A Pobreza não é Moeda política dos de Ontem nem dos de Hoje
Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.
A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.
Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de “nós contra eles”, esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.
A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico
A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre “bons” e “maus”, servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.
Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.
É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.
Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578