Ensaio sobre a mudança axial e o nascimento da política relacional (Wagenknecht como sintoma)
Há momentos na história em que o solo treme sob os pés das instituições. Não se trata de sismos eleitorais, de alternâncias de poder, de crises cíclicas que o sistema digere e recicla. Trata-se de algo mais fundo e que implica a erosão das próprias categorias com que pensamos o político. Vivemos um desses momentos em que se torna urgente uma política relacional para além da esquerda, da direita e do formalismo partidário
O arrazoamento político-partidário que domina a governação em toda a União Europeia e, por extensão, no Ocidente, arrasta-se numa linguagem gasta, numa gramática de interesses que já não traduz a experiência vivida das pessoas hodiernas. Os partidos falam, mas não dizem; propõem, mas não escutam; governam, mas não vivem o presente e, no entanto, a exigência de mudança não vem de fora, pois brota do próprio interior da crise, como uma força axial que reclama nova forma.
A rutura dos eixos
Desde a Revolução Francesa, a política de massas organizou-se em torno de dois conflitos fundamentais: a disputa sobre a desigualdade económica e a tensão entre valores conservadores-autoritários e liberais. A esquerda e a direita nasceram dessa topologia. Durante dois séculos, essa bússola funcionou, imperfeitamente, mas funcionou.
O busílis da questão é que hoje e na nova era que se aproxima essa bússola perdeu o norte.
A globalização económica, a imigração, os refugiados, a afirmação de identidades religiosas e culturais reconfiguraram o campo de forças. O velho eixo esquerda-direita foi atravessado por um novo eixo, aberto versus fechado, que não se deixa reduzir ao primeiro. As pessoas já não se reconhecem nas coordenadas tradicionais. Sentem que tudo o que lhes era familiar está ameaçado e buscam segurança na exclusão do que percebem como estranho. Outras, pelo contrário, veem na globalização e no multiculturalismo uma promessa de vida mais rica. Este é a nova clivagem e nenhum dos partidos tradicionais o enfrenta com honestidade.
Os partidos liberal-democratas, em particular, declinam por toda a Europa. O Ciudadanos espanhol desapareceu do parlamento. O FDP alemão, que em 2009 atingiu 14,6% dos votos, foi eliminado nas eleições de 2025. A razão não é apenas conjuntural porque provém da falta de clareza das convicções e do afastamento das expectativas do eleitorado natural. Os partidos que outrora representavam a terceira via, o centro reformista, o liberalismo social, perderam a capacidade de encarar o real.
E, no entanto, a Comissão dos Assuntos Políticos e da Democracia do Conselho da Europa alerta: os partidos políticos têm uma responsabilidade particular na salvaguarda da coesão e da estabilidade democráticas. Sem partidos, o pluralismo não pode ser representado de forma significativa e os parlamentos não podem funcionar eficazmente. O problema não é a existência dos partidos, mas a sua fossilização. A diminuição do número de militantes, a ascensão do sentimento antipartidário, a queda das taxas de participação, a volatilidade eleitoral e a perceção persistente de elitismo, corrupção e interesse próprio minam a legitimidade do sistema.
A mudança axial
O que está em curso não é uma simples crise política, é uma mudança axial.
Karl Jaspers, Lewis Mumford e Eric Voegelin cunharam a noção de “época axial” para descrever momentos em que a humanidade reconfigura as suas categorias fundamentais de sentido. Uma mudança axial introduz uma nova weltanschauung que enfatiza a subsidiariedade em vez das estruturas centralizadas de poder, e um imperativo moral em que a mudança evolutiva é impulsionada mais pela cooperação do que pela competição. A descrição “axial” refere-se à emergência de um eixo transformador que permite uma correção de escala através de alternativas às estruturas de poder existentes.
Vito Mancuso, numa conferência recente, descreve a nossa condição como uma “perda de eixo do mundo”, a ausência de um axis mundi, de um critério maior do que o simples ego ganancioso. Sem essa dimensão maior, temos muitos egos autocentrados e a impossibilidade de formar sociedade. A palavra sociedade, vem do latim societas, de sócios e só existe quando há um interesse superior ao interesse estritamente individual. O que vale na economia, vale na política.
A mudança axial não é um conceito académico. É a experiência vivida de milhões de pessoas que já não se reconhecem nas coordenadas políticas herdadas. É a intuição de que algo mais profundo está a acontecer que não se limita apenas a uma troca de governos, mas uma transformação da própria consciência política.
O sintoma Wagenknecht na Alemanha
Sahra Wagenknecht é, simultaneamente, sintoma e anúncio.
O Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), fundado em janeiro de 2024, combina políticas económicas supostamente de esquerda com uma abordagem ultraconservadora da imigração e uma política externa pró-russa. No seu programa de seis pontos, aprovado em junho de 2025, o BSW apresenta-se como “a força política do despertar”, contra o militarismo, a divisão social e a tutela autoritária”, defendendo uma “política da razão e do equilíbrio social, da renovação democrática e da paz”.
Wagenknecht define o partido como “a encarnação do que muitos partidos já não defendem: um conservadorismo esclarecido no sentido de que preserva tradições e segurança nas ruas e espaços públicos, mas ao mesmo tempo empregos, saúde e pensões”.
Isto não é nem esquerda nem direita no sentido tradicional. É uma tentativa, ainda titubeante, ainda contaminada pelas maleitas do individualismo da nossa sociedade de transição, de criar o novo eixo. O BSW aponta para uma política que ultrapassa a dicotomia herdada, mas ainda não encontrou a linguagem plena dessa ultrapassagem.
Um filósofo e crítico político observaria que o BSW tem razão em denunciar o formalismo partidário e a governação daninha que se esconde atrás da retórica democrática. Mas erra ao não assumir plenamente a responsabilidade individual que a nova época exige. A mudança axial não se faz com novos partidos que repetem velhos vícios. Faz-se com pessoas que assumem a sua quota de responsabilidade pelo mundo que habitam.
Urge uma Racionalidade relacional
O que emerge como exigência já não será emoção política, porque já temos excesso dela, à direita e à esquerda. O que está a emergir é racionalidade relacional.
A lógica da relacionalidade, desenvolvida por teóricos como Qin Yaqing, argumenta que a relacionalidade precede a racionalidade. Um ato “racional” em relação a um inimigo pode ser arracional e até irracional se dirigido a um amigo. A política relacional não nega a racionalidade porque a redefine em termos de relações e não de interesses isolados. Os processos de política seguem uma lógica de relacionamento, ou seja, atores que agem de forma a sustentar e refletir a teia de relações na rede política. O relacional e o racional não são alternativas porque cada sistema político reflete ambos.
Esta é a mudança de mentalidade que a época axial exige define-se por uma política orientada não pela emocionalidade das identificações tribais, equacionadas no tribalismo da revolução francesa que a qualificou de direita ou esquerda, nós ou eles, mas pela razão que reconhece a primazia das relações. Uma razão que não é fria calculadora de interesses, mas que compreende que o eu se constitui na relação com o outro e no seu melhor social parte do nós.
Individualismo responsável
A transição para a nova época axial não se fará sem uma reconfiguração do individualismo.
Lipovetsky distingue o individualismo responsável do individualismo irresponsável: o primeiro está circunscrito ao plano daquilo que se espera das reformas políticas; o segundo é a deriva hedonista que dissolve o laço social. Na sociedade de transição em que vivemos, ambos coexistem. O BSW, como todos os movimentos emergentes, padece desta ambiguidade: aponta para o assumir individual de responsabilidades, mas ainda se debate com as maleitas do individualismo irresponsável.
O que a nova política exige é um individualismo que não seja egoísmo, mas responsabilidade. Protagoniza uma autonomia que não se feche sobre si mesma, mas que se abra à relação e advoga uma liberdade que não seja indiferença, mas compromisso.
Este é o paradoxo da época axial: quanto mais o indivíduo se assume como singular, mais se descobrirá relacional. Quanto mais se responsabiliza, mais se compreende parte de algo maior. O axis mundi não é uma transcendência que anula o eu, mas uma dimensão maior de si mesmo que o constitui.
O imprevisível
E daqui surge o imprevisível. Nenhuma análise, por rigorosa que seja, pode prever o que emerge quando a consciência muda de eixo. A mudança axial não é um programa político que se implementa, mas sim uma transformação que acontece e à qual os partidos, se quiserem sobreviver, terão de se adaptar ou morrer.
O que se pode afirmar com exigência é isto: a política que vier não será nem de esquerda nem de direita, nem sequer de uma “terceira via” no sentido blairiano que se esgotou na aceitação acrítica da globalização. Será uma política relacional, que reconhece que os problemas da nossa época, ou seja, a crise ecológica, a solidão urbana, a desintegração comunitária, a perda de sentido, não se resolvem com mais Estado ou mais mercado, mas com novas formas de relação.
Será uma política que ultrapasse o formalismo partidário e a governação daninha que hoje se pratica em Bruxelas, Berlim, Londres, Paris ou Lisboa. Uma política que assuma a responsabilidade individual como fundamento da responsabilidade coletiva. Uma política que não tema o profetismo, não o profetismo messiânico que promete paraísos, mas o profetismo que ousa nomear o que está a nascer quando todos ainda olham para o que está a morrer.
Exigência e criatividade
O ensaio que aqui esboço não pretende ser um programa, pretende apenas ser um gesto, um gesto de exigência e de criatividade.
Exigência, porque a época não tolera mais a mediocridade do arrazoamento partidário que se contenta com a gestão do existente. Criatividade, porque o novo não nasce do velho por dedução lógica. Nasce por rutura, por invenção, por abertura ao que ainda não é.
Os partidos, na sua forma atual, encontram-se num estado de consciência subdesenvolvida. Equacionam interesses, argumentam num grau rudimentar e arcaico, como se a política fosse ainda uma negociação entre grupos de pressão. O BSW, embora inicie uma nova maneira de estar político, ainda padece das maleitas dessa herança. Mas aponta — e isso é o essencial. Aponta para uma política que não se esgota na gestão dos interesses, mas que se abre à responsabilidade pelo todo.
O aspeto profético
O que está em curso não é uma crise, é um nascimento e nas dores do parto, é natural que se confundam os gritos da morte com os primeiros vagidos da vida. Mas quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir reconhece os sinais que indicam que a mudança axial está a acontecer. A política ocidental, mais cedo ou mais tarde, terá de se reconfigurar. Os partidos que sobreviverem serão aqueles que compreenderem que a racionalidade relacional não é uma concessão ao sentimentalismo, mas a forma mais alta de razão. Que o individualismo responsável não é uma ameaça à comunidade, mas o seu fundamento. Que a mudança de mentalidade não é uma opção, mas uma urgência.
Urge mudança necessária no arrazoamento político-partidário. Não por decreto, não por programa, não por revolução, mas por axialidade. Porque o eixo do mundo está a deslocar-se, e quem não se mover com ele será deixado para trás, não pela força dos adversários, mas pelo peso da própria inércia.
Resumindo: a crise em que nos encontramos anuncia a mudança axial e o profético nascimento da política relacional. Filosoficamente seria de dizer que o momento axial em que nos encontramos aponta para uma crise das categorias com que formulamos as perguntas. E o BSW pode estar a antecipar uma das formas da recomposição política futura.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
Sim, o BSW é algo absurdo, impossível de identificar.
SW não é mais do que uma oportunista política!
Todos os projectos em que se meteu (PDS, die Linke e agora BSW) só serviram para ele se autopromover como “política”.
Sem dúvida que é uma excelente oradora com uma retórica invulgar para políticos alemães; infelizmente é um elemento tóxico e será, com o seu movimento, a muleta do AfD.
Eu, tenho esperança de que, neste caso concreto, nem o Mário nem o Alfredo tenham razão. Continuo a acreditar nela como sendo de esquerda. Mas, quem sou eu que, em relação à política alemã, nesta altura, estou a uma distância de mais de 2 mil km. Confesso, no entanto, que, como militante que sou, militante com as quotas em dia, me sinto, isso sim, algo desiludido com o partido onde milito desde que, há 60 anos cheguei á Alemanha e que durante três mandatos, até á reforma, representei no parlamento da cidade em que oficialmente continuo a viver. Mas, a vida é assim. Em qualquer partido, acho que haverão sempre descontentes e contentes. É a democracia. Um abraço a ambos. Zé Eduardo
José Fratel o percurso da Sahra Wagenknecht deixa, desde a criação do BSW, muito a desejar, não só no populismo que propaga mas também na força destabilizadora que ele representa!
De esquerda ela (hoje) não tem nada; com ela a frase: – “os extremos tocam-se” tem a sua lógica!
José, a malta de esquerda só pode comer petinga, é isso?
Independentemente de prós e contras penso que o que se expressa na lider Sahra Wagenknecht é uma mudança de mentalidade própria da mudança axial que se encontra em curso na sociedade ocidental e em que a política mais que pelo aspecto emocional terá de se oriental pelo aspecto racional-relacional e este encontra-se para lá das emocionalidades da direita e da esquerda. A própria deignacao de esquerda e de direita, no meu entender, é mais própria para discussoes de política ocasional e sem rosto próprio. Seria o início ainda tímido que prepararia uma terceira via política em que o partidarismo deixará de ter tanta importância. Paradoxalmente os partidos , a nível de posições e argumentativo, ainda se encontram no estado de consciência subdesenvolvida de equacionamento de interesses e argumentação num grau de desenvolvimento bastante rudimentar e arcaico. O BSW de Sahra Wagenknecht embora inicie uma nova maneira de estar político, padece ainda das maleitas do individualismo da nossa sociedade de transição.
António, uma vez não faz costume. Só acho que não está a ver a distância toda.
A Sarah Wagenkhecht, com todas as contradições que caracterizam, é precisamente o resultado da quebra da esquerda com o liberalismo hegemónico. Algo que os conservadores não precisam porque nunca aderiram ao liberalismo, mas que a esquerda precisa porque após a queda da URSS, tirando o PCP e mais muito poucos na Europa, todos so movimentos revolucionários aderiram ao Fim da História do Fukuyama.
Mário, na minha análise política trata-se de uma mudança axial e esta não se faz com novos partidos nem com velhos que repetem velhos vícios. O BSW apresenta-se como “a força política do despertar”, contra o militarismo, a divisão social e a tutela autoritária”, defendendo uma “política da razão e do equilíbrio social, da renovação democrática e da paz” Por isso acho este partido mais conforme à mudança, no meu ver axial, em que nos encontramos impercetivelmente. Aqui o espaço é curto pelo que em breve apresentarei uma análise mais aprofundada do sistema; análise que comecei a elaborar a partir do momento em que surgiu o partido de Sahra Wagenknecht e que me deu bastante satisfação em si não pelo partido, mas por ver que finalmente surgem forcas políticas à margem de pensamentos repetitivos e intelectualmente cansativos
António, mas o que ela propõe pode precisamente ter validade numa perspectiva marxista se considerarmos a teria do Socialismo de Cerco, leia-se sob cerco, (que é normalmente utilizada para estados, mas que pode ser utilizada para partidos em estados hostis ideologicamente).
O problema fundamental é que o liberalismo começa a mostrar os seus limites e a sua incapacidade de resolver os problemas que causa. Problemas esses quem lhe são inerentes: a primazia da propriedade privada não pode nunca ser compatível com a democracia. O liberalismo nunca esteve do lado das massas (Lossurdo).
O que o liberalismo fez foi apresentar-se como herdeiro polido do iluminismo revolucionário. Que o outro iluminismo era violento demais (recusando a teoria da violência de classe tão fundamental à revolução). E para fazer isso precisa de apresentar tudo o que seja iluminismo e não liberalismo como extremista (Jonathan Israel).
Com toda a esquerda empurrada para o liberalismo, ou para o extremismo, a esquerda iluminista ficou sem espaço – foi cercada para um canto. A Sarah Wagenknecht pode ter encontrado a saída sem se socorrer do populismo.
Agora, dá-me alguma urticária o uso do nome no partido. Pode ter dado jeito na transição rápida que fez, mas já teve tempo de corrigir o tiro.
E aliás… O ter dado jeito representa uma coisa: não há filósofos no movimento dela, quando não haveria um nome.
Mário Lobo , a sua intervenção é oportuna e estimula o meu pensamento, pelo que darei uma resposta mais detalhada.Considero interessante a sua leitura, sobretudo a ideia de «cerco» e de perda de espaço político de uma esquerda que já não se reconhece plenamente no liberalismo cultural e económico dominante. No entanto, talvez eu coloque a questão num plano um pouco diferente.
Tenho a impressão de que nos encontramos num momento que poderíamos chamar axial: não apenas uma crise de determinadas políticas, mas uma transformação mais profunda das categorias através das quais aprendemos a interpretar a realidade política. Os pressupostos herdados do século XIX e do século XX, liberalismo, socialismo, esquerda, direita, progresso, conservadorismo, continuam naturalmente a ter valor explicativo, mas parecem cada vez menos capazes, isoladamente, de ordenar as novas contradições sociais, económicas, culturais, tecnológicas e geopolíticas.
É precisamente neste sentido que observo com interesse o fenómeno Sahra Wagenknecht. Não necessariamente porque veja nele uma solução acabada, nem porque considere o BSW livre de contradições, mas porque me parece constituir um sintoma politicamente relevante de uma recomposição em curso, como tenho já referido, de justiça social sem adesão automática ao progressismo cultural, de crítica do capitalismo globalizado sem abandono da economia de mercado, de preocupação com a soberania e a coesão social sem integração simples no discurso tradicional da direita e crítica das elites sem que isso tenha necessariamente de conduzir às formas clássicas do radicalismo.
Por isso, talvez a questão mais interessante não seja saber se Wagenknecht permanece «verdadeiramente marxista», se representa uma esquerda conservadora ou se deve ser classificada como populista. Essas classificações são úteis, mas podem também tornar-se prisões conceptuais quando fazemos da realidade um objeto que tem de caber nas categorias, em vez de submetermos as próprias categorias à prova da realidade.
Atendendo à constituição da natureza humana também relativizaria a tese de uma incompatibilidade necessária entre propriedade privada e democracia. Há certamente uma tensão estrutural entre a concentração do poder económico e o princípio da igualdade política e essa tensão merece ser levada muito a sério. Mas uma tensão não equivale ainda a uma incompatibilidade lógica ou histórica. A questão decisiva é saber em que condições a propriedade privada deixa de constituir uma esfera legítima de autonomia e passa a produzir uma concentração de poder capaz de condicionar ou subordinar a própria decisão democrática. É aqui que talvez divirja parcialmente da leitura de Losurdo. O liberalismo não deve ser idealizado retrospetivamente como simples história da emancipação; a sua história é repetitiva e contém exclusões, contradições e relações de poder evidentes. Mas também não me parece intelectualmente satisfatório reduzi-lo à defesa dos interesses das classes proprietárias, aqui surge o problema da imiscuidade do poder político com o poder económico e devido ao oportunismo dos agentes políticos do poder o Estado falha na sua capacidade de regulador! As tradições políticas modernas influenciaram-se, combateram-se e corrigiram-se mutuamente. Liberalismo, socialismo, republicanismo e democracia de massas não evoluíram em compartimentos estanques e trazem aportações positivas e negativas no processo dialético que deveria também ele ser visto no máximo como método e não como crença ideológica. .
Talvez seja precisamente esta a questão do nosso tempo: estamos a tentar compreender problemas novos com uma cartografia política herdada de conflitos anteriores. É por isso que o fenómeno Wagenknecht me interessa. Não tanto como resposta, mas como indício de que a futura disputa política poderá organizar-se menos em torno das fidelidades partidárias tradicionais e mais em torno de novas combinações de posições que hoje ainda nos parecem contraditórias. Quanto ao nome do partido, aí compreendo perfeitamente a sua urticária. Um movimento que pretende transcender as velhas estruturas partidárias deveria, a prazo, ser capaz de se definir por uma ideia e não pela personalidade da sua fundadora. E talvez a verdadeira prova da maturidade intelectual e política de um movimento seja precisamente esta: conseguir sobreviver conceptualmente à pessoa que lhe deu origem. Quanto à filosofia vai-se urdindo como também eu procuro fazer.