Uma Proposta de Rigor conceptual para o Debate político português
Resumo
O presente artigo tem por objetivo clarificar a classificação científica do regime do Estado Novo português (1933-1974), distinguindo-a do rótulo, frequentemente utilizado no discurso político polarizado, de «fascista». Recorrendo à tipologia consagrada de Juan Linz e à obra de outros cientistas políticos (como Stanley Payne ou Roger Griffin), argumenta-se que o Estado Novo constitui um regime autoritário e não um regime fascista ou totalitário. Distinguem-se as fases de Salazar e de Marcelo Caetano, mostrando-se que, embora o primeiro corresponda ao modelo autoritário clássico, o segundo tentou uma liberalização que o afasta ainda mais de qualquer definição de fascismo. Conclui-se que o uso inflacionado e impreciso do termo «fascista» prejudica a compreensão histórica e a qualidade do debate democrático, propondo-se uma linguagem política mais rigorosa e menos suscetível a narrativas pós-factuais que pretendem formatar opiniões e consciências segundo o modelo comunista inicial (PREC).
- Introdução
No discurso político português contemporâneo, é comum ouvir-se classificar o Estado Novo como um «regime fascista», e os seus dirigentes, Salazar e Caetano, como «fascistas». Esta rotulagem, embora emocionalmente eficaz para deslegitimar o passado e legitimar a rutura democrática de 1974, padece de um grave problema: a inexatidão científica e a indução em erro. Usar a palavra «fascismo» como sinónimo genérico de «ditadura de direita» ou de «autoritarismo conservador» é tão incorreto como chamar «comunista» a qualquer regime de esquerda não democrático. Tal imprecisão não é inocente nem é neutra. O objectivo do seu emprego é alimentar a polarização, simplificar excessivamente a história e impedir que os cidadãos e os políticos discutam com base em conceitos claros.
Este artigo não pretende reabilitar o Estado Novo, cujo caráter antidemocrático e repressivo e é inquestionável. Pretende, isso sim, devolver ao debate público a diferença qualitativa entre regimes autoritários e fascistas, diferença essa que os cientistas políticos há muito estabelecem. Fazê-lo é um exercício de honestidade intelectual e de responsabilidade cívica, pois uma democracia consciente não teme a precisão; pelo contrário, alimenta-se dela.
- O que é o Fascismo? Uma Definição Mínima e Consensual
Para que uma comparação seja válida, é indispensável partir de uma definição operacional de «fascismo». Rejeitando usos propagandísticos, tomemos a síntese de três dos maiores especialistas mundiais:
a) Juan Linz (cientista político) : O fascismo é uma ideologia totalitária que procura mobilizar as massas para um projeto de transformação radical da sociedade, baseado num mito de regeneração nacional, no culto do líder e na negação do pluralismo.
b) Stanley Payne (historiador): O fascismo caracteriza-se por: 1) um nacionalismo extremo e expansionista; 2) uma estética da violência e da disciplina paramilitar; 3) um partido único de massas com forte enraizamento social; 4) a rejeição do conservadorismo tradicional (a Igreja, a monarquia, as elites agrárias são subordinadas ao partido); 5) a ambição de criar um «homem novo».
c) Roger Griffin (teórico): O fascismo é, na sua essência, um ultranacionalismo ou mito de renascimento nacional, isto é, um nacionalismo que promete o renascimento da nação após uma decadência percebida. Este renascimento exige a rutura total com o passado e a criação de uma nova ordem.
Desta definição científica emergem elementos-chave que o fascismo não partilha com regimes meramente autoritários: a mobilização de massas, o partido único militante, a estética paramilitar, o culto dinâmico do líder (não apenas um chefe respeitado) e a rutura iconoclasta com as tradições conservadoras (como a religião e a família tradicional, que o fascismo vê como instrumentos, não como fins).
- O Estado Novo de Salazar foi um Regime autoritário, não fascista
Aplicando estas coordenadas ao Estado Novo (1933-1968), obtemos um quadro claramente distinto em que se evidencia que o Estado Novo não reúne as atributos para que possa ser designado de fascista:
| Característica | Fascismo (ex.: Itália, Alemanha) | Estado Novo (Salazar) |
| Partido | Partido único de massas, mobilizador, com milícias. | União Nacional – partido único sem milícias, desmobilizador, criado para controlar e conter, não para mobilizar. |
| Líder | Culto carismático, «Duce», «Führer», com mito de infalibilidade. | Salazar era um professor austero, rejeitava culto da personalidade explícito, promovia a discrição e a «missão» mais do que o carisma. |
| Ideologia | Nacionalismo revolucionário, mito do renascimento nacional que rompe com o passado para criar o «homem novo». | Nacionalismo conservador, tradicionalista, católico. O lema era «Deus, Pátria, Família» e como tal valores pré-existentes, não projetos revolucionários. |
| Violência | Violência institucionalizada, paramilitarismo, rituais de agressão. | Violência policial e censura (PIDE), mas ausência de milícias partidárias e de culto da violência enquanto estética. A repressão era burocrática e dissuasora, não executável, (performativa). |
| Relação com a Igreja | Subordinação ou controlo da Igreja (ex.: concordata de 1929 em Itália, mas com tensões). | Aliança estratégica com uma Igreja Católica valorizada como pilar da ordem. O Estado Novo foi profundamente católico, não pagão ou anticlerical. |
| Economia | Corporativismo dirigido à autosuficiencia e à preparação para a guerra. | Corporativismo conservador, anti-socialista, mas sem ambição imperialista militar (além do retórico «orgulhosamente sós»). |
Como Juan Linz argumentou e mostrou de forma decisiva, os regimes autoritários (como o Estado Novo, o franquismo ou o salazarismo) caracterizam-se por pluralismo limitado, desmobilização política, legitimidade tradicional e ausência de ideologia elaborada e transformadora. Salazar qualificava o seu regime como «não ser fascista, porque o fascismo é uma certa exaltação da força, um certo culto do César, uma certa exaltação da juventude que não corresponde ao meu pensamento». Esta autodestruição, embora propagandística, é corroborada pela análise científica.
Onde, então, reside a confusão? O Estado Novo usou alguns símbolos e instituições emprestados do fascismo italiano (a milícia – Legião Portuguesa, o partido único, a formulação «Deus, Pátria e Família»). Contudo, usou-os de forma imitativa e descaracterizada, esvaziando-os do seu conteúdo mobilizador. A Legião Portuguesa nunca teve o papel dos camisas negras ou castanhas; era uma força de reserva, pouco ativa. O partido único era um cartão de sócio da elite, não uma estrutura de enraizamento popular.
- O Marcelismo (1968-1974) era ainda menos autoritário
A discussão tendenciosa evita falar do período de Marcelo Caetano por razões ideológicas fixadas num discurso maniqueísta. A chamada «Primavera Marcelista» foi uma tentativa de liberalização controlada (não democratização) do regime autoritário. Marcelo Caetano procurou:
a) Atenuar a censura (surgindo a famosa «censura prévia com duas cores»).
b) Permitir uma oposição moderada, a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática).
c) Revogar alguns símbolos mais ostensivos do Estado Novo (como a saudação de braço erguido nas cerimónias oficiais).
Esta evolução não só não aproximou o regime do fascismo (que é intrinsecamente radical e mobilizador), como o afastou ainda mais. O fascismo exige um partido activo, uma ideologia dinâmica e uma ruptura permanente. O marcelismo, pelo contrário, procurou um «regime de direito» (nas palavras do próprio Caetano) dentro dos limites do autoritarismo, algo que o fascismo autêntico nunca toleraria. A manutenção da PIDE/DGS e da repressão às esquerdas mostra que o regime continuava autoritário, mas não fascista.
- Porque importa a Distinção no Debate político português?
Importa diferenciação no debate por três razões fundamentais:
- Rigor histórico e científico: Chamar fascista ao Estado Novo é um erro factual, comparável a chamar comunista à URSS de Brejnev. Se o debate público ignora definições consensuais, qualquer conversa séria torna-se impossível.
- Combate a narrativas pós-factuais: A polarização política portuguesa e a manipulação do povo beneficiam de atalhos retóricos como «fascista». O termo «fascista» serve para encerrar o debate em vez de o abrir («o adversário é fascista, logo não merece ser ouvido»). A história do século XX mostra que regimes autoritários e fascistas tivera origens, funcionamento e legados muito distintos. Confundi-los é uma forma de desonestidade intelectual que mina a confiança no discurso público e na política partidária.
- Legitimação da democracia e do 25 de Abril: Curiosamente, a tese de que o regime era fascista, foi deliberadamente promovida por alguns setores pós-25 de Abril para maximizar a ruptura. No entanto, uma democracia madura não precisa de exagerar o mal do regime anterior para se justificar. Pode e deve reconhecer que derrubou um regime autoritário, repressivo e ilegítimo, sem ter de lhe atribuir um rótulo tecnicamente incorreto. Fazê-lo é sinal de força, não de fraqueza.
- Conclusão e Recomendações
O Estado Novo foi um regime autoritário, enquadrável na tipologia de Juan Linz, caracterizada por pluralismo limitado, desmobilização política, legitimidade por apelo à ordem e à tradição, e poder executivo mal definido, mas concentrado. Não foi um regime fascista, pois não possuía nem o partido de massas mobilizador, nem a ideologia do mito do renascimento nacional, nem a estética da violência, nem a rutura total com o conservadorismo tradicional. A fase de Marcelo Caetano foi uma variante liberalizante deste mesmo autoritarismo, ainda mais distante do fascismo.
Para um debate político português menos polarizado e mais objetivo e sério, seria de propor:
a) Abandonar o termo «fascista» como sinónimo de «ditadura de direita» porque não corresponde às suas características definidoras (mobilização, partido único de massas, nacionalismo palingenético, culto da violência) que não se encontram presentes nele.
b) Adotar a linguagem precisa: «regime autoritário», «Estado Novo», «autoritarismo salazarista».
c) Reconhecer que o 25 de Abril derrubou um regime autoritário e não democrático. Este facto é suficiente para legitimar plenamente a democracia portuguesa, sem recurso a rótulos inflacionados.
Uma democracia que confunde termos tão distintos como «autoritarismo» e «fascismo» é uma democracia frágil, incapaz de aprender com a história e de dialogar com rigor. É tempo de devolver à palavra «fascismo» o seu significado histórico preciso, libertando o debate político da armadilha das narrativas pós-factuais muito presente no debate radical de esquerda.
Este artigo pretende promover um debate sério e respeitador do povo, recusando a duplicidade de discursos: um de natureza científica, rigoroso e diferenciado, e outro de índole político-partidária, simplista e manipulador. Respeitar o povo implica reconhecer que, muitas vezes, o seu pensamento é condicionado pelas narrativas promovidas pelas elites e pelo regime político vigente.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
Bibliografia:
- Linz, Juan J. (1975). «Totalitarian and Authoritarian Regimes». In Handbook of Political Science.
- Payne, Stanley G. (1995). A History of Fascism, 1914–1945. University of Wisconsin Press.
- Griffin, Roger (1991). The Nature of Fascism. Pinter Publishers.
- Rosas, Fernando (2019). Salazar e os Fascismos: Ensaio Breve de História Comparada. Tinta-da-China.
- Pinto, António Costa (1992). O Salazarismo e o Fascismo Europeu. Estampa.
Nota: O objetivo do artigo não é defender qualquer regime, mas sim promover a clareza conceptual, essencial para uma democracia saudável e para um discurso político que se pretenda honesto e fundamentado.
Nós sabemos como foi e é importante a terminologia, mas o que se passa agora deixa-me perplexa
Maria Castro Barros , o PREC queria impor uma ditadura comunista, também por isso comecou com o envio dos seus mandatários por todo o país para educar o povo para o socialismo. Para isso fizeram uso dos termos ditadura e fascismo para considerarem o regime anterior tabu e nao precisarem de se justificar perante medidas tomadas também elas indemocráticas. A intervencao de Novembro possibilitou o desenvolvimento de uma democracia partidária.
Um País que sempre respeitou o Catulocismo não era de todo chamar-se- facista — se bem percebo, sim, era pouco alargado á ignorância porque o partido único era um cartão de sócio da Elite,– falar francés e tocar piano—- venha a nós o vosso reino—- faltou intiligência do melhor saber de mudança –mas agarrado a uma estretura atrasada de enraizamento popular , tendência na altura. era frágil a estretura atrasada em conhecimento de si mesmo O Sr. Oliveira Salazar , tinha formação católica . viveu pobremente—- comparado como tudo agora — Mateus 6– A escolha não acumuleis riquezas aqui na Terra , onde a traça e a ferrugem corroem , e onde os ladrões assaltam e roubam. Acumulai riquezas no Céu , onde nem a traça nem a ferrugem , corroem,e onde os ladrões não assaltam nem roubam . 21 De facto, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração A Igreja se agarrou , e ficou presa e não devia e continou não a envangelizar, era obrigação sua ,não acumular intereces, junto do governo junto com elites , já não se percebia o que era Igreja, do estado !!! E Deus a olhar— Agora vieram os Papas a dizer : verdade é como o azeite vem ao cima.. vamos tratar-lhe há muitas feridas mais parece um hospital de gente a morrer de tanta ferida — somos todos pecadores…… aos que muito tinha a Igreja, fica amiga — e o povo, dava ao padre o melhor que tinha e o povo ficava com fome… ficou, alguém atráz– ficou- o povo– ficou Deus- falhou— Menos O GOVERNO o estado novo . Quando falham quem não devia— muita coisa acontece. A ignorância e a falta de conhecimento nos assola Como bem escreve:Uma democracia frágil incapaz de aprender com a história e de dialogar co rigor Obrigada. Um Bem Haja
Conceição Azevedo , o cumquibus foi mudarem a máscara e nao tomarem devidamente a sério a democracia nem terem respeito pelos interesses imediatos do povo.
A história de abril é uma história mal contada e quanto à liberdade política que trouxe é um mérito reconhecivel mas que hoje se encontra em países que se encontravam em situacao semelhante e hoje nao devem nada à liberdade portuguesa, que se trnou uma liberdade açaimada. Há no meio das narrativas muito teatro de mau gosto e até engano. O regime de Salazar, segundo o relato de historiadores sérios, nem era fascista nem era ditadura muito embora seja impossível ir contra o preconceito nacional criado pelo regime de abril que formatou o ideário português em moldes tendenciosos s oportunistas. A história de Abril que temos é meramente pós factual, começando com o primeiro engano de que era uma revolução mas sim um golpe de Estado! A revolução se a houve foi ideológico-cultural no sentido de um socialismo matreiro que nem é peixe nem é carne, graças aos homens de Novembro. No seguimento da estratégia ideológica também se fala de Salazar; não é conveniente para os ideólogos abrilistas falar de Marcelo Caetano que preparava a reforma da sociedade para uma mudança política partidária. A narrativa sobre abril é uma narrativa mal contada e falsificada. O povo foi preparado para engolir sapos, cobras e lagartos julgando que come bacalhau. E o problema maior está no facto de o povo ter de continuar a acreditar na narrativa oficial porque se tornaria muito complicado reconhecer o engano político em que se tem vivido! Seria muito embaraçoso e praticamente impossível atendendo à conivência havida por elites e por todos os que recebem o seu ordenado da administração portuguesa e das empresas que estão dependentes dos benefícios do Estado, entre elas TV, etc e aos partidos que na realidade têm muito a agradecer ao golpe de estado .
O rótulo “fascista” é politicamente útil para simplificar/anular aquele que têm como inimigo.
Vive-se um “vale tudo”!
O rigor conceptual, não interessa a quem precisa da mentira, para se sustentar no poder!…
Manuela Silva , tem razão quando diz que o rigor conceptual, como afirmo no artigo, não interessa a quem precisa da mentira para se manter no poder. No entanto, há muitas pessoas que não mentem de forma declarada: foram socializadas num determinado contexto, condicionadas por interesses que até podem ser legítimos, e não têm consciência da complexidade da sua própria opinião, tomando-a como a única verdadeira. Muitas vezes, são vítimas.
Mas também há aqueles que, como a Manuela refere, são mentirosos e cínicos: apesar de saberem que a sua posição se baseia na mentira e a tem como objetivo, continuam a afirmá-la para dela tirar proveito.
Há ainda um outro aspeto: o daqueles que viveram tanto tempo submissos a uma ideologia que se torna difícil reconhecer o erro. Em vez de se perceberem como seres em processo contínuo, julgam que precisam de ser fiéis não a si mesmos, mas às circunstâncias e aos interesses que viveram.
Discordo em absoluto deste tipo de branqueamento pseudo científico que de ciência não tem mesmo nada. Lamento este péssimo serviço à democracia e estado de direito democrático. Só autoritário!?
Luís Corceiro eu procuro servir a democracia na medida em que sirvo o cidadao procurando dar o meu contributo para que cada um pense por si e nao se limite a seguir rebanhos sejam eles de esquerda ou de direita nem se deixem levar sequer pelo que escrevo dado o que escrevo é apenas para alertar as pessoas de boa vontade para que questionem o que os grupos organizados em torno de interesses lhes poem no prato da discussao pública, importante é que cada um forme a sua opiniao em contínua abertura a argumentos sejam eles da esquerda ou da direita.. O meu artigo é argumentativo e nao uma confissao ou declaracao partidária pelo que mereceria ser enfrentado a nível argumentativo.
