NO BERÇO DO DESENCNTO
Ansiando, pairando, baloiçando
no fio que a História teceu,
fugimos do jugo tirano,
mas de nós mesmos, também,
fugimos na dança do leme
que a mão quer, mas a alma não quer.
Batem leve, levemente,
as asas do pássaro incerto,
que a minhoca tem no bico,
mas a deixa cair, liberto,
só pra sentir, no voo,
o gosto de nunca ter.
Batem leve… e o desengano
é a herança de Camões,
a ilha dos amores findos
é o cais dos corações.
Queremos o remédio urgente,
mas a cura, mas, essa, não!
A presença é um fardo pesado,
a ausência é a nossa paixão.
Vivemos no dazwischen estreito,
trincheira de anarquia e razão,
onde a hesitação é a liberdade
que escolhemos por condição.
Pairando, pairando, pairando,
sem rumo, mas cheios de espanto,
preferimos a escassez à fartura,
pois o espanto é pesado demais.
Assim, atados ao fio da queixa
que nos serve de estranho disfarce,
boiamos em águas mortas,
sem nunca no leme tocar
porque a vida, se ativa, é escolha,
e escolher é começar a naufragar.
António da Cunha Duarte Justo
BALADA DO ENCANTO
De olhos no ar e bater
no peito, em uníssono, a clamar:
“Queremos o leme! Queremos o rumo!
Mas o rumo, esse, vamos negar!”
Pois a queixa é o nosso ouro,
o alibi de fino brasão:
pra ficarmos de boca na relva,
sem ter que mover um botão.
Gritamos, de olhos no ar,
contra o leme e contra o piloto,
mas se a cura nos bate à porta,
corremos, coitados, contrafeitos!
“Não, não, que a cura é careta,
o remédio é que sabe bem;
preferimos a febre contada
a ter saúde e ninguém.”
Lá na praça, os nossos doutores,
de toga ou de fato-riscado,
esgoelam-se em ataques ferozes,
num jogo de espelho trocado.
Falam, falam do adversário,
mas da solução, nem um pio;
enquanto o povo, exausto e letrado,
só quer seu quinhão no vazio,
que é melhor reclamar do remo
do que usar os braços, com tédio,
pois remar dá cãibras e sono,
e o sofá é o nosso remédio!
Cantamos, choramos, batemos…
Mas o leme? Deixamos cair.
Prefere-se a água morta e a queixa
a ter que, afinal, decidir.
A anarquia é muito trepidante,
a tirania é um tédio total;
o dazwischen é a nossa morada,
onde o “nunca” é o nosso “afinal”!
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
BALADA DO DIA-A-DIA
Lusitanos somos, dando o corpo
ao trabalho, ao suor, ao labor;
mas o leme, esse, está noutras mãos,
e a vida é um sonho menor.
Perdemos, perdemos, perdemos
o espanto da abundância nua;
preferimos a escassez magra
que nos dá a desculpa crua.
Indignamo-nos, sim, mas à tarde,
no café, no serão, no jantar;
a indignação é o barco,
e a vontade é o seu boiar.
Não queremos pegar no ferro
do leme, que é duro e cortante;
queremos a brisa suave
de um sonho de navegante.
Os romanos, outrora, diziam
que éramos povo sem lei;
hoje, a lei é a hesitação
que a própria alma nos deu.
Gastamos a vida a pairar
entre o querer e o não-ser,
e a saudade do que não fizemos
é o que nos faz viver.
Damos, damos, damos as horas,
mas o tempo, esse, escorre no chão;
e o pássaro deixa a minhoca,
porque o voo é a sua refeição.
Ah, batem leve, levemente…
mas o nosso desejo é, no fundo,
ficarmos, ficarmos, ficarmos
no conforto do meio-mundo.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do tempo