O CORPO DE DEUS

Não me peças definições,
o Corpo não se curva ao nome.
Ele é a hóstia sem moldura,
o chão que anda, o pão que some
nas mãos abertas da aventura.

O que é teu, o que é meu,
que fronteira se inventou
para o pó que Deus mexeu?
Na rua onde o povo orou
nenhum dono prevaleceu.

Peregrino do instante,
descalço de todo o ter,
vejo o sol na hóstia andante
e o infinito a estremecer
numa migalha de pão constante.

Céu e terra já não pesam
na balança do poder.
Onde dois corpos se beijam
ou dois pobres vão comer,
eis o altar que não apresam.

Corpus Christi sem fronteiras,
sem doutrina que o confine.
Passam as procissões inteiras
e o que resta é o que fascina:
um Deus contigo no pó das fileiras.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

Social:
Pin Share

Social:

Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *