Entre a memória da emigração e a literatura: «A Corda e a Mala Migrante», uma narrativa sobre a identidade, a pertença e a condição humana entre culturas.
O escritor e ensaísta português António da Cunha Duarte Justo, residente em Kassel, Alemanha, foi distinguido com o primeiro lugar na categoria de Prosa do Grande Prémio de Literatura Portuguesa na Diáspora 2026, pela obra «A Corda e a Mala Migrante».
A distinção foi atribuída na primeira edição deste prémio, instituído e promovido pelo jornal AS NOTÍCIAS, sediado no Reino Unido, com o apoio da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas (DGACCP) e do Santander.
A cerimónia de entrega dos galardões de Prosa e Poesia realizou-se a 6 de novembro de 2026, no Carnegie Room, em Thetford, Inglaterra, integrando as comemorações do 20.º aniversário daquele jornal.
O prémio pretende reconhecer a criação literária em língua portuguesa produzida por autores residentes fora de Portugal, valorizando a memória da emigração e a expressão cultural de comunidades que, dispersas pelo mundo, continuam a encontrar na língua portuguesa um espaço de identidade e criação.
A pátria que cresce dentro da memória
A narrativa «A Corda e a Mala Migrante» começa em Kassel, num lugar concreto da história da imigração portuguesa na Alemanha: a chamada Casa Verde, na Frankfurter Straße 111.
O início do conto apresenta uma atmosfera em que a paisagem exterior e a experiência interior da personagem se entrelaçam:
«Na Casa Verde, na Frankfurter Straße 111, em Kassel, o outono entrava pelas frestas das janelas duplas como um viajante que não tivesse encontrado porta aberta.»
Neste cenário surge Mateus Soares, professor português que dedicou grande parte da sua vida ao ensino da língua materna aos filhos de emigrantes.
Diante de um mapa-mundo, contempla Portugal, pequena mancha verde na extremidade ocidental da Europa, quase inteiramente coberta pelos dedos dos alunos quando procuram localizá-lo.
É então que a narrativa introduz uma reflexão sobre a relação entre a distância geográfica e a presença afetiva da terra natal:
«Às vezes, Mateus pensava que era essa a primeira ironia da emigração: quanto mais pequena ficava a pátria no mapa, maior se tornava dentro da memória.»
Nesta imagem concentra-se uma das tensões fundamentais da experiência migratória: a distância que separa os lugares e a memória que os aproxima.
A pátria deixa de ser apenas uma realidade geográfica para se tornar também uma construção interior, feita de língua, recordações, afetos e experiências partilhadas.
Envelhecer entre duas terras
A figura de Mateus Soares permite abordar uma condição humana que ultrapassa as circunstâncias particulares da emigração portuguesa.
O emigrante vive frequentemente entre diferentes pertenças: a terra de origem, que permanece na memória e a terra de acolhimento, onde constrói o quotidiano e estabelece novos vínculos.
A narrativa exprime essa experiência numa frase de particular densidade simbólica:
«Havia homens que envelheciam numa terra e Mateus envelhecera entre duas.»
O envelhecimento entre duas terras não representa necessariamente uma divisão da identidade. Pode também traduzir o seu alargamento, através da convivência entre línguas, culturas e formas diferentes de compreender o mundo.
É neste horizonte que a literatura da diáspora encontra uma das suas expressões mais significativas e que é transformar a experiência individual da deslocação numa reflexão sobre a condição humana.
Da experiência intercultural à criação literária
A ligação de António Justo a estas temáticas não se limita à ficção.
Durante muitos anos, além da sua accao pastoral em Lisboa e Paris, exerceu funções docentes na região de Kassel, lecionando Língua e Cultura Portuguesas e Ética, e desenvolveu atividades culturais, educativas e cívicas relacionadas com a integração e o diálogo intercultural.
Foi presidente do Conselho de Estrangeiros de Kassel (Ausländerbeirat) e chefe de redação da revista multicultural «Gemeinsam», que chegou a ter uma tiragem de 5.000 exemplares.
Na Casa Verde, espaço de encontro de trabalhadores migrantes e suas famílias, elaborou o jornal escolar português «O Farol», utilizando as impressoras da Caritas.
No ano letivo de 1986/87, coordenou, em colaboração com os alunos, a publicação bilingue de 86 páginas «Brücken in eine gemeinsame Zukunft – Pontes para um Futuro Comum», distinguida com o primeiro prémio num concurso escolar da Hessische Landeszentrale für politische Bildung.
Quase quatro décadas separam esse reconhecimento pedagógico da distinção literária agora recebida. Entre ambos, permanece uma continuidade temática: a língua, a cultura, a emigração e a construção de pontes entre comunidades.
A literatura como lugar de encontro
A literatura produzida na diáspora ocupa um espaço particular na cultura portuguesa.
Nascida frequentemente da experiência da distância, alimenta-se de encontros e desencontros, de memórias e transformações, de pertenças que não se anulam, mas se interrogam mutuamente.
A língua portuguesa, transportada através de continentes e gerações, torna-se um lugar de encontro entre o passado e o presente, entre a memória pessoal e a experiência coletiva.
Neste contexto, «A Corda e a Mala Migrante» inscreve-se numa reflexão sobre a identidade e o destino humano, partindo da experiência migratória para abordar questões mais amplas de pertença, temporalidade e sentido da existência.
O reconhecimento da obra pelo Grande Prémio de Literatura Portuguesa na Diáspora 2026 constitui, assim, uma ocasião para valorizar não apenas um percurso literário individual, mas também a criação cultural de comunidades cuja experiência histórica contribui para alargar os horizontes da língua portuguesa.
Porque a literatura, tal como a memória, não conhece fronteiras definitivas. E talvez uma das suas vocações mais profundas seja precisamente esta: construir pontes onde a geografia desenhou distâncias.
Sobre o autor
António da Cunha Duarte Justo é escritor e ensaísta português, residente em Kassel, Alemanha. Antigo professor de Língua e Cultura Portuguesas e de Ética, desenvolveu uma longa atividade pedagógica, cultural e intercultural. Colabora em vários jornais e mantem também o espaço de reflexão Pegadas do Tempo.
Pegadas do Tempo
