TOMÁS DE AQUINO E O CONHECIMENTO

O teólogo e filósofo Tomás de Aquino, que viveu há 800 anos, ensinou:
«O máximo que o ser humano pode alcançar no conhecimento de Deus é saber que não conhece Deus».

Esta afirmação não é uma rendição da razão, mas a sua mais elevada realização. Tomás de Aquino, mestre do pensamento sistemático, dedicou a vida a ordenar o conhecimento divino e humano e, no cume da sua obra, reconheceu o Mistério inapreensível. A verdade última não é possuída, mas aproximada; não é esgotada pelo conceito, mas acolhida com humildade intelectual ou religiosa na experiência mística no mais íntimo da pessoa.

Este reconhecimento da limitação do conhecimento humano é, paradoxalmente, o que nos liberta para uma compreensão mais profunda: o que pensamos é pouco em relação ao que se vive. A experiência humana, com os seus sofrimentos, buscas e epifanias, muitas vezes ultrapassa os limites da linguagem e da doutrina. E é nessa dimensão experiencial que a necessidade da existência de Deus se revela, não como mera conclusão lógica, mas como encontro, experiência, sentido e fundamento para a existência.

As religiões, quando fiéis à sua essência, não devem servir de muros de separação, mas de escolas de respeito: respeito por Deus, pelas religiões e pelas crenças. Esse respeito nasce precisamente da humildade tomista, se ninguém esgota o conhecimento do Divino, ninguém pode monopolizar a sua voz. Cada tradição espiritual torna-se assim uma linguagem possível para dialogar com o Inefável, e cada crente, um peregrino em busca de sentido.

Hoje, num tempo de ruído, dogmatismos e abismos narrativos, a herança de Tomás de Aquino ressoa com urgência. De facto, o diálogo genuíno começa quando admitimos os limites do nosso próprio entendimento. A fé não se opõe à razão, mas convida-a a transcender-se. O respeito pelas crenças alheias não é relativismo, mas reconhecimento da dignidade da busca espiritual do outro.

Assim, construir pontes, entre fé e ciência, entre mundivisões e tradições, entre certezas e dúvidas, exige aquela atitude tomista de busca humilde, onde a pergunta vivida vale mais do que a resposta prepotente.

A atitude de reverência perante o Mistério e de respeito perante o outro é uma característica fundamental do ser humano e da humanidade. Sem ela, fechamo-nos em ilhas de arrogância. Com ela, mesmo na diferença, reconhecemo-nos como caminhantes à procura da mesma Luz.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

 

TRILOGIA DA UNIDADE VIVA

(eu – tu – nós)

EU, NO SER PARA…

Eu pensava ser inteiro.
Caminhava fechado no meu nome,
habitante fiel do meu limite.

O meu eu era voz única,
correta, sempre na frente,
bem treinada na arte de se defender.
Sabia dizer sou,
mas não sabia ainda para.

 

Havia em mim desejo,
mas girava em órbita própria,
como estrela que se basta
e por isso não ilumina.

Foi então que descobri
que o eu, sozinho,
é apenas possibilidade.
Não plenitude.

O eu é pergunta
antes de ser resposta.
E o meu eu, sem saber,
esperava.

 

 

TU, VOZ PRESENTE

Quando surgiste,
não vi um espelho
nem um oposto.

Vi um chamamento.

O teu olhar não me explicou,
deslocou-me.
Fez-me sair de mim
sem me perder.

No tu,
o meu eu deixou de ser centro
e aprendeu a ser relação.
Descobri que existir
é permitir-se atravessar.

Entre mim e ti
nasceu uma tensão criadora:
nem fusão,
nem distância.
Um espaço vivo.

O tu não me completou.
Revelou-me inacabado,
e por isso capaz de mais.

Foi aí que percebi:
o eu e o tu,
quando verdadeiros,
não se encerram um no outro
abrem-se no lugar da saudade
pra gerar um terceiro.

 

NÓS NO SOPRO QUE É ESPÍRITO

Do encontro
nasceu algo que não era
nem eu nem tu.

Um terceiro ritmo.
Um sopro que parece vir do divino.

Não o criámos,
aconteceu-nos.

O nós não é soma,
é emergência.
Não pertence a nenhum,
mas habita em ambos.

É espírito de relação:
invisível, mas real.
Não se vê, mas sustém.

Neste nós,
o eu não desaparece
e o tu não se dissolve.
Ambos se transfiguram.

Aqui,
a masculinidade e a feminilidade
deixam de disputar espaço
e tornam-se linguagem comum.
Força que acolhe,
ternura que decide.

O nós é alma viva,
terceira realidade
nascida do amor que se oferece
sem se perder.

Talvez o “Espírito”:
não como conceito,
mas a vida que deixa de caber
nos pares opostos
e transborda
para lá de qualquer dualidade.

A dialética serviu o caminho,
mas agora cai como andaime.
O que permanece
é unidade respirante.

E nesse nós,
mais fundo que o existir,
sinto que o ser
se aprende a dizer-se
na plenitude da fórmula trinitária

António da CD Justo

Pegadas do Tempo

 

Nota do autor

Este e outros poemas que agora ponho a público fazem parte do ciclo de textos poéticos que elaborei em 2014 quando andava a preparar o livro “TRINDADE – Nova forma de ser e de estar”. A escrita de artigos do dia a dia tem-me impedido de publicar alguns livros que se encontram desde 2010 à espera de serem acabados ou de serem publicados.

ANTES DO NOME ESTÁ O NÓS

Não somos dois.
Somos o lugar
onde dois aprendem a cessar
para se encontrarem no nós.

Em nós,
a masculinidade não domina
nem a feminilidade se recolhe,
apenas se escutam e palpitam.
Trocam o fogo e a água
sem se anularem.

Trazemos cada um
vozes antigas no peito,
o gesto que avança
e o que acolhe,
a lâmina que decide
e a mão que permanece.
No nós,
essas vozes desaprendem o medo
e tornam-se respiração comum.

Não nos unimos
para fugir de nós mesmos,
mas para nos transcender.
O eu chega até onde pode,
depois abre-se e chama-se nós.

Aqui,
o desejo não é posse,
mas sim, afinação.
Dois ritmos a procurar
uma mesma música
sem partitura.

Somos o instante
em que a diferença
não separa
nem confunde,
mas gera ressonância
e cria profundidade.

Quando dizemos nós,
o tempo abranda,
como se aprendesse
uma nova gramática.
O futuro não é promessa,
é presença em estado nascente.

Não há vencedor nem vencido,
ativo nem passivo,
céu nem terra,
há aliança.

E nessa aliança
o masculino encontra repouso,
o feminino encontra força,
e ambos se reconhecem
como linguagem de um só sentido.

Somos nós
quando o eu já não teme perder-se
e descobre que só assim se encontra.
(Como espelho da relação da Trindade)

António CD Justo

Pegadas do Tempo

COMPENSAÇÃO FINANCEIRA ENTRE OS ESTADOS ALEMÃES EM 2025

Exemplo de sensatez nacional e de solidariedade

 

Na Alemanha, os estados mais ricos apoiam, financeiramente os estados com padrões económicos mais baixos anualmente.

Assim, em 2025, quatro estados federais apoiaram os outros 12 estados federais (os chamados Estados doadores e os  Estados beneficiários).

A Baviera contribui com uma transferência de compensação de 11,7 mil milhões de euros, Hesse com 4 mil milhões de euros,  Baden-Wurtemberg com 4 mil milhões e Hamburgo com 0,3 mil milhões.

António Justo

Pegadas do Tempo

FÁBULA PARA O NOSSO TEMPO BASEADA NO ENIGMA DE TEBAS

Na Europa, uma nova Esfinge (1) ergue-se sobre as cidades. Não tem corpo de leão nem rosto de mulher, mas sim ecrãs de plasma, programas e algoritmos silenciosos. Habita não num penedo isolado, mas nas redes que conectam todas as casas e fazem delas salas de instrução e de espetáculo. O seu enigma não é pronunciado em voz alta, mas sugerido em milhares de imagens, notícias, postagens e análises que inundam os dias.

Esta Esfinge moderna pergunta: “Que criatura caminha sobre quatro apoios na infância, dois na idade adulta, e três na velhice, mas em todas as idades aceita as sombras como luz?”

A multidão, formatada para a urgência, nem percebe que lhe é colocada uma questão. E assim é devorada diariamente, não por um monstro mitológico, mas por uma resignação silenciosa que destrói a capacidade de distinguir facto de opinião, análise de propaganda, consenso de partidarismo.

Os Édipos modernos chegam cheios de confiança. Um jovem programador cria uma aplicação que promete “descodificar a narrativa mediática”. Um académico publica um tratado sobre “a desconstrução do discurso hegemónico”. Um ativista organiza fóruns de “verificação de factos”. Cada um acredita ter desvendado o enigma, afirmando: “A criatura é o Cidadão Contemporâneo! Pois ele consome informação não para compreender, mas para confirmar; não para refletir, mas para pertencer!”

Mas aqui a fábula diverge do mito antigo. Estas Esfinges não se atiram dos penhascos. Aplaudem. Incorporam as “soluções” nos seus algoritmos (2). O programador vende a sua aplicação a um conglomerado mediático. O académico é contratado como comentador. O ativista recebe likes suficientes para se sentir vitorioso. E a maldição persiste, mais sofisticada, adaptando-se a cada tentativa de a destruir.

Jocasta, a rainha viúva, não é uma pessoa, mas uma Nostalgia perigosa, a memória coletiva editada, que faz chorar por um passado que nunca existiu como lembramos ou faz acreditar num futuro que idealizamos. E muitos, pensando libertar o povo, acabam por casar com esta Nostalgia ou alegria, sem perceber o parentesco ideológico que os une.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

(1) O ENÍGMA DE TEBAS: Em Tebas vivia a Esfinge, que era um monstro alado com corpo de leão e rosto de mulher, devorava quem não resolvesse o seu quebra-cabeças: “Que criatura anda sobre quatro patas pela manhã, duas ao meio-dia e três à noite?” Toda a cidade vivia aterrorizada porque quem falhasse era engolido. Um dia chega a Tebas Édipo e conseguiu desvendar o enigma dizendo que essa criatura é o “Homem”, que engatinha na infância, anda sobre dois pés na vida adulta e usa bengala (três pés) na velhice. A Esfinge então despenhou-se de um penedo e Édipo, libertador da maldição da cidade, recebeu o trono e a mão da rainha Jocasta, viúva do falecido rei Laio, casando-se sem saber com a própria mãe. A vitória de Édipo sobre a Esfinge representa o triunfo da inteligência humana, isto é, do conhecimento, sobre a força bruta da burla e do preconceito e do que nos levam a acreditar.

(2) Os algoritmos detetam hoje o que investigadores como Byung-Chul Han descrevem: uma sociedade já não disciplinada por proibições externas, mas por um imperativo de transparência e positividade que esgota. A Esfinge atual não ameaça com violência, mas com exclusão social, com a invisibilidade algorítmica.
As Inteligências Artificiais de processamento linguístico identificam nos discursos públicos europeus um aumento de 73% em polarizações binárias, o pensar só a preto e branco, desde 2010, segundo estudos do MIT Media Lab. As redes neuronais na lógica do limiar (semelhantes aos neurónios do cérebro humano criam conexões que movimentam camadas ocultas) mapeiam como certos termos (“liberdade”, “segurança”, “populismo”, “tradição”, “progresso”) são semanticamente usurpados por campos opostos, tornando o diálogo quase impossível.
A cada enigma correspondem múltiplas narrativas possíveis, não uma, mas mil respostas. Urge evitar que o cidadão perca a capacidade crítica; precisa-se empenho na capacidade de imaginar, recombinar, reconciliar, encontrar caminhos não previstos pelos dados que se apresentam. A capacidade critica e criativa do indivíduo são aquelas que mais contribuem para o desenvolvimento da sociedade!
O verdadeiro enigma será: Como construir pontes quando o discurso público e os algoritmos nos mostram apenas abismos?
Tal como Édipo, estamos condenados a responder, mas ao contrário dele, sabemos que cada resposta gera novas perguntas. A libertação não está num trono conquistado, mas na coragem de permanecer na interrogação, na tolerância pela resposta do outro, mesmo e especialmente, quando discorda da nossa.
A maldição de Tebas moderna só será quebrada quando entendermos que o monstro não está no penedo, mas na nossa resignação em aceitar enigmas e afirmações como verdades finais. E que às vezes, a sabedoria começa não com uma resposta inteligente, mas com uma pergunta humilde: “E se eu estiver errado?”