Mãe, graças te dou por teres semeado
no ventre da terra que nunca julgou
o grão mais perfectível e delicado
que em mim germinou e depois frutificou.
Teu colo foi ninho de aurora primeira,
tão cedo partido, que falta me faz!
os beijos que agora são névoa passageira
guardei nos poros, do toque veraz.
Sem competição, teu sucesso foi pleno:
abraçaste o silêncio, a humilde razão,
tempera de dores, trabalho e aceno
de mãos que afagaram a minha estação.
Na frágil matéria do existir que vergaste
com ânimo seguro e divina fronte,
despiste a noite onde reslumbraste
no limiar que une a terra ao horizonte.
Teus sonhos, que em nós se fizeram criança,
agora nos filhos alegres são voo,
reconhecimento que em dança se lança
no ar que teu sopro primeiro abençoou.
Mãe, tu não envelheces: és múltipla, inteira,
por ti floriram da mulher as estações,
menina, donzela, anciã, companheira,
trazendo no colo as humanas nações.
O mundo em teus braços repousa e floresce
sem vento que o areje, mas dá melhor fruto:
és côncava lua que nutre e aquece,
és mesa que congrega e converte o absoluto.
Em tua casa estou na minha, és o centro,
o tempo que passa te vestes de amor;
homens e mulheres transitam, enquanto
tu ficas, farol, na espiral da flor.
Sei bem que há mães feridas, sombra e ciência
que passam ao fruto o veneno a expiar,
mas hoje é teu dia, de plena clemência:
o sol do teu riso faz tudo esquecer.
Mãe, dança connosco na seiva que dobra
a espinha do mundo de tanto acolher.
És infinito, natura, que se desdobra:
cantar-te é nascer, sempre mais, a crescer.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo