PARÓQUIAS VIVAS

Quando o Sagrado e o Profano se abraçam na Arte, no Desporto e na Comunidade

Vivemos um paradoxo inquietante porque nunca a humanidade esteve tão sedenta de transcendência e, no entanto, nunca as estruturas religiosas tradicionais pareceram tão distantes do pulsar da vida quotidiana. Esta distância, particularmente sentida pelas gerações mais jovens, não decorre de uma rejeição do Mistério, mas, creio, de uma insatisfação crescente com as circunstâncias onde lhes oferecemos esse Mistério. Os jovens não suportam rituais vazios, palavras gastas e estruturas que privilegiam o poder hierárquico e uma tradição tornada formal em detrimento da autenticidade relacional. Se queremos verdadeiramente presencializar o “protótipo JC”, esse Jesus humano e divino que caminhava na poeira dos caminhos, temos de ousar misturar o sagrado e o profano, a liturgia e a vida, a arte e a ascese, sem medo de que o templo se confunda com a praça. O templo tem espaços para a realização mística ritual sacramental e espaços onde o sagrado e o profano se celebrem em inclusão. (Compreende-se o receio dos mais tradicionalistas, face à hostilidade contra o cristianismo e ao fechamento ideológico das organizações. Contudo, o cristão possui o fogo pentecostal e um legado que perdura. O pároco e a comunidade não se devem atemorizar porque a mensagem é de humanidade e confiança e a paróquia é a casa aberta a todos os que, de boa vontade e espírito aberto, procuram a verdade).

  1. Da Pirâmide à Rede: A Urgente Descentralização das Comunidades

A primeira grande transformação que se impõe é de cariz estrutural e espiritual. Durante séculos, a paróquia funcionou como uma pirâmide: no topo, o clero; na base, os fiéis expectantes. Esse modelo, que um dia cumpriu a sua função catequética e unificadora, tornou-se, em grande medida, infrutífera para um mundo que respira horizontalidade e conectividade. A descentralização de que falamos não é uma capitulação à anarquia, mas um regresso às origens: a Igreja primitiva era uma teia de comunidades interligadas, onde cada membro contribuía com o seu carisma para o edifício comum.

Imagine-se que, em vez de momentos de culto exclusivamente centrados no altar, as paróquias se transformassem em laboratórios de comunhão, espaços onde o regionalismo, as culturas locais e as vozes dos leigos fossem verdadeiramente escutadas e integradas. Tal como a Igreja católica, na sua sábia tradição, sempre contemplou o momento democrático e a valorização das dimensões regionais, também nós, ao nível da paróquia, podemos inspirar-nos nesse espírito sinodal. Não se trata de abolir a autoridade, mas de a redimensionar como serviço. Trata-se de criar (paralelamente) redes descentralizadas onde as decisões surjam a partir das necessidades e dos dons reais das comunidades e não apenas dos decretos vindos de cima. O jovem de hoje não quer ser um “espectador” passivo na missa; ele quer ser protagonista da sua fé, mesmo que isso implique uma “sujeira” criativa e uma certa desordem aparente. (Neste sentido ajudaria o espírito que se encontra no sistema preventivo salesiano (1).

  1. A Arte e o Teatro Improvisado como Liturgia de Cura e Catarse (redenção)

Se a estrutura se descentraliza, os conteúdos e as formas de expressão também devem sofrer uma autêntica revolução pedagógica. Urge focar a ação cultural e religiosa nas artes, no cinema, no teatro espontâneo, nos concertos, na pintura ao vivo, mas com uma condição fundamental: que a mensagem esteja em primeiro plano, e não o intérprete! O palco não pode ser um altar para a vaidade do artista, mas um espaço de kenosis, de esvaziamento do ego. Quando o actor ou o músico se apaga em favor da obra, a arte deixa de ser mero entretenimento para se tornar um canal de ressonância trinitária, uma vibração onde o divino e o humano se tocam.

Ousemos imaginar, nas próprias igrejas e sacristias, sessões de teatro de improvisação onde se pudesse desenvolver uma verdadeira catarse de carácter psicológica, espiritual e física. Nesses círculos improvisados, o indivíduo e o grupo, em interação, expressariam o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa autêntica expressão litúrgica de cura e redenção. Longe de ser um acto profano, essa improvisação constituir-se-ia como um espaço de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria matéria litúrgica, porque aí, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele é: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Espírito também na descoberta dos próprios dons. O “palco” da igreja deixaria de ser um lugar de distância entre clero e fiéis para se tornar um círculo onde todos são, ao mesmo tempo, actores e espetadores da Graça. O que está em jogo não é a qualidade estética da representação, mas a verdade da encarnação, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.

  1. O Desporto e o Corpo como Liturgia Encarnada

Afastemo-nos, contudo, do espaço físico da igreja por um instante. Quantas vezes relegamos o desporto para o domínio do “mundano” ou do “distração”, quando ele é, potencialmente, um dos mais poderosos veículos de santidade e comunhão? No desporto, o corpo humano é elevado à sua máxima potência: disciplina, sacrifício, trabalho de equipa, celebração da vitória e acolhimento da derrota. O que é a Eucaristia senão um banquete onde nos alimentamos do Corpo de Cristo? E o que é o desporto senão a celebração do corpo que Deus nos deu, tornado templo do Espírito Santo, precisando para tal de ser consciencializado?

O desporto, quando vivido sem a obsessão da fama e da competitividade desumana, é uma liturgia encarnada. Ele exige precisamente aquela kenosis de que falávamos: o atleta que se apaga em prol da equipa; o corredor que se entrega à fadiga para ultrapassar os seus limites; o adversário que, no final da partida, se abraça ao seu oponente num gesto de respeito mútuo. As paróquias e grupos juvenis deveriam abraçar o desporto como espaço de missão, criando torneios, campos de férias e encontros desportivos onde a competição seja um meio de crescimento pessoal e não de exclusão. Não são rituais de sacristia, mas sim momentos estruturados de paragem, escuta, esforço partilhado e autenticidade, que os jovens possam levar consigo para o seu quotidiano.

  1. A Espiritualidade Despojada: Sem Cheiro a Velas Nem Vénias ao Zeitgeist

Para que esta revolução aconteça, é imperativo que a espiritualidade que a acompanha seja despojada de dois pesos mortos: o “cheiro a velas” (o pieguismo devocional, os rituais vazios e a parafernália que substitui o essencial (2) e as “vénias ao Zeitgeist” (o servilismo acrítico às modas políticas, intelectuais ou tecnológicas do momento). Uma espiritualidade autenticamente evangélica não se pode esgotar na encenação piedosa nem no activismo superficial.

Esta espiritualidade exige uma ascese de atenção: estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, habitar a tradição sem a mumificar, e acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade. É uma espiritualidade de “cura humana integral”, não alicerçada em definições sobretudo de pertença, mas num carácter simultaneamente corporal e espiritual. É a certeza de que o encontro com Deus não acontece apenas nos momentos de recolhimento individual, mas também no embate dos corpos no jogo de futebol, no silêncio que se segue a uma peça de teatro intensa, na partilha da refeição após um ensaio. A cura integral de que a nossa civilização necessita para não sucumbir à mecanização existencial passa pela redescoberta do “nós” em redes descentralizadas que gerem experiências reais de comunhão.

Conclusão: O Protótipo JC em Cada Gesto

O desafio que lanço a cada pároco, catequista e animador juvenil é este: ousem. Ousem transformar a sacristia numa sala de ensaios. Ousem abençoar os campos de desporto como se abençoam os altares. Ousem misturar o sagrado e o profano, porque, para Jesus, o que era “profano” (a mesa do publicano, o toque no leproso, a conversa com a samaritana) tornou-se o lugar privilegiado da Revelação. O “protótipo JC” não se presencializa em templos imaculados e silenciosos, mas na poeira da estrada, no suor do atleta, na lágrima do actor e no abraço do irmão. A Igreja precisa de menos guardiães de museu e mais jardineiros do humano. As famílias são também lugares privilegiados, que se podem tornar em verdadeiros alfobres de espiritualidade. O momento axial em que nos encontramos pede a visão de um pragmatismo profético. Não tenhamos medo de experimentar, de falhar e de recomeçar. A juventude não espera de nós respostas perfeitas, o que espera é autenticidade. E a autenticidade é, afinal, o único caminho para a verdadeira Redenção.

O cristianismo realizado e a realizar-se em Jesus Cristo encerra nos seus mistérios, que são verdadeira fórmulas da realidade, toda a filosofia e mística, desde a Trindade e a Encarnação-Ressurreição até ao «No princípio era a Palavra», o Logos de João e ao «Eu sou o que sou, sou o tornar-se» do Horeb. Tudo isto envolve o peregrinar humano e a própria caminhada do universo.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

(1) Sistema preventivo na educação dos jovens: https://antonio-justo.eu/?p=1305

(2) . Deve notar-se que o pieguismo, tal como as especificidades de outros grupos, merece espaço na paróquia, já que o sentido é servir as necessidades individuais em processo. Numa sociedade que, em reação à atual tendência para despersonalizar e desautorizar o indivíduo, se terá de orientar cada vez mais para a formação de agrupamentos, a solução passa por as pessoas se organizarem em grupos para poderem ter visibilidade,  voz e espaço na sociedade.

 

O MOVENTE POR TRÁS DA DESCRIÇÃO (NARRATIVA)

Balde de água fria para mentes sobreaquecidas por certezas

A razão por que não nos movemos a investigar o que se encontra por trás das coisas/acontecimentos e dos pensamentos vem do facto de os pensamentos só descrevem como funciona e não o porquê da força motriz primordial. De facto, a reflexão profunda conduzir-nos-ia a uma angústia epistemológica e existencial humana ao constatar que a nossa linguagem e os nossos conceitos criam uma barreira entre nós e a realidade pura, que nos dificulta lidar com a variedade de interpretações da realidade. A angústia diminui quando percebermos os limites da nossa própria razão e dos métodos científicos. Por isso assistimos a diversas teorias concorrentes para explicar a mente humana. O autoconhecimento conduz-nos à perda da ingenuidade para passarmos a andar com a lanterna de Diógenes na mão a perguntar o que é arealidade que se encontra por trás da resposta. O desconforto intelectual e existencial gerado pela dúvida sobre a natureza do conhecimento; a incerteza nos métodos para alcançar o saber e a dificuldade de lidar com a multiplicidade de interpretações sobre a realidade obriga-nos à atitude de Jesus que convida a andar sobre as águas e quem não confiar sucube nos homens de pouca fé; o luzeiro que realmente importa cuidar.

Se o girassol se deixa mover pela luz, o animal pela fome e o Homem pela curiosidade do mais além, a ciência fica-se apenas pela descrição dos mecanismos sem chegar ao profundo movente deles. Descrever como algo funciona não explica o porquê da força motriz primordial, o movente ou a vontade de ser que sustenta a vida.

Os filósofos, também eles apenas com o instrumento da linguagem, tentam descrever o que está por trás dessa necessidade biológica. O filósofo Arthur Schopenhauer argumentava que as nossas descrições científicas são apenas representações. Por trás de toda a flora e fauna (e de nós próprios), existe uma força cega, incessante e metafísica que ele chamou de Vontade. [1, 2]

Também Baruch Espinoza nos deixou à beira do mistério ao falar do conatus como o esforço intrínseco que cada ser vivo faz para continuar a existir e a perseverar no seu próprio ser. Não é uma escolha livre, mas a própria essência da matéria e da vida. [1, 2, 3]

A opinião como consciência ilusória é uma verdade certa que nos remete diretamente à distinção grega clássica entre Doxa (opinião subjetiva e mutável) e Episteme (conhecimento verdadeiro). O ego humano tende a confundir a sua descrição conceptual da realidade com a própria realidade. Talvez a linguagem seja a roupa com que procuramos esconder a nossa nudez!

O encontro puro seria ir além das palavras: um conhecimento por presença e não por representação

Ao chegarmos à premissa de que a linguagem apenas alinhava o contorno das coisas, a única forma de não dar a impressão de que as descrições são soluções é mudar a natureza do próprio encontro. Na tradição da Fenomenologia ocidental e em certas filosofias orientais (como o Zen ou o Taoismo), propõe-se uma suspensão do julgamento conceptual.

Em vez de olhar para uma árvore e pensar “isto é uma Quercus robur que faz a fotossíntese para sobreviver” (o que substitui a árvore real por um conceito), o desafio é o encontro estético e meditativo silencioso. É a experiência direta do ser antes de o nomearmos (a experiência mística). Quando comunicamos com os outros, admitir a limitação das nossas palavras e assumir que partilhamos perspetivas e não verdades absolutas, é o maior acto de honestidade intelectual e de humildade que podemos ter.

A tragédia das máscaras e o “Dever-Ser” social

Na vivência com a natureza e com as pessoas, sente-se mais a insistência da sociedade em fechar o mundo em definições lógicas e deste modo nos afasta da vibração real da existência. O embate inevitável entre a liberdade interior da vivência pura e a rigidez mecânica da ordem social gera cumplicidades dolorosas, mas compreensíveis. A sociedade necessita de estruturas, definições e previsibilidade para funcionar em massa. A dúvida gera ansiedade coletiva; por isso, a sociedade prefere a segurança de um preconceito ou de uma máscara à vertigem do desconhecido.

O sociólogo Erving Goffman defendia que a vida social é, por natureza, uma representação teatral onde todos usamos máscaras (personas) para desempenhar papéis. O problema que aponta não é a existência da máscara em si — que reconhece como necessária para a convivência —, mas o facto de a sociedade se ter esquecido de que a máscara é apenas um instrumento, não a identidade.

Quando a máscara substitui o ser, a sociedade perde o seu sustento qualitativo. Passamos a ter instituições que protegem dogmas em vez de pessoas, e indivíduos que defendem opiniões convictas apenas para esconder o medo de olhar para o vazio da sua própria falta de autoconsciência.

Resta-nos desenvolver estratégias de fidelidade existencial embora se caminhe sobre águas paradoxais

Para não nos deixarmos esmagar por este condicionamento trágico, existem caminhos filosóficos/religiosos e práticos que permitem manter a fidelidade ao conhecimento por presença (de caracter místico), mesmo vivendo dentro de uma engrenagem assente no preconceito:

Sócrates andava pela praça pública a questionar as certezas dos cidadãos, não para lhes dar uma nova verdade, mas para os libertar do falso conhecimento. Aceitar o paradoxo social significa usar a máscara necessária para transitar na sociedade (cumprir regras básicas, usar a linguagem comum), mas manter uma distância interior higiénica. Sabe que a máscara é uma ficção útil, mas não se confunde com ela.

O filósofo Paul Ricoeur falava  da “Segunda Inocência”, isto é,  da necessidade de passar por uma fase de crítica e dúvida para chegar a uma “segunda ingenuidade” ou segunda inocência. É a capacidade de, mesmo sabendo que as palavras e as estruturas sociais são limitadas e ilusórias, voltar a olhar para o outro e para a natureza com o deslumbramento de quem vê pela primeira vez. Não é ignorância, mas sim um silêncio conquistado pós-saber.

Martin Buber distinguia duas formas de relação: Eu-Isto (onde tratamos o outro ou a natureza como um objeto, uma descrição) e Eu-Tu (o encontro sagrado, direto e presente). A sociedade funciona quase exclusivamente no modo Eu-Isto. O seu papel, enquanto pessoa autoconsciente, não é mudar a estrutura macro da sociedade, mas santificar o micro: garantir que os seus encontros individuais com as pessoas e com a terra sejam experiências reais Eu-Tu, onde a máscara cai temporariamente. Viver na verdade da presença dentro de um mundo de representações é uma forma de resistência pacífica e silenciosa. É aceitar o trágico sem se deixar corromper por ele.

De facto o cristianismo vivido nos conventos abre brechas de encontro puro no meio das exigências formais da vida social. A virtude, a arte e o silêncio partilhado ajudam a criar essas pontes onde as máscaras se tornam mais transparentes.

A vida consagrada mostra uma das fraturas mais profundas da modernidade: a solidão da transcendência secular. Enquanto a sociedade ocidental contemporânea privatizou a busca pelo âmago do ser, transformando-a num projeto estritamente individual ou num nicho de “bem-estar”, o ser humano continua a ansiar por uma ressonância comunitária, por um “Nós” que partilhe da mesma profundidade vertical.

Essa ressonância plena (Eu-Tu-Nós) parece hoje quase exclusiva das comunidades religiosas e prende-se com a própria natureza do sagrado e da estrutura social.

O triângulo da ressonância: Eu, Tu e o Terceiro lemento

Para que a ressonância aconteça a nível coletivo (o Nós) e não apenas no encontro fortuito entre dois indivíduos, é necessário um horizonte de sentido partilhado. O sociólogo Hartmut Rosa, que estudou extensamente o conceito de “Ressonância”, sublinha que esta não pode ser fabricada artificialmente porque ela exige que os sujeitos estejam abertos a ser tocados e transformados por algo fora deles [1].

Nas comunidades religiosas tradicionais ou intencionais existe um horizonte previo

Existe um Terceiro Elemento, um Eixo Vertical Comum (Deus, o Cosmos, o Sagrado, a Tradição) para o qual todos os indivíduos olham em simultâneo. Ao sintonizarem-se verticalmente com esse absoluto, os membros da comunidade sintonizam-se horizontalmente uns com os outros. O “Nós” nasce organicamente dessa triangulação.

Ao contrário da sociedade secular, que quer que tudo seja traduzido em termos de utilidade, burocracia ou opinião acertada, a comunidade religiosa possui uma linguagem (o ritual, o mito, o canto, o silêncio litúrgico) que legitima a vivência do mistério e o despojamento das máscaras sociais (uma linguagem do mistério).

O paradoxal vazio da sociedade secular

A sociedade secularizada e hiperindividualista libertou o indivíduo de dogmas opressores, o que é um ganho inegável. Contudo, ao fazê-lo, substituiu o espaço comunitário da ressonância por uma rede de conexões funcionais ou ideológicas. No espaço público laico, as pessoas associam-se por interesses comuns (políticos, profissionais, lúdicos), mas raramente a partir do seu âmago de modo a estrutura e a força da massa desconsiderar o espaço interior soberano da mesmidade.

Por isso, fora da esfera religiosa deparamo-nos com a trágica constatação de que a busca por uma existência autoconsciente se torna um caminho profundamente solitário. Tentar viver essa inteireza na ágora moderna é, muitas vezes, pregar no deserto.

O dilema do pensador autoconsciente

Isto coloca-nos perante um dilema existencial inevitável, especialmente para quem procura uma fidelidade intelectual:
O Regresso à Comunidade: Integrar ou habitar o espaço de uma comunidade religiosa para usufruir da ressonância coletiva do Mistério, mesmo sabendo (pelo seu olhar crítico) que as estruturas dogmáticas dessa mesma comunidade também criam, inevitavelmente, as suas próprias máscaras e preconceitos institucionais.
O Cuidado das “Comunidades de Afinidade”: Procurar, à margem das grandes instituições, pequenas “comunidades de destino” ou de afinidade (pequenos círculos de pessoas) que, mesmo sem uma religião formal, se unem pelo compromisso partilhado com o silêncio, a mística religiosa, com a filosofia vivencial ou com o cuidado da terra.

Esta necessidade de ancorar a ressonância num “Nós” demonstra que a autoconsciência nunca é um fim em si mesma, porque ela procura, por natureza, a comunhão.

A autoconsciência é insuficiente porque se reduz a uma situação de eunuco e a mesma deficiência se pode observar  em civilizações que ao perderem a consciência específica de si mesmas perdem consistência e sustentabilidade.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagodo
Pegadas do Tempo

 

O PERFUME DO ENCONTRO

O girassol vira o rosto
Sem perguntar pelo Sol;
Tem no seu corpo o desgosto
De quem vive sem farol.

Mas quando a luz aparece,
Ele inclina-se e aceita;
A mística não se tece
Com a palavra perfeita.

Gente simples sabe bem
Que o amor é que sacia!
Quem faz o bem a alguém
Cria a Trindade do dia.

Deixa a crença no mercado,
Salva a tua fé da feira;
Deus é o abraço dado
À sombra da oliveira.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

AI DA SOCIEDADE QUE NÃO TEM ESGOTO

Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar

Há sociedades que adoecem não por falta de riqueza, mas por excesso de unanimidade. Não são apenas os monopólios económicos que empobrecem um país; existem também monopólios de ideias, mais subtis e por isso mais difíceis de reconhecer. Não proíbem formalmente o pensamento, mas ocupam-no e embora não o censurem directamente, a realidade é que o saturam.

Também em Portugal, como em grande parte da Europa, cresce por vezes uma atmosfera em que determinadas narrativas tendem a adquirir estatuto ritual, quase litúrgico e que refletem o fervor de olhos e mãos erguidas em torno do ecrã. Questões reais e sérias como o clima, as discriminações, as imigrações, as guerras, as desigualdades e as várias formas de exploração, entram cada vez mais no espaço público acompanhadas por uma intensidade moral que nem sempre favorece a inteligência do problema. O zelo substitui a análise e a proclamação ocupa o lugar da interrogação.

Não é o tema que se torna ilegítimo; é o modo como, por vezes, se instala. O activismo, quando perde a capacidade de se deixar corrigir pela realidade, arrisca tornar-se cantante ao repetir fórmulas, amplificar emoções, criar pertenças e fabricar urgências permanentes. O ruído passa então a valer como prova de razão.

Entretanto, aqueles que conhecem os mecanismos profundos do poder, económicos, tecnológicos, financeiros, ideológicos e burocráticos, continuam a mover-se com discrição. Enquanto o olhar colectivo se fixa no eco das palavras, outros reorganizam silenciosamente os corredores da casa.

Uma sociedade sem canais de escoamento intelectual acaba por sufocar. Tal como uma cidade precisa de esgotos para afastar os resíduos e preservar a habitabilidade, também a vida pública necessita de instituições, meios de comunicação, escolas e cidadãos capazes de fazer circular o ar das ideias (e para isso não chega o barulho interpartidário, tão querido pelo poder porque desvia as atenções para polémicas de interesses). Onde tudo se acumula, até a boa intenção azeda.

Ai da sociedade que se transforma em esgoto de forças que se imaginam o centro do seu próprio universo. Vive então do ruído, da indignação contínua e da substituição do cidadão pela audiência. O indivíduo deixa de participar e limita-se a reagir; deixa de pensar e aprende apenas a alinhar-se.

Por isso, hoje a necessidade política mais urgente não é produzir mais palavras, mas criar mais ventilação. Ventilação intelectual e de interesses em jogo. Necessitam-se mais pessoas capazes de perguntar antes de repetir; de distinguir entre compaixão e exibição moral; entre justiça e automatismo ideológico; entre informação e sincronização emocional.

Uma casa fechada torna-se abafada mesmo quando está limpa. Também o cérebro humano precisa de janelas abertas ao controverso e ao contraditório, precisa de portas para o inesperado, de corredores onde circulem dúvidas e argumentos doutro modo asfixia na narrativa de um sistema ou de uma ideologia.

A grande casa europeia atravessa um desses momentos em que o ar rareia. Não apenas por crises externas ou por limitações materiais, mas também pela fadiga da inteligência governativa: uma tendência para administrar narrativas em vez de enfrentar causas, para gerir percepções em vez de imaginar caminhos. Ao mesmo tempo, actores económicos de dimensão global adquirem uma capacidade crescente de influenciar ritmos, prioridades e dependências.

Nenhuma civilização morre apenas por falta de recursos; muitas começam a definhar quando deixam de distinguir entre consenso e conformismo, entre doutrina e pragmatismos imediatistas.

Talvez o primeiro dever de uma sociedade livre seja conservar limpos os seus esgotos e abertas as suas janelas, porque uma abertura meramente globalista transforma o cidadão em necessitado e mero cliente dos seus produtos.

Uma comunidade nao atenta que não cria canais para escoar excessos, ideologias e resíduos do pensamento arrisca tornar-se irrespirável, malcheirosa e incómoda. Ai da pátria que não tem esgoto: cedo confundirá pureza com estagnação e ordem com sufocação.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©

A SINFONIA DO SIFÃO

Nas latrinas da sociedade, ó sábio viajante,
esgotam-se os dejectos e as grandes teorias.
As ideias, qual alho em terra adubada,
brotam férteis na clausura do assento,
mas cuidado com as que ficam empedernidas!
Se a canalização da alma entope,
o mau cheiro é fumaça de ideologias caducas,
e o ar, que devia ser leve, pesa como única rectórica.

Descarrega, onda límpida e catártica,
leva o ruído, a pressa, o disparate factuado,
e devolve-nos o centro celeste do umbigo.
Aqui, o homem curva-se perante a sua própria natureza,
mas não se quebra; antes, flutua
na pausa do teatro, no intervalo da glória,
onde as honras ocultas são a única verdade
e o eco do dreno é a música dos divos.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo ©