A PRIMAZIA DO ACONTECIMENTO E A NECESSIDADE DA FORMA

Memória, instituição e promessa na existência histórica do cristianismo

António da Cunha Duarte Justo

Resumo
O cristianismo não se funda num sistema cultual, mas num acontecimento, a vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Esse acontecimento, porém, para perdurar na história, transforma‑se em memória e esta, para ser comunicada e vivida, encarna‑se em ritos, instituições e tradições. Este ensaio percorre a tensão entre a irrepetibilidade do evento fundador e a repetibilidade necessária das formas litúrgicas, mostrando que o rito não é um acréscimo acidental nem o fundamento último, mas mediação indispensável. A partir de autores como Halbwachs, Guardini, Ratzinger, de Lubac, Congar, Newman, Chauvet e Schillebeeckx, defende‑se que a existência histórica do cristianismo se sustenta numa tríplice dimensão, memória, presença e promessa, que impede tanto a absolutização ritualista como a dissolução numa subjectividade sem forma. A liturgia é, assim, lugar de constituição eclesial e de abertura escatológica, onde a Palavra e o sacramento se exigem reciprocamente.

  1. A precedência do acontecimento
    O cristianismo não começou com um sistema de ritos, mas com Jesus de Nazaré, com a sua pregação, a comunidade dos discípulos, a morte e o testemunho da ressurreição. Antes da doutrina sistematizada e da liturgia plenamente configurada, há um acontecimento reconhecido como portador de um sentido que o ultrapassa.

Esta afirmação exige um cuidado: Jesus participava na tradição ritual de Israel e os primeiros cristãos celebraram desde cedo o baptismo, a fracção do pão e a reunião semanal. A precedência do acontecimento sobre o rito não é cronológica, mas teológica pois o rito não é a razão de ser do acontecimento, mas sim que o acontecimento que dá origem ao rito e lhe confere sentido. Se esta precedência for esquecida, o cristianismo arrisca‑se a fechar‑se num sistema autorreferencial. Mas também seria erro concluir que o rito é mero revestimento dispensável, a história mostra que sem ritualidade a fé dificilmente se transmite.

  1. O acontecimento que se torna memória
    Todo o acontecimento histórico passa; as testemunhas desaparecem e as circunstâncias mudam. O evento cristão também está sujeito a esta condição. Se dependesse apenas da experiência imediata dos primeiros discípulos, ter‑se‑ia extinguido com a primeira geração. É aqui que a memória se torna constitutiva.

A memória não é uma reprodução fotográfica do passado, é uma recepção interpretativa a partir do presente, integrada na identidade de uma comunidade. Maurice Halbwachs mostrou que a memória tem dimensão colectiva, o indivíduo recorda dentro de quadros sociais que lhe fornecem linguagem, lugares e formas de interpretação. Uma comunidade que deseja conservar uma memória precisa de narrativas, calendários, símbolos e práticas. O cristianismo oferece um exemplo denso: a memória de Cristo não atravessou dois milénios apenas por esforço individual, mas graças a textos, fórmulas de fé, ministérios, festas e ritos que presencializam a ação salvífica.

Contudo, para a consciência cristã, a comunidade não produz soberanamente a memória que decide conservar; considera‑se, antes, constituída por uma memória que recebeu. Não é apenas a Igreja que conserva a memória de Cristo, porque é também a memória de Cristo que continuamente constitui a Igreja.

  1. «Fazei isto em memória de mim» como a memória encarnadaO mandato da Última Ceia, «fazei isto em memória de mim», é extraordinário porque associa memória e acção. Cristo não diz apenas «recordai‑vos», porque deixa um gesto a realizar. A memória cristã não fica confinada à interioridade; torna‑se palavra pronunciada, pão partido, vinho partilhado, comunidade reunida. O homem recorda não só intelectualmente, mas também corporalmente.

Esta corporeidade da memória corresponde à estrutura encarnacional do cristianismo: se o Verbo se fez carne, a matéria e o corpo não são exteriores à comunicação religiosa. Água, pão, vinho, óleo, mãos, voz – entram na linguagem da fé. Louis‑Marie Chauvet recorda‑nos que a mediação não é uma imperfeição inevitável porque o homem encontra e exprime sentido através da linguagem, do corpo e do símbolo. A própria fé, para existir historicamente, necessita de mediações. Por isso, dizer que o cristianismo precisa de ritos apenas porque a memória humana é frágil seria insuficiente; a necessidade do rito tem raiz antropológica e coerência encarnacional.

  1. A repetibilidade do rito e a irrepetibilidade do acontecimento
    encontramo-nos aqui num paradoxo: o acontecimento fundador é irrepetível, a vida de Jesus, a Última Ceia, a Cruz, a Ressurreição não se repetem. O rito, porém, repete‑se. A Eucaristia celebra‑se ontem, hoje e amanhã.

A chave está em que o rito é repetível precisamente porque o acontecimento que celebra é irrepetível. A repetição ritual não multiplica o evento; permite que sucessivas gerações se relacionem com o que aconteceu uma vez. Na compreensão católica, o sacrifício de Cristo não se repete; repete‑se a celebração sacramental mediante a qual a comunidade participa na memória desse acontecimento único. A categoria de anamnesis é decisiva: não se trata de mera evocação psicológica de uma ausência, mas de actualização sacramental, em que o Ressuscitado está presente. A memória eucarística ultrapassa a sociologia da memória porque pretende ser presença real, embora não repetição histórica (engloba o processual).

  1. A liturgia como forma recebida (Guardini e Ratzinger)
    Romano Guardini ajuda a compreender que a liturgia introduz o indivíduo numa forma que ele não inventou. Numa cultura que associa autenticidade à espontaneidade, esta objectividade pode parecer limitadora, mas Guardini inverte a questão ao constatar que a forma recebida liberta o indivíduo da prisão da subjectividade. Não é necessário inventar continuamente a expressão da fé nem sentir intensamente para que o gesto tenha sentido; a liturgia retira a fé da dependência do estado psicológico momentâneo. Tal como ninguém inventa a língua em que fala, recebê‑la é condição para exprimir algo verdadeiramente seu. A liturgia tem também uma gratuidade própria porque é culto, louvor e acção de graças, que impede uma interpretação meramente funcionalista.

Joseph Ratzinger retoma esta intuição e insiste que a liturgia não pode ser entendida como produto da comunidade. Se o grupo se reúne apenas para expressar a sua identidade, a celebração torna‑se autorrepresentação colectiva. A liturgia rompe esse círculo porque remete para algo que a comunidade não produziu; ela recebe antes de criar, responde antes de dispor. A instituição litúrgica resiste à soberania do presente, recordando a cada geração que o cristianismo não começa com ela.

  1. Da memória à instituição e à tradição
    Uma memória que pretende atravessar gerações precisa de alguma forma de institucionalização: textos fixados, ministérios, calendários, critérios de pertença. Sem isso, a memória colectiva fragmenta‑se. Mas a instituição encerra um paradoxo semelhante ao do rito, sendo necessária para conservar o acontecimento, mas pode correr o risco de ocupar o seu lugar. A forma destinada a transmitir pode tornar‑se autorreferencial.

A relação entre acontecimento e instituição não se resolve eliminando um dos polos: sem instituição, o evento dificilmente atravessa a história; sem referência contínua ao acontecimento, a instituição conserva a forma após ter perdido a força que lhe deu origem. Henri de Lubac aprofunda esta reciprocidade ao mostrar que a Igreja não é uma organização que, entre outras actividades, celebra a Eucaristia; antes, «a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja». A comunidade é constituída pelo mistério que celebra.

A instituição, porém, existe no tempo, as suas formas desenvolvem‑se e acumulam história. Surge a questão da tradição. Yves Congar distingue a Tradição das suas múltiplas expressões históricas: nem tudo o que é antigo é essencial, nem toda a forma histórica é contingente e livremente disponível para reconstrução. A tradição viva situa‑se entre estas simplificações. John Henry Newman, por seu lado, mostra que o desenvolvimento doutrinal não é reinvenção arbitrária, mas explicitação e aprofundamento de uma realidade recebida. As novas questões obrigam a tradição a responder sem simplesmente repetir o passado nem transformar o presente em critério absoluto.

  1. Continuidade e reforma
    A reforma autêntica não é ruptura, mas recondução das formas históricas à realidade que lhes dá sentido. Isso aplica‑se particularmente à liturgia porque reconhecer a historicidade das formas não significa que a geração presente tenha soberania absoluta sobre elas. A pergunta central não é apenas devemos conservar ou mudar?, mas o que deve permanecer para que a identidade não se perca, e o que pode ou deve mudar para que essa identidade continue viva, inteligível e transmissível? Bento XVI, ao falar de uma «hermenêutica da reforma», mostrou que a autêntica reforma contém continuidade nos princípios e transformação em configurações históricas, a tradição permanece viva através dessa tensão.
  2. Palavra e sacramento: reciprocidade fundamental
    A estrutura da Eucaristia, Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística, oferece uma expressão clara desta reciprocidade. A Palavra proclama e interpreta; o sacramento corporiza e actualiza. Sem Palavra, o gesto pode tornar‑se opaco e cair no formalismo ou na magia; sem a dimensão sacramental, a Palavra reduz‑se a mera doutrina ou recordação intelectual. O cristianismo recusa ambas as reduções: a Palavra precisa de corpo, o corpo precisa de Palavra.

O sacramento é profundamente simbólico, mas não no sentido débil de um sinal convencional que apenas recorda uma realidade ausente; é sinal eficaz, aquilo que significa não permanece exterior ao acto sacramental. Distingue‑se, assim, da magia: nesta, o rito pretende colocar forças à disposição de quem o executa correctamente; na lógica sacramental, o que é recebido não é produzido pela comunidade nem submetido ao seu domínio, é dom antes de ser posse. Edward Schillebeeckx reforça esta visão ao pensar o sacramento a partir do encontro: Cristo é o sacramento primordial do encontro com Deus e a Igreja é sacramento derivado. A materialidade do sacramento não é obstáculo, mas lugar de mediação.

  1. O perigo do ritualismo e a persistência do rito
    Reconhecer a necessidade do rito exige reconhecer também a possibilidade da sua degeneração. O cristianismo contém uma crítica profunda ao ritualismo, os profetas de Israel denunciaram o culto separado da justiça e Jesus inscreve‑se nessa tradição. Mas a crítica do ritualismo não é crítica do rito; é defesa da sua verdade. O ritualismo começa quando o meio se transforma em fim, quando o sinal deixa de remeter para o significado. O rito é necessário, enquanto o ritualismo absolutiza o necessário e transforma‑o desse modo em suficiente.

A modernidade secularizou grande parte da vida pública, mas não eliminou o rito, cerimónias políticas, comemorações, funerais, rituais académicos mostram que o homem continua a ritualizar o que lhe é importante. Isto sugere que o rito não é invenção religiosa, mas dimensão profunda da existência humana. A questão cristã não é escolher entre rito e ausência de rito, mas perguntar que relação existe entre o rito e aquilo que ele pretende significar.

  1. Memória, presença e promessa
    O cristianismo não vive apenas do passado e do presente, transcende-o no kairós e vive também do futuro. A Eucaristia recorda um acontecimento passado e celebra uma presença, mas permanece orientada para uma promessa: «até que Ele venha». A liturgia tem, pois, uma estrutura escatológica porque é memória, presença e promessa. Esta tríade impede que a memória cristã seja nostalgia porque o passado não é procurado para regressar, mas porque contém uma promessa ainda não consumada. Também a presença não significa posse; o sacramento não encerra o mistério. A promessa preserva a transcendência: nenhuma forma histórica é o Reino, nenhuma liturgia esgota o mistério. A escatologia exerce uma função crítica sobre a instituição, lembrando que o cristianismo é maior do que os seus ritos.

Conclusão
O cristianismo não nasceu de um sistema ritual, mas de um acontecimento. Esse acontecimento, porque entrou na história, gerou memória e a memória, para ser humana, comunitária e transmissível, adquiriu palavra, gesto, corpo e instituição. O rito não é um acréscimo acidental nem o fundamento último, o acontecimento precede‑o. Sem acontecimento, o rito esvazia‑se; sem memória, o acontecimento perde‑se; sem rito, a memória torna‑se abstracta; sem instituição, a transmissão fragmenta‑se; sem tradição, cada geração recomeçaria do zero e sem discernimento e reforma, a continuidade degenera em imobilidade ou reinvenção. A Palavra e o sacramento exigem‑se mutuamente e a esperança impede que memória e presença se fechem sobre si mesmas.

A liturgia é, assim, o lugar em que uma comunidade histórica se deixa constituir por uma memória que não inventou, recebe no presente o que confessa como dom e se orienta para um futuro que não pode produzir. Memória, presença e promessa são as três dimensões que explicam por que o cristianismo não se reduz ao rito, mas também não pode existir historicamente sem ele.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Notas bibliográficas

  1. Maurice Halbwachs, On Collective Memory (1992) – sobre os quadros sociais da memória.
  2. Romano Guardini, Vom Geist der Liturgie (1918) – a liturgia como forma objectiva e lúdica.
  3. Joseph Ratzinger, The Spirit of the Liturgy – continuidade com Guardini; liturgia como recebida, não como autorrepresentação.
  4. Louis‑Marie Chauvet, Symbol and Sacrament (1995) – mediação simbólica e corporeidade.
  5. Henri de Lubac, Corpus Mysticum (2006) – reciprocidade entre Eucaristia e Igreja.
  6. Edward Schillebeeckx, Christ, the Sacrament of the Encounter with God (1963) – sacramento como encontro.
  7. Yves Congar, Vraie et fausse réforme dans l’Église – tradição e reforma autêntica.
  8. John Henry Newman, An Essay on the Development of Christian Doctrine (1845/1878) – desenvolvimento doutrinal.
  9. Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, n.º 56 – unidade entre Palavra e Eucaristia.

Bibliografia essencial
CHAUVET, L.‑M. Symbol and Sacrament. Collegeville: Liturgical Press, 1995.
CONGAR, Y. Vraie et fausse réforme dans l’Église. Paris: Cerf.
DE LUBAC, H. Corpus Mysticum. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2006.
GUARDINI, R. Vom Geist der Liturgie. 1918.
HALBWACHS, M. On Collective Memory. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
NEWMAN, J. H. An Essay on the Development of Christian Doctrine. 1845/1878.
RATZINGER, J. The Spirit of the Liturgy. San Francisco: Ignatius Press.
RATZINGER, J. The Feast of Faith. San Francisco: Ignatius Press, 1986.
SCHILLEBEECKX, E. Christ, the Sacrament of the Encounter with God. New York: Sheed and Ward, 1963.
CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium, 1963.

A ECOLOGIA ENTRA NO CORAÇÃO DA TEOLOGIA

O cuidado da criação não é um apêndice moral, mas uma dimensão constitutiva da fé cristã. O novo documento da CTI, aprovado por Leão XIV, insere a ecologia no núcleo da teologia trinitária.

Resumo

O presente artigo que apresenta as novas orientações da Comissão Teológica Internacional (CTI) procura mostrar como a ecologia entra hoje no coração da teologia, deixando de constituir um tema periférico para se tornar uma dimensão estruturante do pensar teológico e exige a reconfiguração dos seus próprios pressupostos ontológicos, antropológicos e sociais. Ao assumir a teologia trinitária como horizonte fundamental, depreende-se a necessidade de ultrapassar uma ontologia de matriz predominantemente grega, substancialista, hierárquica e excessivamente marcada pelo masculino, em direção a uma ontologia relacional, comunional e trinitária. O mistério trinitário revela o ser não como autossuficiência, mas como relação, alteridade, reciprocidade e dom. Esta remodelação ontológica reclama, por sua vez, uma antropoginelogia que repense conjuntamente o humano, o masculino e o feminino, superando a redução androcêntrica da antropologia teológica e filosófica e reconhecendo a diferença na igualdade e na reciprocidade. Tal transformação não pode deixar de repercutir-se numa correspondente sociologia, capaz de questionar estruturas de dominação, apropriação e exclusão e de pensar novas formas de convivência e comunhão. A questão ecológica revela-se, deste modo, inseparável da questão antropoginológica e social, porque a relação com a Terra prolonga e manifesta determinadas conceções de Deus, do ser e do humano. Uma teologia trinitária da criação desloca o paradigma da posse para o da pertença, da autonomia para a interdependência e do domínio para o cuidado. A criação emerge, assim, como tecido de relações e comunidade de vida e não como exterioridade disponível à soberania humana. A conversão ecológica implica, portanto, uma conversão das categorias fundamentais com que a teologia pensa Deus, a humanidade, a sociedade e o cosmos. É nesta transformação paradigmática que a ecologia deixa de ocupar as margens e entra verdadeiramente no coração da teologia.

O novo passo da Comissão Teológica Internacional

Há documentos eclesiásticos que se leem como meras atualizações disciplinares. Outros, poucos, marcam um antes e um depois na maneira como a Igreja compreende a sua própria missão. O novo texto da Comissão Teológica Internacional (CTI), “Cuidar da nossa Casa comum” é a resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário, pertence inequivocamente a este segundo grupo. Publicado com o visto de Leão XIV, após quatro anos de trabalho (2022-2026), o documento não se limita a ecoar a Laudato si’ de Francisco, pelo contrário, aprofunda as suas intuições mais radicais e confere-lhes um fundamento teológico sistemático que faltava.

A tese da Comissão é tão simples quanto revolucionária ao afirmar  “o nosso relacionamento com a natureza (ecologia) é uma dimensão constitutiva do nosso relacionamento com Deus Criador (teologia)”. Dito de outro modo: a ecologia não é um tema periférico da doutrina social da Igreja, nem uma concessão ao espírito do tempo. É matéria teológica no sentido pleno. E, como tal, exige que se repense a própria articulação entre fé e mundo.

De Francisco a Leão XIV há uma linha de continuidade que se torna doutrina

Quando Francisco, em 2015, escreveu que «tudo está interligado», muitos leram a encíclica como um apelo à consciência ambiental. E era-o, certamente. Mas a novidade profética estava noutro lugar: na recusa em separar a crise ecológica da crise social e em afirmar que a Terra «clama contra o mal que lhe provocamos». A ‘Laudato si’ foi, desde o início, um texto teológico, embora muitos tenham preferido lê-lo como um tratado de ecologia política.

A CTI retoma agora esse fio condutor e leva-o até às suas últimas consequências. O documento aprovado por Leão XIV não substitui a encíclica; apresenta-lhe o seu núcleo dogmático. A criação não é o palco onde decorre a história humana, mas sim a obra do Deus trinitário, marcada por uma «impressão trinitária» que torna toda a realidade relacional. Nada é uma mónada. Tudo está em relação, porque o próprio Deus é relação.

Esta afirmação, aparentemente abstracta, tem consequências práticas decisivas. Se a criação traz em si a marca da Trindade, então a interdependência ecológica não é apenas um dado da biologia ou da física, é também um dado teológico. Destruir a natureza é, por isso, deformar uma resposta ao Doador. Cuidar dela é, pelo contrário, entrar na lógica do dom.

Nem senhor absoluto, nem mero animal: a antropologia cristã em jogo

O documento da CTI evita com lucidez dois extremos igualmente redutores. O primeiro é o «antropocentrismo predatório», que transforma o ser humano em proprietário absoluto do mundo, legitimando um uso ilimitado dos recursos. Este é o pecado denunciado por Francisco: a Terra que clama contra o mal que lhe causamos.

Mas a Comissão recusa também o extremo inverso, expresso em certas formas de biocentrismo ou ecocentrismo que dissolvem a singularidade humana, equiparando a pessoa a qualquer outro ser vivo. A resposta cristã situa-se no meio: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, o que lhe confere uma dignidade singular, mas essa dignidade não é um título de domínio mas sim uma responsabilidade. O homem não é proprietário da Casa comum. É seu guardião, cultivador e servidor.

Neste ponto, o documento toca num dos nervos mais sensíveis da teologia contemporânea: a relação entre a transcendência divina e a imanência do mundo. Ao afirmar que a criação é obra do Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo, a CTI abre caminho a uma compreensão mais profunda da Encarnação. Jesus Cristo não vem salvar apenas as almas, mas toda a criação. E é nessa perspectiva que a ecologia se torna cristologia aplicada.

Do «pecado ecológico» ao pecado contra a criação e o Criador

Um dos contributos mais relevantes do documento é a reformulação do conceito de «pecado ecológico». A expressão, difundida após o Sínodo para a Amazónia (2019), era teologicamente ambígua. A CTI propõe agora uma formulação mais precisa expressando-o como  pecado contra a criação e contra o Criador.

Esta dupla referência é decisiva. O dano causado à natureza não é pecado apenas porque produz consequências ambientais negativas, mas porque contradiz o sentido que Deus imprimiu à criação e a responsabilidade confiada ao ser humano. A poluição, a destruição dos ecossistemas, a exploração desenfreada dos recursos tornam-se, assim, ofensas a Deus. Não são meros erros de cálculo económico ou político; são falhas morais que afectam a relação do homem com o seu Criador.

A formulação é inovadora e, ao mesmo tempo, profundamente tradicional. Sempre se soube que o pecado tem uma dimensão social e cósmica. O que a CTI faz é tornar essa dimensão explícita, articulando-a com a teologia da criação e com a doutrina trinitária. O resultado é uma visão integrada em que o «clamor da Terra» e o «clamor dos pobres» se fundem numa única interpelação moral.

Ecologia integral e justiça social une o grito da terra ao dos pobres

A ecologia proposta pela Igreja não pode ser verde sem ser vermelha, por assim dizer, ou seja, não pode proteger a natureza esquecendo as pessoas, especialmente os mais pobres. O documento da CTI é inequívoco neste ponto: as populações mais vulneráveis são as primeiras vítimas da degradação ambiental, da escassez de água, da desertificação e das alterações climáticas.

Por isso, a Comissão retoma uma das grandes linhas da Laudato si’: o clamor da Terra e o clamor dos pobres são uma única interpelação moral. E esta perspectiva conduz a uma crítica corajosa do modelo económico dominante, quando este transforma a natureza e as pessoas em meros recursos de produção e consumo. A CTI aponta mesmo para a necessidade de um sistema económico diferente, «ao serviço da vida de todos», orientado pela sustentabilidade e pelo respeito pelos ritmos da Casa comum.

Esta dimensão social é frequentemente esquecida nos debates sobre ecologia, que tendem a polarizar-se entre catastrofistas e negacionistas. O documento evita ambas as tentações, propondo uma visão que é ao mesmo tempo realista e esperançosa. A crise ambiental é um «severo teste à nossa esperança», mas a esperança cristã não se confunde com optimismo superficial. A fé na redenção, que abrange toda a criação, é o horizonte último que dá sentido ao esforço presente.

A Eucaristia e a sacramentalidade da criação no mundo como dom e louvor

Talvez a passagem mais bela do documento seja aquela em que a CTI desenvolve a dimensão sacramental da criação. O mundo, sem se confundir com Deus, remete para Ele e manifesta algo da sua bondade e beleza. Esta «sacramentalidade» encontra na Eucaristia a sua expressão mais alta: o pão e o vinho, frutos da terra e do trabalho humano, tornam-se o corpo e o sangue de Cristo.

Aqui, a ecologia cristã não nasce apenas da preocupação perante uma catástrofe iminente, mas da gratidão. O mundo é recebido antes de ser utilizado. É dom antes de ser recurso. E precisamente porque é dom, pode tornar-se louvor. Esta intuição litúrgica confere à ecológica uma profundidade espiritual que falta a muitos discursos ambientais, mesmo quando bem-intencionados.

Cuidar da Casa comum não é, portanto, uma tarefa pesada ou moralista. É uma resposta de amor ao Doador. E é nesse amor que se encontra a verdadeira motivação para a mudança de estilo de vida, para a conversão ecológica, para a sobriedade partilhada.

A ecologia da esperança como questão teológica

Agora importa sublinhar o que este documento não é, e o que verdadeiramente é. Não é uma nova definição dogmática, nem um ato magisterial pessoal de Leão XIV. A CTI é um organismo consultivo e os seus textos têm a autoridade própria de quem aprofunda a doutrina. Mas não se trata de um documento menor. Pelo contrário: oferece o quadro conceptual para que a reflexão ecológica se integre no núcleo da teologia católica.

O que a CTI faz é transformar a pergunta ecológica numa pergunta teológica: «Como nos relacionamos com a criação, nossa Casa comum, obra do Criador trinitário?» E a resposta é inequívoca porque essa relação é uma dimensão da nossa relação com Deus. A ecologia deixa de ser um apêndice facultativo da vida cristã para se tornar parte integrante das grandes realidades da fé: Criação, Trindade, Encarnação, pecado, Eucaristia, justiça, conversão e esperança escatológica.

É este o passo decisivo dado pelo documento da Comissão Teológica Internacional que deveria orientar toda a discussão teológica. O desafio lançado à Igreja e ao mundo é viver a ecologia não como uma moda, mas como uma exigência da fé; não como uma preocupação secundária, mas como uma dimensão constitutiva do amor a Deus e ao próximo.

Nesse sentido, o texto da CTI não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. A teologia trinitária que o fundamenta, com a sua ênfase na relação, na interdependência e na comunhão, abre caminho a uma revisão profunda da ontologia tradicional e a uma antropologia mais integrada diria, uma antopoginelogia. E isso, no fundo, é o que sempre fez a teologia quando é fiel à sua vocação: não repetir o passado, mas iluminar o presente à luz do mistério de Deus.

O cuidado da Casa comum é, assim, uma forma de responder ao próprio Deus. E essa resposta, como o documento nos recorda, não é uma questão de opção, é uma questão de identidade cristã.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) DA ONTOLOGIA DO DOMÍNIO À ONTOLOGIA DA RELAÇÃO: https://antonio-justo.eu/?p=11307

Documento da CTI: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_doc_20260821_prendersi-cura-casa-comune_it.html?utm_source=chatgpt.com

Outras referências: https://www.vatican.va/content/vatican/pt.html

DO CONTROLO ESTABILIZADOR AO DESCONTROLO DEMOCRÁTICO

O Dilema da Informação na Era da Emoção e consequências para o aparelho do Estado

Vivemos um período de transição especial. Durante décadas, os meios de comunicação tradicionais, imprensa e televisão, desempenharam um papel de filtragem da informação, conduzindo a opinião pública por corredores seguros alinhados com os poderes estabelecidos. Com a consolidação da União Europeia, esta influência estendeu-se ao meio governativo e académico, moldando currículos e privilegiando certas correntes de pensamento. No século XXI, as agências noticiosas globais uniformizaram a narrativa, tornando-a repetitiva em todo o espaço europeu, enquanto Bruxelas transformava o conhecimento num bem comercializável e dirigível.

A democratização trazida pelas novas plataformas digitais e redes sociais quebrou esse monopólio dos mediadores clássicos. No entanto, esta libertação teve como consequência a informação tornar-se profundamente emocional porque mais adaptada à percepção da generalidade. As elites políticas e os seus media afiliados perceberam rapidamente o potencial deste filão. Recorrendo a técnicas de psicologia aplicada e de neurobiologia, aprenderam a formatar emocionalmente os cidadãos, pois a emoção, quando ativada, desliga a razão. Assim nasceu a realidade pós-factual ou pós verdade com o relativismo vigente que lhe dá forma.  O objetivo é reduzir a sociedade a uma massa de clientes, cuja capacidade intelectual se mede pela efemeridade do “like” e das estatísticas sociológicas. Este novo método de arrazoamento substitui o conhecimento pelo sentimento e a verdade pelo impacto. A curadoria do jornalista e do editor foi substituída pelos algoritmos, que alimentam a indústria do sentimento em vez de servirem como mediadores objectivos como seria de esperar. Vivemos, por isso, num sótão com janelas para o mundo, mas sem alicerces na vida real.

Esta fase intermédia gera insegurança tanto nos cidadãos como nas estruturas estatais. A revolução da Inteligência Artificial acelera a passagem do modelo analógico para novas formas de relação social e política, com implicações profundas no aparelho do Estado.

Em primeiro lugar, exige-se uma revisão urgente dos próprios instrumentos da democracia representativa. As mesas de voto presenciais, especialmente para os portugueses na diáspora, tornaram-se peças arcaicas de um modelo analógico. A obrigatoriedade de deslocação física a locais específicos, em dias marcados, contrasta com a fluidez do mundo digital e desincentiva a participação de milhões de cidadãos. A substituição por um sistema de voto eletrónico seguro, editável e acessível deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade premente. Esta modernização não só garantiria o efetivo exercício da cidadania além-fronteiras, como aliviaria a pressão logística sobre o aparelho consular e eleitoral.

Em segundo lugar, este novo ecossistema tecnológico implicará novas formas de organização partidária e de consulta à população. O governo poderá realizar referendos consultivos ainda muito mais intensivos do que o atual modelo suíço, diluindo o poder central em associações regionais ou locais. Neste cenário, o próprio parlamento poderia ser reduzido ou assumir novas funções e os juízes constitucionais, em vez de nomeações partidárias, poderão vir a ser eleitos por consulta direta ao povo.

A grande questão que se coloca é: conseguiremos dominar a Inteligência Artificial e o voto digital antes que sejam monopolizados pelos mesmos senhores da política e da informação artificial? O futuro da nossa democracia e a credibilidade do nosso Estado dependem de recuperarmos o espaço para a razão e para a participação inclusiva, num mundo cada vez mais dominado pelo afeto digital e pela rigidez de estruturas ultrapassadas.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

AUTO DO DEMOS EM GUERRA

Junto ao Muro das lamentações!

De Bruxelas, em auto de agonia,
Vai o Demos à feira da ilusão.
Eça e Vicente (1) na ponta da ironia,
Veem o voto ungir boys sem razão.

Mal os elege, a plateia desatina,
Chora a burrice que ela mesma criou.
Mas eis que a astúcia, de casaca e gravata,
Cavalga o medo que a guerra gerou.

Nós, resignados, no panteão da asnice,
Vemos o mundo em chamas a arder.
Enquanto o E3, em comissões felizes,
Cinzela o vazio que nos faz tremer.

Mas deste hospício, eis o paradoxo santo:
É o menos reles dos regimes, enfim.
Pois só a farsa, com seu nobre encanto,
Converte a burrice em soberania assim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

(1) Se a sociedade persiste na mesma subserviência perante as autoridades e se a atitude do poder político teima em não se renovar, impõe-se regressar à tradição literária crítica, especialmente a de Fernão Lopes e a de Eça de Queirós, para dar voz a esta poesia. No século XIV, Fernão Lopes, cronista de espírito livre, investiu contra a adulação à nobreza, denunciou as parcialidades da corte e elevou o povo a sujeito ativo da História. No século XIX, Eça de Queirós, com a sua ironia cortante, desmontou a burguesia, as suas instituições e o provincianismo que asfixiava o país. A permanência dos vícios que ambos retrataram confere-lhes uma inquietante atualidade, justificando plenamente esta incursão poética.

 

NÃO ESTAMOS PREPARADOS PARA AS MUDANÇAS TURBULENTAS QUE A IA TRAZ

Will Gates, otimista de sempre, mostra-se preocupado. Para ele, a IA não é só inovação, é uma “transição turbulentíssima” que vai deixar rastos indeléveis na história.

O principal aviso é que “não estamos preparados”. Enquanto o mundo acelera por interesses geopolíticos e económicos, os mais frágeis vão pagar a factura porque os jovens ficarão sem vagas de entrada e os trabalhadores substituídos por robôs mais baratos.

A solução que ele propõe é polémica e direta: taxar os robôs e os tokens de IA, porque o sistema atual incentiva as empresas a despedir pessoas para deduzir máquinas nos impostos.

Isto vai mudar tudo. Ou será “o maior equalizador” ou “a pior fonte de injustiça”. O que é certo é que não podemos ficar indiferentes.

Aqui, as palavras diretas de Bill Gates sem filtros:

“Raramente deixo de pensar na IA, não porque tenha todas as respostas, mas porque as questões que ela levanta são demasiado importantes para serem deixadas apenas a um pequeno grupo de tecnólogos.”

“A transição para a Inteligência Artificial vai ser um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade.”

“Neste momento, não nos estamos a preparar adequadamente para essa transição.”

“As pessoas que mais precisam de tempo são as que menos têm – o contabilista que é substituído por um robot ou o trabalhador que ganha 20 dólares por hora e perde o emprego para um robot que ganha 10 dólares por hora.”

“Estou particularmente preocupado com os jovens, que entrarão num mercado de trabalho com menos vagas para principiantes.”

“Os incentivos geopolíticos e económicos são muito fortes para que se avance a toda a velocidade.”

“Acredito que deveríamos tributar os tokens de IA e os robots. […] O sistema fiscal incentiva a substituição de pessoas por máquinas.”

“Será o maior equalizador alguma vez inventado ou a pior fonte de injustiça.”

Diz também: “Fiquei fascinado pela encíclica do Papa Leão XIV sobre a IA, “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial”. Estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa de ser feito”

Encontramo-nos, na verdade,  numa “época axial” da História termo usado pelo filósofo Karl Jaspers em 1949 referindo-se ao período de grande transformação cultural e espiritual na história humana.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Ontem (26.08.2026), a Tek Notícias (Sapo) trouxe este alerta sério de Bill Gates (1) citando um ensaio de Bill Gates onde O bilionário e co-fundador da Microsoft acaba de publicar um ensaio onde avisa que é preciso um plano para a utilização da Inteligência Artificial que possa garantir que “o bem ultrapassa o mal”. https://tek.sapo.pt/noticias/computadores/artigos/bill-gates-faz-soar-o-alarme-em-relacao-a-inteligencia-artificial-e-diz-que-nao-nos-estamos-a-preparar-para-as-mudancas/