CÍCLO POÉTICO DA VIDA E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

À VARANDA DA VIDA

À varanda da vida me sento a mirar,
Sonhos de alma em frágil embrulho,
Papel que envolve o fado a dançar,
Por caminhos onde a poesia faz arrulho.

A noite, em rimas, tece o enredo,
Entre prosa e verso me encontro preso
Faísca de amor, sigilo aceso,
Beijos clandestinos clareiam meu segredo.

Pelas ruas, em ventos, me vejo levado,
Por ti, Mulher, desejo desenhado…
No vazio já desperto, sou só caminho,
Mas contigo sou a sombra que dá carinho.

Sim meu amor, de nome mulher
Em ti sou passo, sombra que almeja,
Morar num sol que o longe despeja
Em mar virgem de tudo sedento.

Deixa-me vagar, livre e errante,
Terra e sol em abraço constante,
Sonhar caravelas ao mar entregues,
Em aurora perdida que o sonho segue.

Na ilha dos amores, ao luar que dança,
Degustamos estrelas, luzes de esperança,
Sem Adamastor, num céu que avança,
Sulcando o mar que em nós se amança.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

 

ANDAR COM A VIDA

Não vás à frente da vida,
na pressa de chegar primeiro;
nem fiques atrás,
como quem perdeu o próprio rasto.

 

Vai ao lado dela, ombro a ombro,
no ritmo do vento e do rio.

 

A vida não é coroa nem cinza,
é companheira de estrada
que só revela o sentido
quando contigo caminha.

 

Vale a pena a travessia
se o viajante e o caminho
aprendem a mesma canção.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

DE TRONCO AO VENTO

A verdade é vento que passa
por todos os rostos do mundo,
às vezes lâmina de inverno,
às vezes brisa de verão.
Não importa se ela grita ou canta,
importa é teres raiz no chão.

Que a árvore não tombe
ao primeiro sopro da dor,
nem se deixe dobrar
ao canto mole da mentira.

Comunicar é abrir janelas,
esperar é deixar o fruto amadurecer.
Mas não tropeces na espera,
transforma a paciência em chão,
mas nunca em prisão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

ENTRE AS GOTAS DO MILAGRE
SEM NOTAR O ORVALHO

A bênção divina é chuva
caindo em gotas sobre a vida.
Muitos gastam os dias
a negar Deus entre as gotas,
e perdem o orvalho no intervalo.

Mas mais que a gota e o silêncio,
importa admirar o milagre:
a anémona abrindo-se ao sol,
o pulso do ser mais pequeno,
o rosto humano que espera.

Somos guardiões do jardim,
abençoar é a missão,
regar, cuidar, agradecer,
do lodo à estrela,
da flor ao irmão.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

A SINGELEZA

 

Sabedoria sem holofotes.
Basta-lhe a candeia de barro,
o fio de azeite,
a chama pequena do que é verdadeiro.

 

Bálsamo sobre a ideia ferida,
a humildade cura o pensamento.
desata os nós do ego.
Deixa a porta aberta
e o outro entra sem medo.

 

Não é fraqueza, mas água mansa
que esculpe a pedra, com o tempo.
Não é silêncio vazio, mas raiz

que sustenta a árvore
quando o vento das opiniões
quer desabar o mundo.

 

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

 

UMA FRESTA NO DIA-A-DIA

 

Uma fresta de verdade,
a claridade rasga a sombra.
Escusa-se o incêndio no horizonte,
bastam a réstia, o gesto, a palavra,
e o escuro recua.

 

Humildade no leito,

a relação flui como o rio.
Vida livre de peixes

que nadam
sem precisar de vencer.

 

Assim, o curso dos dias,
é luz sem cegueira,
bálsamo sem gravidade,
água que fecunda.
Do sol à estrela,
da lua ao chão,
do rio ao coração.

 

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

EM CONTEMPLAÇÃO

 

De dia, olho a natureza,
agradeço ao sol
que em cada coisa me acena.
Na cor da flor, no voo do pássaro,
no mistério da pedra,
na variedade inteira do criado.

 

De noite, o céu estrelado.
Pequenos olhos de fogo a piscar,
abertos sobre o meu silêncio.

É a lua quem me embala o sentimento.
No seu luar me vejo,
entre a terra e o firmamento,
a divagar.

 

Sou poeira e abrigo,
caminho e luar.
Na órbita da lua
aprendo a não ser centro,
a ser companhia
da noite e do mar.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo  ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

AO CHEIRO DA COR DO CRAVO

A história do meu povo
Ainda está por contar
Ela corre no Douro e Tejo
Em busca do Sol no mar.

No rasto da ditadura
Da ditadura se vão
Os abutres de Abril
À conquista da nação

Cívicos de profissão
Os pupilos da revolta
No cheiro se vão
Do cio do cravo

Em togas de doutores
Todos andam enfeitados
Com os cravos roubados
Nas promessas do Abril

Abril beijo de liberdade
De lábios em movimento
Num Estado embrulhado
De falas sem pensamento.

Falta dele o despontar
De um sonho por abrir
De uma carta por sonhar
Abril anda triste sem florir

Do povo fica a marcha
Da nação a desobriga
Da liberdade a cantiga
Dos heróis de Abril a lábia

Na cidade passa agora
Um cheirinho a demónio
Anjos de ontem na onda
Dos tempos do António.

A história do meu povo
Ainda está por contar
Ela corre no Douro e Tejo
Em busca do Sol no mar!

António da Cunha Duarte Justo

Poesia publicada no meu livro “Pegadas da Poesia”, Oxalá Editora, 2018

 

A CAMINHO DA MESMIDADE

Procuro a verdade
como quem caminha
ao lado de um rio invisível,
ouvindo a água
mesmo quando não a vê.

Houve um tempo especial
em que o silêncio das cúpulas
me ensinou a leveza:
ajoelhado, o corpo ficava no chão
e a alma espírito e psique
abria asas por dentro
e flutuava na altura mansa do mistério.

Não era fuga, nem espetáculo,
era apenas paz, um voo sem destino,
um repouso no ar como se Deus
fosse um espaço de respiro.

E houve também o quarto,
a lágrima como oração,
o coração ferido
pela incompreensão dos homens,
quando tudo parecia ruído e regra,
e o bem feito aos outros
mostrava não caber
nos relógios do mundo.

Chorei… e nesse choro
ardeu um calor antigo,
uma presença sem forma,
um amor tão seguro
que nenhuma voz exterior
o podia destruir.

Desde então compreendi!
Há verdades
que não se demonstram,
há luzes que não se explicam,
há instantes Cairos
em que a eternidade toca o tempo
e o tempo, por um segundo,
se torna vivência.

Sou racional, dizem.
E é verdade.
Mas a razão é apenas
uma lanterna na noite,
não o céu inteiro.

Trago em mim
uma sede que não quer posse,
uma fé que não exige provas,
um saber que não grita,
porque apenas chama.

Não busco o fim da estrada,
porque a estrada já é encontro.
Não busco a meta,
porque o caminho é casa.

E talvez seja isto
o grande segredo:
a verdade não é troféu,
é companhia.

Ela acontece
quando o coração se torna simples,
quando o amor é mais real
do que a dúvida,
quando até a ausência
tem perfume de presença.

Ciente da minha pouquidade
de meu ser terra em terra sagrada
ando à procura,
não para agarrar,
mas para ser tocado.

E no fundo, arraigado,
caminho assim, caminhamos todos
como quem atravessa a vida
com uma pequena chama na mão,
sabendo que o vento existe,
mas também existe uma luz
que nenhum vento apaga.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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