PORTUGAL EM VOZ BAIXA

Falaram-nos de pátria, de abril e de estado
como quem ensina um hino
sem nunca explicar a letra.
Exigiram-nos credo, não pensamento,
um verso decorado, não um poema.
Exigiram cartão, não consciência,
um retrato sem rosto, uma assinatura sem nome.
Exigiram modos em fila, não perguntas
uma geometria de ombros curvados,
um caminho que não se bifurca.

Assim cresceu um país de vozes baixas,
onde pensar dói e discordar cansa.
Um povo treinado para escolher lados
para a cor da divisa, mas não rumos,
bom para defender cores
mesmo quando a tela apodrece.

O poder aprendeu cedo
que não precisava de censura,
bastava hábito.
Bastava chamar lealdade à obediência,
responsabilidade ao silêncio
segurança ao medo de mudar.

E o país foi-se habituando.

E nós, cansados,
aceitámos o roubo pequeno
como defesa do roubo grande,
a esperteza como virtude,
o, “paciência, que remédio”
como filosofia nacional.
Ladrão que rouba a ladrão
descansa melhor à noite
disseram-nos sempre
e o país foi-se deitando.

Nos corredores onde o tempo não entra
circulam os mesmos nomes,
as mesmas caras recicladas,
os mesmos discursos com gravata nova.
Mudam de lugar, não de intenção.
Temem o intruso não porque grite,
mas porque não deve favores
nem aprende o jeito certo de calar.

Chamam democracia
a um consenso viciado,
pluralismo a um coro afinado,
debate a um teatro onde o final
da peça já foi ensaiado e escrito.

E o povo foi treinado na espera!
O povo espera porque trabalha,
O povo espera porque envelhece,
O povo espera porque lhe disseram
que pensar é perigoso e mudar é radical.

Mas há um cansaço novo no ar.
Um silêncio diferente a crescer.
Não o da resignação,
mas o da pergunta que amadurece.

Talvez a rutura não venha
como grito, mas como recusa.
Recusa em fingir,
Recusa em alinhar,
Recusa em perdoar tudo
em nome do medo e da paz podre.

Talvez o primeiro gesto livre
seja olhar este país sem slogans
e perguntar, com voz inteira:
quem somos nós, para além daquilo
que nos ensinaram a repetir?

Porque um povo não se perde
quando erra ou falha.
Perde-se, sim,
quando deixa de pensar.

E pensar, hoje, faz doer
mas é o ato mais revolucionário
que ainda nos resta.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa

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