O DIABO ANDA À SOLTA

A Altitude da Corrupção: As Elites, Epstein e a Derrocada Moral do Ocidente

Vivemos numa era de desnivelamento ético. Enquanto a maioria luta com as realidades terrenas, uma elite global habita uma estratosfera de impunidade, um espaço “acima das nuvens” onde as regras que governam o povo não têm validade. Este distanciamento não é geográfico, mas moral. A condição sine qua non para esta existência etérea é a cogovernação com os oligarcas do poder, do capital, dos media e da cultura, uma simbiose que corrói os alicerces da civilização ocidental e que insista em continuar assim. O caso Epstein não é um desvio; é o sintoma terminal desta derrocada. Ele testemunha o fracasso abissal de uma casta que, sem um povo vigilante que a incomode, se permite tudo, investindo vorazmente na manipulação de consciências e Estados.

Deus é Povo e o Povo está adormecido

Há uma divindade secular negligenciada que se chama povo. Não apenas a sua representação política, falível e frequentemente incorporada, mas também a sua essência coletiva, crítica e moral. Enquanto ações humanas depravadas bradam aos céus, parece que Deus continua a dormir no povo, uma força potencial, mas anestesiada. A moralidade vigente “lá em baixo” não se aplica “lá em cima”, onde a depravação é normalizada sob o verniz do privilégio e um povo despido de si mesmo sempre a olhar para o céu à procura de estrelas. A dimensão do escândalo Epstein é tal que reduz as teorias da conspiração mais audazes a meros eufemismos. As suspeitas são a fumarada inegável de um incêndio moral de proporções civilizacionais.

O Furacão Epstein varre os Telhados e deixa ver o Círculo vicioso do Poder e do Brilho

A partir do momento em que figuras como Donald Trump ascenderam ao poder, uma tempestade de transparência forçada e de reação começou a varrer os altos escalões. O caso Epstein é o tsunami resultante. O seu mundo era o santuário da nata global: ex-presidentes (Clinton, Trump), magnatas (Gates, Musk), estrelas de Hollywood (Woody Allen) e membros da realeza (o Príncipe Andrew, Mette-Marit) e muitos outros da classe. Esta não era uma rede de promiscuidade banal, mas uma economia sombria que fundia altas finanças, política de alto nível e abuso institucionalizado. O mais revelador não é a mera associação, mas a continuidade dos laços mesmo após a condenação de Epstein em 2008. A luz cintilante do glamour servia de cortina de fumo para a mais profunda escuridão. São referidas acusações de pedofilia e tráfico de mulheres mas as evidências são fracas…

A Guerra das Narrativas entre Satânicos e Conspiradores

Neste vácuo ético, proliferam narrativas convenientes. A Rússia, sentindo-se visada pelas origens de algumas vítimas (muitas delas vinham também da Ucrânia!), aponta o dedo às “elites liberais satânicas”, retratando o complexo de Epstein como a falência moral das democracias ocidentais. Do outro lado, a grande imprensa europeia frequentemente minimiza o escândalo, enquadrando-o como uma mera “armadilha” conspiratória para semear desconfiança nas democracias liberais. Ambas as narrativas são úteis: desviam o foco da perversidade sistémica e da responsabilidade individual. Os papéis invertem-se, e os deuses mensageiros da nossa era, os media, como Hermes (o deus Mercúrio), guiam as almas do público num vaivém entre o Olimpo do poder e o submundo do escândalo, sem nunca permitir um julgamento final.

A Psicopatologia do Poder revela a Ponta do Iceberg

Está documentado: uma pequena elite global detém riqueza descomunal, e esse poder molda a psique, corroendo a compreensão das regras comuns. O caso Epstein é apenas a ponta visível de um icebergue de impunidade. Numa época de hiperinformarão e desinformação, cada um escolhe a parte da lógica que lhe convém, e o escândalo arrisca-se a ser soterrado no ruído. As elites protegem os seus interesses; sectores do povo agarram-se a moralidades selectivas; e o mecanismo perverso de entretenimento com escândalos distrai-nos a todos de olhar para o chão que pisamos.

