O GLOBALISMO ESTÁ A SER A INVERSÃO DO CRESCIMENTO

Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação.

O globalismo vigente, na sua expressão mais acabada, pressupõe que o mundo possa ser administrado como um mercado. Não é uma tese nova, é o velho sonho da gestão total, o pesadelo que Tocqueville antecipou como “despotismo suave”: um poder imenso e tutelar que não destrói radicalmente, mas que impede. Impede que nasçam coisas novas. Impede que os povos se reconheçam a si mesmos, impede que o indivíduo se torne pessoa soberana e consciente. Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo. É orwelliano não por ser brutal até porque a brutalidade seria reconhecível, resistível, mas por ser amável, personalizado, inconsciente de si mesmo, torna-se estratégico na metodologia de produzir “cidadãos” serviçais. O algoritmo não censura com decreto, mas silencia por omissão e pela intervenção de instituições políticas nele para que as redes sociais não questionem o arco do poder. Não proíbe, mas também não mostra. Assim se constrói a ortodoxia prepotente: não pela força, mas pela curvatura do espaço em que o pensamento se pode mover.

A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo. Não se trata aqui de xenofobia, trata-se de reconhecer que nenhum ser humano é produto substituível.

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de “extremismo”, é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram.

A saída não está na condenação da realidade, mas sim na sua compreensão. Compreender exige o que os Gregos chamavam gnóthi seautón: conhece-te a ti mesmo. Cada nação, cada cultura, cada pessoa que sente este mal-estar difuso tem de reconhecer em si mesma a origem de todo o mal e de todo o bem. Não para se absolver, mas para se tornar capaz de agir.

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

COMO SALVAR A TRADIÇÃO DO FOGO DE ARTIFÍCIO SEM ENLOUQUECER CÃES, PESSOAS SENSÍVEIS E BOMBEIROS

O céu não precisa de gritar para ser bonito

Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.

Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch… pum.

Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse

Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um “pum” simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz “oh, que lindo”, o cão sente: “é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração”. Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.

E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos “é tradição”, estamos a dizer: “o seu desconforto é o preço da minha nostalgia”. E isso é, pelos vistos, um bocado feio.

Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico

Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.

Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.

Alternativas? Há-as a montes e são fixes

Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar “ooh” por cima dos Fch… pum!  Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.

E nos casamentos? Em vez do tradicional “susto de pólvora” depois do “sim” ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.

Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão

Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.

O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.

Não queremos proibir, mas queremos que a tradição se vista de novo

Ninguém aqui quer ser o “chato da festa que acabou com os foguetes”. Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar. Morre quando se recusa a desenvolver.

As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.

E se não se adaptar? Bem, aí a proibição virá naturalmente. Porque a lei, mais cedo ou mais tarde, acompanha o bom senso. E o bom senso, hoje, diz: ninguém precisa de acordar 90% do bairro para celebrar.

Conclusão

Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.

Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.

E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Escrevo isto por uma questão de sensibilidade e de higiene pública e também porque já levei com foguetes na varanda e restos de cartuxos na piscina e desde então prefiro um bom espetáculo de luzes e um cão sem tiques nervosos!

 

O CORPO DE DEUS

Não me peças definições,
o Corpo não se curva ao nome.
Ele é a hóstia sem moldura,
o chão que anda, o pão que some
nas mãos abertas da aventura.

O que é teu, o que é meu,
que fronteira se inventou
para o pó que Deus mexeu?
Na rua onde o povo orou
nenhum dono prevaleceu.

Peregrino do instante,
descalço de todo o ter,
vejo o sol na hóstia andante
e o infinito a estremecer
numa migalha de pão constante.

Céu e terra já não pesam
na balança do poder.
Onde dois corpos se beijam
ou dois pobres vão comer,
eis o altar que não apresam.

Corpus Christi sem fronteiras,
sem doutrina que o confine.
Passam as procissões inteiras
e o que resta é o que fascina:
um Deus contigo no pó das fileiras.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

O CORPO QUE PERMEIA O MUNDO

A quinta-feira que transcende o calendário

Há uma festa que a terra não ousaria inventar sozinha. É a Festa do Corpo de Deus. Nela, o Deus de Jesus Cristo, que os sábios dizem incriado e une Céu e Terra, revela-se de modo inesperado: tem corpo. Não um corpo cativo da matéria, mas a matéria redimida de ser apenas matéria. Ele é o alfa e o ómega do universo, o princípio onde tudo começa e o fim para onde tudo caminha, mas no meio do tempo faz-se pão.

Neste dia, as procissões deslizam pelas estradas do mundo como veias abertas de um corpo imenso. O povo caminha e cada passo é uma peregrinação silenciosa: as pessoas são peregrinos no seu próprio corpo, descobrindo que a carne não é prisão, mas véu luminoso. Há festa. Há cântico. Há pó nas sandálias e incenso no ar. E a rua, que tantos julgam território do poder, do comércio, da indiferença, torna-se templo sem muros.

Eis o sentido escondido, quase herético na sua simplicidade: a fé não se recolhe nas sacristias. Ela sai à rua e ocupa o que é de todos. Mostra que o sagrado não pede licença aos donos do mundo. A rua pertence ao corpo que ora, ao passo que louva, à terra que beija a hóstia que passa.

Corpus Christi é a festa da transubstanciação. Mas cuidado: não apenas do pão. O milagre que ali se anuncia é maior: toda a matéria é capaz de Deus. O vinho, o trigo, a água, o barro, a carne ferida e a alegria súbita, tudo pode tornar-se presença. A transubstanciação é um sinal e um mistério que envolve a vida inteira. É o céu que desce à terra sem a anular. É o espírito que abraça a matéria sem a negar. É a unidade entre o que vemos e o que esperamos, entre o que tocamos e o que nos toca para sempre.

Assim, o Corpo de Cristo não é uma ideia. É uma realidade que incorpora céu e terra, espírito e matéria. E quem caminha na procissão, mesmo sem saber, ensaia o gesto universal: a fraternidade que ainda não aprendemos, a união que o mundo despedaçou, o pão que será sempre partilhado, à maneira do gesto de Jesus na memorável quinta feira no jardim das oliveiras!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

ALEMANHA PERDE PARA  PORTUGAL A CORRIDA AO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleição

A Alemanha perdeu o seu lugar no Conselho de Segurança da ONU, que ocupava há oito anos. A Áustria e Portugal candidataram-se a uma das duas vagas no grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros Estados, tendo a Alemanha de ceder o seu lugar. A candidatura de Portugal era para um mandato de dois anos. Recentemente, a Alemanha não tem contribuído para a prevenção de conflitos, mediação e acção humanitária, como exige o Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança é composto por 15 Estados-membros, sendo as suas decisões vinculativas para todos os Estados-membros da ONU. Este órgão máximo da ONU pode impor sanções, enviar missões de manutenção da paz e autorizar o uso da força militar.

Os cinco membros permanentes, EUA, Reino Unido, França, China e Rússia; são potências nucleares e têm poder de veto.

A posição da Alemanha no conflito do Médio Oriente e o seu excessivo envolvimento na guerra na Ucrânia foram certamente factores determinantes na eleição. A Alemanha não reconhece um Estado palestiniano.

A vaga no Conselho de Segurança é para o período de 2027-2028 e parece encontrar-se em boas mãos. Será de esperar que Portugal não se alinhe atrás de nenhum dos actores geopolíticos para poder manter a sua capacidade diplomática.

O ministro Paulo Rangel teve a iniciativa de organizar a candidatura de Portugal. Portugal ao lado de tantas nações revela-se mestre em diplomacia. Tinha como rival a forte Alemanha que foi deposta…

Portugal foi eleito como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, para o biénio 2027/2028.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo