ESPECTADOR DE SOMBRAS

O Professor Amadeu desligou a televisão com um suspiro que mais parecia o ar a escapar de um pneu velho. No écran, a imagem de um agente da ICE, com cara de bulldog, arrastava uma mulher que chorava por um filho que ficara para trás, num cenário de chuva e néon. Era uma imagem violenta, comovente e demasiado real. Foi por isso que o Professor, um homem que passara a vida a ler entrelinhas, sentiu a picadela da dúvida. Aquela chuva batia num ângulo demasiado perfeito nos rostos e o desespero tinha uma coreografia estudada.

No dia seguinte, a notícia do escândalo rebentou como uma pequena bomba nos jornais sérios. O heute journal alemão admitia, sob pressão política, ter exibido imagens geradas por inteligência artificial. Um líder regional, um tal de Rena Palatino, exigia “máxima transparência”, como quem pede a um mágico que revele o truque depois de o espetáculo acabar. Amadeu sorriu com amargura. A ponta do icebergue, pensara ele. O monstro verdadeiro navegava nas águas escuras por baixo.

Na tertúlia semanal da livraria “A Central”, o assunto pegou fogo. A D. Emília, uma reformada da educação que devorava romances históricos como se fossem pão quente, estava indignada.

“Mas como é possível? A ZDF é uma instituição pública! Pagamos para que nos mintam com bonecos de computador? E depois falam da China, da Rússia… A hipocrisia é o motor do mundo!”

Joaquim, um designer gráfico de olhar cansado que vivia de campanhas publicitárias, encolheu os ombros.

“Hipocrisia, D. Emília? É negócio e isso é a política. É a versão deles, a mais útil. A senhora ainda acredita no Pai Natal da objetividade? A imagem já não prova nada. Prova o que se quer que prove. Nós vendemos sonhos em pílulas e eles vendem medos em pixels. Tudo sai da mesma fábrica.”

Amadeu ouvia, absorto. Lembrou-se do seu aluno mais brilhante, um miúdo de óculos fundo de garrafa chamado Tomás, que um dia lhe dissera: “Professor, a realidade está sobrelotada. Por isso a maioria prefere viver nos subúrbios da imaginação dos outros.” Tomás tinha razão. Estavam todos a ser realojados à força nesses subúrbios.

Foi nessa noite que Amadeu sonhou com o Icebergue. Não um icebergue de gelo, mas um enorme bloco de dados translúcidos, a flutuar num mar de tinta preta. No cimo, a ponta luzidia mostrava as imagens falsas da ZDF, o escândalo momentâneo. Mas por baixo da linha de água, a massa gigantesca, pulsante e fria, era feita de narrativas sobrepostas: a condenação europeia do colonialismo enquanto as marcas de roupa exploravam o suor asiático; os discursos de diversidade enquanto se erguiam muros invisíveis dentro das próprias cidades; o elogio da liberdade de expressão enquanto se cancelavam vozes desconformes. E no núcleo duro do icebergue, uma máquina a cuspir ideias pré-fabricadas, o imperialismo mental que era uma confeção em série do pensamento que justificava a concentração das energias nas fábricas de guerra. Ao acordar Amadeu ficou com a sensação de ter visto o motor do mundo.

Os dias seguintes confirmaram-lhe a visão. Viu as mesmas técnicas, mais suaves, mais insidiosas, a funcionar na cobertura dos conflitos. Nos relatos sobre os extremismos, fosse ele de esquerda ou direita, a mão invisível do politicamente correto, o vento das forças gerentes, soprava sempre para o mesmo lado, ajustando a vela da narrativa para que o barco não virasse. A verdade factual, essa mercadoria incómoda e pesada, era atirada ao mar para aligeirar a carga. Sim, até porque a navegação na sociedade é por vezes como navegar em mar alto!

Amadeu pensou que a sociedade, se estava a tornar num enorme ecrã de televisão e o que não passava no ecrã, não existia. As pessoas, cada vez mais, criavam a sua própria imagem da realidade a partir dos fragmentos que o ecrã lhes atirava, ignorando ou distorcendo o que não encaixava. A tentação individual tornara-se dogma coletivo. O relativismo, esse parasita, tinha roído as colunas culturais, os alicerces da identidade. Já não se pertencia a um lugar, a uma história; pertencia-se a uma narrativa. A Europa, julgando-se o umbigo do mundo, o farol da razão, descobria-se agora apenas mais uma fábrica de mitos, competindo com todas as outras. Já não conquistava terras, conquistava cérebros com os seus produtos supervisionados: a democracia de fachada, os direitos humanos seletivos e a moral de cartilha.

Uma tarde, ao passear pelos jardins da Fundação, viu um grupo de jovens. Falavam alto, com a convicção dos que sabem. Falavam de política, de justiça. Amadeu aproximou-se, atraído pela energia. Um deles, de cabelo rapado e olhos vivos, gesticulava:

“Não, tu não estás a ver! O que interessa não é se aquilo aconteceu, é o que aquilo significa. As imagens da IA podem ser falsas, mas a mensagem é verdadeira! A brutalidade existe, e a imagem serve para a denunciar! O real é um detalhe, o importante é a intenção!

Amadeu sentiu um frio a subir-lhe na espinha. O mundo estava virado do avesso. A mentira técnica justificava-se pela verdade moral que se lhe queria atribuir. O fim santificava os meios, e os meios eram agora de uma plasticidade infinita. A moral e as atitudes vinham depois, sim, como a D. Emília dissera. Vinham depois da imagem, depois da comoção, depois do voto. A vontade humana, servida pela máquina, criava realidades mais perfeitas, mais eficazes, mais digeríveis do que a própria realidade, que é sempre confusa, contraditória, aborrecida.

Naquela noite, fechado no seu escritório forrado de livros em que cada um deles era uma tentativa, talvez falhada, de agarrar um pedaço do real, o Professor Amadeu sentiu o peso de uma guerra. Não uma guerra de exércitos, mas uma guerra total dos elementos e das estruturas, dos cidadãos e das instituições. Uma guerra entre o que se vê e o que é, entre a vontade de moldar o mundo à nossa imagem e a imaginação necessária para o compreender. Faltava o realismo, a consciência da nossa pequenez e do nosso lugar no espanto da existência. Faltava a humilde procura de sentido, essa viagem que não se faz com programas fabricados.

Olhou para a televisão desligada. O écran negro devolvia-lhe o seu próprio reflexo, um velho cansado, um espectador de sombras. Mas no fundo daquelas pupilas, espreitava ainda uma chama teimosa: a certeza de que, mesmo que todos os espelhos estejam partidos, a busca por um reflexo inteiro é a única coisa que nos impede de sermos, nós também, fantoches de silício e tinta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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