O “PAI NOSSO”

Interpretação da sexta petição: Tentação ou Prova?

O Pai Nosso é a oração básica de toda a cristandade; ela foi ensinada (Mt 6,9-13; Lk 11,2) por Jesus aos seus discípulos. Para Mateus a Oração do Senhor é uma reza completa porque engloba as necessidades humanas e a assistência divina. Com ela entra-se numa relação com Deus que possibilita ao crente a experiência da ressonância entre imanência e transcendência e, se rezada em comunidade, possibilita também a ressonância intercorporal. O Pai Nosso é completo, porque nos afasta da hipocrisia ordinária e apresenta-nos também o contexto próprio para a relação com Deus, apontando, como condição para o orante, o cumprimento da Regra de Ouro, que é a prontidão para perdoar ao próximo.

O Pai Nosso tem sete petições dirigidas a Deus e une cerca de 2,5 mil milhões de pessoas na terra, na sua relação com Deus. Como as plantas olham para o sol à procura de vida assim a nossa alma levanta o olhar para Deus na procura de vida espiritual, realização e perfeição. O Sol, Deus, a vida, não giram apenas em torno de mim. Eu apenas sou um Protagonista da peça divina no palco de Deus, onde o enredo tem toda a humanidade a atuar, numa caminhada universal onde não há espectadores.

Na obra da criação, criados como humanos, sendo parte da criação, estamos também sujeitos às leis da natureza e como tal estimulados a seguir a força dos desejos e instintos (bons porque nos conduzem, mas em certos pontos sensíveis podem levar-nos à tentação) e a viver numa certa dialética que pode possibilitar desenvolvimento e purificação.

O sexto pedido no Pai Nosso (Mat 6:13, objecto de reflexão aqui) reza assim: “E não nos deixeis cair na tentação„ ou “e não nos exponhas a uma prova” (et ne nos inducas in temptationem: tradução feita do grego: και μη εισενέγκης ημάς εις πειρασμόν). Nas traduções poderá haver divergências entre a versão da Vulgata Latina e o texto grego dos Evangelhos.

Em 2017 o Papa Francisco generalizou o debate sobre o problema da exatidão das traduções, esclarecendo que: “Deus não nos tenta” (1) e dizendo que a frase do Pai Nosso (Mateus 6.13) “e não nos deixes cair em tentação” (noutras línguas: “e não nos induzas/conduzas à tentação” tinha sido mal traduzida!  Também as correções feitas pelos episcopados francófono e italiano (2) não satisfazem alguns teólogos porque entre outras coisas as novas traduções não seriam fiéis à tradução oficial da Vulgata: (et ne nos inducas in temptationem “e não nos leves/induzas para a tentação”)!

A questão seria mais complicada se partíssemos da Vulgata como fonte, mas de facto a fonte donde vem a Vulgata é o grego.  De facto, „Não nos deixes cair em tentação” significa “não permitas que sejamos tentados a ponto de cairmos” ou “não nos submetas ao teste” porque se levados ao exame das tentações, como foi Jesus, sucumbiríamos devido à fraqueza da própria fé. Por outro lado, o “não nos deixeis cair em tentação” aponta para a incapacidade de resistir ao mal sem a assistência divina. Interessante aqui é, de facto, o problema do sermos tentados que, no caso, não poderia ser por Deus, mas, por outro lado, o que torna totalmente viável a interpretação bíblica de Ratzinger/Bento XVI (e a exegese e análise filológica clássica) que apontam para o aspecto de sermos provados por Deus, como se depreende do texto grego.

A abordagem ao texto de forma teológica e o acesso filológico-exegético ao texto permitem-nos uma visão mais ampla da questão. As diferentes traduções não apresentam problemas teológicos em geral, mas apenas especificidades de exegese e filologia.

Segundo exegetas e filólogos na tradução do grego para o latim ou para outras línguas, o verbo grego εισφέρω/isféro pode ser traduzido tanto por tentar como por provar ou examinar, no sentido de pôr a pessoa à prova, e submetê-la a um teste; além disso ainda há a questão da tradução do aramaico para o grego, mas que não é relevante para aqui.

