OPINIÃO EMBOTADA

Todos têm uma e é sempre a mesma:
a deles, sagrada, inegociável,
parida sem esforço e sem pai conhecido.

O argumento foi dispensado
por excesso de exigência.
Pensar doi, opinar, não.
Basta o “eu acho”,
essa pequena fricção solitária
a que o ego chama convicção.

Chamam-lhe debate cívico,
mas é onanismo em coro:
cada um de si para si,
mãos ocupadas, olhos fechados,
a gemer em voz alta
para que o vizinho saiba
que também ele está a gostar.

Ninguém convence, ninguém aprende.
Concluem-se, no máximo,
e saem da sala aliviados,
a limpar-se ao que sobrou da razão,
a jurar que foi encontro.

A pólis, esse grande balneário
de vaidades a esfregar-se,
tem mil cabeças e um só vício:
confundir o ruído que faz
com o pensamento que não teve.

(Opinião sem argumento
é vício de quem não pensa,
muito gesto, nenhum parceiro,
e ainda pede aplauso.)

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

DA IDEIA À VIRTUDE

Do pensamento à Palavra, da Palavra ao Gesto,
do Gesto à plenitude humana

Antes que a luz rompesse a noite escura,
antes que o tempo aprendesse a caminhar,
já a Ideia, em secreta gestação pura,
sonhava um mundo inteiro por criar.

No ventre do silêncio germinava
a forma do que ainda não havia
e o pensamento, em si, já anunciava
a Palavra que um dia nasceria.

E o Verbo fez-se carne entre os humanos,
ponte de amor do eterno ao temporal,
não veio apenas proclamar seus planos,
mas dar ao próprio amor forma real.

Porém, que vale a voz, por mais fecunda,
se a mão desmente aquilo que ela diz?
A Palavra só se torna mais profunda
quando o Gesto lhe dá corpo e raiz.

E quando o Gesto é justo e consciente,
quando o bem se faz hábito e atitude,
a verdade floresce socialmente
e o seu fruto mais nobre é a Virtude.

Pois ninguém se realiza em solidão,
nem há um eu completo sem um tu;
é no encontro que nasce a comunhão
e o brilho de cada ser se torna luz.

Tal como o amor trinitário é relação,
unidade que acolhe a alteridade,
também a vida encontra a perfeição
quando o agir se faz fraternidade.

A Ideia é mãe, a Palavra é claridade,
o Gesto é carne, a Virtude é plenitude,
e o ser só se realiza em liberdade
quando faz do amor a sua atitude.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

NÃO FAÇAS DA QUEIXA O TEU LAR

(Poema sobre a fragilidade humana e a sabedoria do quotidiano)

Não faças da queixa uma cantiga de realejo
que toca a desventura a cada ensejo;
nem dês ao desgosto tamanho poder
que até a alegria esqueça de se erguer.

O cérebro escuta, retém o que lhe chega,
repete o que ouve e ao que ouve se apega;
se o nutres de sombras, de fel e amargura,
até a manhã se torna noite escura.

Quem de tudo e de todos se queixa a cada hora
dá aos dias a isca que os rói por dentro e os devora;
e de tanto contar a dor sem se cansar,
faz do desgosto um destino que o vem a cativar.

A queixa é fumo que sobe e se espalha,
entra na alma, que turva e atrapalha;
quem dela se nutre, sem se aperceber,
aos outros só deixa mais cuidados a haver.

Há quem erga à mágoa um altar para durar
e obrigue quem passa a ficar a escutar;
não vê que o amigo, por mais que o estime,
também tem um peito que sofre e se oprime.

Não nego que a vida nos fira e magoe,
nem peço que a dor se esconda ou se escoe;
mas uma coisa é chorar para se erguer,
outra é fazer do pranto um modo de viver.

O passado não muda por ser remexido,
nem o presente cresce por ser mal-querido;
quem as feridas de ontem ainda vai polindo
perde o sol que hoje lhe bate à porta, sorrindo.

Pensar é trabalho, pede coragem,
quebra preconceitos, transforma a paisagem;
é mais cómodo dar ao mundo inteiro a culpa
do que pôr ordem no próprio quintal, sem desculpa.

Amar o próximo não é só estender a mão,
é não lhe despejar o entulho do coração;
é partilhar o peso e a ternura com tento,
sem fazer da amizade um sombrio aposento.

Ama-te também, dá ao teu espírito repouso,
não faças do desgosto um hóspede teimoso;
que a dor seja ouvida, mas nunca coroada,
nem reine sobre a vida que te foi confiada.

Se a sombra te visita, não lhe dês a coroa,
nem faças de um inverno uma eternidade que ecoa;
abre uma janela, deixa o ar entrar,
pois certa luz só volta se a deixarmos passar.

E lembra-te, ao falar, desta simples verdade:
cada palavra semeia tristeza ou claridade;
quem na paz interior encontra o primeiro abrigo
leva menos tempestades ao coração do amigo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

PERIGO DE GUERRA ATÓMICA

Em setembro de 2026, a Rússia avisou formalmente a NATO de que poderá usar armas nucleares se houver uma tentativa de isolar Kaliningrado (enclave russo). A tensão cresceu depois de a Polónia sugerir exercícios da NATO perto do enclave e de manobras aéreas não anunciadas em agosto. A NATO confirmou ter recebido o aviso, condenou a retórica nuclear russa e reafirmou o seu caráter defensivo, enquanto Moscovo considera Kaliningrado uma área estratégica crucial, cercada pela Polónia e pela Lituânia.
António da Cunha Duarte Justo