UE retira financiamento à Bienal de Arte de Veneza devido à participação da Rússia

A União Europeia, através da Agência Executiva Europeia para a Educação e a Cultura (EACEA), cancelou definitivamente um subsídio de dois milhões de euros destinado à Bienal de Veneza. A decisão, formalizada a 21 de julho de 2026, foi tomada na sequência da recomendação da Comissão Europeia e após uma avaliação jurídica do processo.

O motivo invocado foi a decisão da organização da Bienal de admitir a participação da Rússia na 61.ª edição da exposição internacional de arte contemporânea, que decorre de 9 de maio a 22 de novembro. A Rússia regressou ao evento pela primeira vez desde o início da invasão da Ucrânia em 2022, após ter estado ausente nas edições de 2022 e 2024.

A posição da União Europeia

O porta-voz da Comissão Europeia, Thomas Regnier, declarou que “os eventos culturais financiados pelo dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos, promover o diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão, valores que não são respeitados na Rússia atual”.

A Comissão Europeia tinha avisado a Bienal durante meses de que o financiamento seria retirado se a Rússia participasse. Em abril de 2026, foi dado à organização um prazo de 30 dias para “limpar o seu nome” relativamente à participação russa. Após considerar insuficientes as explicações apresentadas pela Bienal, Bruxelas procedeu ao corte definitivo do subsídio.

A decisão gerou também críticas por parte do governo italiano, com a subsecretária da Cultura, Lucia Borgonzoni, a classificar a medida como “mais um ataque político e ideológico” a uma instituição cultural.

A posição da Bienal de Veneza

A Fundação Bienal de Veneza anunciou que irá recorrer da decisão. A organização defendeu-se argumentando que o subsídio europeu não se destinava à exposição de arte propriamente dita, mas sim a atividades do setor do cinema, nomeadamente o Biennale College e o Venice Production Bridge, atividades que, segundo a fundação, “não têm nada a ver com a participação da Rússia na Bienal de Arte”.

A Bienal sublinhou ainda que a decisão “não tem impacto significativo no orçamento, nas contas ou nas atividades previstas”, e reiterou que foi fundada com base nos princípios de “abertura, diálogo e rejeição de qualquer forma de encerramento ou censura”. O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, argumentou que “se a Bienal começar a selecionar não as obras, mas os bens, não as visões, mas os passaportes, deixaria de ser o que sempre foi: o lugar onde o mundo se reúne”.

O contexto da participação russa

O pavilhão russo, propriedade do Estado russo, apresentou o projeto “The Tree Is Rooted in the Sky”, com cerca de cinquenta artistas selecionados pelas autoridades de Moscovo. A curadora do pavilhão é Anastasia Karneeva, filha de Nikolay Volobuyev, vice-diretor-executivo da Rostec, uma fabricante estatal de armamentos russa.

O pavilhão esteve aberto apenas durante a semana de pré-abertura da Bienal, em maio, tendo permanecido encerrado ao público durante o resto do evento. A sua presença gerou protestos, incluindo uma invasão do coletivo punk-feminista Pussy Riot, e levou à demissão do júri internacional.

A Ucrânia criticou veementemente a decisão da Bienal, com a ministra da Cultura, Tetiana Berejna, a comparar o ato a “convidar um assassino em série para um jantar com amigos”.

Análise crítica

A decisão da União Europeia suscita várias questões e uma análise crítica. Em primeiro lugar, a própria Bienal sublinha que os fundos em causa não se destinavam à exposição de arte propriamente dita, mas a outras atividades culturais. A suspensão do financiamento por razões alheias ao objeto do subsídio pode ser vista como uma medida desproporcionada.

Em segundo lugar, a argumentação da EU, de que a cultura financiada com dinheiros públicos deve “promover e salvaguardar valores democráticos”, coloca a questão de saber quem define o que são esses valores e como devem ser promovidos. A decisão corresponde a um entendimento segundo o qual o poder político se arroga o direito de definir os limites da liberdade artística, o que contradiz o próprio princípio da liberdade de expressão que a UE diz defender.

Em terceiro lugar, a medida levanta a questão da seletividade: a UE focou exclusivamente a participação da Rússia, apesar de também terem ocorrido protestos contra a presença de Israel na Bienal. Esta aparente disparidade de critérios pode ser interpretada como uma aplicação política e não de princípios lógicos como os valores invocados.

Por fim, a decisão penaliza os artistas e a instituição cultural, sem que estes tenham necessariamente responsabilidade direta pelas decisões geopolíticas que motivaram o corte de financiamento. A cultura, enquanto espaço de diálogo e encontro entre povos, corre o risco de se tornar instrumento de uma política que, ao pretender defender valores, acaba por cercear a própria liberdade que diz proteger.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

A ODISSEIA TRANSFORMADA EM MANUAL DE INSTRUÇÕES DE DOMÍNIO DA CULTURA OCIDENTAL

A Inversão do Mito e a Formatação do Pensamento Ocidental

Resumo

Este ensaio crítico propõe-se mostrar que, na leitura e interpretação de crónicas, como a Odisseia de Homero, ou o relato de Caim e Abel, na Bíblia, importa fazer uma distinção fundamental. Com frequência, essas interpretações negligenciam a análise da teoria do conhecimento que lhes subjaz e que, desde o início, as fundamenta. A sua reformulação não se reduz a um mero aditamento porque pressupõe um avanço epistemológico decisivo. Não se trata apenas de reconhecer, na “Odisseia”, o conflito entre o princípio organizador feminino e o masculino representado em culturas concretas, mas de denunciar a cristalização dogmática desse conflito. O que é verdadeiramente de assombrar não é o poema de Homero, mas o modo como a civilização ocidental o transformou, fazendo-o passar de um diário de bordo de uma transição civilizacional para um manual de instruções da dominação. Neste ensaio proponho-me desmontar esse mecanismo de inversão, alargando o olhar ao episódio bíblico de Caim e Abel, para, no final, esboçar uma via do conhecimento (hermenêutica) que devolva ao ser humano a capacidade de se confrontar com a realidade descritiva, em vez de se curvar perante uma atitude moralizante dominante que entroniza o poder estruturante.

O Diário e o Manual como a Dupla Face do Padrão

Quando Homero compôs (ou reuniu) a “Odisseia” (Ulisses), legou-nos um testemunho etnológico de primeira ordem. A epopeia descreve, em linguagem mítica, a violenta passagem de uma organização social de matriz feminina ctónica, centrada na deusa-serpente, na fertilidade da terra e nos ciclos naturais, para uma organização olímpica, celeste, diurna e patriarcal. Nesse sentido, o poema é um diário: regista a vitória do logos grego sobre o mito (mythos) indiferenciado, da paternidade sobre a maternidade arcaica, da astúcia do herói sobre a sedução imóvel da deusa.

Contudo, a tradição ocidental (e nela incluo não apenas a exegese literária, mas sobretudo a pedagogia social e os discursos de poder), não tratou este registo como uma descrição artística (que implica também a dúvida)  e transformou-o num manual. O “regresso a Ítaca” deixou de ser a narrativa particular de um guerreiro nostálgico para se tornar o imperativo categórico de todo o homem ocidental: dominar, subjugar, ordenar, e, acima de tudo, fazer calar o feminino, seja ele representado pelas sereias, por Calipso ou, no plano doméstico, pelas escravas enforcadas na corda.

A consequência prática é brutal: onde poderíamos extrair uma crítica ao herói (pois Ulisses é, afinal, mentiroso, cruel, desconfiado e profundamente inseguro), a moral dominante fez dele um modelo. O herói é absolvido a priori porque a sua função já não é representar uma humanidade em conflito, mas sim formatar a humanidade segundo o molde da virilidade guerreira de que Ulisses se torna modelo. Nesta interpretação da narrativa forçosa queimam-se as ambiguidades do diário para se erguer a rigidez inquestionável do manual. Ao optar pelo manual em detrimento do mito, perde-se a Verdade que lhe subjaz, substituindo-a por uma interpretação que se impõe acriticamente, sem nunca ser questionada.

A Moralização como Estratégia de Poder no Caso de Ulisses

Se encararmos a Odisseia como descrição, o juízo que recai sobre Ulisses é inevitavelmente dialético. Admira-se a sua astúcia (métis), mas condena-se a sua desmesura (hybris) e a sua crueldade “doméstica”. De facto, o episódio do enforcamento das criadas, que haviam sido violadas pelos pretendentes, é um dos silêncios mais gritantes da crítica literária convencional. Por que razão este acto não é lido como o pináculo da paranoia do poder, mas antes como “justiça restaurada”? Certamente porque importava impor uma matriz patriarcal.

A resposta reside numa certa intenção inconsciente e não declarada de formatar as pessoas. A moralização do mito serve um propósito político imediato: desvia a atenção da estrutura para o carácter. Em vez de interrogarmos a ontologia que permite ao senhor dispor da vida da escrava, somos convidados a julgar se a escrava foi “leal” ou “desleal”. O verdadeiro problema passa a não ser a estrutura jerárquica, mas sim a conduta dos indivíduos que a integram. A política actual  procura camuflar esta questão ao conferir funções de caráter masculino a mulheres que, imperceptivelmente, passam a servir o modelo androcêntrico, negando, desse modo, o centro feminino da sua própria identidade, pois, para se afirmarem, muitas vezes sentem necessidade de se mostrar mais belicosas do que os seus colegas homens. Este desvio para o domínio moral e para o puramente funcional (a pragmática do poder) constitui o mecanismo mais eficaz de domesticação das consciências, porque oculta o tecto de ferro da estrutura sob o véu da virtude. Não se concede tempo para refletir sobre as causas das guerras; exige-se apenas que se escolha um lado, e, para tal, instalam-se os mais refinados sistemas de formatação e controlo.

O Paralelo bíblico de Caim e Abel como Síntese da Luta Agrária contra a Pastoril

É importante focar aqui o episódio de Caim e Abel no que toca a uma antropologia económica. A narrativa bíblica (Génesis, 4) é, na sua camada mais arcaica, o registo de um conflito civilizacional entre dois modos de produção e de relação com o divino:

– Abel, o pastor, representa o nomadismo, a mobilidade, a oferta de gorduras e carnes, uma economia de apropriação directa, que agrada a um Deus que se move com o vento.
– Caim, o agricultor, representa a sedentarização, a propriedade da terra, o suor do rosto e a oferta de frutos, uma economia de transformação e espera, que exige um pacto com a imanência da terra. Para isso tinha que sacrificar a tradição para dar oportunidade ao novo desenvolvimento. Relevante é também o relato de Deus ter perdoado a Caim que matou o irmão e que tem certamente a ver com o equacionamento da história humana. Revela-se particularmente elucidativo o modo como a consciência humana, as dinâmicas sociais e os processos económicos se condicionam e interferem mutuamente no seu desenvolvimento.

O que a tradição judaico-cristã fez com este relato? Transformou-o, também ele, num manual moral: Caim é o mau, o invejoso, o assassino; Abel é o bom, o justo, a vítima sacrificial. Contudo, se o lermos como diário histórico, como seria normal fazer à Odisseia, vemos antes a vitória de uma determinada sociologia ou maneira de ser e de estar histórica (a do pastor nómada) sobre outra (a do agricultor sedentário), reflexo das tensões entre as tribos israelitas e os povos cananeus, que cultivavam a terra e adoravam Baal.

Ao congelar este conflito num juízo moral, a instituição religiosa realizou a mesma violência que a tradição homérica: submergiu a análise sociológica em julgamento ético. O povo, em vez de reflectir sobre a tensão entre o nomadismo e a fixação, entre a mobilidade e a propriedade, é levado a odiar Caim e a imitar uma obediência cega (a de Abel) que, curiosamente, o leva à morte. A história, assim, deixa de ser um campo de forças para ser um tribunal de intenções. Esta tradição é seguida hoje de maneira mais acentuada e que é impulsionadora do globalismo liberal onde o Mamon se tornou na energia masculina concentrada.

A História como Cimento do Poder e a Suspensão do Pensamento

O cerne da questão que se coloca e que toca o âmago da nossa crise civilizacional resume-se na seguinte questão: porque é que os povos fazem da História um instrumento de sedimentação do poder em vez de um exercício de autoconhecimento?

A resposta assue um caracter estrutural. O poder só se perpetua quando o tempo para pensar é escasso. A moralização instantânea (o “bom” Ulisses, o “mau” Caim) funciona como um fast-food epistemológico porque sacia a urgência do julgamento sem exigir o esforço da digestão hermenêutica. Ao oferecer um herói para imitar e um vilão para detestar, o discurso público (seja ele cinematográfico, ideológico, religioso ou mediático) encurrala a polissemia do real. A vida é polissémica porque uma mesma palavra ou narrativa assume significados distintos consoante o contexto. Daí a necessidade de recorrer à intercontextualidade para perceber o fio condutor que liga os textos e as realidades em que nos movemos. Esse fio é como um rio com duas margens complementares. De um lado, a materialidade e do outro, a espiritualidade. De um lado, a individualidade e do outro, a comunidade. É justamente na relação dinâmica entre o eu e o outro que flui o verdadeiro rio do nós.

O agricultor Caim e o pastor Abel não são “bom” ou “mau”; são duas respostas possíveis à dureza do mundo. Ulisses e as escravas enforcadas não são “justiça” e “traição”; são a manifestação nua de uma lógica de propriedade que reduz o Outro a coisa. Se aceitarmos a descrição, somos forçados a olhar para o abismo da nossa própria condição: descobrimos que carregamos em nós a pastoral e a agrária, a astúcia e a violência, o masculino dominador e o feminino subjugado. Daí resultam os diferentes discursos e ideologias que ao encerrarem-se em si mesmos

A Consciência das Duas Margens e o Verdadeiro Humano

Propõe-se, no final deste percurso, uma tarefa hercúlea: libertar o mito da sua prisão moral. Isso implica uma pedagogia da suspeita, onde cada narrativa fundadora seja lida contra a sua tradição interpretativa dominante.

Ser “verdadeiro da humanidade” – na sua bela expressão – não é escolher uma margem do rio para nela edificar a fortaleza do Eu. É, antes, reconhecer que a condição humana se joga na travessia, na consciência tensa de que a margem masculina e a margem feminina, a agrária e a pastoril, a ordem e o caos, a religiosa e a secular, coexistem em nós como forças vivas e contraditórias. A consciência individual e social ideal não brota da obediência a um manual, mas da coragem de viver o diário, ou seja, da coragem de ler Homero e a Bíblia como antropologias do conflito e não como cartilhas da submissão. Penso que para a civilização ocidental é chegada a hora de rever a matriz antropológica e de se ocupar com a fórmula trinitária abordada sem preconceitos e aplicada em diferentes vertentes.

Só quando o público deixar de engolir as narrativas impostas e começar a perguntar, não “quem é o herói?”, mas “que interesses serve esta heroicidade?” estaremos a caminho dessa humanidade desperta: uma humanidade em que o princípio masculino e o princípio feminino, o princípio material e o princípio espiritual se entrelaçam em empenho comum de compromisso em atitude de complementaridade.  O rio tem sempre duas margens, mas só o barco do pensamento crítico e da razão do coração nos permite navegar entre elas, escapando à corrente da propaganda e ao pantanal das areias movediças das ideologias e do moralismo.

Que este ensaio seja, pois, uma pequena contribuição para a construção desse barco.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

A PESSOA COMO MÁSCARA E VULCÃO

Cada pessoa é um mistério insondável, uma gruta que recua sempre um passo mais fundo do que a luz da nossa vela consegue alcançar. E porque o poço não tem fundo visível, cada um se apressa a construir, sobre a boca do abismo, uma máscara, não para mentir, mas para não cair. A máscara é o primeiro gesto de sobrevivência do mistério perante o mundo.

Chamamos “real” àquilo que se vê, e, no entanto, o que se vê é apenas o facete que a luz do momento escolheu iluminar num caleidoscópio que gira sem parar. Somos feitos de mil cacos coloridos, mágoas, ternuras, ambições, silêncios e a cada volta da roda um desenho novo se compõe, sempre parcial, sempre provisório. Confundir esse desenho fugaz com a totalidade de quem somos é confundir a sombra projectada na parede com o corpo que a projecta, como sugestionava Platão na imagem projectada nas paredes da caverna.

E ainda assim é preciso descrever a máscara. Só que a máscara que se debruça sobre si mesma, tentando conhecer-se, não pode fazê-lo senão a partir de outra máscara, a do próprio autoconhecimento. É o espelho colocado diante do espelho: as imagens multiplicam-se em corredores infinitos, cada vez mais pequenas, cada vez mais fiéis à ideia de fundo e cada vez mais longe de o tocar. Conhecemo-nos, sim, mas conhecemos o rosto pintado, nunca a argila anterior à pintura.

Resta a intenção. É ela quem lança sobre o gesto o manto pesado e luminoso da verdade, como quem cobre com um pano de altar uma mesa qualquer e a transfigura. Mas o manto não muda a madeira por baixo: a acção, vestida de boa intenção, continua presa aos limites estreitos da consciência que a gerou, e raramente coincide com a Acção maior, aquela que seria plena, livre, sem sombra de cálculo ou de medo. Entre o que queremos fazer e o que verdadeiramente fazemos corre sempre um fio de água que se perde entre pedras.

E isto porque somos amassados, ao mesmo tempo, com barro de Deus e com barro do Diabo, o que fica à superfície, o que os outros, também mascarados, conseguem ler em nós, é sempre uma liga das duas argilas, nunca uma só. Há quem, ao olhar-nos, veja sobretudo o brilho: chamemos-lhe os que descobrem mais Deus. Há quem repare primeiro na fenda escura: os que descobrem mais o Diabo. E há ainda os mafarricos, os olhos treinados apenas para a fuligem, que por mais luz que uma alma ofereça, insistem em não enxergar senão o fumo. O espelho que cada um nos estende devolve sempre a sua própria cegueira, tanto quanto a nossa verdade.

No fundo, todos andamos, mafarricos incluídos, à procura de nós mesmos, tacteando no escuro de um corredor de espelhos. Mas a máscara tecida de Deus e de Diabo, a máscara que somos e que os outros veem, é precisamente aquilo que nos impede de tocar o fundo de nós próprios. Falamos com orgulho de autoconhecimento, como quem fala de uma terra já conhecida e, no entanto, o que conhecemos, quando muito, são as máscaras e as suas funções, o rosto que usamos no trabalho, o que usamos em casa, o que usamos sozinhos diante do espelho, que também é máscara, só que mais íntima.

Isto explica-se porque no mais interior de nós mesmos não há sala iluminada, há vulcão. Há um magma de amor que não conhece lei nem moral, um fogo anterior a qualquer código, que a crosta, a máscara e a pele endurecida da nossa história, tanto precisa de conter, de nomear, de vestir com regras, precisamente para poder existir à superfície do mundo sem se dissolver nele. E tal como o magma da terra só ganha forma no próprio acto de irromper, arrefecendo em contacto com o ar até se tornar rocha, pedra, paisagem, também o nosso amor mais fundo só se torna forma, gesto, rosto reconhecível, no instante em que sobe até à crosta e se exterioriza. Antes disso é apenas potência incandescente, sem nome, sem contorno, informe de tão vasta.

Eis o paradoxo em que vivemos: buscar a face nua sob a máscara é um projecto tão impossível como pedir ao magma que se mostre magma, e não rocha, sem deixar de correr. O que resta, então, não é a queixa de nunca chegarmos ao fundo, mas o assombro de que exista fundo, existia um vulcão de amor a arder em cada um de nós, mesmo quando tudo o que os outros e nós próprios conseguimos ver é a crosta que ele, generosamente, criou para se dar a ver.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©