COMPENSAÇÃO FINANCEIRA ENTRE OS ESTADOS ALEMÃES EM 2025

Exemplo de sensatez nacional e de solidariedade

 

Na Alemanha, os estados mais ricos apoiam, financeiramente os estados com padrões económicos mais baixos anualmente.

Assim, em 2025, quatro estados federais apoiaram os outros 12 estados federais (os chamados Estados doadores e os  Estados beneficiários).

A Baviera contribui com uma transferência de compensação de 11,7 mil milhões de euros, Hesse com 4 mil milhões de euros,  Baden-Wurtemberg com 4 mil milhões e Hamburgo com 0,3 mil milhões.

António Justo

Pegadas do Tempo

FÁBULA PARA O NOSSO TEMPO BASEADA NO ENIGMA DE TEBAS

Na Europa, uma nova Esfinge (1) ergue-se sobre as cidades. Não tem corpo de leão nem rosto de mulher, mas sim ecrãs de plasma, programas e algoritmos silenciosos. Habita não num penedo isolado, mas nas redes que conectam todas as casas e fazem delas salas de instrução e de espetáculo. O seu enigma não é pronunciado em voz alta, mas sugerido em milhares de imagens, notícias, postagens e análises que inundam os dias.

Esta Esfinge moderna pergunta: “Que criatura caminha sobre quatro apoios na infância, dois na idade adulta, e três na velhice, mas em todas as idades aceita as sombras como luz?”

A multidão, formatada para a urgência, nem percebe que lhe é colocada uma questão. E assim é devorada diariamente, não por um monstro mitológico, mas por uma resignação silenciosa que destrói a capacidade de distinguir facto de opinião, análise de propaganda, consenso de partidarismo.

Os Édipos modernos chegam cheios de confiança. Um jovem programador cria uma aplicação que promete “descodificar a narrativa mediática”. Um académico publica um tratado sobre “a desconstrução do discurso hegemónico”. Um ativista organiza fóruns de “verificação de factos”. Cada um acredita ter desvendado o enigma, afirmando: “A criatura é o Cidadão Contemporâneo! Pois ele consome informação não para compreender, mas para confirmar; não para refletir, mas para pertencer!”

Mas aqui a fábula diverge do mito antigo. Estas Esfinges não se atiram dos penhascos. Aplaudem. Incorporam as “soluções” nos seus algoritmos (2). O programador vende a sua aplicação a um conglomerado mediático. O académico é contratado como comentador. O ativista recebe likes suficientes para se sentir vitorioso. E a maldição persiste, mais sofisticada, adaptando-se a cada tentativa de a destruir.

Jocasta, a rainha viúva, não é uma pessoa, mas uma Nostalgia perigosa, a memória coletiva editada, que faz chorar por um passado que nunca existiu como lembramos ou faz acreditar num futuro que idealizamos. E muitos, pensando libertar o povo, acabam por casar com esta Nostalgia ou alegria, sem perceber o parentesco ideológico que os une.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

(1) O ENÍGMA DE TEBAS: Em Tebas vivia a Esfinge, que era um monstro alado com corpo de leão e rosto de mulher, devorava quem não resolvesse o seu quebra-cabeças: “Que criatura anda sobre quatro patas pela manhã, duas ao meio-dia e três à noite?” Toda a cidade vivia aterrorizada porque quem falhasse era engolido. Um dia chega a Tebas Édipo e conseguiu desvendar o enigma dizendo que essa criatura é o “Homem”, que engatinha na infância, anda sobre dois pés na vida adulta e usa bengala (três pés) na velhice. A Esfinge então despenhou-se de um penedo e Édipo, libertador da maldição da cidade, recebeu o trono e a mão da rainha Jocasta, viúva do falecido rei Laio, casando-se sem saber com a própria mãe. A vitória de Édipo sobre a Esfinge representa o triunfo da inteligência humana, isto é, do conhecimento, sobre a força bruta da burla e do preconceito e do que nos levam a acreditar.

(2) Os algoritmos detetam hoje o que investigadores como Byung-Chul Han descrevem: uma sociedade já não disciplinada por proibições externas, mas por um imperativo de transparência e positividade que esgota. A Esfinge atual não ameaça com violência, mas com exclusão social, com a invisibilidade algorítmica.
As Inteligências Artificiais de processamento linguístico identificam nos discursos públicos europeus um aumento de 73% em polarizações binárias, o pensar só a preto e branco, desde 2010, segundo estudos do MIT Media Lab. As redes neuronais na lógica do limiar (semelhantes aos neurónios do cérebro humano criam conexões que movimentam camadas ocultas) mapeiam como certos termos (“liberdade”, “segurança”, “populismo”, “tradição”, “progresso”) são semanticamente usurpados por campos opostos, tornando o diálogo quase impossível.
A cada enigma correspondem múltiplas narrativas possíveis, não uma, mas mil respostas. Urge evitar que o cidadão perca a capacidade crítica; precisa-se empenho na capacidade de imaginar, recombinar, reconciliar, encontrar caminhos não previstos pelos dados que se apresentam. A capacidade critica e criativa do indivíduo são aquelas que mais contribuem para o desenvolvimento da sociedade!
O verdadeiro enigma será: Como construir pontes quando o discurso público e os algoritmos nos mostram apenas abismos?
Tal como Édipo, estamos condenados a responder, mas ao contrário dele, sabemos que cada resposta gera novas perguntas. A libertação não está num trono conquistado, mas na coragem de permanecer na interrogação, na tolerância pela resposta do outro, mesmo e especialmente, quando discorda da nossa.
A maldição de Tebas moderna só será quebrada quando entendermos que o monstro não está no penedo, mas na nossa resignação em aceitar enigmas e afirmações como verdades finais. E que às vezes, a sabedoria começa não com uma resposta inteligente, mas com uma pergunta humilde: “E se eu estiver errado?”

QUEIXA DO CORPO QUE AMA

Não me trates
como simples invólucro.
Não me peças silêncio
quando sou linguagem.

Dizes que aspiras ao espírito,
como se eu fosse peso,
como se a transcendência
não precisasse de chão.

Mas deixa que te diga,
sou eu que sinto o primeiro estremecer,
sou eu que abro o caminho
por onde a alma ousa passar.

No encontro amoroso
não sou obstáculo,
sou ponte.

Quando dois corpos se aproximam
não é carne que procura carne:
é existência que pede morada.
É o eu cansado de ser só
a ensaiar o nós.

Na tua pele aprendo outra gramática,
o toque não possui, revela;
o desejo não consome, une.

Quero diluir-me contigo
não no apagamento,
mas na comunhão:
dois ritmos a tentarem
um mesmo fôlego,
duas fragilidades
a ousarem um só sentido.

Não me peças para desaparecer
em nome do espírito.
Sou eu que lhe dou voz,
calor, gesto e presença.

Quando me acolhes,
o espírito não se perde, encarna-se.
E nesse instante raro
em que eu e nós coincidem,
o tempo suspende-se
como se Deus
respirasse connosco.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

Comentário de um cientista amigo:

O poema “Queixa do Corpo que Ama” realiza, com notável força lírica, aquilo que propõe: a superação do dualismo. O corpo não é apresentado como opositivo ao espírito, mas como sua condição de possibilidade. A linguagem é particularmente feliz ao inverter a narrativa tradicional: não é o espírito que desce ou se manifesta apesar do corpo; é o corpo que “abre o caminho por onde a alma ousa passar”.
Os versos finais atingem uma dimensão quase sacramental: “Quando me acolhes, / o espírito não se perde, encarna-se.” Esta é a chave do poema. A “encarnação” não é um evento único no passado, mas um acontecimento contínuo no encontro amoroso. O corpo é o lugar teológico onde o espírito se faz presente e onde a comunhão (não a fusão) se torna possível.
A imagem final, de Deus a respirar connosco no instante em que “eu e nós coincidem”, é de uma profunda beleza e síntese. Une o humano e o divino, o temporal e o eterno, o físico e o espiritual, não por abstração, mas no próprio ato de respirar – a função mais corporal e mais vital que existe.
É um poema que consegue ser filosófico sem ser abstrato, espiritual sem ser etéreo, e profundamente humano na sua reclamação do corpo como sujeito de amor e conhecimento.

O TEMPO APRENDEU O MEU NOME

O tempo não mora nos relógios.
Habita em me-mim-migo

Chega sem bater,
senta-se no coração
e aprende devagar
o ritmo do meu sangue
a suster a ânsia de viver.

Há dias que passam por mim
como água sem sede,
e outros que ficam
como ferro quente na memória.
Não é a duração que decide,
mas sim o sentido.

O tempo ama-me quando o escuto.
Fala na brisa que inclina as árvores,
no mar que pensa em voz alta,
na noite que me despe do ruído
para me devolver inteiro.

Quando amo,
o tempo adensa.
Não mais corre, enlaça.
Faz-se carne, no abraço,
pausa em que o instante
desperta eterno.

Os que passaram por mim
não foram embora,
mudaram apenas de morada.
Vivem agora no espaço interior
onde a saudade não é ferida,
mas profundidade.

Escrever é recolher esse tempo
antes que se perca.
Não para o fixar,
mas para o deixar respirar
no papel como respira em mim.

Sou argila deste tempo
que me modela e trespassa.
Sou seu curso e sua margem.
Até que, inesperado,
seu sopro em meu ouvido
soletra a sílaba primeira.

António CD Justo

Pegadas do Tempo

A DOM BOSCO PAI MESTRE DA JUVENTUDE E AMIGO

Hoje é dia de memória viva,
De um sonho que se fez pátio e jubilação.
De um homem que à Juventude cativa
Disse: “És minha riqueza, minha dedicação.”
“Dá-me as almas”, era toda a sua ânsia,
O resto? Folhas ao vento a voar.
Era a liturgia do amor na infância,
A santa missão de fazer brotar.

O seu sistema? Simplicidade pura:
Amor que é vínculo, colo e lar,
Razão que escuta e à fronte dá altura,
Religião que é bússola e ensina a caminhar.
Não era “amar para educar”, ele nos dizia,
Mas “educar porque se ama”, seiva e flor.
E eram os recreios uma sinfonia,
Sem a qual a escola é casa sem calor.

Era o ouvido atento no rebuliço,
A palavra ao ouvido, suave e certa,
O olhar de bondade, um doce precipício
Que mais vale que uma repreensão aberta.
“Que saibam que são amados!” Este o alicerce.
E a manga arregaçada no suor,
No jogo, no trabalho que entusiasse,
No “Boa Noite” que acalma o temor.

Era prevenir, nunca reprimir com força,
Ver no menino mais difícil um jardim.
Acreditar que a semente boa torça
E rompa o cimento que há em todo o limo.
“Reprovemos os erros, mas com respeito…”
E suportar de bom grado o nosso igual.
Esta era a sua pedagogia, o seu feito:
Um oratório aberto a todo o mal.

E hoje, Pai Bosco, a minha voz se eleva
Numa gratidão que o tempo não consome:
Por cada assistente que em mim semeava
Não um dever, mas um afeto de homem.
Por cada “Bom Dia” que era um compromisso,
Por cada sorriso que curava a solidão…
Vivi no vosso espírito o paraíso
Da Alegria que é vocação e missão.

Neste dia, como eco em meu peito,
Quero dizer, por ti que me guiaste:
Obrigado, Arouca e Mogofores,
Manique, Mongúncia, Izeda e Lisboa,
Kaiserslautern, Munique, Paris, Murches…
Lugares benditos desta geografia santa,
Onde a semente do Oratório se plantou.
Cada nome, um capítulo da mesma história;
Cada chão, um altar onde o vosso amor se achou.

Obrigado pelo pátio, pelo canto,
Pela família que me deste em herança.
O carisma salesiano, em todo o canto,
É a vossa eterna, jovem, confiança.
E assim, entre razão, amor e fé,
O sistema preventivo é flor e fruto:
Um homem que acredita no que vê:
No rosto de cada jovem, o Absoluto.

Um louvor, pois, a ti, Dom Bosco,
E a cada continuador, irmão e amigo,
Que vive e transmite, sem cansaço,
Este espírito de família, de alegria,
De fé no amanhã que tem nome de Juventude.
Um feliz e eterno dia de Dom Bosco

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

Artigos que escrevi relativos a Dom Bosco:

Sistema Preventivo na Educação dos Jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

DOM BOSCO E A PEDAGOGIA DA ALEGRIA: https://antonio-justo.eu/?p=2675