SALAZARISMO ENTRE IDEOLOGIA E GEOPOLÍTICA

Da Substituição de soberanias em favor dos contraentes geopolíticos USA e União Soviética

A discussão sobre a natureza do salazarismo continua, ainda hoje, fortemente condicionada por categorias ideológicas forjadas no contexto da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, da Guerra Fria. O debate público e historiográfico tende a enquadrar o regime de Salazar quase exclusivamente numa oposição binária entre “fascismo” e “democracia”, uma grelha de leitura que foi eficaz como instrumento de combate político no imediato pós-1945, mas que se revela manifestamente facciosa para uma compreensão histórica mais ampla e rigorosa.

Essa dicotomia simplifica excessivamente a realidade. Ao reduzir o salazarismo a uma etiqueta ideológica, perde-se a possibilidade de o analisar na sua totalidade histórica, isto é, na articulação entre três dimensões fundamentais: a sua estrutura interna de poder e governação; as condicionantes externas, nomeadamente a posição periférica de Portugal no sistema internacional e a lógica geopolítica global, marcada pela competição entre grandes potências Socialismo e capitalismo) e pelos interesses imperiais em transformação.

O discurso político do pós-25 de Abril tornou-se míope limitando-se a transpor acriticamente a luta da Guerra Fria para o plano de discussão política interna.

O efeito mais duradouro e, em certo sentido, mais trágico para a sociedade portuguesa foi o facto de a rivalidade entre o imperialismo americano e o imperialismo soviético ter sido internalizada no discurso político nacional após o 25 de Abril de 1974. Em vez de promover uma reflexão autónoma sobre o passado e o futuro do país, essa clivagem externa passou a estruturar grande parte das discórdias entre os partidos portugueses.

No contexto revolucionário, acabou por prevalecer, no plano simbólico e cultural, uma leitura fortemente marcada pela visão socialista pró-soviética, que se impôs como matriz interpretativa dominante da História portuguesa recente. O salazarismo tem sido lido quase exclusivamente através do prisma antifascista, herdado da propaganda e da linguagem política da Guerra Fria, enquanto outras dimensões, nomeadamente a geopolítica e a questão imperial, foram marginalizadas ou tratadas como não existentes. Assim Portugal foi condicionado nas últimas cinco décadas a uma cultura política ideológica enviesada e intolerante com a consequente perda de uma via própria e de maturidade na análise política.

Esse enquadramento teve consequências profundas. Ao invés de fomentar uma cultura política orientada para a paz, a autonomia crítica e o pluralismo histórico, contribuiu para condicionar o imaginário coletivo a novos imperialismos, agora de natureza ideológica. O povo português libertou-se de um regime autoritário, mas não se libertou das lógicas ideológicas imperiais que continuaram a moldar o discurso político, apenas sob novas cores conotadas agora por um autoritarismo moralista.

A metáfora do cravo é elucidativa: ao identificar a liberdade exclusivamente com o cravo vermelho (símbolo de ideais revolucionários), não reconheceu a riqueza multicolor da liberdade, feita de diversidade de interpretações, de memória crítica e de caminhos alternativos que não se esgotam numa única narrativa vencedora.

O texto de Rui Ramos (1) que me motivou a fazer esta análise, tem o mérito de desmontar a redução simplista do Estado Novo a um “fascismo português”, distinguindo com rigor académico o autoritarismo conservador do regime de Salazar das experiências totalitárias de mobilização de massas características dos fascismos da época (Alemanha e Itália). No entanto, essa leitura permanece essencialmente interna ao espaço ideológico europeu, deixando em segundo plano um factor decisivo: a questão imperial e a posição estratégica de Portugal num mundo em recomposição.

O Império como Chave de Leitura Central

Para Salazar, o império não foi um adorno ideológico nem um resíduo do passado, mas o fundamento material da soberania portuguesa. Num contexto em que as grandes potências emergentes, Estados Unidos e União Soviética, estruturavam a ordem mundial em torno de esferas de influência, Portugal surgia como uma anomalia: um pequeno país europeu com uma presença territorial transcontinental, estrategicamente localizada em África, no Atlântico e no Índico, o que impedia por si uma distribuição do território na política de confrontação entre os dois polos geopolíticos.

A resistência de Salazar à descolonização não pode ser compreendida apenas como conservadorismo ou cegueira ideológica, como apregoam ideologias partidárias. Ela inscreve-se numa percepção, discutível (vista da perspectiva geopolítica de hoje talvez profética), mas coerente, de que o fim do império português não conduziria à autodeterminação real dos povos coloniais, mas antes à substituição de uma soberania fraca por dependências fortes, fossem elas soviéticas ou norte-americanas. A experiência posterior de vários Estados africanos durante a Guerra Fria, rapidamente integrados em lógicas de guerra por procuração e neocolonialismo económico, não torna essa perceção totalmente infundada.

Neste sentido, o salazarismo revela-se menos como um regime ideológico fechado e mais como uma estratégia defensiva de sobrevivência estatal, ancorada numa leitura profundamente desconfiada da ordem internacional emergente. Por isso embora Portugal tenha feito parte dos países fundadores da NATO, Salazar não se sentia bem com os parceiros porque como estadista sabia os interesses que os movia.

Autoritarismo como Instrumento, não como Fim

O historiador Rui Ramos sublinha corretamente que o Estado Novo rejeitou a mobilização totalitária e preservou esferas autónomas da sociedade. Mas importa acrescentar que essa escolha não foi apenas cultural ou moral: foi também funcional. Um regime mobilizador de massas teria inevitavelmente produzido dinâmicas internas difíceis de controlar e pressões externas acrescidas, sobretudo num país estruturalmente frágil.

O autoritarismo salazarista foi, assim, minimalista e defensivo, orientado para a contenção da instabilidade social, da politização excessiva, da ingerência externa (União Soviética e USA) mais do que para a transformação revolucionária da sociedade. Não procurou criar um “homem novo”, nem um Estado total, mas antes congelar a história num ponto considerado seguro.

Tal opção não absolve o regime da repressão, da censura ou da exclusão política; mas ajuda a compreender por que razão ele não se enquadra nas categorias clássicas do fascismo europeu.

A Neutralidade Estratégica e o Jogo duplo das Potências

A aliança histórica com a Grã-Bretanha, a neutralidade na Segunda Guerra Mundial e a posterior integração na NATO ilustram a plasticidade estratégica do regime. Salazar cooperou com os Aliados sem se submeter politicamente a eles, acolheu refugiados sem abrir o sistema, cedeu bases nos Açores sem abdicar do império. A mesma inteligência política faz falta em Bruxelas nos dias de hoje. Hoje, na EU, temos administradores políticos e aplicadores de diretrizes e agendas globais a que falta legitimação democrática, mas não temos estadistas nem personalidades relevantes (mas disto falarão os nossos vindouros)!

Após 1945, as mesmas potências que haviam tolerado e em certos momentos valorizado, a estabilidade autoritária portuguesa passaram a pressionar a descolonização. Esta viragem não foi motivada por um súbito despertar moral, mas por uma reconfiguração de interesses imperiais, agora exercidos sob formas económicas, militares e culturais mais sofisticadas.

A denúncia do “colonialismo português” por países que mantiveram, ou mantêm, estruturas coloniais diretas ou indiretas é uma dessas contradições históricas. Convém também notar que a Noruega possuidora da colónia  Gronelândia foi na altura contra Portugal e o discurso actual em torno da Gronelândia mostra como o exemplo permanece válido na medida em que o discurso anticolonial foi frequentemente seletivo e instrumental.

Para uma leitura não maniqueísta da História

O erro mais persistente nas discussões contemporâneas sobre o salazarismo não é a crítica moral ao regime, legítima e necessária (como o seria também ao de hoje), mas a confusão entre julgamento ético e compreensão histórica. Relativizar não é absolver; contextualizar não é justificar.

A História mostra-nos que o século XX não foi determinado pela vitória da democracia liberal sobre regimes “malignos”, mas por uma competição contínua entre impérios, em que ideologias funcionaram como linguagem legitimadora de interesses estratégicos mais profundos.

Nesse quadro, o salazarismo aparece menos como uma aberração fascista e mais como uma tentativa conservadora, autoritária e defensiva de resistir à absorção imperial num mundo bipolar. Que essa tentativa tenha falhado, moral, política e historicamente, devido aos blocos imperialistas geopolíticos, não invalida a necessidade de a compreender para além das categorias herdadas do combate ideológico.

Talvez o verdadeiro desafio historiográfico do nosso tempo seja este: libertar a análise do passado das polarizações do presente e dos interesses ideológicos de esquerda e direita, reconhecendo que o poder imperial, sob múltiplas formas e bandeiras, continua a ser o principal motor da História, ontem como hoje. Ignorar isto é falsificar a própria ação política. A leitura categorial do autoritarismo estatal conservador tem sido feita e interpretada em favor do autoritarismo moral socialista.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo social

Pegadas do Tempo

 

(1) Texto do historiador Rui Ramos, no Observador. Janeiro de 2023:

“Depois da pergunta sobre a duração do regime, a segunda questão mais frequente sobre o salazarismo diz respeito à relação com duas ditaduras europeias que foram suas contemporâneas na década de 1930: a fascista de Benito Mussolini na Itália e a nacional-socialista de Adolf Hitler na Alemanha.

Essas ditaduras foram derrotadas e destruídas na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) por uma aliança entre as democracias ocidentais e a ditadura comunista russa. Desde cedo, que a oposição de esquerda em Portugal acusou o Estado Novo de ser um regime “fascista”. Não resultava de uma tentativa de descrever o regime, mas de uma vontade de o comprometer. Os oposicionistas esperaram assim, nos anos a seguir a 1945, identificar os salazaristas com uma causa desacreditada pela derrota e pela revelação das suas atrocidades, e sujeitá-los à desaprovação dos vencedores da guerra.

Foi o salazarismo simplesmente o “fascismo português”? A questão é complicada por várias razões. Primeiro, pelo hábito comunista de usar “fascismo” para definir indiscriminadamente qualquer regime ou movimento político não-comunista, incluindo, por exemplo, a social-democracia alemã. Segundo, pelo sentido fortemente pejorativo que o termo adquiriu, de modo que qualquer função descritiva está perdida numa função meramente acusatória e ofensiva. Por isso, há quem prefira formas menos carregadas, como, por exemplo, “autoritarismo”, para falar do salazarismo.

Mas há uma outra razão para a dificuldade de definir o salazarismo. Salazar esteve quarenta anos no governo. Para durar, num século de grandes sobressaltos e deslocações súbitas e num país em mudança, teve de fazer e dizer coisas diferentes em diferentes momentos. Nunca se esforçou, aliás, por arranjar grandes justificações teóricas para tudo o que fez. Por exemplo, perante o proteccionismo alfandegário a que foi obrigado na década de 1930, observou: “eu nunca julguei ter de recorrer a medidas como certas que tenho adoptado ultimamente e que reconheço sem valor económico e quase disparatadas”.

É por isso sempre arriscado usar uma citação de Salazar para o marcar politicamente: muito provavelmente, será possível encontrar outra num sentido contrário. No entanto, Salazar referiu-se frequentemente a uma “doutrina”, que definiria o Estado Novo. Vale a pena tentar examinar essa “doutrina”, sem cair no erro de tentar sistematizá-la numa filosofia, em mais um “ismo”, como o liberalismo ou o socialismo. O objectivo deve ser outro: perceber o seu papel no regime, e, por esse meio, o significado político do salazarismo, que não é a mesma coisa que a descrição da sua maneira de funcionar.

Na década de 1930, num mundo desestabilizado pela Grande Depressão e por potências como a Alemanha nazi, a Itália fascista, a Rússia comunista ou um Japão militarizado e expansionista, muita gente acreditou que o mundo do liberalismo do século XIX, com os seus parlamentos e eleições disputadas por vários partidos políticos, acabara de vez. Em 1940-1941, nas suas lições na Faculdade de Direito de Lisboa, Marcello Caetano identificou o Estado Novo como o fim do liberalismo: “embora ainda vigorem muitas leis e persistam muitas instituições do sistema individualista, está-se em pleno período de reforma no sentido da elaboração de um direito social e autoritário”.

O futuro era o autoritarismo, para uns com aspecto fascista, para outros com aspecto comunista. Ao longo dessa década, Salazar deixou o Estado Novo lembrar o regime fascista italiano, com milícias, saudações romanas e uma retórica “revolucionária”. “Liberalismo” e “democracia” eram quase sempre referidas como coisas passadas.

Mas mesmo nesta época, Salazar teve o cuidado de contrastar a “doutrina” do regime, não apenas com o liberalismo, mas com o totalitarismo. Em 1932, explicou a António Ferro: “a nossa ditadura aproxima-se, evidentemente, da ditadura fascista no reforço da autoridade, na guerra declarada a certos princípios da democracia, no seu carácter acentuadamente nacionalista, nas suas preocupações de ordem social”.

Mas, por outro lado, “afasta-se nos seus processos de renovação. A ditadura fascista tende para um cesarismo pagão, para um estado novo que não conhece limitações de ordem jurídica ou moral, que marcha para o seu fim sem encontrar embaraços nem obstáculos”. O Estado Novo não seria assim: “A violência, processo directo e constante da ditadura fascista, não é aplicável, por exemplo, ao nosso meio, não se adapta à brandura dos nossos costumes”. Repetidamente, apresentou-se como alguém que “proclama e aceita que o Estado é limitado pela moral e pelo direito”. Os limites do poder político, segundo Salazar, estavam na revelação divina (o catolicismo), na natureza humana (descrita pela história e pelas ciências sociais) e num modo de actuar ordenado, legalista (segundo a tradição jurídica do Estado de Direito). O poder político teria de respeitar esses limites, sob pena de ser ao mesmo tempo eticamente reprovável e politicamente ineficaz.

Na prática, foi Salazar quem destruiu o principal movimento de tipo fascista em Portugal, o Nacional-Sindicalismo liderado por Francisco Rolão Preto em 1932-1934. A expansão do Nacional-Sindicalismo prova que havia espaço para um fascismo em Portugal. Em privado, Salazar tratou a dinâmica fascista de que saiu a Legião Portuguesa, em 1936, como um efeito do “snobismo da época”: “copia-se bastante, pensa-se menos”. Certamente, porque o projecto nacional-sindicalista de dominar o espaço público era um desafio ao seu poder e porque a Legião Portuguesa, que Salazar submeteu ao exército, podia desequilibrar o regime.

Mas também porque o salazarismo rejeitava aquilo que era fundamental no fascismo – e que não era apenas a ditadura, mas um movimento político que visava, como escreveu Hannah Arendt, eliminar a esfera privada (“diluir totalmente o privado no público”) e reduzir o Estado a uma simples “fachada externa”, destinada apenas a “representar o país no mundo não-totalitário”. Como notou Robert Paxton o que distingue os autoritarismos nacionalistas dos fascismos: os primeiros assentam sobretudo em “corpos intermédios” como igrejas, notáveis, associações, a administração, as forças armadas para controlar, e portanto aceitam esferas de regulação autónoma, e os segundos num movimento político de mobilização que domina a esfera pública e elimina outras esferas autónomas ou privadas. O seu controle no primeiro é de desmobilização e conformismo, o segundo é de mobilização e adesão.

Por isso, os historiadores fora de Portugal nunca tiveram dificuldade em reconhecer que nos anos 1930 o “conservadorismo autoritário” de Salazar, segundo Ian Kershaw, “oferecia o mais acentuado contraste” com as ditaduras totalitárias europeias. Como seria de esperar, nunca no Estado Novo o “tu” da camaradagem fascista substituiu o “V. Exa.”, nem a saudação romana, ocasionalmente usada na Legião Portuguesa e na Mocidade Portuguesa, o aperto de mão. Tratava-se de viver “habitualmente”, e não “perigosamente”, como queria Mussolini.

Sem dúvida que faz sentido estudar o salazarismo em relação ao fascismo dos anos 1920 e 1930. Mas não faz sentido reduzi-lo a isso. O fascismo não foi a única fórmula de autoritarismo, nem sequer a mais bem sucedida (nenhum movimento fascista tomou o poder fora de Itália e da Alemanha). O mesmo se poderá dizer do comunismo, que não se instalou em mais nenhum país fora da Rússia até 1945. A cultura política ocidental das décadas de 1920 e de 1930, quando Salazar afirmou o seu poder, tinha outras fontes de autoritarismo.

Após a I Guerra Mundial, nos anos 1920 e 1930, a política dos países industrializados foi invadida pelo culto dos “chefes”, protótipos da “liderança” e da “eficácia”. Isso aconteceu nas ditaduras de tipo fascista ou comunista, mas também nas democracias liberais, onde o presidente norte-americano Roosevelt e depois o primeiro-ministro britânico Churchill se tornaram vias para estruturar a vida pública em função de um líder a quem era reconhecida uma autoridade especial, para além da que lhe vinha por via legal. A origem deste culto esteve no impacto da guerra e na influência crescente da empresa industrial e de serviços como modelo de organização.

O “chefe” foi uma forma de salvaguardar a autoridade e a hierarquia, através de novas formas e técnicas de comando, numa época de igualitarismo, em que desaparecera a aristocracia tradicional. Na liturgia do Estado Novo, Salazar era tratado como o “chefe”.

Mas era um “chefe” que os seus admiradores contrastavam ostensivamente com chefes como Mussolini: de um lado, estava um Salazar reservado, polido e professoral; do outro lado, um Mussolini exuberante, plebeu e militar.

Mais importante do que isso, na época, foi o facto de o Portugal de Salazar se ter mantido um “aliado fiel” da maior democracia liberal europeia, a Grã-Bretanha. Durante a II Guerra Mundial, Salazar não perdeu a cabeça, como teria sido fácil (aconteceu ao seu embaixador em Londres, Armindo Monteiro), e aproveitou o facto de os beligerantes terem acabado por deixar a península fora da guerra para servir ambos os lados, com lucro, ao mesmo tempo que acolhia cerca de meio milhão de refugiados.

Em 1939, no começo da guerra, a imprensa do regime aproveitou para estranhar as “anexações imperialistas” e a “mística racista” da Alemanha de Hitler. Em 1943, quando a guerra virou, Salazar concedeu bases aos Aliados nos Açores. Em 1945, com a vitória das democracias ocidentais, aliadas à União Soviética, Salazar enalteceu o auxílio que prestara à causa anglo-americana, reviu leis, fez logo novas eleições, e começou a falar de “democracia”, embora “orgânica”.

A oposição denunciou as “reformas demagógicas” com que Salazar se preparava para convencer as Nações Unidas de que “em Portugal não há fascismo”. A imprensa comunista clandestina passou a tratar todos os ministros como “fascista nazi”. Mas em Outubro de 1945, na reunião do Centro Almirante Reis, os oposicionistas reconheceram, a propósito da lei eleitoral de 23 de Setembro, que “a alteração de princípios que encerra é profunda”: ainda não era a democracia, mas o regime, que até aí se dissera “anti-liberal e anti-democrático”, estava a ceder às “ideias democráticas”.

Durante alguns anos, entre 1945 e 1947, o Estado Novo até se esforçou por criar “muita distância” em relação à ditadura do general Franco em Espanha, ao mesmo tempo que, significativamente, o regime espanhol se procurava modelar segundo o português – o que significou reduzir os elementos mais fascistas. Em Junho de 1946, no Brasil, o embaixador Pedro Theotónio Pereira podia garantir à imprensa que Portugal tinha um regime “anti-totalitário”, era até uma “democracia”, onde os cidadãos podiam ter opiniões diferentes, onde havia imprensa da oposição, e embora não houvesse partidos políticos, por uma questão de estabilidade, não era verdade que estivessem proibidos.

Ao mesmo tempo, porém, escrevia a Salazar a dar o exemplo do Brasil como a falência da democracia, com o governo e os partidos divididos, e incapazes por isso de resistir ao comunismo. De facto, Salazar nunca pensou recorrer à população em pé de igualdade com os seus adversários. Nem ele, quando prometia “eleições livres”, nem as oposições, quando as exigiam, estavam de boa fé. Na realidade, era pela força que Salazar esperava manter-se no poder, e era pela força que as oposições planeavam tirá-lo de lá. Como explicou em Fevereiro de 1946, a exigência de liberdade pela oposição de esquerda parecia-lhe um truque de guerra: “sabemos bem que a exigem para vencer e a dispensam para governar”.

Provavelmente, Salazar não acreditava nem na vontade da oposição para respeitar a legalidade, nem na capacidade dos salazaristas para predominarem sem coerção. Por isso, para Salazar se manter no poder, mais decisivas do que as eleições, foram as derrotas das conspirações militares conhecidas por golpe da Mealhada (1946) e Abrilada (1947). A ditadura evitou assim um golpe militar como o que derrubou Getúlio Vargas no Brasil em 1945, para instituir uma democracia limitada e conservadora e sob tutela militar. Em Espanha, Franco aguentou, o que poupou Salazar à pressão de uma vizinhança democrática.”

Rui Ramos é historiador, professor universitário

A EUROPA ENTRE O ESQUECIMENTO DO SER E A SACRALIZAÇÃO DA GUERRA

Institucionalização de um poder sem rosto

Vivemos um tempo que não é apenas de mudança histórica, mas de mutação ontológica. Aquilo a que se chama “nova era” ou “nova ordem” não se anuncia apenas por rearranjos geopolíticos, mas por uma transformação radical da forma como o homem se compreende a si próprio, ao poder, à técnica e à guerra. Como diria Martin Heidegger, não estamos perante uma simples crise política, mas perante o “esquecimento do Ser”, em que tudo passa a valer apenas enquanto recurso disponível, incluindo o homem, os povos e a própria paz.

A União Europeia apresenta-se como um projeto moral, herdeiro do humanismo cristão e da razão iluminista, mas tornou-se, na prática, um espaço dominado pelo que Romano Guardini já pressentia como o advento de um “poder sem rosto”, tecnicamente eficiente e espiritualmente vazio. O discurso oficial invoca valores universais, direitos e progresso; contudo, nos bastidores decisórios, o critério último é económico-financeiro e estratégico. A linguagem ética funciona como véu, não como fundamento e o povo é tratado de forma cínica.

Esta dissociação entre palavra e realidade constitui uma das formas mais sofisticadas de niilismo contemporâneo. Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais europeu contemporâneo, alertou:  quando a razão se separa da verdade e se reduz a racionalidade instrumental, ela deixa de libertar e passa a dominar. O bem torna-se aquilo que é funcional; o mal, aquilo que resiste. Assim, a guerra pode ser progressivamente encenada como meio legítimo, necessário e até “humanitário”, desde que integrada numa narrativa moralmente aceitável.

Eric Voegelin descreveu este processo como a “imanentização do eschaton”, isto é, a tentativa de realizar, por meios políticos e técnicos, uma redenção que pertence à ordem espiritual. Quando a política assume funções salvíficas, ela exige inimigos absolutos e conflitos permanentes. A guerra deixa então de ser uma tragédia a evitar e passa a ser apresentada como instrumento pedagógico da História, como mecanismo de purificação ou de avanço civilizacional.

É neste contexto que devemos compreender a crescente normalização do discurso bélico no espaço europeu. A guerra não é apenas preparada nos arsenais, mas sobretudo nas consciências. Os meios de comunicação, os centros de produção académica, os discursos institucionais e até certas aplicações da inteligência artificial contribuem para moldar uma perceção da realidade em que o conflito aparece como inevitável, ou pior, como desejável. A técnica, que deveria servir o homem, passa a formatar o seu horizonte moral.

Também a inteligência artificial, enquanto espelho ampliado da racionalidade dominante, está naturalmente dependente dos bastidores ideológicos: ela reproduz padrões, narrativas e prioridades inscritas nos sistemas de poder que a alimentam. Não cria o mal, mas acelera e torna mais eficaz aquilo que já está decidido a montante. O perigo não está na máquina, mas na visão do homem que a orienta, um homem reduzido a consumidor, produtor ou dano colateral.

Paralelamente, assiste-se à erosão deliberada da cultura humanista europeia. Não se trata de abertura ao outro, mas de desintegração do próprio. Tradições espirituais, religiosas e culturais são relativizadas ou instrumentalizadas conforme conveniências geopolíticas. Religiões deixam de ser compreendidas como caminhos espirituais e passam a ser tratadas como forças políticas ou demográficas, peças num tabuleiro de poder global. O problema não é a fé, mas a sua captura pela lógica imperial, seja ela religiosa, tecnocrática ou financeira.

A Europa, ao renegar as suas raízes espirituais em nome de uma neutralidade impossível, torna-se incapaz de verdadeiro diálogo e vulnerável a todas as formas de colonização ideológica. Sem uma metafísica do limite, resta apenas a expansão indefinida do poder. Sem transcendência, tudo se torna negociável, inclusive a vida humana, por isso fomentam a agressividade e a incompreensão relativamente ao cristianismo e defendem o Islão para não terem um espelho metafísico que os reflita nem quem esteja do lado do povo e expresse a sua voz.

Talvez por isso a verdadeira resistência, hoje, já não possa ser militar nem ideológica. Essas linguagens pertencem ao mesmo horizonte que pretendemos questionar. A resistência terá de ser cultural, ética e espiritual, uma recusa silenciosa mas firme de aceitar a mentira como norma e a guerra como destino. Resistir será preservar a memória, a consciência e a pergunta pelo sentido, num mundo que prefere respostas rápidas e funcionais.

Como advertia Romano Guardini, o futuro não pertence aos sistemas mais poderosos, mas aos homens interiormente livres. E, como lembrava Joseph Ratzinger, uma Europa que perde a sua alma perde inevitavelmente também a capacidade de gerar paz. Se ainda existir uma saída para este tempo sombrio, ela não nascerá dos centros de poder nem das engenharias institucionais, mas da fidelidade à verdade do ser humano, esse mistério irredutível que nenhuma técnica, nenhuma ideologia e nenhuma guerra conseguem esgotar.

Essa fidelidade exige um despertar da consciência coletiva, a redescoberta de que o homem não está só nem abandonado à lógica da força, mas permanece situado numa ordem mais alta de sentido. Dito de outro modo: só um povo que reconhece que Deus caminha com ele pode resistir à absolutização do poder terreno. Recordo, a este propósito, a voz do meu pai ao repetir o antigo adágio “a voz do povo é a voz de Deus”. Mas importa acrescentar: essa identificação só permanece verdadeira enquanto a voz do povo não se deixa capturar, manipular ou substituir pelas narrativas de um poder que, precisamente por isso, se arroga cada vez mais uma pretensão de omnipresença e omnipotência.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo social

Pegadas do Tempo

 

TRIBALIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA E PERDA DA IDENTIDADE PESSOAL

Será possível uma matriz de orientação onde alguém poderá falar ao ser humano na qualidade de humano sem o reduzir a função, massa ou rebanho?

Na continuação do que escrevi no artigo DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO PODER não estamos apenas perante uma regressão histórica, mas perante uma mutação antropológica regressiva.

A tribalização do nosso tempo não guarda a essência da tribo arcaica. É fenômeno mais grave ainda, ao ponto de consciências atentas e sensíveis se sentirem como viajantes numa estação cultural derradeira. Esta nova agregação tribal carece de cosmologia integrada, não brota da observação paciente do mundo natural, chegando, em seu desvio, a negá-lo, como atesta a sua marcante ausência de feminilidade. E, sobretudo, é estéril: não gera a seiva profunda da sabedoria simbólica, como em teologias, filosofias e literaturas passadas; deste modo reduz a pessoa ao nível do ovino de rosto virado para a relva.

A sociedade tribal que estamos a forjar não é feita de clãs orgânicos, mas de arquipélagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios. Tome-se como exemplo certas expressões do fenómeno woke: erguem uma identidade que é pura superfície, sem interioridade colectiva autêntica. É uma militância sem comunhão, uma bandeira sem transcendência, uma tribo de código reducionista, não de sangue, terra ou mito.

Os indivíduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade (1) e isto é decisivo. Sem singularidade e essência individual própria não há responsabilidade, não há consciência moral e não há liberdade verdadeira.

Historicamente, a antropologia cristã foi o antídoto, afirmando cada pessoa como irrepetível e portadora do divino, anterior a qualquer grupo. E quando este eixo se perde, regressamos não à tribo natural, mas à horda administrada.

 

Modernidades múltiplas de pluralidade sem fundamento

A ideia de “modernidades múltiplas ou de interculturalismos” poderia ser fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto é, numa referência à natureza, e à tradição, numa ética do real e numa conceção do humano como medida (à imagem do protótipo Jesus Cristo).

Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem critério e diferença sem orientação. Nesta perspectiva já não há ligação às leis da natureza nem à observação do real.
A cultura deixa de ser cultivo e passa a ser construção arbitrária.

Neste quadro, o cientista Samuel P. Huntington em “O choque de civilizações” apenas descreveu fricções de superfície. O verdadeiro “choque” não é entre civilizações, mas entre visões do humano como ser-com-sentido versus  entidade moldável (concepção esta observável nas narrativas dos media na EU em que não interessa apresentar factos mas enquadrá-los numa interpretação funcional pós fática destinada a moldar consciências em função do regime-sistema coisa que já se observa há mais tempo em estados socialistas).

O papel do poder expressa-se em decompor para governar

A decomposição em via especialmente na civilização ocidental não é ingénua ao ser mais agressiva no ocidente onde a consciência da dignidade humana e dos direitos humanos nasceu; a decomposição não é acidental; ela é estrutural e intencional porque o poder contemporâneo não quer indivíduos conscientes, não quer comunidades enraizadas (por isso vem-lhe a jeito a infiltração de guetos muçulmanos) nem quer transcendência operativa na civilização ocidental. O poder contemporâneo fomenta fragmentação, grupos reativos e espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de submissão em vez de libertação. (veja-se o cultivo de práticas budistas, que bem doseadas poderiam servir para o bem-estar dos corpos mas não como alternativas).

Aqui entra a perversão do espiritual como pedagogia de submissão: não para libertar, mas para pacificar.

A questão decisiva: a Igreja católica percebeu o tempo?

É uma questão séria, mas justa: parece que o catolicismo não está a compreender o momento histórico que realmente está a acontecer, ao tratar a crise apenas como uma questão social. Historicamente, a Igreja foi a primeira instituição verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa e foi a primeira a colocar limites éticos ao poder.

Hoje a Igreja católica vive uma tensão interna profunda que se poderia explicar com o seu  desvio excessivamente pedagógico (oportuno para a época de civilizar os povos bárbaros na europa) mas  com a negligência da missão mística e ontológica (explicável para a altura em que com a coroação do imperador Carlos Magno se tratava de colocar os fundamentos para a formação da civilização  europeia, começada na era medieval).

De facto, nessa era pedagógica a Igreja empenhou-se sobretudo na sua missão pedagógica estabelecendo-se como educadora moral, mediadora social e como agente humanitário. Tudo isso foi legítimo e oportuno no passado da história europeia, mas tornou-se insuficiente.

A sua missão mais profunda não é ensinar comportamentos, mas defender a estrutura do ser humano enquanto lugar de integração do divino (naturalmente sem perder de vista os biótopos culturais em que está inserida).

Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, não responde aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma espiritualidade de caracter mais mística. O ponto chave da missão hodierna será complementar o ser com o estar.

O mundo atual absolutiza o estar centrando-se no contexto e na situação; absolutiza o ter com posse e acesso à riqueza e redu-lo a performance no mero funcionar.
A missão própria do cristianismo não é negar isso, mas integrá-lo no ser. Porque para o cristianismo o humano não é meio para a economia, não é meio para a ideologia nem meio para a estabilidade do sistema.

O ser humano é fim em si em estado processual. Não é um fim fechado, mas um ser em caminho, aberto à divinização.
Isto é radicalmente incompatível com qualquer forma de poder totalizante.

Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?

Sim, em potência tem tudo o que é preciso desde que não seja teocrática como é o caso do islão, mas que acentue a ralação humano-divina como se encontra expressa no protótipo Jesus Cristo. Não deve ser moralista nem disciplinadora. A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropológico e ontológico na perspectiva espiritual.

O catolicismo poderia oferecer uma matriz globalizante não opressiva baseada em: Centralidade da pessoa (não do grupo ou função), (acentuando a relação eu-tu-nós, fórmula trinitária na perspetiva inter-relacional e não funcional); consciência como soberania, dado a verdadeira soberania não ser territorial, mas interior; uma transcendência não instrumentalizada porque o espiritual não serve para governar, mas para libertar; pressupõe comunhão sem dissolução da individualidade e que a Verdade surja como horizonte e experiência, não como arma, sem contudo cair no relativismo e no dogmatismo.

Uma tal matriz é profundamente cristã, mas, tal como Jesus Cristo, não confessional no sentido estreito da palavra. Assim seria oferecível à humanidade sem submissão.

O risco e a oportunidade

Aqui, atendendo à estruturas sociais e também de pensamento seria de se meditar sobre a frase de Paulo quando constata “Oh felix culpa” … que implicaria uma abordagem teológica além de antropológica e sociológica.

O risco é claro porque a Igreja poderia tornar-se irrelevante ou cúmplice por omissão.

A oportunidade da Igreja neste tempo histórico é ser a última garante da consciência humana num mundo funcionalizado. Não como poder concorrente, mas como instância de sentido que o poder secular deveria sustentar e implementar.

Conclusão

O que aqui proponho é mais uma reflexão que implica não o regresso ao passado nem tão-pouco uma restauração. Tratar-se-ia de uma transfiguração do papel do catolicismo, menos gestor de moral, menos pedagogo social, mais guardião do humano como lugar do divino num confronto entre antropologia cristã e antropologia tecnopolítica.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
© Pegadas do Tempo

(1) Ipseidade refere-se à qualidade do que é “ele mesmo” ou “em si mesmo”, a singularidade e identidade própria de um ser, a sua característica única que o diferencia dos outros e a consciência dessa individualidade ao longo do tempo. É a percepção de continuidade e pertencimento de si mesmo, fundamental para o senso de identidade pessoal, sendo um conceito central na fenomenologia, explorado por filósofos como Paul Ricoeur e Martin Heidegger. Este conceito baseia-se na visão cristã do ser humano ao mesmo tempo como corpo e alma, como matéria e divino (filho). Daí o conceito de pessoa com o ser soberano a nível de consciência e de agente social e institucional.

 

CANTO DA GERAÇÃO AUSENTE

Cantemos.
Não por glória,
mas por justiça.

Cantemos os que partiram
com a mala pequena
e o coração excessivo.
Os que deixaram a terra
não por desprezo,
mas porque a terra já não os segurava.

Cantemos a geração empurrada
para fora do mapa,
como se o futuro tivesse fronteiras
e o pão escolhesse passaporte.

Partimos.
Partimos jovens,
com diplomas inúteis e mãos dispostas,
com a voz ainda cheia de aldeia,
com a esperança ferida, mas viva.

Partimos porque ficar
era morrer devagar.

E no estrangeiro
fomos pedra,
fomos braço,
fomos silêncio.

Erguemos casas onde não dormimos,
pontes que não atravessámos,
riquezas que não nos pertenceram.
Aprendemos outras línguas
sem nunca perder a nossa dor.

Cantemos os que aceitaram ser “estrangeiros”
todos os dias,
mesmo quando pagavam impostos,
mesmo quando salvavam economias,
mesmo quando faziam funcionar
o que outros não quiseram fazer.

E enquanto o corpo trabalhava fora,
o coração ficava.

Ficava nas mães envelhecidas,
nos pais que esperavam chamadas,
nos filhos criados por fotografias.
Ficava no país que ardia no verão
e chorava no inverno.

E todos os meses,
como um ritual antigo,
enviávamos dinheiro.
Não como gesto de riqueza,
mas como prova de pertença.

Remessas de sacrifício.
Notas manchadas de saudade.
Economia sustentada
por ausentes.

Cantemos agora a ingratidão.

A palavra fria.
O olhar que desconfia.
A frase que fere:
“Vocês já não estão cá.”

Como se a distância apagasse o sangue.
Como se o exílio anulasse a cidadania.
Como se duas semanas de regresso
fossem turismo
e não sobrevivência da alma.

Cantemos a ferida maior:
quando o país que não nos segurou
nos quer agora calados.

Quer-nos úteis,
mas não participantes.
Quer-nos remetentes,
mas não votantes.
Quer-nos portugueses só até ao limite
do incómodo.

Mas nós respondemos,
em uníssono,
em português:

Não deixámos de sofrer.
Não deixámos de pensar.
Não deixámos de pertencer.

Chorámos incêndios à distância
como quem perde a casa duas vezes.
Vivemos crises como quem observa
o próprio coração a ser governado
sem voz.

Somos a geração sacrificada.
A que pagou o preço da permanência alheia.
A que saiu para que outros ficassem.
A que envelhece entre países
sem nunca deixar de ser inteira.

Cantemos, então,
não como lamento estéril,
mas como memória viva.

Porque um país que esquece os seus emigrantes
não perde população,
perde consciência.

E nós, dispersos pelo mundo,
continuamos a cantar.

Com voz firme.
Com dignidade intacta.
Com Portugal inteiro
dentro do peito.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

O VOTO DA DIÁSPORA – DIREITO OU PRIVILÉGIO?

Do “Portugal ingrato” ao debate sobre quem merece representação

O debate sobre o direito de voto dos emigrantes portugueses regressa ciclicamente ao espaço público, quase sempre envolto em simplificações e ressentimentos. O presente artigo nasce como resposta a um comentário deixado por um leitor ao meu texto “O Papel da Diáspora rumo a uma Democracia Participativa”(1), onde ele defendia que o direito de voto deveria ser exclusivo dos residentes em Portugal. Cito o que ele escreveu:“Quem foi para fora devia votar onde está. Incomoda-me que quem vem passar férias duas semanas possa escolher os nossos representantes”.

A afirmação, embora frequente, revela uma visão redutora da emigração portuguesa e levanta uma questão mais profunda: de onde vem esta resistência ao voto da diáspora? Será mera inveja popular, alimentada pela ideia, muitas vezes falsa, de sucesso fácil no estrangeiro? Ou será antes a expressão de uma má consciência colectiva, particularmente da classe política, que, incapaz de criar condições dignas para fixar os seus cidadãos, prefere afastar da decisão democrática aqueles cuja saída expõe esse fracasso estrutural?

A diáspora portuguesa não é um corpo estranho à nação. Pelo contrário, é parte integrante dela. Mantém laços familiares, culturais, afectivos e económicos profundos com Portugal. O seu voto não é um capricho nem um “turismo eleitoral”: é a afirmação de um direito cívico de cidadãos que, muitas vezes forçados a emigrar, continuam a contribuir para o país e a ser diretamente afectados pelas suas políticas. Ignorar este facto é perpetuar um ciclo de ingratidão e desresponsabilização.

Desde logo, importa esclarecer um equívoco que se afigura no imaginário popular: sim, porque emigrantes não são turistas. A comparação é ofensiva e falsa. Um turista visita um país por lazer, sem vínculos duradouros. Um emigrante português constrói a sua vida noutro país por necessidade económica, profissional ou social, mas raramente rompe com Portugal. Mantém família no território nacional, acompanha a vida política, investe, paga impostos, envia remessas, planeia regressar ou envelhecer no país de origem. Reduzir esta relação vital a “duas semanas de férias” é desconhecer a realidade e ignorar o contributo efectivo da emigração para o desenvolvimento nacional.

As políticas públicas decididas em Lisboa têm impacto direto na vida dos emigrantes. Afetam os seus familiares que vivem em Portugal, influenciam o valor e a fiscalidade das suas propriedades, condicionam investimentos, reformas futuras e direitos de cidadania consagrados na lei. A sua nacionalidade portuguesa e tudo o que dela decorre, do acesso consular ao passaporte, é definida por leis votadas na Assembleia da República. Como sustentar, então, que não devem ter voz na escolha dos representantes que produzem essas leis?  Estima-se que existam quase 2,1 milhões de portugueses a viver no estrangeiro, mas o número de lusodescendentes (incluindo nascidos em Portugal e seus descendentes) ultrapassa os 5 milhões, distribuídos pelos maiores contingentes na Europa (França, Suíça, Reino Unido, Alemanha) e Américas (Brasil, EUA, Canadá, Venezuela).

A democracia moderna funda-se na cidadania, não na residência circunstancial. A Constituição da República Portuguesa é clara ao garantir o direito de voto a todos os cidadãos portugueses. A residência serve apenas para definir círculos eleitorais, território nacional ou emigração e não para criar cidadãos de primeira e de segunda categoria. Se aceitássemos que só “quem está cá” pode votar, abrimos a porta a uma perigosa erosão dos direitos fundamentais.

Também não corresponde à verdade a ideia de que os emigrantes votam de forma desinformada. Num mundo globalizado, com acesso permanente à imprensa, à rádio, à televisão e ao debate online, muitos acompanham a actualidade política portuguesa com atenção redobrada. Participam em associações, promovem debates, discutem programas e mantêm um interesse visceral no futuro do país. A distância geográfica não equivale a afastamento cívico.

Reconhecer o voto da emigração é também reconhecer a sua importância nacional. A diáspora portuguesa tem sido, ao longo de muitíssimas gerações, um verdadeiro pilar da economia portuguesa. Só em 2024, as remessas enviadas por emigrantes atingiram 4,3 mil milhões de euros, um valor largamente superior às remessas enviadas por imigrantes em Portugal para os seus países de origem, que rondaram os 845,7 milhões. Para além do impacto económico, os emigrantes são embaixadores da língua e da cultura portuguesas no mundo. Negar-lhes o voto é negar essa pertença e transformar a nacionalidade num estatuto condicional.

Importa ainda desmontar o argumento logístico tantas vezes invocado para deslegitimar o voto da diáspora. O sistema eleitoral português já distingue, de forma clara, entre cidadãos residentes no estrangeiro e cidadãos temporariamente ausentes do território nacional. O voto digital resolveria todo o problema! Eventuais abusos, lacunas imperfeições operativas não constituem fundamento legítimo para a supressão de direitos fundamentais a milhões de cidadãos; exigem, isso sim, correções administrativas, reforço da transparência e vontade política.

Mais grave é quando essas fragilidades são instrumentalizadas ou acompanhadas por opções governativas que, em conivência com interesses estrangeiros, acabam por penalizar os próprios emigrantes. O caso do acordo entre Portugal e a Suíça é paradigmático: em nome de interesses económicos alheios, o Estado português aceitou soluções que prejudicaram os seus cidadãos no estrangeiro. O mesmo padrão se verificou durante décadas com o imposto extraordinário aplicado aos emigrantes que pretendiam importar o seu próprio automóvel, situação em que Portugal preferiu pagar avultadas multas à União Europeia por incumprimento da lei comunitária a pôr termo a uma prática claramente lesiva dos seus nacionais. Só após décadas de exploração esta legislação viria a ser corrigida, num silêncio quase total dos meios de comunicação social, demasiadas vezes comprometidos com o regime e alheios à realidade da emigração e também do povo português em geral.

A hostilidade ao voto da diáspora assenta, muitas vezes, em estereótipos e preconceitos alimentados por desinformação e por uma comunicação social que raramente dá voz aos emigrantes. Essa invisibilidade contribui para a fraca formação política do público e para a persistência de ideias retrógradas. Não é irrelevante notar que, na presente legislatura, a maioria dos candidatos à Presidência da República praticamente ignora a emigração, com raras exceções. Essa distância revela um afastamento mais vasto entre representantes e representados.

Uma leitora emigrante sintetizou, de forma particularmente lúcida e comovente, o sentimento de muitos portugueses no estrangeiro: “Eu, cidadã portuguesa emigrante, falo, sinto, informo-me, rio, penso, sofro em português. Choro quando há incêndios, quando há apagões, quando outros cidadãos choram; rio quando os outros cidadãos riem. Pago os meus impostos, informo-me, debato, leio a imprensa nacional, ouço rádio nacional. O que faz de mim alguém com menos direito de voto?” A sua indignação vai mais longe: denuncia como xenófoba a ideia de que a emigração diminui a pertença nacional e lembra que viver fora pode, paradoxalmente, ampliar a abertura de espírito, a tolerância e a humanidade, valores essenciais numa democracia madura.

Portugal não é apenas um território delimitado por fronteiras. É uma comunidade humana, histórica e cultural que se estende muito para além do mapa. Os emigrantes fazem parte dessa comunidade. Retirar-lhes o direito de voto seria uma amputação democrática e uma injustiça histórica para com quem, muitas vezes contra a sua vontade, teve de partir, mas nunca deixou de ser português nem de contribuir para o país.

Defender o voto da diáspora não é defender um privilégio. É defender uma democracia mais inclusiva, mais consciente da sua realidade e mais fiel aos seus próprios princípios. No sistema eleitoral não deveria continuar a prevalecer os interesses partidários e um meio de começar a reduzi-los seria o voto digital. Mas há medo político porque então a participação nas eleições aumentaria muito e legitimaria mais deputados para a emigração.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Artigo Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10554