A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA

A Pobreza não é Moeda política dos de Ontem nem dos de Hoje

Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.

A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.

Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de “nós contra eles”, esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.

A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico

A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre “bons” e “maus”, servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.

Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.

É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.

Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

O CETICISMO SEM DOGMA NEM CONSPIRAÇÃO COMO FILTRO DA LIBERDADE

Desconfiar dos poderosos sem deixar de questionar as nossas próprias conclusões

Vivemos tempos de desconfiança generalizada, nas redes sociais, nas conversas de café e até nos debates parlamentares, a pergunta que ecoa é quase sempre a mesma: “Quem manda verdadeiramente?”.

É uma questão legítima. A liberdade de pensamento exige, de facto, que desconfiemos do poder estatal, económico, tecnológico e mediático. Mas, se queremos que o ceticismo seja um instrumento de liberdade e não uma nova camisa de forças ideológica, temos de ir mais longe, porque o ceticismo desintereceiro  exige também que desconfiemos das nossas próprias conclusões quando as provas ainda não chegam para as sustentar.

Este é o equilíbrio difícil que a democracia contemporânea nos impõe. Por um lado, seria ingénuo acreditar que a acumulação de riqueza privada é politicamente neutra. Por outro, cair na tese automática de que todos os bilionários formam um bloco coordenado que manipula os Estados à distância de um clique é alimentar teorias da conspiração que mais atrapalham do que esclarecem (muito embora, teorias da conspiração como as de Epstein se confirmaram).

O fenómeno decisivo que cidadãos e Estados enfrentam hoje não é tanto a vontade explícita de um “super-órgão” mundial, mas sim a concentração de poder estrutural. Um bilionário torna-se politicamente relevante não apenas pelo número de zeros na sua conta bancária, mas quando passa a controlar ou influenciar as infraestruturas das quais sociedades inteiras se tornam reféns: plataformas digitais, sistemas de comunicação, inteligência artificial, satélites, computação em nuvem, sistemas de pagamento, energia, logística e cadeias de abastecimento. É nesse momento que a riqueza económica se converte em capacidade política sem mandato eleitoral.

O crivo das cinco perguntas

Para navegarmos neste terreno pantanoso sem cair nem na ingenuidade nem no delírio conspirativo, sugiro que cada cidadão e sobretudo cada jornalista e decisor político, aplique um crivo mental estratégico. Sempre que nos deparamos com uma grande fortuna ou uma gigante tecnológica, devemos perguntar:

– Dependência: De que empresas ou plataformas privadas depende o funcionamento do Estado? Quanto mais difícil for substituí-las, maior é o poder do fornecedor.

– Informação: Quem controla os canais por onde milhões recebem notícias e pesquisam informação? Não é preciso “controlar o pensamento” de forma orwelliana porque os algoritmos de recomendação e os critérios de moderação já moldam significativamente a perceção coletiva.

– Proximidade ao poder: Que laços unem as grandes fortunas aos governos? Falamos de contratos públicos, financiamento de campanhas, cobertura política lobbying, fundações, fábricas de pensamento e a famosa porta giratória entre instituições públicas e privadas.
-Capacidade de condicionamento: O que aconteceria se um determinado proprietário retirasse um serviço essencial, alterasse unilateralmente as regras ou recusasse colaboração ao Estado? Uma coisa é ser muito rico e outra, bem diferente, é possuir poder estratégico.
– Contrapoder: Existem concorrentes à altura, legislação antimonopólio eficaz, tribunais independentes, parlamentos fiscalizadores e alternativas tecnológicas? O problema democrático agrava-se exponencialmente quando uma infraestrutura essencial não tem substituto real ou quando as já existentes se encontrem demasiadamente dominadas pelo arco do poder.

A homogeneização silenciosa na Europa

A aplicação prática deste crivo revela factos inquietantes. Observando a formação da União Europeia, nota-se que as populações dos diferentes Estados-membros pensam cada vez de forma mais homogénea em matérias de geopolítica. Basta ligar os telejornais de países distintos para se verifica que nos temas internos, há ainda diferenciação e debate, mas quando o assunto são as relações internacionais ou as grandes narrativas globais, as informações, os enquadramentos e até as imagens se repetem, como se proviessem de uma única agência centralizada.

Isto não significa que exista uma direção maquiavélica a programar as nossas mentes. As populações continuam heterogéneas, as plataformas competem entre si e os próprios bilionários têm interesses e ideologias frequentemente incompatíveis. Porém, a crescente interdependência entre o poder político, financeiro e tecnológico é um sintoma claro de que algo se alterou.

A ameaça real e o fingimento da crise

É aqui que importa separar o trigo do joio. Nota-se, de forma justa, uma profunda insatisfação popular em relação aos representantes partidários. Contudo, esta insatisfação, por si só, não configura ainda uma ameaça real à democracia. O que muitos rotulam de “crise democrática” é, muitas vezes, uma crise do regime partidário, que os próprios partidos, receosos de perderem privilégios, confundem propositadamente com uma ameaça à democracia.

A verdadeira ameaça democrática surge quando as três esferas, política, financeira e tecnológica, ficam tão interligadas que o poder aumenta enquanto a responsabilidade diminui. As oligarquias modernas, sejam elas económicas ou burocráticas (como certas instâncias da ONU ou da Comissão Europeia), tendem a evitar consultas diretas ao povo. Preferem elaborar agendas em cúpulas fechadas, que depois são implementadas nos países sem uma discussão interna que brote da base. As medidas são propagadas como sendo de “interesse comum”, mas raramente são validadas pela opinião pública adulta e informada.

A responsabilidade do ceticismo

Perante este cenário, o remédio não é acreditar em profecias apocalípticas nem refugiar-se em opiniões dogmáticas, por mais legítimas que pareçam. A solução passa por fomentar a crítica com rigor. É preciso desconfiar, sim, mas é igualmente necessário verificar, comparar e questionar as nossas próprias certezas.

O ceticismo só é verdadeiramente libertador quando nos obriga a olhar para o poder em toda a sua complexidade, sem medo, mas também sem atalhos conspirativos nem no espírito de puxar a brasa à sua sardinha. Para que a sociedade avance qualitativamente, precisamos de cidadãos que saibam perguntar “quem depende de quê?” e “quem pode impor custos a quem?”, em vez de se limitarem a gritar „quem manda?”.

Manter o equilíbrio entre a desconfiança ativa e a verificabilidade meticulosa é o único caminho para agirmos com responsabilidade a todos os níveis. É esse o desafio do nosso tempo: ser crítico sem ser refém da própria descrença e vigilante sem ser conspirativo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

O DILEMA INSOLÚVEL DO ESTADO DE DIREITO PERANTE ISLAMISTAS

Entre negócio e desorientação moral e jurídica

O caso do pagamento de 6.000 euros a islamistas perigosos para que abandonem a Alemanha e regressem à Síria não é, como se pode apressar a concluir, um mero sintoma de desorientação governamental ou um ato de pura insensibilidade moral. Na verdade, este caso expõe, de forma crua, um dilema estrutural que poucos Estados modernos conseguem resolver de forma limpa:  o confronto entre a rigidez da justiça penal e a pragmática gestão do risco e dos recursos públicos, situação que causa desagrado e insegurança na sociedade.

Do ponto de vista pragmático está o “Negócio”

É matematicamente indiscutível que o Estado poupa uma fortuna com esta maneira de abordar o problema. Manter um suspeito de terrorismo sob vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana, com equipas dedicadas, escutas telefónicas, análises de inteligência e, posteriormente, um processo judicial que pode arrastar-se por anos, custa facilmente centenas de milhares de euros por indivíduo, para não falar do desgaste psicológico dos agentes envolvidos e do risco permanente de falha humana.

Esta opção ganha contornos ainda mais nítidos quando se olha para os números que o Estado alemão tem pela frente. Só na Alemanha, segundo o Serviço Federal de Polícia Criminal (BKA), as autoridades mantêm sob vigilância apertada cerca de 410 indivíduos islamistas considerados um risco iminente (dados de julho de 2026). Mas este número é apenas a ponta do iceberg: estima-se que todo o espectro islamista no país abranja aproximadamente 28.645 pessoas, repartidas entre o Salafismo (11.200), o movimento Millî Görüş (10.000), a Irmandade Muçulmana / Comunidade Muçulmana Alemã (1.450) e o Hezbollah (1.250), para além de outras estruturas mais difusas ou indivíduos não enquadrados nestes grupos. Perante um universo tão vasto, alocar dezenas de agentes e recursos judiciais a cada um dos 410 casos mais críticos revela-se um pesadelo logístico e financeiro.

Pagar 6.000 euros para que o indivíduo saia voluntariamente do país não é, neste contexto, uma recompensa pelo crime; é um custo que aposta na redução imediata de um perigo concreto em solo alemão, libertando recursos para vigiar os restantes 28.235 que permanecem no meio islamista. É a lógica do “mal menor” aplicada à gestão orçamental: melhor gastar 6.000 euros agora do que 600.000 num julgamento que, por questões processuais ou de prova, pode até terminar em absolvição. Para um governante que olha para as contas públicas e para a eficácia operacional, esta solução tem uma frieza lógica que é difícil de ignorar.

Do ponto de vista moral e jurídico é a Desorientação

Porém, reduzir a segurança pública a uma equação contabilística é um atentado à alma do Estado de Direito. Quando o cidadão comum, que acorda cedo, trabalha honestamente e desconta todos os meses para o sistema, vê um criminoso perigoso receber dinheiro público para “voltar para casa”, a mensagem subliminar é devastadora porque o crime compensa, e a justiça é uma mercadoria que se compra e vende.

Os números também pesam neste prato da balança, mas de forma diferente. Se o Estado já tem 410 indivíduos sob vigilância e cerca de 28.645 no universo islamista, então esta medida de pagamento pode ser interpretada não como uma solução, mas como um sintoma de que as políticas de prevenção e integração falharam redondamente. Está-se a pagar para gerir a ponta do iceberg, enquanto a base permanece intacta e, em muitos casos, a crescer. O argumento de que este pagamento poderá financiar um novo passaporte e o regresso do indivíduo à Europa não é um alarmismo vazio, mas sim um risco geopolítico real. Além disso, esta política cria um precedente perigoso,  comunicando assim aos extremistas que o Estado alemão está disposto a negociar com aqueles que o ameaçam, fragilizando a dissuasão e alimentando a narrativa de que “o Ocidente está em decadência”. Quando a solução para o extremismo é, afinal, um bilhete de avião e um envelope com dinheiro, a política de asilo e de integração parece perder o norte e render-se ao óbvio.

O Equilíbrio e a Verdade incómoda

A verdade é que ambos os lados têm razão e é por isso que o dilema é tão angustiante.

O Estado deve ser eficiente na gestão do dinheiro dos contribuintes, e não é moralmente errado admitir que há recursos finitos para combater ameaças infinitas. Com mais de 28 mil pessoas enquadradas no meio islamista, a polícia e os serviços secretos estão no limite das suas capacidades. O Estado deve ser firme nos seus princípios, e não pode dar a impressão de que se rende à chantagem ou de que trata os criminosos com mais clemência do que trata os cidadãos cumpridores. Pagar a um dos 410 para sair pode até aliviar a pressão imediata, mas deixa intactas as condições que alimentam a radicalização dos outros milhares que ficam.

O que falta aqui não é uma escolha entre uma via ou outra, mas sim transparência e enquadramento jurídico rigoroso. Esta medida só se torna aceitável se for tratada como exceção absoluta, devidamente fundamentada por um tribunal, com a imposição de sanções acessórias (como a proibição vitalícia de regresso ao espaço Schengen) e com a obrigação de o Estado investir as poupanças geradas em programas robustos de desradicalização nas comunidades de origem, sobretudo nos 11.200 salafistas e nos restantes grupos que constituem o viveiro do extremismo. Se o dinheiro poupado for canalizado para prevenir o surgimento de novos extremistas, então o “negócio” deixa de ser apenas uma fuga para a frente e pode transformar-se num instrumento tático dentro de uma estratégia mais ampla.

Conclusão

Acusar o governo de “desorientação” é justo quando a medida é aplicada sem critério ou quando se torna rotina. Mas acusá-lo de imoralidade pura é ignorar a complexidade orçamental e operacional que os Estados enfrentam nos corredores do poder. Os números do BKA não mentem: gerir 410 casos de alto risco no meio de um universo de 28.645 é uma tarefa hercúlea, e qualquer governante, por mais fiel a princípios que seja, acaba por ser confrontado com escolhas dolorosas.

O povo tem todo o direito de se sentir ultrajado e deve sê-lo, pois é essa indignação que mantém os governos sob indagação. Contudo, o povo também deve perceber que, em certos cenários de alto risco, a solução menos má pode, infelizmente, ser a mais racional. O verdadeiro fracasso do Estado não é pagar 6.000 euros a um criminoso, mas sim fazê-lo sem explicar ao cidadão honesto que este dinheiro é uma aposta desesperada na sua própria segurança imediata e não um prémio pelo mau comportamento e, sobretudo, é fazê-lo sem um plano credível para lidar com os restantes 28.645 que permanecem. Quando a política conseguir explicar esta contradição sem se esconder atrás de números ou de moralismos vazios, talvez então tenha reconquistado o contacto com o povo não se vendo necessitada a difamar movimentos críticos na sociedade, como tentam fazer por vezes os melhores instalados no sistema. Até lá, o dilema permanecerá e a indignação, infelizmente também.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

TOP-MANEGERS NA ALEMANHA E NOS EUA E OS MILHÕES QUE SEPARAM O “OLIMPO” DA TERRA

Dos deuses do Olimpo empresarial e da moral a viajar em classe económica

Os membros dos conselhos de administração das empresas do DAX, que é o principal índice bolsista alemão, ganham, em média, uns confortáveis 3,9 milhões de euros por ano, incluindo bónus. Confortáveis, pelo menos, para quem os recebe.

Segundo uma análise da Associação Alemã de Proteção dos Acionistas (DSW) e da Universidade Técnica de Munique, as remunerações dos gestores de topo aumentaram cerca de 4% em relação ao ano anterior. Em média, os membros dos conselhos de administração das empresas do DAX receberam 42 vezes mais do que os seus trabalhadores.

Mas, como em qualquer campeonato digno desse nome, também aqui há quem consiga destacar-se. Na Adidas, a direção recebeu 106 vezes mais do que um trabalhador médio; na Volkswagen, 75 vezes mais; e na Fresenius, 70 vezes mais. Aparentemente, quanto mais alto se sobe na escada empresarial, mais pequenos parecem aqueles que ficam lá em baixo.

Quando se passa dos membros dos conselhos de administração para os presidentes executivos, as alturas tornam-se ainda mais olímpicas. Segundo a análise, a remuneração média dos dirigentes máximos das empresas do DAX referente a 2025 rondou os 6,14 milhões de euros. O presidente da SAP recebeu 10,9 milhões.

E, contudo, o Olimpo alemão ainda parece uma modesta colina quando comparado com o americano. Nos 30 grupos que integram o Dow Jones Industrial Average, a remuneração média dos dirigentes atingiu cerca de 30,5 milhões de euros. No topo encontra-se David M. Solomon, da Goldman Sachs, com o equivalente a 105,3 milhões de euros, seguido de Satya Nadella, da Microsoft, com 85,5 milhões, e Tim Cook, da Apple, com 65,8 milhões.

Há números que dispensam comentários; estes, porém, quase os exigem.

A palavra mágica utilizada para justificar semelhantes remunerações chama-se concorrência. É preciso pagar muito para conseguir os melhores, argumenta-se. O salário transforma-se, assim, numa espécie de medalha atribuída em função do sucesso empresarial, das expectativas dos mercados e, não raramente, de especulações sobre aquilo que amanhã poderá valer mais do que vale hoje.

O problema não está em reconhecer competência, responsabilidade, risco ou mérito; está sim na perda da medida.

Uma sociedade precisa de diferenças para reconhecer responsabilidades e desempenhos diferentes, mas não precisa de abismos. Quando a remuneração de uns se torna possível à custa da crescente desvalorização do trabalho de muitos outros, a diferença deixa de ser apenas económica e passa a ser também uma questão moral e política.

Por isso, seria legítimo discutir limites máximos para remunerações desta natureza e perguntar se aquilo que ultrapassasse determinados patamares não deveria reverter, pelo menos em parte, para instituições de utilidade pública. Não se trata de castigar o sucesso, mas de recordar que nenhuma empresa prospera graças a uma única pessoa. Por detrás de cada presidente executivo há milhares de trabalhadores, fornecedores, técnicos, investigadores, consumidores e uma sociedade inteira que disponibiliza escolas, universidades, infraestruturas, segurança e estabilidade.

Nenhum deus do Olimpo empresarial construiu sozinho a montanha onde se encontra sentado.

A distância entre o «céu» e a «terra» tornou-se entretanto tão grande que, cá em baixo, o cidadão comum começa a sentir tremuras. Enquanto no Olimpo se discutem milhões, na planície contam-se euros para a renda, para a eletricidade, para os alimentos e para chegar ao fim do mês. E, curiosamente, é precisamente ao povo que produz grande parte da riqueza que mais frequentemente se recomenda moderação, contenção salarial, produtividade, paciência e, naturalmente, satisfação.

A moral, ao que parece, continua a viajar em classe económica.

O êxito económico é necessário e o lucro faz parte da vida empresarial. Mas uma sociedade em que o lucro deixa de ser um instrumento e se transforma no objetivo supremo corre o risco de converter também as pessoas em instrumentos. Quando remunerações milionárias coexistem com trabalhadores obrigados a contar cada euro, já não estamos apenas perante uma questão de mercado, para estamos perante uma questão de humanidade e de medida.

Uma economia que perde a medida acaba por perder também a legitimidade. E uma política que contempla estes abismos como se fossem fenómenos meteorológicos inevitáveis contribui para o descrédito das próprias instituições democráticas.

Certamente não será necessário expulsar os deuses do Olimpo. Bastaria recordar-lhes, de vez em quando, que a montanha é sustentada por quem trabalha cá em baixo.

A riqueza sem medida não compra apenas coisas mas também compra influência e quando a influência se torna poder, a oligarquia começa por ordenar a vida e acaba por ambicionar definir o homem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A LUTA PELO PODER NA FUTURA ORDEM MUNDIAL

Do que se trata realmente na Ucrânia e em Gaza

O equilíbrio global de poder está a sofrer uma transformação profunda e irreversível. A ascensão de novas potências económicas como a China, a Índia, a Rússia e uma Europa em rearmamento estratégico, aliada ao aumento das tensões no sistema financeiro internacional, desgastou fundamentalmente a dominância bipolar que definiu a era pós-Guerra Fria. Os Estados Unidos e a extinta União Soviética já não exercem a mesma influência central sobre os seus antigos Estados satélites. Esta mudança tectónica na dinâmica geopolítica criou um vazio e nesse vazio emerge uma nova competição multipolar por influência.

É neste contexto mais amplo que devemos compreender a guerra na Ucrânia. Mais do que um conflito regional, ela é um teatro de operações numa luta maior: uma batalha para moldar a futura ordem mundial e definir as suas esferas de influência. Para a União Europeia, o conflito é enquadrado como uma defesa de um sistema internacional baseado em regras e de valores democráticos. No entanto, numa perspetiva realista, é igualmente um concurso para ganhar poder político num cenário multipolar emergente. As narrativas de justiça e democracia obscurecem frequentemente uma questão mais fundamental: onde serão traçados os novos limites do poder depois de os canhões calarem? A guerra é, na sua essência, uma disputa de posicionamento dentro de uma hierarquia global ainda por definir.

Esta realidade geopolítica subjacente torna as posições da Rússia e da União Europeia fundamentalmente irreconciliáveis. O Ocidente, liderado pela UE e pelos EUA, exige a retirada completa e incondicional das forças russas de todos os territórios ocupados, incluindo a Crimeia. A Rússia, por seu turno, deixou inequivocamente claro que não tenciona abdicar dessas conquistas territoriais. No centro deste litígio intratável está o controlo do Mar Negro e do seu acesso estratégico, um nó decisivo no tabuleiro geopolítico global. Este é o cerne não declarado do conflito, mas raramente é o foco do discurso público. Em vez disso, somos alimentados com narrativas de interesses e de segurança, muitas vezes movidas pela ambição descarada de garantir um lugar de destaque na ordem que se avizinha.

É um jogo perigoso e cínico. Os verdadeiros interesses da Europa não residem numa guerra prolongada e de desgaste, justificada unicamente por um posicionamento estratégico, mas sim numa estabilidade de longo prazo alcançada através da negociação. Os líderes europeus deveriam ter previsto que a geografia é um destino; a proximidade entre a Rússia e a Europa sugere que, mais cedo ou mais tarde, os seus interesses mútuos, particularmente nos domínios da energia e do comércio, acabarão por impor uma coexistência cooperativa. O caminho atual de conflito indefinido só serve para enganar o público e perpetuar um impasse que enfraquece todas as partes envolvidas. Uma paz política duradoura não se forja no campo de batalha, mas sim à mesa das negociações. O público merece um reconhecimento honesto desta realidade, em vez de ser alimentado com uma dieta constante de narrativas unilaterais.

 

A situação no Médio Oriente, particularmente no conflito que envolve Israel, é uma extensão da mesma luta multipolar pelo poder. Trata-se de uma teia complexa de reivindicações e contraposições. Por um lado, envolve a afirmação da influência islâmica no Norte de África e em toda a região. Por outro, abrange a determinação do Ocidente em manter uma posição estratégica consolidada, ao mesmo tempo que disputa influência com a Rússia. Além disso, o conflito está profundamente emaranhado com as divisões internas do mundo islâmico, nomeadamente a rivalidade entre as potências sunita e xiita pela dominação regional. Cada uma destas facções, as potências ocidentais, a Rússia e os hegemónicos regionais, disputam influência, utilizando conflitos locais como campos de batalha por procuração.

O que é apresentado ao mundo como uma série de guerras localizadas, muitas vezes sectárias, é, na realidade, a manifestação de um concurso global mais vasto. A dimensão geopolítica é o motor principal, mas é deliberadamente obscurecida por detrás de uma cortina de fumo de fricções religiosas e étnicas. Os povos, tanto nas zonas de conflito como nas nações que alimentam estas guerras, são arrastados por ondas de sentimentos manipulados e narrativas cuidadosamente construídas. São peões num jogo oculto e hipócrita de poder, onde a verdadeira aposta é a própria configuração da futura ordem mundial. Devemos olhar para além dos títulos dos jornais e reconhecer estes conflitos pelo que eles realmente são: não tragédias isoladas, mas batalhas interligadas numa guerra global por influência a nível das grandes potências.

Os povos e os países menos potentes são atirados para o ringue de uma luta que não é sua, servindo de marionetas num xadrez de gigantes. As elites, numa coreografia política quase perfeita, abraçam-se transversalmente em torno de interesses satélites que, por uma estranha coincidência, caminham sempre contra a paz e contra o povo. E o restante discurso público? Esse é o grande circo montado para nos entreter, palhaçadas retóricas que nos desviam o olhar do essencial, ao mesmo tempo que, numa pirueta irónica, vão servindo, em bandeja, os interesses de segunda ordem que ninguém tem a coragem de chamar pelo nome, até porque há imensa gente a beneficiar da situação.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578