NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ

Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma “transição turbulentíssima” que vai deixar rastos indeléveis na história.

O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.

A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.

Isto vai mudar tudo. Ou será “o maior equalizador” ou “a pior fonte de injustiça”. O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.

Aqui, as palavras diretas de Bill Gates sem filtros:

“Raramente deixo de pensar na IA, não porque tenha todas as respostas, mas porque as questões que ela levanta são demasiado importantes para serem deixadas apenas a um pequeno grupo de tecnólogos.”

“A transição para a Inteligência Artificial vai ser um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade.”

“Neste momento, não nos estamos a preparar adequadamente para essa transição.”

“As pessoas que mais precisam de tempo são as que menos têm – o contabilista que é substituído por um robot ou o trabalhador que ganha 20 dólares por hora e perde o emprego para um robot que ganha 10 dólares por hora.”

“Estou particularmente preocupado com os jovens, que entrarão num mercado de trabalho com menos vagas para principiantes.”

“Os incentivos geopolíticos e económicos são muito fortes para que se avance a toda a velocidade.”

“Acredito que deveríamos tributar os tokens de IA e os robots. […] O sistema fiscal incentiva a substituição de pessoas por máquinas.”

“Será o maior equalizador alguma vez inventado ou a pior fonte de injustiça.”

Diz também: “Fiquei fascinado pela encíclica do Papa Leão XIV sobre a IA, “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial”. Estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa de ser feito”

Encontramo-nos, na verdade,  numa “época axial” da História termo usado pelo filósofo Karl Jaspers em 1949 referindo-se ao período de grande transformação cultural e espiritual na história humana.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Ontem (26.08.2026), a Tek Notícias (Sapo) trouxe este alerta sério de Bill Gates (1) citando um ensaio de Bill Gates onde O bilionário e co-fundador da Microsoft acaba de publicar um ensaio onde avisa que é preciso um plano para a utilização da Inteligência Artificial que possa garantir que “o bem ultrapassa o mal”. https://tek.sapo.pt/noticias/computadores/artigos/bill-gates-faz-soar-o-alarme-em-relacao-a-inteligencia-artificial-e-diz-que-nao-nos-estamos-a-preparar-para-as-mudancas/

FÁBULA DA ERVA DO PRADO

Havia, numa várzea fértil, um prado verde onde cresciam ervas tenras, regadas pelas chuvas e aquecidas pelo sol. Ali viviam também dois elefantes enormes e poderosos (1).

Um dia, os dois elefantes zangaram-se por causa de território e travaram uma luta feroz. Pisaram o prado de um lado ao outro, arrancaram raízes, partiram caules, e onde antes havia verde, ficou lama e destruição.

Passado algum tempo, os mesmos elefantes fizeram as pazes, e sentindo-se atraídos um pelo outro, aproximaram-se para se acasalarem. E de novo, no seu jogo pesado e no seu abraço descomunal, voltaram a calcar o mesmo chão, esmagando o que a erva tinha conseguido, entretanto, renascer.

A pequena erva, que nada tinha a ver com as brigas nem com os amores dos gigantes, olhou para o céu e perguntou baixinho:

“Porque sofro eu, Senhor, sempre que eles se movem, seja em guerra ou em amor?”

E uma voz suave, como a brisa entre as folhas, respondeu-lhe:

“Não é por seres culpada, pequena erva. É porque és humilde e estás sob os pés dos grandes. Mas não temas porque onde eles passam, tu renasces sempre. A tua força não está no tamanho, está na tua capacidade de recomeçar, verde, depois de cada pisadela”.

E acrescentou ainda:

“Mas ouve bem, ervinha, mesmo que sejas pisada, não te vergues por completo, nem penses que a culpa é tua. Este solo não pertence só aos elefantes, é de todos os que nele vivem, grandes e pequenos. A maldade não está em ti, que apenas queres crescer em paz; está naqueles que caminham sobre a terra sem cuidado, sem olhar por onde pisam nem por quem esmagam. Ergue-te sempre que puderes, ervinha minha, porque também tu tens direito a este solo. E que os grandes aprendam, um dia, a caminhar com mais respeito por aqueles que , em silêncio, sustentam toda a vida do prado.”

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Um dito popular lusitano diz: “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão” e um dito esloveno lamenta: “Não importa se os elefantes lutam entre si ou se se acasalam, é sempre a relva que sofre”

O MAR DE LUZES DA BRANCA

Entre a Quinta Outeiro da Luz, Aveiro, a Barra e Espinho, a luz estende o nosso olhar e convida-nos a permanecer em cada mirada, a vir e sempre de novo voltar, para manter no coração aquela luz que nos faz brilhar.

Quando em São Julião, na Branca, o sol rubro se vai deitar,
um derradeiro brilho rasga o horizonte aberto sobre o mar.
Mal cessa a bênção do dia e a sombra desce em modo devagar,
da encosta, em suave romaria, um rio de luzes corre para o mar.

Primeiro uma, depois outra se acende e a noite faz da terra outro céu;
cada luz que ao longe resplende guarda uma vida por detrás do véu.
Ali dormem sombras, amor e dor, romances sob o mesmo teto;
cada casa tem seu fulgor, seu fado, seu sonho mais secreto.

Somos todos filhos da Luz, misteriosos no voo estelar;
atrás dela vamos, pequeninos, como quem procura onde ficar.
Pois toda a luz que lá fora arde tem sua nascente no nosso peito;
como o vulcão que se fez terra e tarde e no pirilampo renasce perfeito.

Da Quinta Outeiro da Luz, ao fim do dia, o olhar se estende até ao mar;
o Sol despede-se sobre a ria como quem parte e promete voltar.
A Terra repousa, horizontal, serena, entregue à paz do entardecer;
e cada luz que no horizonte acena parece alguém que voltamos a ver.

E nós, do alto, em silêncio, a olhar, não sabemos quem chora ou quem sorri;
mas cada luz, a caminho do mar, traz-nos alguém que já passou por aqui.
Decerto um rosto, talvez um amigo, uma voz que o tempo não levou;
alguém que já não caminha comigo, mas dentro de mim a luz guardou.

Então já não vemos só a paisagem, mas vidas acesas na amplidão:
pequenas luzes na breve viagem que o tempo recolhe no coração.
O Farol da Barra acena ao Mar, a ria de Aveiro alonga o seu brilho capuz;
e Outeiro da Luz fica, em silêncio, a olhar a noite acender-se luz após luz.

Então compreendemos, sem saber porquê, que há luzes que o tempo não desfaz:
ficam em nós, mesmo quando não se vê quem as acendeu e ficou para trás.
E quando a última claridade se desfaz e a noite abraça a ria e o mar profundo,
a luz apaga-se no céu, em paz, para se acender em nós e no mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :  https://antonio-justo.eu/?p=11346
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

TRÍPTICO – DO ESTRUME À FLOR

A ARGAMASSA

Mistura-se o cimento da tristeza
com a cal viva da alegria que adivinha,
e desta pasta espessa, quase lama,
ergue-se a casa que não tem dono.

Andamos no lodo, mas é desse barro
que a mãe faz o regaço onde nos deitamos,
e o padrasto, a lei, a governação,
põe o telhado e cobra-nos o sol.

Que o estrume que cada um carrega,
esse peso mole de dias roídos,
de sonhos apodrecidos na gaveta,
seja o adubo da flor que há-de vir.
Não para enfeitar, mas para ser comida
por quem passa sem mesa nem abrigo.

 

A OFICINA E A ESTRADA

Lá fora, cordeiros pastam o medo.
Lobos de gravata cerram o cerco.
Monstros psicopatas, de olhar de vidro,
traficam a alma na esquina da lei.

Hordas de profissões, todas a ganhar a vida,
servem agendas que não escreveram,
engrenagens de um modelo que devora
os próprios dentes da concorrência.

Mas de madrugada, quando o sono é mais fundo,
os varredores de rua iniciam o dia.
E nas oficinas de reparação da sociedade,
psicólogos, assistentes, médicos, enfermeiros,
suturam feridas que ninguém vê,
remendam a casa que nunca foi sua.
Uns constroem, outros consertam,
mas a casa é de todos e de ninguém,
passagem, pouso, cais provisório.

Não tema a miragem que o sol desenha,

que a sede ensina aonde fica a fonte.

O deserto é vasto, mas a mão que acena

é a mesma que constrói a ponte.

 

O RIO E AS JANELAS

Ao lado da casa, que milagre!
corre um rio vivo e honesto.
Não negocia, não pede licença.
É a solidariedade que não cabe em gráficos,
a bondade que flui sem fatura
e alimenta as fundações da casa.

Das janelas, avistam-se os cenários:
gente má, fruto da miséria humana,
que manda sobre a miséria humana,
onde tudo parece abandonado ao seu destino
como um barco sem remo na noite.

Mas a flor nasce do estrume.
O fruto acena no ramo.
E quem passa colhe sem saber
que aquele sabor a terra e a lágrima
é a argamassa de todas as casas,
é o rio que corre, é a janela aberta.

E se a casa não pertence a ninguém,
que nela habitem os que a constroem,
que a reparem os que a veem ruir,
que a regue o rio dos que dão sem pedir,
e que do estrume de cada um
brote, ao menos, uma flor comestível
para o próximo que passa.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Dos tempos de estudante em Lisboa,
no cais da argamassa viva