Do Escândalo democrático do povo se atrever a não obedecer aos seus defensores!
Em tempos de humor negro e de fé vermelha, as eleições europeias revelam-se o cúmulo do humor: uns apresentam-se em defesa do povo, outros em defesa do seu povo e alguns, mais modestos, em defesa do seu povinho. No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra mágica “democracia”, mas o busílis da questão é que cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.
Curiosamente, o tão censurado discurso do «nós e dos outros» não é exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Também os autoproclamados guardiões da democracia gostam do seu “nós”, do “ nós, os democratas”, “nós, os esclarecidos”, “nós, os europeus de bem” e consideram do outro lado, “eles, os populistas”, “os enganados”, “os atrasados”, “os perigosos”, etc… Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alfândega moral.
Assim, enquanto uns proclamam «nós, os nacionais, contra os estrangeiros», outros respondem «nós, os democratas, contra eles». A gramática é assustadoramente parecida e o que muda é apenas o dicionário. E cada campo, naturalmente, garante possuir a verdade, porque a dúvida, em período eleitoral, dá poucos votos e ainda menos lugares no Parlamento.
Assiste-se então ao espetáculo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau, como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro à entrada. A argumentação cede lugar à narrativa, a análise à indignação e o ódio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em público com o respeitável nome de “consciência democrática” que em dicionário adverso significa “oportunista”.
De um lado estão os que vivem da perda; do outro, os que vivem do proveito. Uns prometem mundos e fundos; outros, mais pragmáticos, vivem dos fundos. E todos juram representar o cidadão, sobretudo aquele cidadão abstrato que nunca telefona, nunca protesta e convenientemente, cabe inteiro num comunicado de imprensa.
Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas políticas que eles próprios defenderam. Bruxelas transforma-se, assim, numa curiosa fábrica política: produz decisões, distribui virtudes e nas horas vagas, fabrica os adversários que depois denuncia.
Talvez o problema seja mais simples e por isso mesmo, mais incómodo: durante demasiado tempo governou-se para uma clientela política que, entretanto, foi ultrapassada pela realidade. O velho pieguismo partidário já não comove como antes. E quando a realidade deixa de votar como previsto, há sempre quem conclua que o defeito está na realidade.
Em muitos governantes e funcionários da liturgia europeia, mais do que competência, começa a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admirável talento de explicar aos eleitores por que razão estes votaram mal.
A democracia, porém, conserva um sentido de humor particularmente negro: de tempos a tempos entrega o boletim de voto precisamente àqueles de quem os seus autoproclamados proprietários menos gostam.
E aí começa o verdadeiro escândalo democrático: o povo atreve-se a não obedecer aos seus defensores.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo