Nas latrinas da sociedade, ó sábio viajante,
esgotam-se os dejectos e as grandes teorias.
As ideias, qual alho em terra adubada,
brotam férteis na clausura do assento,
mas cuidado com as que ficam empedernidas!
Se a canalização da alma entope,
o mau cheiro é fumaça de ideologias caducas,
e o ar, que devia ser leve, pesa como única rectórica.
Descarrega, onda límpida e catártica,
leva o ruído, a pressa, o disparate factuado,
e devolve-nos o centro celeste do umbigo.
Aqui, o homem curva-se perante a sua própria natureza,
mas não se quebra; antes, flutua
na pausa do teatro, no intervalo da glória,
onde as honras ocultas são a única verdade
e o eco do dreno é a música dos divos.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©