UMA BOA ACÇÃO

Naquela manhã, uma névoa densa pairava sobre Kassel. Aquele cinzento pesado que penetra até aos ossos e oprime a alma, ainda antes de o primeiro gole de café afastar o cansaço. Estavam agendadas as compras do dia: as incómodas e intermináveis obras em frente à loja, o carrinho de plástico a ranger, a luz fria do Aldi que iluminava a indiferença dos rostos apressados. Nada indicava que, entre as prateleiras de metal e o zumbido dos leitores de códigos de barras, um sol muito particular iria nascer.

A minha esposa, Carola, estava na fila do caixa, de olhar perdido no vaivém monótono das compras, quando reparou no rapaz jovem que a sucedia na fila da caixa. Não tinha carrinho, apenas os braços carregados com uma melancia e um pacote de bolachas, equilibrados com a perícia de quem não gosta de perder tempo. Num gesto de humanidade espontânea, ela sorriu-lhe e convidou-o a passar à sua frente. Era pouco, dir-se-ia, quase nada porque significava apenas um passo para o lado, um aceno de mão.

Mas o jovem, com uma serenidade desarmante, não se limitou a aceitar.  Apontou para a jovem que estava atrás dele e que segurava apenas três coisas na mão e pediu-lhe que a deixasse passar à frente em vez dele.

Carola, gentil, abriu os braços num gesto largo e espontâneo disse:

“Claro, passem os dois, à vontade.”

O Jovem e a jovem sorriram, daqueles sorrisos genuínos, sem pressa e sem máscaras. Foi como se uma pequena onda de calor tivesse varrido a fila da caixa e o corredor. Depois, como agradecimento ele quis ajudar a colocar os artigos da minha esposa na esteira rolante.

O jovem primeiro atravessou o caixa, pagou e, quedou-se pacientemente ao lado dos tapetes rolantes, à espera de Carola. Quando ela terminou, ele aproximou-se com uma oferta inesperada:

“Deixe-me levar-lhe as compras até ao carro.”

Ela recusou, por instinto, embora constrangida com o peso, porque afinal, levava dois pacotes de água, cada um com seis garrafas pesadas. Mas ele, que ainda não contava com décadas de peso da vida, não aceitou um “não” por resposta. Pegou nos pacotes com a firmeza de quem ainda carrega consigo a força das boas maneiras e seguiu-a até ao estacionamento, com passos seguros. Já junto ao carro quis oferecer-lhe um exemplar do nosso jornal regional, HNA, já que era distribuidor de jornais. Carola agradecida respondeu-lhe que era assinante do jornal.

Ele, limpando as mãos às calças e com um brilho maroto no olhar, confessou:

“Eu só queria fazer algo de bom e começar o dia com uma boa ação.”

Foi então que Carola, iluminada por aquela troca tão singela, lhe respondeu com a presteza e a ternura que já germinava no seu coração:

“Mas o senhor com a sua atitude gentil já fez a boa ação e não foi só uma, foram mais! Ao deixar a colega de trás passar, ao ajudar-me e ao sorrir-me com esta cordialidade tão pura, sem segundas intenções. Isso já era para mim o sol da manhã.”

Ele, por um instante, ficou em silêncio, como se estivesse a saborear o doce sabor residual das palavras dela. Depois, voltou a sorrir. Fazia parte daquelas raras pessoas que esquecem imediatamente cada boa ação assim que a praticam e pensam apenas na seguinte. Não contava as suas boas ações, limitava-se a deixá-las para trás e a seguir em frente.

E acreditem: aquele sorriso, nascido no corredor de um supermercado qualquer, foi um clarão que desfez o nevoeiro cerrado que a manhã nos trouxera. Mas a magia não parou ali. Ao chegar a casa, a Carola contou-me tudo e as palavras dela envolveram-me como um cobertor ao lume. Ela, ao transmitir-me esse instante, praticou também a sua boa ação, fez com que a faísca saltasse para mim. E eu, agora, ao confiá-la a estas linhas, passo-lhe a chama a si, que me lê.

É assim o desabrochar do dia. Não vem num estrondo, nem num acontecimento grandioso. Vem num desvio de passo, numa cedência de lugar, num oferecimento de braços cansados, num sorriso que se atravessa no nosso caminho e nos deixa, sem pedir nada em troca, a sensação profunda e cálida de um amanhecer eterno.

Porque o que custa zero é, no fim, o que tem mais valor. E as pegadas que ficam no tempo não são as das pressas, mas as dos pequenos gestos que nos fazem parar e olhar o outro.

António da Cunha Duarte Justo,
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

3 comentários em “UMA BOA ACÇÃO”

  1. Texto inspirador e sensível, que exalta a bondade humana com ternura, esperança e emoção genuína.

  2. Que saborosas palavras ! Apetece dizer : Quem de graça dá , De graça recebe todo o dia ! Assim se fáz , uma casa, no Espirito Santo com alegria e amor. e a tristeza não cabe nela …. . OBRIGADA

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