RELAÇÕES ESTADO – IGREJA NA RÚSSIA

“Nacionalizações” da Ortodoxia e Irritação entre Igrejas

As sociedades em desenvolvimento natural ou em processo de afirmação precisam, de um tecto metafísico que lhes dê consistência e uma cobertura possibilitadora de identificação e de fomento de comunidade. Na China temos o comunismo/confucianismo, no Ocidente os valores e direitos humanos (cristianismo), na Rússia a Ortodoxia, em países de cultura árabe o islão, na Índia o induísmo… 

A Igreja Ortodoxa Russa encontra-se numa situação muito complicada já desde o colapso da União Soviética e especialmente agora porque a guerra tem forçado as diferentes denominações a tomarem uma posição política clara! Num momento em que os nacionalismos se afirmam, surgem as “nacionalizações” da ortodoxia; países em construcção nacional alcançam autocefalia e independência das igrejas-mãe ortodoxas. Já antes da invasão russa, mais de 45% da população da Ucrânia pertencia ao Patriarcado de Kiev e cerca de 13% ao Patriarcado de Moscovo e 1,3% à Igreja Ortodoxa Autocefálica Ucraniana. É curioso que também a Igreja Ortodoxa Sérvia concedeu agora autocefalia à Igreja Ortodoxa da Macedónia (1)!

Em entrevista (2) o Papa Francisco criticou o Patriarca ortodoxo Cirilo I por não se distanciar de Putin na guerra com a Ucrânia. O Papa disse que Cirilo não deveria ser “ministro de Putin„(ministro = servidor), mas também não esqueceu de dizer que “o verdadeiro “escândalo” da guerra de Putin era “o ladrar da NATO às portas da Rússia”, fazendo com que o Kremlin “reagisse erradamente e desencadeasse o conflito”!

Na realidade, o argumento “desnazificar a Ucrânia”, usado por Putin para invadir o país, é inadmissível e situa-se na mesma lógica imperialista de intervenções levadas a efeito pelos EUA/NATO em nome da defesa dos valores europeus que diziam defender na terminada guerra do Afeganistão, etc.! Esta lógica, sempre nas mãos de potências fortes (tal como o recurso ao bloqueio Comercial) faz parte das estratégias elaboradas para afirmar a confrontação/rivalidade e impedir o surgir de uma cultura que tenha como base e fim a paz entre os povos! Uma cultura da paz terá de superar a estratégia de visão linear ou causal exclusiva para passar a uma estratégia de visão multifacetada numa  relação de complementaridade inclusiva.

Não há perspectiva sem paisagem; o mesmo se diga do texto e do pensamento que carece sempre do seu enquadramento cultural, a paisagem cultural (mental-emocional-social) envolvente para poder ser compreendido (o compreender possibilita o concordar, o discordar ou a alternativa)! O enquadramento do texto no seu contexto viabiliza observar conotações e denotações e deste modo a hipótese de uma observação mais diferenciada com conclusões mais aferidas e como tal mais comedidas! 

Uma análise dos diferentes “biótopos” culturais e correspondentes condicionantes possibilitaria uma ampliação de horizontes que proporcionaria ultrapassar preconceitos de mentalidades produzidas dentro de modelos que se afirmam na forma adversativa!

A crítica do Papa causou bastante descontentamento no Patriarcado de Moscovo resfriando as relações com o Vaticano. O Papa tem razão porque a guerra não poderá ser legitimada cristãmente!

O Patriarca Cirilo I na qualidade de chefe religioso encontra-se entre a espada e a parede; entre a fidelidade ao evangelho e o papel institucional político (poder)!  As relação igreja-estado vão-se adaptando à consciência social e histórica de cada sociedade!

Na Rússia a ortodoxia revela-se como factor de identificação nacional e de união do seu povo; o comunismo já não serve a unidade, a ortodoxia compensa essa falta de que se socorre o poder secular em termos de complementaridade. Na relação Estado-Igreja, Cirilo deu prevalência à perspectiva cristandade descurando a do cristianismo! 

Um outro aspecto a ter em consideração reside nas distintas velocidades a que andam as diferentes culturas em termos de sua contextualização e factores de identificação; estas  expressam-se nas sociedades e na História (sociologia, política…) com rosto próprio, o que não legitima uma cultura arrogar-se o direito de condenar ou se impor à outra e para mais numa situação em que se encontram razões de Estado frente a frente.

É um facto que a Rússia, o maior país do mundo, com diferentes povos e como tal terá uma dinâmica estatal interna muito diferente da de um Portugal homogénio; seria cínico o argumento de que uma “superioridade” de valores europeus – direitos humanos, etc – pudesse constituir argumento para motivar a subjugação russa ao Ocidente ou possa até ser usada como motivo de guerra. Este é um argumento hipócrita que o Ocidente usa como pau de dois bicos para legitimar, por um lado, a sua violência e expressões imperialistas desestabilizadoras de países, quando por outro lado defende a legítima liberdade de autolegitimação dos povos indianos na América latina no direito à sua autonomia!

O Ocidente, constituído por unidades de povos mais ou menos homogéneos, usa hipocritamente de um argumento para se insurgir contra centralismos que não respeitam as identidades legítimas nos seus países e, em seu benefício, faz uso do argumento da democracia e dos direitos humanos para intervir e desestabilizar povos multiculturais onde a colonização interna ainda se encontra em processo. Deste modo, o imperialismo económico junta-se ao mental servindo-se de expressões moralistas como legitimadores do fomento de estruturas de violência.

A consciência, a nível social e individual, de cada cultura adapta-se paulatinamente ao desenvolvimento das suas circunstâncias históricas (numa correlação mais ou menos emancipatória de medida de forças entre indivíduo (grupos cívicos) e instituição); da afirmação dos vários grupos dentro de cada sociedade num encadeamento de concorrência-colaboração-dispersão entre eles e também numa relação de interculturalidade se vão criando novas expressões de Estado. Imagine-se que as verbas que as potências disponibilizam para a guerra fossem aplicadas no desenvolvimento económico dos povos! O desenvolvimento e a “justiça” que querem provocar através de guerras seria mais eficiente se fosse aplicado nos enriquecimentos dos correspondentes povos!

O Estado ao deixar de ser confessional devido ao surgir de grupos, ideologias e mundividências concorrentes é levado a cortar o cordão umbilical com a Igreja e vice-versa (igreja que abrigava tendências concorrentes sob o mesmo tecto). À medida que se processa uma emancipação, normal ou exagerada do indivíduo em relação à comunidade, vão surgindo novas formas políticas de adaptação ao cidadão que se afirma no princípio da liberdade e como tal, na ênfase dos direitos humanos.

Podemos observar que com o protestantismo (sec. XVI), apesar dos seus aspectos positivos, se expressou um certo extremo de emancipação do crente em relação à comunidade religiosa, levando-o, porém, a um certo encosto ao poder secular. No Catolicismo tem-se mantido ou procurado manter uma certa balance de equilíbrio na relação e interdependência de crente-comunidade e como o crente é ao mesmo tempo cidadão houve um correspondente desenvolvimento nas relações Estado-Igreja que vinha da admoestação de Jesus: “A Deus o que é de Deus e a César o que é de César”!

Na consciência social histórica o caracter religioso divino-humano (da filiação divina) determinou a definição da pessoa humana como soberana em relação às instituições (daí a ilegitimidade da pena de morte no consenso cristão); a dignidade humana foi sendo assumida na sociedade secular ocidental através da afirmação da liberdade humana e dos direitos humanos! O mesmo se pode observar historicamente na Europa onde a assistência educacional e de saúde foi passando dos conventos para a assistência social do Estado.

Atualmente, uma vontade política secular ocidental, partindo da sua consciência histórica vigente, reage de maneira exacerbada em relação à Ortodoxia, o que seria compreensível em termos de cristianismo, mas o que move as potências ocidentais tal como a federação russa não é o cristianismo, mas o poder político e económico de domínio a disputar-se entre a Rússia e a Nato, o que por outro lado leva a ortodoxia a reagir de modo a optar no sentido cultural de cristandade! (O que as elites ocidentais exageram no sentido secular talvez a Rússia esteja a exagerar no sentido religioso; das sociedades muçulmanas e hindus, não se fale!)

A discussão torna-se desequilibrada tendo em conta a perspectiva de observação relativo ao processo de aculturação-inculturação-secularização em relação ao cristianismo e aos povos/sociedades/culturas onde se encontra inserido. Se Cirilo I comete o erro de comprometer demasiado a igreja com o Estado, o Ocidente comete o erro de, por razões óbvias de poder, querer ver a sociedade russa desunida para mais facilmente ser desmembrada e, enfraquecida, tornar-se mais acessível ao poder ocidental! Daí ser muito necessário o espírito de discernimento ao avaliarem-se fenómenos como os que acontecem agora em atmosfera de guerra! (De não esquecer que uma das acções de empenho do Ocidente na Ucrânia foi dividir a ortodoxia na Ucrânia anos antes da intervenção de 24 de fevereiro!

Lamentavelmente, a opinião pública é induzida em erro ao ser levada a pensar que em política se trata de humanismo e não de poder, de moral e não de interesses bem egoístas que por vezes se resumem em “razões de Estado” à mistura de interesses das elites, mas apresentados às populações  como se se tratasse só de aspectos humanos morais em benefício delas! Por outro lado, muitos cidadãos cristãos do Ocidente são levados a criticar severamente o Patriarca ortodoxo não notando que estão a ser levados de Pontius Pilatos para Herodes e vice-versa! Não tem havido um discurso democrático humano no espaço público e o que existe está agora a desenvolver uma dinâmica perigosamente destrutiva. A fim de se ultrapassar a divisão entre Oriente e Ocidente, divisão esta que atravessa também a nossa sociedade, é necessário aprender de novo a argumentar segundo o método da controvérsia (3), de maneira a adoptar-se um discurso humano inclusivo que, movido pelo respeito, omita a discriminação e a exclusão.

O governo de Moscovo e a jerarquia ortodoxa ainda caminham em colaboração numa presumível intenção de defesa nacional pelo que, como sistema fechado, permanece um dogmatismo próprio sem grande lugar para relaxamento, mas que, na melhor das hipóteses poderia dar origem  a  grupos, ancorados na sua própria cultura, possibilitadores do surgir de uma democracia de baixo para cima e não como aspiraria o ocidente, de grupos meramente poderosos de domínio do homem sobre o homem!

A abertura ou liberalização da Nação (união de Deus-Pátria-família) é processual e a mundivisão que atualmente domina o Ocidente é que do dueto Igreja-Estado se passe a uma sinfonia político-cultural. A sinfonia torna-se, porém, disfónica dado o facto de termos uma democracia partidária também com um organigrama piramidal baseada no poder e não na relação humana orgânica; a perspectiva continua a ser o vértice da pirâmide e não a sua base numa estratégia de dividir e não de unir para melhor assegurar o poder de alguns (o poder e a decisão em vez de se operar no sentido de baixo para cima opera-se no sentido de cima para baixo). Como é natural, tudo olha para cima, para Deus, para o Sol, sem ter em grande conta a elevação, divindade e luz que brilha no interior da comunidade humana e em cada um (JC como protótipo do humano)! Neste sentido seria necessária uma nova impostação individual, social e institucional que partisse da consciência da base (pessoa e comunidades de vida), num actuar de democracia de base, e como tal da “aldeia” para a região e da região para a nação e da nação para confederações internacionais e não no sentido inverso de um globalismo controlador imposto de cima para baixo como observamos no sistema liberal capitalista e no socialismo e resumido no sistema chinês (4)!

O direito socializa-se passando-se de um direito dual (Igreja-Estado) para um direito plural (concorrência de interesses expressa em partidos).

Será do interesse do Estado manter sempre uma boa relação com as confissões religiosas até para não provocar a afirmação de confissões que unam o direito de Deus ao de César na própria comunidade, o que poderia tornar-se problemático num sistema secular pluripartidário meramente ligado a interesses civis (porque razões de poder poderiam levar grupos religiosos a organizarem-se em partidos com consequências imprevisíveis  para a sociedade ocidental… (a ponto de poder criar uma relação social político-religiosa  como se pode observar nas sociedades de religião muçulmana onde culto privado e culto público se unem dando-lhe maior consistência e sustentabilidade! As junções de poderes nas sociedades republicanas poderiam tornar-se num perigo para república laica.

Terá que haver sempre uma colaboração entre a ordem espiritual e a ordem secular no seguimento bipartido ocidental: a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.

 

O Constantinismo conduziu a uma certa secularização do cristianismo e, por outro, a uma certa cristianização dos órgãos de poder (Criou-se também uma relação mais no sentido de cristandade do que de cristianismo genuíno)! Que Constantino tenha adoptado o Cristianismo e o tenha instrumentalizado como ferramenta para adiar a queda do império romano só revela a inteligência política de Constantino que tinha feito as suas experiências em terras ibéricas e sabia equacionar os problemas reais do império romano!

O secular e o natural têm de coexistir numa correlação complementaridade, tal como acontece na ordem da vida.

Para se avaliar diferentes biótopos culturais são necessárias criatividade e multi-perspectivas de observação para possibilitar a criação de impulsos inovadores na sociedade civil e religiosa.

Numa época em que todos os bons espíritos nos abandonaram, precisamos de reflectir para agir humanamente! Urge uma mudança de paradigma no tratamento da diversidade cultural do outro (parceiro e adversário), de maneira a permitir um fluxo na transversalidade e não de cima para baixo.  Em vez de se cultivar um discurso/diálogo num contexto orientado para a negatividade ou para o défice, o respeito e a compreensão cultural da diferença deverão conduzir a uma transversalidade de ideias e atitudes pela positiva e a reconhecer nelas potencialidades enriquecedoras de um lado e do outro, de maneira a poder-se encetar um caminhar comum! Interessante para a ordem do dia seria o que nos une e não o que nos separa!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo, https://antonio-justo.eu/?p=7509

(1) O colapso da União Soviética tornou difícl a situação d a ortodoxia “Santa Rússia” (Rússia, Ucrânia, Bielorrússia)!  , Em 1992, numerosas paróquias ortodoxas separaram-se da Igreja Ortodoxa Ucraniana, que estava sob o controlo do Patriarcado de Moscovo. Em 2019 o Patriarca Ecuménico Ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, concedeu autonomia à Ortodoxia Ucraniana. O Metropolita Epifânio de Kiev disse: “Existe agora a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala Ortodoxa. Cf.:https://www.deutschlandfunkkultur.de/orthodoxe-kirche-ukraine-100.html

(2) https://antonio-justo.eu/?p=7410

(3) https://antonio-justo.eu/?p=3336

(4) Uma unidade que por um lado favoreceria a razão de Estado é contrariada por diversificações do cidadão e das diferentes organizações ou cooperações concorrentes dentro do Estado numa diferenciação de interesses quer religiosos quer civis: ao deixar de haver um tecto religioso unitário de uma sociedade e paralelamente ao processar-se uma  diferenciação de mundivisões civis dentro de um estado, a  obediência civil que antes era indiferenciada passa a diferenciar-se também ela (concretizada em partidos e confissões religiosas) e assim em vez de termos o ceptro religioso e o ceptro monárquico passou o poder, com a República de espírito maçónico, a diferenciar-se de maneira acentuada entre o ceptro religioso de um lado e do outro o ceptro secular, uma espécie de monarquia sem ceptro (república) que em vez do rei tem o Presidente e o parlamento..

 

DIA DO ABRAÇO E SEU SIGNIFICADO

Um abraço directo e até na fantasia produz milagres, especialmente quando é mais prolongado. O toque é a primeira forma de comunicação!

Um abraço frequente com ternura e carinho serena o corpo e fortalece a alma. Abraçar, acariciar e beijar estimula no corpo (glândulas) a produção de hormonas de felicidade. Tem um efeito saudável porque a hormona oxitocina aumenta no corpo a hormona da felicidade e decompõe as hormonas do estresse.

A ciência ensina que uma criança que é muito abraçada e acarinhada alcança um IC (quociente de inteligência) mais alto. A proximidade do corpo e o contacto fortalecem o sistema imunológico. Abraçar pode baixar a pressão arterial e estabilizar favoravelmente o sistema cardiovascular. O abraço harmoniza a alma, evita agressões e aumenta a autoconfiança!

Estatisticamente, as pessoas sem parceiro têm uma expectativa de vida menor.

Nós, humanos, precisamos de mais proximidade com as pessoas, mas também temos que dar-lhes a chance de criar proximidade.

O dia do abraço pode ser uma oportunidade para o tornarmos mais consciente e sermos mais pródigos com ele porque é um grande presente, aproxima, dá saúde e faz crescer a alma!

O meu abraço apertado

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

A ARTE DE QUESTIONAR

Uma sociedade-ideologia-opinião que não se questiona não avança

O filósofo Sócrates usava do método maiêutico (arte de realizar partos) para levar as pessoas ao conhecimento; para isso servia-se de perguntas, seguidas de respostas a que seguiam novas perguntas, como se ele fosse uma parteira a ajudar a parturiente a dar à luz a própria criança.

Numa sociedade clientela cada vez mais técnica, burocrática e manipulada de respostas empacotadas urge fazerem-se cada vez mais perguntas!

Perguntas podem tornar-se meios de esclarecimento e podem ajudar-nos a pensar e a investigar! Também podem ser refinadas e tornar-se perigosas!

É costume dizer-se que quem não questiona permanece estúpido; também não há perguntas estupidas, mas quanto a respostas sim.

Naturalmente, pode-se questionar tudo, desde a opinião geral à opinião individual! Uma notícia que apresentada na TV, ou noutro meio de comunicação social, é geralmente engolida sem ser mastigada nem saboreada; se o espectador se questionar sobre o porquê (motivo, posicionamento, frequência, objectivo)  da apresentação daquela notícia e não de outra, etc. conseguirá uma visão mais diferenciada do que acontece e o influi. Isso contribuiria para evitar o proselitismo divisionista de uma sociedade muito dependente dos media cada vez mais centralizados e controlados. As elites do poder já que não conseguem do cidadão uma fé comum procuram, o que é natural, criar nele uma opinião comum. O pensar diferenciado não ajuda o poder (nem agrada à massa anónima) mas serviria mais a evolução da pessoa humana e da população.

Há o perigo de projecções, mas também há questões que podem ser indigestas e que para serem “engolidas” e o seu conteúdo não provocar “tosse” precisariam mais tempo de ruminação. 

Perguntas perigosas podem tornar-se aquelas que questionam a opinião geral ou as pessoas que se consideram esclarecidas!

As perguntas estão no início de cada discernimento e são muito importantes porque mobilizam a nossa introspecção que leva à intuição! Por vezes, no momento da introspecção chega-se a questionar as próprias perguntas.  Uma pergunta decisiva vai direita ao cerne de um problema e a resposta a ela pode revelar o que se encontra por trás dos bastidores!

Também há perguntas cruciais que podem ter um lado negro porque as correspondentes respostas levariam a uma confissão ou colocam uma questão de consciência ou de algo que nos deixaria despidos!

Há também perguntas simples que querem saber por interesse no simples saber, mas também há perguntas interesseiras e como tal superficiais e manipuladoras!

As perguntas rectóricas, geralmente, não pretendem obter uma resposta mas também podem fazer parte de um jogo de truques retóricos que transformam opiniões em factos e factos em opiniões.

Uma pergunta muitas vezes oportuna seria: Quem beneficia com isto? O que é que está aqui em jogo? O que pretendes com isto? Porque perguntas isto?…

O perguntar tal como o pensar pode fazer doer, por isso muitas pessoas evitam questionar a própria opinião e a própria visão do mundo, o que aumenta o espectro das insinuações; também por isso temos mais ovelhas que pastores!

A pergunta é sempre legítima porque a questionação plural tenta libertar a pessoa do “lado certo” ou do “lado errado” e, deste modo, possibilitar um caminhar humano de todos em frente na procura da Verdade!

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo

Pegadas do Tempo

 

FINLÂNDIA E SUÉCIA SOLICITAM PRECIPITADAMENTE A ADMISSÃO À NATO

50° Aniversário da Política alemã de Mudança através de Aproximação

Com a solicitação da Finlândia e da Suécia de entrada na Nato, alarga esta, legitimamente, as suas fronteiras na direcção da Rússia! Este passo significa que ainda estamos a prosseguir com as rotineiras medidas que nos conduziram à situação atual.

Para a segurança na Europa, precisaríamos de uma comunidade de defesa europeia que representasse o espírito e os interesses europeus, naturalmente também com a Suécia e a Finlândia. Está-se só a reagir e não a agir, a ser impulsionados, sem concepção nem reflexão e, na consequência, a ser motivados apenas por factores de medo e de poder! Na ausência de um conceito e de uma estratégia europeia comum adaptamos os nossos interesses aos dos USA, cuja política é imperialista, tal como tem sido a da Rússia. A política da UE só reage em vez de olhar para o futuro no sentido da Europa! Precisamos de um lugar e de um espaço onde seja possível começar a empreender-se uma política de paz para a Europa e para o mundo!  É tempo de tentar novos passos em vez de continuar a marcar passo na História!

Há precisamente 50 anos, a Alemanha iniciou os tratados de Leste com a Rússia (tratado de Moscovo e Varsóvia ratificado pelo Parlamento em 17.05.1972). A Alemanha iniciou então uma política de “mudança através da aproximação”, que assegurou a paz na Europa durante os últimos 70 anos. A Alemanha aceitou as fronteiras do pós-guerra, declarando também a renúncia aos antigos “territórios orientais”(fez também os acordos com a RDA e a Checoslováquia). Na altura, tudo isto, na opinião pública era apreciada sobretudo como uma traição à pátria.

A política de aproximação de Willi Brandt e a disponibilidade de Helmut Schmidt para negociar, com as costas protegidas pelos americanos, foi uma política que seria hoje muito benéfica para a Europa se esta não estivesse condicionada sobretudo aos interesses do distante  irmão rival do outro lado do Atlântico, que tinha e tem por razões imperialistas de Estado o objectivo de construir barreiras e não pontes entre a Europa e a Rússia!

A política alemã, outrora seguida, de aproximação com a Rússia levaria a Europa a encontrar, de novo, o seu lugar específico e relevante na história (um lugar de sinal pacífico para o mundo, depois dos seus imperialismos nacionais)! Uma Europa, de alma dividida, sem projecto, sempre olhou com desconfiança para a Alemanha, preferindo, em vez de entrar numa convergência europeia, aliar-se aos EUA, ficando na ilusão que se revelando contra a Alemanha defendia interesses próprios e europeus! De facto, na EU impôs-se o espírito anglo-saxónico que depois se expressou de forma cínica no Brexit! Nesta atitude a Europa continuará a ser um gigante com pés de barro! (Pessoas de pensamento apressado não identifiquem logo esta apreciação como tendo algo a ver com identificação a Alemanha!)

É verdade que as potências mundiais jogam na sua perspectiva de potências mundiais, e a Europa está no meio delas sem que os políticos da Europa assumam mais responsabilidade para que, por um lado, a ligação ocidental não se perca, e, por outro, fazer com que a ligação oriental seja impulsionada. Só desta forma a Europa pode chegar à sua própria política e iniciar assim uma nova cultura que sirva a paz mundial. Os laços unilaterais com o imperialismo, sejam eles russos ou americanos, adiam o desenvolvimento da Europa, o que deveria conduzir a uma política de paz real.

De momento, ao identificarmo-nos com os imperialismos russos e americanos, e ao alinharmos apenas pelos interesses da Nato estamos a adiar a Europa a perder o comboio da história europeia e a negligenciar a oportunidade de se iniciar uma política de solidariedade comum com todos os povos numa atitude de paz!

Chegou a hora de uma Europa verdadeira e não ser mera EU anglo-saxónica; essa hora seria tentar novos passos e no atual conflito iniciar conversações e estabelecer laços!

As economias americana e alemã podem pagar a guerra e ganhar dinheiro com ela, mas de que serve esta força ao homem da rua e aos pequenos estados?

De momento a União Europeia encontra-se alienada apostando no adiamento da construcção de uma Europa digna, provocando a entropia social e a dependência desonrante! Europa teria de assumir um papel e missão próprios. Em vez disso, os Os Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aprovaram em 16.05 mais 500 milhões de euros para a entrega de armas e equipamento às forças armadas ucranianas. Isto eleva o financiamento da UE de ajuda militar para 2 mil milhões de euros. Os fundos são provenientes do “Mecanismo Europeu de Apoio à Paz”(1)!

Para se iniciar uma cultura de paz terá de se ousar mudança através de aproximação e não de confrontação!

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo

 

(1) Talvez, neste caso, mais apropriado seria mudar-lhe o nome para “Mecanismo da EU contra a Europa” e para o prolongamento da guerra (na substituição de conversações que salvaguardassem os interesses e valores europeus)!!

DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA

Hoje tudo se encontra em competição, todos são condicionados a viverem sob stress; mães, pais, filhos e educadores são os primeiros a senti-lo. Se antes a sociedade vivia mais ao ritmo da natureza hoje passou a viver ao ritmo da opinião publicada que privilegia uma maneira de estar exteriorizada e mais virtual! As necessidades específicas mais elementares e genuínas e as relações humanas familiares são indelevelmente neutralizadas para melhor ser conseguido o esvaziamento da personalidade e das instituições base. Pretendem-se modelos e estilos de vida, meramente funcionais, à margem humana. A sociedade quer-nos ver a viver de exterioridades.

Politicamente exposta às contrariedades dos ventos do Zeitgeist, a família passa a ser cada vez mais estressada.  O movimento 68, a pretexto de liberdades, instrumentalizou a família considerando-a como modelo a ser ultrapassado e “privatizado”! Neste conceito a mulher continua a ser utilizada e explorada na família e em sociedade.

A primeira a ser explorada na família é a mulher; uma sociedade e economia globalistas de matriz masculina em vez de valorizar a feminilidade procura pô-la ao serviço da sua masculinidade, ao âmbito meramente funcional.

Por isso exige-se tudo das mulheres e das mães! Devem estar sempre prontas e à disposição de tudo e de todos e, além do mais, é-lhes exigido fazerem uma carreira perfeita: funcionalidade pura ao serviço da família e ao serviço da economia!

No passado, as pessoas seguiam a ordem da natureza, hoje seguem a lógica dos meios de comunicação de massas. Corta-se o âmbito privado (familiar) para se passar a viver no âmbito público, à custa do tempo passado juntos; da “geração televisiva” que assistia ao mundo sentada, passou-se à geração smartphone que corre por todo o lado e em todo o lado tem de estar presente sob a supervisão do google.

 A família perde muito do seu espaço privado transpondo-o para as empresas globais!  Estas exigem um contínuo estar atento à custa da atenção indisponibilizada aos circunstantes sentados à mesma mesa; estar atento e chamar a atenção coloca as pessoas e as famílias modernas sob considerável pressão dificultando assim a criação de relações directas, de belas experiências humanas, de celebrações partilhadas, de ritos e de momentos vividos em conjunto; assim se evita aquilo que tornaria as nossas vidas mais autênticas e mais ricas.

Na esfera doméstica e na criação dos filhos, a mulher vê a sua condição, muitas vezes, a ser tornada invisível, não obtendo qualquer reconhecimento pelo trabalho familiar, que de facto permanece mais sobre os seus ombros. Por mais que as mulheres trabalhem não recebem qualquer recompensa! Em vez disso a sociedade cria imagens ideais e papéis que as obriga a terem de andarem sempre a correr e a estarem atentas ao que se espera delas! Uma sociedade que explora a Mãe/mulher não liberta o Homem nem serve a família!

Tudo o que se fizer em benefício da mulher e da mãe (pela feminilidade) reverte em benefício de todos, da família, do homem e da sociedade!

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo