A moção AfD-BSW na Saxônia-Anhalt (RFA)como ensaio de uma nova oposição à política federal
A moção conjunta da AfD e do BSW, intitulada «Conversas de paz em vez de expansão da guerra na Ucrânia», foi aprovada por maioria simples numa sessão extraordinária do Landtag da Saxônia-Anhalt, em Magdeburgo, a 14 de outubro de 2026. As duas bancadas somam 44 dos 83 assentos. CDU, SPD, Verdes e Linke votaram contra.
O resultado vai além do plano regional. Funciona como teste e como farol para a política nacional, e deixa o chanceler Friedrich Merz perante um desconforto crescente que é o de ver surgir, a partir de Magdeburgo, um «sinal de paz» dirigido ao governo federal em Berlim. A própria AfD apresenta a iniciativa como a primeira do género num parlamento alemão e ela pode servir de projeto-piloto para uma nova forma de fazer oposição ao Executivo federal.
A estratégia por detrás da «bússola»
A Saxônia-Anhalt é o primeiro estado a testar a viabilidade de uma aliança AfD-BSW em torno de um tema de política externa.
Espera-se que outros parlamentos dos estados federados, sobretudo onde a AfD e o BSW são fortes, sigam o exemplo e criem um coro de oposição com eco em vários Länder.
A moção habilita o governo da Saxônia-Anhalt a levar à câmara dos estados a exigência de fim das sanções e do envio de armas para a Ucrânia. Pretende-se assim forçar um debate federal que constranja o governo de Merz a mudar de rumo.
Pressão em três frentes
A iniciativa de Magdeburgo é um ataque direto à linha do chanceler. O texto classifica a política de sanções e de envio de armas como «fracassada» e exige o fim imediato de toda a ajuda não humanitária à Ucrânia, o que mina a narrativa de que a Alemanha segue o caminho certo. A estratégia de Sahra Wagenknecht é clara, pois usa a decisão como «sinal político de paz» e como ponto de pressão permanente.
No Bundestag, Merz viu-se obrigado a defender-se. Numa declaração de governo no próprio dia da votação, criticou o que designou por «jogo de banalização» vindo dos extremos políticos e insistiu que nenhum euro destinado à Ucrânia falta aos gastos sociais ou à educação. Quem tem de justificar assim as suas opções orçamentais e de segurança está na defensiva.
A votação ocorre num contexto de questionamento público crescente sobre os custos e a duração do apoio a Kiev. Merz visitou recentemente a capital ucraniana para reafirmar o compromisso alemão, mas a imprensa alemã leu a viagem como uma tentativa de sair da «defensiva política», sinal de que a sua coligação já era vista como frágil.
Conclusão
A decisão de Magdeburgo não é uma bala de prata, mas serve de bússola à oposição, ao indicar um caminho coordenado para desafiar a política de Merz em todo o país. Para o chanceler, a combinação de pressão externa organizada, críticas no Parlamento e ameaça eleitoral constante justifica plenamente a imagem das «dores abdominais». Iniciativas como esta contribuem para um discurso político mais racional e menos emocional e proporciona um discurso político de menos confrontação e mais relações diplomáticas!
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo