CRIAÇÃO DE UMA FORÇA DE REACÇÃO MILITAR RÁPIDA DA UNIÃO EUROPEIA

Portugal entre os primeiros na Iniciativa de Formação de um Exército da EU

Na Cimeira da EU desta semana, entre o assunto do preço dos combustíveis e o litígio com a Polónia, a Alemanha aproveitou para apresentar uma iniciativa de criação de uma tropa de intervenção europeia.

De facto, “os recentes acontecimentos no Afeganistão demonstraram, mais uma vez, que a UE deve ser capaz de … agir com firmeza e rapidez”, diz o documento elaborado pela Alemanha, Holanda, Portugal, Finlândia e Eslovénia. Em termos concretos, o conceito prevê um maior desenvolvimento dos Agrupamentos Táticos da UE em forças poderosas de resposta armada a crises, para que podem ser destacadas a curto prazo.

A iniciativa alemã, também no sentido de, a longo prazo, se formar um Exército da União Europeia, limita-se, para já, a abordagens bi- ou multinacionais.  Isto porque as divergências políticas entre os membros da EU e à má coordenação europeia das forças militares não permitem ainda uma coordenação europeia conjunta das forças militares. Este é um impulso para a formação de uma força de intervenção coordenado agora pelos cinco países.

Agora, que os EUA se estão a retirar do seu papel de polícia mundial, a Europa sente-se obrigada a cuidar da sua própria segurança e estratégia geopolítica.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

DO DIREITO TORTO DA UNIÃO EUROPEIA E DO CONTENCIOSO COM A POLÓNIA

O Governo da Polónia nega-se a ultrapassar as próprias Instituições

A União Europeia está em construção. Por isso são compreensíveis erros na sua edificação. O que não é compreensível é a arrogância como um constructo incompleto se arroga direitos de Estado sobre os Estados membros servindo-se do atuar de oligarcas de Estados membros legitimados, em parte, apenas por contratos à margem da discussão pública e da via democrática.

A disputa entre a UE e a Polónia sobre o Estado de direito da Polónia ameaça dividir a UE, como se observa na recente cimeira da UE.

O pano de fundo da atual disputa é uma decisão do Tribunal Constitucional polaco em Varsóvia que declara partes do direito da UE como incompatíveis com a Constituição polaca. Na cimeira, o primeiro-ministro polaco manteve-se firme e afirmou que certas instituições da UE, tais como a Comissão e o Tribunal de Justiça Europeu, usurparam poderes que não lhes tinham sido concedidos e “não era esse o acordo e, por conseguinte, nem o governo polaco nem o parlamento polaco atuarão sob pressão de chantagem nesta matéria”.

Há países em que a independência dos parlamentos e governos não é colocada sob o ajuizar do cidadão e dos parlamentos porque o dinheiro ajuda os governos e substitui as disputas.

A UE está inquieta com a Polónia por esta não consentir, ao contrário do que fazem outros governos contra as próprias constituições (Estes governos não vinculam suficientemente a opinião pública nem o Parlamento em questões em que está em jogo a soberania nacional e em que a EU, de facto, interfere na soberania de países criando factos consumados sem a legitimação necessária). Os governos, em falta perante a própria população e as próprias instituições, estão todos eles interessados em que a Polónia seja castigada; tornar-se-ia muito incómoda uma discussão pública de factos consumados à margem de Estados e do cidadão se o proceder da Polónia viesse pôr na praça pública assuntos comprometedores!

Embora a reforma judicial polaca seja um empreendimento questionável, por outro lado, a Comissão Europeia, a fim de aplicar a chamada lei europeia, utiliza um tribunal (TJCE) que presume ter soberania sobre a constituição dos Estados nacionais ligados apenas por tratados na UE, e não por tribunais nacionais nem legitimados democraticamente e, portanto, sem obediência constitucional (Este é um assunto muito controverso entre os juristas!).

De facto, a lei europeia não é elaborada/legitimada através dos canais democráticos parlamentares. “O Parlamento da UE tem, na melhor das hipóteses, o direito de participar, mas não o direito de iniciar legislação, que é característico de um parlamento democraticamente legitimado” (Jens-Carsten Petersen). E, finalmente, permanece a questão de saber a que serviço e direito disciplinar os juízes do TJCE estão efectivamente sujeitos. No caso da Polónia, a UE está a agir de forma tecnocrata autónoma, apesar de necessitar de remodelação.

Seria de se desejar da Polónia maior colaboração com uma União Europeia em fase de construção e seria de desejar da União Europeia que respeite a soberania dos Estados (muito embora ela tenha de ser participada sem ser, contudo, atropelada) e as vias democráticas de cada país! O Poder democrático da EU não pode ser alcançado através de mera compra porque então os países marginais passariam a ser colocados num papel de pedintes que se acomodam à custa do que lhes daria honra.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

O “PAI NOSSO”

Interpretação da sexta petição: Tentação ou Prova?

O Pai Nosso é a oração básica de toda a cristandade; ela foi ensinada (Mt 6,9-13; Lk 11,2) por Jesus aos seus discípulos. Para Mateus a Oração do Senhor é uma reza completa porque engloba as necessidades humanas e a assistência divina. Com ela entra-se numa relação com Deus que possibilita ao crente a experiência da ressonância entre imanência e transcendência e, se rezada em comunidade, possibilita também a ressonância intercorporal. O Pai Nosso é completo, porque nos afasta da hipocrisia ordinária e apresenta-nos também o contexto próprio para a relação com Deus, apontando, como condição para o orante, o cumprimento da Regra de Ouro, que é a prontidão para perdoar ao próximo.

O Pai Nosso tem sete petições dirigidas a Deus e une cerca de 2,5 mil milhões de pessoas na terra, na sua relação com Deus. Como as plantas olham para o sol à procura de vida assim a nossa alma levanta o olhar para Deus na procura de vida espiritual, realização e perfeição. O Sol, Deus, a vida, não giram apenas em torno de mim. Eu apenas sou um Protagonista da peça divina no palco de Deus, onde o enredo tem toda a humanidade a atuar, numa caminhada universal onde não há espectadores.

Na obra da criação, criados como humanos, sendo parte da criação, estamos também sujeitos às leis da natureza e como tal estimulados a seguir a força dos desejos e instintos (bons porque nos conduzem, mas em certos pontos sensíveis podem levar-nos à tentação) e a viver numa certa dialética que pode possibilitar desenvolvimento e purificação.

O sexto pedido no Pai Nosso (Mat 6:13, objecto de reflexão aqui) reza assim: “E não nos deixeis cair na tentação„ ou “e não nos exponhas a uma prova” (et ne nos inducas in temptationem: tradução feita do grego: και μη εισενέγκης ημάς εις πειρασμόν). Nas traduções poderá haver divergências entre a versão da Vulgata Latina e o texto grego dos Evangelhos.

Em 2017 o Papa Francisco generalizou o debate sobre o problema da exatidão das traduções, esclarecendo que: “Deus não nos tenta” (1) e dizendo que a frase do Pai Nosso (Mateus 6.13) “e não nos deixes cair em tentação” (noutras línguas: “e não nos induzas/conduzas à tentação” tinha sido mal traduzida!  Também as correções feitas pelos episcopados francófono e italiano (2) não satisfazem alguns teólogos porque entre outras coisas as novas traduções não seriam fiéis à tradução oficial da Vulgata: (et ne nos inducas in temptationem “e não nos leves/induzas para a tentação”)!

A questão seria mais complicada se partíssemos da Vulgata como fonte, mas de facto a fonte donde vem a Vulgata é o grego.  De facto, „Não nos deixes cair em tentação” significa “não permitas que sejamos tentados a ponto de cairmos” ou “não nos submetas ao teste” porque se levados ao exame das tentações, como foi Jesus, sucumbiríamos devido à fraqueza da própria fé. Por outro lado, o “não nos deixeis cair em tentação” aponta para a incapacidade de resistir ao mal sem a assistência divina. Interessante aqui é, de facto, o problema do sermos tentados que, no caso, não poderia ser por Deus, mas, por outro lado, o que torna totalmente viável a interpretação bíblica de Ratzinger/Bento XVI (e a exegese e análise filológica clássica) que apontam para o aspecto de sermos provados por Deus, como se depreende do texto grego.

A abordagem ao texto de forma teológica e o acesso filológico-exegético ao texto permitem-nos uma visão mais ampla da questão. As diferentes traduções não apresentam problemas teológicos em geral, mas apenas especificidades de exegese e filologia.

Segundo exegetas e filólogos na tradução do grego para o latim ou para outras línguas, o verbo grego εισφέρω/isféro pode ser traduzido tanto por tentar como por provar ou examinar, no sentido de pôr a pessoa à prova, e submetê-la a um teste; além disso ainda há a questão da tradução do aramaico para o grego, mas que não é relevante para aqui.

Atendendo ao facto de as palavras gregas da frase do Pai Nosso (3) possibilitarem diferentes significados: εισενέγκης/eisenénkis do verbo εισφέρω/isféro significa ”levar, “trazer”, “entrar”, “guiar” e “conduzir” (sem a significação de “deixar” como na tradução portuguesa (4): nesse caso teria sido usado o verbo επιτρέπω com o significado de deixar, permitir, consentir, instruir, ou o verbo αφίημι no sentido de permitir, deixar, enviar) e o substantivo πειρασμόν/peirasmos que significa tentação,  provação/ teste ou exame (este parece ser mais fiel ao original grego), temos alternativas de tradução a partir do texto de origem grega; tais como: “e não nos deixes cair em tentação”, “e não nos leves à provação”, ou simplesmente, “não nos testes”. Afirmam os filólogos que Peirasmos tanto possibilita ser traduzido por “Tentação” (maligna) como por “Provação” (de Deus). Os diferentes contextos bíblicos (Hermenêutica) apontam mais para a ideia de provação: “e não nos induzas/conduzas a provas/tentação”, ou: “e não nos exponhas a uma prova” (porque não somos como Jesus que resistiu a elas no deserto). Os peritos linguistas concluem que “As duas possibilidades da tradução (Tentação e Provação) são legítimas pois “nenhuma tentação nos ocorre sem que Deus permita que ocorra”, pois, o mal é a ausência de Deus. O esforço, que espera da nossa parte, é para nos elevarmos em direcção a Deus para ele nos poder dar a mão (5). No caso de Abraão e seu filho Isaque, Deus põe Abraão à prova (Gen 22:1-2), o mesmo se diga no caso de Job.

Razinger/Bento XVI, no livro “Jesus de Nazaré I”, Capítulo 5, reflecte sobre a sexta petição do Pai-nosso, a saber: “E não nos conduzas à tentação„, noutras traduções é “E não nos deixeis cair em tentação”. Nele Ratzinger arruma com aparentes contradições nas traduções. Passo a citar as suas palavras (6), de expressão espiritual-teológica:

“Deus não deixa o homem cair, mas testa-o (7) … Para amadurecer, para realmente passar, cada vez mais, de uma piedade superficial para uma profunda unidade com a vontade de Deus, o homem precisa de ser testado. Tal como o sumo do mosto de uva fermenta para se tornar vinho nobre, também o homem precisa de purificações, transformações que são perigosas para ele, nas quais pode cair, mas que são, no entanto, os meios indispensáveis para chegar a si mesmo e a Deus. O amor é sempre um processo de purificações, renúncias, transformações dolorosas de nós próprios e, portanto, um caminho de amadurecimento”. Ao dizermos “Não nos conduzas à tentação”, („Não nos deixeis cair em tentação”), estamos a dizer a Deus: Eu sei que preciso de provas para que a minha natureza seja pura… “(8).

“Quando Francisco Xavier foi capaz de dizer a Deus em oração: Amo-vos, não porque tendes céu ou inferno para perdoar, mas simplesmente porque sois meu Rei e meu Deus, um longo caminho de purificação interior tinha certamente sido necessário até esta liberdade final; um caminho de maturação sobre o qual a tentação, o perigo de cair, espreitava, mas ainda assim um caminho necessário” … (Em contexto cristão tentação é o estímulo a uma acção imoral – pecado – e este é como a sombra que surge onde Deus não brilha).

Ratzinger conclui: “Assim, podemos agora interpretar a sexta petição do Pai Nosso de uma forma mais concreta. Dizemos a Deus: Eu sei que preciso de provações para que a minha natureza se torne pura. Ao ordenares estas provas sobre mim, se dás ao mal um pouco de espaço livre, como fizeste com Job, então por favor lembra-te da medida limitada da minha força. Não me dês demasiado crédito. Não estabeleças limites demasiado amplos nos quais eu possa ser tentado, e está perto com a tua mão protectora quando ela (a prova, o exame, a “tentação”: meu parêntesis!) se tornar demasiado para mim… Na nossa oração da sexta petição do Pai Nosso, devemos, por um lado, estar dispostos a assumir o fardo da provação que nos foi imposta. Por outro lado, é o pedido que Deus não nos dá mais do que somos capazes de carregar; que Ele não nos deixa sair das Suas mãos. Fazemos este pedido com a certeza confiante que São Paulo nos deu: “Deus é fiel; Ele não permitirá que sejas tentado para além das tuas forças. Ele dar-te-á uma forma de sair da tentação para que possas suportar (1 Cor 10:13)”.

Joseph Ratzinger-Bento XVI cita ainda Cipriano que referiu duas razões pelas quais Deus dá um poder limitado ao mal e assim “possibilitar o arrependimento, refrear a nossa arrogância, para que possamos experimentar novamente a miséria da nossa fé, esperança e amor, e não nos imaginarmos grandes por nossa própria vontade” como agiam os fariseus que pensavam que devido ao seu mérito já não precisavam da graça”. Cipriano não desenvolveu o outro tipo de teste ou tentação, mas de não esquecer é o facto de Deus colocar um “fardo particularmente pesado de tentação sobre aqueles que lhe são especialmente próximos” (por ex.: Therese de Lisieux).

Ratzinger centra as suas atenções no núcleo do cristianismo e quem o lê tem a sensação de estar ao mesmo tempo com um sábio e com um santo. Como ele diz, a relação com Deus torna os seres humanos, humanos. E como “Deus é amor, torna-se ociosa a tentativa de o rodear de argumentos e tentar agarrá-lo”. De facto o homem é demasiado pequeno para conseguir tal e emaranha-se em si mesmo ao tenar reduzir o acesso a Deus apenas com factores de causalidade.

De facto, a luz da verdade, a graça e a iluminação da razão são os luzeiros necessários para avançarmos e nos desenvolvermos.

Deus sabe que estamos sujeitos às leis do mundo que ele criou e para as superarmos precisamos da sua assistência. As resistências a elas pressupõem esforço e o apoio especial divino que é pedido por quem tem a consciência da sua pequenez e da grandeza divina; de facto, no mundo real, sem resistência não há desenvolvimento.

António CD Justo

Teólogo e

Pegadas do Tempo

Junto aqui Duas versões / traduções diferentes, de Aramaico (a língua em que Jesus ensinou).

1ª versão

Oh Tu, respirando vida em tudo, origem do som cintilante.

Tu brilhas em nós e à nossa volta,

até a escuridão brilha quando nos lembramos.

Ajuda-nos a respirar uma respiração santa na qual Te sentimos apenas a Ti-

e deixa que o Teu som ressoe dentro de nós e nos purifique.

Que o Teu conselho governe as nossas vidas e clarifique o nosso propósito (intenção )

para a criação que partilhamos.

Que o desejo ardente do Teu coração una o céu e a terra

através da nossa harmonia.

Concede-nos diariamente aquilo de que precisamos de pão e de discernimento:

o que é necessário para o apelo da vida crescente

Solta as cordas das faltas (erros) que nos ligam,

como nos libertamos do que nos liga à culpa dos outros.

Não nos deixemos enganar por coisas superficiais,

mas liberta-nos daquilo que nos prende.

De Ti provém a vontade todo-eficaz, o poder vivo (energia/força viva) para agir,

a canção (música) que tudo embeleza e se renova de idade em idade.

Verdadeira vitalidade a estas declarações!

Que sejam o solo a partir do qual todas as minhas acções crescem.

Selado na confiança e na fé.

Ámen.

 

2ª versão

Mãe-Pai de todos os criados! O teu nome ressoa sagradamente através do tempo e do espaço!

O teu ser uno (Unidade divina) cria em amor e luz – para sempre e agora!

Que a Tua vontade seja feita através da minha – como no espírito, assim em todos os formados (tudo o que tem forma)!

Dá-nos alimento diariamente – quanto ao corpo, assim como à alma!

Solta os laços dos meus defeitos (falhas) – tal como eu os solto (perdoo) aos outros!

Não me deixes perder em superficialidades e em coisas materiais!

Liberta-me da imaturidade e de tudo o que me prende e não me liberta!

Pois Teu é o poder e a música do universo – agora e aqui e na eternidade. Ámen.

Traduzido por António Justo a partir do texto alemão.

(Nova tradução do PAI NOSSO de acordo com Martin Luther, Septuaginta e Vulgata de acordo com: G. Lamsa (Gospels from an Aramaic Perspective), adaptação inglesa: N. Douglas-Klotz,Adaptação alemã: J.E. Berendt).

Fonte: https://robert-betz.com/mediathek/inspirationen/vater-unser/

 

  • (1)   Deus não nos passa nenhuma rasteira, como diz o Papa Francisco: https://www.vaticannews.va/de/papst/news/2019-05/papst-franziskus-generalaudienz-vaterunser-katechese-mai-19.print.html
  • (2)   A Conferência Episcopal Francesa mudou a tradução do pai nosso de uso corrente “Et ne nous soumets pas à la tentation” pela nova forma: “Et ne nous laisse pas entrer en tentation”. O verbo francês “soumettre” (submeter) foi então substituído por “ne pas laisser entrer”(literalmente: não deixe entrar). A nova versão está mais próxima da formulação grega do Evangelho (Mt 6:13), em que a expressão “μὴ εἰσενέγκῃς” (não conduzem a) é usada. Há o legítimo receio manifestado por teólogos de mesmo na nova versão introduzida poder haver “falsificação das palavras de Jesus”, como referem comentadores.
  • (3)   A frase grega Mt 6:13, και μη εισενέγκης ημάς εις πειρασμόν, deixa margens para algumas variações nas traduções em contexto.
  • (4)   As interpretações do Pai Nosso apareceram de várias maneiras desde Tertuliano
  • (5)   A tradução em latim, usou a clássica expressão “inducas”, que sublinha o fato que somos “induzidos”, “levados” à tentação, reforçando esse sentido implícito no texto grego. Os exegetas para melhor contextuarem o texto apontam para um manuscrito aramaico encontrado em Qumran onde se reza “faz com que eu não entre em uma situação difícil demais para mim”, o que também legitimaria a expressão portuguesa “não nos deixeis cair em tentação “e o latim “inducas” no sentido de “deixar cair” e não de “fazer cair”! Quanto ao uso do substantivo “Temptatio” (Tentação) se advertia para a palavra como falaciosa. As pistas linguísticas são muito esclarecedoras. De facto, Deus pode pôr-nos em prova, mas sem tentar ninguém (1Coríntios 10,13 e Tiago 1,12). “Et ne nos inducas in temptationem”, em português: “não nos deixeis cair em tentação”, em alemão: “ E não nos conduzas à tentação” („Und führe uns nicht in Versuchung ”)!
  • (6)   Pai Nosso, análise: https://www.bibelwissenschaft.de/wibilex/das-bibellexikon/lexikon/sachwort/anzeigen/details/vaterunser-1/ch/5ac77bb77dc5bbf25a3950e3e58809ad/ e https://br.markusdasilva.org/serie-orando-o-pai-nosso-com-poder-estudo-no-9-nao-nos-deixes-cair-em-tentacao/
  • (7)   Joseph Ratzinger-Bento XVI, Jesus de Nazaré I, Freiburg-Basel-Viena 2007, pp. 195-199): “A redação desta petição do Pai nosso é ofensiva para muitos: Deus não nos leva, afinal de contas, à tentação. De facto, diz-nos St. James: “Que ninguém que se sinta tentado diga: Eu sou tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado a fazer o mal, nem Ele próprio tenta ninguém. A tentação vem do diabo, mas a tarefa messiânica de Jesus inclui suportar as grandes tentações que conduziram e continuam a conduzir a humanidade para longe de Deus. Ele deve, como vimos, sofrer estas tentações até à morte na cruz e assim abrir o caminho da salvação para nós. Deve assim descer, não só depois da morte, mas com ele e em toda a sua vida, por assim dizer, ao inferno, ao espaço das nossas tentações e derrotas, a fim de nos levar pela mão e nos carregar para cima. A Carta aos Hebreus colocou especial ênfase neste aspecto, destacando-o como uma parte essencial da viagem de Jesus: “Pois desde que ele próprio foi levado à tentação e sofreu, é capaz de ajudar aqueles que são tentados (2,18). Não temos um sumo sacerdote que não possa simpatizar com a nossa fraqueza, mas um que em tudo foi tentado como nós, mas não pecou” (4:15).
  • (8)   …” se me encomendar estas provas, se der um pouco de espaço livre ao mal, como fez com Job, então lembre-se por favor da medida limitada da minha força. Não me dêem demasiado crédito. Não me atraiam demasiado os limites dentro dos quais posso ser tentado, e estejam perto com a vossa mão protectora quando ela se tornar demasiado para mim”.

DEMOCRACIA LIVRE NÃO OBRIGA A VOTAR

Nas autárquicas 2021 o “Partido” das abstenções aumentou para 46,35%

O resultado das eleições autárquicas portuguesas 2021 para os 308 municípios e 3092 freguesias de Portugal registou 34,23% dos votantes para o PS, 13,21% para o PPD/PSD, 10,82% para PPD/PSD.CDS-PP, 8,21% para PCP-PEV, 5,54% Grupo Cidadãos, 4,16% Chega, que são os mais votados dentro dos 20 partidos concorrentes (1).

A abstenção atingiu os 46,35% e os votantes em branco cifrou-se em 2,50% e os nulos em 1,58% (2)!

A abstenção e os votos em branco que podem ser considerados de protesto, quando é tão alta enfraquece a democracia e favorece os partidos maioritários; por isso os votos em branco deveriam ter direito a cadeiras vazias no parlamento (para não serem adicionadas aos partidos com mais deputados).

O problema seria maior no momento em que a participação nas eleições fosse inferior a 50%, então passaria propriamente o funcionalismo público e os mais conscientes de interesses a determinarem o governo e os destinos da nação.

Naturalmente, se os cidadãos em vez de se absterem participassem nas eleições com voto em branco, manifestariam uma vontade política declarada e como tal faziam passar a imagem de cidadãos conscientes e responsáveis pelo que fazem.

Vê-se muita gente a criticar o cidadão que não vai às urnas de votos e não participa nas eleições. Esta atitude é naturalmente sentida como uma afronta à democracia, mas tende a ser demasiado dilatada ou cega de um olho.

Condenar o povo não votante mais que um equívoco corresponderia a fazer o jogo partidário porque se centra nas consequências confundindo-as com as causas! Por outro lado, os governantes no seu orçamento também não renunciam ao dinheiro dos contribuintes não votantes, sendo muito do seu dinheiro usado para conceder subsídios e até benefícios!

A abstenção é uma afronta à democracia e favorece os partidos da governação, ela questiona, por outro lado, a deficiente formação política do cidadão feita pelos partidos. Os partidos têm o dever constitucional de formar politicamente a sociedade, recebendo para isso dinheiro do Estado. Em vez de formação política assiste-se mais a propaganda partidária, por vezes, vazia de conteúdos e, quando muito, com objetivos programáticos, mas sem indicação de orçamentos destinados à sua concretização, o que dá a impressão de ser uma venda de ilusões.

O factor ignorância parece importar a todos: governantes e governados! Quem tem poder/saber está consciente que quem não sabe não “peca”, e o não saber importa também aos ignorantes porque lhes é poupado assumir responsabilidade e poupa-lhes o esforço necessário para assumir um espírito analítico/crítico. 

Saber é uma importante componente do poder e, num certo sentido, formar politicamente o cidadão poderia corresponder a torna-lo não só politicamente mais activo e exigente, mas também concorrente político ou mais difícil de governar. Formação política implicaria formar para os interesses como cidadão e como nação que ultrapassariam a soma dos interesses partidários. De resto, o rebanho come a palha que lhe dão!

A democracia deve ser coerente com ela mesma e não obrigar a votar! Todos os eleitores são livres de decidir onde, se, e em quem votar. Naturalmente aqueles que não votam não podem protestar contra o resultado que apoiaram indiretamente ao não votarem porque elegeram não se comprometerem nem se responsabilizarem. Muitos não eleitores, talvez mais economizadores de tempo, pensam conseguir exatamente o que querem sem irem às urnas. Também alguns cidadãos não têm preferência por nenhum dos partidos ou candidatos a concorrer às eleições.

Há motivos que podem justificar a abstenção quer a nível de conceito por defensores da democracia directa, quer a nível prático por desilusão com uma política mais de clientelas do que de serviço ao povo na sua generalidade; atendendo a uma certa manipulação nos meios de comunicação, votar pode, por vezes, não ser muito melhor do que conduzir embriagado. Pelo que se pode observar em Portugal, seria uma ilusão pensar que os políticos estão no poder para representar os interesses do povo; representam os interesses do seu “povo” sendo daí a necessidade da mudança sucessiva de governos uma das consequências lógicas! A Constituição possibilita os regulamentos necessários para permitir uma administração estatal provisória e dá margem ao cidadão para se mover no quadro das circunstâncias que ela determina.

A abstenção a nível de votantes favorece sobretudo o partido que tem mais funcionários e empregados de Estado porque estes estão mais conscientes do que é poder e votam no partido que os beneficia (Daí explicar-se que em Portugal, em vez de haver um horário semanal igual de trabalho na função pública e particular; o Governo de Costa, para ganhar votantes diminuiu o trabalho semanal dos trabalhadores públicos para 35 horas, embora estes em países ricos como a Alemanha tenham de trabalhar 40 horas. Quem paga a benesses partidárias é o povo contribuinte.

Numa sociedade democrática livre, o cidadão deve ser livre de decidir por si próprio se vota ou não. Num escrutínio secreto, ninguém pode ser obrigado a votar.

De resto, Rei fraco, quer Povo fraco!

António CD Justo

Pegadas do Tempo,

  • (1)  https://www.autarquicas2021.mai.gov.pt/resultados/territorio-nacional?fbclid=IwAR0cnNFGYDhRHU43LHSMva-e-VHb2HxAc4_Y0H-zmM74Ouoek_rIUSpJcaA
  • (2)  Segundo estatísticas relativas à população global residencial e à emigrante teriam sido cerca de 36% abstenções dado para as estatísticas relativas às autárquicas só votarem os residentes no território; muitos encontram-se no estrangeiro (e muitos que se encontram na União europeia optam por votam nas autárquicas do país de residência. É natural que os partidos maioritários (beneficiam principalmente com as abstenções, porque, no passado, têm tido um núcleo de eleitores fiéis que possibilitam mais expressão ao partido e possibilidades de coligação.

 

PROJECTO PARA PESSOAS QUE QUEIRAM DSENVOLVER A PESSOA INTEIRA

Desenho antropológico para o século 21

Coloco aqui o Link de um antigo colega e velho amigo (Padre e Psicólogo José Fernandes) que acho muito oportuno na qualidade de desenho antropológico para o século 21. Apresenta um modelo de catequese em vez de catecismo! Tem validade tanto para a religiosidade como para a secularidade.

Tem vídeos em directo: https://www.youtube.com/channel/UCiZwykajHb4e46A67z_Ty5g  e textos em

www.humanidade21.pt

É muito oportuno numa sociedade  cada vez mais reduzida a consumidores de ideologias, de bens e de imagens fornecidas.

Bom Fim de Semana!