DAZWISCHEN (ALI MESMO NO MEIO (1)

Entre o teu nome e o meu, entre a ave e a árvore,
entre a fenda da terra e a abóbada do céu,
ouve-se a música, não a que os astros tecem,
mas a de Afrodite que afina o espaço do intervalo,
esse vão suspenso onde dois seres se respiram
sem ainda se tocarem, na ânsia de se acharem.

Nesse dazwischen, o fósforo da ideia
desce, risco breve e lúcido, ao centro do peito:
não queima, ilumina e no rosto incendeia
um sorriso que desfolha, pétala a pétala,
o inverno do silêncio. As mãos erguem-se,
cálice de vazio e suspiram por mais,
mais carne onde o feminino se faz onda
e o masculino, penhasco que a recebe,
mais céu onde a terra aprende a sua queda
para, ao cair, se saber feita de estrela.

Mas olha a surpresa, num ápice, o golpe de asa:
o dazwischen solveu-se. Nem sopro, nem fósforo.
Um mero beijo e o entre-dois ruiu
como um castelo de sal ao primeiro orvalho.
O que era ponte é agora travessia consumada;
o que era música, pausa que o lábio preencheu.

Que esse beijo, porém, se prolongue, amigos,
que caia, lento e cego, como pólen que o acaso
confia à asa da abelha sem bússola nem destino,
não para as flores que o caminho guarda
no seu livro de herbário, mas para as outras,
as que a própria senda desconhece e evita,
as que germinam onde o passo hesita,
no limite agreste onde o feminino é seiva
e o masculino, a luz que a verticaliza,
e a terra, ao subir, não fere o céu, abraça-o.

E nesse pólen, o fósforo reacende-se,
já não como ideia, mas como corpo mundano.
E o beijo, sendo um, é todo o voo e toda a raiz,
porque o que cai em flor não finda em chão,
ascende em fruto e no fruto, a semente,
e na semente, o gérmen do novo intervalo,
o recomeço do sopro que, incansável,
afina outra vez o arco entre o teu nome e o meu,
entre o voo e o ramo, entre o céu e a terra,
porque o encontro nunca é um fim, mas a fenda
onde a ânsia escondida, enfim, se sabe eterna
a repetir-se, fértil, no pólen do instante.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) “Dazwischen” é um palavra alemã que significa literalmente, “ali entre”, “pelo meio”, “no meio” ou “entre as coisas” é precisamente esse espaço invisível. É aquilo que não se vê à superfície, mas que une tudo e revela o que está oculto, sem precisar de tocar no que é material ou superficial (como a “roupa”). É a perceção pura, a intuição ou a ligação profunda que vai direto ao ponto essencial.

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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