Eu sento-me, Tu sentas-te, Ele senta-se.
A porcelana é fria, mas a verdade é morna:
aqui, o rei depõe a coroa e as calças,
e o plebeu ascende em nobreza anónima.
É o único parlamento onde a direita e a esquerda
se sentam, em pleno acordo, sobre a mesma louça branca.
A vergonha, essa dama de véu cobarde,
veste-nos, afinal, de dignidade pura;
o silêncio que aqui habita não é mudo,
é o rumor do mundo a tomar fôlego.
E o herói que ali fora é dono do palco,
aqui rende-se ao mais pequeno dos deuses:
o botão de descarga, o rolo de papel infinito (1),
e a água que gira é carrossel do esquecimento.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo
(1) Aqui, na toalete, as hierarquias desfazem-se na água! O odor, democrático e inevitável, cobre todos com o mesmo manto de igualdade elementar. Não há tribunas nem plateias; apenas se tem o bastidor do mundo, o palco sem espectadores onde cada um regressa à condição comum. A casa de banho talvez seja o lugar mais discretamente filosófico da existência. Há criatividade e uma filosofia com cheiro a amoníaco, onde o ambiente respira a verso e a condição humana se despe das suas máscaras. É também uma pausa no teatro do mundo, uma breve suspensão das personagens, dos títulos e dos enfeites. Na casa de banho, a glória deixa de conseguir esconder o seu próprio rumor. Encontram-se, sem cerimónia, as honras públicas e as honras ocultas; aqui o prestígio e a fragilidade partilham o mesmo espaço e obedecem à mesma necessidade. É um lugar de libertação e de antidiscriminação silenciosa. Um território onde o corpo recorda aquilo que o espírito tantas vezes esquece: que toda a elevação humana assenta sobre uma igualdade irrevogável.