É preciso „coragem“ para escrever isto! Mas está errado!
Manuel Campos , tenho coragem para escrever isto porque nao estou ao servico de nenhum partido, embora os respeite; estou ao servico do bem comum e do povo. Se estou errado argumenta para que conheca aperspectiva do teu erro e compreenda melhor a sua lógica que nao é identificável com razao.
Nada de acordo!!!
Elisabete Barbeiro, ainda bem; somos livres! Eu só procurei fazer reflectir!
Não estou de acordo com o seu tipo de abordagem. É com este tipo de justificação que se branqueia a história!
A base ideológica do salazarismo / marcelismo é o fascismo italiano, bem! Mas o senhor sabe bem isso!
Alfredo Stoffel , sim caro amigo mas a última frase que escreve é precisamente a linha da propaganda do PREC que eu no artigo procurava apresentar de uma forma diferenciada.
Mas tu sabes lá o que é o fascismo ou um fascista?
MiKo Martins, pelos vistos o senhor é o possuidor do saber absoluto!
Como resposta aos comentadores de partidos do PS e do PCP que aqui tomam posições sem argumentar quero agora aqui também posicionar-me sem argumentar! Ainda no tempo de Salazar, quando estudava filosofia em Lisboa, tive a liberdade de escrever para a China, em 1969, a pedir o Livro Vermelho de Mao. Recebi diretamente da China cinco exemplares. Sempre me interessei por política e cheguei até a ir, como delegado socialista, a Lisboa para eleger Guterres, numa altura em que uma esquerda do partido, talvez mais interessada em tachos e honrarias , concorria contra ele. Conheci o partido por dentro e cheguei mesmo a ver publicado o meu conceito de educação no órgão do partido. Mas vi tanto oportunismo e irregularidades e falta de coerência em muitos dos seus membros que me libertei desse peso; libertei-me porque não o suportava devido à enorme hipocrisia de muitos com quem contactei, inclusive nas reuniões do partido em Dortmund.
Dedico o meu saber e a minha boa intenção ao serviço do povo, numa atitude de compreensão para com todos os partidos, mas encarando-os tal como me encaro a mim: com distância, pois sei que toda a pessoa é, mais ou menos, formatada e condicionada pelos seus interesses. Com o artigo, pretendia apenas que as pessoas vejam diferentes perspetivas da realidade, e que todas elas têm a sua legitimação, numa persectiva democrática. O artigo pretende também proporcionar ao leitor uma análise dos termos que usam muitas vezes com carga partidária propagandista e que ao usá-las embora com posicao independente fazem indirectamente propaganda por uma determinada ideologia.
Províncias ultramarinas?!
Analia L. G. Chilenge , era o conceito da altura. Na escola tínhamos de aprender a geografia delas com a mesma exigência das províncias de portugal continental, quando outros povos colonizadores nao se ocupavam delas a esse nível.!
Com gratidão e respeito, um muito pouco lhe possa ,dizer , é agradecer as suas palavras , o seu trabalho , o seu conhecimento , a sua sabedoria . Quem de graça dá– de graça– recebe, que Deus lhe pague. Ás vezes é só o resta . Um muito obrigada .
O Linz tem rabos de palha quando fala da Espanha fascista. E para dar apoio à teoria bacoca que desenvolveu junta Portugal aos países de “oposição limitada”. Mas qual oposição? Quando é que realmente houve quem pudesse de facto em continuidade manter publicamente uma linha política divergente da do sistema?
Mário Lobo, agradeço o seu comentário de opositor, pois toca num ponto central da teoria dos regimes políticos de Juan Linz, que lhe quero esclarecer. Permita-me oferecer uma contradição a nível argumentativo, baseada em factos e na própria obra do autor, para demonstrar que a sua crítica é apressada e revela um desconhecimento crasso do conceito de “oposição limitada”.Linz nunca afirmou que em Portugal (ou em Espanha) existisse uma oposição plena, legal e contínua ao nível das democracias liberais actuais. Pelo contrário, cunhou o termo “regime autoritário” para descrever sistemas onde o pluralismo político é restrito e a oposição é tolerada apenas dentro de certos limites, sem que haja a possibilidade de conquistar o poder. O “limitado” significa exatamente isso: o regime permite espaços de dissidência não fundamental, mas suprime qualquer ameaça real à sua continuidade.
A sua pergunta: “quando é que realmente houve quem pudesse de facto em continuidade manter publicamente uma linha política divergente?” parte de um pressuposto falso, pressupondo que Linz exige que a oposição seja totalmente pública e legal. Facto é que não exige. A oposição limitada pode ser semi-clandestina, tolerada de forma intermitente, ou restrita a elites. Em Portugal, temos exemplos claros: Movimento de Unidade Democrática “MUD” (Eu próprio frequentei algumas conferências de Sá Carneiro),, Candidaturas presidenciais de oposição, A actividade do Partido Comunista Português (PCP), Greves e protestos públicos.
O senhor fala de “rabos de palha” de Linz ao falar da Espanha fascista. Aqui a sua crítica é ainda mais frágil. Linz era espanhol, sofreu exílio devido ao franquismo e dedicou décadas ao estudo do regime. A sua obra clássica (“Um regime autoritário: Espanha”) mostra precisamente as contradições internas do franquismo: a existência de “famílias” (falangistas, católicos, monárquicos, tecnocratas) que competiam e mantinham linhas políticas divergentes dentro do próprio regime, algo impensável num totalitarismo. Ele nunca “defendeu” o fascismo espanhol, mas analisou-o com rigor. Acusá-lo de ter “rabos de palha” é um ad hominem sem qualquer sustentação factual.
A sua postura que quer fazer valer como anti argumento é errónea. O seu comentário termina com “Seriedade, seriedade…” , mas a verdadeira falta de seriedade está em desqualificar uma teoria sem a conhecer, em confundir “oposição limitada” com “oposição plena”, e em ignorar a evidência histórica de que, sim, existiram actores em Portugal que mantiveram, de forma contínua, uma linha política divergente do sistema (ainda que sob risco de prisão). Se exige que essa oposição fosse feita em altifalantes na praça pública com total liberdade, então está a definir um critério impossível que apenas vigoraria em democracias, o que tornaria o conceito inútil para classificar regimes autoritários.
Em suma, percebo a sua posição de exigência de seriedade partidária, mas contradigo-o com factos: o conceito de “oposição limitada” é empiricamente verificável em Portugal, e a teoria de Linz é vigorosa. A sua crítica revela uma leitura superficial, ou uma recusa ideológica em aceitar que possa ter existido qualquer forma de dissidência no Estado Novo, o que, ironicamente, também é uma falta de seriedade histórica. Custa a engolir para muitos que foram doutrinados na ideologia do PREC, mas o facto é que o Estado Novo não foi fascista. O resto é propaganda ideológica que hoje a critérios de seriedade. Com os meus melhores votos de um diálogo e uma argumentação fora de ideologias partidárias, António Juso.
Subscrevo e agradeço o esclarecimento, permitindo-me apenas opinar que o que Salazar pretendia evitar a todo o custo – e com toda a razão – era a doutrinação do maldito comunismo soviético, encabeçada por cunhal e seus apaniguados.
Salazar, grande patriota que era, não tolerava, e bem, os malditos marxismo e maoismo.
Obrigada por ter contado a sua experiência. Mas não podemos esquecer coisas importantes. Aqui vão dois exemplos: os milhares de pessoas torturadas e algumas assassinadas em plena rua pela PIDE e o vergonhoso tratamento dado às mulheres, em geral. Ah, e não esqueçamos as Ballet Rose, um género de Epstein Files à la Portugal salazarento. Na verdade, nem me interessa saber se era fascismo, ou não. Era ditatorial e basta.
Cristina Torrão , também o ditatorial carece de justificação. Obrigado pela designação que me dá oportunidade para escrever um artigo sobre o atributo ditadura!
Diz o senhor Alfredo Stoffel :
«A base ideológica do salazarismo / marcelismo é o fascismo italiano».
Quer diferenças antagónicas?
Procure na filosofia, na ética, na estética, na religião, na filosofia política… e, já agora, na praxis…
Eu até diria que, com a sua narrativa, criada pela Internacional Comunista nos anos 20 e reproduzida pela maçonaria e outros liberais, é que se aporcalha a história!
Peço desculpa, esqueci-me de acrescentar:
na estética, no direito, na educação, …
Afinal, na concepção do mundo!