O CUSTO DE SER FAMÍLIA

Na Alemanha ter Filhos está a tornar-se um Luxo

A decisão de ter filhos é profundamente pessoal, mas é também influenciada por fatores estruturais, económicos e ideológicos. Na Alemanha, um país conhecido pelo seu forte sistema de apoio social, observa-se um crescente sentimento de insegurança financeira que está a deixar as famílias em compasso de espera. De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, a maioria dos alemães acredita que formar uma família se tornou um luxo inacessível, levantando questões urgentes sobre o futuro do país e as prioridades do Estado.

Segundo a Perceção da nova Geração “Não dá para ter Filhos”

Os números da pesquisa são um sinal de alerta claro. Para 55% dos inquiridos pelo Insa, a resposta é taxativa: já não se pode ter filhos devido aos custos envolvidos. Apenas 34% discordam desta afirmação, enquanto 11% se mostram indecisos.

Além de uma mentalidade hedonista transmitida socialmente, o principal motor deste pessimismo é o aumento generalizado do custo de vida. Para 81% dos que veem a família como impraticável, a culpa estaria na escalada de preços em áreas essenciais como habitação, alimentação e energia. Este sentimento atinge o seu pico na faixa etária mais propensa a planear uma família. Segundo o chefe da Insa, na faixa etária entre os 30 e os 49 anos, 60% dos inquiridos consideram que ter filhos é financeiramente inviável.

Um dos fatores ideológicos expressa-se certamente na discussão em torno do aborto. Uma iniciativa civil, constituída por organizações progressistas não governamentais e financiada com dinheiro público, tem pressionado a União Europeia para a criação de um fundo europeu destinado ao aborto. Esse fundo financiaria o acesso ao aborto por cidadãs europeias noutros países-membros, o que, na prática, poderia contornar as diferentes legislações nacionais em matéria de prazos e de aconselhamento obrigatório.

Quanto Custa sustentar uma Criança?

Esta perceção de “carestia” não é infundada e encontra eco nas estatísticas. Segundo dados do Departamento Federal de Estatística (Destatis), citados por várias análises, o custo médio para criar um filho na Alemanha até aos 18 anos ronda os 164.808 euros. Este valor traduz-se numa despesa mensal média de cerca de 763 euros, que varia consoante a idade, ou seja, 679 euros para crianças dos 0 aos 6 anos, 786 euros para dos 6 aos 12 e 953 euros para adolescentes até aos 18.

É importante notar que este cálculo inclui não só gastos diretos (roupa, comida, brinquedos), mas também os custos indiretos significativos, como a necessidade de uma habitação maior ou o aumento do consumo de energia.

Perante estes números, o Estado alemão disponibiliza um conjunto de apoios. O mais conhecido é o Kindergeld (abono de família), que em 2026 sofreu um ligeiro aumento, fixando-se nos 259 euros mensais por criança. Paralelamente (1), existe a dedução fiscal por filhos (Kinderfreibetrag), que em 2026 é de 6.828 euros anuais por criança, um mecanismo que tende a beneficiar mais as famílias com rendimentos mais elevados.

Apesar destes apoios, o sentimento de desânimo persiste. A discrepância entre o custo real (679 euros para um bebé) e o valor do abono (259 euros) é evidente, mesmo considerando que o Estado também subsidia fortemente outras áreas, como o custo das creches (Kita), que na Alemanha é um dos mais baixos da Europa, representando apenas 1% do rendimento familiar para famílias com dois filhos.

O Paradoxo do Investimento e o Fantasma do Envelhecimento

A Alemanha não é um país que poupe nas famílias. Dados do Instituto Alemão de Economia (DIW) mostram que o país gasta mais de 1.600 euros por habitante em benefícios familiares, um valor que é quase o dobro da média da União Europeia. Então, porque persiste a sensação de que “não dá”?

A resposta pode estar na convergência de várias crises como, a inflação pós-pandemia, a crise energética e o aumento das rendas, que corroem o poder de compra e tornam o planeamento familiar um exercício de alto risco. A confiança no futuro está em baixo, e a perceção é a de que o apoio estatal, embora existenta, não acompanha o ritmo galopante das despesas.

Este cenário é particularmente preocupante num país que enfrenta um acelerado envelhecimento populacional. Tradicionalmente, a imigração tem sido usada como um instrumento para mitigar este desequilíbrio demográfico. No entanto, como os dados da pesquisa Insa sugerem, confiar apenas na imigração é uma estratégica míope se o ambiente para as famílias nativas e imigrantes não for atraente.

Menos Armas, mais Apoio à Vida e menos Propagação ideológica

É neste contexto que surge a proposta de uma mudança de paradigma. Se o futuro da sociedade depende das novas gerações, o investimento nelas e na própria cultura deveria ser prioridade absoluta. Tal implica, para muitos, uma redefinição das prioridades orçamentais do Estado, nomeadamente o redireccionamento de fundos massivos, como os que são atualmente canalizados para o setor militar e de armamento, para políticas de apoio à família.

Entre as medidas concretas necessitadas de investigação que poderiam inverter a atual tendência de desânimo, destaca-se a criação de um salário mensal digno para as mães (ou pais) durante os primeiros quatro anos de vida da criança, idade determinante para a configuração da personalidade da criança em relação ao seu equilíbrio futuro. Uma medida desta natureza reconheceria, por um lado o trabalho invisível e essencial do cuidado na primeira infância,  por outro compensaria a perda de rendimento num período crítico, onde as despesas com o bebé são altas e, frequentemente, um dos progenitores reduz o seu horário de trabalho ou abandona o emprego e valorizaria a família no seu contributo fundamental para a sociedade, e não como um “problema” ou um “custo” individual.

A Alemanha tem demonstrado, através do seu investimento em creches e abonos, que entende a importância de apoiar as famílias. No entanto, a perceção pública, cristalizada na pesquisa da Insa, mostra que o atual pacote de medidas já não é suficiente, tendo muito embora em conta que o problema não é apenas de natureza económica mas sobretudo de crise cultural.

O desafio para os governos não é apenas ajustar valores, mas sim criar uma nova arquitetura de suporte que ofereça segurança e estabilidade genuínas aos jovens casais. Se a preocupação com o futuro é real, ele começa a ser construído hoje, não em campos de batalha, mas no berço e na estabilidade financeira de quem ousa, ou gostaria de ousar, ser pai ou mãe.

Conclusão

Um Estado que não garante um espaço livre e de liberdade para as crianças está, na prática, a sufocar o seu próprio futuro e assume uma função redutora. Quando a criança é vista apenas como um fardo financeiro, o Estado falha a sua missão essencial. Ao não reconhecer as crianças como uma fonte de enriquecimento humano e social, acaba por criar um défice bem mais caro a nível  económico, demográfico e, acima de tudo, humano. A tendência social para uma vida previsível, organizada e tranquila entra em choque com a natureza da infância. As crianças são criativas, espontâneas e surpreendentes, não se enquadrando nesse modelo rígido. As crianças trazem de volta proximidade, alegria, autenticidade e a capacidade de criar espaços vibrantes de humanidade, valores estes que a rotina adulta organizada perdeu.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Na Alemanha, não se acumulam o Kindergeld e o Kinderfreibetrag como dois benefícios independentes.
Os pais recebem normalmente o Kindergeld todos os meses. Depois, quando fazem a declaração de imposto, a autoridade fiscal (Finanzamt) faz automaticamente uma “Günstigerprüfung” (verificação do que é mais vantajoso). Aplica-se apenas a opção que for mais vantajosa.
Isto é, nos rendimentos mais baixos geralmente compensa mais o Kindergeld e nos rendimentos mais altos geralmente compensa mais o Kinderfreibetrag. Não é preciso escolher porque o sistema das finanças decide automaticamente.

O TEMPO DE DESINTOXICAÇÃO DE CORPO-MENTE E ALMA

A caminho de nós mesmos

Somos feitos da mistura de céu e terra. Caminhamos sobre o solo instável do tempo e do espaço, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda não somos, na saudade de algo já experimentado.

Chamamos futuro à direção que nos atrai. Mas o futuro não existe senão como perspetiva. O tempo é um fio invisível que não corre fora da vida. O tempo é uma propriedade do existir, e só se manifesta onde há corpo, relação, presença. O tempo acontece no espaço da experiência.

A Quaresma surge, assim, como um tempo de dádiva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calendário da pressa, não como coisa a gerir, mas como dádiva a habitar.

Vivemos entre o amanhecer e o pôr do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, não para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ruído porque é discreta e orienta por dentro.

No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em público, o tom é de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do diálogo. A comunicação social move-se muitas vezes ao ritmo da catástrofe e da indignação, como um coração acelerado que já não sabe repousar; faz lembrar ondas rítmicas que se repetem e nos arrastam..

Certamente por isso será urgente reaprender o silêncio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a nível individual e público. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu raciocínio e experiência e já terem demasiados quebra-cabeças têm de se fechar para não sofrer, cientes de que o que não se sabe não existe. A abstinência de notícias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensações salutares.

Durante quarenta dias, poderíamos exercitar um jejum da agressividade, da opinião imediata, da reação instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, não como fuga do mundo, mas como resistência à barbárie próxima e distante, na política como nas relações quotidianas.

A necessidade humana de fazer pausa

Há tantos caminhos para a abstinência como são os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religiões inscreveram no calendário pausas obrigatórias. Interrupções no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de renúncia não empobrecem, pelo contrário, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsciência.

O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como alguém que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esforço sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, também anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.

Os cristãos conhecem quarenta dias de jejum. Os muçulmanos vivem quatro semanas de Ramadão. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calendário civil e muitos outros criam as suas próprias pausas: jejuns pessoais, silêncios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxicação .

Para uns, trata-se de bem-estar físico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha fórmula de Junius Juvenal que no século I d.C.  recomendava “mente sã em corpo são”, um aviso sempre atual, pois não há nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saudável.

Há quem abdique de álcool ou de café e há quem abdique do ruído, e crie um tempo de silêncio no seu dia.

De facto, a vida não se reduz à sucessão de tendências, estímulos e notícias de última hora. Viver exige prática. Exige também espaço para errar, para experimentar ideias improváveis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a própria vida.

O corpo também precisa de rejeitar

O corpo não está apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digestão do consumo diário.

Saturado de consumo, de estímulos, de digestões contínuas, não só alimentares, mas emocionais e simbólicas. Também o corpo precisa de rejeição, de limpeza, de intervalo.

Jejuar é permitir que algo saia, é criar espaço. Trata-se de uma desintoxicação que não é apenas física, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que não visa a perfeição, mas o reequilíbrio.

Na tradição cristã, a Quaresma é sobretudo um tempo de autorreflexão. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em prática interior. E aquilo que parecia apenas repetição torna-se caminho.

Antes da Páscoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A atenção torna-se mais fina. O olhar mais sensível. A consciência social mais desperta.

As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza não é inevitável, nem na linguagem, nem na política, nem nas relações humanas.

Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o próprio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mistério. E dessa experiência nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, atenção plena, compaixão.

A mudança deixa então de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.

Entre o limite e a liberdade

Durante este tempo, vive-se entre a intenção e a abstinência. E é precisamente o limite que torna tudo mais concreto.

Caminhar pelo Jardim do Getsémani é aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condição humana, pois também a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade há que aceitar que nem toda a fidelidade é triunfante.

Então pode viver-se com mais consciência e aprender-se a lidar melhor consigo próprio e com os outros.

O jejum revela-se, assim, uma prática de responsabilidade por si e pelo mundo. É uma verdadeira pedagogia da liberdade.

O que inspira profundamente no cristianismo é o reconhecimento da soberania do indivíduo, não isolado, mas em tensão criadora com a comunidade. A fé não anula a singularidade; pelo contrário apenas a chama à maturidade.

Jejuar é, por isso, um gesto pessoal e comunitário. Um tempo de reflexão partilhada. Um espaço onde o “eu” e o “tu” não se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e dá sentido à vida em comum.

Um tempo para regressar

A Quaresma, no fundo, não é fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois é tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, à mente que pensa e à alma que escuta.

Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de nós mesmos e do nós, possivelmente na sombra de Deus.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

AVALIAÇÃO DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS EM PORTUGAL 2026  

António Seguro vence Presidenciais e PS recupera Fôlego – Ventura cresce e fragmenta o Bipartidarismo

A segunda volta das eleições presidenciais de 2026, realizada no passado domingo, confirmou a vitória de António Seguro com uma expressiva maioria de 66,81% dos votos expressos. O candidato apoiado pelas principais forças políticas e pela esmagadora maioria dos media alcançou 3.482.481 votos, contra 1.729.371 do adversário André Ventura (33,18%).

Apesar do resultado folgado, os dados da participação eleitoral trazem sinais inquietantes para o sistema partidário português. A abstenção fixou-se nos 49,91% e revelou-se como o valor mais elevado de sempre numa segunda volta de presidenciais. Dos 10.951.081 eleitores inscritos, 5.466.212 não compareceram às urnas.

O “Silêncio ruidoso” de quem votou contra ambos

Entre os 5.484.869 votantes, 271.520 eleitores (4,95% do total) optaram por não escolher nenhum dos dois finalistas. Foram registados 97.724 votos nulos (1,78%) e 173.823 votos em branco (3,17%). Os números traduzem aquilo a que se poderia chamar de “terceira via do silêncio ruidoso”, ou seja, um protesto activo de quem foi às urnas para rejeitar ambas as candidaturas.

Ventura rompe o Sistema bipolar partidário e consolida Espaço próprio

Candidato único na segunda volta, André Ventura conseguiu mobilizar mais de 1,7 milhões de eleitores, o que representa um crescimento significativo face aos resultados do CHEGA nas últimas legislativas. O feito repõe a geometria do sistema partidário português: PS, CHEGA e PSD que se posicionam agora como as três forças com maior expressão eleitoral no país.

Para Ventura, o resultado representa a rutura definitiva com o tradicional duo-partidarismo. Apesar da derrota, a sua votação expressiva valida a estratégia de afirmação autónoma e consolida-o como líder de um polo político com capacidade de influenciar o equilíbrio de forças nos próximos ciclos eleitorais.

O “Balão de Oxigénio” de Seguro e a Armadilha da Governação

A vitória de António Seguro é lida internamente como “o balão de oxigénio de que o PS precisava”, num momento de desgaste partidário e de indefinição estratégica. No entanto, o novo Presidente da República encontra-se numa posição delicada. Eleito com o apoio de todo o arco da governação e dos grandes grupos de comunicação social, Seguro enfrenta agora a difícil equação entre dar continuidade ao status quo e responder à evidente necessidade de renovação política.

A ambivalência promete marcar o seu mandato. Se a vitória expressiva lhe confere legitimidade, o contexto que a rodeia, abstenção recorde, divisionismo partidário e uma fatia significativa de eleitores a recusar os dois campos, mostra que o descontentamento não foi desarmado, sendo apenas transferido.

A Ausência de Metade do País é um Pesadelo que não passa

O dado mais estrutural da noite eleitoral é, porém, a abstenção. Cinco milhões e meio de portugueses ficaram em casa. É o maior acto de questionamento silencioso ao regime democrático português desde 1974. O resultado deveria causar pesadelo ao sistema partidário e à forma como as elites, especialmente os Media, conduzem o povo.

Mais do que a vitória de um ou de outro, foi a ausência coletiva que deu a verdadeira dimensão do descontentamento. E o problema não promete ficar por estas duas voltas porque é sistémico.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

EM CADA ONZE SEGUNDOS HÁ UMA MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA

O Martírio silencioso e a Urgência de ver e actuar

Um relógio humano marca, a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo. Este não é um dado estatístico distante mas sim o ritmo de um sofrimento profundo que tece silêncios em pleno século XXI. Quanta mulher destruída e quantos traumas como marcas da vida. Imagine-se a barbaridade que os outros animais na qualidade de irracionais  não fazem? Enquanto Estados se concentram em indicadores económicos e conflitos geopolíticos, uma violação íntima e brutal contra milhões de mulheres e meninas persiste, muitas vezes à sombra de tradições ou da indiferença. Quando chegará o dia em que o Homem e a política se concentrem em curar as feridas humanas?

Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres são frequentemente relegados para as franjas da discussão pública. A mutilação genital feminina (MGF) é talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. É imperativo que este tema saia da zona do tabu e entre na esfera da ação coletiva e da consciência emocional. Tabus silenciados endurecem as vidas.

A Anatomia de um Sofrimento oculto

O que significa, na realidade, este martírio? Na Somália, as mulheres nascidas há três décadas são, em regra, mutiladas. A prática continua hoje. Na Guiné, persiste o “fanado”, um ritual de iniciação que viriliza a violência muito embora praticada por mulheres. As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, têm os seus órgãos genitais externos amputados, sem amnestesia, em condições precárias. A escala da violência varia: do corte do clítoris à extração total dos órgãos e à subsequente costura da abertura vaginal (infibulação), um procedimento com consequências devastadoras para toda a vida.

Este crime não conhece fronteiras. Na Alemanha, onde me encontro de momento e escrevo este artigo relatos documentados por Steffi Burmester, da Mädchenhaus Kassel, revelam um drama transnacional: famílias que viajam de férias para a Somália, Eritreia ou Djibuti e regressam com as suas filhas mutiladas. Em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob ameaça iminente de sofrer esta violência.

Ver a Pessoa para além do Número

Isto deveria falar também à nossa inteligência emocional coletiva que significaria a capacidade de transcender a fria estatística e conectar-nos com a realidade humana que ela representa. Não se trata apenas de “15.000 casos”; trata-se de 15.000 infâncias roubadas, 15.000 futuros marcados por dor crónica, infeções, traumas psicológicos profundos e complicações em partos.
Um pouco de humanismo  exige que ouçamos os detalhes que os números silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel: em família,  os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que mães, irmãs e avós demorem tempos intermináveis na casa de banho e vivam com dores constantes. Exige que reconheçamos o controlo social exercido através de chamadas telefónicas de familiares, onde avós e tias perguntam, veladamente, pela “visita” da criança, um eufemismo para a mutilação.

Entre a Tradição e a Lei é necessário o Caminho para a Proteção

A aceitação da MGF como “tradição” é um muro difícil de derrubar, sustentado por gerações de lavagem cerebral. Contudo, o respeito cultural não pode ser uma capa para a barbárie. A educação sexual e a informação são armas fundamentais. Se uma menina de cinco anos com mutilação genital chegar a um hospital, o silêncio dos profissionais não pode ser uma opção.
Felizmente, há luz na escuridão. Em Kassel, centros como a Mädchenhaus e o departamento de saúde da cidade trabalham há anos contra este ritual, oferecendo proteção e aconselhamento especializado. A lei alemã deu um passo crucial: desde 2013, o §226a do Código Penal pune a mutilação genital feminina com, no mínimo, um ano de prisão, classificando-a juridicamente como agressão física grave. É um reconhecimento de que o corpo das meninas não é propriedade cultural, mas um inviolável direito humano.

O Desafio para Portugal e para a Europa é não fechar os Olhos

A pergunta que se impõe é: As autoridades portuguesas, e europeias em geral, estarão preparadas para lidar com esta questão? Fazer vista grossa é cumplicidade. Fechar os olhos na Europa é fomentar a barbárie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural.

Proteger os mais fracos, as crianças,  é um imperativo civilizacional universal que exige:
– Legislação clara e aplicada, seguindo o exemplo alemão.
– Formação especializada para profissionais de saúde, educação e serviços sociais para identificar e agir perante riscos.
– Apoio e proteção às meninas em risco e às suas famílias, através de centros de aconselhamento e casas-abrigo.
– Campanhas de sensibilização dentro das comunidades, promovendo uma nova “tradição”: a da integridade corporal e do respeito pelos direitos das meninas.

De onze em onze segundos, o relógio avança. Mas a cada segundo que passa, temos a escolha de sermos cúmplices do silêncio ou agentes de mudança. Mover a inteligência emocional já não significa sentir apenas indignação perante oque aqui se escreve, mas permitir que essa indignação se transforme em voz, em pressão social, em apoio a quem luta no terreno.

O martírio pode ser silencioso, mas a nossa recusa em aceitá-lo não deve ser. Urge que este tema saia da sombra e entre na luz da ação política, do debate público e da proteção humana. A verdadeira tradição que devemos honrar é a da compaixão e da defesa intransigente dos indefesos. O tempo de fechar os olhos acabou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

VIOLÊNCIA CONTRA PROFISSIONAIS DE SAÚDE ATINGE NÍVEIS ALARMANTES NA ALEMANHA

A violência física e verbal contra médicos e enfermeiros está a aumentar de forma preocupante na Alemanha. De acordo com um recente inquérito do Jornal Médico Alemão, dois terços dos médicos inquiridos reportaram já ter sido vítimas ou assistido a violência física ou verbal, no local de trabalho. Os episódios são particularmente frequentes em serviços de urgência e consultórios, tornando-se um risco ocupacional crescente. A crise no sistema de saúde e degradação do tecido social são apontadas como causas.

Especialistas vinculam este surto de agressividade a frustrações profundas no sistema de saúde. Pacientes enfrentam dificuldades para marcar consultas, seja com médicos gerais ou especialistas como ortopedistas e cardiologistas, sendo a situação mais crítica nas urgências. A percepção de que utentes particulares têm acesso facilitado agrava a sensação de desigualdade e desamparo entre a população geral.

O problema, no entanto, parece refletir uma erosão mais ampla do respeito na sociedade. Num país que faz propaganda da guerra, procurando tornar pessoas ‘aptas para a guerra’, o aumento significativo da disponibilidade para usar violência é uma consequência visível. O clima de agressão aumenta especialmente em relação a empregados do serviço público. O assassinato de um revisor de comboios perto de Kaiserslautern é um exemplo extremo desta tendência.

A mentalidade do “é meu direito”, aliada a uma crescente impaciência e a uma resistência diminuída em procurar ajuda de forma civilizada, está a colocar em risco os profissionais na linha da frente. Numa sociedade em que as pessoas são vistas mais como objetos funcionais, o respeito diminui e a violência aumenta, também como efeitos negativos de certas políticas se fazem sentir na base da sociedade.

A combinação fatal de um sistema de saúde sob pressão, com longas esperas e escassez de profissionais e um clima social onde a coesão se degrada, está a criar um ambiente perigoso para quem trabalha no setor e em outros sectores públicos. As associações médicas alertam para a necessidade urgente de medidas que protejam os seus profissionais e que ataquem as causas de fundo desta crise, que é tanto de saúde pública como social.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do tempo