A RÚSSIA VOTOU E PUTIN SAI REFORÇADO

António da Cunha Duarte Justo

Num momento em que a guerra na Ucrânia continua a consumir recursos, vidas e capital político e em que tanto na Europa como na Rússia as narrativas públicas tendem a apresentar o adversário através das lentes mais convenientes aos respetivos interesses, as eleições parlamentares russas oferecem um dado político que não deveria ser ignorado: Vladimir Putin e o sistema de poder que o sustenta saem reforçados. O Partido Liberal Democrático da Rússia e o Povo Novo obtiveram 9,27% e 7,96% dos votos, respectivamente

Segundo os resultados preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Central (20.09.2026), depois de apurados 95,18% dos votos, o Rússia Unida alcançou 57,83% dos votos nas listas partidárias. Seguiram-se o Partido Comunista da Federação Russa, com 13,81%, o Partido Liberal Democrata, com 8,98% e o Novo Povo, com 7,96%.

Mais significativa ainda é a tradução destes resultados em poder parlamentar. O Rússia Unida deverá alcançar 355 dos 450 lugares da Duma, ultrapassando largamente os 301 necessários para uma maioria constitucional. Trata-se, a confirmarem-se os resultados, da maior representação parlamentar conseguida pelo partido, superior mesmo aos 343 deputados alcançados em 2016.

Não se deve, contudo, confundir automaticamente esta votação com uma eleição presidencial. Putin não estava a ser eleito e o Rússia Unida, embora constitua o principal sustentáculo parlamentar do Presidente, não é simplesmente sinónimo de Putin. O resultado demonstra sobretudo a consolidação parlamentar do sistema político que dirige a Rússia.

Também seria precipitado concluir que 57,83% dos votos representam, sem mais, a percentagem da sociedade russa que apoia a guerra. A eleição realizou-se num ambiente político fortemente condicionado. A União Europeia denuncia a exclusão de forças oposicionistas, nomeadamente candidatos do partido liberal e antiguerra Yabloko, a limitação do acesso a informação independente e a ausência de observadores da OSCE. Bruxelas rejeita igualmente a validade da votação organizada nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.

Estas objeções fazem parte da realidade e devem ser mencionadas. Mas também elas não eliminam outro facto político: depois de mais de quatro anos de guerra, sanções económicas ocidentais, perdas humanas e crescente militarização da sociedade, não se verifica, pelo menos através destes resultados, a desagregação política do poder russo que alguns estrategas ocidentais esperavam.

Pelo contrário, o Rússia Unida aumentou a sua votação relativamente aos 49,8% obtidos em 2021. A participação oficial também aumentou. Isto permite ao Kremlin apresentar as eleições como confirmação da unidade nacional em torno do poder num momento de confronto com o Ocidente.

O simbolismo do último dia eleitoral tornou-se ainda maior devido à dimensão dos ataques ucranianos contra território russo. Segundo as autoridades russas, mais de 1.600 drones foram intercetados durante a vaga de ataques, dos quais cerca de 450 se dirigiam à região de Moscovo. O ataque provocou vítimas e atingiu, entre outros alvos, uma refinaria. Independentemente da discussão sobre estes números e sobre os objetivos militares da operação, a coincidência com o último dia das eleições favoreceu inevitavelmente a narrativa do Kremlin de uma Rússia cercada e obrigada a defender-se.

É precisamente aqui que a Europa deveria analisar os acontecimentos com maior frieza. A pressão exterior nem sempre produz revolta contra um governo. Em determinadas circunstâncias produz o fenómeno contrário porque a população agrupa-se em torno do poder quando interpreta a ameaça como dirigida não apenas ao governo, mas ao próprio país.

Na memória histórica russa continua presente o colapso da União Soviética e o período caótico que se lhe seguiu. Para muitos russos, a estabilidade política poderá pesar mais do que o pluralismo segundo os padrões das democracias ocidentais. Isso não transforma a Rússia numa democracia liberal nem invalida as críticas às condições em que decorreram as eleições. Significa apenas que compreender uma sociedade exige distinguir aquilo que gostaríamos que acontecesse daquilo que efetivamente está a acontecer.

Também seria excessivo concluir destes resultados que a guerra continuará necessariamente porque os russos assim o decidiram. As decisões fundamentais sobre a guerra pertencem ao Kremlin, e a Duma tem uma capacidade limitada de contrariar o executivo. As eleições fazem retirar a força à tese de que a guerra estaria a provocar uma fratura política capaz de obrigar Putin a mudar de rumo.

O paradoxo europeu está justamente aí. Quanto mais a NATO e a Rússia apresentam o confronto como existencial, menores parecem tornar-se os espaços para compromissos. Moscovo utiliza a ameaça ocidental para justificar a concentração interna de poder; no Ocidente, a ameaça russa é utilizada para justificar o aumento dos gastos militares e uma política de contenção prolongada. As duas narrativas alimentam-se mutuamente.

As eleições russas demonstram algo politicamente muito relevante: apesar da guerra, das sanções e das dificuldades internas, o sistema de poder russo não dá sinais eleitorais de fragmentação. Pelo contrário, sai destas eleições parlamentarmente mais concentrado.

Para a Europa, ignorar este facto ou explicá-lo apenas como produto de propaganda poderá ser tão imprudente como aceitar sem crítica a narrativa do Kremlin. Entre propaganda russa e propaganda ocidental existe uma realidade geopolítica que não desaparece por decreto: a Rússia continuará a ser uma potência europeia e nuclear com a qual, mais cedo ou mais tarde, será necessário encontrar uma forma de coexistência pacífica.

A política começa precisamente quando termina a propaganda, por isso não temos tido política séria.

Pegadas do Tempo

ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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