251° ANIVERSÁRIO DE HEGEL: ENTRE A RAZÃO SISTEMÁTICA E O MISTÉRIO DO REAL

O legado de um pensador em processo para além do “ou… ou”

Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu há 251 anos, a 27 de agosto de 1770, em Estugarda, e a sua sombra ou brilho ainda se alonga sobre a filosofia contemporânea. Mais do que celebrar um monumento intelectual, importa reconhecer nele um pensador que fez da contradição o motor do pensamento, lição que permanece extraordinariamente viva.

Hegel ensinou-nos que “tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional”, fórmula tantas vezes mal compreendida como defesa do status quo, quando na verdade constitui um chamamento à inteligibilidade do mundo. O seu grande contributo foi resgatar a filosofia do pensamento binário do “ou… ou” para a elevar à tensão fecunda do “e… e”: a realidade não se esgota em opções excludentes, mas revela-se no movimento dialético que inclui a contradição.

O pensamento hegeliano é, antes de mais, um pensamento em processo. Esta intuição, que a verdade não é uma posse, mas uma caminhada, repercute profundamente a espiritualidade cristã, nomeadamente na sua compreensão trinitária da relação como categoria última do real. O Professor Dr. Joaquim Teixeira, com a lucidez que lhe é própria, aponta, contudo, para o calcanhar de Aquiles hegeliano, porque ao tematizar o Espírito fora do elemento da consciência, Hegel teria traído a fenomenologia pela lógica, sacrificando a pessoa singular, descontínua e irredutível, ao altar do Sistema.

Uma crítica à ontologia grega que aprisiona o divino

Esta tensão leva-me a uma reflexão que gostaria de acrescentar. A ontologia hegeliana, na sua génese, permanece presa a uma arquitetura filosófica de raiz grega, nomeadamente à herança de Parménides e de Aristóteles, que privilegia o ser como presença, como identidade, como fundamento estável. O “Sistema” hegeliano é a apoteose dessa herança: tudo deve encontrar o seu lugar, tudo deve ser reconduzido à coerência da Ideia.

Mas será esta a única forma de arquitectar o pensamento? Haverá modos de abordagem à realidade que escapem ao primado da identidade e à violência da síntese?

Creio que sim. Há uma tradição, que poderíamos chamar, com cautela, “mística”, que nos ensina a habitar a realidade de modo distinto. Não se trata de abandonar a razão, mas de reconhecer que o real nos ultrapassa, que há um excesso que o conceito não captura, que a verdade se manifesta tanto na negação que abre (apophasis) como na afirmação que delimita (cataphasis).

O elemento místico, que frequentemente associamos ao “feminino”, não no sentido biológico, mas simbólico (necessário na nossa matriz antropológica que deveria ser uma matriz antropoginelógica): abertura, acolhimento, relação, não-dominação, oferece-nos uma chave hermenêutica mais universal do que a dialéctica hegeliana o faria supor. A mística não se opõe à razão; antes, recorda-lhe os seus limites. Onde Hegel constrói pirâmides conceptuais, a mística reside nas grutas de silêncio. Onde Hegel procura a totalidade, a mística celebra o fragmento que remete para o Todo sem o pretender conter.

Pensemos em autores como Pseudo-Dionísio, Mestre Eckhart, ou mesmo, no nosso tempo, Eugen Drewermann, Raimon Panikkar, Simone Weil (1), todos eles nos lembram que o acesso ao real se faz também por uma epistemologia do não-saber, por uma razão que se abre à transcendência sem a reduzir a conceito. Esta tradição, infelizmente, permaneceu marginal no grande edifício hegeliano, precisamente porque nele o Espírito é pensado fora da consciência viva, como se a verdade se realizasse nas entrelinhas da história, independentemente da experiência concreta das pessoas.

Hegel deixa a necessidade de uma razão encarnada

Não pretendo, com isto, rejeitar Hegel. Seria ingratidão e cegueira. Dele aprendemos que o pensamento é histórico, que a verdade se faz no tempo, que a contradição é fecunda, que a realidade é a-perspectiva e , nesse sentido, passível de ser sempre observada de um ponto de vista renovado. O que proponho é uma releitura: uma apropriação crítica que saiba integrar a mística como dimensão indispensável do pensar.

O Professor Joaquim Teixeira tem razão ao afirmar que Hegel “não soube pensar a pessoa como descontínua, singular e única”. Talvez lhe tenha faltado precisamente essa sensibilidade mística que reconhece no outro uma alteridade inassimilável, um rosto que não cabe na totalidade do conceito. Talvez o seu sistema seja demasiado masculino, no sentido de arquitectónico, vertical, de domínio conceptual e demasiado pouco feminino, pouco religioso no sentido de acolhedor, horizontal, relacional.

Husserl, ao colocar no seu gabinete o letreiro “Aqui não entra a Dialéctica”, não negava a importância de Hegel; antes, reivindicava um espaço para a experiência vivida, para a consciência intencional, para aquilo que escapa à engrenagem conceptual. É esse espaço que também nós devemos preservar.

O verdadeiro é também o não-dito

Celebrar Hegel aos 251 anos é reconhecer que o seu pensamento, como tudo o que é vivo, continua em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo.

O “verdadeiro é o todo”, mas o todo só o é se incluir também o que não se deixa dizer, o que permanece misterioso, o que só se revela na relação e no silêncio. A filosofia futura terá de aprender a dialogar com a mística, a integrar o elemento feminino na arquitectura do pensar, a reconhecer que a realidade tem tantos rostos quantos os humanos que a contemplam e talvez ainda mais.

Nesse sentido, Hegel continua a ser um companheiro indispensável, desde que saibamos ler nele também o que ele não disse, ou não pôde dizer. A sua grandeza está em nos ter aberto o caminho do processo; a nossa responsabilidade está em continuá-lo, com a humildade de quem sabe que a verdade não se possui, mas se procura e que a procura, ela mesma, já é parte da verdade.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

(1) Para uma aproximação à mística e ao “elemento feminino” na filosofia, é recomendável ainda:
Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo (para uma crítica filosófica à tradição patriarcal)
Luce Irigaray – Ética da Diferença Sexual
Julia Kristeva – Histórias de Amor (sobre o amor e o sujeito na mística)
Edith Stein – Ser Finito e Ser Eterno (fenomenologia e mística)
Eugen Drewermann – Alles ist Gnade (Tudo é Graça) (2025)

 

FÁBULA DA ERVA DO PRADO

Havia, numa várzea fértil, um prado verde onde cresciam ervas tenras, regadas pelas chuvas e aquecidas pelo sol. Ali viviam também dois elefantes enormes e poderosos (1).

Um dia, os dois elefantes zangaram-se por causa de território e travaram uma luta feroz. Pisaram o prado de um lado ao outro, arrancaram raízes, partiram caules, e onde antes havia verde, ficou lama e destruição.

Passado algum tempo, os mesmos elefantes fizeram as pazes, e sentindo-se atraídos um pelo outro, aproximaram-se para se acasalarem. E de novo, no seu jogo pesado e no seu abraço descomunal, voltaram a calcar o mesmo chão, esmagando o que a erva tinha conseguido, entretanto, renascer.

A pequena erva, que nada tinha a ver com as brigas nem com os amores dos gigantes, olhou para o céu e perguntou baixinho:

“Porque sofro eu, Senhor, sempre que eles se movem, seja em guerra ou em amor?”

E uma voz suave, como a brisa entre as folhas, respondeu-lhe:

“Não é por seres culpada, pequena erva. É porque és humilde e estás sob os pés dos grandes. Mas não temas porque onde eles passam, tu renasces sempre. A tua força não está no tamanho, está na tua capacidade de recomeçar, verde, depois de cada pisadela”.

E acrescentou ainda:

“Mas ouve bem, ervinha, mesmo que sejas pisada, não te vergues por completo, nem penses que a culpa é tua. Este solo não pertence só aos elefantes, é de todos os que nele vivem, grandes e pequenos. A maldade não está em ti, que apenas queres crescer em paz; está naqueles que caminham sobre a terra sem cuidado, sem olhar por onde pisam nem por quem esmagam. Ergue-te sempre que puderes, ervinha minha, porque também tu tens direito a este solo. E que os grandes aprendam, um dia, a caminhar com mais respeito por aqueles que , em silêncio, sustentam toda a vida do prado.”

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Um dito popular lusitano diz: “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão” e um dito esloveno lamenta: “Não importa se os elefantes lutam entre si ou se se acasalam, é sempre a relva que sofre”

O MAR DE LUZES DA BRANCA

Entre a Quinta Outeiro da Luz, Aveiro, a Barra e Espinho, a luz estende o nosso olhar e convida-nos a permanecer em cada mirada, a vir e sempre de novo voltar, para manter no coração aquela luz que nos faz brilhar.

Quando em São Julião, na Branca, o sol rubro se vai deitar,
um derradeiro brilho rasga o horizonte aberto sobre o mar.
Mal cessa a bênção do dia e a sombra desce em modo devagar,
da encosta, em suave romaria, um rio de luzes corre para o mar.

Primeiro uma, depois outra se acende e a noite faz da terra outro céu;
cada luz que ao longe resplende guarda uma vida por detrás do véu.
Ali dormem sombras, amor e dor, romances sob o mesmo teto;
cada casa tem seu fulgor, seu fado, seu sonho mais secreto.

Somos todos filhos da Luz, misteriosos no voo estelar;
atrás dela vamos, pequeninos, como quem procura onde ficar.
Pois toda a luz que lá fora arde tem sua nascente no nosso peito;
como o vulcão que se fez terra e tarde e no pirilampo renasce perfeito.

Da Quinta Outeiro da Luz, ao fim do dia, o olhar se estende até ao mar;
o Sol despede-se sobre a ria como quem parte e promete voltar.
A Terra repousa, horizontal, serena, entregue à paz do entardecer;
e cada luz que no horizonte acena parece alguém que voltamos a ver.

E nós, do alto, em silêncio, a olhar, não sabemos quem chora ou quem sorri;
mas cada luz, a caminho do mar, traz-nos alguém que já passou por aqui.
Decerto um rosto, talvez um amigo, uma voz que o tempo não levou;
alguém que já não caminha comigo, mas dentro de mim a luz guardou.

Então já não vemos só a paisagem, mas vidas acesas na amplidão:
pequenas luzes na breve viagem que o tempo recolhe no coração.
O Farol da Barra acena ao Mar, a ria de Aveiro alonga o seu brilho capuz;
e Outeiro da Luz fica, em silêncio, a olhar a noite acender-se luz após luz.

Então compreendemos, sem saber porquê, que há luzes que o tempo não desfaz:
ficam em nós, mesmo quando não se vê quem as acendeu e ficou para trás.
E quando a última claridade se desfaz e a noite abraça a ria e o mar profundo,
a luz apaga-se no céu, em paz, para se acender em nós e no mundo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :  https://antonio-justo.eu/?p=11346
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

TRÍPTICO – DO ESTRUME À FLOR

A ARGAMASSA

Mistura-se o cimento da tristeza
com a cal viva da alegria que adivinha,
e desta pasta espessa, quase lama,
ergue-se a casa que não tem dono.

Andamos no lodo, mas é desse barro
que a mãe faz o regaço onde nos deitamos,
e o padrasto, a lei, a governação,
põe o telhado e cobra-nos o sol.

Que o estrume que cada um carrega,
esse peso mole de dias roídos,
de sonhos apodrecidos na gaveta,
seja o adubo da flor que há-de vir.
Não para enfeitar, mas para ser comida
por quem passa sem mesa nem abrigo.

 

A OFICINA E A ESTRADA

Lá fora, cordeiros pastam o medo.
Lobos de gravata cerram o cerco.
Monstros psicopatas, de olhar de vidro,
traficam a alma na esquina da lei.

Hordas de profissões, todas a ganhar a vida,
servem agendas que não escreveram,
engrenagens de um modelo que devora
os próprios dentes da concorrência.

Mas de madrugada, quando o sono é mais fundo,
os varredores de rua iniciam o dia.
E nas oficinas de reparação da sociedade,
psicólogos, assistentes, médicos, enfermeiros,
suturam feridas que ninguém vê,
remendam a casa que nunca foi sua.
Uns constroem, outros consertam,
mas a casa é de todos e de ninguém,
passagem, pouso, cais provisório.

Não tema a miragem que o sol desenha,

que a sede ensina aonde fica a fonte.

O deserto é vasto, mas a mão que acena

é a mesma que constrói a ponte.

 

O RIO E AS JANELAS

Ao lado da casa, que milagre!
corre um rio vivo e honesto.
Não negocia, não pede licença.
É a solidariedade que não cabe em gráficos,
a bondade que flui sem fatura
e alimenta as fundações da casa.

Das janelas, avistam-se os cenários:
gente má, fruto da miséria humana,
que manda sobre a miséria humana,
onde tudo parece abandonado ao seu destino
como um barco sem remo na noite.

Mas a flor nasce do estrume.
O fruto acena no ramo.
E quem passa colhe sem saber
que aquele sabor a terra e a lágrima
é a argamassa de todas as casas,
é o rio que corre, é a janela aberta.

E se a casa não pertence a ninguém,
que nela habitem os que a constroem,
que a reparem os que a veem ruir,
que a regue o rio dos que dão sem pedir,
e que do estrume de cada um
brote, ao menos, uma flor comestível
para o próximo que passa.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Dos tempos de estudante em Lisboa,
no cais da argamassa viva