A VOZ DOS OUTROS FALA NA NOSSA OPINIÃO MAS AFASTA A NOSSA VOZ INTERIOR

O moinho tritura o grão que deixa de ser semente para se tornar mero alimento

No nosso cérebro ressoam as vozes dos nossos familiares e antepassados, informações e imagens dos nossos meios de comunicação, etc.

São vozes, nada mais; vozes que moldam as nossas mentes e se expressam nas opiniões que, inconscientemente,  adoptamos pensando que são mesmo nossas!

O processo de informação e formatação faz lembrar os grãos (ideias) que entram na mó do moinho! Lembro-me de quando era menino ir levar o milho ao moinho da Pedra Má no rio Arda em determinado dia que nos pertencia. Então, sozinho, no casebre do moinho, sentia-me arrebatado pelo barulho repetitivo da mó que girava girava sem parar, movida pela água do rio Arda.

O cheiro do milho ralado e o cair da farinha transferia-me para esferas da imaginação que hoje, vistas de longe, me fazem lembrar a situação da sociedade e da opinião pública que nos move e mói.   Como os grãos,também  os nossos neurónios  cerebrais são  continuamente triturados de maneira a termos todos a mesma ordem de  pensamento e a fluir, quais rebanhos, a pastar na praça pública ideias bem penteadas e à moda do tempo.

E assim nos deparamos,  cada vez, com mais pessoas que são  da mesma farinha ou “farinha do mesmo saco”! O pensamento à esquerda ou à direita deixa de ser semente para se  tornar em farinha de engorda que difere apenas nos moleiros que alimenta!

A cultura da polis é como a da agricultura! Temos os agricultores e os fabricantes de ideias bem moídas de maneira a formatarem os grãos das ideias em opinião.

Assim, a voz dos outros se vai sedimentando sobre a nossa voz interior que, muitas vezes, morre atordoada pelo barulho do moinho ao redor. Deste modo, entramos em transe,   sem ouvirmos a nossa própria voz porque nos tornamos em meros altifalantes do gosto do tempo (da voz do moinho) que vai moldando as mentalidades de geração em geração. Estas repetem-se na ilusão de serem diferentes das outras…

O reinado do Covid-19 poderia ser uma ocasião para uma pausa, uma pausa para pensar e transpormos até as paredes do próprio pensamento; esta poderia ser a oportunidade  de nos possibilitarmos a ouvir a nossa voz genuína, a voz interior, que querer brotar no interior da nossa ipseidade.

O moinho tritura o grão que deixa de ser semente para se tornar mero alimento.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

MATRIZ SOCIALISTA MARXISTA NA BASE DA DISCIPLINA DE EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Não à Concepção materialista da História e à Colonização da Sociedade pela Ideologia do Progresso e do Eco-socialismo

 

Por António Justo

Diga-se sim, a uma sociedade plural, aberta às diferenças, à diferenciação, à complementaridade das ideias e das coisas sem excluir uma transversalidade de valores materiais e espirituais no âmbito individual e social.

Pela documentação oficial que pude ler em torno da disciplina Cidadania verifiquei muita competência e dedicação na elaboração dos documentos que, apesar de muita coisa louvável, não escapam a uma matriz de sociedade socialista marxista que se vai impondo sem que a sociedade note! Nas sombras dos corredores ministeriais, privilegia-se a forma técnica e o funcionalismo em prejuízo do caracter social participativo/inclusivo, seguindo-se o pressuposto de que “os fins justificam os meios”.

O objectivo que documenta (1), entre outros, é “Desconstruir os diferentes papéis socioculturais em função do sexo”, quando o que prioritariamente precisaria de ser abordado neste assunto era a matriz sociocultural vigente de maneira a poder tratar de forma inclusiva, a nível de matriz, o princípio (energia) da masculinidade e o princípio da feminilidade, em termos de complementaridade.

Tal como genericamente a identificação visual do sexo à nascença não será a única forma de determinar o sexo biológico também as funções sociais vigentes, inerentes ao modelo de sociedade em crise que seguimos, não são suficientes para ajuizar da determinação dos papéis e atitudes a assumir nela. Seria sinal de uma atitude retrógrada pretender-se construir novas atitudes e papéis sociais em função da ideologia materialista que se expressa também no programa Gender (Género); isto revela uma acção de reacção política (a nível de papéis) quando o óbvio seria uma acção coordenada no sentido de ingerência activa dos difrentes grupos sociais.

Ao mesmo tempo é de constatar que alguns princípios doutrinais assentam em pressupostos e em agendas internacionais interessados em formatar e controlar a liberdade do cidadão e da família, considerando para isso a família e a religião já não como fontes de educação, mas como factores de risco e, deste modo, objetos da educação estatal. O conflito identitário entre autoridade familiar e autoridade política encontra-se já programado e a ser implementado sem ter em conta a saúde mental e emocional do educando. É também antinatural e contra a essência do ser das instituições colocar-se a autoridade do Estado e a autoridade familiar em termos de conflito aberto… O que hoje não é feito no sentido da pessoa humana mais cedo ou mais tarde a revolta revela-o como erro.

A regulamentação pretende uma educação formal, imposta de cima; o objectivo declarado é que, já na pré-escola, as crianças saibam “distinguir diferentes expressões afetivas” (bissexuais, homossexuais, lésbicas, etc.); isto, nesta idade, pretende criar -se na criança uma consciência individual de caracter só mental, contra o desenvolvimento natural das faculdades imaginativas, afectivas e lúdicas (caraterísticas desta idade). O sistema já não se limita a controlar o que as pessoas leem e ouvem para passar a estruturar o cérebro das crianças de modo a ter um formato ideário socialista-marxista que facilite o trabalho das elites a atuar na nomenclatura de um governo universal futuro, como Nikita Khrushchev já profetizava (2).  Na China já podemos ter uma amostra desse sistema: oitenta milhões de filiados comunistas são suficientes para governar e administrar mais de 1400 milhões de habitantes.

Quer-se intervir já na idade mais tenra do desenvolvimento (cerebral) da criança de modo a fazer dela um produto cultural ad hoc com percepção meramente cerebral (contra o desenvolvimento natural integral).

Também as crianças têm direitos em relação a pais, estado e sociedade. O direito da criança a uma educação correspondente à idade é profanado em favor de interesses ideológicos políticos (aqui não se está interessado em salvaguardar os interesses e o bem da colectividade mas sim em privilegiar os interesses de grupos conotados da ideologia maoista e marxista (quer-se a construção de uma outra sociedade em nome de valores e direitos de caracter genérico). Pretende-se privilegiar a formação cerebral versus uma formação integral biológica, emocional e psicológica (inerente ao processo etário). Ao acentuarem a in-formação intelectual (meramente mental) afetam os processos mentais, como por exemplo, os processos da cognição e da emoção.

Ao mesmo tempo, a educação provinda do exemplo familiar é considerada de espírito tradicional (retrógrada) e por isso de submeter à formatação ideológica mental, no sentido do Zeitgeist efectivado pela geração 68 e agora concretizado em programa do Estado.

A nova matriz europeia, antropológica e sociológica, a implementar pretende criar um novo tipo de pessoa e de estrutura de valores político-sociais funcionalistas (filosofia utilitarista, mecanicista e materialista), mais conforme ao caracter asiático e árabe). Como na Europa o conceito de indivíduo e a consciência de pessoa se encontram já em conflito com instituições/jerarquias e interesses político-sociais, é do interesse do globalismo marxista e turbo-capitalista continuar o processo desvinculando-os da natureza (da biologia) e dos biótopos culturais (família/Estado/religião cristã) para mais facilmente ser possível a criação de um construto humano artificial baseado apenas nas potencialidades mentais abstractas  (mais aptos também para a manipulação ideológica).  Deste modo, o novo cidadão (produto artificial citadino) quer-se preparado para racionalmente poder legitimar “democraticamente” o surgir de uma nova cultura desenraizada da pessoa e do meio natural, de seus sentidos e da natureza (em vez de pessoa complexa, quer-se o “cidadão” abstrato,  a prole da polis (científica) deve substituir a prole familiar ou natural (uma ética racional simples deve substituir o lugar da religião); isto numa de cidade contra a aldeia, globalismo contra regionalismo e cultura contra natura ao gosto do que a ideologia gender já tenta aplicar. O controlo mental ou formatação sobretudo cerebral, possibilita posteriormente um produto cultural (cidadão) objecto de informação, tornando-o mais manobrável (um variável!) e capacitado para efectivar e legitimar, a longo prazo, uma sociedade que legalize um governo distante,  latifundiário universalista, e tudo isto sob a salvaguarda e o pretexto de educar para os direitos humanos universais (o princípio da universalidade passa a justificar a discriminação do princípio da diversidade dos biótopos familiares, culturais e regionais em prol da funcionalidade da polis e de forças anónimas globalistas). A luta contra a família e contra a religião é a consequência lógica de uma matriz cultural masculina (paternalista) que não tolera o aspecto da religião e da família que albergam ainda o princípio da feminilidade embora as estruturas em que se encontra alojado obedeçam a estruturas de caracter sociológico mais masculinas).

 

Os promotores de uma sociedade marxista/maoista veem no tipo antropológico e sociológico judaico-cristão ocidental um obstáculo ao seu intento, por isso consideram-no o principal objecto da sua luta.  O seu projecto de formatação de um indivíduo (tipo produto cultural) pautado pela filosofia marxista encontra, principalmente na religião cristã (um dos garantes da civilização ocidental) barreiras naturais intransponíveis  que mais motivam a luta agressiva e desesperada de activistas interessados, não no melhoramento da civilização, mas no caos e confusão a criar nela, minando para isso muitos dos seus valores e diabolizando, especialmente, tudo o que cheire a catolicismo (o catolicismo, por muito estranho que pareça atendendo ao seu aspecto institucional de expressão exterior masculina, é a instituição religiosa dentro das religiões monoteístas que melhor alberga e integra o princípio e a mística da feminidade na comunidade e na pessoa).

De notar que as ideologias e movimentos ideológicos (em especial as de conotação marxista), mesmo a pretexto da defesa da mulher, são, em geral, de caracter machista (ordem patriarcal, postas ao serviço da prepotência da energia/princípio da masculinidade). A ordem económico-social-política estabelecida produz activistas que nas  suas campanhas, a nível profundo, abusam da mulher (fixando o foco da sua actividade apenas no papel/aspecto funcional da mulher) para esta,  em vez de esta se empenhar e lutar por uma maior integração do princípio da feminilidade na matriz cultural, em que o princípio da masculinidade é o factor relevante, adoptar o princípio da masculinidade na sua estratégia tornando a luta ainda mais disfuncionalizada porque a própria mulher é instrumentalizada para, indirecta e inconscientemente incrementar a matriz masculina. Deste modo a luta dá-se mais no sentido de equidade de papéis no trato de homem e mulher e em desfavor da complementaridade dos dois princípios a nível do ser e como tal a luta da mulher, a longo prazo, fortalece paradoxalmente a matriz masculina!

Tal como na China a ideologia marxista quer paulatinamente submeter a religião à ideologia da crença monolítica de Estado (masculinidade pura!), não aceitando o princípio original cristão da soberania da pessoa humana (este princípio fundamental relativiza o poder absoluto de qualquer regime, Estado, ideologias e religiões enquanto instituições); na luta contra o cristianismo (a religião mais perseguida no mundo atual) une-se a ideologia capitalista liberal (Soros, etc.) à ideologia socialista materialista porque interessadas na criação de um tipo de sociedade formatada, autoritariamente de cima para baixo, de apenas consumidores de bens materiais e de ideias feitas; programam-se assim meros clientes e proletários para uma nova sociedade de mero consumo de mercadorias e de ideias.

Como fontes de valores e da moral bastará então recorrer-se (à sociologia) a estatísticas que tudo legitimarão, no sentido de uma “democracia” materialista regida apenas por uma pequena oligarquia com um grande aparelho administrativo controlador de uma clientela tipo proletariado. Suportam, no máximo, um cristianismo reduzível apenas a uma ética que então seja substituível pelo marxismo/maoísmo que, nesse caso, assumirá, com facilidade, tornar-se uma espécie de supraestrutura de caracter religioso.

A essência da sociedade e do cidadão deixará de ser orgânica para se tornar meramente formal e funcional (sociedade tecnológica).

É verdade que a sociedade que temos construído se tem afirmado de maneira controversa e manipuladora (instituições e elites à margem da filosofia e da pessoa como ser espiritual); menosprezam a alma e o espírito, a nível de pessoa e de comunidade e assim viabilizam ser infiéis à humanidade; mas as agendas ao gosto do tempo marxista em via prescindem até dessas potencialidades humanas vivas no povo para as reduzirem a princípios abstratos; a era socialista que agora se quer artificialmente impor nega a essência do Homem como ser espiritual, não querendo saber da sua ipseidade e do seu sentido metafísico. Negada a espiritualidade do ser humano é consequentemente negada a sua criatividade e liberdade de ser aberto; passa a legitimar-se então a sua instrumentalização à qualidade de ser mero objecto em função da ideologia e da sociedade (o cidadão gerado apenas pelos direitos que seu pai Estado lhe concede torna-se num pateta alegre inconsciente da  da pobreza da sua dependência: então, o porteiro da consciência deixa de ser Deus – perde a ipseidade – para se tornar o Estado no porteiro da sua consciência). Então o Homem deixa de encontrar a sua definição em si mesmo para ser definido a partir do exterior por uma forma de sociedade e em função desta (razão última do seu sentido individual!).

Torna-se indispensável uma discussão alargada na sociedade portuguesa, sobre o que está a acontecer sem que a consciência nacional o note, dado os governantes se terem desobrigado da discussão de tais temas, a pretexto de seguirem agendas e compromissos internacionais (basta-lhes para isso uma prática do levantar o dedo no parlamento, sem discussão pública, e depois deixar ao autoritarismo ministerial a função de implementar tais programas ideológicos sob o pretexto de se seguir a ciência e a maioria parlamentar: esta tática é mais observável em Portugal e em países de governo socialista como é o caso da Espanha e em Estados onde o povo está ausente, como acontece em África e na américa latina). Se observarem também neste proceder se torna constatável e notório o princípio masculino dominador: a masculinidade que transforma o povo em seu campo a ser sulcado pelo princípio da masculinidade!).

Atendendo ao biótopo cultural em que Portugal se encontra, torna-se legítima a exigência de uma pedagogia ancorada na filosofia e mística judaico-cristã com a correspondente imagem humana e social da liberdade cultural, da igualdade política, da fraternidade económica e do horizonte espiritual aberto, onde o Homem é princípio e fim, como se vê no seu protótipo Jesus Cristo.

Não chega para isso a nomeação, por superiores, de comissões de técnicos que elaborem princípios e estratégias baseados apenas em cientistas seguidores de doutrinas socialistas ou de um humanismo abstrato (a flutuar em águas ao gosto do tempo) sem incluir a necessária colaboração de todas as “forças vivas” da nação, na elaboração dos documentos e sua aplicação prática (seria aqui necessária uma estratégia feminina, criadora, de baixo para cima e não de cima para baixo!).

O problema não estará na escola nem na família, mas sim nos referenciais impostos a seguir. Em vez de se seguir os ditames da Constituição portuguesa (como referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=6087 ), uma parte restrita da sociedade portuguesa sente-se legitimada, a partir do miradouro do Parlamento,  a implementar  apenas o preâmbulo da Constituição que ainda considera a sociedade socialista como meta a atingir.  (Esta minoria até a nossa Constituição desrespeita, para endoutrinar a sociedade portuguesa na traição a si mesma; essa minoria, com voz altifalantada através de constelações de poder à la Geringonça, secundada por políticos conservadores fixados no seu momento e tudo apoiado pelos Media subservientes, aplanam os caminhos do modernismo materialista).

O facto de a disciplina “Educação para a Cidadania” ser motivada ou fundamentada nos Direitos Humanos não a iliba de análises crítica e muito mais quando se pressentem autoritarismos monopolistas do Estado (ou de outras procedências aninhadas nele). De boas intenções está o inferno cheio! A dúvida é o melhor crivo em relação ao certo e ao errado e uma boa companheira para se construir futuro; isto também em questões fundamentais como esta da educação de um povo!

 Aceitar a diferença, outras culturas, homossexuais ou bissexuais não implica a necessidade de uma formação única para tal: implica sobretudo o respeito da dignidade da pessoa e o direito de cada um elaborar a sua vida no sentido da sua felicidade e na aceitação da diversidade de grupos e de modos de viver diferentes. Para isso meio adequado encontra-se no âmbito cristão de quem o filho pródigo será o socialismo marxista.

Este artigo continua na próxima publicação com o título “Concepção materialista da História”

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

 

NÃO À EDUCAÇÃO PARA UMA CIDADANIA DE PERFIL MARXISTA E MAOISTA

A Disciplina de Cidadania reduzida a Aula de Religião do Estado?

António Justo

O secretário de Estado queria não deixar passar de ano alunos que faltem às aulas de Cidadania por razoes de objetores de consciência, mesmo quando ensinadas em termos marxistas de ideologia do género (1).

A tutela da Educação quer substituir os pais no direito de educar. Com as suas medidas vai contra a Constituição portuguesa que garante “a liberdade de aprender e de ensinar” e o direito insubstituível dos pais, ao determinar que “os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos” e mais, que o Estado deve “cooperar com os pais na educação dos filhos”. A lei fundamental também proíbe o Estado de “programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”; o artigo 41º da Constituição garante a liberdade de consciência, de religião e de culto, classificando-as como invioláveis e no número 6   do mesmo artigo consagra o direito à objeção de consciência.

Não é legítimo que um governo, seja de esquerda ou de direita queira formatar a sociedade segundo a sua ideologia. Seria um acto retrógrado querer criar infraestruturas ideológicas que deem sustentabilidade à crença da esquerda radical mesmo que para tal façam uso do subterfúgio de quererem cumprir normativas da ONU.

Respeite-se o direito escolar à informação sem usurpar o direito de formar o cidadão no sentido de uma só ideologia, como se dá na Turquia com o islão ou em países socialistas. Defenda-se o valor da diversidade em sociedade. Não é aceitável que uma instituição estatal se transforme num Olimpo de Deuses e se arrogue o direito da posse da verdade e da formação (formatação) da opinião. Não é qualquer cidadão que tem a posse de escolher o Estado onde viver nem o Estado tem o direito de impor qualquer ideologia ao povo. 

A função do Estado é apoiar não substituir (como bem dizem os bispos). Não está em causa a disciplina, mas a ideologia do género, a manipulação da sexualidade e a preparação das mentalidades no sentido de um estado socialista. Ao contrário de um Estado socialista como a China, em democracia ocidental, o Estado não usurpa para si a tarefa de uma doutrinação específica.

O direito à informação e ao conhecimento em todas as áreas do saber deveria ser um bem adquirido. É, porém, de rejeitar a opressão coletiva assumida por representantes do Estado que, para assumirem o poder total sobre o cidadão, façam uso do direito obscurantista de manter o monopólio da educação.

No intuito da selecção da informação os regentes querem também a selecção da formação em nome de valores mais altos, tal como faziam as elites de regimes passados. Seria cegueira intelectual e política criticar a união de religião e política do passado e querer-se hoje substituir a religião pela ideologia (por sua vez implementada na universidade em cursos servidores e não senhores) em compadrio com o Estado (o senhorio do regime político).

Em nome da democracia, da igualdade e da justiça social procura fomentar-se um modelo de educação que crie um perfil de cidadão ajustado à ideologia política de características da falhada União Soviética.

A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento não pretende instruir, mas sim modelar caracteres. Para se evitar tal risco é obvio que tal disciplina deva ser opcional.  Também o filósofo Immanuel Kant argumentava: „O ser humano é aquilo que a educação faz dele.”

Apesar de alguns contributos positivos que o socialismo trouxe para a sociedade, isto não legitima a esquerda radical a ter o direito de, através do Ministério da Educação, implementar uma consciência social de perfil proletário. Isto seria fatal para um país que deixado o autoritarismo de direita passou, com o 25 de Abril, a ser dominado pelo autoritarismo de esquerda. (O povo não tem culpa: ontem como hoje não nota nada devido à informação e educação respetivamente transmitidas!) A matriz de pensamento monolítico cuidada pelos nossos regimes políticos tem prejudicado Portugal.

É grave e cínico, em nome da liberdade democrática, quer-se um modelo único de educação em que o debate público se expresse nos moldes do monólogo da crença marxista como se não houvesse alternativa nem modelos que respeitem e valorizem a dignidade humana e a diversidade cultural.

O facto de o Estado querer assumir o monopólio de formar o cidadão é já uma coerção do cidadão abusiva e cínica. Por isso há uma petição Manifesto “Em defesa das liberdades de educação” para a salvaguarda dos direitos humanos fundamentais, constitucionais e legais (2) e que quem desejar pode assinar (link em nota).

O argumento do compromisso assumido por Portugal em acordos internacionais (3) na área dos direitos humanos torna-se num pretexto ratoeira para impor um modelo único no seguimento de um regimento centralista de inspiração chinesa e soviética. O respeito de formas e valores assumidas em convenções internacionais não implica necessariamente a educação do cidadão no sentido da filosofia marxista nem sequer no espírito da revolução cultural maoista.

Pretender tirar-se o direito de educação de “cada contexto familiar” com o argumento de que só o Estado garante igual direito à formação por parte de todas as crianças e jovens corresponde a ideologia comunista declarada contra a Constituição portuguesa e que os estados resultantes da queda da União Soviética já superaram.

Deixe-se a liberdade de crença e de educação a cada pessoa e a cada agregado social. As diferentes disciplinas do currículo escolar são imensamente diferenciadas e suficientemente informativas para que o Estado as deva manipular no sentido de uma disciplina da sua crença política mesmo que esta se queira justificar com o indulto de inclusão; as aulas de biologia (sexologia) não precisam de ser complementadas por aulas de ideologia social que se querem (nas intenções da ideologia do género: cultura contra natura)  contra a biologia.

A Defesa da Educação para a Cidadania, nos termos em que se expressa e querida pelo Ministério da Educação, é um serviço à censura e como tal ao obscurantismo ideológico.

O cidadão adulto, respeitador dos direitos humanos, da igualdade social e de oportunidades, não precisa de uma “religião” estatal.  Toda a instituição deve estar ao serviço do cidadão, da pessoa humana e respeitar a sua soberania. É abuso democrático e prepotência adaptar a matriz política à matriz monopolista, seja ela marxista ou islâmica.

Cidadãos atentos e críticos não se deixam reduzir a cães de guarda de qualquer sistema monolítico nem se empenham na defesa de nenhum cargo ou ideologia, mas para alertar no sentido de as instituições servirem, todas elas, o humano. Defenda-se uma sociedade natural, tipo floresta, com diferentes biótopos e em que todas as árvores cresçam livremente; não seria inteligente fomentar-se uma monocultura tipo eucaliptal que por muita utilidade que o eucalipto possa ter se passe a transformar a floresta natural numa floresta só de eucaliptos. Deixemos as árvores viverem em paz nos seus biótopos naturais!

A educação é como o Sol que estimula as energias de quem acaricia; o seu melhor fruto é a tolerância no sentido da ordem e se assim for feito teremos uma sociedade rica, múltipa e variada à semelhança do reino vegetal do planeta. O melhor estímulo para a boa educação é o exemplo, dos pais, dos superiores, dos governantes, da sociedade.

Não podemos permitir que o ensino seja pervertido numa educação, à margem do ser humano e dos sentidos cívico e pedagógico.

Não à globalização da mediocridade apagadora da diversidade e da diferença que pretende transformar a pessoa (aluno e estudante) num produto formatado e apto a pensar e agir de forma já não individual-pessoal, mas meramente mecânica e funcional que em vez de pessoas só precise de técnicos para funcionar.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

(1) https://rr.sapo.pt/2020/09/07/pais/d-manuel-clemente-passos-coelho-e-sousa-pinto-juntos-em-manifesto-pela-liberdade-de-educacao/noticia/205371/

(2) Petição Manifesto “EM DEFESA DAS LIBERDADES DE EDUCAÇÃO”: https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=LiberdadeEducacao

(3) “Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres, Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica (Convenção de Istambul), Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o Pacto Europeu para a Igualdade entre Homens e Mulheres 2011 -2020, Compromisso Estratégico para a Igualdade de Género 2016-2019, Plano de Ação para a Igualdade de Género e Empoderamento das Mulheres (CPLP 2017-2020), Recomendação CM/Rec(2010)5 do Comité de Ministros aos Estados-Membros do Conselho da Europa sobre medidas para o combate à discriminação em razão da orientação sexual ou da identidade de género”.

 

EDUCAÇÃO PARA A PAZ

SÓ HÁ UM POUCO DE PAZ

Não há nem nunca houve educação para a paz porque ela se encontra distribuída pelas diferentes ideologias, partidos e grupos de interesses!
Cada um considera-se em posse da verdade e em vez de a ver repartida também pelos outros julga-se no direito de impor a sua!
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Temo

250° ANIVERSÁRIO DO GRANDE FILÓSOFO HEGEL

Grande diálogo este que inclui nele a contradição

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu a 27 de agosto de 1770, em Stuttgart e morreu em Berlim em 1831 (14.11).

Hegel é um filósofo universal; o seu modelo de filosofia assenta todo ele na razão. Para ele “Tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional. O verdadeiro é o todo”.

Hoje vivemos num modelo de pensamento do “ou… ou”, um pensamento pombaleiro (em prateleiras) que chega a confundir a prateleira com o armário, a parte com o todo.

Não chega formar as pessoas só no sentido de um pensamento devocional, no seguimento de heróis. Importante é sentir-se em processo, num processo inacabado de contínua procura da verdade; diria que as certezas seriam as pedras em que colocamos os pés do pensamento na caminhada em procura do sentido, da verdade/realidade. De Hegel aprendi que tudo é processo, o mesmo que reconheci na teologia e na espiritualidade cristã que floresce na inter-relação pessoal que se expressa de maneira exemplar na fórmula trinitária.

Tudo é procedimento com sentido, não se perdendo no caos nem no acaso. Na dialética procura-se expressar a coisa e o seu contrário ao mesmo tempo (inclui nela a contradição). Assim a realidade é a-perspectiva e, como tal, pode ser sempre observada de uma perspectiva (ponto de vista) diferente. A realidade encobre sempre outros aspectos a descobrir nela! Por isso ela terá tantos rostos como há de humanos racionais.

Segundo o seu biógrafo Sebastian Ostritsch em entrevista (HNA, 27.08) e no seu livro “Hegel: O Filósofo do Mundo “, Hegel encontra-se na fila de Platão, Aristóteles e Kant. “Ele é um filósofo mundial porque pensa o mundo como um todo, não deixando de fora nenhum aspecto da realidade”… “Hegel afirma sempre considerar a sua própria perspectiva limitada. Ele obriga-nos a reflectir sobre as nossas próprias limitações a fim de as ultrapassarmos.

Todo o pensamento sério procura o inteiro. O todo também contém o que falta e a parte que a nossa perspectiva não consegue ver também faz parte dele. O zeitgeist de hoje tem medo disto e perde-se em particularismos e em sentimentalismos!

Para Hegel o pensar é um tipo especial de movimento. “quem se envolve com um pensamento ou conceito no sentido de Hegel e o pensa consistentemente até ao fim, nota que o pensamento muda, torna-se outro pensamento. Os pensamentos são móveis, começam a fluir e formam um contexto fora de si mesmos. Esta é uma experiência incrível”.

Ainda a respeito da limitação Hegel dizia: “Quem quer algo de grande, deve saber limitar-se. Quem, pelo contrário, tudo quer, nada, em verdade, quer e nada consegue”.  E avisava: “A necessidade, a natureza e a história não são mais do que instrumentos da revelação do Espírito”. Daí o muito repetido ditado hegeliano:  “o medo do erro já é o próprio erro”.

A filosofia de Hegel pretende interpretar toda a realidade nas suas manifestações de forma sistemática e integral.

O Prof. Dr Joaquim Teixeira, aposentado da Universidade Católica de Lisboa resume: “Hegel é um teólogo, que quis pensar a Trindade até ao fim… Mas não soube pensar a pessoa como descontínua, singular e única, irredutível ao Sistema. O pior erro foi a tematização do Espírito fora do elemento da Conscilência. Assim, a Wissenschfaft der Logik atraiçoou a Phänomenologie des Geistes. Seja como for, não é um ‘idealista absoluto” como o pintam. Esse é Fichte! Há, nele, muita fanfarra… Por isso, Husserl pôs à entrada do seu gabinete um letreiro que dizia: “Aqui não entra a Dialéctica”.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

In Pegadas do Tempo