USO E ABUSO DA LINGUAGEM E REESCRITA DO PASSADO

Já não bastava reescrever as palavras, mas até se começa a querer reescrever a memória

Há alguns anos escrevi sobre o uso e sobretudo sobre o abuso da linguagem. Chamava a atenção para uma tendência que, entretanto, se tornou ainda mais visível: a necessidade de substituir palavras simples e diretas por expressões mais sofisticadas, aparentemente respeitadoras, mas muitas vezes destinadas apenas a tornar menos visível aquilo que continua a existir.

A criada passou a empregada doméstica; a empregada doméstica passou a auxiliar de apoio domiciliário; o contínuo transformou-se em auxiliar de ação educativa; o vendedor de medicamentos tornou-se delegado de informação médica; o operário passou a colaborador. Mudavam-se os nomes e, por vezes, parecia acreditar-se que também se tinha mudado a realidade. Era uma espécie de maquilhagem sem terapia.

Hoje, porém, parece-me que a questão ainda é mais grave porque ultrapassou a linguagem. Já não se trata apenas de mudar o nome às coisas. Começamos a querer mudar também a maneira como devemos olhar para aquilo que aconteceu antes de nós. Já não bastava reescrever as palavras e começa a querer-se reescrever a memória.

Vivemos numa época que se considera, justamente ou não, mais esclarecida do que muitas das anteriores. Conhecemos melhor inúmeras injustiças do passado e desenvolvemos uma sensibilidade mais atenta a formas de discriminação que anteriormente eram ignoradas ou aceites. Isto representa, em muitos aspetos, um progresso.

Mas existe uma tentação nesse progresso: a de olhar para trás e imaginar que todas as épocas anteriores foram apenas versões imperfeitas da nossa.

É aqui que aparece o anacronismo. Sentamo-nos confortavelmente no século XXI, munidos dos valores, conceitos e sensibilidades do nosso tempo e julgamos homens e mulheres que viveram há séculos como se tivessem recebido o mesmo manual moral que hoje temos à nossa disposição.

Depois admiramo-nos de descobrir que os gregos não eram modernos, que os romanos não pensavam como nós, que a Idade Média não conhecia as nossas categorias políticas e sociais e que Shakespeare e Camões não escreviam segundo os códigos culturais do nosso tempo.

Descobrimos, afinal, que o passado era passado e que por detrás dele há uma linha de verdade mítica a descobrir.

Estudar História, porém, não significa perguntar apenas se aquilo que aconteceu seria aceitável hoje. Significa também perguntar: como pensavam aquelas pessoas? Em que sociedade viviam? Que valores possuíam? Que conhecimentos tinham? Que alternativas conheciam?

Só depois poderemos formar um juízo.

Não se trata de suspender a moral, mas de não a confundir com a História. Podemos condenar a escravatura e estudar as sociedades escravistas; rejeitar a violência de uma guerra e procurar compreender por que aconteceu; defender hoje a igualdade entre homens e mulheres sem fingir que as sociedades antigas já funcionavam segundo os princípios que consideramos justos.

Podemos criticar o passado sem o falsificar nem abusar dele para fins de mero poder ideológico ou partidário. Esta distinção torna-se particularmente importante quando entramos no território da literatura, do cinema e das adaptações dos clássicos.

Pensemos em “A Odisseia”, que regressa agora ao grande cinema através de Christopher Nolan. Podemos fazer várias leituras dele e uma delas tem a ver com a crítica que aqui apresento e a que ele não resiste. Mas a própria obra de Homero permite colocar uma questão essencial: o que fazemos hoje com uma criação que nasceu num mundo tão distante do nosso? Na generalidade permanece o erro de obrigá-la a falar como nós. Ou podemos procurar descobrir o que ela ainda tem para nos dizer precisamente por não ser como nós.

O mundo de Homero não é o nosso. A sua concepção da honra, da guerra, da família, da hospitalidade, da vingança, do poder, dos deuses e do destino pertence a uma ordem cultural muito diferente.

Ulisses não é um cidadão europeu de 2026 perdido no Mediterrâneo. E, no entanto, reconhecemo-nos nele. Porquê? Porque por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Em Homero além do mito que descreve a passagem axial de um mundo matriarcal para o patriarcal, na sua narrativa o homem regressa, perde-se, deseja,  combate na tentativa de procurar a sua casa. Porém o poder corrompe, a vaidade cega, a vingança destrói e a fidelidade é posta à prova.

O facto é que mudam as épocas e as instituições, mas certas estruturas profundas da condição humana reaparecem no espírito do tempo de cada época. É por isso que os mitos sobrevivem e por vezes transmitem uma verdade mais profunda do que as verdades históricas.

E é  aqui que uma cultura verdadeiramente moderna deveria ser mais criativa: em vez de adaptar o mito antigo aos preconceitos do presente, utilizá-lo para interrogar o presente.

Em vez de transformar Ulisses num homem contemporâneo, perguntar o que há de Ulisses no homem contemporâneo. Em vez de corrigir Penélope segundo as categorias atuais, perguntar o que continuam a significar a espera, a fidelidade e a resistência. Em vez de tornar Aquiles moralmente aceitável para nós, perguntar por que razão a sua cólera continua a ser reconhecível na actualidade. Isto seria uma verdadeira modernização.

Não modernizar o passado, mas modernizar o nosso olhar sobre nós próprios. Os clássicos não sobrevivem porque repetem o presente. Sobrevivem porque o transcendem.

Cada geração tem, naturalmente, o direito de os reinterpretar. A cultura só permanece viva porque é continuamente relida. O problema começa quando reinterpretar passa a significar corrigir e quando a interpretação de uma obra deixa de ser uma possibilidade para se transformar na única leitura moralmente autorizada.

A censura contemporânea nem sempre precisa de proibir. Pode simplesmente dizer: “Podes ler, mas deves compreender isto da maneira correta.” Uma cultura livre precisa, porém, de preservar não apenas a circulação das obras, mas também a liberdade de as interpretar, sem ter dre as difamar para fazer passar bem na fotografia o politicamente correcto actual.

É chegada a hora em que nos deveríamos desconfiar de uma cultura que se considera aberta à diferença, mas tem dificuldade em aceitar a diferença das épocas. Há ainda um paradoxo adicional. Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento. Uma frase, um vídeo de poucos segundos, uma imagem, uma opinião e uma indignação sucedem-se numa avalanche permanente. E o busílis da questão é que temos  apenas fragmentos e formamos certezas.

Vivemos numa época que exige muita atenção e espírito crítico porque a informação substitui o estudo, a opinião substitui a reflexão, a indignação substitui o argumento. Talvez este seja um dos novos analfabetismos do nosso tempo: não o de quem não sabe ler, mas o de quem lê incessantemente sem saber distinguir, contextualizar, comparar e pensar.

E assim o passado transforma-se facilmente num tribunal ou em instrumento de formatização à medida do momento ou da ideologia que se quer fazer passar. E então em vez de perguntarmos “Como foi possível que isto acontecesse?”, perguntamos apenas “Como puderam eles fazer isto, quando hoje sabemos que estava errado?”

A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura confirmar a nossa superioridade. Maior prudência pressuporia mais sabedoria porque o passado não teve o nosso manual de instruções!

Todas as épocas acreditaram, em maior ou menor grau, que tinham finalmente compreendido o mundo. Também nós acreditamos. Também nós temos os nossos preconceitos, as nossas cegueiras e as nossas verdades que parecem tão evidentes precisamente porque pertencem ao nosso tempo e à formatação que inconscientemente nos obriga. Esquecemos que por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Daqui a cem ou quinhentos anos, outros poderão olhar para as nossas certezas com o mesmo espanto com que hoje olhamos para as certezas dos outros. É essa possibilidade que deveria tornar-nos humildes perante a História, perante religiões, culturas e pessoas passadas. Não precisamos de absolver o passado. Mas também não precisamos de o reescrever. Não precisamos de transformar Homero, Shakespeare ou Cervantes em nossos contemporâneos. Precisamos de compreendê-los como diferentes e, depois, perguntar o que essa diferença revela sobre nós.

Porque o mito é também um espelho. De facto, o tirano muda de nome e o herói muda de roupa e a multidão muda de praça para rede social. A propaganda deixa o pergaminho e entra no algoritmo. Mas a ambição continua ambição, a vaidade continua vaidade, o medo continua medo, o amor continua amor e a traição não precisou de ser modernizada.

Talvez seja por isso que os clássicos continuam a incomodar-nos. Não porque estejam ultrapassados, mas porque não estão suficientemente ultrapassados. Continuam a reconhecer-nos. E um espelho que reconhece o nosso rosto pode ser mais perturbador do que aquele que apenas confirma a imagem que gostaríamos de ter.

Comecei por falar da mudança das palavras. Hoje parece-me que a questão é maior, porque primeiro mudámos os nomes das coisas, depois começámos a mudar o significado das coisas e agora corremos o risco de mudar a maneira como recordamos aquilo que aconteceu.

É aqui que o eufemismo pode transformar-se em algo mais perigoso, porque uma coisa é tornar a linguagem mais civilizada e outra é tornar a memória mais conveniente.

Talvez a verdadeira atitude moderna não seja obrigar o passado a usar as roupas do presente. Talvez seja ter imaginação suficiente para olhar para o presente através dos olhos do passado e descobrir que, apesar de todas as nossas máquinas, teorias e certezas, continuamos a representar muitos dos velhos dramas humanos.

Em vez de perguntarmos apenas o que há de errado com os clássicos à luz dos nossos valores, seria de  perguntar: O que é que eles conseguem revelar sobre os nossos próprios limites?

Essa pergunta exige mais conhecimento, mais imaginação, mais criatividade e, sobretudo, mais humildade, porque o passado não é um aluno atrasado que espera pela nossa correção.

Somos nós que, inevitavelmente, acabaremos por ser passado. O nosso paradoxo contemporâneo é sermos muito tolerantes com a diferença, mas só enquanto a diferença pensar como nós.

Penso que por trás de um discurso moderno e por vezes snobe se esconde uma modernidade que tem medo dos clássicos. Que modernidade é esta que pretende corrigir Homero para se sentir moralmente superior a Homero. Que modernidade é esta que transforma Shakespeare num acusado e Cervantes num suspeito!

O que falta no nosso tempo é uma modernidade suficientemente segura de si para escutar o passado sem o domesticar e que talvez seja capaz de dizer :“Não penso como tu. Mas quero compreender por que pensavas assim e deixa-me descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A ODISSEIA TRANSFORMADA EM MANUAL DE INSTRUÇÕES DE DOMÍNIO DA CULTURA OCIDENTAL

A Inversão do Mito e a Formatação do Pensamento Ocidental

Resumo

Este ensaio crítico propõe-se mostrar que, na leitura e interpretação de crónicas, como a Odisseia de Homero, ou o relato de Caim e Abel, na Bíblia, importa fazer uma distinção fundamental. Com frequência, essas interpretações negligenciam a análise da teoria do conhecimento que lhes subjaz e que, desde o início, as fundamenta. A sua reformulação não se reduz a um mero aditamento porque pressupõe um avanço epistemológico decisivo. Não se trata apenas de reconhecer, na “Odisseia”, o conflito entre o princípio organizador feminino e o masculino representado em culturas concretas, mas de denunciar a cristalização dogmática desse conflito. O que é verdadeiramente de assombrar não é o poema de Homero, mas o modo como a civilização ocidental o transformou, fazendo-o passar de um diário de bordo de uma transição civilizacional para um manual de instruções da dominação. Neste ensaio proponho-me desmontar esse mecanismo de inversão, alargando o olhar ao episódio bíblico de Caim e Abel, para, no final, esboçar uma via do conhecimento (hermenêutica) que devolva ao ser humano a capacidade de se confrontar com a realidade descritiva, em vez de se curvar perante uma atitude moralizante dominante que entroniza o poder estruturante.

O Diário e o Manual como a Dupla Face do Padrão

Quando Homero compôs (ou reuniu) a “Odisseia” (Ulisses), legou-nos um testemunho etnológico de primeira ordem. A epopeia descreve, em linguagem mítica, a violenta passagem de uma organização social de matriz feminina ctónica, centrada na deusa-serpente, na fertilidade da terra e nos ciclos naturais, para uma organização olímpica, celeste, diurna e patriarcal. Nesse sentido, o poema é um diário: regista a vitória do logos grego sobre o mito (mythos) indiferenciado, da paternidade sobre a maternidade arcaica, da astúcia do herói sobre a sedução imóvel da deusa.

Contudo, a tradição ocidental (e nela incluo não apenas a exegese literária, mas sobretudo a pedagogia social e os discursos de poder), não tratou este registo como uma descrição artística (que implica também a dúvida)  e transformou-o num manual. O “regresso a Ítaca” deixou de ser a narrativa particular de um guerreiro nostálgico para se tornar o imperativo categórico de todo o homem ocidental: dominar, subjugar, ordenar, e, acima de tudo, fazer calar o feminino, seja ele representado pelas sereias, por Calipso ou, no plano doméstico, pelas escravas enforcadas na corda.

A consequência prática é brutal: onde poderíamos extrair uma crítica ao herói (pois Ulisses é, afinal, mentiroso, cruel, desconfiado e profundamente inseguro), a moral dominante fez dele um modelo. O herói é absolvido a priori porque a sua função já não é representar uma humanidade em conflito, mas sim formatar a humanidade segundo o molde da virilidade guerreira de que Ulisses se torna modelo. Nesta interpretação da narrativa forçosa queimam-se as ambiguidades do diário para se erguer a rigidez inquestionável do manual. Ao optar pelo manual em detrimento do mito, perde-se a Verdade que lhe subjaz, substituindo-a por uma interpretação que se impõe acriticamente, sem nunca ser questionada.

A Moralização como Estratégia de Poder no Caso de Ulisses

Se encararmos a Odisseia como descrição, o juízo que recai sobre Ulisses é inevitavelmente dialético. Admira-se a sua astúcia (métis), mas condena-se a sua desmesura (hybris) e a sua crueldade “doméstica”. De facto, o episódio do enforcamento das criadas, que haviam sido violadas pelos pretendentes, é um dos silêncios mais gritantes da crítica literária convencional. Por que razão este acto não é lido como o pináculo da paranoia do poder, mas antes como “justiça restaurada”? Certamente porque importava impor uma matriz patriarcal.

A resposta reside numa certa intenção inconsciente e não declarada de formatar as pessoas. A moralização do mito serve um propósito político imediato: desvia a atenção da estrutura para o carácter. Em vez de interrogarmos a ontologia que permite ao senhor dispor da vida da escrava, somos convidados a julgar se a escrava foi “leal” ou “desleal”. O verdadeiro problema passa a não ser a estrutura jerárquica, mas sim a conduta dos indivíduos que a integram. A política actual  procura camuflar esta questão ao conferir funções de caráter masculino a mulheres que, imperceptivelmente, passam a servir o modelo androcêntrico, negando, desse modo, o centro feminino da sua própria identidade, pois, para se afirmarem, muitas vezes sentem necessidade de se mostrar mais belicosas do que os seus colegas homens. Este desvio para o domínio moral e para o puramente funcional (a pragmática do poder) constitui o mecanismo mais eficaz de domesticação das consciências, porque oculta o tecto de ferro da estrutura sob o véu da virtude. Não se concede tempo para refletir sobre as causas das guerras; exige-se apenas que se escolha um lado, e, para tal, instalam-se os mais refinados sistemas de formatação e controlo.

O Paralelo bíblico de Caim e Abel como Síntese da Luta Agrária contra a Pastoril

É importante focar aqui o episódio de Caim e Abel no que toca a uma antropologia económica. A narrativa bíblica (Génesis, 4) é, na sua camada mais arcaica, o registo de um conflito civilizacional entre dois modos de produção e de relação com o divino:

– Abel, o pastor, representa o nomadismo, a mobilidade, a oferta de gorduras e carnes, uma economia de apropriação directa, que agrada a um Deus que se move com o vento.
– Caim, o agricultor, representa a sedentarização, a propriedade da terra, o suor do rosto e a oferta de frutos, uma economia de transformação e espera, que exige um pacto com a imanência da terra. Para isso tinha que sacrificar a tradição para dar oportunidade ao novo desenvolvimento. Relevante é também o relato de Deus ter perdoado a Caim que matou o irmão e que tem certamente a ver com o equacionamento da história humana. Revela-se particularmente elucidativo o modo como a consciência humana, as dinâmicas sociais e os processos económicos se condicionam e interferem mutuamente no seu desenvolvimento.

O que a tradição judaico-cristã fez com este relato? Transformou-o, também ele, num manual moral: Caim é o mau, o invejoso, o assassino; Abel é o bom, o justo, a vítima sacrificial. Contudo, se o lermos como diário histórico, como seria normal fazer à Odisseia, vemos antes a vitória de uma determinada sociologia ou maneira de ser e de estar histórica (a do pastor nómada) sobre outra (a do agricultor sedentário), reflexo das tensões entre as tribos israelitas e os povos cananeus, que cultivavam a terra e adoravam Baal.

Ao congelar este conflito num juízo moral, a instituição religiosa realizou a mesma violência que a tradição homérica: submergiu a análise sociológica em julgamento ético. O povo, em vez de reflectir sobre a tensão entre o nomadismo e a fixação, entre a mobilidade e a propriedade, é levado a odiar Caim e a imitar uma obediência cega (a de Abel) que, curiosamente, o leva à morte. A história, assim, deixa de ser um campo de forças para ser um tribunal de intenções. Esta tradição é seguida hoje de maneira mais acentuada e que é impulsionadora do globalismo liberal onde o Mamon se tornou na energia masculina concentrada.

A História como Cimento do Poder e a Suspensão do Pensamento

O cerne da questão que se coloca e que toca o âmago da nossa crise civilizacional resume-se na seguinte questão: porque é que os povos fazem da História um instrumento de sedimentação do poder em vez de um exercício de autoconhecimento?

A resposta assue um caracter estrutural. O poder só se perpetua quando o tempo para pensar é escasso. A moralização instantânea (o “bom” Ulisses, o “mau” Caim) funciona como um fast-food epistemológico porque sacia a urgência do julgamento sem exigir o esforço da digestão hermenêutica. Ao oferecer um herói para imitar e um vilão para detestar, o discurso público (seja ele cinematográfico, ideológico, religioso ou mediático) encurrala a polissemia do real. A vida é polissémica porque uma mesma palavra ou narrativa assume significados distintos consoante o contexto. Daí a necessidade de recorrer à intercontextualidade para perceber o fio condutor que liga os textos e as realidades em que nos movemos. Esse fio é como um rio com duas margens complementares. De um lado, a materialidade e do outro, a espiritualidade. De um lado, a individualidade e do outro, a comunidade. É justamente na relação dinâmica entre o eu e o outro que flui o verdadeiro rio do nós.

O agricultor Caim e o pastor Abel não são “bom” ou “mau”; são duas respostas possíveis à dureza do mundo. Ulisses e as escravas enforcadas não são “justiça” e “traição”; são a manifestação nua de uma lógica de propriedade que reduz o Outro a coisa. Se aceitarmos a descrição, somos forçados a olhar para o abismo da nossa própria condição: descobrimos que carregamos em nós a pastoral e a agrária, a astúcia e a violência, o masculino dominador e o feminino subjugado. Daí resultam os diferentes discursos e ideologias que ao encerrarem-se em si mesmos

A Consciência das Duas Margens e o Verdadeiro Humano

Propõe-se, no final deste percurso, uma tarefa hercúlea: libertar o mito da sua prisão moral. Isso implica uma pedagogia da suspeita, onde cada narrativa fundadora seja lida contra a sua tradição interpretativa dominante.

Ser “verdadeiro da humanidade” – na sua bela expressão – não é escolher uma margem do rio para nela edificar a fortaleza do Eu. É, antes, reconhecer que a condição humana se joga na travessia, na consciência tensa de que a margem masculina e a margem feminina, a agrária e a pastoril, a ordem e o caos, a religiosa e a secular, coexistem em nós como forças vivas e contraditórias. A consciência individual e social ideal não brota da obediência a um manual, mas da coragem de viver o diário, ou seja, da coragem de ler Homero e a Bíblia como antropologias do conflito e não como cartilhas da submissão. Penso que para a civilização ocidental é chegada a hora de rever a matriz antropológica e de se ocupar com a fórmula trinitária abordada sem preconceitos e aplicada em diferentes vertentes.

Só quando o público deixar de engolir as narrativas impostas e começar a perguntar, não “quem é o herói?”, mas “que interesses serve esta heroicidade?” estaremos a caminho dessa humanidade desperta: uma humanidade em que o princípio masculino e o princípio feminino, o princípio material e o princípio espiritual se entrelaçam em empenho comum de compromisso em atitude de complementaridade.  O rio tem sempre duas margens, mas só o barco do pensamento crítico e da razão do coração nos permite navegar entre elas, escapando à corrente da propaganda e ao pantanal das areias movediças das ideologias e do moralismo.

