Neste ensaio procuro desenredar o legado de Lobo Antunes à luz da sua psicanálise à alma portuguesa
A Morte de Lobo Antunes e a Sombra no Fado
António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março de 2026, aos 83 anos. Mas a frase, assim, despida e objetiva, soa a engano, tal como mentira soa a calmaria depois de uma batalha. De facto, foi-se um homem, um médico, um escritor, mas ficou o vendaval. Ficou a obra, essa “casa dos móveis que estalam à noite”, como ele próprio descreveria a solidão. Dele ficou, sobretudo, o retrato de um país que ele anatomizou como poucos: Portugal, esse paciente eterno deitado no divã da psiquiatria, com as suas memórias mal resolvidas a pulsarem sob a pele do presente.
Nascido em Lisboa em 1942, numa família da burguesia, cedo percebeu que a literatura era uma insónia, a “insónia dos bons livros “. Mas antes das letras, veio a medicina e a guerra. Chamaram-lhe “herdeiro de Faulkner e Céline”, mas a sua verdadeira genealogia literária forjou-se no limbo, no “cu de Judas” onde esteve destacado como médico durante a Guerra Colonial em Angola, entre 1971 e 1973. Foi lá que aprendeu que a morte não tem épica e que a coragem é, muitas vezes, apenas o medo que se verga. Foi em Angola que o jovem psiquiatra começou a acumular o material clínico para a longa análise a que submeteria a nação.
O Cirurgião das Almas e a Ferida da Guerra
Lobo Antunes mais que escrever livros, escrevia autópsias. A sua experiência em Angola não é um tema literário, é o motor de toda a sua inspiração. Em “Os Cus de Judas” (1979), o seu segundo romance, o alferes-médico que regressa a Lisboa não encontra uma pátria acolhedora, mas sim um país de paredes caiadas que finge que a guerra não existiu. O diálogo com a mulher anónima, numa noite de copos, é uma catarse falhada. É o desabafo de quem percebe que “viver é como escrever sem corrigir “e que o que lá está, de dor e de sangue, não pode ser apagado.
Foi essa a grande fratura que Lobo Antunes denunciou: Portugal, após o 25 de Abril, tratou a descolonização como um assunto administrativo, mas nunca como um trauma coletivo (Havia politicamente muito a esconder que impedia ser-se autêntico!). Os soldados voltaram, mas vieram de boca calada. Os retornados chegaram, mas foram recebidos com a vergonha alheia de quem vê um espelho partido e por isso foram tão maltratados. O país preferiu o esquecimento à purificação, e essa memória recalcada, como nos ensina Lobo Antunes, é a matéria de que são feitos os fantasmas.
As Naus e o Regresso dos Mortos como Desconstrução do Mito
Se há livro que funcione como chave para entender esta tese, é “As Naus” (1988). Neste romance desassossegado, Lobo Antunes faz o que melhor sabia na qualidade de psiquiatra: pega nos heróis canonizados de “Os Lusíadas” e devolve-os a um Portugal pós-colonial, pequenino e irrelevante. Vasco da Gama, Camões, os navegadores, regressam a Lisboa como retornados pobres, perdidos, bêbados e deslocados. O passado glorioso desembarca no cais mas já não cabe no novo cenário, empenhado em fabricar novos fantasmas e heróis de craveira histórica, os tais ‘históricos’ do novo regime, que tomem o lugar dos velhos espectros e garantam a continuidade dessa epopeia político-cultural que mantém Portugal em permanente sessão no divã da psicanálise.
O que o escritor fez foi uma cirurgia ao imaginário nacional. Durante séculos, Portugal alimentou-se da nostalgia do império, do mito sebástico do “Encoberto” que um dia há de voltar para nos salvar. Mas Lobo Antunes mostra-nos D. Sebastião não como um salvador, mas como uma figura grotesca, um rei menino perdido num país que já não tem trono nem altar. Aqui Lobo Antunes faz a crítica mais feroz ao Sebastianismo que se resume na esperança irracional de que algo de exterior nos venha resgatar da mediocridade, essa crença de que o passado pode funcionar como salvação para o presente.
Assim, Portugal de Lobo Antunes é um país desorientado. Vive na “sombra da antiga grandeza”, como aponta o seu pensamento, mas sem saber o que fazer dessa sombra. É essa dualidade que nos torna, aos olhos dele, uma nação de melancólicos a viver da consciência da decadência agudizada pela memória do esplendor. O viver nessa melancolia, sombra enraiada já na alma portuguesa, continua a viver no espírito do Encoberto que se encontra agora em Bruxelas.
“Portugal é um país que vive mais do que foi do que do que é”
Esta frase, que lhe é atribuída, condensa toda a sua visão. Para Lobo Antunes, a identidade portuguesa constrói-se sobre um silêncio espesso. É feita de orgulho, pela gesta dos descobrimentos; de culpa, pela violência colonial; de nostalgia, pelo império perdido; e de silêncio, pela incapacidade de discutir abertamente a guerra e a descolonização e também por de forma desalmada, continuar a afirmar-se ou a distrair-se na narrativa do desassossego de esquerda e de direita.
Esse silêncio, contudo, não é um vazio, mas sim uma presença barulhenta, como ele tão magistralmente descreveu ao constatar “Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falar em mim “. E esses outros são os que ficaram para trás em África, os que regressaram sem chão, os que morreram na guerra, os que viveram a opressão da República e do Estado Novo. O Salazarismo, com a sua cartilha do “Deus, Pátria e Família”, não criou apenas obediência, mas também contenção emocional que perdura. Hoje como ontem, continua-se o hábito do medo de falar, da hipocrisia social, de uma vida interior que se esconde atrás da fachada da ordem.
A ironia e o humor negro surgem, na sua obra, como a única arma possível contra essa tragédia muda. É o riso de quem já viu o pior e sabe que as palavras são frágeis. Quando perguntado sobre o Nobel, a resposta clara como seca foi “Quero que o Nobel se f*da”; esta reação não era apenas desdém; era a defesa da soberania do escritor contra as glorificações oficiais, a recusa em deixar que a literatura fosse engolida pelo mesmo sistema que ele denunciava, tal como o foi Saramago ao ser usado como arma de um polo contra o outro.
O Fantasma do Império e a Decomposição na Europa
Na última fase do seu pensamento, que as suas notas tão bem captam, Lobo Antunes antecipou o debate contemporâneo sobre o pós-colonialismo e a identidade europeia. No meu entender, se o 25 de Abril matou o império, a entrada na União Europeia, nos anos 80, funcionou como uma espécie de segunda morte.
Compensados economicamente pelos fundos comunitários, os portugueses viram-se confrontados com uma nova forma de perda de soberania. Desta vez, não perdíamos colónias; perdíamos a ilusão de sermos o centro do mundo e nação intacta. Passámos a ser a periferia da Europa, um país encostado à boleia de Berlim e Bruxelas. Esta integração, se por um lado trouxe desenvolvimento, por outro aprofundou o sentimento de insignificância e de decomposição cultural que o escritor já diagnosticava.
Deste modo o fantasma do império permanece, já não como projeto político, mas como assombração. Vive na nostalgia cultural, nos manuais escolares, nas comemorações oficiais de dançarinos do poder. Vive também na culpa dos que olham para a história e veem o horror da guerra. Vive, sobretudo, na dificuldade que Portugal tem em se definir a si mesmo fora da matriz imperial e por isso se encosta à nova forma de imperialismo que é o imperialismo mental de Bruxelas.
A Técnica Literária como Espelho da Alma Coletiva
Não se pode falar de Lobo Antunes sem falar do seu estilo. A sua técnica narrativa, essa prosa que parece um rio de vozes, onde passado e presente se misturam, onde várias personagens falam ao mesmo tempo sem aviso prévio, é a expressão formal da sua visão do mundo e em especial de Portugal e da Europa.
Não há enredo linear porque não há identidade linear. Portugal é, para ele, um país de camadas geológicas expressas no substrato romano, na camada medieval, no basalto do império e no cimento bruto da modernidade europeia. Tudo se encontra misturado e fraturado. Os seus romances funcionam como consciências coletivas confusas, assombradas por fantasmas históricos que irrompem no discurso sem serem convidados.
Ao dar voz aos ‘vencidos da vida’, aos retornados do seu livro “O Esplendor de Portugal”, aos soldados de “Os Cus de Judas”, aos loucos e marginais que povoam os seus livros, Lobo Antunes fez uma operação de justiça poética ao dar expressão e corpo àqueles que a história oficial preferiu esquecer.
O Fim de uma Era
Com a morte de António Lobo Antunes, Portugal perde mais do que um escritor. Portugal perde o seu mais arguto intérprete. Num tempo em que a Europa debate o racismo estrutural, a revisão da história e o lugar dos antigos impérios, a sua obra permanece como um aviso: a memória não se apaga e recalcamento não é solução.
Os móveis continuarão a estalar à noite. As vozes continuarão a sussurrar no interior do silêncio. E nós, portugueses, continuaremos confrontados com essa pergunta incómoda que ele deixou a ecoar na consciência: quem somos nós, agora que o império se dissipou e a Europa já não é a miragem que fomos um dia?
Lobo Antunes não nos deu a resposta, mas deixou-nos o espelho. E, como nos seus livros, olhar para ele é sempre um acto de coragem, iminentemente necessário. Fica a obra e com ela a insónia. Fica a certeza de que, como ele dizia, “os maus romances contam histórias; os bons romances mostram-nos a nós mesmos”. Mas o fado, esse canto tão belo e inebriante que tolda a alma lusa, não é senão a carpideira velada de um Portugal que chora e carpe, sem o saber, o desencanto de si próprio e de todos os outros.
Lobo Antunes deixou-nos um “bom romance“, uma grande obra que nos espelha Portugal.
António da Cunha Duarte Justo
© Pegadas do Tempo
Obrigado pela sua excelente análise sobre Lobo Antunes.
Desde há um longo tempo que sou leitor das suas crónicas.
Acabo de copiar para o meu arquivo de textos a sua análise acerca de Lobo Antunes.
Tal como ele, passei dois anos de férias forçadas em Angola, que foram para mim dois anos de aprendizagem e convívio com os naturais daquele vasto território, que hoje não existiria tal como ele é sem a passagem dos portugueses por aquelas paragens.
Tal como Lobo Antunes, o que mais me custou, quando regressei a Portugal em Novembro de 1974, não foi o ano de estágio no Liceu de Aveiro, mas a readaptação a um País voltado de pernas para o ar.
Nem das pessoas e nem mesmo dos terroristas posso dizer mal, porque fui sempre bem tratado por todos eles.
A única mágoa que me ficou foi o de saber o que aconteceu a todos aqueles que por lá ficaram, depois da entrega de um território, que tinha um nível de vida muito superior ao do «puto», isto é, de Portugal Continental, e que estava num rumo de progresso acelerado, que se perdeu depois a do moderno desastre de Portugal em Abril de 1974, muito pior que o de Alcácer Quibir.
Mas deixemos as coisas tristes para trás, porque a navegação tem de continuar a fazer-se para a frente.
Desculpe-me este meu desabafo.
Cordiais saudações, e — sobretudo — que possamos continuar a ler por muito tempo os seus textos.
Prezado João Aveiro.
Muito obrigado pelas suas generosas palavras e, sobretudo, pela partilha tão pessoal, rica e sentida que manifestou. Honra-me saber que é um leitor das minhas crónicas e que a análise sobre António Lobo Antunes encontrou um lugar no seu arquivo pessoal; isto é, para mim, a prova de que o texto encontra ressonância em pessoas com craveira para verem mais longe. Tenho estado a preparar uma análise da nossa matriz político-económica-social masculina que nos gere ceertamente terá prazer nessa leitura porque é muito original.
A sua experiência em Angola, esses “dois anos de férias forçadas”, acrescenta uma camada de humanidade e complexidade à leitura que não se encontra nos manuais de história. É precisamente essa ambiguidade e a coexistência da violência do contexto com a aprendizagem e o convívio humano, que atravessa a obra do Lobo Antunes e, nesse sentido, percebo a sua própria memória. O facto de não guardar mágoa das pessoas, nem mesmo “dos terroristas”, e recordar antes o tratamento que recebeu, só fala bem de si e da forma como viveu a sua experiência apesar da desumanização que a guerra normalmente impõe.
Compreendo bem a mágoa que expressa em relação ao que foi interrompido e ao que ficou por resolver bem como ao destino daqueles que permaneceram. Será mais uma chaga aberta que continuará no silêncio da noite a magoar a alma portuguesa e como tal a juntar ao Fado. Sou do parecer que enquanto os actores da revolução pensavam em termos curtos de ideologia não se davam conta que estavam a servir interesses geopolíticos muito concretos de Moscovo e de Washington.
O regresso a um “País voltado de pernas para o ar” em 1974 é um eco da dor silenciada também em relação aos retornados e à sensação de estranheza numa terra que era a sua, mas que já não reconheciam. Na altura senti grande sintonia com os retornados e indignação para com a política, ao ver que o regime sentia os retornados como possível sombra a lembrar os erros cometidos na descolonização É muito oportuna a sua referência ao “desastre de Abril” e a comparação com Alcácer Quibir que se inscrevem precisamente na mesma dor dos traumas portugueses que se expressam na comparação que no artigo faço ao referir-me ao Fado como espécie de canto chorado de uma dor memorial calada que ao não ser expressa em palavras passa a ser mais uma vez recalcada. A história, como sabemos, é feita destas múltiplas perspetivas, e a dor de quem viu um projeto de vida interrompido e um território que conhecia mudar radicalmente é uma ferida que o tempo nem sempre consegue sarar por completo.
Subscrevo inteiramente a sua sábia e realista conclusão, “a navegação tem de continuar a fazer-se para a frente”, porque o andamento da história é determinado pelos factos criados. Essa capacidade de integrar a memória, com as suas luzes e sombras, e de continuar a olhar para o horizonte é, no fundo, o que nos mantém vivos e atentos. O facto de dedicar tempo à leitura e à reflexão sobre literatura e memória mostra que o barco não só navega como também o faz com rumo e fundamento cultural.
São testemunhos como o seu que enriquecem qualquer análise e nos lembram que a literatura, no fundo, é sempre uma conversa infinita sobre a vida.
Cordiais saudações e muito sucesso no seu trabalho; quanto a mim continuarei a refletir e escrever sobre a vida e as circunstâncias que nos acompanham, naturalmente sempre sob a minha perspectiva na consciência de que há outras perspectivas muito válidas.