A Guerra de Valores e a Porta para uma nova Era

Esta revelação é também uma arma na guerra de valores entre globalismo e patriotismo. A visão que a apresenta como foco em Trump não é inocente. Vivemos um conflito entre hemisférios cerebrais civilizacionais: um supostamente racionalista e global (esquerdo) e outro identitário e nacional (direito), em vez de uma perspetiva integrada. A pandemia e a guerra na Ucrânia funcionaram como portais para esta nova era de transformação mental e geopolítica. Em Bruxelas, Berlim, Londres ou outras capitais, os detentores do poder comportam-se com uma distância olímpica similar à dos associados de Epstein. Há que esconder a nova vertente do imperialismo que é a vertente do colonialismo mental.

Para onde vais, Humanidade?

A pergunta final é inevitável. Estamos a construir uma sociedade irrefletida, onde a perversidade se torna normalidade na ausência de ética. É o triunfo do ego desvinculado do “nós”. Curiosamente, as elites globalistas conseguem o feito perverso de reunir, nas suas fileiras, o pior do socialismo clientelar e do turbo-capitalismo predatório. Quando a imbecilidade anónima e a gestão técnica substituem a governação ética, os governantes transformam-se em meros administradores da decadência. Nada parece estranho, nada dá que pensar.

O Silêncio Português

E em Portugal? O silêncio da grande Media tradicional é ensurdecedor (1). A discussão vive nas redes sociais, enquanto a imprensa institucional parece adormecida. O caso Casa Pia, mencionado de passagem, nunca foi verdadeiramente esgotado. Este mutismo só pode significar uma coisa: o assunto interessa ou incomoda pessoas com poder também no ecossistema mediático português (o facto de o ser também no regimento de Bruxelas não desculpa!). Neste microcosmo, impera a mesma lei do silêncio que protege os deuses do Olimpo global. Entretanto, Deus continua a dormir no povo. A questão que não se poderá colocar será “quando despertará”?!!!

António da Cunha Duarte

Pegadas do Tempo

(1) Quando o jornalismo (o Público) em ambiente de eleições tem o despropósito de fazer reclame com o “Não há volta a dar. O jornalismo é essencial nas escolhas” constata-se a atitude descarada que ele mesmo reconhece ao reconhecer o poder da manipulação que tem.

Para documentação detalhada sobre EPSTEIN, ver: https://contra-cultura.com/2026/02/03/horror-repulsa-e-revolta-parte-2-o-que-dizem-os-ficheiros-epstein-sobre-a-civilizacao-em-que-vivemos/

BUROCRACIA DA EXISTÊNCIA

Há quem só veja números, prazos vencidos,
E chame “achaques” aos anos vividos.
Querem as ruas limpas de folhas e de história,
A velhice enclausurada, cinzenta, sem glória.
Sonham com botões de silêncio programado,
No corpo do outro, já por eles assinado.

O Homem, não é coisa, não é número, nem é prazo
Não é processo em pasta de arquivo.
Nem o Incómodo, o Frágil, a Moléstia
Podem ser anexos que atrasam o sistema,
Como quer a branda política da peste
Que higieniza o humano à força de dilema.

Mas a Vida, essa árvore de raiz profunda,
Não cabe nos seus gráficos de segunda.
Arde em febre, em paixão, em ira contida,
Luta corpo e alma, numa última guarida.
E mesmo o tronco fendido, de casca gretada,
Guarda mais humanidade que a sua jornada.

Por isso, escritores, levantem o punho e a pena,
Uma defende a alma, a outra sustém a arena.
Contra a lógica gelada do descarte humano,
Seja o verso um murro, seja o murro um desengano.
Lançai estrofes com fervor e espanto:
Aqui jaz a vossa frieza, oh, gente!
Sobre o calor do nosso sacro canto!”
António CD Justo

Pegadas do Tempo

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO E REFLEXÃO CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS

27 milhões de vítimas à espera de resposta

 

Este dia Mundial foi instituído pelo Papa Francisco na festa de Santa Josefina Bakhita, a escrava sudanesa que se tornou símbolo universal da liberdade e da dignidade resgatada. Este dia serve como apelo global contra uma das chagas mais brutais da modernidade.

A história de Bakhita é uma estrela que ilumina esta jornada. Raptada e escravizada ainda criança, percorreu os horrores da desumanização. No entanto, como ela própria testemunhou, encontrou no final da sua provação não apenas a liberdade física, mas a liberdade plena do encontro com Cristo, tornando-se religiosa. A sua vida é um grande testemunho de como a dignidade humana, por mais pisada que seja, é indestrutível e pode resplandecer.

Contudo, a realidade atual mostra que o pesadelo que Bakhita viveu está longe de ser um capítulo fechado da história. Segundo os mais recentes dados das Nações Unidas, cerca de 27 milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas do tráfico para exploração sexual, trabalho forçado, mendicidade ou tráfico de órgãos. As principais vítimas continuam a ser mulheres, crianças, migrantes e populações deslocadas, os mais vulneráveis entre os vulneráveis.

Neste contexto, ressoa com atualidade a exortação do Papa Leão XIII, neste dia: “A verdadeira paz começa com o reconhecimento e a proteção da dignidade que Deus deu a cada pessoa”. Não haverá paz social nem justiça autêntica enquanto seres humanos forem reduzidos a mercadoria, números num negócio lucrativo e ilegal.

A pergunta final, aflitiva, permanece: “Quando deixará o homem de ser lobo do homem?” Este dia é ao mesmo tempo uma lembrança de que a resposta começa em cada um de nós, na recusa a ser cúmplice pelo silêncio e na coragem de defender, com fervor, a sacralidade inviolável de cada vida humana.

António da Cunha Duarte Justo

Pegada do Tempo

QUANDO SE JUNTA A ESQUERDA E A DIREITA EM LUTA CONTRA A POBREZA?

No coração da sociedade lateja a úlcera de uma pobreza que contesta a democracia portuguesa

A pobreza em Portugal não é uma estatística passageira. É uma chaga persistente, uma fronteira invisível que divide o país ao meio e corrói, dia após dia, o coração da nossa democracia. Em 2025, cerca de 1,995 milhões de portugueses encontravam-se em risco de pobreza ou exclusão social, o que corresponde a 18,6% da população, menos 1,1 pontos percentuais do que no ano anterior. A taxa de privação material e social desceu para 10,2%, embora quase três em cada dez pessoas continuem sem capacidade para suportar uma despesa inesperada, enfrentando a angústia diária de não conseguir viver com dignidade.

Os rostos desta emergência expressam-se sobretudo nas crianças que crescem em agregados familiares onde por vezes menos de 422 euros têm de chegar para um mês inteiro; são os idosos, com 23,8% dos maiores de 65 anos em risco; são as mulheres, que representam 56% das pessoas em situação de pobreza. São, ainda, os trabalhadores pobres, um dado que desmonta um dos pilares da nossa convicção social: quase metade (49,3%) dos adultos pobres estão empregados, mas o trabalho, afinal, já não garante, por si só, a libertação da miséria. O limiar de Pobreza (2025) é quem vive com menos de 632€/mês (ou cerca de 700€ segundo outras fontes baseadas em 2025).

A Prosperidade Ilusória e a Conta no Fim do Mês

Portugal ocupa o 26.º lugar em prosperidade na Europa. Para se viver com tranquilidade, estima-se que seja necessário um salário entre 2.500 e 3.000 euros líquidos. A realidade, porém, pinta um quadro diferente: as despesas médias familiares rondam os 2.900 euros, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer. É uma matemática do aperto, onde qualquer imprevisto se transforma em crise. (Naturalmente nas médias têm muito peso tanto os ordenados como os gastos das populações com estatuto económico mais relevante).

A taxa de pobreza entre os desempregados é de 42,6%, um número que fala por si. Mas o que verdadeiramente deve alarmar-nos é a normalização da precariedade entre quem trabalha e a solidão económica na velhice, após uma vida de descontos.

A Paralisia Perante um Problema Solucionável

Enquanto isto, a política parece navegar à superfície, incapaz de travar o aprofundamento do abismo que separa ricos e pobres, não só em Portugal, mas globalmente. A distribuição de riqueza mundial é uma fotografia da injustiça: 1,6% da população detém quase 48% da riqueza global, enquanto os 40% mais pobres partilham 0,6%. Esta desigualdade, que condena milhares de milhões à insegurança alimentar, não é um fenómeno distante. É o sistema económico no qual estamos todos inseridos e do qual Portugal não está imune.

Há, pois, uma contradição democrática gritante. Proclama-se que a terra e os seus frutos são para todos, mas constrói-se uma sociedade onde a escadaria social tem degraus partidos. Chega-se a ter a impressão que em política cada um trata apenas da “sua vidinha”, preso a ciclos eleitorais curtos e a debates estéreis? Não se pede uma equalização forçada e irrealista de todas as condições. Pede-se honra, coerência e coragem de Portugal longe das contendas entre as potências deixar de contribuir para guerras geopolíticas resultantes da ganância das potências. Pede-se uma política que coloque no centro a dignidade humana inegociável e crie, como prioridade absoluta, uma plataforma mínima de vida digna para todos: em habitação, em alimentação, em saúde, em educação.

O Apelo da “Guerra Santa”: Unir o que a Pobreza Divide

Por isso, a pergunta que se impõe não é partidária, é civilizacional: Quando é que a esquerda e a direita se juntam numa verdadeira “guerra santa” contra a pobreza? Uma guerra que não seja de palavras, mas de ações concretas; que mobilize recursos com a mesma determinação com que se mobilizam para outras crises; que una o país em torno do único objetivo que verdadeiramente o pode nobilitar: erradicar a humilhação da necessidade.

Esta não é uma guerra de ideologias, é uma guerra de humanidade. Enquanto houver uma criança a crescer privada do essencial, um reformado a escolher entre comida e medicamentos, ou um trabalhador a ver o seu ordenado evaporar-se antes do fim do mês, o projeto democrático estará inacabado. A pobreza é o inimigo comum. Estará a nossa política à altura de declarar-lhe guerra, finalmente?

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1)    https://ffms.pt/pt-pt/estudos/pobreza-e-desigualdade-estao-diminuir

https://pessoas2030.gov.pt/2026/01/16/risco-de-pobreza-em-portugal-atinge-em-2024-o-valor-mais-baixo-dos-ultimos-20-anos/

https://on.eapn.pt/produtos/relatorios/

O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de  11% de desconto para a Segurança Social .

Limiar de Pobreza: Em 2024, este limiar fixou-se em 723 euros mensais por adulto. : Cerca de 9% da população empregada continua em situação de pobreza, .Açores, Alentejo e Oeste/Vale do Tejo registam taxas de pobreza superiores a 17%

Taxa de Risco de Pobreza: Atingiu 15,4% da população em 2024 (dados revelados no final de 2025), indicando uma redução.

CARTAZES FORA DAS ÁRVORES

Na minha cidade é caso pensado,
Não cobre a folhagem o papel colado.
Não por respeito à Democracia,
Nem à vontade que à urna guia.

É só respeito, singular razão!
À vertical, silente declaração
Da árvore antiga, de raiz segura,
Mais pura que qualquer candidatura.

Prendem os rostos, as promessas feitas,
Às lanternas, aos postes das avenidas,
Onde a luz pública, fria, dá respostas
Às frases gastas, às propostas batidas.

E assim a cidade, no seu jeito rude,
Mostra um decoro de estranha virtude:
As árvores livres, intactas nos troncos,
Os homens, presos em seus próprios concursos.

E vemos, nós, nesta opção bizarra,
Que a política é questão de casca (sem moral),
E o respeito, quando à árvore se vota,
É porque a outra raiz já está rota.

Assim caminha a urbe, nesta dança:
A política busca a semelhança
Do poste liso, da coluna vazia…
Pois a árvore tem outra genealogia.

E no outono, quando caem as folhas,
Não arrastam votos nem siglas enroscadas.
Caem em silêncio, leves, naturais,
Enquanto os cartazes, nos ferros metálicos,
Gritam ao vento seus mundos esquecidos.

António CD Justo

Pegadas do Tempo