Que este ensaio seja, pois, uma pequena contribuição para a construção desse barco.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

A TRINDADE OU A RELAÇÃO CRIATIVA DE TODAS AS RELAÇÕES

Se a Trindade é relação pura, isto é, a relação criativa de todas as relações, então o real não se deixa aprisionar em guetos disciplinares. Ciência, teologia e arte não são linguagens rivais, mas modos complementares de tecer o mesmo véu. Aparentes contrários como o empírico e o metafísico, o cálculo e o símbolo, a precisão e o mistério, não se anulam; antes, articulam-se numa tensão fecunda. Reconhecer essa complementaridade e o processo de acesso à realidade não é um gesto de conciliação ingénua, mas a atitude fundamental de quem se dispõe a olhar para a realidade sem a despedaçar em caixinhas separadas.

O conceito trinitário de Deus, definido como relação pura (relação das relações), oferece um paradigma teórico e arquetípico capaz de fundamentar a transdisciplinaridade. Nesse quadro, conciliam-se sob uma mesma matriz relacional os distintos regimes de apreensão do real: o científico, o teológico e o artístico.

A trindade como a relação das relações

No debate teológico, o conceito-chave reside na interpenetração mútua das três Pessoas divinas (pericorese), articulada à definição tomista de que, na Trindade, as pessoas são relações subsistentes. Se o Transcendente (Deus) e o Encarnado (o Cosmos/Cristo) se definem como pura relação, então a realidade deixa de ser um conjunto de ‘coisas’ estáticas para se configurar como um tecido de conexões.

Quando se define a realidade desta forma, a transdisciplinaridade torna-se obrigatória. Se tudo é relação, nenhum método isolado consegue capturar o todo. A teologia, a filosofia e a física quântica tornam-se simplesmente diferentes comprimentos de onda ou perspetivas para observar a mesma rede relacional.

O ponto de encontro dos modelos e das imagens

A nova física é indissociável de seus construtos teóricos (símbolos). Ademais, constitui um facto epistemológico incontornável que qualquer ferramenta utilizada para abordar a realidade recorre inevitavelmente a imagens.

No que toca a Modelos e Metáforas, nem a física quântica vê o electrão em si, nem a teologia vê Deus em si. A física serve-se de construtos matemáticos e imagens (como “ondas”, “partículas”, “spin” ou “campos”) para esquematizar o comportamento da matéria. A teologia serve-se de imagens e mitos (como “Pai”, “Filho”, “Sopro-Espírito”) para delinear o mistério do Ser. (1)

No que se refere à ilusão do Método Puro, o grande erro do cientificismo clássico foi o dogmatismo metodológico, ou seja, acreditar que o método científico era a própria realidade e não apenas uma ferramenta de tradução. Quando nos libertamos dessa fixação cega, percebemos que tanto o físico como o teólogo estão a criar modelos representativos para decifrar as relações constituintes do universo.

Onde reside o problema e qual a razão de ele existir?

Se esta convergência é tão lógica, porque é que ela encontra tanta resistência? O problema não é de ordem do ser (ontológica), mas sim do estar (existencial), institucional e cultural! O busílis da questão vem:
a) do apego ao Poder Epistémico (teoria do conhecimento) onde historicamente, as disciplinas defendem as suas fronteiras para manter a sua autoridade. O cientificismo rejeita a teologia por medo do regresso ao dogmatismo religioso; a teologia, por vezes, isola-se por medo de ver os seus mistérios reduzidos a meros fenómenos psicológicos ou físicos;
b) da confusão de Níveis de Realidade. O físico Basarab Nicolescu, um dos pais da transdisciplinaridade, explica que a realidade é composta por diferentes níveis. O erro acontece quando se tenta aplicar as leis de um nível (como as equações matemáticas da física) diretamente noutro nível (como a experiência existencial do sagrado), gerando uma tradução literal e grosseira em vez de um diálogo transdisciplinar simbólico. (2).

Ao assumir a “relação das relações” como a base de tudo, valida-se que a ciência capta a dimensão mensurável dessa relação, enquanto a teologia e a mítica captam a sua dimensão de sentido profundo, sem que uma precise de anular a outra.

A física quântica ao resgatar o papel de observador (e da imagem) na construção da realidade está precisamente a seguir o modelo místico de acesso à realidade presente na teologia. O busílis mais revolucionário da epistemologia contemporânea situa-se precisamente no facto que é o colapso da separação absoluta entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Ao colocar o observador no centro da constituição do real, a física quântica rompe com o ideal mecanicista de Newton e Galileu e aproxima-se, estruturalmente, do modelo místico e teológico de acesso à realidade.

O observador na física e na mística

Na física clássica, o cientista era um espectador neutro a olhar através de uma janela para um mundo mecânico preexistente. Na física quântica, o observador torna-se participante:

O Efeito do Observador: No nível subatómico, as partículas existem numa sobreposição de possibilidades (onda). É o acto de medição, a interferência do observador, que colapsa essa onda numa realidade concreta (partícula). O real não está “lá fora” à espera de ser descoberto; ele coemerge com a observação. (3)

A Experiência Mística: Na teologia mística (como na tradição de Mestre Eckhart ou no Pseudo-Dionísio), o conhecimento de Deus não acontece por via de uma análise exterior e distante. O mistério só se revela através da participação e da união. O místico sabe que o seu próprio olhar e o seu estado de consciência alteram e moldam a perceção do Divino. O sujeito e o objeto fundem-se na experiência.

O resgate da imagem e do símbolo

A física quântica, ao lidar com uma realidade que não pode ser vista diretamente (como os quarks ou as cordas) é forçada a abandonar o literalismo e a abraçar a linguagem simbólica, tal como a teologia:

A Imagem como Ponte: Como o ser humano não consegue conceber algo que seja onda e partícula ao mesmo tempo, a física usa estas “imagens” como metáforas matemáticas para aproximar a nossa mente de uma realidade irrepresentável.

O Ícone Teológico: Na teologia, a imagem (o ícone, o mito, o dogma) nunca é a realidade última (Deus), mas sim o veículo necessário que permite ao observador humano relacionar-se com o Transcendente. Ambos os campos compreendem que a imagem não é a coisa em si, mas a única forma de o observador interagir com o invisível.

A realidade como coocorrência

Penso que é possível criar linhas de pensamento em que a realidade, seja ela a matéria quântica ou a transcendência encarnada, funciona sob um princípio de coocorrência. Não há uma realidade objetiva pura sem uma consciência que a testemunhe, nem há uma consciência sem uma realidade para se manifestar.

O “problema” metodológico desaparece quando compreendemos que a mística usa a intuição, a contemplação e o símbolo para aceder ao Todo, enquanto a física quântica usa o formalismo matemático e a experimentação laboratorial para aceder à textura relacional da matéria. O essencial em tudo isto é que tanto a Teologia cristã (fórmula trinitária da realidade) como a nova física (física Quântica) chegam à mesma conclusão de que a separação é uma ilusão e que o fundamento do ser é a interação. (A física quântica provou que o mundo não é sólido, fixo ou objectivo, mas sim um campo dinâmico de possibilidades).

O físico e filósofo Bernard d’Espagnat, com o seu conceito de “Realismo Velado“ propõe o princípio que a realidade última está escondida e só se mostra através das nossas estruturas conceituais. Por seu lado Alfred North Whitehead com a Teologia do Processo reformulou a ideia de Deus a partir deste dinamismo e interdependência quântica.

A Teologia do Processo, a Teologia da Libertação e o pensamento cosmoteândrico de Raimon Panikkar convergem para equacionar a realidade de forma complementar através de um paradigma relacional e participativo. Em vez de excluírem a física, estas três correntes integram-na como a descrição material e estrutural dessa mesma rede de relações. Por seu lado, tamb´ém a física reconhece  que não sobrevive sem recurso à simbologia.

Teologia do Processo: a dinâmica e o vir-a-ser da matéria

Inspirada na filosofia de Alfred North Whitehead, a Teologia do Processo abandona a ideia de um Deus estático que governa um universo mecânico. (4)

O nexo quântico: A realidade não é feita de “coisas” duradouras, mas de eventos e processos em constante atualização. Deus não opera por coerção, mas por atração e persuasão, oferecendo possibilidades a cada instante do real.

Integração com a física: Esta teologia encaixa-se na física quântica. Nela, o eletrão não é uma esfera sólida numa posição fixa, mas um evento dinâmico que colapsa e se atualiza a cada instante na sua relação com o ambiente. A matéria e o espírito pertencem ao mesmo fluxo contínuo de vir-a-ser. (5)

Teologia da Libertação: a relação encarnada na história e na práxis

A Teologia da Libertação foca-se na história concreta, nas estruturas sociais e na urgência da justiça. À primeira vista ligada apenas à política e à sociologia, ela conecta-se com este tecido universal por vias profundas. (6)

A práxis como observação: Tal como a física quântica provou que o observador altera o sistema ao intervir nele, a Teologia da Libertação defende que o conhecimento teológico não é neutro. Conhecer a realidade exige engajamento e transformação (práxis).

Integração com a física: Através da ecologia integral (como o trabalho de Leonardo Boff), esta corrente compreende que a opressão social e a destruição ambiental derivam do mesmo erro: o atomismo mecanicista clássico, que isola os seres humanos uns dos outros e da natureza. A libertação histórica é a restauração das relações justas em todas as escalas da matéria (7).

A Trindade Radical de Panikkar: a intuição cosmoteândrica

O teólogo Raimon Panikkar formulou o princípio cosmoteândrico, que propõe que toda a realidade se estrutura numa “Trindade Radical” indissociável composta por três dimensões (8).

O Divino (Teandrico): A profundidade infinita, o mistério e a abertura para o novo.

O Humano (Antrópico): A consciência, o olhar do observador que dá sentido e testemunha o real.

O Cósmico (Material): O tecido físico do universo, a exterioridade corporizada.

Integração com a física: Para Panikkar, Deus, o Homem e o Cosmos não são substâncias separadas. Eles estão numa relação de interpenetração mútua (pericorese ou advaita). A física não é excluída; ela é o rastreamento rigoroso da dimensão cósmica desta trindade estrutural (9). Sem a matéria (física), o mistério divino permaneceria desincorporado e a consciência humana não teria onde manifestar-se (10).

A síntese complementar e transdisciplinar

Estas três abordagens dividem o trabalho de decifrar o real sem anular o laboratório do físico:

A teologia do processo foca-se na metafísica do vir-a-ser e nela o tempo e a matéria são fluxos de eventos interligados num todo relacional e deste modo entra no diálogo com a Nova Física ao validar a natureza indeterminada e flutuante do vácuo quântico.

A teologia da libertação encara o processo da práxis histórica e social onde a relação exige compromisso ético e transformação sistémica. Deste modo supera o mito do observador neutro; o cientista molda o mundo em diálogo com a Nova Física.

A teologia de Panikkar foca a ontologia cosmoteândrica. O seu contributo relacional vê toda a realidade como constitutivamente divina, humana e cósmica. Por seu lado entra em diálogo com a Nova Física onde a física descreve a dimensão material da teia de relações.

O problema metodológico desfaz-se se adotarmos a transdisciplinaridade. A física quântica descreve a sintaxe da realidade (as regras matemáticas de como os campos e partículas se correlacionam). A Teologia do Processo descreve a sua dinâmica existencial. A Teologia da Libertação exige a sua ética relacional concreta. Panikkar oferece a semântica mística definitiva: tudo o que existe é uma relação das relações. Nenhuma delas anula a outra, pois são modos complementares de sintonizar a mesma sinfonia.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16662_4.PDF

(2) O manifesto: https://sites.usp.br/revistabalburdia/um-manifesto-pelo-fim-da-disciplinaridade/

(3) https://www.instagram.com/reel/DWmuighDkVI/

(4) Teologia do Processo: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/barroca,+A+teologia+do+processo+de+Whitehead.pdf

(5) Mecânica quântica e teologia: 2https://unusmundus.academiaabc2.org.br/mecanica-quantica-e-teologia/

(6) https://www.textoaureo.com.br/2023/3%C2%BA-trimestre-de-2023-adultos/li%C3%A7%C3%A3o-2-a-deturpa%C3%A7%C3%A3o-da-doutrina-b%C3%ADblica-do-pecado-din%C3%A2micas-e-slides

(7) Leonardo Boff: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_Boff

(8) A Racionalidade: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/40915

(9) Trindade Radical: file:///C:/Users/Antonio/Downloads/admin,+Art+247+BJD.pdf

(10) Vida cosmoteândrica: https://ihu.unisinos.br/categorias/656498-semana-panikkariana-2025-raimon-panikkar-uma-vida-cosmoteandrica

BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA

A ameaça pairou sobre os canais de Veneza como uma névoa salobra, indiferente à beleza dos palácios e ao murmúrio das gondolas remadas. Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.

Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se “valores subversivos” contra “valores sagrados”, mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.

Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de “América acima de tudo”. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de “Valores democráticos da Europa acima de tudo”. É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.

É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não “democrático” na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.

O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.

E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo