DO EMPENHO QUE NOS FALTA

Europa muralha quando foi chamada a ser mar

O mar não tem muros, mas os homens constroem-nos dentro de si para não descobrirem o rosto por trás da onda.

Há uma imagem que a imprensa europeia repete, como um disco eliminado que lembra a de um mapa, com setas vermelhas a atravessarem o Estreito de Gibraltar, uma mancha densa de corpos anónimos a escalar a cerca de Ceuta. Fala-se em números de pelo menos 50 000, 80 afogados, fala-se em «pressão migratória», em «defesa das fronteiras», mas raramente se fala no que esses braços que nadam procuram, para além da linha imaginária que separa a África da Europa.

Ninguém nada contra as correntes do Mediterrâneo por desporto ou espírito de aventura. A água salgada não é um convite; é um desespero líquido, um último recurso e aqueles jovens carregam nas costas uma história inteira de injustiças, séculos de extração de riqueza, mapas de países traçados por outrem onde os seus recursos naturais e o seu trabalho foram sempre o combustível para o progresso alheio.

Quando Bruxelas ergue o tom e fala em «invasão», comete dois erros fatais porque troca a causa pelo efeito, e a pessoa pela estatística. Mas não se invade aquilo a que se pertence, ainda que por direito de humanidade partilhada. O que vemos não é uma mancha militar, mas o movimento tectónico da pobreza a chocar contra a muralha rica da indiferença.

Por trás da Onda há uma Economia de Exploração e a Atração pelo Abismo

Há uma verdade incómoda que os discursos oficiais evitam: a Europa e os Estados Unidos são os grandes beneficiários de um sistema que mantém o Sul global numa dependência perene. Extraem-se minerais, explora-se a mão de obra, transferem-se lucros e depois, de maneira surpreendente e hipócrita, erguem-se barreiras para impedir que os corpos desses mesmos trabalhadores sigam o caminho do capital.

A solução proposta é quase sempre a mesma: contenção, devolução, dissuasão. Raramente se pergunta: porque é que a Europa é tão atrativa? E a resposta é cruelmente óbvia, porque concentra a riqueza que foi, em boa parte, construída sobre os ombros daqueles que agora batem à porta.

Mas há um caminho alternativo, um caminho de empenho, não de luta. A palavra lutar traz já em si a mecha masculina guerreira. Por isso é melhor falarmos de empenho. Empenho em criar filiais industriais nos países de origem. Empenho em transferir tecnologia e em pagar preços justos pelas matérias-primas. Empenho em reduzir a atratividade da Europa, não a tornando pior, mas tornando o mundo melhor.

Não se trata de uma caridade paternalista nas de inteligência estratégica com rosto humano. Se os jovens da margem sul tiverem escolas, empregos dignos, hospitais e esperança, a travessia mortal deixa de fazer sentido. A pressão migratória não se resolve com arames farpados; resolve-se com estradas, fábricas e universidades. E isto fica mais barato e é mais justo e sobretudo mais eficaz.

O Palco da Guerra é o Sorvedouro que tudo justifica

Enquanto nos debatemos com os 80 afogados de Ceuta, os orçamentos europeus incham com verbas para a defesa. Ouvimos ministros, como o alemão Pistorius, pregar a «preparação para a guerra» com a mesma naturalidade com que outros falam do tempo. O comediante Dieter Hallervorden, com a verdade crua que só a sátira permite, chamou-lhe «ministro da Guerra» e mandou para o inferno quem exige que nos tornemos belicosos. O que disse parece exagerado, mas tem razão e até justifica que é melhor ser covarde durante dois minutos do que estar morto para o resto da vida.

A história, essa velha professora que nunca repetimos, ensina-nos que o rearmamento não é segurança, mas sim uma profecia que se auto-cumpre. Cada euro gasto em tanques é um euro roubado ao bom entendimento, à educação, à saúde, às pensões, ao ambiente e provoca uma espiral de escalada que, como sabemos, desemboca sempre no mesmo lugar o campo de batalha, onde a lógica falha e os factos brutos prevalecem.

E quem paga o preço? Certamente não a pequena elite que, numa eventual crise, emigra para paraísos fiscais ou países neutros. Quem paga são os que ficam, os que não têm para onde fugir, os que dependem do sistema público que se desmorona para financiar a indústria bélica. Os mesmos que, ironicamente, são convocados para odiar o estrangeiro, quando o verdadeiro inimigo, tantas vezes, está dentro de portas e veste fato e gravata.

Uma Elite governante doente contamina a Democracia e o seu Povo

A democracia europeia está doente e não por falta de eleições, mas por falta de escuta. Os governantes, reféns de grandes grupos económicos globais, privilegiam o lucro máximo e imediato em detrimento da justiça social duradoura. Mas se a política se virasse para a solidariedade efetiva, com planos concretos de cooperação, com perdão da dívida, com investimento real nos países mais pobres, o apoio popular seria esmagador. As pessoas comuns não são estúpidas e sabem que a exploração do ser humano e da natureza tem um custo que, mais cedo ou mais tarde, todos pagamos. Observam que gerir a miséria é um negócio cruel e sabem que resolvê-la seria um investimento em paz.

Se os governantes percebessem que o seu poder não está em controlar a orientação mental dos cidadãos através do engano e do medo, mas em alinhar os interesses da nação com os interesses da humanidade, não precisariam de manipular, de dividir ou de guerrear. Um povo que se sente ouvido não precisa de ser vigiado. A guerra, aliás, é o último recurso dos que já não têm argumentos de esperança.

A Modus de Conclusão

O rearmamento é, além do mais, uma catástrofe ecológica. As indústrias bélicas são das mais poluentes do globo. Mas o debate público insiste em separar o ambiente dos mísseis, como se o ar que respirarmos pudesse escolher entre a paz e a guerra.

A verdadeira segurança dos povos não está nas ogivas nucleares, mas na capacidade partilhada de cultivar, de curar, de construir. Não há muro alto que proteja uma ilha de prosperidade rodeada por um oceano de miséria. Esse mar não respeita fronteiras, porque leva corpos, leva sementes, leva poluição e leva histórias.

Por vezes o que parece desordem não é desordem, é apenas a única ordem possível para quem olha o mundo com os olhos abertos e onde a indignação é o princípio da lucidez.

No fundo, o que Ceuta nos mostra não é uma invasão, mas um espelho que reflete um mundo que escolheu a defesa em vez do abraço e o lucro em vez da vida.

O verdadeiro empenho político deveria consagrar-se à paz com a mesma veemência com que se consagra à guerra. Consagrar-se-ia, pois, à educação, não à doutrinação, à produção local contra o dumping global. E então, em vez de se perder a contar os afogados, ouviria, finalmente, o que dizem os que nadam.

A verdadeira vitória não é impedir que cheguem, mas fazer com que não precisem de partir. Que o mar, um dia, sirva apenas para nos unir, nunca para nos sepultar.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

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Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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