Era preciso um palco e o herói surgiu sem demora,
De verde-caqui vestido, o suor no rosto aflora.
A NATO diz-lhe: «Ficas à porta, meu querido!»
A UE suspira: «És dos nossos, entra, sê bem-vindo!»
O urso dormia profundamente na sua toca,
Mas foram provocá-lo com pedras, numa astúcia oca.
«Alargai a NATO, veremos o que acontece!»
E o gás da Rússia em labaredas se desvanece.
A pobre Europa paga a conta, nota após nota,
Perde o gás e a compostura, numa derrota ignota.
Berlim estremece, Paris suspira de aflição,
Londres, do outro lado, contempla sem apreensão.
Zelensky exige mais um canhão, mais armamento,
E a UE, generosa, entrega-se ao seu intento:
«Toma, leva também a nossa alma, sem condição!»
Mas a Ucrânia não é NATO, nem pertence à União.
É apenas o palco de escombros e destruição,
Onde se representam o escárnio e a humilhação.
No fim da peça, nem aplausos nem glória no salão:
Quem escreverá a história? Quem herdará a desolação?
Quem ficará com os destroços, a dor e a amargura?
O eurocrata permanece no gabinete, em pose segura,
E, com requintada compostura, num gesto discreto,
Chama à catástrofe «um pequeno episódio», com ar correcto.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas doTempo