CARTA-ABERTA AOS CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA PORTUGUESA

Aos onze Candidatos que aspiram representar a Nação:

Escrevo esta carta não apenas em meu nome, mas na qualidade de porta-voz de milhões de portugueses cujas vozes raramente ecoam nos corredores do poder. Dirijo-me a vós com a esperança de quem ainda acredita que a democracia pode ser mais do que um exercício formal, e que os governantes podem verdadeiramente servir o seu povo.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente, escrevi-lhe expondo estas mesmas preocupações. A carta ficou sem resposta, como tantas outras vozes que se erguem e se perdem no vazio. Dirijo-me agora a vós, candidatos, com a esperança de que pelo menos um demonstre que a democracia portuguesa ainda ouve o seu povo. Respondei a estas questões. Mostrai que sois diferentes.

Há questões fundamentais que exigem respostas claras e compromissos firmes. Não peço promessas vazias, mas coragem política para enfrentar aquilo que durante décadas tem permanecido intocável por conveniência ou cobardia.

A Questão Constitucional que ninguém ousa discutir

Quem entre vós se atreve a propor a eliminação do preâmbulo da Constituição da passagem que aponta como objetivo do Estado o “rumo ao socialismo”?

Esta não é uma questão meramente técnica ou simbólica. Numa democracia verdadeiramente plural, o Estado não pode estar constitucionalmente comprometido com uma única ideologia política. Este anacronismo, herdado de um momento revolucionário específico da nossa história, colide frontalmente com o princípio da neutralidade do Estado e com a liberdade política que deve caracterizar uma sociedade democrática.

Durante décadas, todos os partidos do chamado “arco do poder” mantiveram um silêncio cúmplice sobre esta anomalia. Porquê? Que interesses se escondem por detrás desta recusa em abrir o debate? Uma Constituição deve unir todos os portugueses, não consagrar a visão de mundo de apenas uma parte deles.

A nossa história recente foi quase toda narrada a partir de um único enquadramento ideológico, que impôs limites ao pensamento e ao debate público. Exijo, em nome dos portugueses que desejam uma democracia madura, que este tema seja finalmente discutido sem tabus e sem chantagens morais.

O Povo esquecido

Enquanto nos pedem que sigamos, sem discussão interna, as decisões das potências europeias e os seus interesses geopolíticos e económicos, incluindo o financiamento de conflitos distantes, o povo português sofre em silêncio:

– 1,4 milhões de reformados sobrevivem com pensões iguais ou inferiores a 500 euros mensais. São pessoas que trabalharam uma vida inteira, que construíram este país, e que agora são abandonadas à miséria e à indignidade.

– 14.476 portugueses vivem nas ruas ou em condições precárias, entre os quais 1.686 casais sem teto e 263 famílias sem casa. Estas não são estatísticas abstratas. São seres humanos, compatriotas nossos, que perderam tudo enquanto os recursos da nação são desviados para prioridades alheias ao bem-estar do povo.

Como é possível que um Estado que se proclama social permita tamanha injustiça? Como podemos falar de solidariedade europeia quando não somos capazes de cuidar dos nossos próprios cidadãos?

A pergunta que exige resposta

Quem entre vós se compromete, como tarefa principal, a defender o bem comum e a felicidade do povo português?

Quem terá a coragem de dizer “basta” à subserviência automática perante interesses que não são os nossos? Quem colocará as necessidades concretas dos portugueses acima dos jogos de poder internacional?

Não vos peço que sejais inimigos da Europa ou do mundo. Peço apenas que sejais, antes de tudo, defensores de Portugal e dos portugueses. Que tenhais a dignidade de afirmar que, antes de contribuir para guerras ou para os orçamentos de burocracias distantes, temos a obrigação moral de garantir que nenhum idoso morre de frio ou de fome, que nenhuma família dorme na rua, que nenhum trabalhador é condenado à pobreza depois de uma vida de esforço.

Um apelo à coragem

Esta carta é um desafio. Um desafio para que pelo menos um de vós se erga acima do conformismo político e diga as verdades que outros calam. Para que alguém tenha a honestidade de reconhecer que a nossa democracia tem limites artificiais que precisam de ser ultrapassados.

O povo português merece governantes que o respeitem, que o ouçam, que defendam os seus interesses com a mesma determinação com que defendem os interesses de Bruxelas ou de Washington. Merece líderes que não tenham medo de abrir debates incómodos, de questionar consensos falsos, de colocar a justiça social acima da conveniência partidária.

Pergunto-vos, candidatos (1): tereis essa coragem?

Ou continuaremos a assistir ao espetáculo de campanhas vazias, repletas de sorrisos e promessas, mas desprovidas da substância e da ousadia necessárias para transformar verdadeiramente a vida dos portugueses?

O país espera. O povo aguarda. E a história julgará não apenas as vossas palavras, mas sobretudo o vosso silêncio.

António da Cunha Duarte Justo
Cidadão português, jornalista e defensor de uma democracia mais justa e verdadeira

 

(1) Dos 11 candidatos, os principais:

Marques Mendes

João Cotrim de Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal)

Catarina Martins (apoiada pelo Bloco de Esquerda)

António Filipe (apoiado pelo PCP)

Jorge Pinto (apoiado pelo Livre)

André Ventura

António José Seguro

 

Astronomia Eleitoral da Diáspora

Não é de novos astros e programas
que precisa a astronomia política da emigração,
mas da antiga gravidade da vergonha
e do peso terrestre, da responsabilidade.

Crónica poética

O emigrante não olha o céu por ingenuidade.
Olha por saudade.
E a saudade, como se sabe,
é um telescópio defeituoso:
aproxima o passado
e desfoca o presente.

De quatro em quatro anos,
o céu da emigração enche-se de sinais.
Não são estrelas,
são políticos em combustão emocional,
treinados para cintilar com brilho alugado
no tempo necessário de promessas recicladas
para acordar a nostalgia
e adormecer a razão.

Chegam carregados de pátria portátil:
um hino dobrado no bolso,
um discurso com cheiro a infância
e um sorriso calibrado
para quem ainda diz “lá na terra”
como se o tempo não tivesse também emigrado.

Entram nas associações
com a perícia de quem conhece o público:
falam de sacrifício
a quem sacrificou a vida inteira,
falam de futuro
a quem vive suspenso do passado,
e falam de respeito
com a ligeireza de quem parte
antes que a palavra pese.

Escoltados ao restaurante antigo:
sabem onde fica a mesa,
quem paga o vinho
e quem ainda acredita no brinde.
Sorriem com dentes de campanha,
riem alto,
o riso é a única obra concluída.

O emigrante escuta.
Não por crença,
por educação emocional.
A saudade ensina a ouvir,
a não interromper,
a sorrir mesmo quando dói.
É aí que a caça ao voto se torna arte:
não pescam ideias,
pescam emoções antigas.

Passadas as eleições,
o céu volta ao normal.
O poder recolhe-se ao cais,
fecha o casaco,
descansa.
A maré baixa
e deixa à vista
as mesmas pedras,
os mesmos atrasos,
a mesma ausência de obras
que não cabem em discursos.

Vira o disco.
Toca o mesmo,
agora sem música.

Há activistas de posto fixo,
sentinelas da esperança alheia,
que lançam cravos ao vento
como se o povo não tivesse jardim
ou como se o vento votasse.
Vivem no luar do partido,
distribuindo palavras
que nunca conheceram o sol.

Há as vozes permanentes,
astronautas de partido,
que orbitam a diáspora
falam de liberdade, democracia
como se fosse propriedade ideológica.
Nos seus media falam da emigração
com a convicção paternal
de quem acha que o povo
precisa sempre de ser lembrado
do que deve sentir.

Vivem da lua partidária,
onde nunca é noite e nunca é dia.
Confundem lealdade com repetição
e chamam consciência política ao eco.

No céu da diáspora
não há constelações:
há meteoros emocionais, de fogo curto
bons para pedidos rápidos,
e meteoritos antigos,
que ficam a fazer fumo no ar
com a arte antiga do maldizer
para esconder o vazio.

O emigrante apresenta desejos.
Não porque acredite,
mas porque a saudade insiste.
Pede em português antigo,
com verbos no passado
e esperança no condicional.
Não vê que a luz é emprestada
nem que o fogo é curto:
a emoção chegou primeiro.

Dizem que são sinais divinos,
mensagens dos deuses eleitorais.
Mas são deuses preguiçosos, fruto do voto facilitado
que exigem longas peregrinações para votar
e oferecem, em troca,
o direito de continuar esquecido.
Se respeitassem a diáspora,
já teriam encurtado a distância
entre o gesto e a urna.

Pescam votos no mar da saudade,
não no da razão.
E como a rede da mudança
volta sempre vazia,
culpam o povo por não acreditar
no milagre repetido.

Esquecem que o povo,
cansado de rezar a estrelas,
prefere ficar em terra,
a ver passar o fogo-de-artifício
da legislatura.

Em quarenta anos no meio,
aprendi a astronomia real:
as estrelas passam,
o migrante fica.
E o emigrante também nota
a astronomia difícil:
o passado não volta,
a saudade não governa
e estrelas cadentes
não constroem presente.

Enquanto a política continuar
a explorar a emoção
em vez de respeitar a experiência,
o céu da emigração
continuará cheio de brilho inútil.
Cabe ao emigrante,
rico em inteligência emocional,
usar essa mesma saudade
não como âncora,
mas como memória crítica.

Porque quem viveu longe
já aprendeu o essencial:
nem toda a luz guia,
nem todo o sorriso aquece,
e nem toda a estrela
merece desejo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A EUROPA ENTRE O ESQUECIMENTO DO SER E A SACRALIZAÇÃO DA GUERRA

Institucionalização de um poder sem rosto

Vivemos um tempo que não é apenas de mudança histórica, mas de mutação ontológica. Aquilo a que se chama “nova era” ou “nova ordem” não se anuncia apenas por rearranjos geopolíticos, mas por uma transformação radical da forma como o homem se compreende a si próprio, ao poder, à técnica e à guerra. Como diria Martin Heidegger, não estamos perante uma simples crise política, mas perante o “esquecimento do Ser”, em que tudo passa a valer apenas enquanto recurso disponível, incluindo o homem, os povos e a própria paz.

A União Europeia apresenta-se como um projeto moral, herdeiro do humanismo cristão e da razão iluminista, mas tornou-se, na prática, um espaço dominado pelo que Romano Guardini já pressentia como o advento de um “poder sem rosto”, tecnicamente eficiente e espiritualmente vazio. O discurso oficial invoca valores universais, direitos e progresso; contudo, nos bastidores decisórios, o critério último é económico-financeiro e estratégico. A linguagem ética funciona como véu, não como fundamento e o povo é tratado de forma cínica.

Esta dissociação entre palavra e realidade constitui uma das formas mais sofisticadas de niilismo contemporâneo. Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais europeu contemporâneo, alertou:  quando a razão se separa da verdade e se reduz a racionalidade instrumental, ela deixa de libertar e passa a dominar. O bem torna-se aquilo que é funcional; o mal, aquilo que resiste. Assim, a guerra pode ser progressivamente encenada como meio legítimo, necessário e até “humanitário”, desde que integrada numa narrativa moralmente aceitável.

Eric Voegelin descreveu este processo como a “imanentização do eschaton”, isto é, a tentativa de realizar, por meios políticos e técnicos, uma redenção que pertence à ordem espiritual. Quando a política assume funções salvíficas, ela exige inimigos absolutos e conflitos permanentes. A guerra deixa então de ser uma tragédia a evitar e passa a ser apresentada como instrumento pedagógico da História, como mecanismo de purificação ou de avanço civilizacional.

É neste contexto que devemos compreender a crescente normalização do discurso bélico no espaço europeu. A guerra não é apenas preparada nos arsenais, mas sobretudo nas consciências. Os meios de comunicação, os centros de produção académica, os discursos institucionais e até certas aplicações da inteligência artificial contribuem para moldar uma perceção da realidade em que o conflito aparece como inevitável, ou pior, como desejável. A técnica, que deveria servir o homem, passa a formatar o seu horizonte moral.

Também a inteligência artificial, enquanto espelho ampliado da racionalidade dominante, está naturalmente dependente dos bastidores ideológicos: ela reproduz padrões, narrativas e prioridades inscritas nos sistemas de poder que a alimentam. Não cria o mal, mas acelera e torna mais eficaz aquilo que já está decidido a montante. O perigo não está na máquina, mas na visão do homem que a orienta, um homem reduzido a consumidor, produtor ou dano colateral.

Paralelamente, assiste-se à erosão deliberada da cultura humanista europeia. Não se trata de abertura ao outro, mas de desintegração do próprio. Tradições espirituais, religiosas e culturais são relativizadas ou instrumentalizadas conforme conveniências geopolíticas. Religiões deixam de ser compreendidas como caminhos espirituais e passam a ser tratadas como forças políticas ou demográficas, peças num tabuleiro de poder global. O problema não é a fé, mas a sua captura pela lógica imperial, seja ela religiosa, tecnocrática ou financeira.

