USO E ABUSO DA LINGUAGEM E REESCRITA DO PASSADO

Já não bastava reescrever as palavras, mas até se começa a querer reescrever a memória

Há alguns anos escrevi sobre o uso e sobretudo sobre o abuso da linguagem. Chamava a atenção para uma tendência que, entretanto, se tornou ainda mais visível: a necessidade de substituir palavras simples e diretas por expressões mais sofisticadas, aparentemente respeitadoras, mas muitas vezes destinadas apenas a tornar menos visível aquilo que continua a existir.

A criada passou a empregada doméstica; a empregada doméstica passou a auxiliar de apoio domiciliário; o contínuo transformou-se em auxiliar de ação educativa; o vendedor de medicamentos tornou-se delegado de informação médica; o operário passou a colaborador. Mudavam-se os nomes e, por vezes, parecia acreditar-se que também se tinha mudado a realidade. Era uma espécie de maquilhagem sem terapia.

Hoje, porém, parece-me que a questão ainda é mais grave porque ultrapassou a linguagem. Já não se trata apenas de mudar o nome às coisas. Começamos a querer mudar também a maneira como devemos olhar para aquilo que aconteceu antes de nós. Já não bastava reescrever as palavras e começa a querer-se reescrever a memória.

Vivemos numa época que se considera, justamente ou não, mais esclarecida do que muitas das anteriores. Conhecemos melhor inúmeras injustiças do passado e desenvolvemos uma sensibilidade mais atenta a formas de discriminação que anteriormente eram ignoradas ou aceites. Isto representa, em muitos aspetos, um progresso.

Mas existe uma tentação nesse progresso: a de olhar para trás e imaginar que todas as épocas anteriores foram apenas versões imperfeitas da nossa.

É aqui que aparece o anacronismo. Sentamo-nos confortavelmente no século XXI, munidos dos valores, conceitos e sensibilidades do nosso tempo e julgamos homens e mulheres que viveram há séculos como se tivessem recebido o mesmo manual moral que hoje temos à nossa disposição.

Depois admiramo-nos de descobrir que os gregos não eram modernos, que os romanos não pensavam como nós, que a Idade Média não conhecia as nossas categorias políticas e sociais e que Shakespeare e Camões não escreviam segundo os códigos culturais do nosso tempo.

Descobrimos, afinal, que o passado era passado e que por detrás dele há uma linha de verdade mítica a descobrir.

Estudar História, porém, não significa perguntar apenas se aquilo que aconteceu seria aceitável hoje. Significa também perguntar: como pensavam aquelas pessoas? Em que sociedade viviam? Que valores possuíam? Que conhecimentos tinham? Que alternativas conheciam?

Só depois poderemos formar um juízo.

Não se trata de suspender a moral, mas de não a confundir com a História. Podemos condenar a escravatura e estudar as sociedades escravistas; rejeitar a violência de uma guerra e procurar compreender por que aconteceu; defender hoje a igualdade entre homens e mulheres sem fingir que as sociedades antigas já funcionavam segundo os princípios que consideramos justos.

Podemos criticar o passado sem o falsificar nem abusar dele para fins de mero poder ideológico ou partidário. Esta distinção torna-se particularmente importante quando entramos no território da literatura, do cinema e das adaptações dos clássicos.

Pensemos em “A Odisseia”, que regressa agora ao grande cinema através de Christopher Nolan. Podemos fazer várias leituras dele e uma delas tem a ver com a crítica que aqui apresento e a que ele não resiste. Mas a própria obra de Homero permite colocar uma questão essencial: o que fazemos hoje com uma criação que nasceu num mundo tão distante do nosso? Na generalidade permanece o erro de obrigá-la a falar como nós. Ou podemos procurar descobrir o que ela ainda tem para nos dizer precisamente por não ser como nós.

O mundo de Homero não é o nosso. A sua concepção da honra, da guerra, da família, da hospitalidade, da vingança, do poder, dos deuses e do destino pertence a uma ordem cultural muito diferente.

Ulisses não é um cidadão europeu de 2026 perdido no Mediterrâneo. E, no entanto, reconhecemo-nos nele. Porquê? Porque por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Em Homero além do mito que descreve a passagem axial de um mundo matriarcal para o patriarcal, na sua narrativa o homem regressa, perde-se, deseja,  combate na tentativa de procurar a sua casa. Porém o poder corrompe, a vaidade cega, a vingança destrói e a fidelidade é posta à prova.

O facto é que mudam as épocas e as instituições, mas certas estruturas profundas da condição humana reaparecem no espírito do tempo de cada época. É por isso que os mitos sobrevivem e por vezes transmitem uma verdade mais profunda do que as verdades históricas.

E é  aqui que uma cultura verdadeiramente moderna deveria ser mais criativa: em vez de adaptar o mito antigo aos preconceitos do presente, utilizá-lo para interrogar o presente.

Em vez de transformar Ulisses num homem contemporâneo, perguntar o que há de Ulisses no homem contemporâneo. Em vez de corrigir Penélope segundo as categorias atuais, perguntar o que continuam a significar a espera, a fidelidade e a resistência. Em vez de tornar Aquiles moralmente aceitável para nós, perguntar por que razão a sua cólera continua a ser reconhecível na actualidade. Isto seria uma verdadeira modernização.

Não modernizar o passado, mas modernizar o nosso olhar sobre nós próprios. Os clássicos não sobrevivem porque repetem o presente. Sobrevivem porque o transcendem.

Cada geração tem, naturalmente, o direito de os reinterpretar. A cultura só permanece viva porque é continuamente relida. O problema começa quando reinterpretar passa a significar corrigir e quando a interpretação de uma obra deixa de ser uma possibilidade para se transformar na única leitura moralmente autorizada.

A censura contemporânea nem sempre precisa de proibir. Pode simplesmente dizer: “Podes ler, mas deves compreender isto da maneira correta.” Uma cultura livre precisa, porém, de preservar não apenas a circulação das obras, mas também a liberdade de as interpretar, sem ter dre as difamar para fazer passar bem na fotografia o politicamente correcto actual.

É chegada a hora em que nos deveríamos desconfiar de uma cultura que se considera aberta à diferença, mas tem dificuldade em aceitar a diferença das épocas. Há ainda um paradoxo adicional. Nunca tivemos tanta informação e talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento. Uma frase, um vídeo de poucos segundos, uma imagem, uma opinião e uma indignação sucedem-se numa avalanche permanente. E o busílis da questão é que temos  apenas fragmentos e formamos certezas.

Vivemos numa época que exige muita atenção e espírito crítico porque a informação substitui o estudo, a opinião substitui a reflexão, a indignação substitui o argumento. Talvez este seja um dos novos analfabetismos do nosso tempo: não o de quem não sabe ler, mas o de quem lê incessantemente sem saber distinguir, contextualizar, comparar e pensar.

E assim o passado transforma-se facilmente num tribunal ou em instrumento de formatização à medida do momento ou da ideologia que se quer fazer passar. E então em vez de perguntarmos “Como foi possível que isto acontecesse?”, perguntamos apenas “Como puderam eles fazer isto, quando hoje sabemos que estava errado?”

A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura confirmar a nossa superioridade. Maior prudência pressuporia mais sabedoria porque o passado não teve o nosso manual de instruções!

Todas as épocas acreditaram, em maior ou menor grau, que tinham finalmente compreendido o mundo. Também nós acreditamos. Também nós temos os nossos preconceitos, as nossas cegueiras e as nossas verdades que parecem tão evidentes precisamente porque pertencem ao nosso tempo e à formatação que inconscientemente nos obriga. Esquecemos que por detrás da distância histórica existe aquilo a que poderíamos chamar o fundo mítico da experiência humana.

Daqui a cem ou quinhentos anos, outros poderão olhar para as nossas certezas com o mesmo espanto com que hoje olhamos para as certezas dos outros. É essa possibilidade que deveria tornar-nos humildes perante a História, perante religiões, culturas e pessoas passadas. Não precisamos de absolver o passado. Mas também não precisamos de o reescrever. Não precisamos de transformar Homero, Shakespeare ou Cervantes em nossos contemporâneos. Precisamos de compreendê-los como diferentes e, depois, perguntar o que essa diferença revela sobre nós.

Porque o mito é também um espelho. De facto, o tirano muda de nome e o herói muda de roupa e a multidão muda de praça para rede social. A propaganda deixa o pergaminho e entra no algoritmo. Mas a ambição continua ambição, a vaidade continua vaidade, o medo continua medo, o amor continua amor e a traição não precisou de ser modernizada.

Talvez seja por isso que os clássicos continuam a incomodar-nos. Não porque estejam ultrapassados, mas porque não estão suficientemente ultrapassados. Continuam a reconhecer-nos. E um espelho que reconhece o nosso rosto pode ser mais perturbador do que aquele que apenas confirma a imagem que gostaríamos de ter.

Comecei por falar da mudança das palavras. Hoje parece-me que a questão é maior, porque primeiro mudámos os nomes das coisas, depois começámos a mudar o significado das coisas e agora corremos o risco de mudar a maneira como recordamos aquilo que aconteceu.

É aqui que o eufemismo pode transformar-se em algo mais perigoso, porque uma coisa é tornar a linguagem mais civilizada e outra é tornar a memória mais conveniente.

Talvez a verdadeira atitude moderna não seja obrigar o passado a usar as roupas do presente. Talvez seja ter imaginação suficiente para olhar para o presente através dos olhos do passado e descobrir que, apesar de todas as nossas máquinas, teorias e certezas, continuamos a representar muitos dos velhos dramas humanos.

Em vez de perguntarmos apenas o que há de errado com os clássicos à luz dos nossos valores, seria de  perguntar: O que é que eles conseguem revelar sobre os nossos próprios limites?

Essa pergunta exige mais conhecimento, mais imaginação, mais criatividade e, sobretudo, mais humildade, porque o passado não é um aluno atrasado que espera pela nossa correção.

Somos nós que, inevitavelmente, acabaremos por ser passado. O nosso paradoxo contemporâneo é sermos muito tolerantes com a diferença, mas só enquanto a diferença pensar como nós.

Penso que por trás de um discurso moderno e por vezes snobe se esconde uma modernidade que tem medo dos clássicos. Que modernidade é esta que pretende corrigir Homero para se sentir moralmente superior a Homero. Que modernidade é esta que transforma Shakespeare num acusado e Cervantes num suspeito!

O que falta no nosso tempo é uma modernidade suficientemente segura de si para escutar o passado sem o domesticar e que talvez seja capaz de dizer :“Não penso como tu. Mas quero compreender por que pensavas assim e deixa-me descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo ©
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

Social:
Pin Share

Social:

Publicado por

António da Cunha Duarte Justo

Actividades jornalísticas em foque: análise social, ética, política e religiosa. Prajetória marcada pelo ensino, pela escrita, poesia e pelo jornalismo cultural, com particular relevo para o diálogo intercultural e a promoção da língua e cultura portuguesas em Portugal, mundo lusófono e na Alemanha.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *