A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA

A Pobreza não é Moeda política dos de Ontem nem dos de Hoje

Observa-se, no debate público português a tendência preocupante da utilização da pobreza do passado como arma de arremesso político. Fotografias de miséria de outrora são ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estratégia, no entanto, peca por uma omissão gritante que é o esquecimento dos pobres de hoje.

A lógica é perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a atenção da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das famílias que recorrem aos bancos alimentares. Será que a crítica ao passado mata a fome do presente? Certamente que não porque os que fazem uso disso não são os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentalização política. Falar mal do ontem serve para branquear as máculas do hoje e justificar os beneficiários do sistema atual, criando uma cortina de fumaça que impede a análise crítica da realidade contemporânea.

Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a História a um jogo de “nós contra eles”, esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferença reside na forma, não na essência da exploração ou do esquecimento. Enquanto os partidários de um regime apontam o dedo ao adversário, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigração qualificada, permanecem na sombra. É necessário um exercício de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos políticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.

A Armadilha da Memória e a Necessidade de Espírito crítico

A repetição exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partidárias tem um objetivo claro: criar uma narrativa binária que divide o país entre “bons” e “maus”, servindo interesses partidários legítimos, mas não o povo. Ao transformar a pobreza num cartão de visita político, distrai-se a população do naco de pão que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A intenção subjacente a estas fotos e discursos é fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.

Custa ver tantas referências aos pobres de antigamente e tão poucas referências aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento económico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada são a prova viva de que a fotografia social só difere nas pessoas, não na exclusão. No entanto, a energia necessária para observar a própria situação e procurar mudá-la é desviada para debates estéreis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigração.

É importantíssimo que as pessoas acordem para esta manipulação. Comparações críticas são positivas se servirem o povo, mas são nefastas se estiverem ao serviço de uma opção partidária. Precisamos de mais espíritos críticos em serviço de toda a nação e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que não são os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, é o maior obstáculo à mudança.

Precisa-se de valentia, como se pôde observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; também para melhorar o país, é preciso ter a coragem de ver para além da propaganda e exigir políticas para os pobres de hoje, não apenas lamentos pelos pobres de ontem.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

A DESFOLHADA NA BARROCA E A PRÁTICA DO TERÇO

Cantam vivas, vivamente,
As mulheres na Barroca,
Entre o milho reluzente,
Onde a lua o campo toca.

Vêm rapazes de outras bandas,
Serandeiros no serão,
Trazem fúrias, trazem danças,
Cobiçando algum coração.

E na força do gigo cheio,
Que se carrega ao canastro,
Grita a moça sem receio,
Sob o brilho de algum astro.

Casar cedo… dor (1) ou espanto,
Cantam quadras sem ter medo,
Pois a vida tem mais manto,
Se se acorda este brinquedo.

Cai a noite, cai o dia,
Senta a mesa a santidade (2);
Onde a conta da agonia
Vira prece de verdade.

Beijo dado, bênção posta,
Toda a mágoa ali fenece…
Deus segura a corda oposta,
E a Várzea adormece.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : 
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Alusão às cantigas talvez pedagógicas, marotas nas desfolhadas à volta das espigas do milho: “Minha mãe casai-me cedo, que me dói a passarinha! – Ó filha coç’à c’o dedo, que eu também cocei a minha!” Ao descascar o milho, aquele que encontrava uma espiga de milho-rei tinha a sorte de ir à roda abraçar e beijar todos.
(2) Referência ao costume da reza do terço, como momento de entrega e paz à noite para encerrar o dia. Barroca é uma quinta da freguesia de Várzea.

O CETICISMO SEM DOGMA NEM CONSPIRAÇÃO COMO FILTRO DA LIBERDADE

Desconfiar dos poderosos sem deixar de questionar as nossas próprias conclusões

Vivemos tempos de desconfiança generalizada, nas redes sociais, nas conversas de café e até nos debates parlamentares, a pergunta que ecoa é quase sempre a mesma: “Quem manda verdadeiramente?”.

É uma questão legítima. A liberdade de pensamento exige, de facto, que desconfiemos do poder estatal, económico, tecnológico e mediático. Mas, se queremos que o ceticismo seja um instrumento de liberdade e não uma nova camisa de forças ideológica, temos de ir mais longe, porque o ceticismo desintereceiro  exige também que desconfiemos das nossas próprias conclusões quando as provas ainda não chegam para as sustentar.

Este é o equilíbrio difícil que a democracia contemporânea nos impõe. Por um lado, seria ingénuo acreditar que a acumulação de riqueza privada é politicamente neutra. Por outro, cair na tese automática de que todos os bilionários formam um bloco coordenado que manipula os Estados à distância de um clique é alimentar teorias da conspiração que mais atrapalham do que esclarecem (muito embora, teorias da conspiração como as de Epstein se confirmaram).

O fenómeno decisivo que cidadãos e Estados enfrentam hoje não é tanto a vontade explícita de um “super-órgão” mundial, mas sim a concentração de poder estrutural. Um bilionário torna-se politicamente relevante não apenas pelo número de zeros na sua conta bancária, mas quando passa a controlar ou influenciar as infraestruturas das quais sociedades inteiras se tornam reféns: plataformas digitais, sistemas de comunicação, inteligência artificial, satélites, computação em nuvem, sistemas de pagamento, energia, logística e cadeias de abastecimento. É nesse momento que a riqueza económica se converte em capacidade política sem mandato eleitoral.

O crivo das cinco perguntas

Para navegarmos neste terreno pantanoso sem cair nem na ingenuidade nem no delírio conspirativo, sugiro que cada cidadão e sobretudo cada jornalista e decisor político, aplique um crivo mental estratégico. Sempre que nos deparamos com uma grande fortuna ou uma gigante tecnológica, devemos perguntar:

– Dependência: De que empresas ou plataformas privadas depende o funcionamento do Estado? Quanto mais difícil for substituí-las, maior é o poder do fornecedor.

– Informação: Quem controla os canais por onde milhões recebem notícias e pesquisam informação? Não é preciso “controlar o pensamento” de forma orwelliana porque os algoritmos de recomendação e os critérios de moderação já moldam significativamente a perceção coletiva.

– Proximidade ao poder: Que laços unem as grandes fortunas aos governos? Falamos de contratos públicos, financiamento de campanhas, cobertura política lobbying, fundações, fábricas de pensamento e a famosa porta giratória entre instituições públicas e privadas.
-Capacidade de condicionamento: O que aconteceria se um determinado proprietário retirasse um serviço essencial, alterasse unilateralmente as regras ou recusasse colaboração ao Estado? Uma coisa é ser muito rico e outra, bem diferente, é possuir poder estratégico.
– Contrapoder: Existem concorrentes à altura, legislação antimonopólio eficaz, tribunais independentes, parlamentos fiscalizadores e alternativas tecnológicas? O problema democrático agrava-se exponencialmente quando uma infraestrutura essencial não tem substituto real ou quando as já existentes se encontrem demasiadamente dominadas pelo arco do poder.

A homogeneização silenciosa na Europa

A aplicação prática deste crivo revela factos inquietantes. Observando a formação da União Europeia, nota-se que as populações dos diferentes Estados-membros pensam cada vez de forma mais homogénea em matérias de geopolítica. Basta ligar os telejornais de países distintos para se verifica que nos temas internos, há ainda diferenciação e debate, mas quando o assunto são as relações internacionais ou as grandes narrativas globais, as informações, os enquadramentos e até as imagens se repetem, como se proviessem de uma única agência centralizada.

Isto não significa que exista uma direção maquiavélica a programar as nossas mentes. As populações continuam heterogéneas, as plataformas competem entre si e os próprios bilionários têm interesses e ideologias frequentemente incompatíveis. Porém, a crescente interdependência entre o poder político, financeiro e tecnológico é um sintoma claro de que algo se alterou.

A ameaça real e o fingimento da crise

É aqui que importa separar o trigo do joio. Nota-se, de forma justa, uma profunda insatisfação popular em relação aos representantes partidários. Contudo, esta insatisfação, por si só, não configura ainda uma ameaça real à democracia. O que muitos rotulam de “crise democrática” é, muitas vezes, uma crise do regime partidário, que os próprios partidos, receosos de perderem privilégios, confundem propositadamente com uma ameaça à democracia.

A verdadeira ameaça democrática surge quando as três esferas, política, financeira e tecnológica, ficam tão interligadas que o poder aumenta enquanto a responsabilidade diminui. As oligarquias modernas, sejam elas económicas ou burocráticas (como certas instâncias da ONU ou da Comissão Europeia), tendem a evitar consultas diretas ao povo. Preferem elaborar agendas em cúpulas fechadas, que depois são implementadas nos países sem uma discussão interna que brote da base. As medidas são propagadas como sendo de “interesse comum”, mas raramente são validadas pela opinião pública adulta e informada.

A responsabilidade do ceticismo

Perante este cenário, o remédio não é acreditar em profecias apocalípticas nem refugiar-se em opiniões dogmáticas, por mais legítimas que pareçam. A solução passa por fomentar a crítica com rigor. É preciso desconfiar, sim, mas é igualmente necessário verificar, comparar e questionar as nossas próprias certezas.

O ceticismo só é verdadeiramente libertador quando nos obriga a olhar para o poder em toda a sua complexidade, sem medo, mas também sem atalhos conspirativos nem no espírito de puxar a brasa à sua sardinha. Para que a sociedade avance qualitativamente, precisamos de cidadãos que saibam perguntar “quem depende de quê?” e “quem pode impor custos a quem?”, em vez de se limitarem a gritar „quem manda?”.

Manter o equilíbrio entre a desconfiança ativa e a verificabilidade meticulosa é o único caminho para agirmos com responsabilidade a todos os níveis. É esse o desafio do nosso tempo: ser crítico sem ser refém da própria descrença e vigilante sem ser conspirativo.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

O INFERNO, A LINGUAGEM DA ETERNIDADE E A ESPERANÇA DA RECONCILIAÇÃO UNIVERSAL

Entre a fidelidade às Escrituras, a responsabilidade hermenêutica e o primado do amor

Introdução

Poucas representações religiosas exerceram sobre a consciência ocidental uma influência tão profunda como a imagem do inferno. Durante séculos, o fogo, as trevas, o julgamento e a condenação foram utilizados não apenas como símbolos escatológicos, mas também como instrumentos pedagógicos destinados a despertar a consciência moral. Não se pode negar que essas imagens pertencem à tradição bíblica e cristã. Mas outra questão, bem mais complexa, consiste em saber o que significam, de onde procedem e se autorizam a construção de uma doutrina segundo a qual Deus manteria criaturas humanas em sofrimento consciente e interminável.

É precisamente aqui que a exegese contemporânea exige prudência. A pergunta decisiva não deveria ser simplesmente: «Existe o inferno?», mas antes: que realidade designam as diferentes palavras que as traduções acabaram por reunir sob a única palavra “inferno”? E, mais profundamente ainda: como podem as afirmações bíblicas acerca do juízo ser compreendidas à luz do centro da revelação cristã que é Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, no qual Deus reconcilia o mundo consigo?

Uma teologia responsável não elimina os textos difíceis. Também não constrói sobre eles uma metafísica do terror. Interpreta-os dentro do conjunto das Escrituras, da história das ideias religiosas, dos géneros literários e, sobretudo, da revelação de Deus em Cristo.

Não existe uma única palavra bíblica correspondente ao nosso “inferno”

Um primeiro problema é linguístico. Aquilo que muitas traduções antigas reuniram sob palavras equivalentes a “inferno” corresponde, nos textos bíblicos, a conceitos diferentes: Sheol, Hades, Gehenna, além de outras imagens como fogo, trevas exteriores, perdição e segunda morte.

Confundi-los produz inevitavelmente confusão teológica. O Sheol hebraico designa, sobretudo nas camadas mais antigas do Antigo Testamento, a morada dos mortos.

Não corresponde simplesmente ao posterior inferno cristão entendido como lugar de tortura dos condenados. É o domínio da morte, do silêncio, da ausência da vida tal como esta é experimentada sobre a terra.

O termo grego Hades, utilizado inclusive pela Septuaginta para traduzir Sheol, desempenha frequentemente função semelhante. É significativo que a própria tradição católica reconheça esta distinção: ao explicar a expressão do Credo segundo a qual Cristo «desceu aos infernos», o Catecismo identifica esses «infernos» com o Sheol hebraico e o Hades grego, isto é, a morada dos mortos e não com o inferno dos condenados.

Temos aqui uma distinção fundamental.

Quando confessamos que Cristo “desceu aos infernos”, não confessamos que Jesus tenha sido condenado por Deus. Confessamos que entrou verdadeiramente na morte humana e que nenhuma profundidade da existência permaneceu exterior à ação salvadora de Deus.

A antiga imagem cristã da “descensus ad ínferos” possui, portanto, uma extraordinária força teológica: Cristo procura o ser humano precisamente onde este parece definitivamente perdido. A Páscoa começa, paradoxalmente, no fundo da morte.

Gehenna não é Hades

Outra palavra decisiva é Gehenna (géenna). A palavra deriva do hebraico Ge-Hinnom, o vale de Hinnom, situado junto de Jerusalém e associado, no Antigo Testamento, a práticas religiosas condenadas pelos profetas, incluindo sacrifícios de crianças. Progressivamente, o nome adquiriu uma significação escatológica e tornou-se símbolo do julgamento divino.

Nos Evangelhos, portanto, quando Jesus fala da Gehenna, não está simplesmente a utilizar outra palavra para Sheol ou Hades. Está a recorrer a uma poderosa imagem judaica de julgamento.

Isto obriga-nos simultaneamente a evitar dois extremos. O primeiro seria dizer que Jesus nunca falou seriamente de julgamento, porque falou. O segundo extremo seria concluir que cada imagem de fogo utilizada por Jesus constitui uma descrição literal da geografia do além. Isso também ultrapassa aquilo que os textos permitem afirmar.

Jesus emprega hipérbole, parábola, imagens apocalípticas e linguagem simbólica. O fogo pode representar julgamento, destruição, purificação, manifestação da verdade ou consumação. O contexto e que deve decidir o seu significado.

Consequentemente, a alternativa não é entre acreditar literalmente num gigantesco espaço subterrâneo de combustão eterna e eliminar qualquer realidade do juízo divino.

Existe uma possibilidade, teologicamente muito mais fecunda que é tomar absolutamente a sério o juízo sem transformar a sua imagética numa física do além.

O judaísmo do tempo de Jesus não possuía uma única doutrina sobre o além

O judaísmo antigo não era uniforme. No período do Segundo Templo coexistiam conceções diversas sobre morte, ressurreição, julgamento e destino dos ímpios. Encontramos imagens de aniquilação, castigo, purificação, ressurreição, vida futura e também, em determinados textos, punição duradoura ou definitiva. A literatura de Enoque, por exemplo, desenvolve imagens de Gehenna e de julgamento que vão bastante além do antigo conceito de Sheol.

Posteriormente, a tradição rabínica também não apresentou uma única doutrina. Encontram-se tradições nas quais a permanência na Gehenna é limitada, por exemplo, a doze meses, juntamente com tradições que reservam um destino mais grave a determinadas categorias de pecadores.

A doutrina sistemática de uma tortura consciente, uniforme e interminável de todos os condenados não pode simplesmente ser projetada sobre todo o judaísmo bíblico ou sobre o judaísmo do tempo de Jesus.

Aiōnios é uma palavra mais complexa do que permitem certas traduções

No centro da discussão encontra-se o adjetivo grego αἰώνιος (aiōnios), particularmente importante em Mateus 25,46: “E irão estes para o castigo aiōnios e os justos para a vida aiōnios.”

É tentador resolver toda a questão recorrendo ao dicionário: aiōnios viria de aiōn, «era», portanto, significaria exclusivamente «durante uma era» e nunca «eterno». Linguisticamente não é fácil a questão devido à complexidade lexical da palavra aiōnios.

Os léxicos do grego antigo atribuem a aiōnios uma gama semântica que inclui duradouro, pertencente a uma era, perpétuo e eterno, dependendo do contexto. O próprio termo pode ser aplicado a Deus. Não seria cientificamente correto declarar que aiōnios significa necessariamente «temporário», mas também é excessivo proceder no sentido contrário e imaginar que a simples presença de aiōnios resolve automaticamente toda a questão filosófica acerca de uma duração temporal infinita.

As palavras adquirem significado dentro das frases, dos textos e dos universos culturais. A questão de Mateus 25,46 não pode, portanto, ser resolvida apenas por etimologia.

Aiōnios pode possuir uma dimensão qualitativa e escatológica: aquilo que pertence ao aiōn vindouro, ao mundo definitivo de Deus.

Assim, «vida eterna» não significa apenas uma vida cronologicamente interminável. No Evangelho de João, a vida eterna começa já na comunhão com Deus. É uma qualidade de existência antes de ser simplesmente uma quantidade infinita de tempo.

Isto aconselha grande prudência quando se transforma o adjetivo aiōnios numa espécie de cronómetro metafísico.

A questão maior não é lexical, mas cristológica

Mesmo que conseguíssemos estabelecer com absoluta precisão o significado de cada termo, permaneceria a questão decisiva: Quem é o Deus que julga?

Para o cristianismo, Deus não é uma hipótese metafísica acerca da qual Jesus nos fornece posteriormente algumas informações. Deus revela-se em Jesus Cristo e por isso, toda a escatologia cristã deve ser cristológica.

E aqui encontramos textos cuja amplitude não pode ser diminuída sem violência hermenêutica.

Paulo escreve que aprouve a Deus «reconciliar consigo todas as coisas» por Cristo, «pacificando pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as dos céus» (Cl 1,19-20).

Em 1 Coríntios, depois de apresentar Cristo como o novo Adão, Paulo conduz a história da salvação para uma extraordinária conclusão: “para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15,28).

A Primeira Carta a Timóteo afirma que Deus «quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2,4).

A Segunda Carta de Pedro declara que Deus não deseja «que alguém pereça, mas que todos cheguem à conversão» (2 Pe 3,9).

E a carta aos Romanos desenvolve uma impressionante simetria entre Adão e Cristo: se a humanidade é atingida pela solidariedade do pecado, muito mais radical é a graça manifestada no novo Adão.

É impossível construir honestamente uma teologia do destino humano considerando apenas os textos de julgamento e silenciando estes textos de universalidade.

O problema hermenêutico nasce precisamente da coexistência dos dois conjuntos. Existem textos de advertência radical e existem textos de esperança universal. Uma teologia madura não mutila nenhum deles.

Orígenes e a apokatastasis

É neste horizonte que Orígenes de Alexandria permanece uma testemunha incontornável.
Orígenes desenvolveu a ideia da ἀποκατάστασις (apokatastasis), a restauração ou consumação final, procurando pensar uma vitória de Deus suficientemente radical para alcançar toda a criação. A interpretação exata do pensamento origeniano continua a ser discutida pela investigação contemporânea, pelo que não é prudente reduzi-lo simplesmente à fórmula moderna «todos serão automaticamente salvos».

Uma intuição, permanece teologicamente provocadora. Se Deus é realmente Deus, poderá o mal possuir a última palavra sobre uma parte da criação? Se Cristo veio vencer o pecado e a morte, será a vitória escatológica de Cristo apenas parcial? Se Deus é amor, em que sentido deve ser compreendida a justiça divina?

Para Orígenes, o fogo divino pode ser compreendido pedagogicamente e medicinalmente: não simplesmente como vingança infligida de fora, mas como encontro doloroso da criatura com a verdade. Esta imagem possui uma força extraordinária. O «fogo» de Deus não seria o contrário do seu amor, mas sim o próprio amor experimentado como fogo por tudo aquilo que em nós se opõe ao amor. Nesse sentido, o juízo não seria a suspensão da misericórdia, mas a sua forma dolorosamente purificadora.

O inferno como encontro com a verdade

Esta interpretação permite preservar aquilo que a linguagem tradicional do inferno pretendia defender: a seriedade da liberdade humana.

O universalismo cristão não pode significar que o mal seja irrelevante. A vítima e o carrasco não podem simplesmente chegar à eternidade como se nada tivesse acontecido. A graça que eliminasse a verdade seria apenas amnésia divina.

A reconciliação exige justiça, mas a justiça de Deus não necessita de ser concebida segundo a lógica humana da vingança.

Na cruz, Deus não derrota os inimigos, tornando-se semelhante a eles. Cristo vence o ódio suportando-o sem devolver ódio; responde à violência sem reproduzir a violência; entra na morte e transforma-a a partir de dentro.

A cruz é, portanto, a crítica cristã definitiva de qualquer representação de Deus como vingador.

Isso não significa que Deus diga indiferentemente: “Tudo é permitido.”

Significa algo muito mais exigente: nada ficará escondido do amor e tudo será trazido à luz. Toda a mentira terá de cair. Toda a injustiça terá de ser reconhecida e todo o ser humano terá de encontrar a verdade acerca de si próprio, acerca das vítimas e acerca de Deus.

Tal encontro poderá ser experimentado como fogo. Mas um fogo pode destruir a pessoa ou destruir aquilo que impede a pessoa de finalmente ser aquilo para que foi criada.

É precisamente nesta diferença que se joga grande parte da discussão entre infernalismo eterno, aniquilacionismo e esperança universalista.

Pode o amor obrigar alguém a ser salvo?

A objeção clássica ao universalismo é a liberdade. Deus oferece amor, mas o ser humano pode recusá-lo. Se Deus obrigasse finalmente todos a aceitá-lo, não destruiria a liberdade que ele próprio criou?

Esta objeção é séria, mas pressupõe uma determinada definição de liberdade: ser livre significaria possuir eternamente a possibilidade de escolher contra o próprio bem.

A tradição cristã oferece outra possibilidade. Quanto mais alguém conhece a verdade e ama o bem, mais livre se torna. Mas deste modo, Deus não é uma opção arbitrária entre outras, porque se Deus é o Bem absoluto, a Verdade e o fundamento do nosso ser, então afastar-se definitivamente de Deus não seria a perfeição da liberdade, mas a sua tragédia.

O pecado é entendido precisamente como liberdade ferida porque escolhemos contra nós próprios pois não vemos plenamente e somos dominados pelo medo, pelo egoísmo, pela ignorância ou pelas nossas feridas.

Daí nasce uma pergunta extraordinariamente profunda: que aconteceria se uma criatura encontrasse Deus finalmente sem máscaras, sem ilusões, sem ignorância e descobrisse que Aquele que julgava ser seu inimigo sempre a amou?

A esperança universalista responde que então a liberdade talvez não seja anulada, mas finalmente libertada.

O inferno e a pedagogia do medo

A questão deixa aqui de ser apenas exegética para se tornar pastoral. A história religiosa mostra como a ameaça da condenação pôde ser utilizada para disciplinar consciências. Isso não significa que toda a pregação do julgamento tenha sido manipulação consciente. Muitas gerações transmitiram sinceramente aquilo que julgavam ser a verdade.

Mas uma verdade religiosa pode transformar-se em mecanismo de poder quando o medo ocupa o lugar da consciência. Por isso a própria Igreja confessa a consciência individual como soberana

Sempre que uma instituição religiosa necessita de aterrorizar para convencer, a própria forma da evangelização deve ser examinada criticamente.

Jesus advertiu, certamente, mas também repetiu: “Não tenhais medo” e Evangelho significa literalmente Boa Nova.

Uma mensagem cujo núcleo psicológico fosse «ama Deus porque, se não o amares, ele atormentar-te-á eternamente» produziria uma contradição quase insolúvel.

O medo pode produzir submissão, não pode produzir amor, como refere João: «no amor não há temor; o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor supõe castigo» (1 Jo 4,18).

Nenhum texto será pastoralmente mais importante para esta discussão.

Kierkegaard: quando a culpa religiosa atravessa gerações

A família de Søren Kierkegaard constitui um caso particularmente impressionante da força psicológica que a culpa religiosa pode adquirir.

Michael Pedersen Kierkegaard, pai do filósofo, crescera em condições pobres na Jutlândia. A tradição biográfica, que deve ser relatada com alguma cautela histórica, conta que, ainda rapaz e entregue ao pastoreio, atormentado pelo frio, pela fome e pela solidão, amaldiçoou Deus. Mais tarde interpretou esse acontecimento como uma culpa terrível e acreditou que uma espécie de maldição pairava sobre a família. A morte de vários dos seus filhos reforçou essa leitura providencial sombria. A investigação sobre Kierkegaard confirma a profunda influência da religiosidade melancólica do pai sobre o filho, embora alguns pormenores da narrativa familiar permaneçam objeto de interpretação biográfica.

Nesta história encontramos algo pastoralmente decisivo. Uma criança que aprende que Deus observa os seus pensamentos para puni-la pode tornar-se adulta e continuar interiormente diante de um tribunal. A imagem de Deus converte-se então numa voz interior acusadora e pode atravessar gerações.

Kierkegaard transformaria o desespero numa das categorias centrais da sua antropologia. Para ele, o infernal pode começar já na incapacidade de o eu se reconciliar consigo próprio diante de Deus.

Independentemente das conclusões escatológicas do filósofo, permanece uma advertência: a maneira como falamos de Deus entra na estrutura psíquica das pessoas e por isso, a linguagem nunca é inocente. Quem prega possui uma responsabilidade enorme.

Deus é Pai e transcende a masculinidade

Também merece atenção a linguagem de Deus como Pai; o aramaico Abba significa linguisticamente «pai» e exprime relação filial e proximidade.

Mas daí não se segue que Deus seja masculino. A teologia cristã clássica nunca poderia identificar simplesmente Deus com um sexo biológico. Deus transcende masculino e feminino e ambos pertencem à criação.

Além disso, a própria Bíblia utiliza imagens maternas para falar de Deus: Deus consola como uma mãe (Is 66,13); não esquece o filho do seu ventre (Is 49,15); Jesus compara o seu desejo de reunir Jerusalém ao de uma ave que recolhe os pintainhos debaixo das asas (Mt 23,37).

Portanto, é teologicamente legítimo falar da dimensão paternal e maternal do amor divino.

Deus é chamado Pai não porque seja homem, mas porque é origem, relação, dom e amor e até a palavra «Pai» permanece uma analogia. Deus é sempre maior do que os nossos nomes para Deus e o nosso falar sobre Deus é sempre de caracter humano.

“Não julgueis”

Jesus encontra pecadores sem negar o pecado, o que é fundamental.

Na tradição dos evangelhos, misericórdia não significa relativismo moral. Significa que a verdade sobre uma pessoa nunca se reduz ao seu pecado.

«Não julgueis, para não serdes julgados» (Mt 7,1) não elimina o discernimento moral. Elimina a pretensão de ocuparmos o lugar último de Deus perante outra consciência.

Existe aqui uma ironia histórica particularmente grave.

A doutrina do inferno deve recordar ao ser humano que Deus é o juiz, não podendo declarar quem estaria condenado.

A escatologia não se pode converter em arrogância religiosa. Nenhum cristão recebeu de Cristo a missão de povoar o inferno. Recebeu a missão de anunciar o Evangelho.

A posição tradicional da Igreja não deve ser ocultada

A doutrina oficial da Igreja Católica continua a afirmar a existência e a eternidade do inferno, entendido fundamentalmente como “separação eterna de Deus”. Afirma igualmente que Deus não predestina ninguém ao inferno e relaciona a perdição com a recusa livre e definitiva da misericórdia.

A reconciliação universal não é doutrina oficial católica. Mas a própria tradição mantém uma tensão extremamente significativa: a Igreja que afirma a possibilidade da perdição definitiva é a mesma que confessa que Deus “quer que todos os homens sejam salvos” e reza para que ninguém se perca.

Essa tensão não deve ser resolvida artificialmente porque nela é que a esperança cristã deva habitar.

O cristão não necessita de afirmar dogmaticamente: “Eu sei que todos serão salvos.” E também não tem qualquer obrigação espiritual de desejar que alguém seja condenado. Pode e deve esperar contra toda a esperança.

Esperar a salvação de todos não significa declarar antecipadamente o resultado

Aqui torna-se preciosa uma distinção teológica. Existe diferença entre universalismo dogmático e esperança universal. O universalismo dogmático afirmaria possuir conhecimento antecipado do destino final de todas as criaturas. A esperança universal entrega esse destino ao mistério de Deus, mas atreve-se a esperar que a misericórdia consiga aquilo que nós julgamos impossível.

A esperança não elimina o julgamento, porque espera que o julgamento pertença à misericórdia.
Não elimina o inferno, mas espera que o inferno não tenha a última palavra. Não elimina a liberdade, esperando que a graça possa finalmente libertar toda a liberdade escravizada. Também não chama bem ao mal, na esperança que Deus vença o mal sem perder eternamente aquele que o praticou.

Esta esperança encontra a sua imagem mais radical na cruz. Jesus não morre pedindo ao Pai que os condenasse. Morre entregando-se ao Pai e pedindo perdão pelos seus perseguidores.

Sendo Cristo a revelação definitiva de Deus, então a cruz não é uma exceção ao caráter de Deus. É a sua manifestação.

“Para que Deus seja tudo em todos”

A frase mais audaciosa de toda a escatologia cristã permanece certamente a de Paulo: “Para que Deus seja tudo em todos.” (1 Cor 15,28).

Não “tudo em alguns” nem “tudo nos vencedores. Paulo contempla uma consumação cósmica, que Teilhard de Chardin consagrou na teologia do Alfa e do Omega.

Paulo na carta aos Colossenses emprega linguagem semelhante quando fala da reconciliação de «todas as coisas» em Cristo. Isto não permite resolver mecanicamente todos os textos bíblicos de julgamento, mas impede-nos de transformar a condenação numa espécie de segundo princípio eterno ao lado da redenção.

O cristianismo é radicalmente monoteísta: no princípio, Deus e no fim, Deus. O pecado não é eterno, a morte não é eterna e o mal não possui existência própria. Paulo diz que o último inimigo a ser destruído é precisamente a morte (1 Cor 15,26).

Daí nasce a pergunta que atravessa toda a teologia da esperança: Se existisse eternamente uma região da criação definitivamente entregue à morte, ao ódio e ao desespero, em que sentido poderia dizer-se que “a morte foi destruída” e que Deus é «tudo em todos»?

Não é uma pergunta retórica que autorize respostas fáceis, porque é uma pergunta que deve permanecer diante da Igreja.

O inferno talvez deva ser pregado de outra maneira

Uma pastoral contemporânea responsável não necessita de apagar a palavra inferno; o que necessita é de purificá-la.

Existe inferno onde uma pessoa destrói outra. Existe inferno nos campos de extermínio, na tortura, na guerra, no abuso de crianças, no tráfico humano, na solidão absoluta, no ódio cultivado durante décadas. Existe algo infernal sempre que o ser humano diz ao outro: “Para mim, tu não existes.”

O Evangelho leva esse inferno absolutamente a sério, mas anuncia uma coisa espantosa: Deus desce até lá. Esta é uma visão profunda do “descensus ad ínferos”.

Não existe região humana tão escura que Cristo não possa atravessar. Não existe sepultura onde Deus não possa entrar. Não existe passado que Deus não possa visitar. Não existe culpa que esteja fora do alcance da verdade, nem existe vítima esquecida.

É possível esperar, sem transformar a esperança em arrogância dogmática, que também não exista criatura que o Amor abandone facilmente à eternidade do seu próprio desespero.

Do medo à esperança responsável

A crítica à doutrina tradicional do inferno não deve apoiar-se em simplificações linguísticas. Sheol, Hades e Gehenna não são sinónimos perfeitos; aiōnios não significa simplesmente «temporário» nem pode ser traduzido mecanicamente, em todos os contextos, como «infinito»; o judaísmo antigo conheceu diferentes conceções do destino dos mortos e a tradição cristã desenvolveu igualmente interpretações diversas.

Precisamente esta complexidade histórica impede-nos de absolutizar as representações populares do inferno.

A questão última é cristológica. O Deus dos cristãos possui o rosto daquele que come com pecadores, toca leprosos, procura a ovelha perdida, conta a parábola do pai que corre ao encontro do filho antes que este consiga terminar a sua confissão, perdoa os inimigos e entra na própria morte para a vencer.

Isto não torna o pecado pequeno e torna a graça imensa. Uma Igreja que esquece o juízo transforma a graça em banalidade. Mas uma Igreja que esquece a graça transforma Deus num tirano. A mensagem cristã encontra-se para além dessas duas deformações. O juízo significa que a nossa vida importa eternamente e a misericórdia significa que o nosso pecado não é maior do que Deus.

Por isso, talvez a pergunta pastoral mais cristã não seja: “Quem irá para o inferno?” Mais adequada seria: “Até onde está Deus disposto a ir para encontrar aquilo que se perdeu?”

A resposta cristã encontra-se numa cruz, num sepulcro vazio e na profissão de fé: desceu ao reino dos mortos. Desceu até ao fundo e voltou.

E por isso o cristão pode contemplar até o mais profundo abismo humano sem negar o julgamento e simultaneamente, sem desesperar de ninguém. A última palavra do Evangelho não é inferno, é Cristo e Cristo não é condenação, mas sim ressurreição.

Não é medo. É aquela esperança pascal segundo a qual a criação inteira geme esperando a sua libertação e caminha para o mistério que Paulo ousou exprimir numa das mais belas frases da Escritura: “Para que Deus seja tudo em todos.”

A fé, quando finalmente se liberta do desejo humano de condenar, descobre que não lhe compete estabelecer os limites da misericórdia divina, mas sim anunciá-la, vivê-la e esperá-la. Se Deus é verdadeiramente Amor, a esperança na salvação do outro nunca poderá ser um pecado contra Deus.

Poderá ser, pelo contrário, uma das formas mais profundas de acreditar n’Ele.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

O DILEMA INSOLÚVEL DO ESTADO DE DIREITO PERANTE ISLAMISTAS

Entre negócio e desorientação moral e jurídica

O caso do pagamento de 6.000 euros a islamistas perigosos para que abandonem a Alemanha e regressem à Síria não é, como se pode apressar a concluir, um mero sintoma de desorientação governamental ou um ato de pura insensibilidade moral. Na verdade, este caso expõe, de forma crua, um dilema estrutural que poucos Estados modernos conseguem resolver de forma limpa:  o confronto entre a rigidez da justiça penal e a pragmática gestão do risco e dos recursos públicos, situação que causa desagrado e insegurança na sociedade.

Do ponto de vista pragmático está o “Negócio”

É matematicamente indiscutível que o Estado poupa uma fortuna com esta maneira de abordar o problema. Manter um suspeito de terrorismo sob vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana, com equipas dedicadas, escutas telefónicas, análises de inteligência e, posteriormente, um processo judicial que pode arrastar-se por anos, custa facilmente centenas de milhares de euros por indivíduo, para não falar do desgaste psicológico dos agentes envolvidos e do risco permanente de falha humana.

Esta opção ganha contornos ainda mais nítidos quando se olha para os números que o Estado alemão tem pela frente. Só na Alemanha, segundo o Serviço Federal de Polícia Criminal (BKA), as autoridades mantêm sob vigilância apertada cerca de 410 indivíduos islamistas considerados um risco iminente (dados de julho de 2026). Mas este número é apenas a ponta do iceberg: estima-se que todo o espectro islamista no país abranja aproximadamente 28.645 pessoas, repartidas entre o Salafismo (11.200), o movimento Millî Görüş (10.000), a Irmandade Muçulmana / Comunidade Muçulmana Alemã (1.450) e o Hezbollah (1.250), para além de outras estruturas mais difusas ou indivíduos não enquadrados nestes grupos. Perante um universo tão vasto, alocar dezenas de agentes e recursos judiciais a cada um dos 410 casos mais críticos revela-se um pesadelo logístico e financeiro.

Pagar 6.000 euros para que o indivíduo saia voluntariamente do país não é, neste contexto, uma recompensa pelo crime; é um custo que aposta na redução imediata de um perigo concreto em solo alemão, libertando recursos para vigiar os restantes 28.235 que permanecem no meio islamista. É a lógica do “mal menor” aplicada à gestão orçamental: melhor gastar 6.000 euros agora do que 600.000 num julgamento que, por questões processuais ou de prova, pode até terminar em absolvição. Para um governante que olha para as contas públicas e para a eficácia operacional, esta solução tem uma frieza lógica que é difícil de ignorar.

Do ponto de vista moral e jurídico é a Desorientação

Porém, reduzir a segurança pública a uma equação contabilística é um atentado à alma do Estado de Direito. Quando o cidadão comum, que acorda cedo, trabalha honestamente e desconta todos os meses para o sistema, vê um criminoso perigoso receber dinheiro público para “voltar para casa”, a mensagem subliminar é devastadora porque o crime compensa, e a justiça é uma mercadoria que se compra e vende.

Os números também pesam neste prato da balança, mas de forma diferente. Se o Estado já tem 410 indivíduos sob vigilância e cerca de 28.645 no universo islamista, então esta medida de pagamento pode ser interpretada não como uma solução, mas como um sintoma de que as políticas de prevenção e integração falharam redondamente. Está-se a pagar para gerir a ponta do iceberg, enquanto a base permanece intacta e, em muitos casos, a crescer. O argumento de que este pagamento poderá financiar um novo passaporte e o regresso do indivíduo à Europa não é um alarmismo vazio, mas sim um risco geopolítico real. Além disso, esta política cria um precedente perigoso,  comunicando assim aos extremistas que o Estado alemão está disposto a negociar com aqueles que o ameaçam, fragilizando a dissuasão e alimentando a narrativa de que “o Ocidente está em decadência”. Quando a solução para o extremismo é, afinal, um bilhete de avião e um envelope com dinheiro, a política de asilo e de integração parece perder o norte e render-se ao óbvio.

O Equilíbrio e a Verdade incómoda

A verdade é que ambos os lados têm razão e é por isso que o dilema é tão angustiante.

O Estado deve ser eficiente na gestão do dinheiro dos contribuintes, e não é moralmente errado admitir que há recursos finitos para combater ameaças infinitas. Com mais de 28 mil pessoas enquadradas no meio islamista, a polícia e os serviços secretos estão no limite das suas capacidades. O Estado deve ser firme nos seus princípios, e não pode dar a impressão de que se rende à chantagem ou de que trata os criminosos com mais clemência do que trata os cidadãos cumpridores. Pagar a um dos 410 para sair pode até aliviar a pressão imediata, mas deixa intactas as condições que alimentam a radicalização dos outros milhares que ficam.

O que falta aqui não é uma escolha entre uma via ou outra, mas sim transparência e enquadramento jurídico rigoroso. Esta medida só se torna aceitável se for tratada como exceção absoluta, devidamente fundamentada por um tribunal, com a imposição de sanções acessórias (como a proibição vitalícia de regresso ao espaço Schengen) e com a obrigação de o Estado investir as poupanças geradas em programas robustos de desradicalização nas comunidades de origem, sobretudo nos 11.200 salafistas e nos restantes grupos que constituem o viveiro do extremismo. Se o dinheiro poupado for canalizado para prevenir o surgimento de novos extremistas, então o “negócio” deixa de ser apenas uma fuga para a frente e pode transformar-se num instrumento tático dentro de uma estratégia mais ampla.

Conclusão

Acusar o governo de “desorientação” é justo quando a medida é aplicada sem critério ou quando se torna rotina. Mas acusá-lo de imoralidade pura é ignorar a complexidade orçamental e operacional que os Estados enfrentam nos corredores do poder. Os números do BKA não mentem: gerir 410 casos de alto risco no meio de um universo de 28.645 é uma tarefa hercúlea, e qualquer governante, por mais fiel a princípios que seja, acaba por ser confrontado com escolhas dolorosas.

O povo tem todo o direito de se sentir ultrajado e deve sê-lo, pois é essa indignação que mantém os governos sob indagação. Contudo, o povo também deve perceber que, em certos cenários de alto risco, a solução menos má pode, infelizmente, ser a mais racional. O verdadeiro fracasso do Estado não é pagar 6.000 euros a um criminoso, mas sim fazê-lo sem explicar ao cidadão honesto que este dinheiro é uma aposta desesperada na sua própria segurança imediata e não um prémio pelo mau comportamento e, sobretudo, é fazê-lo sem um plano credível para lidar com os restantes 28.645 que permanecem. Quando a política conseguir explicar esta contradição sem se esconder atrás de números ou de moralismos vazios, talvez então tenha reconquistado o contacto com o povo não se vendo necessitada a difamar movimentos críticos na sociedade, como tentam fazer por vezes os melhores instalados no sistema. Até lá, o dilema permanecerá e a indignação, infelizmente também.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578