A Europa, ao renegar as suas raízes espirituais em nome de uma neutralidade impossível, torna-se incapaz de verdadeiro diálogo e vulnerável a todas as formas de colonização ideológica. Sem uma metafísica do limite, resta apenas a expansão indefinida do poder. Sem transcendência, tudo se torna negociável, inclusive a vida humana, por isso fomentam a agressividade e a incompreensão relativamente ao cristianismo e defendem o Islão para não terem um espelho metafísico que os reflita nem quem esteja do lado do povo e expresse a sua voz.

Talvez por isso a verdadeira resistência, hoje, já não possa ser militar nem ideológica. Essas linguagens pertencem ao mesmo horizonte que pretendemos questionar. A resistência terá de ser cultural, ética e espiritual, uma recusa silenciosa mas firme de aceitar a mentira como norma e a guerra como destino. Resistir será preservar a memória, a consciência e a pergunta pelo sentido, num mundo que prefere respostas rápidas e funcionais.

Como advertia Romano Guardini, o futuro não pertence aos sistemas mais poderosos, mas aos homens interiormente livres. E, como lembrava Joseph Ratzinger, uma Europa que perde a sua alma perde inevitavelmente também a capacidade de gerar paz. Se ainda existir uma saída para este tempo sombrio, ela não nascerá dos centros de poder nem das engenharias institucionais, mas da fidelidade à verdade do ser humano, esse mistério irredutível que nenhuma técnica, nenhuma ideologia e nenhuma guerra conseguem esgotar.

Essa fidelidade exige um despertar da consciência coletiva, a redescoberta de que o homem não está só nem abandonado à lógica da força, mas permanece situado numa ordem mais alta de sentido. Dito de outro modo: só um povo que reconhece que Deus caminha com ele pode resistir à absolutização do poder terreno. Recordo, a este propósito, a voz do meu pai ao repetir o antigo adágio “a voz do povo é a voz de Deus”. Mas importa acrescentar: essa identificação só permanece verdadeira enquanto a voz do povo não se deixa capturar, manipular ou substituir pelas narrativas de um poder que, precisamente por isso, se arroga cada vez mais uma pretensão de omnipresença e omnipotência.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo social

Pegadas do Tempo

 

TRIBALIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA E PERDA DA IDENTIDADE PESSOAL

Será possível uma matriz de orientação onde alguém poderá falar ao ser humano na qualidade de humano sem o reduzir a função, massa ou rebanho?

Na continuação do que escrevi no artigo DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO PODER não estamos apenas perante uma regressão histórica, mas perante uma mutação antropológica regressiva.

A tribalização do nosso tempo não guarda a essência da tribo arcaica. É fenômeno mais grave ainda, ao ponto de consciências atentas e sensíveis se sentirem como viajantes numa estação cultural derradeira. Esta nova agregação tribal carece de cosmologia integrada, não brota da observação paciente do mundo natural, chegando, em seu desvio, a negá-lo, como atesta a sua marcante ausência de feminilidade. E, sobretudo, é estéril: não gera a seiva profunda da sabedoria simbólica, como em teologias, filosofias e literaturas passadas; deste modo reduz a pessoa ao nível do ovino de rosto virado para a relva.

A sociedade tribal que estamos a forjar não é feita de clãs orgânicos, mas de arquipélagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios. Tome-se como exemplo certas expressões do fenómeno woke: erguem uma identidade que é pura superfície, sem interioridade colectiva autêntica. É uma militância sem comunhão, uma bandeira sem transcendência, uma tribo de código reducionista, não de sangue, terra ou mito.

Os indivíduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade (1) e isto é decisivo. Sem singularidade e essência individual própria não há responsabilidade, não há consciência moral e não há liberdade verdadeira.

Historicamente, a antropologia cristã foi o antídoto, afirmando cada pessoa como irrepetível e portadora do divino, anterior a qualquer grupo. E quando este eixo se perde, regressamos não à tribo natural, mas à horda administrada.

 

Modernidades múltiplas de pluralidade sem fundamento

A ideia de “modernidades múltiplas ou de interculturalismos” poderia ser fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto é, numa referência à natureza, e à tradição, numa ética do real e numa conceção do humano como medida (à imagem do protótipo Jesus Cristo).

Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem critério e diferença sem orientação. Nesta perspectiva já não há ligação às leis da natureza nem à observação do real.
A cultura deixa de ser cultivo e passa a ser construção arbitrária.

Neste quadro, o cientista Samuel P. Huntington em “O choque de civilizações” apenas descreveu fricções de superfície. O verdadeiro “choque” não é entre civilizações, mas entre visões do humano como ser-com-sentido versus  entidade moldável (concepção esta observável nas narrativas dos media na EU em que não interessa apresentar factos mas enquadrá-los numa interpretação funcional pós fática destinada a moldar consciências em função do regime-sistema coisa que já se observa há mais tempo em estados socialistas).

O papel do poder expressa-se em decompor para governar

A decomposição em via especialmente na civilização ocidental não é ingénua ao ser mais agressiva no ocidente onde a consciência da dignidade humana e dos direitos humanos nasceu; a decomposição não é acidental; ela é estrutural e intencional porque o poder contemporâneo não quer indivíduos conscientes, não quer comunidades enraizadas (por isso vem-lhe a jeito a infiltração de guetos muçulmanos) nem quer transcendência operativa na civilização ocidental. O poder contemporâneo fomenta fragmentação, grupos reativos e espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de submissão em vez de libertação. (veja-se o cultivo de práticas budistas, que bem doseadas poderiam servir para o bem-estar dos corpos mas não como alternativas).

Aqui entra a perversão do espiritual como pedagogia de submissão: não para libertar, mas para pacificar.

A questão decisiva: a Igreja católica percebeu o tempo?

É uma questão séria, mas justa: parece que o catolicismo não está a compreender o momento histórico que realmente está a acontecer, ao tratar a crise apenas como uma questão social. Historicamente, a Igreja foi a primeira instituição verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa e foi a primeira a colocar limites éticos ao poder.

Hoje a Igreja católica vive uma tensão interna profunda que se poderia explicar com o seu  desvio excessivamente pedagógico (oportuno para a época de civilizar os povos bárbaros na europa) mas  com a negligência da missão mística e ontológica (explicável para a altura em que com a coroação do imperador Carlos Magno se tratava de colocar os fundamentos para a formação da civilização  europeia, começada na era medieval).

De facto, nessa era pedagógica a Igreja empenhou-se sobretudo na sua missão pedagógica estabelecendo-se como educadora moral, mediadora social e como agente humanitário. Tudo isso foi legítimo e oportuno no passado da história europeia, mas tornou-se insuficiente.

A sua missão mais profunda não é ensinar comportamentos, mas defender a estrutura do ser humano enquanto lugar de integração do divino (naturalmente sem perder de vista os biótopos culturais em que está inserida).

Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, não responde aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma espiritualidade de caracter mais mística. O ponto chave da missão hodierna será complementar o ser com o estar.

O mundo atual absolutiza o estar centrando-se no contexto e na situação; absolutiza o ter com posse e acesso à riqueza e redu-lo a performance no mero funcionar.
A missão própria do cristianismo não é negar isso, mas integrá-lo no ser. Porque para o cristianismo o humano não é meio para a economia, não é meio para a ideologia nem meio para a estabilidade do sistema.

O ser humano é fim em si em estado processual. Não é um fim fechado, mas um ser em caminho, aberto à divinização.
Isto é radicalmente incompatível com qualquer forma de poder totalizante.

Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?

Sim, em potência tem tudo o que é preciso desde que não seja teocrática como é o caso do islão, mas que acentue a ralação humano-divina como se encontra expressa no protótipo Jesus Cristo. Não deve ser moralista nem disciplinadora. A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropológico e ontológico na perspectiva espiritual.

O catolicismo poderia oferecer uma matriz globalizante não opressiva baseada em: Centralidade da pessoa (não do grupo ou função), (acentuando a relação eu-tu-nós, fórmula trinitária na perspetiva inter-relacional e não funcional); consciência como soberania, dado a verdadeira soberania não ser territorial, mas interior; uma transcendência não instrumentalizada porque o espiritual não serve para governar, mas para libertar; pressupõe comunhão sem dissolução da individualidade e que a Verdade surja como horizonte e experiência, não como arma, sem contudo cair no relativismo e no dogmatismo.

Uma tal matriz é profundamente cristã, mas, tal como Jesus Cristo, não confessional no sentido estreito da palavra. Assim seria oferecível à humanidade sem submissão.

