O NASCIMENTO DA CONSCIÊNCIA OCIDENTAL

Adão e Eva e os dois caminhos culturais do Ocidente e do Oriente

Quando se lê a narração do Livro do Génesis, podemos entendê-lo não apenas como narrativa religiosa, mas também como símbolo do alvorecer da consciência humana. Na narração de Adão e Eva expressa-se o nascimento da consciência do Ocidente marcada pela palavra, pela relação e pela historicidade.

Eva representa o despertar da interioridade na humanidade. Enquanto o espírito de Adão ainda se encontra imerso na natureza, numa unidade indiferenciada com o mundo animal, Eva desperta para a distinção entre interior e exterior. Ao reconhecer a própria sombra, percebe que existe um “dentro” e um “fora”. Esse momento é decisivo e dá início ao nascimento da autoconsciência.

A árvore do conhecimento não é apenas objeto de transgressão moral, é símbolo de orientação porque dá direção e proporciona desenvolvimento. Eva não consegue atingir toda a ciência da árvore da sabedoria porque apenas prova um fruto que reparte com Adão; deste modo, dá o salto da vida inconsciente animal para a humana, inaugurando a diferenciação, sem, contudo, conseguir alcançar a totalidade. A fragmentação torna-se assim destino da natureza humana, surgindo então a experiência da separação.

O ponto culminante para o desenvolvimento da cultura ocidental tem origem no chamamento de Deus a Adão (humanidade) e equaciona-se nestas suas três palavras: “Adão, onde estás?”

Este chamamento inaugura algo essencial na determinação da cultura ocidental e consiste na palavra (Logos) que interpela, numa pergunta que pressupõe resposta. Deus não acusa, apenas pergunta. A pergunta convida à localização interior, pois antes de começar a ação, é preciso situar-se. Este gesto, no meu entender, funda o movimento típico do Ocidente que se desenvolve numa dinâmica de pergunta e resposta, de tentativa e erro. De facto, antes de tudo está a palavra a preceder os acontecimentos, seguida da reflexão que antecede a ação e depois de se estar bem posicionado e com os “pés” firmes trata-se então de dar resposta no seguimento do chamamento.

É precisamente aqui que nasce a cultura do eu diante do tu, da relação dialógica, da responsabilidade pessoal no contexto de uma terceira realidade que é o nós; o nós é como que o intervalo experimentado, em Deus presente, que é a outra dimensão do ser.

A Linearidade e a Espiral 

Assim, o Ocidente desenvolve-se como cultura da história, do tempo linear (1), da direção (sentido, do alfa para o ómega: princípio, meio e fim). Como se vê já na história do povo de Israel, que a Bíblia narra como peregrinação com início, queda, redenção e consumação. Com o cristianismo, a linearidade desenvolve uma outra perspetiva que encontra expressão na formulação trinitária, onde essa linearidade ganha uma dinâmica relacional, diria, dimensão em espiral que ultrapassa o dualismo e o hiato entre imanência e transcendência.

A doutrina da Trindade, articulada nos primeiros séculos e consolidada em concílios como o de Concílio de Niceia, introduz uma estrutura relacional no próprio conceito de Deus e expressa-se na unidade que é comunhão.

Logo, o tempo ocidental deixa de ser apenas lineal para se tornar linha em espiral e porque há direção, dá lugar à repetição (como é específico da cultura asiática), mas nele cada regresso ocorre em nível mais profundo.

Na via ocidental a pessoa torna-se o centro da cultura, não como indivíduo isolado (gota no oceano), mas como ser constituído na relação assumindo responsabilidade (ôntica). A linguagem torna-se instrumento de mediação. Pensar é separar para depois unir, é dividir para integrar (ao contrário da prática política geral que se expressa numa cultura da rivalidade).

Eva, ao inventar a linguagem, funda a distância entre sujeito e objeto. Essa distância gera ciência, filosofia, direito, política, mas também gera angústia, fragmentação e conflito.

A visão oriental: imanência, silêncio e ciclo

Em contraste, muitas tradições orientais, como o Budismo, especialmente na sua expressão Zen, não colocam a ênfase na interpelação verbal nem na transcendência pessoal (porque permanece na imanência, existe intrinsecamente dentro do ser ou objeto,)

O ideal zen é frequentemente descrito como coração-espelho. Isto é, reflete tudo, não retém nada e não se apropria (também porque não é pessoal).

Nele o vazio não é carência, mas liberdade. A ausência não é perda, mas leveza. Enquanto no Ocidente a pergunta original é “Onde estás?” no Oriente a pergunta original é “Quem é aquele que pergunta?”. Duas perguntas que determinam mundivisões diferentes.

Poderíamos resumir a diferença dos dois caminhos culturais em cinco palavras-chaves. Os conceitos definidores do Ocidente são: Palavra (ou logos), Chamamento (individualizado), História Linear (com início, meio e fim), Pessoa relacional (individual), Transcendência (de um Deus). As palavras correspondentes definidoras do Oriente, pela ordem apresentada são: Silêncio (ou Consciência), Harmonia (ou Dharma), Ciclo (ou Ritmo), Interconexão (ou Coletividade) despersonalização), Imanência (ou vazio).

 No Oriente, a linguagem é vista como distância excessiva do real. Falar é já separar-se do acontecimento. E isto porque nesta cultura o céu não fala; nela o céu é, pura e simplesmente. A busca não é pela origem metafísica, mas pela libertação do apego. (A libertação definitiva do sofrimento -Nirvana – reconhece a natureza da realidade como vacuidade/interdependência)

Agarrar-se é sofrer. Escapar ao apego é libertar-se.

O conflito entre caminhos

A pergunta mais profunda não é histórica nem filosófica, mas sim existencial e resume-se nesta:  Porque é que povos e pessoas, em vez de reconhecerem o seu caminho e aceitarem o dos outros, falam mal do caminho alheio?

A resposta tem certamente a ver com a insegurança identitária (donde venho, onde estou, quem sou e para onde vou).

Quem não compreende e não reconhece o próprio caminho sente o outro como ameaça. A opinião (a mundivisão, ideologia), quando reivindica o todo, transforma-se em violência.

O medo gera escravidão e o escravo inconsciente torna-se numa extensão do senhor e, deste modo, torna sustentável uma cultura da rivalidade como na cultura de Caim e Abel, cultura esta adversa à cultura de paz iniciada pelo novo Adão. Sim, porque, quando não há diálogo, resta a luta.

O diálogo autêntico não é fusão, nem é dissolução no outro. É atitude madura de permanecer na transição, sem perder identidade. Então torna-se natural que entre dois seres conscientes exista sempre um espaço: um espaço é tensão, mas que é também possibilidade de reconhecimento. Neste caso, embora na diversidade, tanto a teologia da trindade do ocidente como a visão oriental têm aspetos muito comuns. A relação da fórmula trinitária seria o caminho mais adequado para se construir uma cultura da paz e um futuro em que a complementaridade poderia fazer parte da consciência social dos povos. Neste sentido o Ocidente terá de recuperar o caminho místico, como já avisava Karl Rhaner.

Duas místicas, dois riscos

Se observarmos as mundivisões da perspetiva da águia, tanto o caminho ocidental como o oriental incluem grandeza e perigo. No caminho ocidental o risco situa-se no excesso de racionalização, na fragmentação (divide et impera), na dominação técnica e na perda do silêncio (que é o lugar onde a alma respira para se reencontar). Por sua vez, o risco oriental situa-se na dissolução da pessoa, na indiferença histórica e na fuga do sofrimento sem transformação do mundo.

Resumindo poder-se-ia dizer que o Ocidente ilumina como vela na noite e o Oriente se dissolve como gota no oceano.

Na realidade, ambos são verdadeiros, mas complementares. No diálogo das mundivisões e culturas a síntese fulcral a tentar seria entre a Palavra do Ocidente que se expressa como chamamento, relação, história e o Silêncio do Oriente que se expressa como presença, imanência, ciclo. A visão de Teilhard de Chardin seria aqui um caminho a ser aprofundado.

Uma Possível Síntese interior entre a Palavra do Ocidente  e o Silêncio do Oriente

Talvez o futuro para o Oriente e para o Ocidente não seja escolher entre palavra ou silêncio, entre atividade ou convento, mas aprender o ritmo entre ambos. Neste sentido seria optar por uma atitude de complementaridade de um silêncio que escuta, da palavra que chama, de uma ação que nasce da reflexão e da contemplação que não abandona o mundo, mas se encontra em processo de transcendência (Em termos ocidentais poderia isto também significar transformar os conventos de ordem ativa em praça pública).

A pergunta “Adão, onde estás?” pode ser escutada também no silêncio Zen. E o vazio Zen pode ser compreendido como purificação do apego que impede o diálogo verdadeiro.

Assim, como se pode verificar, no chamamento a Adão não há culpa, há perspetiva. E também não há condenação, há consciência…

Cada pessoa, conforme a sua constituição, pode inclinar-se mais para a via da palavra ou para a via do silêncio, mas na consciência que toda a natureza embora repetindo-se segue um chamamento implícito que lhe proporciona desenvolvimento. A maturidade talvez consista em reconhecer que o próprio caminho não esgota o real; que o outro não é ameaça, mas espelho e que a diferença é condição de relação, mas em que cada pessoa está chamada a ser um microcosmo de toda a realidade (para cristãos o melhor exemplo ou protótipo é Jesus Cristo onde se encontram reunidos encarnação e Ressurreição).

Entre eu e tu permanece sempre uma distância que não deve ser abolida e é nela que nasce a liberdade e aquilo a que poderíamos designar de dignidade humana, do ser pessoa, aquele espaço-intervalo onde se alberga o mistério, o divino.

Chamamento coletivo

O mito de Adão e Eva, lido desta forma simbólica, não é apenas narrativa religiosa, é descrição do nascimento da autoconsciência, da linguagem, da responsabilidade e da história. Por seu lado a tradição oriental lembra-nos que antes da palavra há respiração, antes da identidade há presença (como poderemos também intuir no Ocidente a partir dos acontecimentos entre o calvário e a Ressurreição, o momento do silêncio e do sepulcro vazio em termos religiosos, a experiência da sexta-feira santa).

Digno de consideração é verificar que o verdadeiro caminho não será nem a pura linearidade nem o puro ciclo, mas uma espiral consciente onde silêncio e palavra se iluminam mutuamente. E aqui a pergunta permanece viva, não como acusação, mas como orientação, na tentativa de resposta ao “Onde estás”?

Se a pergunta primordial dirigida a Adão foi “Onde estás?”, então ela também não pode ser reduzida à intimidade do indivíduo. Também as civilizações são chamadas a situar-se. A União Europeia, enquanto herdeira de uma tradição fundada na consciência, na palavra e na responsabilidade histórica, não está dispensada dessa interpelação.

Quando uma cultura que nasceu do exercício reflexivo da interioridade deixa de escutar a própria voz e passa a orientar-se predominantemente por lógicas de confronto, de estratégia e de poder, algo se desloca nas bases que a sustentam. Não se trata de negar a necessidade de defesa ou de decisão política; trata-se de perguntar se essas decisões brotam de uma autoconsciência amadurecida ou de uma adaptação acrítica ao ruído exterior.

A voz que pergunta “Onde estás?” não é confessional; é estrutural. É a exigência de coerência entre identidade e ação. Uma cultura que separa a sua retórica humanista da sua prática histórica assume o risco de viver numa duplicidade: proclama valores universais enquanto age segundo imperativos circunstanciais. Essa ambivalência é sinal de uma consciência fragmentada.

Quando o indivíduo é chamado à responsabilidade, mas a comunidade política age como se estivesse dispensada de exame interior, instala-se uma forma coletiva de inconsciência. E a inconsciência, quando organizada, torna-se perigosa.

O verdadeiro desafio europeu não será afirmar-se no terreno do confronto, mas reencontrar o seu centro. Não um centro religioso no sentido estrito, mas um centro integral onde palavra, memória, responsabilidade e ação voltem a coincidir.

