No Olimpo das elites não há partidos,
só o poder, espelho de si mesmo,
interesses como colunas, firmes,
varrendo diferenças ao abismo.
Identidade e missão: pôr ordem
nas massas sem rosto, desalmadas,
nutridas pelo medo que goteja
dos altifalantes da casa dos deuses.
Acima das nuvens, sol perpétuo.
Abaixo, o povo come tempo:
chuva, desolação, névoa espessa,
enquanto os ventos tóxicos sopram
a moral ocasional, veneno doce
que defende do caos, dizem.
Dois pés para andar: um conservador,
outro progressista e o sistema
explica as suas falhas na complexidade.
A política, sem alma, é só macho
a abusar do corpo da cidade.
Que fazer? Não identificar o bem
com sigla ou cor. O bem é objetivo
do Estado e do povo. Mas como medi-lo?
Não é consenso, nem opinião privada:
é consciência. Arte do possível,
onde não há verdades finais,
só consensos feitos de compromisso.
Política não é catequese.
É um bem menor, que aceitamos
para, com espírito crítico, renovar.
António CD Justo
Pegadas do Tempo