Atendendo ao facto de as palavras gregas da frase do Pai Nosso (3) possibilitarem diferentes significados: εισενέγκης/eisenénkis do verbo εισφέρω/isféro significa ”levar, “trazer”, “entrar”, “guiar” e “conduzir” (sem a significação de “deixar” como na tradução portuguesa (4): nesse caso teria sido usado o verbo επιτρέπω com o significado de deixar, permitir, consentir, instruir, ou o verbo αφίημι no sentido de permitir, deixar, enviar) e o substantivo πειρασμόν/peirasmos que significa tentação,  provação/ teste ou exame (este parece ser mais fiel ao original grego), temos alternativas de tradução a partir do texto de origem grega; tais como: “e não nos deixes cair em tentação”, “e não nos leves à provação”, ou simplesmente, “não nos testes”. Afirmam os filólogos que Peirasmos tanto possibilita ser traduzido por “Tentação” (maligna) como por “Provação” (de Deus). Os diferentes contextos bíblicos (Hermenêutica) apontam mais para a ideia de provação: “e não nos induzas/conduzas a provas/tentação”, ou: “e não nos exponhas a uma prova” (porque não somos como Jesus que resistiu a elas no deserto). Os peritos linguistas concluem que “As duas possibilidades da tradução (Tentação e Provação) são legítimas pois “nenhuma tentação nos ocorre sem que Deus permita que ocorra”, pois, o mal é a ausência de Deus. O esforço, que espera da nossa parte, é para nos elevarmos em direcção a Deus para ele nos poder dar a mão (5). No caso de Abraão e seu filho Isaque, Deus põe Abraão à prova (Gen 22:1-2), o mesmo se diga no caso de Job.

Razinger/Bento XVI, no livro “Jesus de Nazaré I”, Capítulo 5, reflecte sobre a sexta petição do Pai-nosso, a saber: “E não nos conduzas à tentação„, noutras traduções é “E não nos deixeis cair em tentação”. Nele Ratzinger arruma com aparentes contradições nas traduções. Passo a citar as suas palavras (6), de expressão espiritual-teológica:

“Deus não deixa o homem cair, mas testa-o (7) … Para amadurecer, para realmente passar, cada vez mais, de uma piedade superficial para uma profunda unidade com a vontade de Deus, o homem precisa de ser testado. Tal como o sumo do mosto de uva fermenta para se tornar vinho nobre, também o homem precisa de purificações, transformações que são perigosas para ele, nas quais pode cair, mas que são, no entanto, os meios indispensáveis para chegar a si mesmo e a Deus. O amor é sempre um processo de purificações, renúncias, transformações dolorosas de nós próprios e, portanto, um caminho de amadurecimento”. Ao dizermos “Não nos conduzas à tentação”, („Não nos deixeis cair em tentação”), estamos a dizer a Deus: Eu sei que preciso de provas para que a minha natureza seja pura… “(8).

“Quando Francisco Xavier foi capaz de dizer a Deus em oração: Amo-vos, não porque tendes céu ou inferno para perdoar, mas simplesmente porque sois meu Rei e meu Deus, um longo caminho de purificação interior tinha certamente sido necessário até esta liberdade final; um caminho de maturação sobre o qual a tentação, o perigo de cair, espreitava, mas ainda assim um caminho necessário” … (Em contexto cristão tentação é o estímulo a uma acção imoral – pecado – e este é como a sombra que surge onde Deus não brilha).

Ratzinger conclui: “Assim, podemos agora interpretar a sexta petição do Pai Nosso de uma forma mais concreta. Dizemos a Deus: Eu sei que preciso de provações para que a minha natureza se torne pura. Ao ordenares estas provas sobre mim, se dás ao mal um pouco de espaço livre, como fizeste com Job, então por favor lembra-te da medida limitada da minha força. Não me dês demasiado crédito. Não estabeleças limites demasiado amplos nos quais eu possa ser tentado, e está perto com a tua mão protectora quando ela (a prova, o exame, a “tentação”: meu parêntesis!) se tornar demasiado para mim… Na nossa oração da sexta petição do Pai Nosso, devemos, por um lado, estar dispostos a assumir o fardo da provação que nos foi imposta. Por outro lado, é o pedido que Deus não nos dá mais do que somos capazes de carregar; que Ele não nos deixa sair das Suas mãos. Fazemos este pedido com a certeza confiante que São Paulo nos deu: “Deus é fiel; Ele não permitirá que sejas tentado para além das tuas forças. Ele dar-te-á uma forma de sair da tentação para que possas suportar (1 Cor 10:13)”.

Joseph Ratzinger-Bento XVI cita ainda Cipriano que referiu duas razões pelas quais Deus dá um poder limitado ao mal e assim “possibilitar o arrependimento, refrear a nossa arrogância, para que possamos experimentar novamente a miséria da nossa fé, esperança e amor, e não nos imaginarmos grandes por nossa própria vontade” como agiam os fariseus que pensavam que devido ao seu mérito já não precisavam da graça”. Cipriano não desenvolveu o outro tipo de teste ou tentação, mas de não esquecer é o facto de Deus colocar um “fardo particularmente pesado de tentação sobre aqueles que lhe são especialmente próximos” (por ex.: Therese de Lisieux).

Ratzinger centra as suas atenções no núcleo do cristianismo e quem o lê tem a sensação de estar ao mesmo tempo com um sábio e com um santo. Como ele diz, a relação com Deus torna os seres humanos, humanos. E como “Deus é amor, torna-se ociosa a tentativa de o rodear de argumentos e tentar agarrá-lo”. De facto o homem é demasiado pequeno para conseguir tal e emaranha-se em si mesmo ao tenar reduzir o acesso a Deus apenas com factores de causalidade.

De facto, a luz da verdade, a graça e a iluminação da razão são os luzeiros necessários para avançarmos e nos desenvolvermos.

Deus sabe que estamos sujeitos às leis do mundo que ele criou e para as superarmos precisamos da sua assistência. As resistências a elas pressupõem esforço e o apoio especial divino que é pedido por quem tem a consciência da sua pequenez e da grandeza divina; de facto, no mundo real, sem resistência não há desenvolvimento.

António CD Justo

Teólogo e

Pegadas do Tempo

Junto aqui Duas versões / traduções diferentes, de Aramaico (a língua em que Jesus ensinou).

1ª versão

Oh Tu, respirando vida em tudo, origem do som cintilante.

Tu brilhas em nós e à nossa volta,

até a escuridão brilha quando nos lembramos.

Ajuda-nos a respirar uma respiração santa na qual Te sentimos apenas a Ti-

e deixa que o Teu som ressoe dentro de nós e nos purifique.

Que o Teu conselho governe as nossas vidas e clarifique o nosso propósito (intenção )

para a criação que partilhamos.

Que o desejo ardente do Teu coração una o céu e a terra

através da nossa harmonia.

Concede-nos diariamente aquilo de que precisamos de pão e de discernimento:

o que é necessário para o apelo da vida crescente

Solta as cordas das faltas (erros) que nos ligam,

como nos libertamos do que nos liga à culpa dos outros.

Não nos deixemos enganar por coisas superficiais,

mas liberta-nos daquilo que nos prende.

De Ti provém a vontade todo-eficaz, o poder vivo (energia/força viva) para agir,

a canção (música) que tudo embeleza e se renova de idade em idade.

Verdadeira vitalidade a estas declarações!

Que sejam o solo a partir do qual todas as minhas acções crescem.

Selado na confiança e na fé.

Ámen.

 

2ª versão

Mãe-Pai de todos os criados! O teu nome ressoa sagradamente através do tempo e do espaço!

O teu ser uno (Unidade divina) cria em amor e luz – para sempre e agora!

Que a Tua vontade seja feita através da minha – como no espírito, assim em todos os formados (tudo o que tem forma)!

Dá-nos alimento diariamente – quanto ao corpo, assim como à alma!

Solta os laços dos meus defeitos (falhas) – tal como eu os solto (perdoo) aos outros!

Não me deixes perder em superficialidades e em coisas materiais!

Liberta-me da imaturidade e de tudo o que me prende e não me liberta!

Pois Teu é o poder e a música do universo – agora e aqui e na eternidade. Ámen.

Traduzido por António Justo a partir do texto alemão.

(Nova tradução do PAI NOSSO de acordo com Martin Luther, Septuaginta e Vulgata de acordo com: G. Lamsa (Gospels from an Aramaic Perspective), adaptação inglesa: N. Douglas-Klotz,Adaptação alemã: J.E. Berendt).

Fonte: https://robert-betz.com/mediathek/inspirationen/vater-unser/

 

  • (1)   Deus não nos passa nenhuma rasteira, como diz o Papa Francisco: https://www.vaticannews.va/de/papst/news/2019-05/papst-franziskus-generalaudienz-vaterunser-katechese-mai-19.print.html
  • (2)   A Conferência Episcopal Francesa mudou a tradução do pai nosso de uso corrente “Et ne nous soumets pas à la tentation” pela nova forma: “Et ne nous laisse pas entrer en tentation”. O verbo francês “soumettre” (submeter) foi então substituído por “ne pas laisser entrer”(literalmente: não deixe entrar). A nova versão está mais próxima da formulação grega do Evangelho (Mt 6:13), em que a expressão “μὴ εἰσενέγκῃς” (não conduzem a) é usada. Há o legítimo receio manifestado por teólogos de mesmo na nova versão introduzida poder haver “falsificação das palavras de Jesus”, como referem comentadores.
  • (3)   A frase grega Mt 6:13, και μη εισενέγκης ημάς εις πειρασμόν, deixa margens para algumas variações nas traduções em contexto.
  • (4)   As interpretações do Pai Nosso apareceram de várias maneiras desde Tertuliano
  • (5)   A tradução em latim, usou a clássica expressão “inducas”, que sublinha o fato que somos “induzidos”, “levados” à tentação, reforçando esse sentido implícito no texto grego. Os exegetas para melhor contextuarem o texto apontam para um manuscrito aramaico encontrado em Qumran onde se reza “faz com que eu não entre em uma situação difícil demais para mim”, o que também legitimaria a expressão portuguesa “não nos deixeis cair em tentação “e o latim “inducas” no sentido de “deixar cair” e não de “fazer cair”! Quanto ao uso do substantivo “Temptatio” (Tentação) se advertia para a palavra como falaciosa. As pistas linguísticas são muito esclarecedoras. De facto, Deus pode pôr-nos em prova, mas sem tentar ninguém (1Coríntios 10,13 e Tiago 1,12). “Et ne nos inducas in temptationem”, em português: “não nos deixeis cair em tentação”, em alemão: “ E não nos conduzas à tentação” („Und führe uns nicht in Versuchung ”)!
  • (6)   Pai Nosso, análise: https://www.bibelwissenschaft.de/wibilex/das-bibellexikon/lexikon/sachwort/anzeigen/details/vaterunser-1/ch/5ac77bb77dc5bbf25a3950e3e58809ad/ e https://br.markusdasilva.org/serie-orando-o-pai-nosso-com-poder-estudo-no-9-nao-nos-deixes-cair-em-tentacao/
  • (7)   Joseph Ratzinger-Bento XVI, Jesus de Nazaré I, Freiburg-Basel-Viena 2007, pp. 195-199): “A redação desta petição do Pai nosso é ofensiva para muitos: Deus não nos leva, afinal de contas, à tentação. De facto, diz-nos St. James: “Que ninguém que se sinta tentado diga: Eu sou tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado a fazer o mal, nem Ele próprio tenta ninguém. A tentação vem do diabo, mas a tarefa messiânica de Jesus inclui suportar as grandes tentações que conduziram e continuam a conduzir a humanidade para longe de Deus. Ele deve, como vimos, sofrer estas tentações até à morte na cruz e assim abrir o caminho da salvação para nós. Deve assim descer, não só depois da morte, mas com ele e em toda a sua vida, por assim dizer, ao inferno, ao espaço das nossas tentações e derrotas, a fim de nos levar pela mão e nos carregar para cima. A Carta aos Hebreus colocou especial ênfase neste aspecto, destacando-o como uma parte essencial da viagem de Jesus: “Pois desde que ele próprio foi levado à tentação e sofreu, é capaz de ajudar aqueles que são tentados (2,18). Não temos um sumo sacerdote que não possa simpatizar com a nossa fraqueza, mas um que em tudo foi tentado como nós, mas não pecou” (4:15).
  • (8)   …” se me encomendar estas provas, se der um pouco de espaço livre ao mal, como fez com Job, então lembre-se por favor da medida limitada da minha força. Não me dêem demasiado crédito. Não me atraiam demasiado os limites dentro dos quais posso ser tentado, e estejam perto com a vossa mão protectora quando ela se tornar demasiado para mim”.

DEMOCRACIA LIVRE NÃO OBRIGA A VOTAR

Nas autárquicas 2021 o “Partido” das abstenções aumentou para 46,35%

O resultado das eleições autárquicas portuguesas 2021 para os 308 municípios e 3092 freguesias de Portugal registou 34,23% dos votantes para o PS, 13,21% para o PPD/PSD, 10,82% para PPD/PSD.CDS-PP, 8,21% para PCP-PEV, 5,54% Grupo Cidadãos, 4,16% Chega, que são os mais votados dentro dos 20 partidos concorrentes (1).

A abstenção atingiu os 46,35% e os votantes em branco cifrou-se em 2,50% e os nulos em 1,58% (2)!

A abstenção e os votos em branco que podem ser considerados de protesto, quando é tão alta enfraquece a democracia e favorece os partidos maioritários; por isso os votos em branco deveriam ter direito a cadeiras vazias no parlamento (para não serem adicionadas aos partidos com mais deputados).

O problema seria maior no momento em que a participação nas eleições fosse inferior a 50%, então passaria propriamente o funcionalismo público e os mais conscientes de interesses a determinarem o governo e os destinos da nação.

Naturalmente, se os cidadãos em vez de se absterem participassem nas eleições com voto em branco, manifestariam uma vontade política declarada e como tal faziam passar a imagem de cidadãos conscientes e responsáveis pelo que fazem.

Vê-se muita gente a criticar o cidadão que não vai às urnas de votos e não participa nas eleições. Esta atitude é naturalmente sentida como uma afronta à democracia, mas tende a ser demasiado dilatada ou cega de um olho.

Condenar o povo não votante mais que um equívoco corresponderia a fazer o jogo partidário porque se centra nas consequências confundindo-as com as causas! Por outro lado, os governantes no seu orçamento também não renunciam ao dinheiro dos contribuintes não votantes, sendo muito do seu dinheiro usado para conceder subsídios e até benefícios!

A abstenção é uma afronta à democracia e favorece os partidos da governação, ela questiona, por outro lado, a deficiente formação política do cidadão feita pelos partidos. Os partidos têm o dever constitucional de formar politicamente a sociedade, recebendo para isso dinheiro do Estado. Em vez de formação política assiste-se mais a propaganda partidária, por vezes, vazia de conteúdos e, quando muito, com objetivos programáticos, mas sem indicação de orçamentos destinados à sua concretização, o que dá a impressão de ser uma venda de ilusões.

O factor ignorância parece importar a todos: governantes e governados! Quem tem poder/saber está consciente que quem não sabe não “peca”, e o não saber importa também aos ignorantes porque lhes é poupado assumir responsabilidade e poupa-lhes o esforço necessário para assumir um espírito analítico/crítico. 

Saber é uma importante componente do poder e, num certo sentido, formar politicamente o cidadão poderia corresponder a torna-lo não só politicamente mais activo e exigente, mas também concorrente político ou mais difícil de governar. Formação política implicaria formar para os interesses como cidadão e como nação que ultrapassariam a soma dos interesses partidários. De resto, o rebanho come a palha que lhe dão!

A democracia deve ser coerente com ela mesma e não obrigar a votar! Todos os eleitores são livres de decidir onde, se, e em quem votar. Naturalmente aqueles que não votam não podem protestar contra o resultado que apoiaram indiretamente ao não votarem porque elegeram não se comprometerem nem se responsabilizarem. Muitos não eleitores, talvez mais economizadores de tempo, pensam conseguir exatamente o que querem sem irem às urnas. Também alguns cidadãos não têm preferência por nenhum dos partidos ou candidatos a concorrer às eleições.

Há motivos que podem justificar a abstenção quer a nível de conceito por defensores da democracia directa, quer a nível prático por desilusão com uma política mais de clientelas do que de serviço ao povo na sua generalidade; atendendo a uma certa manipulação nos meios de comunicação, votar pode, por vezes, não ser muito melhor do que conduzir embriagado. Pelo que se pode observar em Portugal, seria uma ilusão pensar que os políticos estão no poder para representar os interesses do povo; representam os interesses do seu “povo” sendo daí a necessidade da mudança sucessiva de governos uma das consequências lógicas! A Constituição possibilita os regulamentos necessários para permitir uma administração estatal provisória e dá margem ao cidadão para se mover no quadro das circunstâncias que ela determina.

A abstenção a nível de votantes favorece sobretudo o partido que tem mais funcionários e empregados de Estado porque estes estão mais conscientes do que é poder e votam no partido que os beneficia (Daí explicar-se que em Portugal, em vez de haver um horário semanal igual de trabalho na função pública e particular; o Governo de Costa, para ganhar votantes diminuiu o trabalho semanal dos trabalhadores públicos para 35 horas, embora estes em países ricos como a Alemanha tenham de trabalhar 40 horas. Quem paga a benesses partidárias é o povo contribuinte.

Numa sociedade democrática livre, o cidadão deve ser livre de decidir por si próprio se vota ou não. Num escrutínio secreto, ninguém pode ser obrigado a votar.

De resto, Rei fraco, quer Povo fraco!

António CD Justo

Pegadas do Tempo,

  • (1)  https://www.autarquicas2021.mai.gov.pt/resultados/territorio-nacional?fbclid=IwAR0cnNFGYDhRHU43LHSMva-e-VHb2HxAc4_Y0H-zmM74Ouoek_rIUSpJcaA
  • (2)  Segundo estatísticas relativas à população global residencial e à emigrante teriam sido cerca de 36% abstenções dado para as estatísticas relativas às autárquicas só votarem os residentes no território; muitos encontram-se no estrangeiro (e muitos que se encontram na União europeia optam por votam nas autárquicas do país de residência. É natural que os partidos maioritários (beneficiam principalmente com as abstenções, porque, no passado, têm tido um núcleo de eleitores fiéis que possibilitam mais expressão ao partido e possibilidades de coligação.

 

PROJECTO PARA PESSOAS QUE QUEIRAM DSENVOLVER A PESSOA INTEIRA

Desenho antropológico para o século 21

Coloco aqui o Link de um antigo colega e velho amigo (Padre e Psicólogo José Fernandes) que acho muito oportuno na qualidade de desenho antropológico para o século 21. Apresenta um modelo de catequese em vez de catecismo! Tem validade tanto para a religiosidade como para a secularidade.

Tem vídeos em directo: https://www.youtube.com/channel/UCiZwykajHb4e46A67z_Ty5g  e textos em

www.humanidade21.pt

É muito oportuno numa sociedade  cada vez mais reduzida a consumidores de ideologias, de bens e de imagens fornecidas.

Bom Fim de Semana!

CONFERÊNCIA DE AJUDA AO AFEGANISTÃO

Na Sequência de uma Intervenção e Deserção cega

A situação no Afeganistão é dramática; Segundo a ONU, metade dos 38 milhões dos habitantes do país não têm o suficiente para comer e necessitam urgentemente de alimentos, medicamentos e outros fornecimentos humanitários.  

 Foi convocada uma conferência de ajuda das Nações Unidas ao Afeganistão em Genebra. Os países doadores reunidos a 13.09.2021 já fizeram uma promessa de um montante provisório de 846 milhões de euros. A finalidade dos países doadores é “evitar que as pessoas no Afeganistão passem fome e evitar o colapso dos serviços públicos”.

O Chefe da ONU, Antonio Guterres, manifesta-se contente com os resultados da conferência: “Esta conferência correspondeu plenamente às minhas expectativas em termos de solidariedade com o povo do Afeganistão”.

Difícil será conseguir os mecanismos de ajuda directa ao povo. Dar dinheiro aos talibã para que estes concedam um pouco de direitos às mulheres seria deitar manteiga em focinho de cão e significaria a continuação de uma política do Ocidente, de ingenuidade/conhecimento erróneo e indiferença.

A ajuda tem, realmente, de ser limitada a alimentos, cobertores, vestuário e medicamentos através dos restantes canais da ONU em território afegão.

Conferências internacionais de doadores para o Afeganistão têm sido realizadas repetidamente, em que se recolheram dezenas de biliões de euros para um país predestinado, com outros, a viver dependente da ajuda internacional.

Pelos vistos a ONU terá assegurada, de maneira sustentável, a condição de pedinte, enquanto os interesses de empresas e nações tiverem prioridade perante as necessidades e desejos das populações. Parece trata-se mais de uma política de remediar injustiças e não de uma política de impedir a miséria e a injustiça.

Durante os últimos 10 anos morreram em média, 238.797 pessoas por ano no Afeganistão e o número de nascimentos foi de 1.190.191 anualmente.

Até que ponto estas acções humanitárias não significam também uma estabilização dos Talibã e um apoio aos seus novos amigos China, Rússia e Paquistão, será escrito, posteriormente, numa outra página! A urgência humanitária e a defesa do rosto dos políticos ocidentais desculpam algum erro que possa agora surgir!

As grandes quantidades de ópio que os terroristas têm exportado não parece ser assunto de discussão política nem jornalística e também não tem contribuído para que os talibã se torem mais mansos!…

António CD Justo

Pegadas do Tempo

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS

O nó górdio do islão é a união de cultura e religião! E isto é que os políticos ocidentais parece ainda não terem percebido e por isso cometem tantos erros em relação à cultura de cunho árabe e às próprias iniciativas que tomam no sentido da sua emancipação.

O poeta muçulmano, Adonis, diz numa entrevista a El País: “O problema árabe é não ter separado a religião e a política”.  “Não pode haver uma revolução árabe sem uma separação total e radical  entre a religião e a cultura, a sociedade e a política”.

Esta é a realidade que não justifica que se ande a empregar demasiadas forças em soluções ocidentalizadas que teriam de rever a sua estratégia de apoio ao desenvolvimento humano também no que toca à estratégia de emancipação feminina nos estados muçulmanos! Facto é que as afegãs mais emancipadas são agora alvo do ódio dos extremistas.

A luta pela libertação da mulher, num sistema tribal patriarcal, seria talvez mais eficiente se viesse através da humanidade e empenho dos homens, que é preciso motivar! Enquanto a sociedade islâmica não reflectir suficientemente sobre as partes sombrias do Islão (iliteracia, dogmatismo, abdicação da individualidade no grupo, e carência de liberdade), a cultura árabe continuará a ser mal considerada (o que não ajuda ninguém!) e verá o problema humanitário continuado, enquanto em nome da religião, o sistema prosseguir oprimindo indefinidamente a pessoa humana. O povo persa e outras sociedades muçulmanas de origem não árabe e em especial uma elite cultural masculina e feminina a formar-se dentro do islão poderão contribuir para o seu progresso e criar uma nova matriz cultural. Nisto teria mais sentido, que o Ocidente centrasse as suas energias, a longo prazo.

Enquanto o Ocidente se comportar para com a civilização de cunho árabe, como se tem comportado até aqui, os povos islâmicos ver-se-ão obrigados a continuar a sua luta ad extra descurando a reflexão e transformação interna. Certamente a maioria dos muçulmanos já se encontra de consciência e de comportamento mais elevado do que muitos dos princípios maometanos advogam a nível institucional e propagado através das mesquitas.

Uma análise proveitosa para a cultura árabe pressuporia uma reflexão profunda por parte das elites muçulmanas e uma abordagem sem preconceitos por parte dos não islâmicos. O islamismo é uma realidade e tanto a islamofobia, como a islamofilia só ajudam o extremismo.

António CD Justo

Pegadas do tempo