O CAVALO DE TROIA DE BRUXELAS

O Golpe de Mestre (Já que deputados estão de férias)

Há um velho truque nos manuais de política suja: se queres fazer passar uma coisa que ninguém quer, fá-la quando ninguém está a olhar. Se queres aprovar uma lei controversa, submete-a a votação na véspera das férias de verão, quando metade dos deputados já tem o bilhete de avião na mão e a outra metade está a fazer as malas.

Foi precisamente isso que aconteceu esta semana em Estrasburgo. O Chat Control, o monstro legislativo que permite às grandes empresas tecnológicas escrutinar as nossas mensagens privadas, e-mails e chats em busca de qualquer coisa que os algoritmos considerem suspeita, estava morto e enterrado. O Parlamento Europeu já o tinha rejeitado em março, com uma maioria clara. Tinha dito não. Tinha sido categórico.

Mas a burocracia de Bruxelas, essa velha cobra de múltiplas cabeças, não aceita um “não” como resposta, especialmente quando o “não” vem de quem elegeu para nos representar.

Numa manobra processual que os próprios deputados descrevem como “sem precedentes”, o Grupo do Partido Popular Europeu (PPE), com o apoio crucial dos Socialistas e Democratas (S&D), conseguiu reabrir o dossiê. Como? Através de um requerimento de urgência, aprovado por uma margem de 331 votos a favor contra 304.

Pausa para um momento de reflexão: 331 votos a favor, 304 contra, 11 abstenções e 74 eurodeputados ausentes. Ou seja, a manobra que reabriu as portas ao Chat Control foi aprovada por uma minoria de deputados — menos de metade dos 720 que compõem o Parlamento. Mas, no mundo maravilhoso da política europeia, isso é suficiente. Porque as regras, essas, podem ser moldadas conforme a conveniência do momento.

A Armadilha perfeita ao mudar as regras a meio do jogo

Agora, vejamos a genialidade da jogada.

Ao forçar a aprovação do regime de urgência, os defensores da medida alteraram drasticamente as regras do jogo. O dossiê encontra-se agora em segunda leitura. O que significa isto, em linguagem menos técnica?

Significa que, para rejeitar ou alterar a proposta na votação de quinta-feira, 9 de julho, os opositores precisam de uma maioria absoluta de todos os 720 deputados, ou seja, 361 votos. Se não atingirem esse número, a lei é automaticamente considerada adotada, sem necessidade de consentimento do Parlamento.

Reparem na beleza maquiavélica do mecanismo: para que a vigilância em massa seja reinstaurada, basta que os deputados não consigam reunir 361 votos contra. Com grande parte dos parlamentares já em trânsito para as férias, as hipóteses de bloqueio tornam-se escassas.

Os votos favoráveis à vigilância? Esses só precisam de uma maioria simples entre os deputados presentes fisicamente na sala. E como a sala estará meio vazia, a tarefa fica mais fácil.

Chama-se a isto democracia? Talvez numa definição muito criativa do termo, mas na verdade na definição clássica, chama-se golpe baixo.

A Hipocrisia em Estado puro numa plutocracia que se deseja instalada em Bruxelas

Agora, permitam-me um momento de franqueza e de sarcasmo, que o tema bem o merece.

Bruxelas gosta de se apresentar como a grande defensora da democracia, dos direitos humanos, da privacidade dos cidadãos. Gosta de apontar o dedo à Rússia, à China, a todos os que “se emanciparam do seu domínio mental e económico”. Gosta de posar de paladina da liberdade.

Mas, ao mesmo tempo, cria ferramentas para ler as nossas mensagens privadas. Ao mesmo tempo, força as plataformas digitais a escrutinar todas as nossas comunicações, sem suspeita prévia, sem mandato judicial, sem qualquer controlo. Ao mesmo tempo, constrói um aparelho de vigilância que faria corar de inveja qualquer regime autoritário.

A hipocrisia é tão grossa que quase se pode cortar à faca.

“É para proteger as crianças”, dizem e justificam, “É para combater o abuso sexual online”. E quem ousa opor-se é imediatamente acusado de ser conivente com a pedofilia. Uma tática velha como o mundo: invocar a proteção dos mais vulneráveis para justificar a violação dos direitos de todos.

Mas a verdade, essa coisa incómoda, que tanto incomoda os burocratas de Bruxelas, é que o Chat Control não é sobre proteger crianças. É sobre poder, e assim poderem criar um sistema de vigilância em massa que permite às grandes empresas tecnológicas e, por extensão, aos Estados que as controlam, escrutinar a vida privada de cada cidadão europeu.

O que está em jogo não é a luta contra a pedopornografia. Essa é um dever moral e jurídico sobre o qual nenhuma pessoa razoável pode ter dúvidas. O que está em jogo é o paradigma: vamos mesmo entregar às grandes plataformas privadas o poder de analisar as nossas comunicações?

Vamos mesmo aceitar que uma fotografia do nosso filho na praia, um gesto de afeto, um momento familiar, seja escrutinada por algoritmos, comparada com bases de dados, analisada em imagens e meta-dados, antes de ser considerada permitida?

Porque o sistema, para encontrar meia dúzia de imagens criminais, tem de examinar milhões de fotografias perfeitamente legítimas. Essa é a lógica do terror: sacrificar a privacidade de todos em nome da segurança de alguns.

A Vergonha dos que dizem sim

E depois há os deputados. Os que votaram a favor. Os que, na terça-feira, aprovaram o regime de urgência e, na quinta-feira, votarão a favor, ou se ausentarão, dando o seu voto tácito à vigilância.

Em nome da “defesa da democracia”, enterramna viva.

Porque é isso que está em causa. Não é uma simples questão técnica, nem é uma questão de procedimento parlamentar, é sim uma questão de princípio.

O Parlamento Europeu já tinha dito não ao Chat Control em março. Já tinha rejeitado o prolongamento desta norma. Já tinha afirmado, com clareza, que a vigilância em massa das comunicações privadas é inaceitável numa democracia.

Mas a Comissão Europeia, essa mãe-pátria dos burocratas, não aceitou o não. Quatro comissários enviaram uma carta aos deputados a alertar para o “vazio legal”. A presidente do Parlamento, Roberta Metsola, interveio pessoalmente para reabrir o processo. O Conselho adotou a proposta inicial da Comissão como sua posição.

E os deputados — os mesmos que foram eleitos para nos representar, para defender os nossos direitos, para garantir que o poder não nos esmaga — curvaram-se. Aceitaram a manobra. Dançaram conforme a música.

A pergunta que não quer calar será “para serve a democracia se os seus representantes se tornam cúmplices da sua erosão?”

A Profecia que ninguém quer ouvir

Lembram-se de Laocoonte? O sacerdote troiano que viu o cavalo de madeira, lançou uma lança contra o seu ventre, ouviu o som oco e metálico, e gritou “Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes”?

Laocoonte estava certo. Tinha a prova física e tinha o som. Bastava ouvir.

Mas a multidão, exausta de dez anos de guerra, preferiu acreditar na mentira confortável. Preferiu o silêncio à verdade. Preferiu o cavalo à muralha. E, naquela noite, Troia ardeu.

O Cavalo de Troia de Bruxelas chama-se Chat Control. Os gregos chamam-se Comissão Europeia, Conselho e grandes grupos partidários que se aliaram para forçar a vigilância. O sacerdote que grita a verdade são os ativistas, os especialistas em privacidade, os deputados que votaram contra e que, na quinta-feira, tentarão reunir os 361 votos necessários para travar a medida.

A pergunta é: quem vai ouvir? Ou vamos, mais uma vez, preferir a mentira confortável à verdade incómoda?

Porque é confortável acreditar que o Chat Control é “para proteger as crianças”. É confortável pensar que “não tenho nada a esconder”. É confortável delegar a responsabilidade nos algoritmos, nas plataformas, nos burocratas que sabem o que é melhor para nós.

Mas a história, essa velha professora de lições amargas, ensina-nos que o conforto é o prelúdio da servidão.

Por que é que isto importa

A votação de quinta-feira, 9 de julho, é decisiva. Se os 74 deputados que estiveram ausentes na terça-feira regressarem e votarem contra, ainda há esperança. Se não regressarem, ou se votarem a favor, o Chat Control 1.0 será reinstaurado.

E o que é que isso significa, concretamente?

Significa que as plataformas digitais, WhatsApp, Signal, Messenger, Google, Meta, Microsoft, terão luz verde para analisar as vossas mensagens privadas. Significa que os vossos e-mails, as vossas fotos, os vossos chats mais íntimos serão escrutinados por algoritmos, sem qualquer suspeita prévia, sem qualquer controlo judicial. Significa que a encriptação de ponta a ponta, essa barreira que protege a nossa privacidade, será sistematicamente violada.

Significa, em suma, que o direito à privacidade — consagrado na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia — será atropelado em nome da “segurança”.

E o mais irónico, o mais profundamente cínico de tudo, é que esta medida é apresentada como “voluntária”. As plataformas “podem” aderir. Mas, na prática, quem não aderir será excluído do mercado europeu. Quem não escrutinar as mensagens dos seus utilizadores será considerado conivente com o crime.

É a velha lógica do “ou aceitas ou desapareces”. É a chantagem travestida de legislação.

Rir para não chorar

Há, no entanto, uma coisa que os burocratas de Bruxelas não conseguem controlar: o humor. Essa velha ferramenta de resistência dos povos oprimidos. Essa porta entreaberta no sistema, por onde a luz do sarcasmo se derrama como o dourado do sol sobre a paisagem sombria ao entardecer.

Porque, no fundo, há qualquer coisa de profundamente cómico nesta pantomina.

Vejamos: a União Europeia, que se apresenta como a grande defensora da democracia, usa manobras processuais dignas de uma ditadura de bananeira para aprovar uma lei que ninguém quer. O Parlamento Europeu, que deveria ser a voz dos cidadãos, transforma-se num clube de cúmplices que votam a favor da vigilância enquanto os seus colegas estão de férias. A Comissão Europeia, que gosta de pregar lições de moral ao mundo, cria ferramentas para ler as nossas mensagens privadas.

É como se um bêbado, cambaleando, gritasse “eu sou o guardião da sobriedade!” enquanto derruba todas as garrafas à sua volta.

Rimos. Claro que rimos. Porque rir é a única forma de não enlouquecer. Rimos da hipocrisia, da falta de vergonha, do atrevimento de quem constrói o seu poderio em nome da democracia enquanto a enterra viva. Rimos dos deputados que, na quinta-feira, votarão a favor ou se ausentarão, dando o seu voto tácito à vigilância. Rimos de nós mesmos, que continuamos a acreditar que os nossos representantes nos representam.

Rimos, e o riso ecoa pelo corredor vazio do Parlamento Europeu, onde os bancos estão meio vazios e a democracia, essa velha senhora de olhos cansados, suspira e fecha os olhos.

Ainda haverá Esperança

Mas o riso não é resignação. O humor não é desistência, é o dourado do sol sobre a paisagem sombria ao entardecer. É a luz que nos lembra que, mesmo na mais escura noite, o sol voltará a nascer.

E há ainda esperança.

A votação de quinta-feira ainda pode ser travada. Os 74 deputados que estiveram ausentes podem regressar. Os que votaram a favor do regime de urgência podem, na votação final, mudar de posição. A pressão pública pode fazer a diferença.

O que é preciso é que os cidadãos se façam ouvir. Que contactem os seus eurodeputados. Que lhes lembrem que foram eleitos para nos representar, não para nos vigiar. Que lhes digam, alto e claro, que a privacidade não é um luxo, é um direito.

Porque, no fundo, a questão não é se temos algo a esconder. A questão é se queremos viver numa sociedade onde tudo o que dizemos, tudo o que escrevemos, tudo o que partilhamos é escrutinado por algoritmos que ninguém controla.

A questão é se queremos ser cidadãos ou súbditos. Pessoas ou funções. Homens livres ou escravos de um sistema que nos reduz a meros objetos funcionais.

Aforismo final

Vivemos de reflexos, de ecos de nós mesmos e do eco ampliado na sociedade — um jogo de câmaras onde a imagem original se perde na repetição. A democracia, essa velha senhora de olhos cansados, vê o seu rosto desfigurado nos espelhos de Bruxelas, onde cada reflexo é uma promessa e cada promessa, um engodo. Mas nesse salão de espelhos, resta sempre uma porta aberta: o humor, que não desfaz o engano, mas o tempera com a luz dourada do crepúsculo, lembrando-nos que, mesmo na mais sombria paisagem, o sol se põe para que possamos, ao menos, rir da nossa própria sombra.

E, rindo, lembrar que a sombra não é a realidade. Que o eco não é a voz. Que o reflexo não é o rosto. E que, enquanto houver quem grite a verdade, mesmo que o grito seja apenas um sussurro, um glitch, um ruído branco de alta frequência, haverá esperança.

Porque a esperança, essa velha companheira dos povos oprimidos, não é acreditar que a mentira vai desaparecer. É saber que a verdade, mesmo silenciada, continua a ecoar no ventre oco do cavalo. E que, um dia, alguém ouvirá.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

PORTUGAL NO TABULEIRO DA GUERRA OU NO PALCO DA LUSOFONIA?

No grande teatro da geopolítica europeia, Portugal descobriu uma vocação helénica que se concretiza no sacrifício em nome dos deuses do Norte. Com um orgulho que quase faz esquecer as listas de espera das urgências hospitalares, o Estado anunciou que atingimos finalmente a meta sagrada da NATO que é destinar 2% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) para as despesas militares. Na atual cimeira da NATO em Ancara Portugal afirmou que o ano passado e de acordo com os padrões NATO, os 2,01 por cento do PIB, o equivalente a 6 mil milhões de euros foram atingidos (1). É um feito extraordinário para um país onde o maior perigo costeiro costuma ser a erosão das praias ou o preço do peixe fresco.

Enquanto os cofres públicos se abrem com uma fluidez invejável para enviar milhões em assistência militar para o leste europeu, o cidadão comum assiste a um espetáculo de ilusionismo orçamental. Para a Defesa e para os blindados que alimentam a forte e próspera indústria metalúrgica de Berlim ou Paris, há sempre linhas de crédito sem burocracia. Já para o Serviço Nacional de Saúde, para os reformados que tentam esticar pensões de miséria até ao final do mês, ou para os sem-abrigo que multiplicam as suas tendas pelas capitais lusas, a resposta estatal é a clássica melodia da austeridade e da “escassez de recursos”.

A engrenagem de Berlim e a nossa “austeridade atlântica”

Há uma ironia profunda na forma como o dinheiro dos impostos portugueses é canalizado para esta cruzada moderna. Sob o pretexto de proteger os valores democráticos, o erário público financia indiretamente um complexo industrial-militar que serve, prioritariamente, os grandes interesses do E3 (Portugal serve mais as agendas da França, Alemanha e Reino Unido e do complexo industrial-militar do que a proteção real do cidadão comum). É reconfortante saber que, enquanto um idoso em Portugal escolhe entre comprar medicamentos ou pagar o aquecimento, algures num escritório em Frankfurt se celebram os dividendos da indústria pesada!

Filosoficamente, a paz ocidental foi reduzida a um paradoxo romano: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara a guerra). O Estado português adoptou esta máxima com o fervor dos convertidos, esquecendo-se de que a verdadeira paz não se constrói empilhando munições, mas sim edificando dignidade social. Uma sociedade que investe mais voluntariamente na engenharia da destruição externa do que na saúde e no bem-estar interno padece de uma inversão crónica de valores. A segurança de uma nação mede-se pela robustez do seu tecido social e não pelo calibre dos seus obuses.

Da trincheira europeia ao abraço lusófono

Se o destino dos nossos impostos é expandir a nossa influência e garantir a estabilidade, por que motivo o Estado insiste em olhar para o mundo através da mira de uma espingarda apontada ao leste, em vez de olhar através da luneta da nossa própria história? Portugal possui uma plataforma diplomática, cultural e económica única que não necessita de tanques para se impor e que é a Lusofonia.

Em vez de subsidiar os interesses geoestratégicos da Europa Central, os recursos nacionais colheriam muito melhor proveito se fossem direcionados para empreendimentos de cooperação cultural, científica e económica dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Financiar infraestruturas de saúde partilhadas, investir na transição energética em parceria com Moçambique ou Angola, ou criar fundos de apoio social e de habitação que dignifiquem os povos que partilham a nossa língua seriam verdadeiros investimentos numa cultura de paz. Faz muito mais sentido construir pontes com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para agradar a Berlim e a Bruxelas.

Trocar o fardamento cinzento da NATO pela diplomacia cultural do mar não é apenas uma escolha moral pois corresponde a uma urgência prática. Afinal, para um país plantado à beira-mar, faz muito mais sentido construir pontes de desenvolvimento com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para sustentar o grande capital europeu. Resta saber se o Terreiro do Paço prefere continuar a ser o bom aluno de Berlim ou voltar a ser o coração do seu próprio mundo.

António da Cunha Duarte Just
Pegadas do tempo

(1) https://www.rtp.pt/noticias/mundo/cimeira-para-reafirmar-o-pilar-europeu-da-nato-aliados-reunem-se-em-ancara_n1751772

https://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/portugal-alcancou-2-do-pib-em-defesa-em-2025-diz-nuno-melo

O DISCURSO DA TOLERÂNCIA ABSTRATA ADIA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL

Retórica política como armadura de Interesses e do Ego

O discurso público contemporâneo padece de uma inflação de virtudes abstratas. Nunca se falou tanto em tolerância, inclusão e paz, como hoje, contudo, raramente essas palavras pareceram tão vazias de substância e tão desprovidas de eficácia prática; trata-se de uma tolerância com pés de barro. A tolerância autêntica exige um doloroso exercício de autoconhecimento e o reconhecimento das próprias limitações. Sem essa base íntima, o clamor pela tolerância transforma-se numa “tolerância abstrata” e até em punho de agressão contra o adversário; pelo que é observável, à primeira vista, tornou-se num mero instrumento de afirmação do ego, uma manobra de diversão que desvia a bola da realidade para canto e serve sistemas discretamente exploradores. Assistir à perda do discernimento no debate político e social provoca uma dor profunda em quem ainda procura encarar o mundo com responsabilidade.

Anatomia da tolerância discursiva

A tolerância abstrata caracteriza-se pela recusa em pisar a lama da realidade concreta. É mais fácil defender princípios universais e absolutos num parlamento ou numa rede social do que exercer a paciência e a compreensão com o indivíduo que está ao nosso lado. No debate público, o alarido moral substitui o serviço ao próximo.

Muitas posições políticas atuais não passam de encenações em que o sujeito procura sentir-se moralmente superior ao seu opositor. Cria-se um terreno abstrato de afirmações sem virtude, onde o objetivo não é resolver o sofrimento humano, mas sim sinalizar a própria pureza ideológica. Esta postura adia a própria humanidade, pois recusa o único caminho capaz de gerar uma tolerância real: o discernimento focado na dignidade e na complexidade de cada pessoa e de cada situação concreta.

Exemplos históricos da Retórica universal como Couraça de Interesses

A instrumentalização de conceitos nobres para mascarar agendas de poder não é um fenómeno recente. A história demonstra como a tolerância e a civilidade abstratas foram frequentemente usadas como manobras políticas:

A “Missão Civilizadora” do Colonialismo do Século XIX foi usadaob o pretexto abstrato de levar a civilização, a ciência e uma suposta tolerância religiosa aos povos considerados “atrasados”, as potências europeias mascararam um sistema brutal de exploração económica e destruição cultural. O discurso oficial falava de progresso e humanismo, enquanto a realidade no terreno era de pilhagem.

A Guerra Fria e a Retórica dos Direitos: Durante décadas, tanto o bloco ocidental como o bloco soviético utilizaram bandeiras abstratas, de um lado a “Liberdade e Democracia” e do outro, a “Justiça Social e Libertação dos Povos” e isto apenas para justificar intervenções militares, golpes de Estado e o apoio a ditaduras sanguinárias pelo mundo fora. O sofrimento das populações locais era desviado para canto em nome do triunfo de uma narrativa geopolítica.

Exemplos actuais de uso do pensamento binário polarizante

Na atualidade, a tolerância abstrata e a ausência de discernimento atingiram o seu zénite na formatação binária das grandes crises internacionais. A observação do discurso público gera uma angústia profunda, pois a complexidade humana foi banida em troca de posições categóricas e cerradas, onde cada lado assume ter a razão absoluta. Não conhece o meio-termo, vive de rótulos e não escuta. Reduz a realidade a dois lados e o cérebro que é de de caracter binário percebe-os como opostos.

O Conflito no Médio Oriente (Israel / Palestina): O debate público dividiu-se em claques desportivas. Uns fecham os olhos ao sofrimento histórico e à negação de direitos ao povo palestiniano; outros recusam reconhecer o direito à segurança e o trauma histórico do povo israelita. O debate abstrato ignora que, no terreno, existem mães, filhos e famílias reais a sofrer de ambos os lados. Quem tenta introduzir nuances ou pedir discernimento é imediatamente triturado pela máquina do cancelamento.
A Guerra na Ucrânia: A invasão russa e o envolvimento da Ucrânia e dos seus aliados ocidentais são frequentemente discutidos como um jogo de tabuleiro geopolítico abstrato sem ter em conta o que está verdadeiramente em jogo na Ucrânia. O alarido mediático foca-se no envio de armas e na vitória total com o argumento de liberdade e democracia, enquanto esconde o custo humano devastador de uma guerra de desgaste ou quando o mostra o faz no sentido de formar falanges cegas incapazes de analisar as causas e interesses económico-políticos determinantes em conflito. A análise crítica das causas profundas e das possibilidades de uma paz sustentável é asfixiada por posições cerradas que proíbem pôr-se em questão narrativas interesseiras.
A Questão da Imigração: Este é talvez o terreno onde a falta de responsabilidade e o jogo do ego são mais evidentes. Por um lado, adota-se um discurso de acolhimento abstrato que serve para limpar consciências, mas que ignora deliberadamente a falta de estruturas dignas de integração, habitação e trabalho para quem chega e os conflitos em questões culturais provocadas pelo gueto. Por outro lado, erguem-se barreiras de rejeição categórica xenófoba. Ambos os extremos fogem à responsabilidade: usam os imigrantes como massa de manobra política ou eleitoralista, em vez de encararem o fenómeno com o discernimento logístico e o respeito humano que a situação exige.

Conclusão

Uma humanidade que se move apenas por enxurradas de opiniões e slogans está condenada a adiar-se a si mesma. O ruído mediático e político contemporâneo não visa a compreensão para a mudança; visa a manutenção de sistemas discretamente exploradores e o cumprimento de intencionalidades políticas ocultas.

Para romper este ciclo vicioso, é urgente resgatar a premissa: a tolerância tem de começar em nós, no autoconhecimento das nossas próprias sombras e falhas. Só quando aceitamos que não detemos a totalidade da razão podemos olhar para o outro, seja ele o imigrante, o adversário político ou a vítima de uma guerra distante, não como um argumento para o nosso ego, mas como um semelhante que exige respeito, escuta e responsabilidade real. O discernimento é o único antídoto contra a dor da polarização. A tolerância discursiva raramente cede terreno porque apenas vagueia onde o Ego pode pisar sem se ferir.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

OS INVISÍVEIS INDISPENSÁVEIS DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE

Há profissões cuja importância só se torna verdadeiramente visível quando faltam. Os Técnicos Auxiliares de Saúde pertencem a esse grupo. São milhares de profissionais que, diariamente, asseguram cuidados essenciais ao funcionamento dos hospitais, centros de saúde, unidades de cuidados continuados e lares, permanecendo, porém, quase sempre longe do reconhecimento público.

Ao longo dos últimos anos, estes trabalhadores assistiram a sucessivas alterações da sua designação profissional. Foram Auxiliares de Ação Médica, passaram a Assistentes Operacionais e, desde a publicação do Decreto-Lei n.º 120/2023, integram a carreira especial de Técnico Auxiliar de Saúde. Muitos esperavam que esta mudança significasse uma verdadeira valorização da profissão. Contudo, segundo inúmeros testemunhos, a realidade quotidiana pouco mudou.

Continuam a desempenhar funções indispensáveis junto dos doentes, garantindo a higiene, o conforto, o transporte de pessoas vulneráveis, a preparação de materiais e espaços clínicos, a colaboração com médicos e enfermeiros e inúmeras outras tarefas essenciais para que os cuidados de saúde possam ser prestados com segurança e dignidade. Sem o seu trabalho silencioso, o funcionamento das instituições de saúde seria impossível.

Apesar disso, muitos destes profissionais afirmam sentir-se desvalorizados. Denunciam a escassez de recursos humanos, equipas insuficientes para responder ao crescente grau de dependência dos doentes, horários exigentes, desgaste físico e emocional e remunerações que consideram desproporcionadas face às responsabilidades assumidas.

A sua missão não termina nos momentos de esperança. São também eles que acompanham os doentes nas horas mais difíceis, prestam apoio às famílias, colaboram na preparação dos corpos após a morte e realizam tarefas que poucos querem ver, mas que todos reconhecem como necessárias. Trata-se de um serviço profundamente humano, exigente e marcado por uma enorme carga emocional. Também eles precisam do sol que afague a sua vida para o poderem transmitir melhor em rostos ensombrados pelas circunstâncias.

É legítimo perguntar se uma profissão com estas características não merece um estatuto mais digno, melhores condições de trabalho, oportunidades reais de progressão na carreira, reconhecimento do desgaste inerente às suas funções e formação contínua devidamente valorizada.

Não se trata de estabelecer hierarquias entre profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros, técnicos superiores, assistentes técnicos e técnicos auxiliares formam uma única equipa, onde cada elemento é indispensável. A qualidade dos cuidados depende precisamente dessa cooperação.

Uma sociedade mede-se também pela forma como trata aqueles que trabalham diariamente ao serviço dos mais frágeis. Os Técnicos Auxiliares de Saúde não pedem privilégios. Pedem respeito, valorização e condições que lhes permitam exercer a sua missão com dignidade.

Talvez tenha chegado o momento de deixar de falar apenas dos protagonistas mais visíveis do Serviço Nacional de Saúde e dar voz àqueles que, discretamente, sustentam uma parte essencial do sistema. Porque os invisíveis indispensáveis merecem, finalmente, ser vistos e mais reconhecidos pela política, pelo sistema e pelo público.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A ENCENAÇÃO DO ESPÍRITO MASCULINO NA NOSSA MATRIZ ANTROPOLÓGICA

O rosto masculino da agressão: 94% da população reclusa

O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas: os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário, impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não se trata de substituir o masculino pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente, rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade como alicerce do desenvolvimento humano e social.

A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso, despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual. Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano (vive-se no âmbito das teorias – masculinidade – sem encarnação em virtudes). As mulheres, para ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade, a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.

Observa-se, por todo o lado, uma escalada preocupante da agressão, quer nas instituições quer nas relações interpessoais. Numa era em que o princípio masculino é exacerbado por belicistas, por potentados sedentos de poder e por personalidades controladoras, a teimosia unilateral é não apenas tolerada, mas ativamente incentivada. Os números, particularmente os que emergem das estatísticas alemãs, são inequívocos: a agressão tem rosto masculino. Como documenta Boris von Hessen na sua obra “O que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais astronómicos, que ascendem a mais de 60 mil milhões de euros anuais. Estamos perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.

Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens? Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina, sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o problema.

Urge, por conseguinte, forjar uma nova compreensão, uma consciência renovada no âmbito da sociologia e da antropologia. Necessitamos de um modelo que integre, em plena igualdade, os princípios da feminilidade e da masculinidade na ordem do indivíduo e da sociedade, sem que um se sobreponha ao outro. A crise civilizacional que assola a Europa é, no fundo, a crise de uma ênfase tradicional excessiva no masculino, herdeira de um patriarcado que nos conduz, irremediavelmente, para o precipício. Para superar este atavismo, é imperativo reformar profundamente a antropologia vigente. Proponho, assim, uma nova abordagem, a que chamo antropoginelogia (ou antropoginaikologia), um modelo em que o masculino (Antropos) e o feminino (Gyne) sejam representados em pé de igualdade, como energias vivas, complementares e indissociáveis, que habitam e se expressam em cada homem e em cada mulher. Desta simbiose, emergirá um novo padrão de orientação ética e existencial, uma verdadeira logia do ser humano completo, capaz de reequilibrar o nosso destino coletivo e de devolver à vida a sua plenitude reflexiva e compassiva.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

Alguns artigos relativos ao tema:

Para além da matriz masculina: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/para-alem-da-matriz-masculina

Outros artigos: https://bomdia.lu/dia-da-mulher-vale-a-pena-lutar/

A necessária transição : https://antonio-justo.eu/?p=10828

Mulheres em sociedade: https://www.gentedeopiniao.com.br/opiniao/artigo/das-mulheres-na-sociedade-e-na-igreja-e-dos-usos-e-costumes-que-as-oprimem

O poder normativo: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/actividade-politica-e-consciencia-1412458

Humanismo e ética: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/humanismo-e-etica-para-a-construcao-de-uma-cultura-de-paz-global/

O dia internacional da mulher: https://antonio-justo.eu/?p=2206

Burca uma acusação ao patriarcado e ao homem: https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/a-burca-1227532

Was Männer Kosten: https://www.amazon.de/dp/3453606248?ref=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&social_share=cm_sw_r_ffobk_cso_wa_apan_dp_VVVAQ71QM0K2SSDPCZ1Z&bestFormat=true