Há um número que me ocupa:
Dois milhões de carentes em terra lusa
a viver sob o fio da navalha.
Isto não é estatística, é um grito de ausências,
uma planta de barracas na alma da cidade.
Sinto, em ondas sucessivas,
o grande mar da pobreza invadir-me o espírito,
salgar de impotência cada respiração.
Dizem que existe um peso de ouro
que traça a fronteira final
entre a pessoa e a coisa (1).
Aquém dele, o mundo desaba em objecto.
E há um outro peso, menor (2),
que se renova com cada lua:
é a medida mensal do humano,
o limiar abaixo do qual
a vida perde o seu nome
e só a sombra gatinha.
Eu leio os relatórios frios,
os gráficos que sobem como paredes de sepultura,
e em mim cresce um verme,
um verme existencial que rói o alicerce
da fé na democracia.
Pergunto ao vento, que a todos toca por igual:
Como esperar brandura de uma balança
Onde um prato, leve como uma pena (3),
Pesa mais que o suspiro de milhões?
Onde mãos tão poucas seguram a espiga inteira,
onde o trabalho já não liberta,
mas condena à miséria disfarçada?
Vejo a política, esquerda e direita (4),
a discutir a margem do rio
enquanto milhões de seres humanos
se afogam no centro da corrente.
Sinto a solidão da criança, na barraca dos números,
a reforma que não chega ao fim do mês,
a mulher em que a dor coletiva mais toca.
E pergunto, na minha cela de homem confortável e atormentado:
Somos, de facto, lobos uns dos outros?
Fomos nós que desenhámos esta linha,
esta grande fronteira que divide os povos em dois:
os que têm, e os que são o terço ausente da própria vida?
Há uma inércia nos sistemas, um peso morto,
que faz da compaixão um discurso vazio
da misericórdia um luxo teórico
e do bem-comum um negócio político.
E eu, aqui, com as ondas deste mar dentro de mim,
não consigo mais distinguir
a minha tristeza da tristeza do mundo.
Que fazer com este fogo que não aquece,
com esta consciência que não levanta paredes,
mas as derruba sobre o próprio peito?
Escrevo então e grito em versos a náusea geral.
Faço da poesia a trincheira frágil
onde planto a pergunta que não cala:
Quando declararemos, juntos,
a única guerra santa digna do nome,
não contra um povo, não por uma visão de mundo,
mas contra a fria, persistente, intolerável
normalização da falta?
Talvez o verme que me corrói
seja a semente de algo que ainda não nasceu.
Talvez a dor que partilho neste papel
seja com a tua uma pedra de uma ponte.
Uma ponte feita não de cimento, mas de olhares,
não de decretos, mas de braços por fim arregaçados.
Se estas palavras te tocam,
é porque a ferida é uma só.
E a cura, se é que há cura,
começa no reconhecimento
silencioso e devastador
de que nenhum de nós é livre
enquanto um de nós viver
na sombra da injustiça.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©:
(1) As despesas médias familiares em Portugal rondam os 2.900, mas milhões sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do país onde calhou nascer. O limite para se poder viver seriam 1.378€
(2) Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.
(3) A nível mundial a tragédia ainda é pior! Cerca de 1,6% da população mundial possui quase 48% da riqueza global, enquanto mais de 40% da população detém apenas 0,6%. Os 10% mais ricos possuem cerca de 76-85% da riqueza. A maior parte da humanidade (quase 70%) possui menos de 8.400 a 8.500 euros (10 000 dólares americanos). Os 10% mais ricos possuem cerca de 76% da riqueza total. A maior parte da população mundial (quase 70%) possui menos de 8.400 euros.
(4) O risco de pobreza ou exclusão social em Portugal atingiu 19,7% em 2024, abrangendo cerca de 2,1 milhões de pessoas com destaque para a pobreza infantil e idosos, além de 49,3% dos adultos pobres estarem empregados pelo que o trabalho não garante rendimento digno.
Pobreza Infantil ainda se herda: 40% das crianças pobres vivem em agregados com rendimentos extremamente baixos (inferiores a 422€/mês), concentrando-se nas grandes áreas metropolitanas. Pobreza Monetária: Cerca de 1,76 milhões de pessoas vivem com menos de 632€ por mês.
As mulheres são as mais afectadas, isto é,56% em situação de pobreza são mulheres.
O salário mínimo nacional em Portugal em 2026, é 920€ brutos mensais ou seja 818,80€ depois de 11% de desconto para a Segurança Social .