VOLTANDO AO ACORDO ORTOGRÁFICO

 

Para pessoas que põem reticências ao AO e interessadas na discussão

Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, no jornal “Correio de Lagos” https://correiodelagos.com/opiniao/o-acordo-ortografico-ainda-nao-pode-ser-julgado/# , verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão; mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais visível, e não mais pacífica.

  1. O “argumento da escala temporal” é uma falácia de autoridade ao apelar para a História. Quando afirma que 20 anos são “extremamente curtos” perante “nove séculos”, ele está a cometer um sofisma. Este raciocínio é uma armadilha lógica que torna qualquer crítica eternamente prematura. Se 20 anos são curtos, 50 também o serão, e 100 também, porque a língua tem 900.

O que ele esconde com esta retórica é que a avaliação de um sistema não precisa de séculos. A coerência interna de uma língua avalia-se pela lógica, não pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, não preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se vão perder; posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortográfico tem vícios lógicos que são atemporais e que a retórica do autor tenta abafar com a névoa do “tempo histórico”.

  1. A “coerência interna” e o pecado da exceção (O “deus dará”)

O historiador deixa a coerência “ao deus dará”. Coerência interna é a relação previsível entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a relação morfológica entre palavras da mesma família (ex: eletricidade / elétrico). Se a língua não obedece a decretos, porque assume que obedece a este?

O Acordo Ortográfico, na sua aplicação prática, quebrou essa coerência em vez de a aperfeiçoar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: acção, ação), mas apenas quando não são pronunciadas. Contudo, na derivação, essas mesmas consoantes reaparecem porque são pronunciadas: escrevemos ação (sem ‘c’), mas escrevemos acionista ou acionar (com ‘c’? Não, espera, a regra é acionar sem ‘c’ também? Vamos a um exemplo mais claro: contacto, passou a contato em Portugal? Não, a regra diz que se a consoante for pronunciada, mantém-se. Então pacto mantém o ‘c’ porque se pronuncia? Com isto abre-se caminho à confusão.

O exemplo clássico é a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscilações caóticas. Como já referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=11083  o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimológica (com regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fonética superficial, mas cheia de exceções e casuísmos e empobrecimento das pessoas gramaticais. É exatamente o oposto de uma coerência interna, passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta análise técnica em nome de “já passou uma geração” é, de facto, deixar o rigor ao acaso.

  1. A confusão entre “sucesso de implementação” e “qualidade sistémica”

O autor do texto troca os campos semânticos propositadamente. Ele diz que não se pode chamar “fracasso” porque as pessoas estão a escrever de acordo com a nova norma. Mas isso é confundir adesão forçada com qualidade linguística.

A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja má. A questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. Perdeu-se a transparência etimológica (a ligação ao latim e grego, que ajudava na compreensão de palavras eruditas), perdeu-se a distinção gráfica entre palavras homófonas (ex: cesta e sexta já eram confusas, mas outras surgiram) e, sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfológica. Avaliar o sucesso ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e pedagógica é um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o enfrentasse, teria de admitir que a reforma é, na melhor das hipóteses, um mal que atenta contra a lógica da língua.

  1. O “tempo” não cura contradições lógicas

Por fim, a maior fragilidade da posição do historiador  é assumir que o tempo é uma espécie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma regra é internamente contraditória hoje, continuará a sê-lo daqui a 100 anos. As pessoas podem habituar-se à contradição porque o cérebro humano normaliza o absurdo, mas isso não faz dela uma boa regra. A História que ele invoca não é um juiz que absolve os erros; é um arquivo que os regista.

Quando ele diz que “a língua não obedece a decretos”, e simultaneamente defende que os decretos devem permanecer só porque foram aplicados, ele está a contradizer a sua própria premissa. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos perante uma língua em estado de “vida assistida”, não de evolução natural.

Em suma, o texto de Paulo Freitas do Amaral é uma magnífica peça de oratória para silenciar críticos, apelando à paciência histórica. Mas a verdade é que um linguista ou um filólogo sério não precisa de esperar 900 anos para saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o paradigma verbal, para a derivação sufixal e para a economia cognitiva da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente de “deus dará” – ou, pior, do “deus algorítmico” dos corretores ortográficos. Na qualidade de historiador Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que não faz parte da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da História não deve seguir o cunho político/partidário porque obedece a uma outra lógica.

António da Cunha Duarte Justo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

Anexo carta que redigi à Direcção do Jornal Correio de Lagos

Assunto: Refutação analítica aos pressupostos históricos e tecnológicos do Acordo Ortográfico

(Se o Jornal Correio de Lagos pretender contribuir para uma discussão mais objectiva pode publicar o artigo que se segue à refutação)

 

Prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral,  autor do artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado”.

Li com atenção o seu artigo, no qual defende que vinte anos são um período insuficiente para avaliar o Acordo Ortográfico e que as novas redes de informação e a digitalização vieram, naturalmente, consolidar a sua irreversibilidade. A sua prosa é, reconhecidamente, de grande fluência retórica. Contudo, como cidadão atento à coerência interna da nossa língua e à realidade dos factos digitais, sinto-me na obrigação de lhe endereçar uma contracrítica estruturada, que espero ver publicamente considerada.

Permito-me resumir os argumentos que contradizem a sua tese e que, a meu ver, revelam uma visão excessivamente complacente e determinista da reforma ortográfica:

  1. A falácia da escala temporal e a aceleração da História

Argumenta que 20 anos são “extremamente curtos” perante nove séculos de existência da língua. Este raciocínio, porém, constitui uma falácia de autoridade que torna qualquer crítica eternamente prematura. A verdade é que a condição material da História se alterou radicalmente. No passado, uma reforma dependia de gerações para circular através de livros impressos. Hoje, com a comunicação instantânea e a Big Data, produzimos em duas décadas um volume de texto escrito superior a todo o património dos nove séculos anteriores. Portanto, não só é possível avaliar o impacto da reforma, como temos a obrigação estatística e empírica de o fazer. O “tempo histórico” encolheu e a tecnologia não é uma desculpa para a inércia, mas um acelerador de diagnósticos.

  1. A confusão entre implementação forçada e qualidade sistémica

O senhor confunde, no seu texto, o sucesso da implementação com a qualidade intrínseca da norma. Que as crianças e os jovens escrevam segundo as novas regras é um dado meramente administrativo e escolar, não um atestado de excelência linguística. A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja intrinsecamente defeituosa. O cerne da questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (sim porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. E é factual que se perdeu a transparência etimológica, a ligação orgânica às raízes greco-latinas, e criaram-se novas ambiguidades homofónicas. O tempo não cura contradições lógicas; o facto de nos habituamos a elas, não as transforma em boas regras.

  1. A ilusão do “esquecimento” face ao Arquivo Digital Total

O argumento mais frágil apresentado  é o de que a nova geração “não tem memória” da grafia anterior, tornando o retrocesso impraticável. Ora, ao contrário das reformas do século XIX, hoje vivemos na era do hiper-arquivo. Qualquer jovem, ao pesquisar um texto de 1998 ou uma edição crítica de Camões, tem acesso instantâneo e lado-a-lado às duas normas. A tecnologia não apaga o passado; monumentaliza-o e torna-o perenemente acessível nos servidores. Portanto, a memória não é biológica, é algorítmica. E se a memória persiste digitalmente, a justificação para não se voltar atrás perde toda a força histórica.

  1. A tecnologia como agente de coerção, não de evolução orgânica

Afirma que “os computadores, os corretores e a IA trabalham naturalmente com as normas atuais”. Esta é uma inversão lógica perigosa. Um corretor ortográfico não é um fenómeno linguístico natural; é um acto de engenharia política e comercial. Se a Microsoft ou a Google atualizarem os seus dicionários para a norma anterior (ou para uma híbrida), toda a escrita digital mudará no dia seguinte. A tecnologia não é um agente de consolidação irreversível; é um agente de plasticidade extrema. Usar a tecnologia para validar o Acordo é como dizer que uma estrada de asfalto é irreversível porque os carros só andam nela, esquecendo que o asfalto foi posto por decisão humana e pode ser removido por outra decisão. A língua não “muda” porque o Word sublinha uma palavra a vermelho; a língua é coagida por uma interface, o que é historicamente muito diferente.

  1. A incoerência interna da reforma (o “deus dará” estrutural)

O artigo começa por dizer que “a língua não obedece a decretos”, mas termina a defender que o decreto deve permanecer só porque foi aplicado. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a implementaram. Estamos perante uma língua em estado de vida assistida, não de evolução natural. A reforma quebrou a coerência morfológica ao eliminar consoantes em alguns contextos, mas mantê-las noutros (nas palavras da mesma família), e criou caos nas conjugações verbais como adequar ou averiguar e empobrece a língua acabando propriamente com o vós. Isto não é evolução; é uma colcha de retalhos que um filólogo sério reconheceria como um atentado à lógica sistémica da língua.

Conclusão:

A sua visão, prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral, é a de um historiador que olha para o passado com saudade, mas que se recusa a olhar para o presente com rigor técnico. A avaliação de uma reforma ortográfica não deve ficar refém de uma paciência cronológica indefinida; deve passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva, da transparência etimológica e da economia pedagógica. E nesse crivo, infelizmente, o Acordo Ortográfico revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente do “deus algorítmico” dos corretores.

Não peço que o consideremos um “fracasso” por decreto, mas peço que lhe retiremos o véu da inevitabilidade histórica. A língua portuguesa sobreviveu a muitas mudanças, mas sobreviveu, sobretudo, porque houve quem as discutisse com lucidez e não as aceitasse como um destino cego. É nesse espírito de debate crítico que lhe apresento estas reflexões.

Com os melhores cumprimentos,

António da Cunha Duarte Justo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Artigo : Os Erros do Acordo Ortográfico no link: https://antonio-justo.eu/?p=11083

A ODISSEIA TRANSFORMADA EM MANUAL DE INSTRUÇÕES DE DOMÍNIO DA CULTURA OCIDENTAL

A Inversão do Mito e a Formatação do Pensamento Ocidental

Resumo

Este ensaio crítico propõe-se mostrar que, na leitura e interpretação de crónicas, como a Odisseia de Homero, ou o relato de Caim e Abel, na Bíblia, importa fazer uma distinção fundamental. Com frequência, essas interpretações negligenciam a análise da teoria do conhecimento que lhes subjaz e que, desde o início, as fundamenta. A sua reformulação não se reduz a um mero aditamento porque pressupõe um avanço epistemológico decisivo. Não se trata apenas de reconhecer, na “Odisseia”, o conflito entre o princípio organizador feminino e o masculino representado em culturas concretas, mas de denunciar a cristalização dogmática desse conflito. O que é verdadeiramente de assombrar não é o poema de Homero, mas o modo como a civilização ocidental o transformou, fazendo-o passar de um diário de bordo de uma transição civilizacional para um manual de instruções da dominação. Neste ensaio proponho-me desmontar esse mecanismo de inversão, alargando o olhar ao episódio bíblico de Caim e Abel, para, no final, esboçar uma via do conhecimento (hermenêutica) que devolva ao ser humano a capacidade de se confrontar com a realidade descritiva, em vez de se curvar perante uma atitude moralizante dominante que entroniza o poder estruturante.

O Diário e o Manual como a Dupla Face do Padrão

Quando Homero compôs (ou reuniu) a “Odisseia” (Ulisses), legou-nos um testemunho etnológico de primeira ordem. A epopeia descreve, em linguagem mítica, a violenta passagem de uma organização social de matriz feminina ctónica, centrada na deusa-serpente, na fertilidade da terra e nos ciclos naturais, para uma organização olímpica, celeste, diurna e patriarcal. Nesse sentido, o poema é um diário: regista a vitória do logos grego sobre o mito (mythos) indiferenciado, da paternidade sobre a maternidade arcaica, da astúcia do herói sobre a sedução imóvel da deusa.

Contudo, a tradição ocidental (e nela incluo não apenas a exegese literária, mas sobretudo a pedagogia social e os discursos de poder), não tratou este registo como uma descrição artística (que implica também a dúvida)  e transformou-o num manual. O “regresso a Ítaca” deixou de ser a narrativa particular de um guerreiro nostálgico para se tornar o imperativo categórico de todo o homem ocidental: dominar, subjugar, ordenar, e, acima de tudo, fazer calar o feminino, seja ele representado pelas sereias, por Calipso ou, no plano doméstico, pelas escravas enforcadas na corda.

A consequência prática é brutal: onde poderíamos extrair uma crítica ao herói (pois Ulisses é, afinal, mentiroso, cruel, desconfiado e profundamente inseguro), a moral dominante fez dele um modelo. O herói é absolvido a priori porque a sua função já não é representar uma humanidade em conflito, mas sim formatar a humanidade segundo o molde da virilidade guerreira de que Ulisses se torna modelo. Nesta interpretação da narrativa forçosa queimam-se as ambiguidades do diário para se erguer a rigidez inquestionável do manual. Ao optar pelo manual em detrimento do mito, perde-se a Verdade que lhe subjaz, substituindo-a por uma interpretação que se impõe acriticamente, sem nunca ser questionada.

A Moralização como Estratégia de Poder no Caso de Ulisses

Se encararmos a Odisseia como descrição, o juízo que recai sobre Ulisses é inevitavelmente dialético. Admira-se a sua astúcia (métis), mas condena-se a sua desmesura (hybris) e a sua crueldade “doméstica”. De facto, o episódio do enforcamento das criadas, que haviam sido violadas pelos pretendentes, é um dos silêncios mais gritantes da crítica literária convencional. Por que razão este acto não é lido como o pináculo da paranoia do poder, mas antes como “justiça restaurada”? Certamente porque importava impor uma matriz patriarcal.

A resposta reside numa certa intenção inconsciente e não declarada de formatar as pessoas. A moralização do mito serve um propósito político imediato: desvia a atenção da estrutura para o carácter. Em vez de interrogarmos a ontologia que permite ao senhor dispor da vida da escrava, somos convidados a julgar se a escrava foi “leal” ou “desleal”. O verdadeiro problema passa a não ser a estrutura jerárquica, mas sim a conduta dos indivíduos que a integram. A política actual  procura camuflar esta questão ao conferir funções de caráter masculino a mulheres que, imperceptivelmente, passam a servir o modelo androcêntrico, negando, desse modo, o centro feminino da sua própria identidade, pois, para se afirmarem, muitas vezes sentem necessidade de se mostrar mais belicosas do que os seus colegas homens. Este desvio para o domínio moral e para o puramente funcional (a pragmática do poder) constitui o mecanismo mais eficaz de domesticação das consciências, porque oculta o tecto de ferro da estrutura sob o véu da virtude. Não se concede tempo para refletir sobre as causas das guerras; exige-se apenas que se escolha um lado, e, para tal, instalam-se os mais refinados sistemas de formatação e controlo.

O Paralelo bíblico de Caim e Abel como Síntese da Luta Agrária contra a Pastoril

É importante focar aqui o episódio de Caim e Abel no que toca a uma antropologia económica. A narrativa bíblica (Génesis, 4) é, na sua camada mais arcaica, o registo de um conflito civilizacional entre dois modos de produção e de relação com o divino:

– Abel, o pastor, representa o nomadismo, a mobilidade, a oferta de gorduras e carnes, uma economia de apropriação directa, que agrada a um Deus que se move com o vento.
– Caim, o agricultor, representa a sedentarização, a propriedade da terra, o suor do rosto e a oferta de frutos, uma economia de transformação e espera, que exige um pacto com a imanência da terra. Para isso tinha que sacrificar a tradição para dar oportunidade ao novo desenvolvimento. Relevante é também o relato de Deus ter perdoado a Caim que matou o irmão e que tem certamente a ver com o equacionamento da história humana. Revela-se particularmente elucidativo o modo como a consciência humana, as dinâmicas sociais e os processos económicos se condicionam e interferem mutuamente no seu desenvolvimento.

O que a tradição judaico-cristã fez com este relato? Transformou-o, também ele, num manual moral: Caim é o mau, o invejoso, o assassino; Abel é o bom, o justo, a vítima sacrificial. Contudo, se o lermos como diário histórico, como seria normal fazer à Odisseia, vemos antes a vitória de uma determinada sociologia ou maneira de ser e de estar histórica (a do pastor nómada) sobre outra (a do agricultor sedentário), reflexo das tensões entre as tribos israelitas e os povos cananeus, que cultivavam a terra e adoravam Baal.

Ao congelar este conflito num juízo moral, a instituição religiosa realizou a mesma violência que a tradição homérica: submergiu a análise sociológica em julgamento ético. O povo, em vez de reflectir sobre a tensão entre o nomadismo e a fixação, entre a mobilidade e a propriedade, é levado a odiar Caim e a imitar uma obediência cega (a de Abel) que, curiosamente, o leva à morte. A história, assim, deixa de ser um campo de forças para ser um tribunal de intenções. Esta tradição é seguida hoje de maneira mais acentuada e que é impulsionadora do globalismo liberal onde o Mamon se tornou na energia masculina concentrada.

A História como Cimento do Poder e a Suspensão do Pensamento

O cerne da questão que se coloca e que toca o âmago da nossa crise civilizacional resume-se na seguinte questão: porque é que os povos fazem da História um instrumento de sedimentação do poder em vez de um exercício de autoconhecimento?

A resposta assue um caracter estrutural. O poder só se perpetua quando o tempo para pensar é escasso. A moralização instantânea (o “bom” Ulisses, o “mau” Caim) funciona como um fast-food epistemológico porque sacia a urgência do julgamento sem exigir o esforço da digestão hermenêutica. Ao oferecer um herói para imitar e um vilão para detestar, o discurso público (seja ele cinematográfico, ideológico, religioso ou mediático) encurrala a polissemia do real. A vida é polissémica porque uma mesma palavra ou narrativa assume significados distintos consoante o contexto. Daí a necessidade de recorrer à intercontextualidade para perceber o fio condutor que liga os textos e as realidades em que nos movemos. Esse fio é como um rio com duas margens complementares. De um lado, a materialidade e do outro, a espiritualidade. De um lado, a individualidade e do outro, a comunidade. É justamente na relação dinâmica entre o eu e o outro que flui o verdadeiro rio do nós.

O agricultor Caim e o pastor Abel não são “bom” ou “mau”; são duas respostas possíveis à dureza do mundo. Ulisses e as escravas enforcadas não são “justiça” e “traição”; são a manifestação nua de uma lógica de propriedade que reduz o Outro a coisa. Se aceitarmos a descrição, somos forçados a olhar para o abismo da nossa própria condição: descobrimos que carregamos em nós a pastoral e a agrária, a astúcia e a violência, o masculino dominador e o feminino subjugado. Daí resultam os diferentes discursos e ideologias que ao encerrarem-se em si mesmos

A Consciência das Duas Margens e o Verdadeiro Humano

Propõe-se, no final deste percurso, uma tarefa hercúlea: libertar o mito da sua prisão moral. Isso implica uma pedagogia da suspeita, onde cada narrativa fundadora seja lida contra a sua tradição interpretativa dominante.

Ser “verdadeiro da humanidade” – na sua bela expressão – não é escolher uma margem do rio para nela edificar a fortaleza do Eu. É, antes, reconhecer que a condição humana se joga na travessia, na consciência tensa de que a margem masculina e a margem feminina, a agrária e a pastoril, a ordem e o caos, a religiosa e a secular, coexistem em nós como forças vivas e contraditórias. A consciência individual e social ideal não brota da obediência a um manual, mas da coragem de viver o diário, ou seja, da coragem de ler Homero e a Bíblia como antropologias do conflito e não como cartilhas da submissão. Penso que para a civilização ocidental é chegada a hora de rever a matriz antropológica e de se ocupar com a fórmula trinitária abordada sem preconceitos e aplicada em diferentes vertentes.

Só quando o público deixar de engolir as narrativas impostas e começar a perguntar, não “quem é o herói?”, mas “que interesses serve esta heroicidade?” estaremos a caminho dessa humanidade desperta: uma humanidade em que o princípio masculino e o princípio feminino, o princípio material e o princípio espiritual se entrelaçam em empenho comum de compromisso em atitude de complementaridade.  O rio tem sempre duas margens, mas só o barco do pensamento crítico e da razão do coração nos permite navegar entre elas, escapando à corrente da propaganda e ao pantanal das areias movediças das ideologias e do moralismo.

Que este ensaio seja, pois, uma pequena contribuição para a construção desse barco.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

A TRINDADE OU A RELAÇÃO CRIATIVA DE TODAS AS RELAÇÕES

Se a Trindade é relação pura, isto é, a relação criativa de todas as relações, então o real não se deixa aprisionar em guetos disciplinares. Ciência, teologia e arte não são linguagens rivais, mas modos complementares de tecer o mesmo véu. Aparentes contrários como o empírico e o metafísico, o cálculo e o símbolo, a precisão e o mistério, não se anulam; antes, articulam-se numa tensão fecunda. Reconhecer essa complementaridade e o processo de acesso à realidade não é um gesto de conciliação ingénua, mas a atitude fundamental de quem se dispõe a olhar para a realidade sem a despedaçar em caixinhas separadas.

O conceito trinitário de Deus, definido como relação pura (relação das relações), oferece um paradigma teórico e arquetípico capaz de fundamentar a transdisciplinaridade. Nesse quadro, conciliam-se sob uma mesma matriz relacional os distintos regimes de apreensão do real: o científico, o teológico e o artístico.

A trindade como a relação das relações

No debate teológico, o conceito-chave reside na interpenetração mútua das três Pessoas divinas (pericorese), articulada à definição tomista de que, na Trindade, as pessoas são relações subsistentes. Se o Transcendente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) se definem como pura relação, então a realidade deixa de ser um conjunto de ‘coisas’ estáticas para se configurar como um tecido de conexões.

Quando se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para observar a mesma rede relacional.

O ponto de encontro dos modelos e das imagens

A nova física é indissociável de seus construtos teóricos (símbolos). Ademais, constitui um facto epistemológico incontornável que qualquer ferramenta utilizada para abordar a realidade recorre inevitavelmente a imagens.

No que toca a Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o electrão em si, nem a teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e imagens (como “ondas”, “partículas”, “spin” ou “campos”) para esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e mitos (como “Pai”, “Filho”, “Sopro-Espírito”) para delinear o mistério do Ser. (1)

No que se refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para decifrar as relações constituintes do universo.

Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?

Se esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a) do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou físicos;
b) da confusão de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível (como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).

Ao assumir a “relação das relações” como a base de tudo, valida-se que a ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise de anular a outra.

A física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à realidade.

O observador na física e na mística

Na física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o observador torna-se participante:

O Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade concreta (partícula). O real não está “lá fora” à espera de ser descoberto; ele coemerge com a observação. (3)

A Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O sujeito e o objeto fundem-se na experiência.

O resgate da imagem e do símbolo

A física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:

A Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas “imagens” como metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade irrepresentável.

O Ícone Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o observador interagir com o invisível.

A realidade como coocorrência

Penso que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade para se manifestar.

O “problema” metodológico desaparece quando compreendemos que a mística usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).

O físico e filósofo Bernard d’Espagnat, com o seu conceito de “Realismo Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a partir deste dinamismo e interdependência quântica.

A Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade de forma complementar através de um paradigma relacional e participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de relações. Por seu lado, tamb´ém a física reconhece  que não sobrevive sem recurso à simbologia.

Teologia do Processo: a dinâmica e o vir-a-ser da matéria

Inspirada na filosofia de Alfred North Whitehead, a Teologia do Processo abandona a ideia de um Deus estático que governa um universo mecânico. (4)

O nexo quântico: A realidade não é feita de “coisas” duradouras, mas de eventos e processos em constante atualização. Deus não opera por coerção, mas por atração e persuasão, oferecendo possibilidades a cada instante do real.

Integração com a física: Esta teologia encaixa-se na física quântica. Nela, o eletrão não é uma esfera sólida numa posição fixa, mas um evento dinâmico que colapsa e se atualiza a cada instante na sua relação com o ambiente. A matéria e o espírito pertencem ao mesmo fluxo contínuo de vir-a-ser. (5)

Teologia da Libertação: a relação encarnada na história e na práxis

A Teologia da Libertação foca-se na história concreta, nas estruturas sociais e na urgência da justiça. À primeira vista ligada apenas à política e à sociologia, ela conecta-se com este tecido universal por vias profundas. (6)

A práxis como observação: Tal como a física quântica provou que o observador altera o sistema ao intervir nele, a Teologia da Libertação defende que o conhecimento teológico não é neutro. Conhecer a realidade exige engajamento e transformação (práxis).

Integração com a física: Através da ecologia integral (como o trabalho de Leonardo Boff), esta corrente compreende que a opressão social e a destruição ambiental derivam do mesmo erro: o atomismo mecanicista clássico, que isola os seres humanos uns dos outros e da natureza. A libertação histórica é a restauração das relações justas em todas as escalas da matéria (7).

A Trindade Radical de Panikkar: a intuição cosmoteândrica

O teólogo Raimon Panikkar formulou o princípio cosmoteândrico, que propõe que toda a realidade se estrutura numa “Trindade Radical” indissociável composta por três dimensões (8).

O Divino (Teandrico): A profundidade infinita, o mistério e a abertura para o novo.

O Humano (Antrópico): A consciência, o olhar do observador que dá sentido e testemunha o real.

O Cósmico (Material): O tecido físico do universo, a exterioridade corporizada.

Integração com a física: Para Panikkar, Deus, o Homem e o Cosmos não são substâncias separadas. Eles estão numa relação de interpenetração mútua (pericorese ou advaita). A física não é excluída; ela é o rastreamento rigoroso da dimensão cósmica desta trindade estrutural (9). Sem a matéria (física), o mistério divino permaneceria desincorporado e a consciência humana não teria onde manifestar-se (10).

A síntese complementar e transdisciplinar

Estas três abordagens dividem o trabalho de decifrar o real sem anular o laboratório do físico:

A teologia do processo foca-se na metafísica do vir-a-ser e nela o tempo e a matéria são fluxos de eventos interligados num todo relacional e deste modo entra no diálogo com a Nova Física ao validar a natureza indeterminada e flutuante do vácuo quântico.

A teologia da libertação encara o processo da práxis histórica e social onde a relação exige compromisso ético e transformação sistémica. Deste modo supera o mito do observador neutro; o cientista molda o mundo em diálogo com a Nova Física.

A teologia de Panikkar foca a ontologia cosmoteândrica. O seu contributo relacional vê toda a realidade como constitutivamente divina, humana e cósmica. Por seu lado entra em diálogo com a Nova Física onde a física descreve a dimensão material da teia de relações.

O problema metodológico desfaz-se se adotarmos a transdisciplinaridade. A física quântica descreve a sintaxe da realidade (as regras matemáticas de como os campos e partículas se correlacionam). A Teologia do Processo descreve a sua dinâmica existencial. A Teologia da Libertação exige a sua ética relacional concreta. Panikkar oferece a semântica mística definitiva: tudo o que existe é uma relação das relações. Nenhuma delas anula a outra, pois são modos complementares de sintonizar a mesma sinfonia.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16662_4.PDF

(2) O manifesto: https://sites.usp.br/revistabalburdia/um-manifesto-pelo-fim-da-disciplinaridade/

(3) https://www.instagram.com/reel/DWmuighDkVI/

(4) Teologia do Processo: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/barroca,+A+teologia+do+processo+de+Whitehead.pdf

(5) Mecânica quântica e teologia: 2https://unusmundus.academiaabc2.org.br/mecanica-quantica-e-teologia/

(6) https://www.textoaureo.com.br/2023/3%C2%BA-trimestre-de-2023-adultos/li%C3%A7%C3%A3o-2-a-deturpa%C3%A7%C3%A3o-da-doutrina-b%C3%ADblica-do-pecado-din%C3%A2micas-e-slides

(7) Leonardo Boff: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_Boff

(8) A Racionalidade: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/40915

(9) Trindade Radical: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/admin,+Art+247+BJD.pdf

(10) Vida cosmoteândrica: https://ihu.unisinos.br/categorias/656498-semana-panikkariana-2025-raimon-panikkar-uma-vida-cosmoteandrica

BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA

A ameaça pairou sobre os canais de Veneza como uma névoa salobra, indiferente à beleza dos palácios e ao murmúrio das gondolas remadas. Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.

Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se “valores subversivos” contra “valores sagrados”, mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.

Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de “América acima de tudo”. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de “Valores democráticos da Europa acima de tudo”. É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.

É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não “democrático” na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.

O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.

E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo