguém aprende.
Concluem-se, no máximo,
e saem da sala aliviados,
a limpar-se ao que sobrou da razão,
a jurar que foi encontro.

A pólis, esse grande balneário
de vaidades a esfregar-se,
tem mil cabeças e um só vício:
confundir o ruído que faz
com o pensamento que não teve.

(Opinião sem argumento
é vício de quem não pensa,
muito gesto, nenhum parceiro,
e ainda pede aplauso.)

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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DA IDEIA À VIRTUDE

Do pensamento à Palavra, da Palavra ao Gesto,
do Gesto à plenitude humana

Antes que a luz rompesse a noite escura,
antes que o tempo aprendesse a caminhar,
já a Ideia, em secreta gestação pura,
sonhava um mundo inteiro por criar.

No ventre do silêncio germinava
a forma do que ainda não havia
e o pensamento, em si, já anunciava
a Palavra que um dia nasceria.

E o Verbo fez-se carne entre os humanos,
ponte de amor do eterno ao temporal,
não veio apenas proclamar seus planos,
mas dar ao próprio amor forma real.

Porém, que vale a voz, por mais fecunda,
se a mão desmente aquilo que ela diz?
A Palavra só se torna mais profunda
quando o Gesto lhe dá corpo e raiz.

E quando o Gesto é justo e consciente,
quando o bem se faz hábito e atitude,
a verdade floresce socialmente
e o seu fruto mais nobre é a Virtude.

Pois ninguém se realiza em solidão,
nem há um eu completo sem um tu;
é no encontro que nasce a comunhão
e o brilho de cada ser se torna luz.

Tal como o amor trinitário é relação,
unidade que acolhe a alteridade,
também a vida encontra a perfeição
quando o agir se faz fraternidade.

A Ideia é mãe, a Palavra é claridade,
o Gesto é carne, a Virtude é plenitude,
e o ser só se realiza em liberdade
quando faz do amor a sua atitude.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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NÃO FAÇAS DA QUEIXA O TEU LAR

(Poema sobre a fragilidade humana e a sabedoria do quotidiano)

Não faças da queixa uma cantiga de realejo
que toca a desventura a cada ensejo;
nem dês ao desgosto tamanho poder
que até a alegria esqueça de se erguer.

O cérebro escuta, retém o que lhe chega,
repete o que ouve e ao que ouve se apega;
se o nutres de sombras, de fel e amargura,
até a manhã se torna noite escura.

Quem de tudo e de todos se queixa a cada hora
dá aos dias a isca que os rói por dentro e os devora;
e de tanto contar a dor sem se cansar,
faz do desgosto um destino que o vem a cativar.

A queixa é fumo que sobe e se espalha,
entra na alma, que turva e atrapalha;
quem dela se nutre, sem se aperceber,
aos outros só deixa mais cuidados a haver.

Há quem erga à mágoa um altar para durar
e obrigue quem passa a ficar a escutar;
não vê que o amigo, por mais que o estime,
também tem um peito que sofre e se oprime.

Não nego que a vida nos fira e magoe,
nem peço que a dor se esconda ou se escoe;
mas uma coisa é chorar para se erguer,
outra é fazer do pranto um modo de viver.

O passado não muda por ser remexido,
nem o presente cresce por ser mal-querido;
quem as feridas de ontem ainda vai polindo
perde o sol que hoje lhe bate à porta, sorrindo.

Pensar é trabalho, pede coragem,
quebra preconceitos, transforma a paisagem;
é mais cómodo dar ao mundo inteiro a culpa
do que pôr ordem no próprio quintal, sem desculpa.

Amar o próximo não é só estender a mão,
é não lhe despejar o entulho do coração;
é partilhar o peso e a ternura com tento,
sem fazer da amizade um sombrio aposento.

Ama-te também, dá ao teu espírito repouso,
não faças do desgosto um hóspede teimoso;
que a dor seja ouvida, mas nunca coroada,
nem reine sobre a vida que te foi confiada.

Se a sombra te visita, não lhe dês a coroa,
nem faças de um inverno uma eternidade que ecoa;
abre uma janela, deixa o ar entrar,
pois certa luz só volta se a deixarmos passar.

E lembra-te, ao falar, desta simples verdade:
cada palavra semeia tristeza ou claridade;
quem na paz interior encontra o primeiro abrigo
leva menos tempestades ao coração do amigo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

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