MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA UMA SOCIEDADE QUE PERDEU O MANUAL

Humor Antropoginelógico

Há épocas em que a humanidade avança e há outras em que, com grande convicção científica, troca os mapas pelo GPS e depois culpa o satélite quando acaba no meio da floresta.

Vivemos, como se vê, num tempo de desconstrução. Desconstrói-se o pai, a mãe, a autoridade, o sentido… e, se sobrar tempo, reconstrói-se tudo com instruções do IKEA emocional: peça A (identidade), encaixar na peça B (função), ignorar parafusos (afeto). No final, falta sempre uma peça. Curiosamente, é sempre a que sustentava a mesa.

Eu proponho, com a devida modéstia e alguma irresponsabilidade científica, um novo conceito: a matriz antropoginelógica. Não é doença, ainda não tem código internacional, e provavelmente não será financiada por nenhum ministério. Mas soa suficientemente complexa para ninguém a contestar de imediato.

A ideia é simples: o ser humano não é um manual técnico, nem um algoritmo com mau humor. É um ser dialógico. Um conflito em potência. Uma dança entre aquilo que quer e aquilo que pode. Entre o impulso e o limite. Entre o “eu quero agora” e o “talvez não seja boa ideia”.

Tradicionalmente, e aqui entra a parte em que metade dos leitores começa a tossir, chamámos a isso masculinidade e feminilidade. Não como caricaturas biológicas, mas como funções simbólicas: estrutura e relação, limite e acolhimento, forma e conteúdo. Como café e chá. Ambos líquidos, ambos quentes, mas experimente trocar um pelo outro às sete da manhã e verá o que acontece à civilização.

Mas hoje preferimos outra abordagem: a funcional. Tudo é função. Tudo é papel. Tudo é substituível. O pai? Uma função. A mãe? Outra função. A criança? Um projeto em curso. E o ser humano? Um PowerPoint mal formatado.

O problema é que, quando tudo é função, ninguém assume responsabilidade. Porque função não sente culpa. Função não ama. Função não sofre. Função executa. E quando a função falha… abre-se um novo grupo de trabalho.

A isto junta-se a política do pensamento correto, que é correto sobretudo porque não admite discussão. E então, para evitar conflitos, eliminam-se símbolos. O pai torna-se suspeito. A mãe, um conceito em revisão. A autoridade, um abuso em potencial. E o resultado? Uma sociedade profundamente educada… e estranhamente ansiosa.

E isto porque o ser humano precisa de conflito simbólico para crescer. Precisa de uma figura que diga “não” sem pedir desculpa por existir. Precisa de outra que diga “sim” sem exigir um relatório de produtividade emocional. Precisa de tensão para gerar consciência.

Sem isso, o que surge não é liberdade, é desorientação com autoestima.

E então aparecem os novos arquétipos: não o pai autoritário, nem a mãe protetora, mas o algoritmo compreensivo que até se pode revelar como o melhor psicólogo. Este nunca julga, nunca exige, nunca contradiz. Apenas sugere. E aprende consigo, o que é uma forma elegante de dizer que o substitui lentamente.

Estamos a criar, com grande entusiasmo progressista, um superego que não proíbe… mas vigia, que não orienta… mas classifica, que não educa… mas recomenda conteúdos semelhantes.

E no meio disto tudo, surge uma nova figura sociológica fascinante: o homem soft. Não é masculino nem feminino, é editável e adaptável. É um ser que evita conflito como quem evita glúten. Que prefere não ter opinião para não correr o risco de ter de defendê-la.

Mas atenção: isto não é emancipação; é desorientação bem vestida.

Porque a verdadeira emancipação não elimina tensões, integra-as. Não destrói símbolos, transforma-os. Não ridiculariza o que veio antes, compreende-o e acrescenta-o.

A masculinidade, no seu melhor, não é dominação; é estrutura. A feminilidade, no seu melhor, não é submissão; é relação. E entre ambas nasce algo raro hoje em dia e que se chamaria consciência com coluna vertebral.

Sem isso, temos uma sociedade muito sensível… mas incapaz de decidir; muito inclusiva… mas sem critérios e muito livre… mas sem direção.

E talvez, no fim, o mais irónico seja que, ao tentar libertar o ser humano de todas as estruturas, criámos a estrutura mais rígida de todas, aquela que não pode ser questionada.

Por isso, talvez valha a pena reconsiderar.

Não para regressar ao passado, mas para recuperar aquilo que o passado sabia e que o presente esqueceu com grande convicção: que o ser humano não se constrói por eliminação… mas por integração.

E que, no fundo, uma boa sociedade é como um bom cabaret: tem humor, tem conflito… e ninguém sai exatamente igual ao que entrou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O MERGULHO

Nas pausas mora o que não cabe no dia,
aquele branco entre palavras onde a mente,
desatada do peso da aparência,
sobe, como ave ou fumo, levemente.

A casca é sempre mais ruidosa que a seiva.
O mar que se exibe à superfície guarda
nos seus porões de luz oblíqua e fria
o coral que nenhuma tormenta abala.

Quem só conhece o vento conhece o medo,
esse pânico gentil de ser levado
para longe de si, como folha ou vela
que ignora o que é ter raiz e ter calado.

Mas o mergulhador aprende cedo
o paradoxo limpo das profundezas.
Quanto mais desce, menos o mundo pesa
e ele, mais consciente, enfim, começa.

Não é valentia esta descida,
é apenas a recusa de flutuar
entre aparências que o rumor anima
e ventos que nos chamam pelo nome errado.

Suspender a corrida, parar. Só isso.
Deixar que a tua sombra te preceda
e reconhecê-la, afinal, como tua,
essa é a única maré que te liberta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo ©

PARA ALÉM DA SOCIOLOGIA

Os Limites da Análise de Roxana Kreimer e a Exigência de uma Matriz Antropológica Integral

António da Cunha Duarte Justo

Resumo

O presente artigo propõe uma análise crítica aos fundamentos argumentativos da obra “El patriarcado no existe más” (2020), de Roxana Kreimer. Partindo do mérito da sua crítica empírica a certas vertentes do feminismo, identificam-se as limitações conceptuais e metodológicas que condicionam as suas conclusões. Argumenta-se que Kreimer se circunscreve a uma análise predominantemente sociológica e formal, negligenciando as dimensões estruturais, simbólicas e ontológicas que constituem o cerne da dominação patriarcal. Ao confundir igualdade formal com igualdade real e ao apoiar-se em generalizações antropológicas e biológicas questionáveis, a autora acaba por desconsiderar a persistência de uma matriz masculina que estrutura profundamente a sociedade. Em contraponto, esboça-se a necessidade de uma abordagem que supere os reducionismos sociológico e biológico, propondo uma matriz antropológica integral, de raiz filosófico-cristã, que reconcilie o feminino e o masculino como pilares constitutivos e indistintos da definição plena do ser humano.

  1. Introdução: O Desafio Empírico ao Feminismo Maximalista

A obra de Roxana Kreimer, “El patriarcado no existe más”, insere-se num crescente corpus de literatura que questiona, a partir de dados empíricos, a validade contemporânea do conceito de patriarcado. O seu mérito inicial reside na contestação de certas versões maximalistas do feminismo, que, por vezes, operam com generalizações que a realidade social, na sua complexidade, parece desmentir. Ao recorrer a estudos transnacionais de larga escala, como o de Stoet e Geary (2019) envolvendo 134 nações, Kreimer expõe assimetrias nos desafios enfrentados por homens e mulheres, sugerindo que a narrativa de uma dominação masculina unívoca e global é, no mínimo, insuficiente para explicar fenómenos como as desvantagens masculinas em 91 dos países analisados.

No entanto, é precisamente neste ponto que a solidez da sua argumentação começa a fragmentar-se. A sua análise, embora ancorada em dados, revela-se metodologicamente limitada e conceptualmente frágil, operando uma redução do problema a variáveis quantificáveis e a uma leitura superficial das estruturas de poder. O presente texto pretende desconstruir os pilares dessa argumentação, demonstrando que a conclusão de Kreimer,  a negação da existência contemporânea do patriarcado, depende de escolhas epistemológicas que ignoram as dimensões estruturais, simbólicas e antropológicas da questão.

  1. A Armadilha do Formalismo: Entre a Sociologia Descritiva e a Cegueira Estrutural

O primeiro e mais grave problema da análise de Kreimer é a confusão entre igualdade formal e igualdade estrutural. A autora constata, com razão, que as mulheres têm, no mundo ocidental, acesso legal generalizado às mesmas instituições que os homens, como, educação, mercado de trabalho, cargos políticos. Deste facto, infere uma tendencial superação do patriarcado. No entanto, esta inferência ignora que as estruturas de poder não se limitam ao seu aspeto legal ou institucional. Elas são constituídas por uma teia complexa de normas informais, expectativas sociais, redes de influência e um capital simbólico que perpetua a hegemonia de uma matriz cultural masculina enraizada na História.

Kreimer limita-se a uma leitura sociológica descritiva: as mulheres já ocupam certos espaços, logo, a exclusão foi superada. Não questiona se as regras do jogo, os critérios de avaliação, os modelos de liderança e os valores que estruturam esses espaços permanecem inalterados e profundamente marcados por uma lógica masculina. Ao fazê-lo, reduz a questão da presença feminina a uma mera questão de proporcionalidade numérica em profissões ou cargos hierárquicos, ignorando que a mulher é chamada a integrar-se num mundo desenhado à imagem e semelhança de um ideal masculino, sendo-lhe exigida uma adaptação que não questiona o modelo em si. A sua visão fica-se pela constatação de uma diferença no “estar” social da mulher, sem inquirir sobre as condições profundas desse “ser” num mundo estruturalmente androcêntrico.

  1. Preferências, Biologia e o Espectro do Reducionismo

Para sustentar a sua tese da agência feminina livre, Kreimer recorre a argumentos sobre preferências inatas, citando a maior propensão média das mulheres para profissões que envolvem cuidar de pessoas e dos homens para trabalhar com objetos e sistemas. Apoia-se, ainda, na biologia evolucionista para explicar tais diferenças.

Esta abordagem é metodologicamente arriscada e filosoficamente redutora. Em primeiro lugar, invocar a biologia evolucionista para justificar escolhas profissionais complexas no século XXI é um salto interpretativo que desconsidera o peso avassalador da socialização e da cultura na formação da subjetividade. Mesmo que existam predisposições biológicas, a forma como elas são interpretadas, valorizadas e canalizadas é sempre mediada por um contexto cultural que é, ele próprio, herdeiro de uma divisão sexual do trabalho milenar.

Em segundo lugar, ao apresentar estas “preferências médias” como prova da liberdade de escolha num contexto pós-patriarcal, Kreimer ignora o conceito de habitus de Bourdieu: a interiorização da estrutura social objetiva sob a forma de disposições subjetivas. Ou seja, as preferências podem ser precisamente o produto de séculos de condicionamento, e não a sua superação. A sua análise, ao ficar-se pela superfície das escolhas, não escapa a um reducionismo que é simultaneamente biológico (ao naturalizar preferências) e sociológico (ao descrever estatísticas sem lhes inquirir a génese). Fica, assim, refém de um dualismo que uma abordagem filosófica mais profunda deve precisamente superar.

  1. O Conceito de Patriarcado: Entre a Definição Jurídica e a Matriz Simbólica

A própria definição de patriarcado que Kreimer operacionaliza é limitada e desfasada do uso filosófico e feminista mais sofisticado. Ao defini-lo como um “sistema que autoriza os homens a explorar as mulheres”, a autora reduz o conceito a uma dimensão quase jurídica e contratual, que pode ser facilmente desmentida pela constatação de que tal “autorização” formal já não existe no Ocidente.

No entanto, o patriarcado, na tradição do pensamento crítico, é entendido como uma matriz cultural e simbólica profunda, uma estrutura de poder que se reproduz capilarmente, através da linguagem, dos símbolos, dos afetos e das hierarquias invisíveis do quotidiano. É um sistema que domina até à “medula”, moldando homens e mulheres, sacrificando ambos a um ideal de desempenho, de poder e de subjetividade que é unilinear e excludente. Ignorar esta dimensão estrutural leva a que fenómenos como a violência doméstica e o feminicídio, que apresentam padrões assimétricos persistentes e transversais, sejam lidos fora do seu contexto sistémico, perdendo-se a inteligibilidade da sua gravidade específica.

  1. Para uma Matriz Antropológica Integral: Superando o Reducionismo

É neste ponto que a perspetiva que aqui proponho se distancia e se pretende complementar e superar a de Kreimer. A sua análise, confinada aos dados e à superfície do social, não alcança a questão fundamental: a da própria definição do humano. O problema não é meramente a desigualdade de acesso a estruturas feitas por homens, mas a própria natureza dessas estruturas, forjadas a partir de uma visão antropológica unilateral.

O projeto científico e filosófico que aqui se anuncia propõe uma rutura com este paradigma. Não se trata de um feminismo superficial que visa reduzir as diferenças à influência cultural (reducionismo sociológico), nem de uma visão essencialista que as fixa biologicamente (reducionismo biológico). Trata-se, isso sim, de partir para uma antropologia filosófica fundamental, ancorada numa filosofia cristã que transcende o estritamente religioso para se afirmar como via de acesso à compreensão integral do ser.

Esta perspetiva reconhece as diferenças biológicas e as predisposições inatas, mas insere-as num quadro ontológico mais amplo. O objetivo não é a mera integração do feminino num mundo masculino, mas a superação desta própria dualidade excludente. Propõe-se, assim, uma matriz integral onde o feminino e o masculino não são apêndices ou papéis sociais, mas pilares estruturais e indistintos da própria definição do ser humano. É uma refundação antropológica que implica uma nova epistemologia, uma nova ontologia e, consequentemente, uma nova sociologia, capaz de ler para além dos números e de vislumbrar a tessitura profunda da nossa humanidade partilhada, numa perspetiva que supera o dualismo e o reducionismo das abordagens exclusivamente sociológicas.

Conclusão

Roxana Kreimer oferece uma crítica pertinente a certos exageros do discurso feminista, mas a sua obra é vítima de um positivismo ingénuo e de um formalismo jurídico que a impede de ver a persistência do patriarcado como matriz cultural e simbólica. Ao confundir a descrição de superfície com a análise estrutural, a autora não só falha o alvo como corre o risco de legitimar, involuntariamente, o status quo. A sua análise, embora útil como ponto de partida, demonstra a insuficiência de uma abordagem puramente sociológica para um problema que é, na sua raiz, ontológico. A superação da ordem vigente exige, por isso, um mergulho mais profundo: uma reformulação da própria antropologia que nos permita, finalmente, edificar uma sociedade onde o humano possa ser vivido na sua plenitude, para além das prisões de género e dos reducionismos de qualquer ordem.

© Pegadas do Tempo https://de.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Justo

ANTROPOGINECOLOGIA: A ANTROPOLOGIA INTEGRAL PARA O SÉCULO XXI

Uma proposta que visa superar a visão antropológica unilateral, integrando o feminino não como apêndice, mas como pilar estrutural da definição do ser humano

Antropoginecologia – base etimológica da definição

O termo é composto por:

Anthropos (ἄνθρωπος), o ser humano, considerado na sua totalidade, não como categoria biológica, mas como ser pensante, sensível e capaz de estabelecer relações

Gynaikа (γυναίκα), a mulher, mas num sentido mais amplo: o princípio do feminino como categoria epistémica, não apenas biológica

– Logos, a doutrina, a reflexão sistemática

«Antropoginecologia» seria, portanto, literalmente: a doutrina do ser humano que compreende o feminino como parte constitutiva da própria humanidade, não como complemento, não como caso especial, mas como dimensão estruturalmente necessária de qualquer antropologia completa.

Mais do que uma questão de género, trata-se de uma questão de estrutura: ver como a inclusão do princípio feminino redefine o que chamamos de “ser humano” (ontologia) e amplia a nossa noção de humanidade e a nossa compreensão sobre ética, cuidado e transcendência.


O verdadeiro problema: a definição funcional do ser humano

A história intelectual ocidental desde Aristóteles a Descartes e às ciências sociais modernas, definiu o ser humano principalmente através das suas funções:

– como animal racional (animal dotado de razão)

– como homo faber (o criador)

–  como homo oeconomicus (o calculista racional)

Essas definições não são neutras. Elas privilegiam sistematicamente as dimensões da existência humana que historicamente foram atribuídas ao domínio masculino: racionalidade, produção, autonomia, linearidade.

O que foi estruturalmente omitido não é casual, mas sim sintomático: o cuidado, a relacionalidade, a incorporação, a ciclicidade, o dar à luz e a preservação da vida, dimensões da experiência que, embora não sejam biologicamente restritas às mulheres, foram historicamente codificadas como femininas e epistemicamente desvalorizadas.

Como resultado temos uma antropologia com uma lacuna sistemática: ela não descreve o ser humano, mas uma determinada construção historicamente dominante do que é ser humano que se poderia denominar de matriz masculina.

No feminino estrutural não se trata de “coisas de mulher”, mas de um princípio antropológico (características específicas do ser) que é negado ou subordinado na visão antropológica tradicional.

 

O que a antropoginecologia poderia alcançar

Tal disciplina não seria um contraprograma, nem uma inversão da hierarquia. Seria uma tentativa de completar a própria imagem do ser humano.

Concretamente, isso significaria:

  1. Epistemologicamente, uma ampliação das fontes de conhecimento: não apenas a abstração e a análise como acessos privilegiados à realidade, mas também o conhecimento incorporado, a compreensão relacional, o conhecimento que surge do cuidado, do lidar com a vulnerabilidade, do ritmo da vida.
  2. Ontologicamente, uma nova questão fundamental: o que é o ser humano, se o definirmos não principalmente pelo seu desempenho, mas pela sua capacidade de relacionamento? Não o que ele pode fazer, mas quem ele é em relação com/aos outros? O feminino não é apêndice do humano, é sim a sua matriz esquecida. Incluí-lo estruturalmente não é concessão moderna nem cortesia social. É acto de reconhecimento ontológico: o ser só é integral quando abraça a dualidade que o constitui. O masculino que rejeita o feminino dentro de si torna-se unidimensional; o feminino que não é acolhido como estrutura permanece é sombra a reclamar corpo.
  3. Eticamente, uma mudança de escala: da autonomia para a interdependência como categoria fundamental. O ser humano não como um indivíduo soberano que estabelece relações, mas como um ser que surge da relação e permanece nela, mas mantendo a sua personalidade numa dinâmica de desenvolvimento entre mesmidade e ipseidade.
  4. Cultural e politicamente, uma reavaliação do que é considerado socialmente valioso: não apenas o visível, o mensurável, o produzido, mas também o que preserva, o invisível, o que torna a vida possível.

 

O específico desta abordagem

Neste ensaio quero apresentar o que distingue a minha linha de raciocínio das abordagens feministas ou de teoria de género existentes e que é certamente um passo decisivo: não se questiona «Como é que as mulheres podem ganhar mais espaço no sistema existente?». Isso seria integração sem transformação. Pergunta-se: «O que falta ao sistema na sua essência, uma vez que não consegue conceber uma dimensão fundamental do ser humano?»

Esta é uma questão antropológico-sociológica e não meramente política. E é precisamente aí que reside o fulcro da mudança: o ponto de partida não é a injustiça como problema social, mas a incompletude como problema epistemológico.

Uma antropologia que exclui estruturalmente o feminino não descreve erroneamente metade da humanidade, descreve erroneamente o ser humano. E na consequência também o homem.

Uma reflexão final

A tarefa essencial e mais profundas da Antropoginecologia

Talvez a provocação mais profunda da sua abordagem reside no facto de ela libertar ambos os sexos: o homem, preso numa antropologia puramente funcional, perde algo tão essencial como a mulher, que é excluída dela. Uma antropologia completa não seria um ganho para as mulheres à custa dos homens, seria um ganho de humanidade para todos.

O modelo cristão da Trindade, numa sua leitura filosófica a explorar e não meramente teológica, oferece, na verdade, uma gramática ontológica que se estende muito para além do contexto religioso. Sobre o assunto encontram-se artigos meus em http://antonio-justo.eu de caracter mais generalizado para o grande público relativos à matriz masculina vigente e à parcialidade de uma antropologia que exclui estruturalmente o feminino não descreve o ser humano na sua totalidade, que é constituído por feminilidade e masculinidade. Assim, a sociologia adota uma descrição errada do ser humano. Este tema trata-lo ei de futuro de maneira mais científica dado esta forma de expressão possibilitar uma análise e abordagem mais específica. (Parte I)

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo Social

©  Pegadas do Tempo

OS NAUFRAGADOS DA FESTA

Houve festa de cravo e madrugada,
estandartes rasgando o azul da idade,
disseram que o vento novo era a liberdade
e a história, enfim, estava inaugurada.

Mas em docas cegas, longe da alvorada,
outro barco dobrava a enseada torta,
não trazia ouro, trazia uma porta
fechada sobre o sol, e uma despedida.

Na memória, não vinham mapas, só a ferida:
fotografias a apodrecer no sal de outros céus,
o sotaque de Luanda enterrado entre os dentes e os adeuses
como moeda posta sob a língua dos que partem para não voltar.

A pátria não é terra, é cicatriz mal fechada,
nó de carne e silêncio que a chuva de Lisboa reabre,
cosidos às pressas por mãos que não sabiam
que estavam a coser um sujeito ao vazio.

E o exílio, ninguém o disse pelo nome.
Retornados trouxemos as mãos e deixámos a sombra.
E foi a sombra que ficou do outro lado do mar
a fazer os gestos que já não sabemos fazer.

Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,
cantavam: o futuro é um clarão sem sombra!
Enquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,

Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,
cantavam: o futuro é um clarão sem sombra!
Enquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
traçavam continentes a giz sobre a mesa fria,
como pão e distribuem guerra e fome.

Nós éramos o estilhaço que sobrou do banquete,
o espelho devolvido à sala depois da festa:
nele, a face que não querem ver,
a descolonização a sangrar no reverso da conquista,
o império dissolvido como sal na maré,
a madrugada devorando o que restava de nós.

Chamaram-nos sombras,
o estorvo na paisagem que queriam limpa,
a testemunha incómoda da pressa com que se apagou
tudo o que havia, mal ou bem plantado,
nas mãos de outros, noutra margem,
noutra imagem turva ou límpida, mas alheia.

Éramos Ícaro depois da queda,
nem o sol nos pertencia, nem o mar nos queria.
Retornados, palavra de gelo na boca quente de Abril.

E o Fado, esse não fez a revolução.
Apenas sangrou na guitarra como velho profeta,
não é revolta, é mágoa que atravessa o segredo,
rio subterrâneo que nunca seca, nunca grita,
apenas corre fundo, fundo, até ao mar.

Portugal por que lhes cortas o coração?

Pergunta sem resposta, pedra atirada ao poço,
voz que o eco devolve mais funda e mais sozinha.

Somos os náufragos da festa que não nos convidou,
filhos do império que o império renegou,
e carregamos, como Sísifo carrega a pedra,
a memória de uma terra que o mar não apagou.

António da Cunha Duarte Justo

© Pegadas do Tempo

Nota:

As ideias que fluem nesta poesia vivi-as também na altura do PREC  ao observar  que começavam a chegar os “Retornados” a Portugal cerca de 500 a 700 mil cidadãos portugueses vindos das ex-colónias africanas 1974 e 1976, no período do PREC, em consequência de uma descolonização atabalhoada porque marcada pela ideologia. O fim do império em 1975 provoca dores de identidade nos que estão e nos que chegam (de Angola, Moçambique e Guiné).

Os retornados foram a memória que o regime queria esquecer; eram o rosto incómodo de um império que a ideologia apressada dissolveu sem olhar a quem ficava pelo caminho. Assim tanto os retornados tal como os cidadãos residentes sofreram um embate de diferentes mentalidades e ideários, o que deixava questões importantes à identidade e à memória coletiva nacionais.

As narrativas sobre o colonialismo português diferirão segundo a perspetiva de uma esquerda leviana e apressada e a perspetiva conservadora lenta. A verdadeira visão certamente se terá de colocar criticamente entre as duas tentativas de narrativa.

De notar, apesar de tudo o mérito e o esforço de um país pequeno com 10 milhos de habitantes para receber tanto retornado. A amargura para muito português era a de verificar que os Africanos deixavam de sofrer sob o colonialismo português para passarem a sofrer sob o colonialismo soviético e estadunidense. Uma ideologia que dividia o país no sentido da geopolítica servia as grandes potências contra os interesses das pequenas nações…

©  António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo