A Fábrica do Homem novo Europeu: Aborto financiado e Substituição demográfica
Quando o Estado promove a não-vinda dos seus e financia a vinda dos outros,
troca a soberania demográfica por uma crise de identidade
A votação do Parlamento Europeu de 17 de dezembro de 2025 e a proposta de fundo para o aborto expõem uma visão reducionista do ser humano e ameaçam o princípio da subsidiariedade. Neste artigo procuro analisar a questão sob o ponto de vista sociopolítico e consequente crise de soberania e de identidade.
A função primordial do Estado, na tradição política ocidental, deveria ser a de garantir o quadro de liberdades no qual as pessoas e as comunidades possam florescer segundo as suas convicções e tradições. Contudo, assiste-se na União Europeia a um desvio preocupante: a transformação do Estado e do superestado europeu, de garante em arquiteto da sociedade, utilizando ferramentas brutais de engenharia social (técnica de manipulação e desconstrução) que ignoram solenemente a complexidade antropológica das nações que governa. Esta abordagem manifesta-se de forma gritante em duas frentes interligadas: a promoção ativa do aborto como política pública e a fomentação da imigração em massa como mera ferramenta de correção demográfica, sem considerar as profundas implicações sociológicas de ambas.
O princípio da soberania individual sobre o próprio corpo é um pilar da modernidade e merece o mais profundo respeito. Este princípio, no entanto, não existe no vácuo. Ele confronta-se com outros princípios fundadores da nossa civilização, como o princípio cristão, ainda estruturante na matriz cultural europeia, da proteção da vida humana em toda a sua duração, desde a concepção até à morte natural. O Estado, ao invés de se manter num saudável e prudente neutralismo que permitisse à consciência individual decidir no âmbito da lei, está a tomar partido. Está a tornar-se ator e financiador de uma visão particular, a visão que reduz a gravidez a um mero contrato revogável e a vida no ventre a um amontoado de células.
A votação do Parlamento Europeu de 17 de dezembro de 2025 é a prova cabal desta partidarização. A aprovação, com os votos da minoria de esquerda e uma abstenção expressiva e elucidativa do centro-direita, de uma recomendação para criar um fundo europeu para o aborto, representa um ponto de viragem perigoso. A abstenção oportunista do centro-direita não é uma neutralidade: é uma cumplicidade ativa que transforma projetos radicais de minoria em políticas maioritárias da UE, corroendo de dentro as bases que promete defender. Aqui, já não se trata de garantir um direito num país que o consagrou. Trata-se de usar os recursos coletivos dos contribuintes europeus para fomentar ativamente a sua prática, inclusive financiando o chamado “turismo de aborto”. Esta medida ignora solenemente a soberania legislativa dos Estados-membros que, no exercício da sua identidade cultural e moral, optaram por prazos mais restritivos. Bruxelas, mais uma vez, erige a homogeneização ideológica como padrão, esmagando a diversidade de perspetivas que ainda subsiste no continente.
A campanha “A Minha Voz, a Minha Escolha” revela a lógica: pressiona-se para que a escolha de uma parte da sociedade seja não apenas permitida, mas subsidiada e promovida como norma supranacional. O resultado é previsível: a regulamentação de países que ainda tentam equilibrar direitos em conflito torna-se inócua, e os contribuintes de nações com fortes objeções de consciência coletiva vêem-se obrigados a financiar procedimentos que repudiam.
Paralelamente, corre outra linha desta mesma engenharia social (arte de desconstruir). Muitos dos mesmos Estados que promovem políticas que diminuem a natalidade nativa, através do aborto facilitado, mas também de uma cultura individualista e de falta de apoio à família, deparam-se depois com um inverno demográfico galopante. A solução apresentada não é um repensar das políticas familiares ou um reforço dos laços comunitários. É, sim, a importação massiva de população através da imigração. Esta abordagem utilitarista trata pessoas como unidades de trabalho, ignorando o profundo desafio da integração, em particular quando se trata de fluxos significativos oriundos de culturas com valores radicalmente diferentes, como é o caso de partes do mundo islâmico. Os problemas de coesão social, identitários e de segurança que daí advêm são depois geridos como “miséria do dia a dia”, numa administração de crise permanente, sem uma visão de sociedade a longo prazo.
Há aqui um paradoxo trágico e uma profunda falta de respeito pela vida em toda a sua extensão: desincentiva-se a geração de vida nova própria, e importa-se vida adulta alheia, muitas vezes de contextos civilizacionais em rutura ou que se propagam através de guetos. O Estado abandona a sua função de curador do tecido social a prazo e assume-se como gestor de fluxos, fluxos de terminações de gravidez e fluxos migratórios.
A verdadeira neutralidade do Estado, a que aspira qualquer sociedade pluralista e madura, passaria por se concentrar em criar condições para que as escolhas sejam verdadeiramente livres e informadas, e não em financiar e promover uma em detrimento de outras. Passaria por proteger o espaço da consciência individual e das comunidades intermédias, como a família e as associações de base, de uma colonização ideológica patrocinada com fundos públicos. E passaria, acima de tudo, por ter uma visão da sociedade que não seja a de um mero agregado de indivíduos consumidores e de mercados de trabalho, mas a de um organismo histórico com uma identidade, uma memória e um futuro a construir em continuidade (Seria de perguntar: porque não criar-se um fundo europeu que garantisse a cada mulher que engravideça e tenha filho o mínimo de 2.000€ mensais?).
A votação de dezembro é mais do que uma sobre um fundo de bases marxistas. É um sintoma de uma UE que, ao invés de proteger a diversidade dos seus “biótopos culturais”, como lhe caberia, se torna na força uniformizadora que os ameaça. O debate não é, no fundo, apenas sobre o aborto. É sobre quem decide o modelo de civilização europeia: as nações e as suas tradições morais vivas, ou uma burocracia distante convertida em missionária de um progressismo radical e socialmente disruptivo. O silêncio e a abstenção do centro-direita naquele hemiciclo não foram um acidente; foram a confissão de uma derrota intelectual e moral que todo o continente está agora a pagar. O maior perigo atual não reside apenas na ofensiva marxista-progressista; reside na abdicação histórica de uma direita que, ao abster-se ou pactuar taticamente com o seu adversário ideológico, lhe serve de escudo legitimador e acelera o processo de desagregação que diz pretender travar.
Pela contínua ação sub-reptícia da EU é de observar como a “engenharia social da EU” desfaz consequentemente nações promovendo o vazio e importando o constitucionalmente diferente. Encontramo-nos na fábrica do homem novo europeu condenado ao reducionismo antropológico.
A Europa não definhará pelo ataque frontal dos seus adversários, mas pela mão estendida daqueles que, devendo defendê-la, lhe entregam as chaves.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo