AI DA SOCIEDADE QUE NÃO TEM ESGOTO

Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar

Há sociedades que adoecem não por falta de riqueza, mas por excesso de unanimidade. Não são apenas os monopólios económicos que empobrecem um país; existem também monopólios de ideias, mais subtis e por isso mais difíceis de reconhecer. Não proíbem formalmente o pensamento, mas ocupam-no e embora não o censurem directamente, a realidade é que o saturam.

Também em Portugal, como em grande parte da Europa, cresce por vezes uma atmosfera em que determinadas narrativas tendem a adquirir estatuto ritual, quase litúrgico e que refletem o fervor de olhos e mãos erguidas em torno do ecrã. Questões reais e sérias como o clima, as discriminações, as imigrações, as guerras, as desigualdades e as várias formas de exploração, entram cada vez mais no espaço público acompanhadas por uma intensidade moral que nem sempre favorece a inteligência do problema. O zelo substitui a análise e a proclamação ocupa o lugar da interrogação.

Não é o tema que se torna ilegítimo; é o modo como, por vezes, se instala. O activismo, quando perde a capacidade de se deixar corrigir pela realidade, arrisca tornar-se cantante ao repetir fórmulas, amplificar emoções, criar pertenças e fabricar urgências permanentes. O ruído passa então a valer como prova de razão.

Entretanto, aqueles que conhecem os mecanismos profundos do poder, económicos, tecnológicos, financeiros, ideológicos e burocráticos, continuam a mover-se com discrição. Enquanto o olhar colectivo se fixa no eco das palavras, outros reorganizam silenciosamente os corredores da casa.

Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar. Tal como uma cidade precisa de esgotos para afastar os resíduos e preservar a habitabilidade, também a vida pública necessita de instituições, meios de comunicação, escolas e cidadãos capazes de fazer circular o ar das ideias (e para isso não chega o barulho interpartidário, tão querido pelo poder porque desvia as atenções para polémicas de interesses). Onde tudo se acumula, até a boa intenção azeda.

Ai da sociedade que se transforma em esgoto de forças que se imaginam o centro do seu próprio universo. Vive então do ruído, da indignação contínua e da substituição do cidadão pela audiência. O indivíduo deixa de participar e limita-se a reagir; deixa de pensar e aprende apenas a alinhar-se.

Por isso, hoje a necessidade política mais urgente não é produzir mais palavras, mas criar mais ventilação. Ventilação intelectual e de interesses em jogo. Necessitam-se mais pessoas capazes de perguntar antes de repetir; de distinguir entre compaixão e exibição moral; entre justiça e automatismo ideológico; entre informação e sincronização emocional.

Uma casa fechada torna-se abafada mesmo quando está limpa. Também o cérebro humano precisa de janelas abertas ao controverso e ao contraditório, precisa de portas para o inesperado, de corredores onde circulem dúvidas e argumentos doutro modo asfixia na narrativa de um sistema ou de uma ideologia.

A grande casa europeia atravessa um desses momentos em que o ar rareia. Não apenas por crises externas ou por limitações materiais, mas também pela fadiga da inteligência governativa: uma tendência para administrar narrativas em vez de enfrentar causas, para gerir percepções em vez de imaginar caminhos. Ao mesmo tempo, actores económicos de dimensão global adquirem uma capacidade crescente de influenciar ritmos, prioridades e dependências.

Nenhuma civilização morre apenas por falta de recursos; muitas começam a definhar quando deixam de distinguir entre consenso e conformismo, entre doutrina e pragmatismos imediatistas.

Talvez o primeiro dever de uma sociedade livre seja conservar limpos os seus esgotos e abertas as suas janelas, porque uma abertura meramente globalista transforma o cidadão em necessitado e mero cliente dos seus produtos.

Uma comunidade nao atenta que não cria canais para escoar excessos, ideologias e resíduos do pensamento arrisca tornar-se irrespirável, malcheirosa e incómoda. Ai da pátria que não tem esgoto: cedo confundirá pureza com estagnação e ordem com sufocação.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

OS ERROS DO ACORDO ORTOGRÁFICO

 

Pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, nunca apagá-las.

Preservar o «tu» e o «vós» não é saudosismo;
é o último dique contra a proletarização da língua,
que a quer arrastar para o pântano dos incultos.

António da Cunha Duarte Justo

O Acordo Ortográfico (AO) de 1990 apresenta problemas sérios, pois corresponde a um apagamento de distinções semânticas e, como tal, a um empobrecimento da língua portuguesa que possui grande riqueza de diversificações e especificações. 

Como prova do empobrecimento semântico em Portugal mencione-se o exemplo do desaparecimento do vós entre outros de “facto” vs. “fato” o que é emblemático!

Em Portugal, facto (evento, realidade) é diferente de fato (peça de vestuário)
No Brasil: fato foi simplificado significando ambas as coisas (só o contexto pode desfazer a ambiguidade, mas a distinção gráfica perde-se.

Assim ao eliminar o “c” mudo em “facto” (que no Brasil passaria a “fato”), o AO não resolve a ambiguidade!  Pelo contrário, cria-a onde ela não existia em Portugal. E, para quê? Para poupar uma letra que não se pronuncia? Isso não é simplificação, é achatamento. Por que razão há de Portugal aceitar um empobrecimento semântico.

Outros exemplos semelhantes: contacto vs. contato (perde-se a ligação etimológica ao latim contactus)

O AO90, a exemplo das seguintes palavras (receção, recepcção e ressecção), ao eliminar as consoantes mudas (neste caso, o “p” e o “c”) torna-se num Busílis para o próprio AO. Como o acordo tentou aproximar a escrita da pronúncia real e esta varia entre Portugal e o Brasil, gerou-se uma grande confusão visual, semântica e geográfica. O Acordo acabou por criar uma dupla grafia oficial. E o que mostra a maior falta de conceito e a confusão é o facto de em Portugal, a forma preferencial ser receção (sem o ‘p’), embora o termo recepção também seja admitido. No Brasil, apenas é aceite recepção. Por seu lado a confusão geral com “receção/recessão” gera uma instabilidade na escrita de palavras compostas pelo mesmo radical.

Antes do acordo tínhamos em Portugal e no brasil a mesma palavra recepção para designar o acto de receber e recessão para designar crise económica. Recessão passou a ler-se e a ouvir-se exatamente igual a receção em Portugal. Além do mais caiu-se num caos de critérios pois se o “p” caiu em receção, o “c” deveria cair em resseção. Porém, o meio médico resiste à perda do “c” mantendo ressecção.

Também introduziu profundas incongruências e assimetrias no uso do hífen e na queda de acentos. Ao tentar criar regras gerais com base na fonética e na biologia das palavras, com o acordo, o texto gerou excepções bizarras que obrigam os falantes a memorizar listas em vez de seguir uma lógica. “Assim, escreve-se coordenar e cooperar (tudo junto, mesmo com vogais iguais) e coabitar (sem hífen, deixando o “h” cair). Isto destrói a coerência geométrica da regra de aglutinação.” Porque é que o cidadão perdeu a noção de composição em paraquedas, mas manteve-a em para-choques, para-brisas, para-raios ou para-lama? Linguisticamente, não há qualquer justificação científica para tratar estas palavras de forma diferente. E ainda antirreligião ou minissaia…

Também a eliminação de certos acentos que visava limpar a grafia de sinais tónicos considerados “supérfluos”, acabou por criar palavras gémeas com significados opostos ou grafias ambíguas, entre elas: O fim do acento diferencial em “para”: O verbo parar perdeu o acento agudo na 3.ª pessoa do singular. Agora, usa-se a palavra “para” tanto para a preposição (vou para casa) como para o verbo (ele para o carro). Também aqui se revela a incongruência do acordo que eliminou o acento em para (verbo), mas decidiu manter o acento diferencial no verbo pôr (para distinguir da preposição por) e em pôde (passado, para distinguir de pode no presente).

Na poesia e na literatura em geral o leitor vive da polissemia (múltiplos sentidos), do duplo sentido, do subentendido e do ritmo. Ao retirar acentos diferenciais e mudar grafias, o acordo mutilou intencionalmente a capacidade de o autor criar ambiguidades artísticas controladas. “Na prosa poética ou na poesia, o autor quer muitas vezes que o leitor oscile entre dois significados ao mesmo tempo. Sem o acento diferencial, o leitor moderno perde a chave do enigma.” Assim o exemplo de para e para (ao ser empobrecido para para) como no verso «O homem para o vento». Se fosse “pára o vento” expressava a energia humana; se fosse “para o vento”, o homem era apenas alvo que seguia com o vento.  Com a redução a para destrui a beleza da dúvida estética que o poeta quereria criar.

O AO deveria ter sido facultativo ou, pelo menos, ter preservado grafias duplas (como o “c” e “p” mudos) como variantes aceites. A imposição de uma única grafia em nome da “unidade” sacrificou a riqueza interna da língua e o que mais entristece, professores como eu, é que o acordo revela ter sido mais fruto de ideologia do que de ciência.

A questão mais grave é a erosão das pessoas verbais

O problema não reside apenas no Acordo Ortográfico, que regula apenas a escrita e não a oralidade, mas numa tendência sociolinguística mais ampla. Em Portugal, essa tendência tem sido acelerada pelo próprio AO e pela exposição mediática ao português do Brasil (telenovelas, YouTube, redes sociais), favorecendo a grafia brasileira em detrimento da europeia. Este enviesamento é reforçado no dia a dia pelos corretores automáticos, que, ao seguirem a norma brasileira, nos impõem sugestões abrasileiradas e a poder de tanta insistência até os mais cautelosos acabam por seguir.

O desaparecimento do “vós”

O “vós” já estava em declínio em Portugal do centro sul, mas mantinha-se na língua culta do norte, em registos formais, na liturgia, na literatura, na jurisprudência e em algumas regiões como Trás-os-Montes.

Hoje, muitas crianças portuguesas nunca aprendem a conjugar o “vós”. Os manuais escolares ainda o ensinam, mas na prática usam-se estruturas como “vocês” + verbo na 3ª pessoa do plural. Isto revela também descuido na formação dos professores que confundem língua viva com espírito do tempo.

E porque é empobrecedor? O “vós” é a 2ª pessoa do plural que é simétrica ao “ihr” do alemão, ao “vos” do latim, ao “vous” do francês. Perdê-lo significa perder uma distinção gramatical útil (diferenciar um grupo de interlocutores de um grupo de terceiros).

A substituição do “tu” por “você” (ou pelo “tu” com verbo na 3ª pessoa)

Em Portugal, o “tu” ainda é muito usado no Norte e em contextos informais. Mas, por influência brasileira (onde “você” domina, e o “tu” aparece muitas vezes com verbo errado do tipo “tu faz”), já se ouve em Lisboa jovens a usar “você” ou mesmo “tu” com o verbo na 3ª pessoa (“tu fez”, “tu comeu”). Isso é uma perda de clareza morfológica. Interessante seria também um estudo sobre reimportação do “você” dos emigrantes do norte de Portugal para o Brasil e que agora é reimportado de maneira a diminuir a riqueza da língua.

O argumento do alemão e do latim contra o empobrecimento da riqueza verbal

O alemão mantém as seis pessoas (ich, du, er/sie/es; wir, ihr, sie). O latim idem. O português europeu tradicional (antes do acordo) também: eu, tu, ele/ela/você, nós, vós, eles/elas/vocês.

Quando se elimina o “vós” e se reduz o “tu” a uma forma ambígua (que muitas vezes é substituída por “você”,  que é 3ª pessoa), o sistema fica assim:

1ª sing: eu; 2ª sing: (desaparece ou funde-se com a 3ª); 3ª sing: ele/ela/você
1ª plur: nós; 2ª plur: (desaparece, usa-se “vocês” = 3ª plur); 3ª plur: eles/elas/vocês

Isto significa que perdemos a simetria entre as pessoas do singular e do plural. Um aluno alemão que aprende “du” e “ihr” fica confuso: em português de Portugal abrasileirado, passa a não haver correspondente claro para “ihr” (seria “vós”… mas quase ninguém usa) nem para “du” (se o “tu” está a ser substituído por “você” que gramaticalmente é 3ª pessoa).

A tendência não só empobrece a língua como dificulta o seu ensino a estrangeiros cuja língua materna preserva a riqueza da distinção paradigmática.

O que pode ser feito?

Além das razões óbvias apresentadas e no sentido de não transpor emoções de um lado e do outro importaria ter ainda em conta algumas nuances:

De facto, o Acordo Ortográfico não obriga ninguém a abandonar o “vós” ou o “tu”, que é um fenómeno social, mas as autoridades não são inocentes ao descuidarem a qualidade da língua e até em promover o seu empobrecimento. Os mais responsáveis neste processo são, além do AO,  o Ministério da Educação, as escolas, os Media e o controlo virtual.

Também a influência brasileira não é unilateral porque também no Brasil há movimentos de valorização do “tu” (no Sul e no Norte do Brasil usa-se “tu” com conjugação certa: “tu fazes”).

O empobrecimento é real, mas também há enriquecimento noutras frentes! A literatura angolana e moçambicana, por exemplo, introduz novas estruturas e léxico.

Revela-se absolutamente necessário manter o ensino explícito do «tu» e do «vós» com as respetivas conjugações corretas, em vez de ceder a uma ideologia que procura proletarizar a linguagem, rebaixando-a ao nível dos que estão alheios à cultura.

Também urge rejeitar a imposição de grafias que criam ambiguidade (como “facto” para “fato”). O AO deve permitir duplas grafias oficiais, como acontece com “acção/ ação” em Portugal pelo facto de o AO de 1990 proíbir “acção”, mas, a que, muitos lucidamente resistem).

Portugal não tem de falar como o Brasil. O pluricentrismo significa respeitar e cultivar cada variante, mas não as apagar.

O caminho não é rejeitar toda mudança, mas resistir à homogeneização que empobrece a língua. O português europeu deve preservar o “vós”, o “tu” e as distinções etimológicas sempre que possível. Também poderia acrescentar o você, como era próprio da região do norte que era uma maneira menos formal ente o Tu e o vós!
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CONTRA A UNIFORMIZAÇÃO DA EUROPA


Um Olhar a partir do Diagnóstico de Ratzinger e dos Biótopos da Alma

A modernidade europeia vive um paradoxo dramático. Enquanto a diversidade é celebrada nos discursos formais, a administração tecnocrática centralizada em Bruxelas atua como um bulldozer que aplaina as assimetrias, transformando o continente num latifúndio sem biótopos. Trata-se do cumprimento rigoroso do diagnóstico que Oswald Spengler formulou em “O Ocaso do Ocidente”: aquele momento crítico em que uma cultura viva perde a sua força interior e espiritual, petrificando-se numa civilização mecânica, utilitarista e fria.

A atual fixação da União Europeia num globalismo liberal económico, aclitado por um socialismo puramente funcionalista, revela uma falta escandalosa de perspetiva histórica e humanista. Incapaz de formular estratégias geopolíticas de longo prazo, a liderança europeia transfere a sua ausência de visão para o interior dos próprios Estados-membros. O resultado é a importação e o fomento de lutas sociais internas e de conflitos identitários artificiais. O povo é jogado uns contra os outros dentro da própria casa, fragmentando o tecido social em guetos mutuamente hostis.

Todo este desvario maniqueísta seria evitado se existisse uma genuína consciência histórico-cultural de si. Como expus em As Metamorfoses do Mistério (1), o facto de uma cultura procurar manter-se fiel às suas próprias raízes não significa, de modo algum, opor-se às outras. A verdadeira tolerância não nasce do vazio identitário, mas sim da firmeza interior. Só quem sabe quem é pode respeitar o outro. A confusão de ideias e de práticas que Bruxelas dissemina só serve para semear o caos e abrir o caminho a um Islão que sabe o que é e o que quer, numa sociedade que se encontra desorientada e contraditória consigo mesma.

É precisamente neste ponto que a figura de Joseph Ratzinger se revela como um farol civilizacional, que transcende as fronteiras da religião. Ratzinger encarnou a síntese perfeita que fundou a Europa: a herança greco-romana, a sabedoria germânica e o dinamismo do Evangelho. Ao recuperar o conceito de Logos (razão) e de “lei natural”, o Papa emérito propôs uma plataforma universal de entendimento. Nesta visão, a consciência individual do homem é soberana e a história, as culturas e a natureza são mitos veneráveis, manuscritos sagrados que encerram um enigma transitório e não meros recursos a serem explorados pela razão instrumental.

Para que a Europa tenha futuro, é imperativo que compreenda que o mundo atual é organicamente multipolar. A insistência numa visão hegemónica e eurocêntrica acabou por conduzir o Norte geopolítico a um beco sem saída belicista, onde a única linguagem parece ser a da intensificação da guerra. É, portanto, urgente escutar a diplomacia do Sul global. O pluricentrismo, cuja riqueza encontramos, por exemplo, na ecologia linguística e humana da Lusofonia com o seu pluricentrismo, ensina-nos que a paz se constrói através da reciprocidade fraterna e não pela imposição ideológica.

Não podemos permitir que a Europa se transforme numa oficina sem alma. Temos de recuperar a nossa consciência histórica para, finalmente, podermos conviver pacificamente no grande concerto das civilizações, como humildes aprendizes na oficina do Real.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo
© Pegadas do Tempo

https://de.wikipedia.org/wiki/António_Justo

(1) As metamorfoses do Mistério: Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11068

 

A ILEGITIMIDADE DO JULGAMENTO CIVILIZACIONAL

O relativismo que deslegitima a própria Polis e a qualificação de outras sociedades

Se na primeira reflexão do texto “O Funcionamento interno da Polis democrática” (1) incido no funcionamento interno da polis, neste segundo artigo toco uma questão mais profunda e envolvente que é a questão da sua projeção externa (como podemos partir da própria incoerência vivida para nos arrogar o direito de julgar outras ordens sociais?). A partir do momento em que uma sociedade abdica de um fundamento transcendente ou de um consenso universal sobre o “bem” (contentando-se com a correção pragmática do seu processo relativista), como pode ela arrogar-se o direito de julgar outras ordens sociais; designem-se elas russa, chinesa ou europeia, em categorias morais e de valor?

A atitude europeia, expressa em Bruxelas, não tem fundamento filosófico nem ético que a sustente e não consegue passar numa análise filosoficamente rigorosa porque, ao fazê-lo, essa sociedade incorre num erro lógico e ético fundamental. Se a sua própria legitimidade assenta na ausência de um ponto final absoluto e na aceitação da divergência como motor, então aplicar os seus padrões (que são, reconhecidamente, fruto de uma contingência histórica e de uma relação de forças interna) a outras civilizações é um ato de violência metafísica. É pretender que o seu modus procedendi particular (de base relativista) se eleva à categoria de teleologia universal (como se o propósito da EU ou dos EUA fossem a vontade e sentido último universal). A EU segue uma doutrina de auto refutção ao arvorar-se como a guardiã de valores quando lhe falta a lógica que a fundamente ao ter abandonado o fundamento cristão que lhe dava coerência. Nega-se a si mesma ao apostar apenas na sua abertura tendo para tal de professar o relativismo como verdade absoluta e uma proclamação de valores abstratos. Nesta lógica esta falta de coerência não se podia atestar à velha ordem europeia!

Mais ainda: este julgamento moral externo traz consigo o gérmen do relativismo que o desvaloriza a si mesmo. Se os valores ocidentais são apenas o resultado de uma prática política específica e relegitimada no tempo, então por que haveriam de ser superiores aos valores que orientam outras práticas políticas? Ao reivindicar para si uma exceção moral, a democracia ocidental contradiz o seu próprio princípio operativo que é o da contingência e da negociação permanente. Passa, sub-repticiamente, de um pragmatismo humilde a um universalismo dogmático, mas sem a coragem de o fundamentar numa antropologia ou numa teleologia consistentes.

A consequência prática é a desilusão cada vez mais palpável no contexto social em que o Ocidente vive. A sociedade, quando preserva um senso de honra própria (ou seja, uma consciência crítica e coerente), sente o desconforto desta duplicidade. Percebe que o debate real foi substituído por um jogo de espelhos instáveis: julga-se o outro para se reafirmar a si próprio, mas as categorias desse julgamento são frágeis e auto-contraditórias.

Assim, a única postura intelectualmente honesta e politicamente sustentável é a que assume a incomensurabilidade local das ordens sociais de que fala Thomas Kuhn. Reconhecer que a orientação é um rumo partilhado e não um destino fixo, implica aceitar que as outras civilizações navegam por outros mares, com outras cartas náuticas. Discutir formas de sociedade implica, então, um diálogo pragmático sobre coexistência e consequências, e não um tribunal moral onde umas se sentam no banco dos juízes e outras no dos réus (como se observa nas narrativas de tipo pós-factual presentes no discurso público). O distanciamento e o humor de sobrevivência necessário não são, pois, um mero recurso estoico de sobrevivência; são uma exigência epistemológica para quem não quer confundir a sua própria sombra (a sua prática política contingente) com a luz da verdade universal.

António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do Tempo

(1) O Paradoxo da Pluralidade dá-se quando a Opinião substitui o Argumento em  Artigo aqui em Pegadas do Tempo

O FUNCIONAMENTO INTERNO DA POLIS DEMOCRÁTICA

O Paradoxo da Pluralidade dá-se quando a Opinião substitui o Argumento

A observação que me proponho neste artigo é tão lúcida como incómoda! De facto, pensando um pouco mais além da normalidade, a democracia representativa, na sua prática corrente, parece assentar numa ficção funcional. A soberania popular é invocada, mas o seu exercício efetivo traduz-se na escolha periódica de elites que, uma vez investidas, transformam a diversidade de opiniões num mecanismo de autolegitimação. O cerne do problema que enuncio não reside na existência de vozes divergentes, porque isso seria o oxigénio do sistema, mas sim na forma como essa divergência é gerida! O busílis da questão vem do facto da pluralidade de opiniões ser confundida com pluralidade de argumentos e do facto de ser dessa confusão que a sociedade retira a sua seiva.

Do ponto de vista epistemológico, o que se verifica é uma inversão subtil. Em vez de se partir de premissas para se alcançar uma conclusão, parte-se de uma conclusão socialmente hegemónica (muitas vezes moldada por escolas de especialistas expoentes, no sentido de formadores de opinião) e procuram-se, seguindo a corrente, os argumentos que a justifiquem. Os contra-argumentos, quando surgem, não são refutados na sua estrutura lógica ou factual; são, antes, categorizados. São atribuídos a motivações psicológicas, a interesses corporativos, a uma suposta ignorância ou a um alinhamento ideológico suspeito de esquerda ou de direita. Esta categorização substitui a resposta e esvazia o debate real.

Esta dinâmica revela uma estrutura de poder que opera pelo controlo do enquadramento interpretativo. A impressão de diversidade é mantida, pois é útil à legitimação, mas a moldura na qual essa diversidade pode exprimir-se é estritamente delimitada. As perguntas cruciais a colocar seriam: os pontos de vista opostos são apresentados de forma justa? Os factos são separados dos juízos de valor? O ponto de vista oposto mais forte é considerado? Estas questões fundamentais são, na prática, sistematicamente negligenciadas. O debate deixa de ser um diálogo dialético para se tornar num ritual de pertença. A posição política não se define pelo que se diz, mas pelo grupo a que se pertence ou pela moralidade que se exibe.

O que emerge, então, é uma sociedade que vive da contradição sem a resolver. A orientação política deixa de ser um estado de conhecimento, um saber objetivo sobre o bem comum, para se transformar num pragmatismo partilhado, constantemente relegitimado pelo próprio processo institucional. A razão, neste modelo, não é descoberta porque se reduz apenas a uma lógica produzida pela correção contínua e pela experiência acumulada, num ciclo que, pela sua própria natureza, nunca chega a um ponto final universal nem a um empenho comum no bem comum. Viver com esta contradição, como se nota ao observar a sociedade e o seu discurso, exige do cidadão uma distância irónica, um “humor” que impede o indivíduo de ser tragado pela voragem do poder. Sem essa distância, o cidadão ou o intelectual sucumbe à lógica binária do “nós” contra “eles”, perdendo a capacidade de estranhar o seu próprio campo.

Também o relativismo cultural seguido na governação se transforma em faca de dois gumes que nem ata nem desata porque não mantem coerência interna nem externa, o que provoca em muitos sentimentos de impotência e noutros uma reaccao de autodefesa nacionalista por lhe faltar fundamento lógico.

A transição de um sistema geopolítico unipolar para uma ordem marcadamente pluripolar, integrada pela Europa, Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Brasil e pelas nações árabes, reclama uma nova epistemologia das relações internacionais. Torna-se premente estabelecer um diálogo profundo entre civilizações que viabilize um consenso fundamental em torno da realização do bem comum.

António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do Tempo