(eu – tu – nós)
EU, NO SER PARA…
Eu pensava ser inteiro.
Caminhava fechado no meu nome,
habitante fiel do meu limite.
O meu eu era voz única,
correta, sempre na frente,
bem treinada na arte de se defender.
Sabia dizer sou,
mas não sabia ainda para.
Havia em mim desejo,
mas girava em órbita própria,
como estrela que se basta
e por isso não ilumina.
Foi então que descobri
que o eu, sozinho,
é apenas possibilidade.
Não plenitude.
O eu é pergunta
antes de ser resposta.
E o meu eu, sem saber,
esperava.
TU, VOZ PRESENTE
Quando surgiste,
não vi um espelho
nem um oposto.
Vi um chamamento.
O teu olhar não me explicou,
deslocou-me.
Fez-me sair de mim
sem me perder.
No tu,
o meu eu deixou de ser centro
e aprendeu a ser relação.
Descobri que existir
é permitir-se atravessar.
Entre mim e ti
nasceu uma tensão criadora:
nem fusão,
nem distância.
Um espaço vivo.
O tu não me completou.
Revelou-me inacabado,
e por isso capaz de mais.
Foi aí que percebi:
o eu e o tu,
quando verdadeiros,
não se encerram um no outro
abrem-se no lugar da saudade
pra gerar um terceiro.
NÓS NO SOPRO QUE É ESPÍRITO
Do encontro
nasceu algo que não era
nem eu nem tu.
Um terceiro ritmo.
Um sopro que parece vir do divino.
Não o criámos,
aconteceu-nos.
O nós não é soma,
é emergência.
Não pertence a nenhum,
mas habita em ambos.
É espírito de relação:
invisível, mas real.
Não se vê, mas sustém.
Neste nós,
o eu não desaparece
e o tu não se dissolve.
Ambos se transfiguram.
Aqui,
a masculinidade e a feminilidade
deixam de disputar espaço
e tornam-se linguagem comum.
Força que acolhe,
ternura que decide.
O nós é alma viva,
terceira realidade
nascida do amor que se oferece
sem se perder.
Talvez o “Espírito”:
não como conceito,
mas a vida que deixa de caber
nos pares opostos
e transborda
para lá de qualquer dualidade.
A dialética serviu o caminho,
mas agora cai como andaime.
O que permanece
é unidade respirante.
E nesse nós,
mais fundo que o existir,
sinto que o ser
se aprende a dizer-se
na plenitude da fórmula trinitária
António da CD Justo
Pegadas do Tempo
Nota do autor
Este e outros poemas que agora ponho a público fazem parte do ciclo de textos poéticos que elaborei em 2014 quando andava a preparar o livro “TRINDADE – Nova forma de ser e de estar”. A escrita de artigos do dia a dia tem-me impedido de publicar alguns livros que se encontram desde 2010 à espera de serem acabados ou de serem publicados.