O risco e a oportunidade

Aqui, atendendo à estruturas sociais e também de pensamento seria de se meditar sobre a frase de Paulo quando constata “Oh felix culpa” … que implicaria uma abordagem teológica além de antropológica e sociológica.

O risco é claro porque a Igreja poderia tornar-se irrelevante ou cúmplice por omissão.

A oportunidade da Igreja neste tempo histórico é ser a última garante da consciência humana num mundo funcionalizado. Não como poder concorrente, mas como instância de sentido que o poder secular deveria sustentar e implementar.

Conclusão

O que aqui proponho é mais uma reflexão que implica não o regresso ao passado nem tão-pouco uma restauração. Tratar-se-ia de uma transfiguração do papel do catolicismo, menos gestor de moral, menos pedagogo social, mais guardião do humano como lugar do divino num confronto entre antropologia cristã e antropologia tecnopolítica.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
© Pegadas do Tempo

(1) Ipseidade refere-se à qualidade do que é “ele mesmo” ou “em si mesmo”, a singularidade e identidade própria de um ser, a sua característica única que o diferencia dos outros e a consciência dessa individualidade ao longo do tempo. É a percepção de continuidade e pertencimento de si mesmo, fundamental para o senso de identidade pessoal, sendo um conceito central na fenomenologia, explorado por filósofos como Paul Ricoeur e Martin Heidegger. Este conceito baseia-se na visão cristã do ser humano ao mesmo tempo como corpo e alma, como matéria e divino (filho). Daí o conceito de pessoa com o ser soberano a nível de consciência e de agente social e institucional.

 

CANTO DA GERAÇÃO AUSENTE

Cantemos.
Não por glória,
mas por justiça.

Cantemos os que partiram
com a mala pequena
e o coração confiante.
Os que deixaram a terra
não por desprezo,
mas porque a terra já não os segurava.

Cantemos a geração empurrada
para fora do mapa,
como se o futuro tivesse fronteiras
e o pão escolhesse passaporte.

Partimos.
Partimos jovens,
com diplomas inúteis e mãos dispostas,
com a voz ainda cheia de aldeia,
com a esperança ferida, mas viva.

Partimos porque ficar
era morrer devagar.

E no estrangeiro
fomos pedra,
fomos braço,
fomos silêncio.

Erguemos casas onde não dormimos,
pontes que não atravessámos,
riquezas que não nos pertenceram.
Aprendemos outras línguas
sem nunca perder a nossa dor.

Cantemos os que aceitaram ser “estrangeiros”
todos os dias,
mesmo quando pagavam impostos,
mesmo quando salvavam economias,
mesmo quando faziam funcionar
o que outros não quiseram fazer.

E enquanto o corpo trabalhava fora,
o coração ficava.

Ficava nas mães envelhecidas,
nos pais que esperavam chamadas,
nos filhos criados por fotografias.
Ficava no país que ardia no verão
e chorava no inverno.

E todos os meses,
como um ritual antigo,
enviávamos dinheiro.
Não como gesto de riqueza,
mas como prova de pertença.

Remessas de sacrifício.
Notas manchadas de saudade.
Economia sustentada
por ausentes.

Cantemos agora a ingratidão.

A palavra fria.
O olhar que desconfia.
A frase que fere:
“Vocês já não estão cá.”

Como se a distância apagasse o sangue.
Como se o exílio anulasse a cidadania.
Como se duas semanas de regresso
fossem turismo
e não sobrevivência da alma.

Cantemos a ferida maior:
quando o país que não nos segurou
nos quer agora calados.

Quer-nos úteis,
mas não participantes.
Quer-nos remetentes,
mas não votantes.
Quer-nos portugueses só até ao limite
do incómodo.

Mas nós respondemos,
em uníssono,
em português:

Não deixámos de sofrer.
Não deixámos de pensar.
Não deixámos de pertencer.

Chorámos incêndios à distância
como quem perde a casa duas vezes.
Vivemos crises como quem observa
o próprio coração a ser governado
sem voz.

Somos a geração sacrificada.
A que pagou o preço da permanência alheia.
A que saiu para que outros ficassem.
A que envelhece entre países
sem nunca deixar de ser inteira.

Cantemos, então,
não como lamento estéril,
mas como memória viva.

Porque um país que esquece os seus emigrantes
não perde população,
perde consciência.

E nós, dispersos pelo mundo,
continuamos a cantar.

Com voz firme.
Com dignidade intacta.
Com Portugal inteiro
dentro do peito.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo