Nas pausas mora o que não cabe no dia,
aquele branco entre palavras onde a mente,
desatada do peso da aparência,
sobe, como ave ou fumo, levemente.
A casca é sempre mais ruidosa que a seiva.
O mar que se exibe à superfície guarda
nos seus porões de luz oblíqua e fria
o coral que nenhuma tormenta abala.
Quem só conhece o vento conhece o medo,
esse pânico gentil de ser levado
para longe de si, como folha ou vela
que ignora o que é ter raiz e ter calado.
Mas o mergulhador aprende cedo
o paradoxo limpo das profundezas.
Quanto mais desce, menos o mundo pesa
e ele, mais consciente, enfim, começa.
Não é valentia esta descida,
é apenas a recusa de flutuar
entre aparências que o rumor anima
e ventos que nos chamam pelo nome errado.
Suspender a corrida, parar. Só isso.
Deixar que a tua sombra te preceda
e reconhecê-la, afinal, como tua,
essa é a única maré que te liberta.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo ©