RECEITA PARA ESTRESSADOS DO AUTOAPERFEIÇOAMENTO

A arte de também nos deixarmos em paz

Vivemos numa época em que já não basta viver. É preciso melhorar a vida, melhorar o corpo, melhorar a mente, melhorar as relações e, se sobrar algum tempo, melhorar também a maneira como melhoramos. Imaginemos que até já chegamos a ponto de o descanso ter de ser produtivo.

Meditamos para ficar mais serenos, fazemos exercício para viver mais, lemos para crescer interiormente e, ao fim do dia, caímos exaustos na cama com a desagradável sensação de ainda não sermos a pessoa que deveríamos ser. Estamos a exagerar um pouco neste ponto.

A pressão do autoaperfeiçoamento é particularmente traiçoeira porque se apresenta sempre com boas maneiras. Não nos diz: «Não prestas.» mas sugere-nos delicadamente que podíamos ser ainda melhores e nós, habituados à obediência, lá metemos mais uma obrigação na mochila.

Por isso gosto da meditação e da oração, não como técnicas para me tornar melhor, mas como lugares onde posso, por momentos, deixar de ter de me tornar seja o que for para ser simplesmente com o divino e expressar como é boa a ressonância. Há uma sabedoria e um silêncio que não exigem currículo.

No silêncio posso escutar-me e tentar reconciliar o ego com o eu, o eu com o tu e ambos com esse difícil e maravilhoso «nós». Para isso, cada pessoa traz consigo uma sabedoria que não vem necessariamente nos diplomas. Há coisas que a alma sabe antes de nós sabermos explicá-las e quanto mais simples são as pessoas mais visível tornam a explicação.

Também quem procura ajudar os outros conhece outra armadilha! Esquecermo-nos de nós próprios, até a ponto de nos esquecermos da sede.

Na vida religiosa e pastoral isso acontece facilmente. Queremos estar presentes, compreender, consolar, servir. Tudo é muito cristão até ao dia em que a alma, depois de passar tanto tempo a dar água aos outros, percebe que também ela tem sede.

É algo que é preciso aprender pois também eu sou alguém de quem devo cuidar, o problema é que a força do hábito nos leva na enxurrada.

Temos por vezes uma estranha generosidade ao reservarmos para os outros a compreensão e deixarmos para nós a severidade. Ao amigo cansado dizemos: «Descansa, fizeste o que podias.» A nós próprios dizemos: «Podias ter feito mais.» É uma injustiça na própria casa talvez a compensar a atitude daqueles que organizam a vida a desviar a água para o seu moinho. (Não se trata aqui de moralismo porque a vida é como o fluxo do rio e não se fixa numa ou noutra margem ela é margem e corrente doutro modo não seria vida).

Durante a minha atividade pastoral encontrei uma maneira muito pessoal de fazer as pazes com os meus limites. Quando queria ajudar alguém e sentia sobre mim o peso da responsabilidade, dizia a Deus: «Tu sabes que quero fazer o bem e que procuro estar ao Teu serviço. Se fizer alguma coisa errada, lembra-Te de que também tenho as minhas limitações e eu faço o que posso e à minha maneira, de resto, o problema é. Teu.»

Talvez fosse uma oração desabitual, mas aliviava-me a alma, pois sempre pensei que Deus compreenderia. Afinal, se nos criou limitados, não poderá ficar demasiado surpreendido quando damos com a cabeça nos limites.

Hoje, na atividade jornalística, continuo a viver um pouco desta confiança. Escrevo procurando fazê-lo com boa intenção, embora conheça o aviso popular de que «de boas intenções está o inferno cheio».

Escrevo, portanto, aquilo que analiso, penso e sinto. Se errar, haverá quem me corrija e há sempre algo a aprender.

Talvez seja esta a minha receita para os estressados do autoaperfeiçoamento: tratar-nos a nós mesmos como tratamos alguém de quem gostamos e estarmos atentos ao que o espírito do tempo nos dita.

Melhorar, sim, mas sem viver descontentes com aquilo que somos. Por isso trata-se de ajudar os outros sem nos abandonarmos pelo caminho e rezar sem querer impressionar Deus, deixando também Deus falar e quando meditamos trata-se de o fazer sem transformar o silêncio noutra disciplina olímpica.

Trata-se de aprender a dizer ao fim de certos dias: «Fiz o que pude e amanhã veremos.»

Não está escrito nos «livros» da vida que tenhamos de ser permanentemente a nossa melhor versão. A vida seria demasiado injusta se reservasse o seu palco apenas para os melhores. Há lugar também para os hesitantes, os cansados, os que tropeçam e continuam o caminho. Chegaria sermos, na medida do possível, a nossa versão mais humana, aquela que conhece os próprios limites, sabe sorrir das suas imperfeições e, ao fim do dia, se permite sentar um pouco com a vida, sem a obrigação de se aperfeiçoar, deixando que ela siga o seu curso e nós com ela.

Do Direito ao Desgoverno e à Rebeldia!!!

Como exercício de desabituação e em espírito de contradição à propaganda do perfecionismo que nos quer atafegar, segue uma receita

Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.

O oposto do controle não é o caos, mas sim a trégua!

É permitido chorar e não extrair lição alguma do choro.

É permitido levantar-se sem rumo e gastar o dia em órbita.

É permitido ter medo das lembranças e não ter forças para encará-las.

É permitido não rir dos problemas, levá-los a sério, e deixá-los pesar.

É permitido não lutar, recuar e descobrir que a fronteira também é um lugar.

É permitido abandonar tudo por medo porque às vezes o medo é a única voz sensata.

É permitido não transformar sonhos em realidade e deixá-los onde estão, na qualidade de sonhos.

É permitido não demonstrar amor e mesmo assim tê-lo guardado onde ninguém vê.

É permitido que as tuas dúvidas e mau-humor respinguem nos outros, desde que, depois, os limpemos juntos.

É permitido deixar os amigos e, mais tarde, reencontrá-los no silêncio.

É permitido não seres tu mesmo diante das pessoas, porque tu tens vários eus e todos merecem vez.

É permitido fingir que as pessoas não te importam, se a intimidade doer naquele dia.

É permitido ser gentil por puro acaso e não por cálculo de lembrança.

É permitido esquecer aqueles que gostam de ti porque a memória tem os seus esquecimentos justos.

É permitido sentir saudade e não se alegrar, apenas senti-la até que ela passe.

É permitido esquecer os olhos, o sorriso e lembrar-se apenas do que doeu.

É permitido recusar-se a embelezar a dor e assim não transformar a tristeza em currículo.

É permitido não ser herói porque os heróis morrem no final e os habitantes ficam para testemunhar o cotidiano

É permitido não pagar o passado porque o passado já foi pago com o tempo que passou.

É permitido descansar, hesitar, errar e repetir o erro porque são actos políticos de resistência ao produtivismo.

Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

ENTRE SIMBOLOGIA E REALIDADE NA VERDADE DO ENTREMEIO

Toda a linguagem é símbolo. Por ser puramente simbólica, há um abismo interpretativo entre o emitir e o receber da mensagem. O conceito mental gerado prova que o significado não reflete o real, mas reconstrói a realidade de forma subjetiva.
Abre-se assim espaço para debates que, por vezes, se perdem na emoção, fruto do desconhecimento da própria essência da linguagem.
Para que as palavras não se tornem trincheiras, há que ler e ouvir o outro sob múltiplas perspetivas. O humor é o antídoto que evita que o ego leve a sua interpretação tão a sério a ponto de se querer definir contra o outro.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

MERCENÁRIOS NA UCRÂNIA E NA RÚSSIA E SEUS SALÁRIOS, ILUSÃO E A REALIDADE DA CARNE DE CANHÃO

Taxa 15% a 20% de Óbitos e Desaparecidos, 45% a 50% de Baixas médicas e  30% a 35% de Abandono

Os números mais recentes, divulgados pelas autoridades ucranianas em julho de 2026, pintam um retrato eloquente da dimensão internacional do conflito: 16 mil mercenários, oriundos de 72 países, combatem atualmente ao lado dos soldados de Kiev. Deste contingente heterogéneo, cerca de 40% têm origem na América Latina, num fluxo alimentado pela promessa de ganhos fáceis e pela precariedade económica dos seus países de origem. Do outro lado da linha da frente, fontes ucranianas estimam que mais de 18 mil combatentes estrangeiros engrossem as fileiras russas, com um recrutamento que se foca fortemente em cidadãos asiáticos, cubanos e africanos.

No que toca à remuneração, as disparidades salariais entre os dois exércitos são notórias, mas não isentas de armadilhas. Na Ucrânia, o salário base militar ronda os 700 dólares mensais, um valor que sofre um incremento exponencial para os soldados de infantaria destacados na linha da frente, onde a média mensal atinge os 7.000 dólares. Na Rússia, o vencimento base para quem combate pelo Ministério da Defesa é mais elevado à partida, situando-se entre os 2.100 e os 2.500 dólares mensais. Para efeito de comparação, enquanto um operário da construção civil aufere, em média, entre 670 a 810 euros brutos na Rússia, na Ucrânia esse valor ronda os modestos 460 a 480 euros brutos.

A ilusão de obter independência financeira rápida e escapar à crise laboral nos países de origem esbarra, porém, numa taxa de desgaste humano brutal, alimentada pelas táticas modernas de guerra de atrição. De uma forma geral, estes mercenários são tratados como mera carne de canhão, sendo maioritariamente integrados em unidades de assalto de vanguarda, onde a esperança de vida operacional se mede em semanas. As estatísticas internacionais, baseadas em dados oficiais, são aterradoras e revelam a verdadeira natureza do negócio: regista-se uma taxa de 45% a 50% de baixas médicas por ferimentos graves, com amputações ou traumas severos que inviabilizam a conclusão do contrato já antes do terceiro mês de destacamento.

A par disso, a taxa de abandono voluntário atinge os 30% a 35%, ao contrário dos soldados nativos, os estrangeiros beneficiam de cláusulas contratuais que permitem a rescisão unilateral. Cerca de um terço dos recrutas opta por quebrar o vínculo e regressar ao país de origem nas primeiras semanas, vencido pelo choque psicológico da guerra de desgaste e pela quebra de expetativas face à brutalidade da fronte. Por fim, a taxa de óbitos, desaparecidos ou capturados (estes últimos sem direito ao estatuto de prisioneiro de guerra) fixa-se nos 15% a 20%. Uma parte expressiva desta percentagem entra na categoria jurídica de “desaparecido em combate” devido à impossibilidade física de recuperar os corpos em zonas sob intenso fogo ou sob controlo russo.

O resultado deste caldeirão humano é uma Ucrânia cada vez mais dizimada, uma sociedade que se afoga num mar de soldados mutilados e psicologicamente devastados. Este cenário transforma-se num verdadeiro pesadelo para a Europa, que não hesitou em utilizar o território ucraniano como cavalo de Troia para a prossecução dos seus fins estratégicos, servindo de palco para as ambições geopolíticas das grandes potências, designadamente dos EUA e da União Europeia, enquanto a população nativa paga o preço mais alto em sangue e destruição.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

DO EMPENHO QUE NOS FALTA

Europa muralha quando foi chamada a ser mar

O mar não tem muros, mas os homens constroem-nos dentro de si para não descobrirem o rosto por trás da onda.

Há uma imagem que a imprensa europeia repete, como um disco eliminado que lembra a de um mapa, com setas vermelhas a atravessarem o Estreito de Gibraltar, uma mancha densa de corpos anónimos a escalar a cerca de Ceuta. Fala-se em números de pelo menos 50 000, 80 afogados, fala-se em «pressão migratória», em «defesa das fronteiras», mas raramente se fala no que esses braços que nadam procuram, para além da linha imaginária que separa a África da Europa.

Ninguém nada contra as correntes do Mediterrâneo por desporto ou espírito de aventura. A água salgada não é um convite; é um desespero líquido, um último recurso e aqueles jovens carregam nas costas uma história inteira de injustiças, séculos de extração de riqueza, mapas de países traçados por outrem onde os seus recursos naturais e o seu trabalho foram sempre o combustível para o progresso alheio.

Quando Bruxelas ergue o tom e fala em «invasão», comete dois erros fatais porque troca a causa pelo efeito, e a pessoa pela estatística. Mas não se invade aquilo a que se pertence, ainda que por direito de humanidade partilhada. O que vemos não é uma mancha militar, mas o movimento tectónico da pobreza a chocar contra a muralha rica da indiferença.

Por trás da Onda há uma Economia de Exploração e a Atração pelo Abismo

Há uma verdade incómoda que os discursos oficiais evitam: a Europa e os Estados Unidos são os grandes beneficiários de um sistema que mantém o Sul global numa dependência perene. Extraem-se minerais, explora-se a mão de obra, transferem-se lucros e depois, de maneira surpreendente e hipócrita, erguem-se barreiras para impedir que os corpos desses mesmos trabalhadores sigam o caminho do capital.

A solução proposta é quase sempre a mesma: contenção, devolução, dissuasão. Raramente se pergunta: porque é que a Europa é tão atrativa? E a resposta é cruelmente óbvia, porque concentra a riqueza que foi, em boa parte, construída sobre os ombros daqueles que agora batem à porta.

Mas há um caminho alternativo, um caminho de empenho, não de luta. A palavra lutar traz já em si a mecha masculina guerreira. Por isso é melhor falarmos de empenho. Empenho em criar filiais industriais nos países de origem. Empenho em transferir tecnologia e em pagar preços justos pelas matérias-primas. Empenho em reduzir a atratividade da Europa, não a tornando pior, mas tornando o mundo melhor.

Não se trata de uma caridade paternalista nas de inteligência estratégica com rosto humano. Se os jovens da margem sul tiverem escolas, empregos dignos, hospitais e esperança, a travessia mortal deixa de fazer sentido. A pressão migratória não se resolve com arames farpados; resolve-se com estradas, fábricas e universidades. E isto fica mais barato e é mais justo e sobretudo mais eficaz.

O Palco da Guerra é o Sorvedouro que tudo justifica

Enquanto nos debatemos com os 80 afogados de Ceuta, os orçamentos europeus incham com verbas para a defesa. Ouvimos ministros, como o alemão Pistorius, pregar a «preparação para a guerra» com a mesma naturalidade com que outros falam do tempo. O comediante Dieter Hallervorden, com a verdade crua que só a sátira permite, chamou-lhe «ministro da Guerra» e mandou para o inferno quem exige que nos tornemos belicosos. O que disse parece exagerado, mas tem razão e até justifica que é melhor ser covarde durante dois minutos do que estar morto para o resto da vida.

A história, essa velha professora que nunca repetimos, ensina-nos que o rearmamento não é segurança, mas sim uma profecia que se auto-cumpre. Cada euro gasto em tanques é um euro roubado ao bom entendimento, à educação, à saúde, às pensões, ao ambiente e provoca uma espiral de escalada que, como sabemos, desemboca sempre no mesmo lugar o campo de batalha, onde a lógica falha e os factos brutos prevalecem.

E quem paga o preço? Certamente não a pequena elite que, numa eventual crise, emigra para paraísos fiscais ou países neutros. Quem paga são os que ficam, os que não têm para onde fugir, os que dependem do sistema público que se desmorona para financiar a indústria bélica. Os mesmos que, ironicamente, são convocados para odiar o estrangeiro, quando o verdadeiro inimigo, tantas vezes, está dentro de portas e veste fato e gravata.

Uma Elite governante doente contamina a Democracia e o seu Povo

A democracia europeia está doente e não por falta de eleições, mas por falta de escuta. Os governantes, reféns de grandes grupos económicos globais, privilegiam o lucro máximo e imediato em detrimento da justiça social duradoura. Mas se a política se virasse para a solidariedade efetiva, com planos concretos de cooperação, com perdão da dívida, com investimento real nos países mais pobres, o apoio popular seria esmagador. As pessoas comuns não são estúpidas e sabem que a exploração do ser humano e da natureza tem um custo que, mais cedo ou mais tarde, todos pagamos. Observam que gerir a miséria é um negócio cruel e sabem que resolvê-la seria um investimento em paz.

Se os governantes percebessem que o seu poder não está em controlar a orientação mental dos cidadãos através do engano e do medo, mas em alinhar os interesses da nação com os interesses da humanidade, não precisariam de manipular, de dividir ou de guerrear. Um povo que se sente ouvido não precisa de ser vigiado. A guerra, aliás, é o último recurso dos que já não têm argumentos de esperança.

A Modus de Conclusão

O rearmamento é, além do mais, uma catástrofe ecológica. As indústrias bélicas são das mais poluentes do globo. Mas o debate público insiste em separar o ambiente dos mísseis, como se o ar que respirarmos pudesse escolher entre a paz e a guerra.

A verdadeira segurança dos povos não está nas ogivas nucleares, mas na capacidade partilhada de cultivar, de curar, de construir. Não há muro alto que proteja uma ilha de prosperidade rodeada por um oceano de miséria. Esse mar não respeita fronteiras, porque leva corpos, leva sementes, leva poluição e leva histórias.

Por vezes o que parece desordem não é desordem, é apenas a única ordem possível para quem olha o mundo com os olhos abertos e onde a indignação é o princípio da lucidez.

No fundo, o que Ceuta nos mostra não é uma invasão, mas um espelho que reflete um mundo que escolheu a defesa em vez do abraço e o lucro em vez da vida.

O verdadeiro empenho político deveria consagrar-se à paz com a mesma veemência com que se consagra à guerra. Consagrar-se-ia, pois, à educação, não à doutrinação, à produção local contra o dumping global. E então, em vez de se perder a contar os afogados, ouviria, finalmente, o que dizem os que nadam.

A verdadeira vitória não é impedir que cheguem, mas fazer com que não precisem de partir. Que o mar, um dia, sirva apenas para nos unir, nunca para nos sepultar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

O ROSTO PROSÉLITO

(A farsa política moderna dá-se na substituição do rosto pela sigla,
do abraço pelo manifesto, da dúvida pela doutrina
onde mentes brilhantes se imolam numa guerra de ecos,
acreditando que repetir o credo partidário é servir a humanidade,
quando na verdade estão a servir uma caricatura de si mesmos. )

 

Eles levantam-se cedo, de afecto engomado,

e as palavras já vêm no papel timbrado,

ninguém as pariu, ninguém as provou.

São versos de outrem, bordados na pressa,

que a boca repete, mas a alma não tece,

e o rosto, coitado, da fala se esvai.

 

Reúnem-se em salas de luz fluorescente,

erguem-se braços, discursos veementes,

mas cada argumento é um punho fechado

que nunca tocou no suor do operário,

nem viu a criança com fome no lar,

nem sentiu o frio do velho da praça.

 

E o pior, não é a ignorância, não!

é ver o inteligente, o douto, o sagaz,

gastar a ciência a polir a razão

de um credo que sabe, no fundo, falaz.

Amar o próximo? Sim, mas só se o próximo

assinar o papel, jurar a bandeira,

alinhar-se todo ao verso metódico

que a comissão aprova na sexta-feira.

 

E que tristeza ver a inteligência

servir de escudo a uma máscara oca,

quando podia, na simples demência

de ser humano, sentar-se à tua mesa,

olhar-te nos olhos, beber da tua falta,

e esquecer, por um instante, a tese

que a sua própria boca já ensaia e exalta.

 

Porque a luta que diz defender o Homem

esquece-se dele no primeiro minuto:

troca-lhe a face por um nome comum,

troca-lhe a dúvida pelo estatuto,

troca-lhe a carne viva, que sangra e ama,

pelo arquivo morto de um programa.

E a ciência, outrora chama pura,

vira ferramenta de propaganda obscura

ao serviço da casa que a si mesma se inclina.

 

Mas não, meu amigo, não te conformes.

A máscara pesa, mas o rosto persiste.

Por baixo do slogan, do voto, das normas,

há sempre um homem que nunca desiste

de olhar outro homem, sem partido, sem causa,

e lhe estender a mão, não para o converter,

mas para, com ele, na sua pausa,

se lembrar que o político há-de ser

aquele que serve e não o que oprime,

que a sigla se dobre e o humano redima,

que a assembleia se faça onde alguém se estima,

e a verdade comece onde o medo e cálculo não prime.

 

Por isso, ergo este verso contra o esquecimento:

não há revolução que valha um tormento

se o homem que a faz se desfaz em contento

de ser só a sombra do seu partido.

O génio divino que em ti foi nascido

não quer a legenda, quer o corpo inteiro,

quer o “nós” que se faz sem manual ou dinheiro,

quer a política que chora e que sente,

e, em vez de discurso, oferece presente

o simples encontro de dois que se olham,

e sabem que os mundos, por mais que se escolham,

só valem se neles couber o outro

o outro, o teu, o nosso, o humano,

esse inclassificável, eterno, andarilho,

que não cabe em sigla, nem em plano,

e só se revela quando o deixamos ser,

não combatente, mas irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : https://antonio-justo.eu/?p=11268
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578