A DESFOLHADA NA BARROCA E O ALTAR DO TERÇO

Cantam vivas, vivamente,
As mulheres na Barroca,
Entre o milho reluzente,
Onde a lua o campo toca.

Vêm rapazes de outras bandas,
Serandeiros no serão,
Trazem fúrias, trazem danças,
Cobiçando algum coração.

E na força do gigo cheio,
Que se carrega ao canastro,
Grita a moça sem receio,
Sob o brilho de algum astro.

Casar cedo… dor (1) ou espanto,
Cantam quadras sem ter medo,
Pois a vida tem mais manto,
Se se acorda este brinquedo.

Cai a noite, cai o dia,
Senta a mesa a santidade (2);
Onde a conta da agonia
Vira prece de verdade.

Beijo dado, bênção posta,
Toda a mágoa ali fenece…
Deus segura a corda oposta,
E a Várzea adormece.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © : 
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

(1) Alusão às cantigas talvez pedagógicas, marotas nas desfolhadas à volta das espigas do milho: “Minha mãe casai-me cedo, que me dói a passarinha! – Ó filha coç’à c’o dedo, que eu também cocei a minha!” Ao descascar o milho, aquele que encontrava uma espiga de milho-rei tinha a sorte de ir à roda abraçar e beijar todos.
(2) Referência ao costume da reza do terço, como momento de entrega e paz à noite para encerrar o dia. Barroca é uma quinta da freguesia de Várzea.

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António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

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