Cantam vivas, vivamente,
As mulheres na Barroca,
Entre o milho reluzente,
Onde a lua o campo toca.
Vêm rapazes de outras bandas,
Serandeiros no serão,
Trazem fúrias, trazem danças,
Cobiçando algum coração.
E na força do gigo cheio,
Que se carrega ao canastro,
Grita a moça sem receio,
Sob o brilho de algum astro.
Casar cedo… dor (1) ou espanto,
Cantam quadras sem ter medo,
Pois a vida tem mais manto,
Se se acorda este brinquedo.
Cai a noite, cai o dia,
Senta a mesa a santidade (2);
Onde a conta da agonia
Vira prece de verdade.
Beijo dado, bênção posta,
Toda a mágoa ali fenece…
Deus segura a corda oposta,
E a Várzea adormece.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo © :
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578
(1) Alusão às cantigas talvez pedagógicas, marotas nas desfolhadas à volta das espigas do milho: “Minha mãe casai-me cedo, que me dói a passarinha! – Ó filha coç’à c’o dedo, que eu também cocei a minha!” Ao descascar o milho, aquele que encontrava uma espiga de milho-rei tinha a sorte de ir à roda abraçar e beijar todos.
(2) Referência ao costume da reza do terço, como momento de entrega e paz à noite para encerrar o dia. Barroca é uma quinta da freguesia de Várzea.
Barroca,Varzea.Minhas origens. meu padrinho. Tempos que nunca esquecem!
Obrigada pela publicação.
Que comentário tão bonito e sentido, Norvinda! Belos tempos em que inocência, alegria e o despontar para a vida unia as pessoas.
Barroca e Várzea são lugares com uma alma tão especiais que marcaram as pessoas que dão ainda mais significado a esta publicação. A forma carinhosa como recorda o seu padrinho e esses tempos que ‘nunca se esquecem’ dão brilho à vida, porque são essas raízes e memórias que nos acompanham para sempre e nos fazem quem somos. O meu muito obrigado por partilhar esta recordação. Tudo de bom para si, família e amigos/as.
António Cunha Duarte Justo, tudo o que diga respeito a Várzea de Arouca, mexe comigo. A razão é porque nasci no Olival Novo, lá em cima, bem juntinho ao monte… pois recordo perfeitamente bem, o Sr. Albino da Barroca, assim como recordo quando ía a casa deste comprar vinho avulso, eu levava duas garrafas (Barbosa & Almeida) numa saca e, o Sr Albino, enquanto as enchia do pipo, assobiava umas melodias muito perfeitas, que ecoavam pela adega…recordo tudo isto muito bem e com muitas saudades …
José Cruz , exactamente, o senhor Albino gostava muito de assobiar. Era uma pessoa bem disposta. Sim, também a mim o facto dos tempos passados na Barroca inspirou-me fazer a poesia. Tenho também um conto em que faço referência a Várzea. Gosto de lembrar e deixar na memória belos tempos aí passados. Pelo Olival Novo também passei algumas vezes quando era pequeno! Recordar é viver!
Bonitas recordações… Também vivi isso ..
Belíssimo…
Na desfolhada e rezar o terço e Várzia adormece . O povo é um espanto quem encontrava o milho rei , o sortudo tinha a sorte de abraçar e beijar todos Mas que era lindo ! De ver era ! Ver alegria de um povo, a viver na simplicidade , e no trabalho. Ainda me deu o riso . Um muito Obrigada .
Belos tempos que a gente não esquece
Era muito feliz e não sabia.
Lindas recordações , eram tempos de pura magia e simplicidade, obrigado por compartilhar essa recordação que jamais esqueço.
Céu Almeida , sim, éramos inocentes, muito alegres e sonhávamos sem olharmos para a sombra! Tínhamos os nossos encantos em colegas de escola sem necessidade de os revelar.