Para além dos Números da Escuridão que se espalha na Sociedade europeia
As estatísticas oficiais chegam frias, compostas por colunas de números que resumem tragédias individuais a dados comparáveis. No entanto, por trás de cada cifra, há um rosto, uma história e um sofrimento que chegou a um limite insustentável. Os recentes dados sobre suicídio na Alemanha e em Portugal não são apenas indicadores de saúde pública; são um espelho inquietante de mal-estares sociais profundos, um testemunho de dor coletiva que exige mais do que uma leitura passiva.
Na Alemanha, o ano de 2025 registrou 10.304 suicídios até setembro, um número que se mantém persistente e elevado, espelhando os 10.372 do ano anterior. Porém, a estabilidade do total esconde mudanças perturbadoras na sua composição: observa-se um aumento significativo entre as mulheres e entre pessoas com mais de 65 anos. Paralelamente, os números do suicídio assistido institucionalmente revelam outra faceta desta realidade complexa: em 2025, 1.287 pessoas recorreram a essa via. Os motivos declarados pintam um quadro de desespero multifacetado: 32% alegavam sofrer de múltiplas doenças simultaneamente, 25% citavam uma “falta de vontade de viver”, seguindo-se doenças oncológicas (15,6%) e neurológicas (13,5%). Notavelmente, a percentagem de mulheres foi superior em todas as faixas etárias nesta modalidade também, sugerindo um padrão de sofrimento que merece análise específica.
Ao cruzar os dados alemães com a realidade portuguesa, encontramos preocupações comuns travestidas de contextos nacionais. Em Portugal, média de três suicídios por dia mantém-se como uma ferida social constante. Mais alarmante ainda é a posição do país entre os que registram das maiores taxas de mortalidade por suicídio em jovens da União Europeia nos últimos 20 anos. Esta é uma geração que, apesar de hiperconectada, parece enfrentar uma epidemia de solidão, pressão e fragilidade psicológica sem precedentes.
Estes números, no seu conjunto, funcionam como um atestado de pobreza em misericórdia e em laços sociais. Refletem uma sociedade que, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico e material, está a falhar em cuidar da saúde mental e emocional dos seus cidadãos. Há uma cruel ironia quando, em muitos orçamentos nacionais, o empenhamento militar e a segurança física superam, em larga escala, os investimentos em saúde mental, apoio social e redes comunitárias de sustentação. A vida, na sua vulnerabilidade, parece ser menos prioritária.
Além disso, a normalização e institucionalização da morte assistida, embora responda a um debate ético legítimo sobre autonomia e sofrimento terminal, não pode ser dissociada deste contexto mais amplo. Corremos o risco de ver a morte transformar-se, para alguns, num “modelo de negócio” ou numa solução logística, em vez de um último recurso absolutamente excecional num continuum de cuidados paliativos físicos, psicológicos e espirituais de excelência. O perigo é que a “saída” seja mais facilmente disponibilizada e financiada do que a “esperança”, esta última exigindo políticas públicas mais responsáveis, desestigmatização da velhice e uma rede de apoio verdadeiramente presente.
O que estes dados gritam, em silêncio, é a urgência de uma mudança de vida e de paradigma!
Antes de tudo seria necessário questionar a toda a sociedade sobre o sentido da vida individual, social e pública que a política e as diversas instituições transmitem. Depois seria de implementar planos nacionais de prevenção do suicídio com metas claras, recursos humanos e financeiros adequados, e campanhas de sensibilização que cheguem a todos, especialmente a idosos e jovens.
Urge também falar abertamente sobre sofrimento psicológico, depressão e ideação suicida, sem tabus, é o primeiro passo para que as pessoas peçam ajuda.
Depois, fortalecer os serviços de saúde mental no Serviço Nacional de Saúde, os apoios sociais municipais e as organizações não-governamentais que atuam na primeira linha.
O aumento entre os mais velhos aponta para a solidão, doenças incapacitantes e um sentimento de ser um fardo. Programas de acompanhamento, visitas e integração social são vitais.
Os jovens são aquela parte dos cidadãos que parece ausente de uma política que mereça o nome de humana. Os jovens precisam de mais espaço na sociedade além de ser necessário criar espaços de escuta não julgadora nas escolas, universidades e comunidades, e garantir acesso rápido a psicólogos. Criar perspectivas profissionais torna-se prioritário.
Respeitar a vida vai além da consideração teórica, de discursos ocasionais ou aplicação de instrumentos sem vida. Exige ação concreta, compaixão institucionalizada e uma coragem social para colocar o bem-estar emocional dos cidadãos no centro das prioridades. Cada número nestas estatísticas era uma pessoa que, em seu desespero, viu a escuridão superar a luz. Cabe a nós, como sociedade, acender mais faróis, construir mais pontes e garantir que ninguém tenha de enfrentar essa escuridão sozinho. O adeus à vida pode e deve ser prevenido com um olhar mais atento, uma mão estendida a tempo e um compromisso coletivo inabalável com a dignidade de cada existência.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Obrigada pelo suas palavras ! Escreve a vida se negoceia vive-se um descalabro doentio dezumano é incrível ver a morte num modelo de negócio, há tanta falta de sentido humano, é preciso agir ter coragem entre todos em dialgo colocar o bem-estar emocional dos cidadãos no centro das prioridades. UM BEM HAJA
Se cada cidadão estiver integrado numa família e não escolher o gosto pelo vício e/ou drogas que o amesquinham, pode aprender a ser feliz e útil na sociedade. Melhora a sociedade em que vive.
Aurora Martins Madaleno, é bem verdade o que diz. A família tem sido, porém, sistematicamente desautorizada (através das campanhas e programas contra Deus-Pátria-Família, consideradas pelo socialismo activista como seu anti-programa) e além disso o sentir da sociedade depende muito da atmosfera que publicamente se transmite. É um facto que depois da Experiência Corona Virus a sociedade em geral encontra-se mais depressiva. O esforço de apoio a muitos dos candidatos ao suicído deveria vir de todos os lados.
Caro Justo, muito bom este teu artigo!
E não tenhamos ilusões ou sejamos ingénuos: o que o poder (nomeadamente este arremedo de poder de cá visa) é tornar a partida da vida uma coisa normal, narural, como se fosse apenas uma espécie de sono episódico…! Para, um dia que almejam venha, o suicídio em determinada, por eles, idade, se torne efectivo e programável..
Isto não é ficção científica, acredita! Aqui há anos, um interlocutor, com desfaçatez, inquiriu-me a propósito dum meu programa de rádio:”Mas o senhor não acha que a certa altura im tipo não andam já cá a fazer nada, só a incomodar com achaques e tal?”. Como eu, como dizia o Grade, “tenho pouca paciência para aturar bêbados” e, assumidamente, sou um bocado bruto, respondi-lhe com a mostarda a subir-me ao nariz: “O que eu acho é que você é parvalhão e um bom filho da puta e se se enxofrar leva já duas lambadas na tromba”. Como o gajo me conhecia de reputação, calou-se prudentemente ficou como que entourado mas não disse mais nada (ele sabia que eu tinha praticado pugilismo em novo e tinha fama de ferver em pouca água (ficaram célebres aqui na cidade várias brigas em que estive gostosamente metido…!).
Bom artigo, repito. O abraqson firme do de sempre
n.
Caro Nicolau Garção,
Agradeço profundamente as tuas palavras e o teu estilo de uma riqueza incomparável! Aqui, nesta tua reacção, senti o vigor da confidência-desabafo que mais do que isso é um documento humano, de um homem que “os” tem no sítio!
Gostei de ver como passaste das abstrações à carne viva da cidade e também à ferida que é ver a vida humana reduzida a uma utilidade, a um prazo de validade. Neste caso estou todo com a Igreja Católica que defende a vida toda porque é o reduto e o escudo que cada humano tem e de que instituições se querem apoderar e de que só o indivíduo pode ser soberano!
O que o poder, nesta sua vertente actual mais tecnocrática e desumana, pretende mesmo é isso: naturalizar o desaparecido. Tornar a morte um mero ajuste logístico, como bem dizes, um “sono episódico” para que depois se possa, sem sobressalto, programar o termo. Já pensaste que a conversa leviana sobre a eutanásia e sobre a morte em geral se torna na mais terrível das burocracias, que é a burocracia da existência? E isso é aquilo em que estão a transformar a vida humana, a sociedade e suas instituições! Já sofro há décadas a constatação deste sufrágio a que estamos a ser submetidos por agendas e diretrizes vindas de um alto anónimo, a que costumo chamar de Olimpo.
A tua história do interlocutor da rádio é a prova viva, e a tua reação a gota de ácido que corrói a retórica suave dos planos e das estatísticas. Revela o pensamento brutal por trás da política branda: o incómodo do frágil, do que não produz, do que só achaqueja. A tua reação, bruta e límpida como um soco (e sorrio perante a imagem do pugilista-poeta que ferve em pouca água), foi um ato de higiene pública. De facto, perante uma linguagem que desumaniza, a linguagem direta e irada é por vezes o único antídoto. É o “não” que sustenta o mundo.
O que escreveste deu-me mesmo que pensar. Tenho na vida sido demasiado brando e reconheço que alguns demónios só se exorcizam utilizando a alma e o punho!
Desculpa se, por vezes não reajo aos teus escritos mas isso deve-se geralmente ao orgasmo mental que me traz preso ao teclado! E como vês, quando o “calor” me toca, sou difícil de parar!!!
Um abraço firme!
António CD Justo
Um mundo de ” pernas p’ro ar”.