EM CADA ONZE SEGUNDOS HÁ UMA MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

O Martírio silencioso e a Urgência de ver e actuar

Um relógio humano marca, a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo. Este não é um dado estatístico distante é o ritmo de um sofrimento profundo que tece silêncios em pleno século XXI. Enquanto Estados se concentram em indicadores económicos e conflitos geopolíticos, uma violação íntima e brutal contra milhões de mulheres e meninas persiste, muitas vezes à sombra de tradições ou da indiferença.

Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres são frequentemente relegados para as franjas da discussão pública. A mutilação genital feminina (MGF) é talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. É imperativo que este tema saía da zona do tabu e entre na esfera da ação coletiva e da consciência emocional.

A Anatomia de um Sofrimento oculto

O que significa, na realidade, este martírio? Na Somália, as mulheres nascidas há três décadas são, em regra, mutiladas. A prática continua hoje. Na Guiné, persiste o “fanado”, um ritual de iniciação que viriliza a violência muito embora praticada por mulheres. As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, têm os seus órgãos genitais externos amputados, sem amnestesia, em condições precárias. A escala da violência varia: do corte do clítoris à extração total dos órgãos e à subsequente costura da abertura vaginal (infibulação), um procedimento com consequências devastadoras para toda a vida.

Este crime não conhece fronteiras. Na Alemanha, onde me encontro de momento e escrevo este artigo relatos documentados por Steffi Burmester, da Mädchenhaus Kassel, revelam um drama transnacional: famílias que viajam de férias para a Somália, Eritreia ou Djibuti e regressam com as suas filhas mutiladas. Em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob ameaça iminente de sofrer esta violência.

Ver a Pessoa para além do Número

Isto deveria falar também à nossa inteligência emocional coletiva que significaria a capacidade de transcender a fria estatística e conectar-nos com a realidade humana que ela representa. Não se trata apenas de “15.000 casos”; trata-se de 15.000 infâncias roubadas, 15.000 futuros marcados por dor crónica, infeções, traumas psicológicos profundos e complicações em partos.
Um pouco de humanismo  exige que ouçamos os detalhes que os números silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel: em família,  os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que mães, irmãs e avós demorem tempos intermináveis na casa de banho e vivam com dores constantes. Exige que reconheçamos o controlo social exercido através de chamadas telefónicas de familiares, onde avós e tias perguntam, veladamente, pela “visita” da criança, um eufemismo para a mutilação.

Entre a Tradição e a Lei é necessário o Caminho para a Proteção

A aceitação da MGF como “tradição” é um muro difícil de derrubar, sustentado por gerações de lavagem cerebral. Contudo, o respeito cultural não pode ser uma capa para a barbárie. A educação sexual e a informação são armas fundamentais. Se uma menina de cinco anos com mutilação genital chegar a um hospital, o silêncio dos profissionais não pode ser uma opção.
Felizmente, há luz na escuridão. Em Kassel, centros como a Mädchenhaus e o departamento de saúde da cidade trabalham há anos contra este ritual, oferecendo proteção e aconselhamento especializado. A lei alemã deu um passo crucial: desde 2013, o §226a do Código Penal pune a mutilação genital feminina com, no mínimo, um ano de prisão, classificando-a juridicamente como agressão física grave. É um reconhecimento de que o corpo das meninas não é propriedade cultural, mas um inviolável direito humano.

O Desafio para Portugal e para a Europa é não fechar os Olhos

A pergunta que se impõe é: As autoridades portuguesas, e europeias em geral, estarão preparadas para lidar com esta questão? Fazer vista grossa é cumplicidade. Fechar os olhos na Europa é fomentar a barbárie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural.

Proteger os mais fracos, as crianças,  é um imperativo civilizacional universal que exige:
– Legislação clara e aplicada, seguindo o exemplo alemão.
– Formação especializada para profissionais de saúde, educação e serviços sociais para identificar e agir perante riscos.
– Apoio e proteção às meninas em risco e às suas famílias, através de centros de aconselhamento e casas-abrigo.
– Campanhas de sensibilização dentro das comunidades, promovendo uma nova “tradição”: a da integridade corporal e do respeito pelos direitos das meninas.

De onze em onze segundos, o relógio avança. Mas a cada segundo que passa, temos a escolha de sermos cúmplices do silêncio ou agentes de mudança. Mover a inteligência emocional já não significa sentir apenas indignação perante oque aqui se escreve, mas permitir que essa indignação se transforme em voz, em pressão social, em apoio a quem luta no terreno.

O martírio pode ser silencioso, mas a nossa recusa em aceitá-lo não deve ser. Urge que este tema saia da sombra e entre na luz da ação política, do debate público e da proteção humana. A verdadeira tradição que devemos honrar é a da compaixão e da defesa intransigente dos indefesos. O tempo de fechar os olhos acabou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O DIABO ANDA À SOLTA

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do Ocidente

Vivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as realidades terrenas, uma elite global habita uma estratosfera de impunidade, um espaço “acima das nuvens” onde as regras que governam o povo não têm validade. Este distanciamento não é geográfico, mas moral. A condição sine qua non para esta existência etérea é a cogovernação com os oligarcas do poder, do capital, dos media e da cultura, uma simbiose que corrói os alicerces da civilização ocidental e que insista em continuar assim. O caso Epstein não é um desvio; é o sintoma terminal desta derrocada. Ele testemunha o fracasso abissal de uma casta que, sem um povo vigilante que a incomode, se permite tudo, investindo vorazmente na manipulação de consciências e Estados.

Deus é Povo e o Povo está adormecido

Há uma divindade secular negligenciada que se chama povo. Não apenas a sua representação política, falível e frequentemente incorporada, mas também a sua essência coletiva, crítica e moral. Enquanto ações humanas depravadas bradam aos céus, parece que Deus continua a dormir no povo, uma força potencial, mas anestesiada. A moralidade vigente “lá em baixo” não se aplica “lá em cima”, onde a depravação é normalizada sob o verniz do privilégio e um povo despido de si mesmo sempre a olhar para o céu à procura de estrelas. A dimensão do escândalo Epstein é tal que reduz as teorias da conspiração mais audazes a meros eufemismos. As suspeitas são a fumarada inegável de um incêndio moral de proporções civilizacionais.

O Furacão Epstein varre os Telhados e deixa ver o Círculo vicioso do Poder e do Brilho

A partir do momento em que figuras como Donald Trump ascenderam ao poder, uma tempestade de transparência forçada e de reação começou a varrer os altos escalões. O caso Epstein é o tsunami resultante. O seu mundo era o santuário da nata global: ex-presidentes (Clinton, Trump), magnatas (Gates, Musk), estrelas de Hollywood (Woody Allen) e membros da realeza (o Príncipe Andrew, Mette-Marit) e muitos outros da classe. Esta não era uma rede de promiscuidade banal, mas uma economia sombria que fundia altas finanças, política de alto nível e abuso institucionalizado. O mais revelador não é a mera associação, mas a continuidade dos laços mesmo após a condenação de Epstein em 2008. A luz cintilante do glamour servia de cortina de fumo para a mais profunda escuridão. São referidas acusações de pedofilia e tráfico de mulheres mas as evidências são fracas…

A Guerra das Narrativas entre Satânicos e Conspiradores

Neste vácuo ético, proliferam narrativas convenientes. A Rússia, sentindo-se visada pelas origens de algumas vítimas (muitas delas vinham também da Ucrânia!), aponta o dedo às “elites liberais satânicas”, retratando o complexo de Epstein como a falência moral das democracias ocidentais. Do outro lado, a grande imprensa europeia frequentemente minimiza o escândalo, enquadrando-o como uma mera “armadilha” conspiratória para semear desconfiança nas democracias liberais. Ambas as narrativas são úteis: desviam o foco da perversidade sistémica e da responsabilidade individual. Os papéis invertem-se, e os deuses mensageiros da nossa era, os media, como Hermes (o deus Mercúrio), guiam as almas do público num vaivém entre o Olimpo do poder e o submundo do escândalo, sem nunca permitir um julgamento final.

A Psicopatologia do Poder revela a Ponta do Iceberg

Está documentado: uma pequena elite global detém riqueza descomunal, e esse poder molda a psique, corroendo a compreensão das regras comuns. O caso Epstein é apenas a ponta visível de um icebergue de impunidade. Numa época de hiperinformarão e desinformação, cada um escolhe a parte da lógica que lhe convém, e o escândalo arrisca-se a ser soterrado no ruído. As elites protegem os seus interesses; sectores do povo agarram-se a moralidades selectivas; e o mecanismo perverso de entretenimento com escândalos distrai-nos a todos de olhar para o chão que pisamos.

A Guerra de Valores e a Porta para uma nova Era

Esta revelação é também uma arma na guerra de valores entre globalismo e patriotismo. A visão que a apresenta como foco em Trump não é inocente. Vivemos um conflito entre hemisférios cerebrais civilizacionais: um supostamente racionalista e global (esquerdo) e outro identitário e nacional (direito), em vez de uma perspetiva integrada. A pandemia e a guerra na Ucrânia funcionaram como portais para esta nova era de transformação mental e geopolítica. Em Bruxelas, Berlim, Londres ou outras capitais, os detentores do poder comportam-se com uma distância olímpica similar à dos associados de Epstein. Há que esconder a nova vertente do imperialismo que é a vertente do colonialismo mental.

Para onde vais, Humanidade?

A pergunta final é inevitável. Estamos a construir uma sociedade irrefletida, onde a perversidade se torna normalidade na ausência de ética. É o triunfo do ego desvinculado do “nós”. Curiosamente, as elites globalistas conseguem o feito perverso de reunir, nas suas fileiras, o pior do socialismo clientelar e do turbo-capitalismo predatório. Quando a imbecilidade anónima e a gestão técnica substituem a governação ética, os governantes transformam-se em meros administradores da decadência. Nada parece estranho, nada dá que pensar.

O Silêncio Português

E em Portugal? O silêncio da grande Media tradicional é ensurdecedor (1). A discussão vive nas redes sociais, enquanto a imprensa institucional parece adormecida. O caso Casa Pia, mencionado de passagem, nunca foi verdadeiramente esgotado. Este mutismo só pode significar uma coisa: o assunto interessa ou incomoda pessoas com poder também no ecossistema mediático português (o facto de o ser também no regimento de Bruxelas não desculpa!). Neste microcosmo, impera a mesma lei do silêncio que protege os deuses do Olimpo global. Entretanto, Deus continua a dormir no povo embora, de vez em quando, apareça algum anjo com insónias a querer acordá-lo. A questão que não se poderá colocar será “quando despertará”?!!!

António da Cunha Duarte

Pegadas do Tempo

(1) Quando o jornalismo (o Público) em ambiente de eleições tem o despropósito de fazer reclame com o “Não há volta a dar. O jornalismo é essencial nas escolhas” constata-se a atitude descarada que ele mesmo reconhece ao reconhecer o poder da manipulação que tem.

Para documentação detalhada sobre EPSTEIN, ver: https://contra-cultura.com/2026/02/03/horror-repulsa-e-revolta-parte-2-o-que-dizem-os-ficheiros-epstein-sobre-a-civilizacao-em-que-vivemos/

FOTOGRAFIA DA FERIDA

Há um número que me ocupa:
Dois milhões de carentes em terra lusa
a viver sob o fio da navalha.
Isto não é estatística, é um grito de ausências,
uma planta de barracas na alma da cidade.
Sinto, em ondas sucessivas,
o grande mar da pobreza invadir-me o espírito,
salgar de impotência cada respiração.

Dizem que existe um peso de ouro
que traça a fronteira final
entre a pessoa e a coisa (1).
Aquém dele, o mundo desaba em objecto.
E há um outro peso, menor (2),
que se renova com cada lua:
é a medida mensal do humano,
o limiar abaixo do qual
a vida perde o seu nome
e só a sombra gatinha.

Eu leio os relatórios frios,
os gráficos que sobem como paredes de sepultura,
e em mim cresce um verme,
um verme existencial que rói o alicerce
da fé na democracia.

Pergunto ao vento, que a todos toca por igual:
Como esperar brandura de uma balança
Onde um prato, leve como uma pena (3),
Pesa mais que o suspiro de milhões?
Onde mãos tão poucas seguram a espiga inteira,
onde o trabalho já não liberta,
mas condena à miséria disfarçada?

Vejo a política, esquerda e direita (4),
a discutir a margem do rio
enquanto milhões de seres humanos
se afogam no centro da corrente.

Sinto a solidão da criança, na barraca dos números,
a reforma que não chega ao fim do mês,
a mulher em que a dor coletiva mais toca.
E pergunto, na minha cela de homem confortável e atormentado:
Somos, de facto, lobos uns dos outros?
Fomos nós que desenhámos esta linha,
esta grande fronteira que divide os povos em dois:
os que têm, e os que são o terço ausente da própria vida?

Há uma inércia nos sistemas, um peso morto,
que faz da compaixão um discurso vazio
da misericórdia um luxo teórico
e do bem-comum um negócio político.
E eu, aqui, com as ondas deste mar dentro de mim,
não consigo mais distinguir
a minha tristeza da tristeza do mundo.

Que fazer com este fogo que não aquece,
com esta consciência que não levanta paredes,
mas as derruba sobre o próprio peito?
Escrevo então e grito em versos a náusea geral.
Faço da poesia a trincheira frágil
onde planto a pergunta que não cala:

Quando declararemos, juntos,
a única guerra santa digna do nome,
não contra um povo, não por uma visão de mundo,
mas contra a fria, persistente, intolerável
normalização da falta?

Talvez o verme que me corrói
seja a semente de algo que ainda não nasceu.
Talvez a dor que partilho neste papel
seja com a tua uma pedra de uma ponte.
Uma ponte feita não de cimento, mas de olhares,
não de decretos, mas de braços por fim arregaçados.

Se estas palavras te tocam,
é porque a ferida é uma só.
E a cura, se é que há cura,
começa no reconhecimento
silencioso e devastador
de que nenhum de nós é livre
enquanto um de nós viver
na sombra da injustiça.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©:

(1) As despesas médias familiares em Portugal rondam os 2.900, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer.  O limite para se poder viver seriam 1.378€

(2) Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.

(3) A nível mundial a tragédia ainda é pior! Cerca de 1,6% da população mundial possui quase 48% da riqueza global, enquanto mais de 40% da população detém apenas 0,6%. Os 10% mais ricos possuem cerca de 76-85% da riqueza. A maior parte da humanidade (quase 70%) possui menos de 8.400 a 8.500 euros (10 000 dólares americanos). Os 10% mais ricos possuem cerca de 76% da riqueza total. A maior parte da população mundial (quase 70%) possui menos de 8.400 euros.

(4) O risco de pobreza ou exclusão social em Portugal atingiu 19,7% em 2024, abrangendo cerca de 2,1 milhões de pessoas com destaque para a pobreza infantil e idosos, além de 49,3% dos adultos pobres estarem empregados pelo que o trabalho não garante rendimento digno.
Pobreza Infantil ainda se herda: 40% das crianças pobres vivem em agregados com rendimentos extremamente baixos (inferiores a 422€/mês), concentrando-se nas grandes áreas metropolitanas. Pobreza Monetária: Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.
As mulheres são as mais afectadas, isto é,56% em situação de pobreza são mulheres.
O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de  11% de desconto para a Segurança Social .

A DOM BOSCO PAI MESTRE DA JUVENTUDE E AMIGO

Hoje é dia de memória viva,
De um sonho que se fez pátio e jubilação.
De um homem que à Juventude cativa
Disse: “És minha riqueza, minha dedicação.”
“Dá-me as almas”, era toda a sua ânsia,
O resto? Folhas ao vento a voar.
Era a liturgia do amor na infância,
A santa missão de fazer brotar.

O seu sistema? Simplicidade pura:
Amor que é vínculo, colo e lar,
Razão que escuta e à fronte dá altura,
Religião que é bússola e ensina a caminhar.
Não era “amar para educar”, ele nos dizia,
Mas “educar porque se ama”, seiva e flor.
E eram os recreios uma sinfonia,
Sem a qual a escola é casa sem calor.

Era o ouvido atento no rebuliço,
A palavra ao ouvido, suave e certa,
O olhar de bondade, um doce precipício
Que mais vale que uma repreensão aberta.
“Que saibam que são amados!” Este o alicerce.
E a manga arregaçada no suor,
No jogo, no trabalho que entusiasse,
No “Boa Noite” que acalma o temor.

Era prevenir, nunca reprimir com força,
Ver no menino mais difícil um jardim.
Acreditar que a semente boa torça
E rompa o cimento que há em todo o limo.
“Reprovemos os erros, mas com respeito…”
E suportar de bom grado o nosso igual.
Esta era a sua pedagogia, o seu feito:
Um oratório aberto a todo o mal.

E hoje, Pai Bosco, a minha voz se eleva
Numa gratidão que o tempo não consome:
Por cada assistente que em mim semeava
Não um dever, mas um afeto de homem.
Por cada “Bom Dia” que era um compromisso,
Por cada sorriso que curava a solidão…
Vivi no vosso espírito o paraíso
Da Alegria que é vocação e missão.

Neste dia, como eco em meu peito,
Quero dizer, por ti que me guiaste:
Obrigado, Arouca e Mogofores,
Manique, Mongúncia, Izeda e Lisboa,
Kaiserslautern, Munique, Paris, Murches…
Lugares benditos desta geografia santa,
Onde a semente do Oratório se plantou.
Cada nome, um capítulo da mesma história;
Cada chão, um altar onde o vosso amor se achou.

Obrigado pelo pátio, pelo canto,
Pela família que me deste em herança.
O carisma salesiano, em todo o canto,
É a vossa eterna, jovem, confiança.
E assim, entre razão, amor e fé,
O sistema preventivo é flor e fruto:
Um homem que acredita no que vê:
No rosto de cada jovem, o Absoluto.

Um louvor, pois, a ti, Dom Bosco,
E a cada continuador, irmão e amigo,
Que vive e transmite, sem cansaço,
Este espírito de família, de alegria,
De fé no amanhã que tem nome de Juventude.
Um feliz e eterno dia de Dom Bosco

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Artigos que escrevi relativos a Dom Bosco:

Sistema Preventivo na Educação dos Jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

DOM BOSCO E A PEDAGOGIA DA ALEGRIA: https://antonio-justo.eu/?p=2675

PORTUGAL EM VOZ BAIXA

Falaram-nos de pátria, de abril e de estado
como quem ensina um hino
sem nunca explicar a letra.
Exigiram-nos credo, não pensamento,
um verso decorado, não um poema.
Exigiram cartão, não consciência,
um retrato sem rosto, uma assinatura sem nome.
Exigiram modos em fila, não perguntas
uma geometria de ombros curvados,
um caminho que não se bifurca.

Assim cresceu um país de vozes baixas,
onde pensar dói e discordar cansa.
Um povo treinado para escolher lados
para a cor da divisa, mas não rumos,
bom para defender cores
mesmo quando a tela apodrece.

O poder aprendeu cedo
que não precisava de censura,
bastava hábito.
Bastava chamar lealdade à obediência,
responsabilidade ao silêncio
segurança ao medo de mudar.

E o país foi-se habituando.

E nós, cansados,
aceitámos o roubo pequeno
como defesa do roubo grande,
a esperteza como virtude,
o, “paciência, que remédio”
como filosofia nacional.
Ladrão que rouba a ladrão
descansa melhor à noite
disseram-nos sempre
e o país foi-se deitando.

Nos corredores onde o tempo não entra
circulam os mesmos nomes,
as mesmas caras recicladas,
os mesmos discursos com gravata nova.
Mudam de lugar, não de intenção.
Temem o intruso não porque grite,
mas porque não deve favores
nem aprende o jeito certo de calar.

Chamam democracia
a um consenso viciado,
pluralismo a um coro afinado,
debate a um teatro onde o final
da peça já foi ensaiado e escrito.

E o povo foi treinado na espera!
O povo espera porque trabalha,
O povo espera porque envelhece,
O povo espera porque lhe disseram
que pensar é perigoso e mudar é radical.

Mas há um cansaço novo no ar.
Um silêncio diferente a crescer.
Não o da resignação,
mas o da pergunta que amadurece.

Talvez a rutura não venha
como grito, mas como recusa.
Recusa em fingir,
Recusa em alinhar,
Recusa em perdoar tudo
em nome do medo e da paz podre.

Talvez o primeiro gesto livre
seja olhar este país sem slogans
e perguntar, com voz inteira:
quem somos nós, para além daquilo
que nos ensinaram a repetir?

Porque um povo não se perde
quando erra ou falha.
Perde-se, sim,
quando deixa de pensar.

E pensar, hoje, faz doer
mas é o ato mais revolucionário
que ainda nos resta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo