DAS MULHERES NA SOCIEDADE E NA IGREJA E DOS USOS E COSTUMES QUE AS OPRIMEM

A Igreja tem uma Face feminina ainda escondida

Por António Justo

Nas sociedades islâmicas os valores culturais sobrepõem-se aos direitos humanos individuais e o homem tem um estatuto superior ao da mulher. Na sociedade ocidental embora haja igualdade de dignidade e de direitos, na prática social há discriminação; também no catolicismo não se aceitam mulheres no clero pelo facto de serem mulheres.

Na controvérsia sobre a integração das mulheres no clero, o Papa Francisco pretende dar um passo qualitativo no sentido de lhes possibilitar a sagração, mas sofre oposição por parte de ultraconservadores na igreja e é até difamado por grupos políticos que fazem campanhas contra ele por temerem a sua influência em vários campos sociais.

O obstáculo maior à inclusão das mulheres no clero tem sido o argumento da tradição. O mais importante, porém, a registar para atenuar um tradicionalismo exagerado vem da mensagem libertadora de Jesus e do facto de ter havido mulheres discípulas de Jesus, e suas provadas funções na igreja primitiva. Só com o tempo foram impedidas de ocuparem funções de direcção nas comunidades.

A matriz sociológica masculina antes implantada pelo nomadismo e depois pela situação bélica dos povos de outrora valorizavam o papel do homem de modo a conduzirem à marginalização sistemática das mulheres (à segregação da feminilidade). Seguindo o espírito da sociedade (Zeitgeist) também na Igreja a acção das mulheres, como discípulas de Jesus e como orientadoras de comunidades, foi deitada ao esquecimento para mais facilmente se poder justificar a violência do poder da masculinidade (economia, política e religião dão-se as mãos). Chega até a ser cultivada a desconstrução teológica da imagem de Madalena, a” apóstola dos apóstolos”, de maneira a ser interpretada e adaptada à ordem social e ao espírito de cada época segundo a norma masculina vigente.

Tanto a exclusão das mulheres do ministério sacerdotal como a determinação do celibato obrigatório para todos os padres, têm como pano de fundo interesses estratégicos do poder institucional masculino (também uma consequência lógica do Constantinismo, mas de não menosprezar o contraponto da “feliz culpa” que tem como consequência a globalização da cristandade!).

É cristãmente trágico constatar-se nesta religião libertadora, como nela, ao longo da História, a mulher e mulheres conscientes e fortes foram impedidas de afirmar a feminilidade em funções de poder na Igreja petrina. A Igreja também tem uma face exterior feminina, mas na controvérsia teológica esta tarda a ser reconhecida. Pelos vistos apesar da razão, o poder é o último a ceder!

Maria de Magdala (a Madalena com histórias populares virados para a lenda e para a sua desconstrução moral através do resumo nela de outras Marias seguidoras de Jesus) esteve presente em todos os momentos decisivos da vida de Jesus. O grupo das mulheres (discípulas) mostrou-se, no seguimento e anúncio de Jesus, mais arrojado que o dos homens.

No episódio das irmãs Marta e Maria ( (João 11:1-45 ) Jesus louva Maria por se querer instruir na missão de discípula e admoesta Marta por ainda se encontrar demasiadamente presa ao papel caseiro atribuído à mulher. Maria (Madalena), mulher consciente e forte, não se deixou limitar às funções caseiras para se preparar para o apostolado ativo, seguindo Jesus, com a mesma atitude dos homens. Jesus confirma Maria na sua vocação de apóstola dizendo: “Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”. Os tradicionalistas que defendiam o papel de Marta para a mulher na sociedade, conseguiram, contudo, que a tradição e a força do hábito dos costumes dominassem sobre a mensagem evangélica de libertação. O Édito de Constantino, ao reconhecer a oficialidade do cristianismo, fez o resto.

Também Hipólito de Roma (170-236) testemunha que Madalena era a “apóstola dos apóstolos” (João 20:17); dignidade esta que o Papa Francisco reconhece, na sua qualidade de discípula de Jesus, mas a que falta o reconhecimento na prática através da atribuição do inerente ministério sacerdotal também a mulheres (De facto seria pobre uma Igreja de homens que só manifestasse admiração e louvor pelas mulheres).

Grande é a multidão de mulheres relevantes na História da Igreja (1). O espírito do tempo tinha uma percepção androcêntrica da realidade que era vista na perspectiva dos homens e das suas atividades. É natural que a nossa percepção seja sempre autobiográfica e circunstancial pelo que, também os teólogos não escaparam à realidade ambiental que os circundava e mais não fizeram que interpretar os escritos e a realidade da igreja primitiva segundo a sua condicionada observação que levava a uma interpretação dos factos considerada real.

O exegeta Bernhard Heininger refere que (2)  “um quarto de todos os colaboradores de Paulo nomeados no Novo Testamento são mulheres”. Na sua opinião, a prescrição do silêncio na Primeira Carta aos Coríntios é uma interpolação pós-paulina e encontra-se em contradição com outras afirmações de Paulo. Uma teologia demasiadamente masculinizada apoiava-se em cartas pastorais de Paulo, que segundo exegetas não proviriam dele. É interessante a observação de que Paulo, na carta aos Coríntios, permitia o divórcio a mulheres no caso de os maridos não estarem de acordo com o empenho das mulheres na comunidade.

A apóstola Febe, que presidia à comunidade doméstica de Cencreia é referida por Paulo com o título de diácono.  Paulo trata-a como irmã e refere também que Áquila e Prisca eram muito activas na comunidade de Corinto e Roma. Paulo diz que conheceu o Messias através de Prisca. Também Lídia era a chefe de um grupo de mulheres (Atos dos Apóstolos, 16) e também Tabita propagava a fé no messias. No último capítulo da Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo pede para saudar o casal Andrónico e Júnias, que “estiveram comigo na prisão, são apóstolos respeitados que confessaram Cristo antes de mim”.

A respeito de Júnia, João Crisóstomo (344-407 d.C) escreveu: “Quão grande deve ter sido a sabedoria desta mulher que foi achada digna do título de Apóstola”.

Em Roma, o acesso aos aposentos das mulheres era proibido aos homens, por isso só as mulheres podiam ter sido anunciadoras do Evangelho. A ciência bíblica tem de investigar mais para colocar o papel das mulheres a uma nova luz no sentido de uma tradição mais esclarecedora e justa. Urge dar o exemplo para continuar na vanguarda da História.

Há filmes feitos por homens, na tradição da masculinidade, que reduzem Maria Madalena a uma companheira afectiva de Jesus ou a uma sedutora, para assim corroborarem as comuns imagens de mulher em função de uma sociedade de poder masculino adverso à feminilidade/espiritualidade. Também é de compreender que muitos teólogos ao longo da História seguissem os mesmos parâmetros de cariz masculina porque, envolvidos no Zeitgeist e nas estruturas de poder, certamente, não se encontravam suficientemente livres nem iluminados pela mensagem libertadora do evangelho; a luz do Zeitgeist era mais forte; assim interpretavam as atividades das discípulas de Jesus orientados pelo molde expresso pelos usos e costumes das respectivas épocas, que reduzia a imagem da mulher a uma missão subsidiária e a uma posição social de auxiliar. 

Custava a uma sociedade patriarcal compreender o facto de o testemunho da ressurreição ter sido feito por mulheres. Como poderia Deus ter confiado tal missão a Madalena (3) e não a Pedro? A inculturação da mensagem cristã é legítima, mas se se fica por aí emperra-se o andar da História e limita-se a mensagem evangélica ao crivo de tradições e correspondentes argumentos de caráter oportuno que provocam a discriminação da mulher através do limite de funções. A figura de Teresa de Ávila (1515) mostra-nos como uma mulher previa o desenvolvimento que hoje estamos a tentar concretizar (4).

Também no sec. XVI   (5) Maria Ward afirmava que a diferença entre mulher e homem não é tanta como é feita. O que vale “não é a verdade do homem (veritas hominum) ou a verdade das mulheres, mas sim a verdade do Senhor (veritas domini Jesus). Quando falhamos, vem da falta de verdade e não de sermos mulheres… Espero em Deus que vejamos que as mulheres farão muito no tempo que virá”(6). (Pelos vistos a voz de Deus tem sido dificultada em ser ouvida no sentido das mulheres!).

Muitos movimentos feministas não respondem à realidade da Mulher integral feita de feminilidade e masculinidade; fixam-se apenas nas questões funcionais e de sexo, talvez, na sua luta, não conscientes de que estão servindo o pensamento e o modelo patriarcal (parte da luta pode ser vista como resposta, mas não como solução). Não chega ter em mira apenas a igualdade de oportunidades de mulheres e homens, mas também os valores ou princípios que têm determinado o modelo de sociedade vigente ao orientar-se apenas pelo princípio/energia da masculinidade ignorando o princípio/energia feminilidade que tem de ser também constitutivo da realidade social e individual (independentemente do ser existencial homem ou mulher), se é que queremos uma sociedade mais pacífica e mais justa.

Em todas as sociedades e ideários dominantes no mundo ainda se nota um medo inibidor perante as mulheres devido, certamente, a um temor cultural transmitido e adquirido; este temor, aliado a uma certa fraqueza natural passou ao inconsciente social criando no homem a ideia imperceptivel de que se não conseguir “domesticar” a mulher, sentir-se-á inseguro e perdido; como resposta a esse medo o homem e com ele a sociedade – construída sobre as bases do princípio da masculinidade –  têm construído estratégias culturais de opressão  que, no fundo, têm como objetivo defender o homem da concorrência do outro homem ( este medo dela encontra-se especialmente expresso no islão que subjuga a mulher de maneira proporcional ao medo e ao instinto de domínio). Uma coisa é certa, apesar da agressividade da masculinidade hodierna (uma crise de machismo) delineia-se já no horizonte a descoberta do princípio da feminilidade como solução para o alvorar de uma nova sociedade. Delas, as mulheres, como expressão mais manifesta do princípio da feminilidade, terão um grande papel numa revolução do islão e numa renovação fundamental da sociedade ocidental, a começar pela Igreja. As mulheres que se encontram na cena política ainda não podem funcionar como exemplo integral porque se encontram empenhadas na continuação da sociedade de matriz baseada no princípio da masculinidade. Como se dedicam apenas em aplicar as modalidades ditadas melo modelo político vigente apenas preparam os caminhos para a continuação de uma concorrência mais equilibrada entre mulheres e homens; de resto, nesta situação o princípio da feminilidade ainda é mais menorizado porque em vez de se partir do aspecto orgânico e integral continua-se a servir apenas a funcionalidade (a parte exterior, não se passando da fenomenologia adiante)!

Já foi dito muito sobre a subjugação da mulher, mas ainda não é visto nem reconhecido por todos. O que mais me legitima a tratar do tema é a feminilidade que fala também em mim e o desejo de fomentar a concretização do reconhecimento da masculinidade e da feminilidade tal como se encontra realizada no protótipo Jesus Cristo a nível humano e cósmico.

Uma igreja universal inclui necessariamente nela o princípio da masculinidade e da feminilidade, sendo por isso uma igreja (petrina e joanina) dos homens e das mulheres, e, como tal, não poderá deixar-se levar pela acentuaç1bo, no seu agir por meros critérios de inculturação; de facto quer os diversos quer os mesmos dons, se encontrarem simultaneamente quer na expressão masculina quer feminina. O todo é mais que a parte. Precisamos de todos, de homens e mulheres de ortodoxias e de ortopraxias num mundo mais aberto e ainda a fazer-se.

No fim de ter escrito este artigo e ao relê-lo notei como sou também dominado pela matriz da masculinidade. De facto, notaram os eleitores a maneira como procurei convencer, convencer à maneira masculina nomeando autoridades como se não chegasse a fé, a razão e o entusiasmo por Jesus Cristo e a sua boa nova de libertação como argumento para se verem as coisas (isto é naturalmente ainda tolerável num período de transição da pura masculinidade para uma equilibrada sociedade em que quer o princípio da feminilidade e o da masculinidade se harmonizem!).

Ontem 15 de Agosto comemorou-se a Assunção de Nossa Senhora; certamente uma data e uma comemoração apontar para uma realidade importante. Mas quando começaremos nós a olhar também um pouco mais para a Terra? Porque não se passa, na Igreja, a criar a possibilidade de mulheres também fazerem parte do clero?

Por vezes chega-se a ter a impressão que tanto louvor a Nossa Senhora e a santas se pode tornar num perigo de um deslouvor (impedir honras e cargos) das mulheres na Terra, impedindo-as de ascender ao sacerdócio jerárquico. A feminilidade e a masculinidade não se reduzem ao sexo; as duas energias pertencem juntas! Seria oportuno olhar para o Céu sem esquecer a Terra; doutra maneira continuaremos a praticar a visão antiga do Olimpo lá em cima para alguns e o Sheol para os enlameados terráqueos.

Vai sendo tempo de se abandonar uma praxis baseada na ambivalência de papéis! Padres e pessoas com cargos de responsabilidade nas bases começarem a trabalhar pastoralmente mais em conjunto com freiras, mulheres exemplares num espírito colegial de repartição da missão de evangelizar sem medo de escandalizar pois só assim se consegue, numa comunhão sacerdotal participada no Espírito Santo, progredir no anúncio e prática do Evangelho que é promessa de bem para toda a humanidade. Talvez assim se fossem destruindo barreiras.

De facto, vivemos num mundo onde, se não fosse o erro, não se avançaria!  Por isso, numa nova mentalidade a criar-se não há culpas nem censuras a distribuir a este ou àquele. A missão é grande: temos mais que indicações suficientes para continuarmos a tradição de errar para podermos avançar; importante é criar espaço em cada um para que a mensagem e o chamamento possam ser ouvido. Cristo não nos pediu para andarmos por caminhos seguros, ele disse que era o caminho e, para o seguir, é necessário ter a coragem de se andar sobre as águas sem o medo de sucumbir!

É trágico, que a Igreja que deu tanto à humanidade e tem tanto para dar, perante tanto medo de errar, perca muitas vezes o comboio da História, ficando demasiado tempo nos apeadeiros de uma moralidade sexual descontextuada; no caso é fatídico para a mulher, no sentido do desenvolvimento da sociedade e da eclésia santa. Os factores “sexo” e “medo” foram sempre instrumentos privilegiados usados pelas potestades na intensão de manter os pretendidos súbditos de maneira sustentável.

Olhemos para as mensagens religiosas e para os mitos, eles já nos disseram tudo, o problema é que a sua mensagem ainda não chegou a todo o lado!

No sentido eclesial o poder não pode continuar a ser unilateralmente ligado ao homem e ainda por cima de forma sacralizada (Clero). Como mensagem evangélica e eclesial estamos à frente do mundo, não há nada que justifique andar atrás dele! Há que criar uma nova pedagogia e fomentar as capacidades da feminilidade/espiritualidade e o desenvolvimento da personalidade ainda antes da transmissão de saberes. Urge uma nova educação baseada nos princípios da feminilidade e da masculinidade e não uma focalização nas suas exterioridades no sexo masculino e sexo feminino.

Mulheres ligadas à Igreja, devem preparar-se e apostar mais no estudo da filosofia, da teologia e da administração institucional. As universidades católicas, instituições eclesiais e até cargos nos colégios episcopais esperam por vós; as freiras deveriam prestar aqui uma especial atenção, doutro modo uma masculinidade desequilibrada continuará a adiar o futuro com o argumento que a mulher não está preparada; a aurora de novos tempos já se faz sentir: preparai-vos para assumir funções sacerdotais.

(Este artigo faz parte de um livro sobre masculinidade e feminilidade que há anos espera por ser dado a lume)

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

In “Pegadas do Tempo”

A Matriz política masculina não pode ser Norma para a Instituição eclesial

Mulheres lutam por uma Instituição mais feminina

Por António Justo

A opressão sistémica das mulheres é um fenómeno universal que se observa em todos os sistemas ideológicos, económicos, políticos e religiosos, de todo o globo.  A desvalorização da mulher é a consequência lógica das sociedades com matriz masculina que apostam na sustentabilidade de estruturas patriarcais.

A instituição eclesial, à imagem da sociedade secular, tem-se orientado por padrões masculinos, considerando a feminilidade, como característica secundária, nas suas estruturas.  Já vai sendo tempo de se dar resposta à energia da feminilidade e de se praticar o evangelho (1) não se refugiando na estratégia máscula do divide para imperares; doutro modo fica-se numa de reservar a paternidade para a sociedade e a maternidade para a família: uma e outra são constitutivos de vida e devem igualmente estar presentes na sociedade. A matriz masculina da sociedade secular não pode ser norma de adaptação para a Instituição eclesial. O lugar do diálogo nela não é a sexualidade (entre homem e mulher) mas sim os princípios/energias feminilidade e masculinidade a nível de pessoa, de sociedade e instituições.  A “fragilidade” deve estar mais presente nos lugares “fortes”!…

Na Páscoa passada, muitos milhares de mulheres católicas fizeram uma “greve de igreja”, em toda a Alemanha, durante uma semana. A partir de Münster, na Vestefália, e com o apoio da Comunidade de Mulheres Católicas (Kfd), elas (integradas no movimento “Maria 2.0”), interromperam os seus cargos honorários nas paróquias e celebraram liturgias em torno das igrejas. Foram mais de 1.000 grupos, que organizaram vigílias, cultos e ações de protesto.

Com esta acção, as mulheres pretendiam dar rosto público ao seu descontentamento com as estruturas masculinas de poder na Igreja Católica. As mulheres exigem acesso a ministérios de ordenação, a abolição do celibato obrigatório para os sacerdotes seculares e uma revisão da moral sexual.

Posteriormente, as mulheres organizaram delegações para falarem com os bispos nas correspondentes dioceses.

Os seus protestos tiveram uma expressão feminina (2): As mulheres protestam por amor à Igreja, de dentro para dentro e de dentro para fora sem a atacar com a ideia numa igreja que querem também sua casa religiosa.

O Arcebispo de Hamburgo, Dom Stefan Heße, convidou o movimento “Maria 2.0” a participar no “Caminho sinodal” planeado pelos bispos e a apresentar as suas exigências de reforma (3).

É verdade que a Igreja católica está implantada em todas as culturas do mundo e por isso urge reconhecer a dignidade na diversidade das pessoas (homem e mulher) também na missão de libertar o ser humano, de levar a Boa Nova à humanidade e de descobrir possíveis melhoras e alertar para os perigos. A Igreja não é apenas uma instituição, ela é uma comunidade de vida de homens e mulheres congregadas em torno de Jesus Cristo (não pode ser dividida numa igreja petrina e numa igreja joanina).

A Igreja Católica, na sua qualidade de instituição mais beneficiadora da humanidade (4), sendo uma religião especialmente impregnada de feminilidade (Boa nova, liturgia e espiritualidade), seria mais conforme consigo mesma se no seu aspecto exterior de instituição reduzisse a predominância do rosto masculino (masculinidade) e desse lugar  a um maior equilíbrio entre as energias/princípios feminilidade e masculinidade.

A Igreja, que por natureza é de conotação feminina, precisa também de um olhar feminino a partir das suas instituições, numa atitude dialógica não só no que respeita às diferenças entre religiões e sociedades seculares, mas sobretudo no empenho pela presença e balance da feminilidade e da masculinidade nos presentes modelos de sociedade dominados pela masculinidade; o melhor paço seria começar por si mesma.

Torna-se uma contradição que sacerdotes e mulheres empenhados em reformar a Igreja tenham de sofrer pelo facto de a igreja oficial se encontrar demasiadamente distanciada da realidade. A promoção de mulheres nos ofícios da igreja não pode ser limitada a educadoras infância ou a referentes pastorais.

Urge impulsionar uma marca católica em que as mulheres pertencem a uma igreja fraternal, onde cada um possa determinar e viver a sua vocação e ter o seu projecto de vida sem exclusão. Para isso não é preciso mudar a Bíblia; o Evangelho tem fundamentos suficientes para a revalorizar; por outro lado, se for dado espaço relevante às mulheres na sociedade surgirá consequentemente uma outra imagem da mulher.

Ainda não há consenso na Igreja sobre o sacerdócio para mulheres. Mas uma coisa há que advertir e ter em conta: o poder espiritual não deve ser exercido em padrões seculares e profanos.

Não podemos viver de uma esperança sempre adiada. O critério homem não pode ser exclusivo e além disso vivemos num tempo em que a matriz machista da sociedade se questiona e em que a teologia feminina pode fazer a ponte para a feminilidade do Evangelho. O que continua em jogo é uma visão de domínio do princípio da masculinidade sobre a feminilidade e uma teologia. não se trata aqui de seguir uma teologia hipercrítica que depende demasiado da cabeça, mas colocar no centro a fé como um indicador de e para Jesus.

É claro que as igrejas não cresçam por ajuste ao gosto do tempo, mas sim através da fidelidade ao Evangelho. Urge estarmos mais atentos às mulheres na bíblia de modo a não serem mal-interpretadas pelos homens (o que aconteceu em relação por exemplo a Madalena, a apóstola dos apóstolos)

Uma mudança de moral não implica necessariamente uma mudança de doutrina, dado uma teologia interpretativa correspondente às sociedades em que se encontravam incardinada ter sistematicamente desvalorizado o papel da feminilidade na mulher para, compensatoriamente, a expressar na liturgia e no culto mariano.

Seria um equívoco condicionar o princípio da masculinidade e da feminilidade aos papeis assumidos com base na tradição de reduzir os dois princípios a uma sexualidade de caracter funcional ou de confundir masculino e feminino (homem e mulher) com masculinidade e feminilidade. A Doutrina da Igreja não pode ser condicionada à moral sexual e menos ainda à matriz económico-política de mera masculinidade. (As lutas que se observam na praça em relação a homossexuais e lésbicas dão testemunho praticamente só da afirmação da masculinidade ou da afirmação de um polo contra o outro; neles falta a energia/princípio da feminilidade.)

Através de exclusão das mulheres, as lesões surgem e tornam-se cada vez mais dolorosas; não basta pregar a misericórdia, é preciso refletir sobre a mensagem cristã integral e praticá-la também a nível institucional (sabendo muito embora que é da natureza de toda a instituição humana ter um caracter masculino predominante!).

Porque esperar pela mudança só depois da morte; porque ter de gastar tantas energias na defesa de mudanças necessárias e que nem sequer contradizem o espírito que possibilitou os evangelhos há 2.000 anos.

O que falta praticar é Jesus Cristo. Ganhamos todos, homens e mulheres, com uma maior presença da feminilidade em cada pessoa e na humanidade.

(Este texto fará parte de um livro que há já muitos anos tenho à espera de ser publicado)

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

In “Pegadas do Tempo”

A IGREJA CATÓLICA É A MAIOR INSTITUIÇÃO BENFAZEJA DA HUMANIDADE

Ao Serviço de todo o Humano sem ter em conta Raça ou Ideologia

António Justo

A Agência Ecclesia noticia que a população católica mundial passou de 1 bilhão e 196 milhões no ano de 2010 para 1 bilhão e 313 milhões no final de 2017. A Europa conta com cerca de 22% da população católica mundial. O número de clérigos no mundo é” igual a 466.634, com 5353 bispos (3.992 diocesanos e 1.245 religiosos), 415.792 sacerdotes (281.297 diocesanos e 134.495 religiosos) e 46.312 diáconos permanentes (43.954diocesanos e 612 religiosos”. Religiosas (freiras): 682.729; Religiosos não sacerdotes: 54.559; Missionários leigos: 368.520. Seminaristas menores: 78.489 diocesanos e 24.453 religiosos; Seminaristas maiores:  116.939 diocesanos e religiosos; Catequistas: 3.264.768.

Estações missionárias com sacerdote residente: 1.864; Estações missionárias sem sacerdote residente: 136.572; Institutos seculares masculinos: 654; Institutos seculares femininos: 24.198.

Segundo as Estatísticas do Vaticano (1) a Igreja administra no mundo 5.158 hospitais;” 73.580 escolas maternais, frequentadas por 7.043.634 crianças; 96.283 escolas de ensino fundamental com 33.516.860 alunos; 46.339 institutos de educação secundária, com 19.760.924 estudantes. Acompanha ainda 2.477.636 alunos de escolas superiores e 2.719.643 estudantes universitários”.

Os institutos de beneficência administrados pela Igreja encontram-se na “ maioria na América (1.501) e na África (1.221); administra 16.523 postos de saúde, grande parte deles na África (5.230), América (4.667) e Ásia (3.584); 612 leprosários distribuídos principalmente na Ásia (313) e África (174); 15.679 casas para idosos, doentes crônicos e pessoas com deficiência, em maioria na Europa (8.304) e América (3.726); 9.492 orfanatos, a maioria na Ásia (3.859); 12.637 jardins de infância, e o maior número deles está na Ásia (3.422) e América (3.477); 14.576 consultórios matrimoniais, a maioria na Europa (5.670) e América (5.634); 3.782 centros de educação ou reeducação social e 37.601 instituições de outros tipos”.

Voltaire, que era inimigo da Igreja, referindo-se às irmãs católicas da França (“Santas Casas de Misericórdia” que foram fundadas pela Igreja em todo o mundo), dizia: “talvez não haja nada maior na terra do que o sacrifício da juventude e da beleza, realizado pelo sexo feminino para trabalhar nos hospitais para aliviar a miséria humana”.

A caridade ensinada por Cristo, de caracter universal, porque independente de profissão política ou religiosa, foi “algo novo” no mundo antigo e torna-se algo combatido no mundo pós-moderno… Tenho muitos colegas religiosos que, renunciando a enriquecer como eu, dedicam a sua vida inteira ao serviço dos pobres e à promoção do bem e do saber em meios que se não fossem eles viriam o  seu  progredir adiado por muito tempo.  São testemunhos do altruísmo num mundo que os ignora ou despreza porque o negócio desse mundo extremamente secularizado se tornou prisioneiro do egoísmo e da ideologia.

A Igreja benfazeja existe mas ninguém fala do bem dela porque é combatida pelo marxismo cultural que tomou conta do zeitgeist que se procura definir como oportuna crença em nome do superego e da emancipação que se quer, não ao serviço da autonomia e da comunidade humana, mas apenas ao serviço do “pensar politicamente correcto”  criado pelo sistema europeu de ideologia secular materialista e que se arroga o direito de supervisionar a opinião pública e de colonizar culturalmente outros povos sob o pretexto de progresso.

O cristianismo, como Igreja cristã, é certamente “a maior e mais alta forma de organização do espírito humano que existiu até hoje”, reconhecia já o filósofo e psiquiatra Karl Jaspers. É, de facto, a mais antiga instituição da humanidade! Hoje há organizações e filosofias (sobretudo marxistas) que querem varrer com a Igreja (porque como instituição possibilita a sustentabilidade do cristianismo na História) porque a consideram um empecilho ao seu intento de implementar na humanidade uma cultura materialista em que o indivíduo se torne mero objecto da História, simples sujeito/cliente, ao contrário do cristianismo que considera a pessoa humana como soberana e divina!

Geralmente, os Media, seguindo o zeitgeist do marxismo cultural, não gostam de falar da Igreja e se o fazem viram os seus holofotes apenas para o que corre mal. Como consciência da humanidade ela incomoda quem se quer orientar pelo capital e por ideologias materialistas; para estas o modelo é o socialismo-capitalista chinês.

António da Cunha Duarte Justo

In “Pegadas do Tempo”

 

DO USO DA SEXUALIDADE COMO MODO DE AFIRMAR PODERES E DE CRIAR UMA NOVA ORDEM MUNDIAL

Política-Economia-Ideologia apoderam-se do Tema Sexualidade para instalarem um novo paradigma social e subjugar os Biótopos culturais

Por António Justo

Ao longo da História, cada “economia” cria a sua ideologia e sub-ideologias circulantes em torno delas.

O desejo de poder expresso no pensamento apropriava-se, ontem, da sexualidade para a ordenar em favor da criação de biótopos culturais (família, tribo, Estado)  e hoje, que pretende instalar um sistema global latifundiário capitalista-socialista, apodera-se da sexualidade para implantar novas formas de poder (os novos poderes em formação querem o poder total através da manipulação da pessoa humana procurando reduzi-la a um mero produto cultural, e assim legitimar a intenção de a tornar mera cliente ou assalariada cultural; recorre para tal à desconstrução e desmitificação de supraestruturas de ordem natural e cultural que davam consistência a uma comunidade organizada em minifúndios e biótopos culturais.

A luta que antes se dava entre nações e vizinhos, devido à constituição orgânica das sociedades (o objectivo era uma tribo, uma nação afirmar-se em relação à  outra), na nova era do globalismo, o poder quer-se centralizado e monopolizado no sentido de se criar uma nova ordem mundial em que já não se tenha em conta as culturas nem os governos vizinhos mas apenas um governo mundial em que oligarcas do capital latifundiário e de uma ideologia materialista universal, ajudados por tecnologias virtuais monopolistas, imponham o seu poder às massas sistematicamente individualizadas e como tal desarmadas porque privadas do poder e das forças orgânicas a que antes pertenciam.

A sexualidade e a espiritualidade são duas forças irmãs que muitas vezes por equívoco se rivalizam.

A sexualidade é ao mesmo tempo colectiva e pessoal, mas como individualmente experimentada facilita o relativismo, pretendido pelos arquitectos da nova ordem mundial, porque determina, em grande parte, o modo de vivência da realidade enquanto procura de felicidade e de vínculos sociais. Consolador poderá ser a observação de a História se proceder num movimento pendular espiriforme em que um tempo julga o outro na tentativa de se definir para se afirmar.

Muitas das faculdades que possuímos têm a ver com a percepção da corporalidade e da sexualidade. O exercício da sexualidade é um bem social e individual, e deste modo conflituoso devido a interesses (entre indivíduo e sociedade), por vezes, contraditórios. Como no passado o controlo da sexualidade esteve ao serviço de instituições que a contextualizavam, hoje não escapa a novos interesses de poderes (entre eles “Lobby gay” e comunidade LGBT”) que se usam dela no sentido de a descontextualizar e instrumentalizar para paulatinamente instalarem um outro poder político-cultural. (Nesse sentido o seu apadrinhamento do islão revela-se como meio intermediário estratégico e ideal para atingir seus intentos de estabelecer uma nova ordem mundial, não só pela sua filosofia do poder, mas também como factor desestabilizador de biótopos culturais fortes; de facto encontramo-nos na era de prevalência da civilização ocidental que incomoda a instalação de uma nova ordem mundial, muito embora esta seja fruto dela).

A sexualidade, na perspectiva do casamento/matrimónio, fomenta a instituição família, portanto um conceito de organização social orgânica a partir de uma realidade natural básica e não só ideológica, que vai contra os interesses de progressistas que odeiam a trilogia ordeira Deus-Pátria-Família (Doloroso é que os abusos de uns justifiquem os abusos dos outros!).

A natura e a cultura vinculadas ao princípio da sustentabilidade e a um fim teleológico natural regulam a sexualidade não só no foro individual e da casuística, mas também no sentido comunitário através do direito habitudinário ou do grupo cultural (tensão entre procriação como garantia da sociedade e satisfação como atractivo da felicidade individual: a desvinculação sistemática dos dois princípios afigura-se como uma ameaça real à maternidade e à paternidade pois levaria muitos a ver igualados o acto de gerar ao acto de masturbar).

Querer elaborar o indivíduo sem comunidade tal como querer desligar a comunidade do indivíduo seria alheio à realidade natural e social factual (Em sociedades tribais e hegemónicas afirma-se a comunidade sacrificando-se-lhe o indivíduo, o Direito cultural impõe-se ao direito pessoal); na pretensa nova ordem mundial segue-se o inverso: afirma-se o indivíduo à custa da comunidade, o que leva à depreciação do que é institucional e orgânico. (Toda a sociedade, à imagem de um corpo, tem o seu organigrama interior, dependendo a funcionalidade do corpo da funcionalidade dos diversos órgãos e dos elementos entre si em função do bem-estar do corpo; atualmente, no pós-guerra, com o capitalismo liberal procura-se fazer da sociedade um corpo empolgado sem órgãos, apenas animado pelo capital e lucro numa massa de elementos sem função própria, mantidos apenas pelo invólucro da ideologia). O conflito social da Europa atual é explicável pela afirmação de dois princípios contraditórios: o comunitário medieval  islâmico (afirmação do gueto como estratégia de domínio globalista, em vez da imperialista) e o individualista europeu (afirmação da abertura mediante a negação da própria cultura); o princípio individualista, especialmente fomentado pela esquerda de base marxista pretende o fim da História das instituições e deste modo  que o indivíduo desapareça como a gota de água no grande oceano da anonimidade económico-ideológica ; a atracção pelo Budismo que hoje se regista no Ocidente, não acontece por acaso; o mesmo se diga da filosofia relativista promovida a partir da “Escola de Frankfurt”!

Os protagonistas pela instalação de uma nova ordem global têm a estratégia global de se implementar o capital anónimo como supraestrutura mundial sobre as infraestruturas culturais e geográficas apostando na destruição destas para, em nome do indivíduo particularizado e anonimizado, (enfraquecedor de interesses organizados em grupos orgânicos) dar lugar ao exercício da hegemonia dessas forças anónimas mundiais sobre instituições que não a sirvam (subjugação mais ou menos forçada de Estados, religiões, família, empresas, etc.) mediante o fomento de um ideário relativista que assenta contraditoriamente na afirmação do interesse particular, mas que desligado só beneficia o latifundiário absoluto que é quem possui o grande capital ( China poderia ver-se como modelo da união perfeita de capitalismo e socialismo: uma realidade regional com uma filosofia tradicional adequada que serve de modelo para uma organização mundial pós ONU). A luta assanhada da ideologia anti-cultura ocidental expressa-se de maneira aguerrida contra o Catolicismo, que é realidade e símbolo da maior ordem universal conseguida até hoje, sendo por isso considerada como o maior obstáculo para a consecução da nova ordem mundial que prefere partir do caos (pessoa tornada mero cliente e cidadão mero proletário de ideologias).

O relativismo oportuno a essa ideologia e programa submete tudo à eficiência do capital anónimo e à opinião individual como substrato de uma ideologia social que se quer apoiante da hegemonia de um comércio do capital em que o desgaste da concorrência é premiado com a satisfação do lucro e do consumo que pretende dar vida à actividade individual e social (A satisfação da nova “espiritualidade” deve ser conseguida não já nas atividades litúrgicas, mais ou menos dominicais,  mas no shopping e na ocupação em torno das necessidades primárias.

Passa-se de uma sociedade até agora mantida pela relação interpessoal e uma relação chefe-empregado para uma sociedade sem relação nem alma em que a vida é suportada apenas por acções ou compromissos comerciais e por ordens superiores, até virtuais, que a todos instrumentaliza. Cria-se um mundo em que a energia é o trabalho e em que a satisfação é o lucro onde a relação se reduz a mera estratégia para se chegar a ele (pessoa/cidadão apenas meio para se atingir um fim).

No meu entender e no que respeita à homossexualidade, o que está em questão não é o julgamento positivo ou negativo de pessoas homossexuais ou heterossexuais; os homossexuais são instrumentalizados como barcos de papel entre forças de duas ondas em estado de erosão uma contra a outra;  o que está em jogo é a exigência de igualar a instituição casamento/matrimónio de homem e mulher à  vida comum de dois homens ou de duas mulheres (emparelhar no significado impróprio de acasalar!) e, deste modo, introduzir no pensamento humano o domínio da confusão para melhor se pescar nas águas turvas da sociedade (é a destruição da instituição família a pretexto de desejos individuais legítimos mas descontextualizados). Encontram-se em confronto dois rivais do mesmo poder: o dos que representam as instituições tradicionais e a natureza e o dos que querem chamar o poder a si em nome da cultura e contra a natura, puxando, uns e outros, na chicle da sexualidade.

Atendendo a isto a discussão pública não deveria pôr em questão o indivíduo heterossexual nem o homossexual, mas dar atenção ao ritual desejado público, que as lóbis Gay querem que seja o “Casamento/Matrimónio”.  Estas, porém tornam-se no braço comprido da ideologia interessada na desconstrução da sociedade e em impor o Mamon (símbolo do prazer e do lucro) como único senhor sobre o mundo e para tal tem de usar a estratégia contra toda a organização que por si mesma expresse uma força orgânica do tipo biótopo cultural (O Mamon como latifundiário único apodera-se dos minifúndios culturais usando, para isso, a estratégia do relativismo moral e cultural desautorizador de toda a instituição, estrategicamente apresentada como inimiga do indivíduo (o que vale é a ideologia indefinida e sem limites – para isso se espalha o terreno do caos – que prepare o caminho para uma nova ordem mundial de cunho materialista de indivíduos nascidos sem cordão umbilical).

A relação e a responsabilidade directa ao serem tiradas do biótopo cultural (minifúndio, no caso, a família), para ser transferida para o órgão dinossáurio anónimo, inverte a relação do indivíduo para a instituição orgânica mais baixa (directa) passando o indivíduo a depender de uma estrutura global tipo polvo contra a qual ele se torna totalmente impotente, dado ter deixado de ser orgânico para se transformar apenas num elemento a relacionar-se já não com um órgão imediato estruturado de que faria parte mas apenas como elemento num corpo anónimo, ficando-lhe como mero recurso próprio o controlo da própria necessidade sem possibilidade de solidariedades orgânicas no tal pretenso corpo, porque o tal corpo anónimo até as necessidade pilotaria.

Sem querer desvalorizar o valor da simbologia que se encontra por trás da mística do casamento já bem presente no Cântico dos Cânticos, na Igreja e na mística cristã penso que, eclesialmente, a homossexualidade se trate só, como constante variável, no ramo da pastoral.

Na polis é natural que grupos gays politizem o tema da homossexualidade que, para ganharem rosto social, se querem organizados porque só a organização possibilita uma afirmação eficiente de interesses na polis; os políticos, por sua vez, apropriam-se do tema da sexualidade para atingir fins ideológicos e a longo prazo conseguirem implementar uma nova consciência social: o uso do factor medo e sexo revelam-se sempre como grandes mananciais para quem pretende adquirir poder ou manter-se nele; estes factores revelam-se eficientes porque o povo não nota, dirigindo a atenção só para as necessidades primárias, aquelas que legitimam o poder de quem manda!

Turbo-capitalismo e agentes de anti cultura ocidental unem-se procurando enfileirar os seus multiplicadores e destinatários no relativismo comportamental e cultural como estratégia eficiente para desestabilizar a sociedade e sistemas de valores tradicionais (cria-se uma miscelânea de valores, contravalores e novos valores). O que está em causa é o alinhamento das massas e com elas a afirmação da vontade de poder de grupos interesseiros. De facto, quem não se organiza cede as rédeas da sociedade àqueles que depois critica ou condena. (Temos no islão um exemplo de organização de interesses descentralizada que é tolerada por se encontrar ao serviço da grande massa comunitária. Certamente também por isso, a esquerda tem muitos laços comuns com ele.)

Antes do heterossexual e do homossexual está a pessoa humana

Definimo-nos primeiramente como pessoas, pessoas também sexuadas portadoras de masculinidade e de feminilidade, que embora a natureza queira, não se deixam reduzir à sua função procriadora.  Segundo investigações sociológicas a orientação homossexual, encontra-se presente em, pelo menos, 5% da população. Como ensina a natureza não se resolvem os problemas sociais aniquilando a variedade e a diferença, mas aceitando-a. A excepção confirma a regra, não tendo necessariamente de ser uma contra a outra!

Quanto ao exercício da sexualidade individual entre iguais, este será de avaliar na qualidade de vida dos parceiros. Na Igreja católica da Alemanha, em muitas igrejas, há já o costume de, no dia dos namorados, serem abençoados nas igrejas todos os casais que aparecem; é abençoado quem vem à liturgia “independentemente de serem casados, divorciados ou do mesmo sexo”(1). Assim se respeita a diferença e em certo sentido a comunidade.

Muitos homossexuais sofrem não pelo que são, mas pelo que outros pensam que devam ser. Muitos sofrem uma vida inteira, por, nem sequer, poderem falar sobre uma inclinação que sentem em si, mas que não corresponde à normalidade do que a sociedade aceita. Tanto na vida familiar como na vida do seminário este é um tema de que não se fala. O que conduz alguns para a solidão e isolamento.

Tem que se ter a empatia de ver a tragédia da vida de uma criança que se sente diferente e não pode declará-lo sequer perante os pais e passa uma vida a tentar ser normal não o sendo na visão da normalidade. O que não se pode expressar dilacera uma pessoa e torna-se numa ferida incurável.

Tal como grupos gays se desqualificam na sua luta politizada também seria associal diabolizar ou catalogar alguém pela expressão da sua inclinação ou também pela sua opinião! Há grupos gays que, mais que interessados na defesa e aceitação dos homossexuais na sociedade, pretendem lutar contra o matrimónio, instituição que une homem e mulher e assim negar-lhe o seu caracter natural e cultural.

A vontade de ver reconhecida a homossexualidade em actos culturais públicos e simbólicos, como se reconhece ao Homem e mulher com o casamento, pode, com o tempo, vir a criar expressões sociais cívicas e até religiosas análogas para as uniões homo. A fixação de homossexuais na reivindicação da instituição do casamento assume um caracter ideológico e pretende usufruir do prestígio e das vantagens que o Estado concede ao matrimónio com a intenção de garantir a sustentabilidade de um povo e a solidariedade económica e de serviços, entre as gerações.

Também na Igreja católica seria de desejar evitar a atitude contraditória em relação à homossexualidade embora nessa contradição aquela atribua um lugar soberano à atitude/consciência individual. Atendendo aos preconceitos sociais ainda hoje constitui um acto de coragem declarar-se homossexual, o que não aconteceria se cada qual respeitasse a dignidade do outro (Neste contexto, também é de não esquecer que poderes meramente materiais económicos e de ideologia procuram desestabilizar a sociedade querendo até destruir as raízes dela e o seu humus religioso).

No clero, tal como no corpo diplomático, não seria tão notória a presença homossexual, o que poderia predispor tendências para tais carreiras. Na enfermagem também há bastantes pessoas homossexuais. Há atmosferas especiais que podem favorecer tais tendências…, também se conhecem casos em que pessoas procuram uma solução através do casamento fictício como alternativa.

Os bispos de Paderborn e de Munster, na Alemanha, declararam que não veem numa disposição homossexual um obstáculo à ordenação sacerdotal, tal como o não veem para os heterossexuais na disposição para o sexo oposto. O problema surge no momento do não cumprimento do celibato.  Na igreja é tolerado o padre com tendências homossexuais desde que as não viva concretamente, como pressupõe das condições de vida de um padre. Facto é que tanto heterossexuais como homossexuais, nas diferentes profissões são correctas nas relações com outras pessoas (homens ou mulheres).

Hoje muitas pessoas já não casam primeiramente para terem filhos e não existe a consciência de Abraão em que numerosos filhos era sinal da bênção de Deus e o sentido das crianças já não é só assegurar a existência da tribo. Agora que a terra se encontra toda povoada surgem movimentos contra a procriação.

Cada um é como é, e do conhecimento que tive com pares homossexuais, verifiquei que, por vezes, têm talentos e aptidões próprias muito positivos e especiais no trato, talentos esses que poderiam ser de proveito no serviço social e pastoral da comunidade.

À hora de tomar medidas, a igreja não deve ter medo da arrogância de pessoas que, na câmara escura da sua opinião, julgam as outras pessoas pela rasoura do que é costume sem entender que a natureza é mais completa por integrar nela não só a regra, mas também a excepção (naturalmente sem que esta se torne regra como quer, por vezes, a ideologia Gender e Gay).

Há que distinguir entre a luta de instituições e ONGs pelo poder e o destino das pessoas que são sacrificadas em nome do poder ou da ideologia. O Papa Francisco não julga a pessoa homossexual, mas confessa: “O problema não é ter essa orientação. Devemos ser irmãos. O problema é o lobby por esta orientação, ou lobbies de pessoas gananciosas, lobbies políticos, lobbies maçónicos, tantos lobbies. Este é o pior dos prolemas”.

Também a igreja tem sombras (muitos esquecem que como toda a instituição é formada de homens e mulheres que são como são e não como se desejaria que fossem, e assim projectam a sua luz e sombra por onde passam) mas quem experimentou a luz de dentro não perde a luz que através dela recebeu, a mensagem cristã  e a experiência de Cristo, que passa também na vivência de tanta gente que se contactou na igreja e fora dela, apesar da visão desagradável da sexualidade na hierarquia da igreja.

A renovação da igreja nem sempre segue as pegadas do Espírito Santo; por natureza manca bastante atrás dele. Na igreja encontro o que não encontro em nenhuma outra instituição, por muito respeito que tenha por todas as outras, mas não impede de ver também as sombras que ela deixa. A teologia pastoral da igreja precisa de adaptar certas declarações doutrinárias aos novos dados da ciência, tendo em conta as pessoas concretas sem se cair na crendice científica.

Também a vocação das mulheres nos serviços da igreja, começando com o diaconado, deve acontecer, não por falta de sacerdotes, mas por apreciação do seu valor consignado pelo evangelho da igualdade de homem e mulher (sacerdócio comum) num diálogo mais ou menos equilibrado entre feminilidades e masculinidade.

Certos problemas com a homossexualidade resultam do princípio que o lugar para se viver a sexualidade é o matrimónio de forma aberta à procriação de crianças. No cristianismo a revelação de Deus expressa-se na comunhão de que a união de cristo-Igreja, homem-mulher, encarnação-ressurreição, espírito e matéria se expressam de forma ideal a realidade material e espiritual de forma prototípica em Jesus-Cristo, vida e vivência em processo contínuo de caracter trinitário. O eu mais o tu são mais que o nós!

Jesus Cristo chamou-nos a andar sobre as águas (Mat.14:22-36) e para ter confiança nEle apresentando como pressuposto o abandono do medo e de “fantasmas” de muitas ideias e que nos levam a ser “Homens de pouca fé”.

Deus, como o céu encontra-se em toda a parte, independentemente do aqui e acolá. Precisamos de uma linguagem não exclusiva, mas que coloque tudo em diálogo e em relação, segundo a matriz da fórmula trinitária que é expressão da verdadeira vida vivida. A luta secular da afirmação da negação do outro como contrário deve ser estranha a uma espiritualidade cristã que une os aparentemente contrários. O aproveitamento e a instrumentalização da sexualidade especialmente pela esquerda não facilitam a abertura das mentes conservadoras para todos trabalharmos no sentido da inclusão (2).

Não fosse a luta de interesses pelo poder, porque gastar tantas energias em assuntos secundários na Igreja e na sociedade em geral?

As Dores da Mudança

Desde o concílio Vaticano II e com a geração 68 encontramo-nos num tempo de mudanças paradigmáticas em toda a sociedade, sendo de reconhecer muito embora que algumas delas são fruto do espírito do tempo, da moda passageira e de interesses surgentes.

A mudança é necessariamente sentida como crise, porque as pessoas são educadas para seguirem actos rotineiros e outros não percebem sequer o sentido que a mudança leva.  A moral e o direito que antes eram confecionados em torno (dos interesses institucionais) do Estado e da família passaram a fundar-se nos direitos humanos individuais (1948), nos interesses da cidadania. Impercetivelmente, isto implica uma mudança radical na perspectiva da elaboração do Direito e do delineamento da moral. Há que estarmos atentos ao que será lícito e ao que ocorre ilegitimamente.

Numa época da individualização de direitos garantidos que antes se adquiriam por pertença a uma instituição observa-se uma desestabilização das instituições e a afirmação de individualismos desenraizados, organizados agora em torno de poderes individualistas e anónimos (capital + ideologias). Organizações e instituições, sem a consciência de órgãos de um mesmo organismo, lutam umas contra as outras em vez de tentarem evoluir no serviço do todo social. Sofrem os Estados tendo de abdicar de certas soberanias, sofre a Igreja ao ver a humanidade degradar-se e a família desmantelar-se, sofre o sistema político ao verificar que o sistema corporativista do Estado se encontra desestabilizado devido à falta de confiança de um eleitorado já não fiel à instituição, corporação ou partido. O caracter político estatal e eclesial ainda não encontraram um novo modus faciendi correspondente ao novo perfil de cidadão em formação com um ideário próprio e uma moral cada vez mais de tipo à la carte.

De uma sociedade antes predominantemente organizada num sistema de corporativas solidárias e em sistemas morais coesos está-se a viver a fase de uma sociedade já não tanto fundamentada em organizações como a família, mas nos direitos humanos individuais. Naturalmente numa altura em que se expressa mais o indivíduo contra a instituição (família, religião, pátria) torna-se tudo mais doloroso e surgem grupos que se aproveitam do empasse para destruir revelando-se exclusivamente a favor de um polo da realidade e radicalmente contra o outro. (Passou-se de um extremo do poderio das instituições sobre as pessoas para o poderio do indivíduo contra as instituições culturais; isto, em parte, seguindo aspirações legítimas, mas de facto em favor da hegemonia do poder anónimo do capital e de ideologias suportes).

O facto de grande parte da sociedade não poder preocupar-se com as razões profundas do sentido da vida e da vida social não pode justificar que as instituições políticas e religiosas fomentem e explorem essa situação, deixando de corresponder ao apelo do bem comum e do evangelho, de não se deixar prender por hábitos meramente circunstanciais que amarram o Homem a modas ou a certas tradições e hábitos. Elucidação, esclarecimento do povo de maneira integral seria a palavra de ordem para se chegar a uma cidadania/democracia de qualidade.

Teologia, filosofia, política, ciência, artistas, crentes e não crentes temos que entrar todos em diálogo inclusivo, na consciência que somos todos irmãos-gémeos, filhos do mesmo Deus, todos ao serviço de todos na grande realidade que é a diferença: aquilo que nos individua e pode definir. Jesus venceu a dor integrando-a nele!

Fica a controvérsia num assunto, como tantos outros envolvidos pelo mistério da vida e pelas marcas do tempo. O ideal cristão e a natureza convidam-nos a fraternizar com a diferença sem termos de nos identificar com ela nem tão-pouco de nos perdermos em moralizações valorativas ou depreciativas.

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo (Português e História)

Pegadas do Tempo

  • (1) Diz o Pe. Harald Fischer, Decano da igreja católica em Kassel: “no Dia dos Namorados, temos abençoado todos os casais que vêm à igreja desde há anos, independentemente de serem casados, divorciados ou do mesmo sexo”.
  • (2) Até 1973 a Organização Mundial de Saúde (OMS), entidade ligada à ONU, afirmava que homossexualismo era distúrbio psicológico. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou uma resolução em 23 de março/99 proibindo os psicólogos de dizerem que podem ser ajudados a mudar sua orientação sexual. Pedofilia, homossexualismo é visto ora como doença, ora como desvio comportamental, dado a ciência não encontrar explicação convincente que façam uma pessoa homossexual (factores inactos (DNA), factores adquiridos e factores psicológicos. Trata-se de uma aceitação de tipos de relacionamentos. Muitos homossexuais sentem-se no direito de uma vida digna e em face ao preconceito caem no isolamento e na depressão; ninguém escolhe o isolamento nem é masoquista a ponto de gostar da exclusão. Alguns artigos meus relacionados com o temas : Porque não considerar sexualidade e espiritualidade como energias complementares… Celibato – Ontem uma Bênção – Hoje um Problema. O caracter apelativo do sexo e ainda Mulher de fraudada e Casamento civil para homossexuais : https://triplovblog.wordpress.com/2015/06/18/casamento-civil-de-homossexuais/

 

 

TOLERÂNCIA E PRECONCEITO – DOIS PRESSUPOSTOS DO PENSAMENTO

Como o Rebanho a pastar no Lameiro do politicamente Correcto da Polis

Por António Justo

Todos nós estamos mais ou menos prisioneiros da época em que vivemos. Por isso condenamos facilmente outras épocas e tempos, sem notarmos que o motivo que nos leva a condenar apressadamente o passado e os outros é o mesmo que impede de condenarmos o que se passa em nós e no nosso tempo.

Uma necessidade intemperada de definição e de identificação leva-nos a definir o outro como o oposto para assim nos vivenciarmos como próprios; se nos definíssemos no Outro, com letra maiúscula, certamente encontraríamos muito de comum em nós e nos outros e nos sentiríamos agradecidos por através deles nos sentirmos mais nós. Objecto de análise terá de ser sempre nós e os outros no tapete do passado e do presente numa perspectiva de futuro.

Quando se vê o problema, a culpa só nos outros significa que anda não nos conhecemos bem e deste modo não se não nota a necessidade de mudar. Deste modo se dissimula e abafa a justiça. Porém só a veracidade e a compreensão têm futuro. As instituições e ideologias podem ser bengalas a que nos apoiamos, mas seria um atraso de vida andarmos sempre agarrados a elas.

Até as leis e a jurisprudência, que parecem tão objetivas, incluem uma grande margem de interpretação, para poderem ser aplicadas segundo o “zeitgeist”, dos  interesses e princípios que se vão mudando ao longo do tempo. Por isso as leis têm um espaço de discernimento (discricionariedade judicial) além do  caráter político.

O julgamento do tempo é geralmente o pensar politicamente correcto (o crivo) que se pressupõe corresponder à ideologia da classe dominante para a maioria ou à lógica considerada certa. Em vez de nos referenciarmos com o Outro somos enredados na visão do Zeitgeist.

Os tempos mudam rapidamente, as mentalidades levam muito mais tempo a mudar-se; quanto às opiniões a mudança anda a par com a capacidade de reflexão pessoal e com as circunstancias acompanhantes.

Na sociedade contemporânea o Zeitgeist impede a reflexão e uma análise objectiva sobre a relação entre a realidade e o que somos levados a apreender dela. Hoje em dia, as reivindicações morais dos indivíduos estão acima da lei e da ordem (cf. Carla Rackete). Democracia sem leis não funciona. Tudo depende de todos, uns completam o que falta aos outros, por isso quanto mais todos mais tudo.

Num meio simplicista que divide a sociedade, a política, a crença em bons e maus a reconciliação não entra em jogo. Impossibilita-se a compreensão da mentalidade do adversário porque não se reflectiu sobre a nossa.

© António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

In “Pegadas do Tempo”