PARA UMA CULTURA DO ENCONTRO ROMPER A INÉRCIA

Como resgatar o Humano da Fragmentação

Do hiperindividualismo à consciência integral do “Eu-Tu-Nós
O empenho em tal causa terá de ser de envergadura civilizacional se não se quer que a civilização se dissolva na inércia. A tarefa começa pela necessidade urgente de uma síntese global que resgate o ser humano ocidental da fragmentação do hiperindividualismo contemporâneo. Para tal seria de encarar a necessidade de uma grande síntese epistemológica e antropológica para salvar a humanidade da sua própria fragmentação.

Temos de proceder a uma leitura histórica cirúrgica. O processo de emancipação individual, que teve no Protestantismo e no Iluminismo os seus motores iniciais, libertou o homem de tutelas medievais, mas, ao ser capturado pelas estruturas económicas e técnicas da modernidade, degenerou no hiperindividualismo e na atomização social. O ego hipertrofiado tornou-se o consumidor perfeito para um sistema que precisa de indivíduos isolados, previsíveis e dependentes de “máscaras” mercantis. Se o indivíduo se esvaziou do seu âmago, da sua mesmidade, as civilizações correm agora o mesmo risco de implodirem por falta de consistência espiritual interna, fechando-se em pequenos nichos de sobrevivência identitária.

A urgência da síntese numa matriz integradora global

A tarefa competiria aos intelectuais, filósofos e líderes espirituais do Ocidente e do Oriente; não se trata da criação de uma nova ideologia política, mas sim de uma Meta-Matriz Relacional (1). A criação de uma matriz conceptual e formativa transcultural, que sirva de base para as relações internacionais e para a educação dos povos, é, depois do reencontro da própria cultura com os seus fundamentos orgânicos, o desafio do nosso século. Uma síntese que assente no reconhecimento de que somos todos “caminheiros na procura e na construção da Verdade”, operando em três eixos fundamentais:

  1. A dialética do humano: Masculinidade e Feminilidade

A desestruturação do mundo atual decorre também da perda de equilíbrio entre as energias arquetípicas do masculino e do feminino, como tenho apresentado  em Pegadas do Tempo: www.antónio-justo.eu. A sociedade técnico-secular hipertrofiou o “masculino tóxico/mecânico” (a conquista, a exploração, a categorização, o controlo e a descrição fria) e marginalizou o “feminino essencial” (a intuição, o acolhimento, a ressonância, o cuidado e a relação por presença). Integrar ambas as dimensões na matriz formativa dos povos é devolver à humanidade a sua totalidade psicológica e existencial. Não há “Nós” inteiro sem a harmonia destas duas polaridades (2).

  1. A reconciliação do Ser: Materialidade e Espiritualidade

O Ocidente secularizado cometeu o erro trágico de decretar o divórcio entre o corpo e a alma, entre o progresso técnico (materialidade) e a profundidade mística (espiritualidade). A síntese proposta exige que a espiritualidade deixe de ser vista como um “anacronismo” ou um “hábito privado”, passando a ser reconhecida como a infraestrutura invisível que dá qualidade e limite ético à ação material. O Oriente tem aqui um papel pedagógico fundamental com as suas filosofias da imanência e da unidade entre mente e matéria (3).

  1. O horizonte teandro-político: Povo expressão do divino

Esta expressão evoca a intuição profunda de que a comunidade humana (o Povo), quando autoconsciente e unida na ressonância, manifesta a própria presença do Sagrado na Terra. Deus não como um monarca exterior que dita dogmas e preconceitos através de uma casta institucional, mas Deus como a força motriz, o “Movente” intemporal que se atualiza na comunhão sincera e sem máscaras entre os seres humanos. Formar os povos neste sentido é educá-los para a sacralidade da relação social (4).

O desafio da implementação na prática

O grande obstáculo a esta visão utópica (no sentido mais nobre de um ideal orientador) é que as estruturas que hoje governam o mundo, financeiras, tecnológicas e burocráticas, prosperam precisamente na ausência de síntese. Elas alimentam-se do preconceito, da divisão e da ilusão de certeza para manter o controlo. Por isso, essa matriz pedagógica global talvez tenha de começar a ser escrita e vivida a partir da base, através de redes transnacionais de pensadores e criadores que, se recusam a aceitar a falência qualitativa da nossa civilização (5).

Estratégias e possíveis abordagens:

As fórmulas do dogmatismo eclesial e do maniqueísmo secular seriam ultrapassadas ao repensar-se o Mistério da Trindade (1=3) e (3=1) e da Encarnação para lá de impostações religiosas ou seculares e devolvê-las ao seu estatuto de matrizes lógicas e existenciais:

– A Trindade como Antídotos ao Maniqueísmo – O pensamento trinitário quebra o binarismo (dualismo). Mostra que a identidade não se faz pela exclusão do outro, mas pela relação de reciprocidade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não competem; coexistem numa dinâmica de doação mútua (perichoresis) onde a unidade preserva a diversidade. Secularizar a Trindade significa criar uma sociedade onde o “Nós” não esmaga o “Eu” nem o “Tu”, mas os potencia (possibilita a sustentabilidade perene da cultura).

– A Encarnação como Reconciliação Matéria-Espírito – Em Cristo, o divino não anula o humano; a carne (matéria) torna-se o veículo do Espírito. Ao esquecer isto, o Ocidente secular hipertrofiou a matéria (o consumo, a técnica) e desintegrou o sentido (um reino simbolizado na estátua de Nabucodonosor, rei da Babilónia, com pés de barro, isto é, símbolo da vida pública  com políticos sem virtude, carentes de méritos e sem valores intrínsecos: um colosso sem alma que não pode resistir ao embate que a espera).

O novo “momento Beneditino” e o encontro de caminheiros

Uma estratégia que reinterpretasse o espírito original de São Bento para o século XXI poderia tornar-se numa cirurgia historicamente oportuna. De facto, quando o Império Romano colapsou no caos e no maniqueísmo bárbaro, foram os mosteiros beneditinos que preservaram a cultura, criaram novos modelos agrícolas e fundaram comunidades de paz baseadas no equilíbrio entre o trabalho material e a contemplação (Ora et Labora).

Teríamos um Neo-Monasticismo Ecuménico e Intercomunitário de cariz secular e espiritual, com um eixo de caracter vertical seguindo a Via Mística Transcultural como tecto. Enquanto o Ocidente acentuaria o valor do Eu (Trindade/Encarnacão) o Oriente expressaria o valor do Todo (Budismo/Vazio Interdependente). Deste modo abdicar-se-ia da matriz de pensamento maniqueísta dos opostos rivais legitimadores de uma cultura da guerra para se ultrapassar o binarismo/dualismo e passar-se à fórmula trínia de uma cultura de paz de avanço em espiral.

Teríamos, por um lado, grupos seculares e religiosos em co-presença. Haveria a criação de espaços que funcionem como laboratórios de uma nova síntese, onde crentes e não-crentes se sintonizam através da via mística (inclusiva) que, por natureza, despoja o ser humano de dogmas e preconceitos, permitindo o encontro direto com o “Movente” e por outro lado teríamos o casamento do ocidente com o oriente em que o passo do Ocidente consistiria em caminhar em direção ao Oriente através da mística, reaprendendo a dissolver o ego inflacionado na teia da interdependência universal (o conceito budista de Pratītyasamutpāda ou o Tao) e o passo do Oriente seria caminhar em direção ao Ocidente assimilando a valorização ontológica da pessoa individual, não como um átomo isolado da sociedade de consumo, mas como um nó sagrado, único e irrepetível na rede da existência com o protótipo relacional trinitário.

Esta caminhada comum do Cristianismo e do Budismo não visa fundi-los numa religião universal cinzenta, mas sim usá-los como espelhos mútuos para corrigir os excessos e cegueiras de cada civilização.

Na minha página virtual Pegadas do Tempo, tal como neste ensaio, procuro fomentar momentos de reflexão e análise que sirvam de estímulo à ponderação urgente de que carecemos, neste tempo em que a cultura da concorrência ameaça devorar o que o humano tem de mais genuíno. Numa perspetiva de construção de uma cultura universal de paz, poderíamos, cada qual no seu contexto, ir elaborando e desenhando a arquitetura operacional de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial. O momento axial que atravessamos pede a visão de um pragmatismo profético. O grande desafio da era da Inteligência Artificial e da hiperconexão virtual não se resolve com mais isolamento nem com o apego a formalidades políticas e pastorais estéreis, mas sim com o entrelaçamento de comunidades em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão. Constatamos como as instituições falham e como a “Palavra”, enquanto energia mistério, pode ser encarnada hoje através de vetores cruciais:

  1. A descentralização e os novos rituais na era da IA

Se a IA automatiza a lógica, a eficiência e a descrição abstrata, o que resta para o Homem é a capacidade de presença, o mistério e o vínculo afetivo. Os conventos físicos tradicionais servem a poucos, mas o modelo de “redes descentralizadas” permite que o espírito comunitário se propague em capilares pela sociedade.

– A Palavra como Energia: A Palavra aqui não é o “discurso” ou o dogma dogmático, mas a força geradora de realidades (o Logos: a “Palavra” no processo de ser encarnada).

– Novos Rituais: Precisamos de dinâmicas virtuais e físicas que funcionem como portos de abrigo contra o ruído. Não se tratam de rituais de “sacristia”, de “lojas”, de centrais partidárias, nem de fóruns político-económicos intergovernamentais, mas sim de momentos estruturados de paragem, escuta e partilha autêntica, que as pessoas possam levar consigo para o seu quotidiano. Quanto à sua orgânica, creio que um modelo de maior abrangência global poderia ser elaborado com as devidas adaptações, inspirando-se na estrutura da Igreja católica que, apesar do seu carácter piramidal, contempla o momento democrático e a valorização das dimensões regionais.

  1. A arte e o desporto como liturgias encarnadas

Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, filmes, teatro espontâneo, concertos, etc., onde a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! Tal implicaria uma autêntica revolução pedagógica, mas uma revolução que valeria a pena experimentar, moldada pelas necessidades e potencialidades de cada comunidade. Imagine-se, nas igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma catarse de carácter psicológica, espiritual e física, na qual o indivíduo e o grupo, em interação, expressassem o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção.

Este teatro improvisado, longe de ser mero entretenimento, constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito. O “palco” da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, atores e espectadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

Uma expressão de cura humana integral, não alicerçada em definições de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual, pressupõe o Esvaziamento do Ego (Kenosis). Esta Kenosis não é um mero apagamento niilista, mas antes uma expansão por esvaziamento: o artista, ao recolher-se, não diminui, torna-se antes uma membrana permeável por onde o divino e o humano trocam respirações.

Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte converte-se num canal para a ressonância trinitária e pressupõe, além disso, uma espiritualidade isenta do excessivo odor a velas e das habituais vénias ao Zeitgeist. A ressonância trinitária não é um conceito abstrato; é a vibração concreta de uma relação que se estabelece no intervalo entre a nota e o silêncio, entre o gesto e a pausa, entre o eu e o Tu.

O esvaziamento do ego, nesse contexto, é o único gesto que permite à comunidade e não ao intérprete tornar-se protagonista da cura. Como na improvisação teatral, aqui o “palco” não é o lugar do virtuoso, mas o lugar do servidor da obra. E a obra, por sua vez, não pertence ao artista, nem ao público, nem sequer à Igreja como instituição: ela pertence ao encontro (corpo místico de Cristo) esse instante fugidio (a ressoar em cada um) em que o corpo, o espírito e o Mistério coabitam sem mediações desnecessárias. É nessa nudez ritual que a redenção deixa de ser doutrina e se faz carne, novamente, em cada respiração de vivência partilhada.

O que o mundo hoje precisa é de uma espiritualidade sem cheiro a velas e sem vénias ao Zeitgeist: Os centros paroquiais e culturais já têm a logística e o espaço físico. Falta-lhes libertarem-se das exterioridades formais para oferecerem o que o mundo pede: espaços de silêncio, de encenação da vida, de partilha pós-concorrência. O desporto e a arte, vividos de forma comunitária, tornam-se a nova mística encarnada. A espiritualidade autêntica não se confunde com a encenação piedosa (rituais sentimentais, as parafernálias devocionais) nem com o servilismo às modas intelectuais ou políticas do momento, sejam elas o ativismo superficial, o tecnoutopismo ou o relativismo estéril que nos amarra a todos à pia onde todos se servem da “lavagem” (restos de comida) pública. Essa espiritualidade despojada exige uma ascese de atenção que corresponde a estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, a habitar a tradição sem a mumificar e a acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade.

  1. A Fenomenologia das Fórmulas básicas e o Impacto político

O indivíduo isolado é politicamente impotente e facilmente engolido pelas orgânicas burocráticas da modernidade, facto este que se observa cada vez mais consumado nas novas formas de estar na polis. Para recuperar a voz, as pessoas  têm de se organizar em grupos e assim se formar uma nova antropologia e uma nova sociologia. Para isso precisa-se:

– Consciencialização antropológica: Cada cultura esconde fórmulas básicas de sabedoria (como a Trindade no Ocidente ou o Vazio Interdependente no Oriente). Fazer uma fenomenologia dessas fórmulas significa traduzi-las em matrizes de comportamento em que se afirme a cooperação em vez de maniqueísmo e a inclusão em vez da exclusão.

– Para lá de Hans Küng: O projeto Ethos Global de Hans Küng lançou as bases teóricas para uma ética planetária partilhada. O passo seguinte, exige porém  que os governantes e o clero apliquem isto na organização prática mas como virtude e não como conteúdos abstratos como pretendem forças que se encontram por trás de agendas políticas. As instituições não podem ser núcleos fechados (guetos de certezas) nem balões ao sabor das águas do politicamente correto; têm de se enredar com outros grupos para criar massa crítica e impacto político-social.

Criar Plataformas de Polinização cruzada

Como resposta à urgência de curar a fratura maniqueísta da nossa sociedade pressupõe-se criar-se uma estratégia de dupla via que transforma a paróquia e a sede partidária de espaços de trincheira ideológica em verdadeiras plataformas de polinização cruzada.

Ao criar eventos culturais abertos em paralelo com os religiosos, a paróquia deixa de ser um “gueto de crentes” e passa a ser a ágora da comunidade de cunho católico. O segredo está em fazer com que o crente e o laico se encontrem não para debater dogmas, mas para comungar de uma experiência humana partilhada que se expressa em ações conjuntas.

A Arte com Conteúdo Integral como Terceiro Elemento

Para que este convívio aconteça sem desdém mútuo, a arte com conteúdo integral funciona como o lubrificante existencial perfeito.

O Laico entra no espaço atraído pela beleza, pela música ou pelo teatro, sem o medo de ser doutrinado ou de encontrar o “cheiro a sacristia”.

O Crente sai da sua zona de conforto e aprende a ver a manifestação do Mistério e da Palavra também fora das fórmulas litúrgicas tradicionais.

O Encontro dá-se na ressonância da mensagem da obra. A arte integral toca no âmago do ser, onde as máscaras do “ateu” ou do “católico” caem, restando apenas dois caminheiros perante o belo.

A Despolarização dos Partidos Políticos

Ao estender esta lógica aos centros nevrálgicos dos partidos políticos, as consequências revelam-se igualmente profundas. Hoje configurados como fábricas de ideologia e de competição agressiva, se estes organismos passarem a fomentar práticas abertas e não apenas doutrinas fechadas, a política poderá recuperar a sua dimensão antropológica primordial: a de serviço ao “Nós”.

Imagine-se uma sede partidária que abra as suas portas a dinâmicas de teatro espontâneo, a serviços de diaconia como nas paróquias, a projetos de ecologia local ou a debates artísticos desprovidos de fins eleitorais. Ao fazê-lo, ela abdica do papel de “ator dominante” para se focar na mensagem e na comunidade. Cria-se, assim, nesses espaços, a prática do exercício cívico como virtude e não já como mera defesa de interesses sectoriais ou de captura do poder.

Esta convivência prática, horizontal e desarmada constitui o único antídoto eficaz contra o desaparecimento do indivíduo na orgânica mecânica do nosso tempo. Ela é a encarnação viva de uma cultura de paz em substituição da cultura de competição.

Mas onde reside, afinal, o círculo vicioso que paralisa as instituições contemporâneas? Estará no medo de perder a identidade ou na incapacidade de gerir a pluralidade? Na verdade, ele emerge da trágica aliança entre o receio da descaracterização, a gestão da “miséria” institucional, a inércia burocrática e a tendência humana para se refugiar em guetos de identificação fácil. Esta equação complexa revela por que razão a transição para uma consciência integral (Eu-Tu-Nós) constitui um desafio hercúleo e plurivalente. Enquanto as direções se limitarem a administrar a miséria, seja a escassez de recursos, a perda de sócios ou a debandada de militantes, a sua visão encolhe. O foco desloca-se, então, da missão e do horizonte do bem comum para a mera sobrevivência orgânica.

A Patologia do Clientelismo Institucional

Este refúgio na rotina não é inócuo; ele germina e perpetua verdadeiros ecossistemas de clientela, cuja dinâmica se revela em três movimentos complementares e devastadores.

O primeiro é o circuito fechado. As paróquias e os partidos políticos, ao enclausurarem-se na sua própria lógica, passam a produzir conteúdos, linguagens e rituais feitos à medida exclusiva dos seus habitués. Toda a sua energia criativa e comunicacional é canalizada para confortar a clientela fiel, assegurando a sua lealdade a qualquer custo. Contudo, esta sintonia fina com o interior tem um preço exorbitante: o alheamento total em relação ao resto do mundo, que deixa de ser interpelado para ser meramente ignorado.

O segundo movimento é o consolo das máscaras. A rotineira clientela, prisioneira deste ciclo, aceita de bom grado a máscara institucional — sejam as exterioridades formais do rito religioso, sejam a cartilha ideológica do partido. Esta adesão não nasce, porém, de uma convicção profunda, mas da necessidade visceral de se agarrar a uma ilusão de pertença e de certeza num mundo cada vez mais fluido e desconcertante. A máscara funciona como um bálsamo que anestesia a angústia da desorientação.

Da conjugação destes dois fatores emerge o terceiro movimento que se expressa no desdém pelo exterior. Instaura-se um fosso intransponível: quem está dentro olha para fora com desdém ou receio, encarando a alteridade como uma ameaça à sua identidade conquistada a ferros; quem está fora, por seu turno, retribui o olhar com indiferença ou repulsa, vendo naquela instituição um clube obsoleto e surdo. Neste jogo de espelhos distorcidos, a cultura da concorrência e o maniqueísmo politico-ideológico vencem uma vez mais, cimentando a paralisia e inviabilizando qualquer ponte para o diálogo autêntico.

Romper o Enredo da Inércia através de infiltração para o Encontro

Dado que o desafio é plurivalente e as instituições padecem do peso esmagador da inércia, a transformação dificilmente emanará de uma decisão de topo das suas direções administradoras. A mudança estrutural exige, assim, uma abordagem de cissura e infiltração antropológica que atue silenciosamente nos interstícios do poder.

A primeira via é a criação de factos consumados, ou a via prática. Em vez de tentar convencer uma direção paroquial ou partidária a rever a sua visão teórica, o caminho passa por propor pequenos projetos concretos e autónomos, um concerto de conteúdo integral, ações de voluntariado, uma encenação espontânea, um círculo de silêncio, que, valendo-se da logística da instituição, falem uma linguagem universal. Quando a clientela habitual e os novos “caminheiros” se misturam na experiência do belo, o medo da perda de identidade dissolve-se pela evidência da alegria do encontro.

Paralelamente, impõe-se a afirmação de uma identidade aberta, no sentido de uma verdadeira trindade operacional. Importa demonstrar na prática que a matriz trinitária não destrói a identidade, pelo contrário, expande-a. A identidade cristã ou humanista não se perde quando se abre ao diálogo, ao fazê-lo, atualiza-se. O 1 só se realiza plenamente quando descobre que é 3, ou seja, que a sua substância mais íntima é a própria relação com o outro.

Compreender o mecanismo do medo institucional é o primeiro passo para construir as pontes que o contornam. Ora, o poder estruturado na nossa contemporaneidade desenvolveu uma imunidade quase perfeita à mudança orgânica vinda da base. O pragmatismo seletivo transformou a própria sociedade numa vasta rede de clientes. Esta lógica mercantil e de manutenção de privilégios não tolera a osmose com o indivíduo livre; prefere a filtragem e a exclusão para garantir que as engrenagens burocráticas e comerciais continuem a rodar sem sobressaltos. Daí a solidariedade cúmplice entre as instituições: todas têm o indivíduo como suporte, mas todas são solidárias em mantê-lo impotente. Uma cultura que apostasse na pessoa desenvolveria uma escola que ensinasse o aluno a pensar, cultivando um espírito simultaneamente crítico e inclusivo; a instituição, porém, prefere formar indivíduos adaptados e dependentes. Por isso, quando surgem pessoas ou grupos que apresentam conceitos críticos diferentes, a sociedade reage catalogando-os como teorias da conspiração e não como teorias alternativas.

Este mesmo padrão dinâmico, que observamos nas organizações políticas e educacionais, revela-se de forma paradigmática no atual sistema literário e cultural. O sistema editorial contemporâneo já não procura a originalidade do âmago do ser, o “conteúdo integral” ou a qualidade científica; prefere o produto padronizado, os canais de comercialização instalados e os autores que alimentam a mentalidade mercantil do entretenimento rápido ou da ideologia da moda, nomeadamente a literatura que fomenta o politicamente correto ditado pelo sistema (Quem vive do sistema não se insurge e quem está fora dele encontra-se na dependência dele). Desta forma, a autêntica criatividade é asfixiada pela burocracia do mercado e por interesses instalados, revelando que a inércia não se circunscreve à esfera política ou religiosa, mas constitui um fenómeno profundamente cultural. Para que as fissuras sejam verdadeiramente eficazes, terão, pois, de atravessar todos estes estratos, infiltrando-se tanto nos códigos do poder como nos bastidores da produção simbólica.

A Urgência de uma Nova Geração de Líderes e Funcionários

Face à rigidez e à impermeabilidade institucionais, a estratégia terá de se deslocar para a raiz biológica e espiritual das próprias organizações. A formação de uma nova geração de líderes e funcionários, religiosos e não religiosos, emerge como a única via capaz de operar a partir do interior do sistema, precisamente por serem eles os futuros herdeiros das chaves logísticas e do poder instituído.

Para que esta geração não seja corrompida pela inércia burocrática e pelo clientelismo logo à nascença, a sua preparação, em seminários, faculdades de letras, escolas de ciência política, centros de gestão cultural e universidades, teria de assentar em três pilares inovadores:

  1. Uma Pedagogia da Plurivalência que eduque os futuros líderes na capacidade de habitar a dúvida e a complexidade, em vez de os treinar para gerir certezas dogmáticas ou cartilhas partidárias.
  2. Uma Hermenêutica da Complementaridade que ensine a ler as fórmulas basilares das civilizações (como a Trindade, a Encarnação…) como gramáticas de paz e de relação Eu-Tu-Nós, libertando-as do espartilho do maniqueísmo institucional.
  3. A Vocação de Facilitadores, não de Actores formando líderes cujo ego se apague para dar lugar à mensagem e ao espaço de ressonância comunitária, que compreendam que a sua missão não é “administrar a miséria” da clientela, mas abrir as portas à vida encarnada.

Esta lógica formativa deve estender-se, com igual acuidade, às instituições de caráter económico e aos seus funcionários. Para garantir um mínimo de justiça e equilíbrio, seria imperativo estabelecer um teto para os ganhos pessoais, canalizando o excedente para fundações culturais e de beneficência pública, princípio que deveria aplicar-se, de igual modo, aos funcionários políticos. Com efeito, as atuais fundações políticas, tal como concebidas, tendem a estabilizar uma cultura de guerra e rivalidade, em vez de fomentarem uma autêntica cultura da paz.

O Enredamento Silencioso das Novas Lideranças

Dotados de uma visão ecuménica e plurivalente, estes novos guias teriam como primeira tarefa prática subverter a rigidez seletiva precisamente através do enredamento de grupos. Clérigos ou dirigentes com autoridade formal, possuiriam a legitimidade para aceder aos recursos e às redes logísticas atualmente fechadas, colocando-os ao serviço de encontros genuínos, da arte com conteúdo integral e de rituais descentralizados que acolham tanto o crente como o laico. Trata-se, naturalmente, de uma autêntica subversão pacífica exercida a partir das chefias.

Uma vez que a fortaleza do poder secular e religioso está blindada contra os cidadãos independentes e os leigos que tentam forçar a entrada, a solução reside em garantir que aqueles que assumem as muralhas já trazem no coração o desejo profundo de as abrir ao mundo. A crença debate-se na cabeça como um produto de mercado; a fé aberta deita raízes no peito e une-nos ao “Movente” sem precisar de explicações.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©

(1) A base filosófico-teológica e quântica para essa reconciliação dos opostos já se encontra no chamado mistério da Trindade em  o 1=3 e o 3=1 e no chamado mistério da incarnação em que em Jesus Cristo se mistura em termos de igualdade matéria e espírito servido a sua pessoa  ao mesmo tempo como bússola. A sociedade ocidental relegou essa visão de complementaridade e de inclusão para os conventos e construiu o modelo institucional secular baseado na dinâmica maniqueia, o que levou a sociedade secular a distanciar-se mais ainda dos modelos orientais. Por isso a acentuação da via mística seja um ponto de saída para o problema e um passo em direção de reconciliação com o oriente. O oriente poderia por seu lado dar um passo no sentido de valorização da pessoa em relação à sociedade.

(2) O Ocidente hiper-racionalizou e mecanizou a sociedade (mediante uma hipertrofia de um certo princípio masculino de controlo e segmentação), esquecendo-se da dimensão receptiva, relacional, cíclica e integradora (o princípio feminino), essencial para a ressonância e para o cuidado da vida.

(3) A resposta à crise secular não é o desprezo pelo progresso material ou pela ciência, mas a sua subordinação a um eixo espiritual. A matéria deve ser vista como a manifestação visível do invisível, e a técnica deve servir o âmago do ser, não a sua alienação

(4) Esta perspetiva pedagógica e política transformaria radicalmente as relações de poder. Se a sacralidade (Deus) não estiver apenas isolada num céu distante ou fechada num dogma, mas for reconhecida na própria comunidade humana em movimento (o Povo), o outro deixa de ser um concorrente ou um objeto funcional e passa a ser um co-caminheiro no Mistério (Neste ponto seria necessário acentuar-se o caracter místico do cristianismo se não quisermos tornar-nos em co-cangalheiros da cultura ocidental).

(5) Numa matriz desta natureza, a Verdade deixa de ser uma posse estática de uma cultura, religião ou partido (o que gera o preconceito e o dogmatismo) e passa a ser um horizonte em construção. Os intelectuais e pensadores de hoje teriam a missão de desenhar os programas de formação que equacionem o referido neste ensaio. Seriam programas que não ensinassem certezas ideológicas, mas que educassem os povos para a capacidade de viver com o paradoxo, de escutar o silêncio, de dialogar na diferença e de reconhecer que a nossa linguagem é apenas descritiva e apenas descreve o caminho, enquanto o caminho se faz caminhando juntos. Esta visão ecuménica e integradora seria a vacina contra a barbárie do egoísmo coletivo e individual. É uma utopia necessária para dar consistência às civilizações que ameaçam desmoronar-se sob o peso do seu próprio vazio existencial. O momento histórico em que nos encontramos mereceria relevância axial.

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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