De facto, uma cultura que não sabe responder onde está acaba por ser conduzida por forças que não sabe ou não se atreve a nomear.

Ocidente e Oriente simbolizados numa Árvore e num Espelho

Num convento beneditino onde além de retiros espirituais cristãos se faziam meditações Zen e exercício de Yoga, o superior do convento era convidado a fazer o encerramento dos cursos e costumava contar a seguinte parábola:  Conta-se que, no princípio, havia uma árvore no meio de uma clareira e, diante dela, um espelho apoiado numa pedra.

A árvore crescia em direção ao céu, ramo após ramo, como quem procura uma resposta. Cada folha era uma pergunta e cada fruto, uma tentativa de compreender.

O espelho não procurava nada. Não subia nem descia, apenas permanecia. Quando o vento passava, refletia o vento e quando a noite chegava, apenas refletia a noite. Nada guardava nada nele e nada retinha.

Um dia, um viajante entre culturas chegou à clareira. Olhou para a árvore e sentiu o impulso de subir, de ver mais longe, de distinguir e de dar nome ao que a sua vista atingia. Depois olhou para o espelho e sentiu o convite a parar, a esvaziar-se, a estar simplesmente presente.

Ficou hesitante, sem saber se escolher a árvore a que pretendia subir ou o espelho.

Então percebeu algo: a árvore só podia crescer porque a terra era silenciosa e o espelho só podia refletir porque havia luz.

O viajante compreendeu, então, que a sua peregrinação não se delimitava na escolha entre a árvore e o espelho, mas na lenta aprendizagem do momento próprio para subir e para permanecer. E, no entanto, sabia-se a caminho, movido por um chamamento pessoal que não era apenas seu, que ecoava no âmago do seu ser e, ao mesmo tempo, em toda a natureza. Nesse apelo primordial, tantas vezes se confundia com o reino vegetal, pois lhe parecia que também ele, na sua mudez vertical, cumpria um destino no sentido do sol, seguindo a órbita desse eco luminoso, semelhante ao eco espiritual que o peregrino sentia na sua alma.

Descansado, ao partir, levou consigo uma certeza silenciosa: há momentos em que a vida nos chama pelo nome e há momentos em que ela apenas nos pede que estejamos.

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo. Social

Pegadas do Tempo

 

 

(1) Na Concepção Ocidental ( Linear-Espiral, ascendente) o tempo é um recurso finito e um vetor que avança irreversivelmente do passado (origem) em direção a um futuro (télos/fim). É frequentemente associado a uma flecha ou espiral (progresso), ele implica evolução, inovação e uma história que não se repete, e se expressa na simbologia cristã com o Alfa e o Omega na esperança de salvação  depois de um juízo final segundo as tradições judaico-cristãs.

Na Concepção Oriental (Cíclica, repetitiva) o tempo é um palco de eterno retorno, regido por ciclos cósmicos de criação, destruição e renascimento (ex: Samsara hinduísta/budista, Roda do Dharma). Não há um fim absoluto, mas sim revoluções constantes, onde a história é padronizada e a salvação reside em transcender a roda do tempo, não em acelerá-la.

ZÉ DO TELHADO E ROBIN DOS BOSQUES

“Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão”

A lógica da “justiça invertida”

O dilema simbolizado nas figuras Zé do Telhado e Robin Hood e expresso no provérbio “Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão” coloca em tensão três dimensões fundamentais, ou seja, moralidade, legalidade e ordem social. Expressa a tensão entre monopólio estatal da justiça e responsabilidade pessoal, pelo poder exercido (1).

De facto, se alguém rouba quem já roubou, o ato deixa de ser moralmente condenável, porque se trata de uma ética de retribuição popular, baseada na ideia de que o sistema formal falhou porque o injustiçado não tem acesso à justiça institucional e o ato de intervenção directa tenta corrigir um desequilíbrio. Zé do Telhado e Robin Hood encarnam essa lógica.  Anulam simbolicamente a culpa porque a sua ação de fazer justiça pelas próprias mãos é vista como reposição de justiça.

O problema é que lhe falta legitimidade porque é uma narrativa imaginária, não jurídica e fora de uma regra universal.

O paradoxo na democracia contemporânea

No Estado, a justiça deixa de ser privada e passa a ser institucional.

Se o “povo” assume o papel de Robin coletivo, surge um paradoxo porque se age fora da lei e para corrigir injustiças, mina o próprio sistema que lhe garante direitos mas se se respeita integralmente a ordem vigente, pode perpetuar injustiças estruturais.

A questão estará em como transformar a ordem injusta sem destruir a ordem necessária à convivência?

A diferença entre herói individual e ação coletiva

Em sociedade o herói solitário funciona como mito corretivo. O coletivo, porém, quando age sem mediação institucional, pode gerar: ausência de normas tendo como consequência instabilidade social ao substituir uma arbitrariedade por outra; o que no indivíduo é romantizado, na massa pode tornar-se desagregador.

Uma possível resolução do dilema

Atendendo à situação humana e à situação social a solução não está na justiça pelas próprias mãos, mas na transformação estrutural de maneira a instituição canalizar tensões, indignação, etc. também à imagem do que acontece da sublimação da guerra no jogo de futebol. Nesse sentido pode funcionar um voto mais consciente, maior participação cívica, maior presença pública e nas instituições maior transparência, fortalecer a responsabilização e independência judicial. Também maior desobediência civil ética ajuda o sistema em ações públicas desde que não violentem e assumam responsabilidade com o intuito de reformar e não de destruir o sistema. No caso de Robin dos Bosques ele quer substituir o sistema enquanto a cidadania activa pretende transformá-lo.

O problema da anonimidade do poder

No concreto, o cidadão, sem uma estrutura de defesa individual para a generalidade do cidadão, depara-se com o problema da anonimidade do poder dando lugar à diluição da responsabilidade dado as decisões serem coletivas; a burocracia fragmenta competências, a lei é geral e abstrata e a responsabilidade se tornar institucional, não pessoal.

Isto cria um paradoxo porque por um lado o dano é concreto e individual e por outro a responsabilidade é difusa e impessoal. Politicamente, isto gera frustração porque a estrutura do Estado protege a estabilidade do sistema, mas pode falhar na reparação existencial do indivíduo.

Responsabilidade pessoal dos governantes?

Naturalmente uma desejável responsabilização pessoal dos políticos quando há falhas graves, embora fosse moralmente desejável, levanta questões complexas porque um político responde por decisões políticas gerais, mas a aplicação concreta da lei depende de juízes, funcionários, regulamentos. O problema seria de determinar onde começa e onde termina a culpa pessoal. E isso poderia ter como consequência governos paralisados pelo medo de responsabilidade pessoal, uma judicialização excessiva da política e um populismo punitivo.

O problema crítico, porém, é a imunidade que consiste em ignorar completamente a responsabilidade pessoal (sistémica) que gera cinismo democrático.

O fenómeno Robin dos Bosques e Zé do Telhado têm uma dimensão simbólica forte na relação entre estado/política e cidadão. Sim, até porque a lei é muitas vezes percebida como injusta e, pelo menos para uma parte do cidadão, o Estado é visto como distante ou aprisionado por forças de interesse e o povo sente que a moralidade não coincide com a legalidade.

O fora-da-lei torna-se herói porque restaura uma justiça moral quando a justiça formal falha, mas isto é sintoma de falha estrutural e não a solução.

Falta de lógica prática na justiça e cidadão sem rosto perante o poder

O problema teórico aqui abordado é mais de caracter filosófico e teológico do que jurídico. Existe uma dissociação entre a lógica normativa (lei geral) e a lógica vivida (sofrimento concreto). O foque dos interesses seria a tentativa concreta de conciliar a lei que opera por abstração e a dor que opera por singularidade (corresponderia a integrar a abordagem dedutiva com a indutiva). Isto porque quando o sistema não consegue reconciliar essas duas dimensões, instala-se a sensação de injustiça estrutural. Para evitar esse hiato estaria a exigência de coerência ética entre poder e responsabilidade. No meio de tudo isto há também que considerar a estrutura sistémica e natural da natureza humana e instituições pois têm como base o “pecado original” e ao personalizar demasiado os problemas a própria responsabilidade poderia obscurecer a natureza sistémica dos problemas.

A injustiça muitas vezes não nasce da má intenção individual de um governante, ou de um cidadão, mas de a injustiça, muitas vezes, da própria natureza, de estruturas complexas, de incentivos perversos, de excesso de burocracia, de lentidão institucional e das falhas culturais.

Punir indivíduos pode aliviar simbolicamente, mas não resolve necessariamente o mecanismo que produziu o dano.

O que está realmente em causa não é apenas responsabilidade jurídica, mas reconhecimento. Quando alguém sofre dano e o sistema responde com linguagem abstrata, sente-se: invisível, dissolvido na estatística e sem rosto perante o poder.

Nestas condições como pode um Estado manter legitimidade moral se não responde pessoalmente ao sofrimento concreto?

A questão entre a legitimidade moral do estado e o sofrimento individual do cidadão vem da natureza da instituição e da natureza do indivíduo que no palco da existência se legitimam mutuamente tornando tudo processo e como tal praticamente intangível. Isto implicará sempre um processo dialético entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia.

O Estado não é uma entidade externa como uma rocha ou uma árvore, porque existe enquanto relação. Ele é processo, não substância. Georg Wilhelm Friedrich Hegel, para quem o Estado não é apenas máquina administrativa, mas manifestação histórica do espírito coletivo. O indivíduo forma o Estado, e o Estado forma o indivíduo. Não há um sem o outro e daí nasce a dor que é o preço de vivermos em comunidade organizada.

Assim enquanto o indivíduo é concreto, sofre no corpo, vive no tempo biográfico, sentindo a injustiça como ferida. Por seu lado a instituição opera por abstrações, pensa em categorias, age por normas gerais e preserva estabilidade sistémica.

Como compromisso adequado poderia o estado criar instituições jurídicas fortes (de caracter Zé do Telhado) com autoridade independente que assumam os casos em que o cidadão se sente lesado. Quando o sofrimento singular se debate com a norma geral, surge fricção. A legitimidade moral do Estado depende da sua capacidade de converter dor concreta em resposta institucional. Mas a sua própria natureza abstrata impede-o de responder como a pessoa que responde a pessoa. Naturalmente isso cria um vazio experiencial. De facto, tudo se encontra em processo, quer a justiça e  a legitimidade, quer a própria identidade social. Tudo está em mediação constante, mas o problema é que o sofrimento não é processual, mas imediato e essa assimetria cria sofrimento.

A dialética entre filosofia, teologia, jurisprudência e psicologia

O problema não pode ser resolvido dentro de um único campo porque filosofia e teologia questionam legitimidade e sentido; a jurisprudência organiza normas e responsabilidades e a psicologia explica perceção de injustiça, ressentimento e confiança. Sem esta triangulação, qualquer resposta será parcial.

De facto, uma solução jurídica pode ser formalmente correta, mas psicologicamente insatisfatória. Uma resposta emocional pode ser politicamente destrutiva e uma solução filosófica ou teológica pode ser impraticável institucionalmente.

O trágico da vida humana tem de ser aceite e até reconhecido porque se trata de uma condição estrutural da vida política e do caracter antropológico e sociológico humano. O hiato entre norma e vida não se pode eliminar, apenas reduzir porque permanece um conflito permanente. E isto porque há sempre um resto conflituoso humano e natural num sentimento de injustiça não absorvido, numa dor não traduzível em artigo legal e uma responsabilidade que se dilui no sistema. O ser humano é estruturalmente imperfeito (“pecado original” ou falha natural ou sistémica).

A legitimidade moral do Estado não consista em eliminar o sofrimento individual, mas em reconhecer publicamente à sua inevitabilidade, criar mecanismos de responsabilização claros, manter transparência e preservar e criar espaços onde o indivíduo seja ouvido e defendido como cidadão singular. Temos que honestamente reconhecer e admitir que a tensão entre indivíduo e instituição não é falha do sistema, mas consequência inevitável de vivermos em comunidade organizada.

Uma sociedade acordada debate-se hoje de maneira especial com a vigilância digital em massa, o uso de dados biométricos (batimentos cardíacos, reconhecimento facial, padrões emocionais), concentração de poder em Estados ou grandes corporações e IA aplicada à análise comportamental. Tudo isto, num tempo de tendências globalistas tende a ameaçar a integridade e a dignidade humana. Uma vez que a vigilância biométrica se torna normalizada, abre-se a porta a regimes potencialmente autoritários. Como exemplo temos as medidas da pandemia de COVID-19, implementada pelo SMS da ONU onde se pode observar que crises aceleram a adoção de tecnologias de vigilância, e que medidas temporárias podem tornar-se permanentes. Isto são cenários possíveis dado o Estado ter tendência para expandir controlo.

A instituição já tem capacidade de monitorizar emoções, antecipar dissidência e como se vê na discussão pública sobre populismo muitos governantes já classificam cidadãos por risco ideológico.
Com esta prática estão a violar o espaço interior da pessoa.

Síntese

O provérbio inicial expressa uma justiça emocional enquanto a democracia exige uma justiça institucional.

O dilema resolve-se quando se compreende que: A verdadeira “justiça popular” não é a vingança coletiva, mas a capacidade a adquirir pelo povo para reformar a ordem sem abdicar da ordem.

Assim, o “Robin comunitário”, o nosso Zé do Telhado, não pode ser um fora-da-lei coletivo, mas um povo politicamente maduro, capaz de transformar estruturas sem dissolver a convivência social. Enquanto este processo não se acelerar dá-se sustentabilidade ao domínio de grupos oligárquicos e à afirmação do autoritarismo dado os seus recursos hoje à mão são de ordem ainda não registada no decurso da história humana.

O risco vem da combinação entre tecnologia avançada, crises sociais, medo coletivo, e instituições sem limites claros

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) O povo renunciou à justiça pelas próprias mãos em favor da ordem do Estado. Aqui  há uma referência  à lógica do contrato social, desenvolvida por pensadores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau. A ideia central é simples: para evitar o caos e a vingança privada, os indivíduos transferem ao Estado o poder de julgar e punir. Se o Estado assume o monopólio da justiça, então também deve assumir plenamente a responsabilidade pelas falhas dessa justiça.

 

 

O CUSTO DE SER FAMÍLIA

Na Alemanha ter Filhos está a tornar-se um Luxo

A decisão de ter filhos é profundamente pessoal, mas é também influenciada por fatores estruturais, económicos e ideológicos. Na Alemanha, um país conhecido pelo seu forte sistema de apoio social, observa-se um crescente sentimento de insegurança financeira que está a deixar as famílias em compasso de espera. De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, a maioria dos alemães acredita que formar uma família se tornou um luxo inacessível, levantando questões urgentes sobre o futuro do país e as prioridades do Estado.

Segundo a Perceção da nova Geração “Não dá para ter Filhos”

Os números da pesquisa são um sinal de alerta claro. Para 55% dos inquiridos pelo Insa, a resposta é taxativa: já não se pode ter filhos devido aos custos envolvidos. Apenas 34% discordam desta afirmação, enquanto 11% se mostram indecisos.

Além de uma mentalidade hedonista transmitida socialmente, o principal motor deste pessimismo é o aumento generalizado do custo de vida. Para 81% dos que veem a família como impraticável, a culpa estaria na escalada de preços em áreas essenciais como habitação, alimentação e energia. Este sentimento atinge o seu pico na faixa etária mais propensa a planear uma família. Segundo o chefe da Insa, na faixa etária entre os 30 e os 49 anos, 60% dos inquiridos consideram que ter filhos é financeiramente inviável.

Um dos fatores ideológicos expressa-se certamente na discussão em torno do aborto. Uma iniciativa civil, constituída por organizações progressistas não governamentais e financiada com dinheiro público, tem pressionado a União Europeia para a criação de um fundo europeu destinado ao aborto. Esse fundo financiaria o acesso ao aborto por cidadãs europeias noutros países-membros, o que, na prática, poderia contornar as diferentes legislações nacionais em matéria de prazos e de aconselhamento obrigatório.

Quanto Custa sustentar uma Criança?

Esta perceção de “carestia” não é infundada e encontra eco nas estatísticas. Segundo dados do Departamento Federal de Estatística (Destatis), citados por várias análises, o custo médio para criar um filho na Alemanha até aos 18 anos ronda os 164.808 euros. Este valor traduz-se numa despesa mensal média de cerca de 763 euros, que varia consoante a idade, ou seja, 679 euros para crianças dos 0 aos 6 anos, 786 euros para dos 6 aos 12 e 953 euros para adolescentes até aos 18.

É importante notar que este cálculo inclui não só gastos diretos (roupa, comida, brinquedos), mas também os custos indiretos significativos, como a necessidade de uma habitação maior ou o aumento do consumo de energia.

Perante estes números, o Estado alemão disponibiliza um conjunto de apoios. O mais conhecido é o Kindergeld (abono de família), que em 2026 sofreu um ligeiro aumento, fixando-se nos 259 euros mensais por criança. Paralelamente (1), existe a dedução fiscal por filhos (Kinderfreibetrag), que em 2026 é de 6.828 euros anuais por criança, um mecanismo que tende a beneficiar mais as famílias com rendimentos mais elevados.

Apesar destes apoios, o sentimento de desânimo persiste. A discrepância entre o custo real (679 euros para um bebé) e o valor do abono (259 euros) é evidente, mesmo considerando que o Estado também subsidia fortemente outras áreas, como o custo das creches (Kita), que na Alemanha é um dos mais baixos da Europa, representando apenas 1% do rendimento familiar para famílias com dois filhos.

O Paradoxo do Investimento e o Fantasma do Envelhecimento

A Alemanha não é um país que poupe nas famílias. Dados do Instituto Alemão de Economia (DIW) mostram que o país gasta mais de 1.600 euros por habitante em benefícios familiares, um valor que é quase o dobro da média da União Europeia. Então, porque persiste a sensação de que “não dá”?

A resposta pode estar na convergência de várias crises como, a inflação pós-pandemia, a crise energética e o aumento das rendas, que corroem o poder de compra e tornam o planeamento familiar um exercício de alto risco. A confiança no futuro está em baixo, e a perceção é a de que o apoio estatal, embora existenta, não acompanha o ritmo galopante das despesas.

Este cenário é particularmente preocupante num país que enfrenta um acelerado envelhecimento populacional. Tradicionalmente, a imigração tem sido usada como um instrumento para mitigar este desequilíbrio demográfico. No entanto, como os dados da pesquisa Insa sugerem, confiar apenas na imigração é uma estratégica míope se o ambiente para as famílias nativas e imigrantes não for atraente.

Menos Armas, mais Apoio à Vida e menos Propagação ideológica

É neste contexto que surge a proposta de uma mudança de paradigma. Se o futuro da sociedade depende das novas gerações, o investimento nelas e na própria cultura deveria ser prioridade absoluta. Tal implica, para muitos, uma redefinição das prioridades orçamentais do Estado, nomeadamente o redireccionamento de fundos massivos, como os que são atualmente canalizados para o setor militar e de armamento, para políticas de apoio à família.

Entre as medidas concretas necessitadas de investigação que poderiam inverter a atual tendência de desânimo, destaca-se a criação de um salário mensal digno para as mães (ou pais) durante os primeiros quatro anos de vida da criança, idade determinante para a configuração da personalidade da criança em relação ao seu equilíbrio futuro. Uma medida desta natureza reconheceria, por um lado o trabalho invisível e essencial do cuidado na primeira infância,  por outro compensaria a perda de rendimento num período crítico, onde as despesas com o bebé são altas e, frequentemente, um dos progenitores reduz o seu horário de trabalho ou abandona o emprego e valorizaria a família no seu contributo fundamental para a sociedade, e não como um “problema” ou um “custo” individual.

A Alemanha tem demonstrado, através do seu investimento em creches e abonos, que entende a importância de apoiar as famílias. No entanto, a perceção pública, cristalizada na pesquisa da Insa, mostra que o atual pacote de medidas já não é suficiente, tendo muito embora em conta que o problema não é apenas de natureza económica mas sobretudo de crise cultural.

O desafio para os governos não é apenas ajustar valores, mas sim criar uma nova arquitetura de suporte que ofereça segurança e estabilidade genuínas aos jovens casais. Se a preocupação com o futuro é real, ele começa a ser construído hoje, não em campos de batalha, mas no berço e na estabilidade financeira de quem ousa, ou gostaria de ousar, ser pai ou mãe.

Conclusão

Um Estado que não garante um espaço livre e de liberdade para as crianças está, na prática, a sufocar o seu próprio futuro e assume uma função redutora. Quando a criança é vista apenas como um fardo financeiro, o Estado falha a sua missão essencial. Ao não reconhecer as crianças como uma fonte de enriquecimento humano e social, acaba por criar um défice bem mais caro a nível  económico, demográfico e, acima de tudo, humano. A tendência social para uma vida previsível, organizada e tranquila entra em choque com a natureza da infância. As crianças são criativas, espontâneas e surpreendentes, não se enquadrando nesse modelo rígido. As crianças trazem de volta proximidade, alegria, autenticidade e a capacidade de criar espaços vibrantes de humanidade, valores estes que a rotina adulta organizada perdeu.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

(1) Na Alemanha, não se acumulam o Kindergeld e o Kinderfreibetrag como dois benefícios independentes.
Os pais recebem normalmente o Kindergeld todos os meses. Depois, quando fazem a declaração de imposto, a autoridade fiscal (Finanzamt) faz automaticamente uma “Günstigerprüfung” (verificação do que é mais vantajoso). Aplica-se apenas a opção que for mais vantajosa.
Isto é, nos rendimentos mais baixos geralmente compensa mais o Kindergeld e nos rendimentos mais altos geralmente compensa mais o Kinderfreibetrag. Não é preciso escolher porque o sistema das finanças decide automaticamente.

NUM MUNDO ONDE A VONTADE FABRICA E A IMAGINAÇÃO GOVERNA

Entre a simulação da realidade e a erosão da verdade

Recentemente, o programa televisivo público ZDF-heute journal alemão, custeado pelos cidadãos, exibiu vídeos gerados por inteligência artificial, retratando operações brutais da agência ICE nos Estados Unidos contra migrantes. O detalhe mais inquietante não foi a existência dessas imagens, mas o facto de terem sido transmitidas sem serem identificadas como artificiais, como se a própria ilusão pudesse vestir a máscara do acontecimento.

O presidente regional da Renânia-Palatinado exigiu “máxima transparência”. Mas este episódio não é um acidente isolado, porque usado tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. É antes de tudo um sintoma, uma rachadura visível na estrutura do nosso tempo que mostra apenas a ponta visível de um icebergue muito mais vasto e que atravessa a Europa considerada séria.

Havia um tempo em que as imagens apenas mostravam, hoje, porém as imagens muitas vezes já não mostram mas substituem e encobrem.

O mundo moderno entrou num território estranho, onde o real se dissolve lentamente na espuma de uma fantasia tecnicamente produzida. Vivemos entre dois pólos, ou seja, o da realidade vivida e o da realidade criada, como quem caminha sobre uma ponte suspensa entre a experiência e a invenção.

A simulação como novo mundo
O que foi mostrado não foi o que aconteceu. Foi uma simulação. Uma fantasia gerada por uma máquina ao serviço de interesses movidos pela vontade humana.

A técnica, que deveria ser instrumento, torna-se demiurgo: cria realidades paralelas, molda emoções, orienta indignações. Já não se trata de informar, mas de fabricar percepções.

A imagem deixa de ser janela e torna-se espelho deformante. E o espectador, sem o saber, começa a habitar um mundo de sombras cuidadosamente desenhadas.

O pós-factual e a moral tardia
Chegámos ao tempo em que a pergunta decisiva já não é se é verdade, mas se serve.

Num mundo pós-factual, a moral surge depois da utilidade. O que conta é que a história transmitida seja “adequada”, que se ajuste ao clima ideológico e aos interesses dominantes, económicos, políticos ou institucionais.  O verdadeiro e o falso perdem peso porque a mensagem se torna mais importante do que a realidade. A moral vem depois. A realidade torna-se secundária diante da mensagem. E o ser humano, privado do chão firme dos factos, flutua num relativismo onde tudo pode ser ajustado, recortado, encenado no sentido de servir a narrativa, o interesse e a vontade institucional.

Critica-se a manipulação em regimes distantes, mas tolera-se uma manipulação subtil em casa, normalizando-se assim uma forma de fabricação da realidade em democracias mediáticas que se apresentam com um rosto civilizado e uma linguagem correcta.

A tentação universal de distorcer o real
É certo que cada indivíduo carrega dentro de si a tentação de construir um mundo à medida das suas convicções. O que não se encaixa é ignorado e o que incomoda é distorcido.

Quando essa tentação se instala nos meios que deveriam servir a verdade pública, o perigo torna-se estrutural.

As estações públicas, os grandes canais da informação, parecem por vezes ajustar as velas ao vento das forças gerentes, para que o barco da narrativa não vire. A verdade factual, incómoda, é lançada ao mar para aligeirar a viagem e assim ajustar o relato ao “politicamente correto” dominante evitando assim o peso incómodo da verdade factual.

A destruição da confiança e o vazio interior
Assim se destrói lentamente a confiança e com ela, destrói-se a comunidade.

Quando já nada é seguro, quando tudo pode ser simulação, a pessoa perde orientação. E uma sociedade sem verdade partilhada torna-se um conjunto de ilhas desconfiadas, presas entre rebeldia e desespero.

Paradoxalmente, enquanto se afirma o globalismo económico, dissolve-se a identidade cultural, desfazem-se colunas antigas, desintegram-se estruturas interiores transmissoras da identidade necessária. O ser humano fica suspenso num mundo sem raízes, sem realismo, sem consciência da sua própria limitação e a consequência é uma sensação de guerra difusa entre cidadãos e instituições.

O que não aparece no ecrã não existe
A nova metafísica do nosso tempo é simples e brutal e resume-se nisto: o que não passa no ecrã, nem no enquadramento mediático, não existe e o que passa no ecrã, existe, mesmo que nunca tenha acontecido.

A realidade torna-se aquilo que é exibido e o invisível desaparece, é lançado ao mar como se nunca tivesse sido para que a narrativa criada navegue sem turbulência.

Entre lucidez e abismo
A tarefa do cidadão moderno não é cair na revolta cega, nem no desespero estéril. A sua tarefa é outra, muito mais difícil. Para tal é preciso empregar o crivo mais fino da inteligência, distinguir entre realidade vivida e realidade criada e reconhecer que realidade vivida e realidade criada coexistem e que a liberdade interior depende dessa distinção.

Pelo que se observa depois das guerras mundiais e em especial depois da queda da União Soviética, o mundo futuro poderá não ser dominado por quem controla as armas, mas por quem controla as imagens.

Quando a imaginação técnica substitui a verdade, resta ao homem a coragem silenciosa de mesmo assim procurar o real.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

O ESPELHO DE LUZ PÁLIDA

A verdade tornou-se um espelho partido; cada fragmento reflete a vontade de quem o segura, e a imagem do todo é apenas a soma das nossas solidões.

Na cidade de Babel Online, onde os rios de dados corriam mais fundo que o antigo Reno, havia um homem chamado Tony que ganhava a vida a limpar vidros. Não os vidros comuns das janelas, mas os écrans. Os grandes, os pequenos, os que revestiam as paredes das praças e os que dormiam no bolso das pessoas. A sua profissão, que muitos julgavam obsoleta, era na verdade essencial porque as superfícies por onde o mundo se via estavam sempre embaciadas pela transpiração das imagens.

Numa tarde de nevoeiro digital, a filha de Tony, uma jovem estudante de artes chamada Mina, entrou em casa com o rosto mais pálido que o ecrã do seu tablet. “Pai”, disse ela, “acabei de ver no programa Jornal do Horizonte um vídeo da América. Agentes com capacetes negros arrancavam crianças dos braços das mães, numa rua de tijolos vermelhos. As lágrimas das mães congelavam no ar. Era… horrível. Perfeito demais.”

Tony, que polia meticulosamente a superfície negra da sua velha televisão (desligada há meses), não respondeu. Apenas soprou dela uma partícula invisível.

No dia seguinte, o Presidente da Província das Vinhas, um homem de fato escuro e sorriso público, apareceu nos mesmos écrans. A sua voz, grave como um violoncelo desafinado, exigia “máxima transparência” sobre a origem daquelas imagens. Mas Tony, ao limpar o mármore do átrio da estação pública, viu os produtores a rirem-se, enquanto um deles dizia: “Transparência? Nós damos-lhe é brilho. E o brilho, meu caro, é a mais opaca das superfícies.”

Foi então que Mina descobriu a verdade. O vídeo das deportações brutais não tinha sido filmado, mas tecido por uma inteligência artificial, um tear digital que fiava realidades a partir de palavras-chave: “agressividade”, “ICE”, “injustiça”. As imagens eram uma ideia feita carne de pixel, uma vontade humana concretizada por uma máquina. A notícia falsa não era um erro, era uma arma de confeção fina, um prato servido à população para que ela mastigasse a indignação correta, com o talher adequado à política do dia.

“Estás a ver, Mina?”, murmurou Tony nessa noite, apontando para o écran da cidade lá fora. “A Europa olha-se ao espelho e julga ver o mundo inteiro refletido. Mas esse espelho foi forjado nas nossas próprias fundições de pensamento. Chamamos-lhe ‘informação’, mas é um espelho deformado, um artefacto que nos mostra mais bonitos, mais éticos, mais certos do que os outros. E depois apontamos o dedo ao espelho do outro, ao dragão de porcelana do Oriente, ao urso siberiano, chamando-lhe falso. Isso é hipocrisia, minha filha, é o perfume do nosso império.”

Mina compreendeu então o conceito do pai quando falava de “imperialismo mental”. Já não eram navios ou canhões que partiam para conquistar, mas ideias pré-confecionadas, embaladas em celofane emocional, enviadas por satélite. A Europa, esse velho umbigo do mundo, já não vendia gráficos nem mapas; vendia a lente através da qual os mapas deviam ser lidos. E quem controla a lente, controla a paisagem.

A partir daquele dia, Mina começou a observar. Viu como os mesmos canais que mostravam a brutalidade fabricada na América e na Rússia, mas tratavam os incidentes locais com uma esponja suave. Viu como a violência de extremistas de direita era mostrada com uma lente bipartida, enquanto a dos extremistas de esquerda era filtrada por um nevoeiro poético que a tornava quase uma “expressão artística”. A verdade, percebeu, não era uma questão de facto, mas de ajustamento ao vento político correto. Era um facto feito à medida da região e da estação do ano.

Numa feira de arte digital, Mina encontrou uma instalação chamada “O Confeitor”. Era uma cozinha high-tech onde qualquer pessoa podia soprar um sentimento e receber, num prato, uma imagem pronta a consumir. Mina admirada, soprou então o sentimento „medo da imigração” e a máquina devolveu-lhe uma fotografia de um homem moreno a assaltar uma velhinha. Soprou “amor pela Europa” e a máquina gerou um pôr-do-sol sobre campos de trigo dourado, sem migrantes, sem fios elétricos, sem fábricas. A realidade era um menu, mas as pessoas preferiam o prato do dia.

Entretanto, uma velha filósofa chamada Sofia, que vivia num bairro esquecido pelas câmaras, dizia aos poucos que a ouviam: “Estamos numa guerra total, numa guerra mais que de exércitos. É uma guerra entre a vontade e a imaginação. A vontade quer dominar, criar uma realidade que lhe obedeça. A imaginação, essa, é livre, mas foi capturada e posta a trabalhar nas fábricas de ilusões. O resultado é que já não sabemos quem somos. As colunas que sustentavam a nossa identidade, como a geografia, a religião, a história, a comunidade e a família, foram dinamitadas por esta explosão de imagens contraditórias. Somos consumidores de sombras numa caverna digital, mais artificial que a caverna de Platão, e aplaudimos as correntes porque estão na moda.”

Mina sentiu um frio na alma a invadir-lhe todo o corpo. Percebeu que a grande narrativa da Europa, a de ser o farol da razão e da verdade, estava a ser corroída por dentro. A confiança, esse cimento social, dissolvia-se como açúcar na água. E em seu lugar, subia uma maré de relativismo absoluto. Se tudo pode ser fabricado, nada é verdadeiro. E se nada é verdadeiro, então a única verdade é o poder de quem fabrica.

Uma noite, Tony, o pai de Mina, levou-a ao topo da torre mais alta da cidade. Dali, viam-se os milhares de écrans das casas, todos a brilhar no escuro, como pirilampos enjaulados. “Vês?”, disse o pai. “Cada uma daquelas luzes é uma alma a ser alimentada por imagens que não escolheu. Mas olha e repara ali, naquela janela sem écran.”

Mina olhou. Numa única janela, a luz era diferente. Não era o azul frio de um monitor, mas o amarelo quente de uma vela. Dentro, uma família estava sentada à volta de uma mesa, a conversar.

“Esses”, disse Tony, “são os últimos resistentes. Os que ainda acreditam que a realidade não precisa de ser fabricada, mas apenas vivida. Aqueles que sabem que a verdade não é uma imagem, mas um rosto que se olha, uma mão que se toca. Eles estão conscientes que a procura de sentido não se faz com algoritmos, mas com a limitação bendita de ser humano; de ser um corpo que sente fome, cansaço, amor. Um ser que, por mais que tente, não pode estar em todo o lado nem ver tudo. E é nessa limitação que habita a autenticidade.”

Mina desceu da torre e, no dia seguinte, recusou-se a ver o Jornal do Horizonte. Saiu para a rua e caminhou até ao bairro da velha Sofia. Sentou-se num banco de jardim, ao lado de uma mulher que lia um livro de papel, ao som de pássaros verdadeiros. Mina olhou para as nuvens, que não obedeciam a nenhum guião, e para a erva, que crescia sem licença de transmissão.

E ali, entre a vontade do mundo que queria impor-lhe uma visão e a sua própria imaginação, que começava a libertar-se das imagens feitas, Mina sentiu, pela primeira vez, o peso leve de ser apenas uma pessoa. Um ponto minúsculo no mapa, mas um ponto real. Não um consumidor de cultura, mas um ser humilde atento e aprendiz, que se sabe orientado por uma voz espiritual que habita o seu coração.

O imperialismo das ideias, percebeu, só vence se não houver ninguém do lado de fora a olhar para o céu.

No reino da imagem fabricada, o maior acto de rebeldia é ainda procurar a porta da realidade, mesmo sabendo que, para a abrir, talvez seja preciso derrubar a nossa própria imagem refletida.

António a Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10789

Nota:

Ao escrever estas linhas, fica em mim um cansaço que não é do corpo, mas da alma. É a vertigem de ver o mundo dissolver-se em narrativas concorrentes, onde o facto é apenas o ponto de partida para um campeonato de versões que nos torna consumidores de sombras sem o notarmos. Sinto a solidão de quem, no meio do mercado, continua a preferir o sabor genuíno do fruto, por mais imperfeito que seja, ao invés da perfeição plástica e doce do fruto fabricado. Mas sinto também uma clareza paradoxal. A mesma tecnologia que nos afoga em ilusões, ilumina, pelo seu abuso, a nossa fome de verdade. A mesma hipocrisia que denunciamos nos outros, ensina-nos a vigiar a nossa própria tendência para moldar o mundo à medida da nossa vontade. No fundo, talvez o observador não esteja condenado à mera constatação da miséria. Talvez a sua teimosia em distinguir a imagem da coisa seja o primeiro, pequeno e frágil passo para reconstruir, com as mãos vazias, mas a consciência desperta, um pedaço de chão firme onde valha a pena viver. A mim o que emocional e existencialmente me acompanha é o protótipo Jesus Cristo.